TOMÁS DAS QUINGOSTAS
...continuação
Depois daquilo que já escrevi, não se pense que está tudo pesquisado e dito acerca do famoso bandido. Há muito trabalho ainda a realizar. Temos que voltar aos velhos papéis, existentes no arquivo do tribunal de Melgaço, e aos documentos do Arquivo Histórico Militar, e ao Arquivo Distrital de Viana, e a outros lados, jornais antigos, onde haja indícios dos seus feitos. Fala-se, e escreve-se, tanto sobre o «Zé do Telhado» (mais novo do que o Tomás oito anos), sobre o «Remexido» (mais velho onze anos), e afins, e do Tomás… quase nenhum historiador português o menciona nas suas Histórias de Portugal. Porquê? Qual a razão desse silêncio?
Mas regressemos ao essencial. No tal
processo afirma-se: «… no ano de 1826 o
Autor, Francisco José Pereira, e sua mulher (…) Ana Maria de Araújo, temendo-se das guerrilhas que naquela época ameaçavam
esta Vila, aonde chegaram a entrar por vezes, deram a guardar ao reverendo
Manuel José Esteves, da Cela, [Cousso], Valadares (4), toda a mobília e trastes preciosos que
possuíam.»
Não lhes valeu de muito aos comerciantes
da Vila de Melgaço darem a guardar ao padre os tais bens, pois o bando do
terrível Tomás, bem armado, foi a casa do cura, na noite de 17 para 18 de
Fevereiro de 1827 e levaram quase tudo, além de 34$080 réis. Não contente com a
recolha, a 12/5/1828 dirigiu-se à loja do dito Francisco José Pereira, exigindo-lhe
dinheiro e fazendas. O tribunal – depois
da morte do Tomás – avaliou tudo em
280$100 réis.
Tudo isto revela um à-vontade, uma
desfaçatez, inconcebível. De dia, às claras, de cara destapada, assaltava-se uma
loja, ameaçavam-se as pessoas honestas, e tudo ficava como dantes! O país
estava, sem dúvida, à deriva.
Na noite de 21 para 22 de Março de 1829 a
quadrilha assassina, a sangue frio, o seminarista João Vicente da Costa Codesso, descendente, por parte da mãe, de
famílias fidalgas. O jovem tinha ido, sozinho, ver as pesqueiras da família, analisar
as redes, preparar tudo para uma boa pescaria. Teve azar. Àquela hora estava no
local errado. O seu corpo apareceu, cravejado de balas, «no sítio chamado da Costa do Monte de Prado (…), nas margens do Rio Minho, defronte das
pesqueiras chamadas as Faúlas…» (Augusto
César Esteves: Melgaço e as Lutas Civis, 1.º vol., p. 88).
Aparentemente não há razões sustentáveis
para a sua morte. No entanto, e segundo depoimentos da época, tudo indicava que
os homens do Tomás foram roubar peixe e o rapaz ter-se-lhes-ia oposto. Outra
versão é a de que a matula se dirigia à Galiza a fim de praticar uns quantos furtos
e o jovem, ao avistá-los, comprometeu esses assaltos, pois conhecia-os a todos,
pelo que decidiram eliminá-lo. Sejam membros dessa corja ou não a abater o
seminarista, o certo é que ele foi assassinado com diversos tiros de bacamarte.
O tribunal ordenou a prisão de Tomás
Joaquim Codesso, de António José Pitães (5), e de Caetano Paulo da Ponte (6), de São Paio,
e de João Marques (7), de Remoães, morador em Paderne.
Esses indivíduos não ligaram patavina ao que
ficara decidido em tribunal, pois passado algum tempo já estavam a praticar
outro crime. Lê-se em «Melgaço e as Lutas
Civis», 1.º vol., p. 92: «… em vinte e
seis para vinte e sete de Abril de 1829 o réu João Manuel Marques, como os mais
da quadrilha, assaltou a casa do celeiro de Paderne, em ocasião que ali se não
achava o administrador do celeiro, Dom Bento de Nossa Senhora das Dores
Pereira, arrombando a porta à mão direita da entrada, cuja fechadura tradaram e
arrombaram, e dela roubaram móveis, pano de linho, e o que ali se achava
debaixo de chave, como consta do apenso.»
Pouco tempo depois, uma pequena força do
Regimento 21, estacionada em Melgaço, à frente da qual estava um major, prendeu
em Orjais, Cubalhão, numa casa desse lugar, o Quingostas e João Marques, que
ofereceram resistência, pois estavam armados até aos dentes. Com eles
encontrava-se uma rapariga de 16 anos, Isabel
Ventura, que o Tomás tinha raptado de um serão, a qual foi entregue às
autoridades para ser interrogada e posteriormente entregue aos pais. O chefe do
bando, segundo uma testemunha, julgando-se perdido, quis pôr termo à vida, mas
os tropas impediram esse ato desesperado.
No tribunal foram ouvidas várias
testemunhas, algumas delas já lesadas por esses ladrões e assassinos. O juiz de
fora, Manuel José de Pinho Soares de Albergaria, condenou severamente os
malfeitores, enviando-os para as cadeias da Relação do Porto. Logo a seguir aos
dois mencionados foi parar também às cadeias do Porto o energúmeno António José
Pitães.
Os três ficaram enclausurados até 9/7/1832,
dia em que o príncipe Pedro, impensadamente, manda libertar todos os
prisioneiros, sem exceção, retidos nas cadeias do Porto.
Esses dois anos e tal de prisão deram
tempo, e oportunidade, ao Tomás para gizar o seu futuro. Meditando no passado,
chegou à conclusão de que ele merecia bem mais do que aquilo que tinha obtido.
Não passava de um reles salteador de estradas, de quintas e solares, chefiava
indivíduos grosseiros, violentos, sem escrúpulos, sem nenhuma preparação
militar, sem instrução. Deve-lhe ter passado pela mente colocar-se ao serviço
do seu libertador, Pedro – se tivesse sorte, poderia chegar a oficial, talvez
capitão, um sonho de criança. Essa ideia não era má, mas o Porto estava cercado
por numerosas forças militares, afetas ao rei usurpador, Miguel I, e mais
tarde ou mais cedo toda a população da cidade cairia nas mãos desses militares,
quer à fome, quer pelas balas e canhões. Ali não era o sítio certo para estar,
pensou. Disse aos dois capangas: «vamos
para Melgaço».
Regressaram. Não sei se a pé, se a cavalo;
na altura não havia comboio, nem avião ou automóvel, por isso não podiam
utilizar qualquer destes transportes. O Marques, ou porque estivesse zangado
com os outros dois, ou por qualquer outra razão, tomou o caminho dos Arcos,
onde foi preso, por falta de documentos, e dali seria conduzido para a cadeia
de Valadares, onde esteve oito meses detido; depois foi levado para o Couto de
São Fins «aonde esteve por espaço de
vinte e quatro horas, findas as quais, por condescendência do carcereiro e
juiz, voltou para sua casa, aonde se conservou até à sua última prisão.» (“Melgaço e as
Lutas Civis”, 1.º vol., p. 113).
Tomás aproveitava esse tempo para voltar a
reunir os seus homens. Diz-nos o Dr. Augusto César Esteves: «Entretanto 1834 foi passando e aqueles
fugitivos do Porto arranjaram meio de combinarem com os antigos companheiros do
crime para continuarem a trilhar a senda pecaminosa encetada, mas agora com o
pretexto, ou sob a capa, de defenderem os direitos de D. Miguel ao trono. Tomás das Quingostas cedo reassumiu as
antigas superioridade e proeminência entre os do seu bando e tornou então mais
íntimas as relações com o galego Guillade (8) e o Morgado de Messegães, comandantes de outras guerrilhas…» (“Melgaço e as Lutas Civis”, vol. I, p. 117).
Depois da guerra civil terminada, Tomás
apresenta-se, a 21/6/1834, em companhia de dois eclesiásticos, às autoridades
civis de Valadares, jurando fidelidade à rainha Maria II. (“Ler História”, p. 130). Isto
não passava de fingimento, um pretexto para ganhar tempo, circular à vontade,
pois a reaparição do grupo é oficialmente anunciada pelo juiz de Melgaço, que
pede ao Governador da Província o envio de reforços militares para a região.
Isto acontece depois da prisão de Bezerra (9), ex-oficial de Miguel I.
A politização do bando não foi de imediato
percebida pelas autoridades. Não passava pela cabeça de ninguém que o Tomás,
até aí um simples ladrão, filho de gente honrada, mas sem pergaminhos, simples
agricultores, se viesse a tornar um chefe político, bem armado, ao serviço da
causa miguelista e carlista. Nunca fora um chefe guerrilheiro, e o facto de
homens bem conhecidos como tais terem sido batidos pela tropa da monarca, fez
decerto crer às chefias militares que aquele território de fortes tradições conservadoras
estava finalmente livre dos principais «perversos
que o infestavam», tanto mais que o Quingostas, refugiado em Espanha, já
não mostrava a cara havia algum tempo. Depois de permanecer alguns meses na
Galiza, em casa de rebeldes carlistas, preparando-se e preparando os seus
homens para a nova luta, volta a Melgaço no início de 1835. A primeira coisa
que viu em São Paio foi um edital afixado (talvez na porta da
igreja), onde era convidado a render-se e
se incitava a população a denunciá-lo. Tomás, furioso, rasgou-o, e substituiu-o
por outro:
«Como as reais ordens são dadas por marotos
e desavergonhados, e não são dadas pelo legítimo governo, é o motivo por que as
tiro, porque se fossem dadas pelo legítimo governo benignamente se aceitariam,
porque quem foi a causa de tais ordens foi a causa de me roubarem tudo
quanto eu tinha, porque só com comedeiros é que vivem, também cai
nas mesmas penas quem este tirar, porque a minha casa é debaixo do céu e das
estrelas, eu sou firme contra os meus inimigos…» (“Ler História”, p.147).
Impressionante! Quem lhe teria roubado
tudo quanto tinha? E o que teria ele de seu? Produto de roubos? Heranças? O pai
ainda vivia em 1831, morrendo antes de 1839, e a mãe sobreviveu-lhe, logo, não
devem ter sido, em princípio, bens herdados. Mesmo que tivesse havido partilhas
depois da morte do progenitor, tinha pelo menos mais quatro irmãos, o que não
caberia muito a cada um deles. Enfim, sentia-se lesado pelo novo regime. É
certo que alguns indivíduos, afetos ao partido de Miguel, foram expropriados,
mas ele não era grande proprietário, e que se saiba não lutara nas fileiras
miguelistas depois de sair da prisão.
Bento Pascoal, seu avô paterno, não tem
apelido; será que era um enjeitado e o Tomás descobriu o nome dos pais, gente
rica e fidalga? É uma hipótese que carece de ser provada.
Logo a seguir, a 27/1/1835, pratica um
assalto. Sabendo que uns comerciantes galegos, de apelido Saravatos,
regressavam do Porto bem recheados de fazendas, esperou-os na ponte da Folia,
Remoães, mas aqueles, também armados, e com a preciosa ajuda de uns
improvisados polícias daquela freguesia, resistiram, acabando por perder o olho
esquerdo o ladrão João Manuel Marques.
A 16/5/1835, Tomás e o “Branco”, dos
Ferreiros, iam matando a tiro o “Bandeira”, que trabalhava no campo, no lugar
da Várzea, Paderne. A razão parece residir no facto da vítima ter fornecido
pistas aos militares sobre o paradeiro do Quingostas. As autoridades reagiram,
mandando dar caça aos criminosos, mas os resultados foram nulos. Era então
presidente da Câmara Municipal o Sr. Joaquim
Tomás Correia Feijó, e o juiz de fora era o Dr. Costa Lira. Da Prefeitura de Braga saem ordens para «fazer e aos seus cúmplices guerra de morte
(…),
pôr em prática as medidas mais
enérgicas, incluindo a de mandar fazer fogo em qualquer parte que apareçam
aquele chefe de quadrilha, ou seus cúmplices até que sejam presos, ou
aniquilados…» (“Melgaço e as Lutas
Civis”, páginas 121 e 122).
Meses depois do Tomás ter rasgado o
edital, o Chefe do Estado-Maior do Governo Militar do Minho visitou Melgaço e
informou os seus superiores do caráter exagerado das notícias que ali tinham
chegado sobre o bando do sampaiense, afirmando que o grupo não dispunha de mais
de dez homens – que se limitavam a praticar alguns roubos. Porém, o assalto à
prisão de Valadares, a 4/11/1835, a fim de libertarem um preso político, José
Luís Alves de Azevedo, no qual elementos da quadrilha agrediram brutalmente o
carcereiro, dando vivas a Miguel, fez mudar de opinião as altas patentes.
Depois da morte do Tomás, disse dele Luís
Manuel Abreu, negociante em São Gregório, Cristóval: «… sabia, pela razão já dada, que o justificante e seu pai foram presos e
conduzidos para a cidade da Corunha por ter recolhido em sua casa o finado Tomás das Quingostas em uma das noites
de 1835, tempo em que aquele Tomás e sua quadrilha transitava por aquela raia,
tanto de um como de outro reino, e os lavradores os recolhiam em sua casa com
medo de serem mortos e roubados, o que ele praticou com alguns por lhe
recusarem dar-lhe cama e mesa, o que assaz é bem sabido e público, não só neste
julgado como nos imediatos.» (obra
citada, p. 118).
Ainda em 1835, no dia 18 de Dezembro,
aquando da feira de Paderne, atirou a sangue frio sobre o professor José Manuel
Gonçalves, de Remoães, que tinha ido àquela feira a fim de comprar gado. Além
de tiros, também lhe deram umas facadas e umas coronhadas na cabeça. A
quadrilha causava tanto terror que até os guardas da alfândega, em número de
cinco, ali presentes, e armados de carabina, não intervieram! Não acudiram ao
ferido, nem perseguiram os assassinos! Do bando, aparentemente, só estava o
Tomás e o seu capanga, Joaquim do Couto, de Arbo. O móbil do infame crime está
relacionado com o facto de o professor ser constitucionalista e ter estado
preso nas cadeias miguelistas, e ser irmão de Francisco José «valoroso soldado das forças de Pedro IV.»
Os seus crimes tornam-se cada vez mais
frequentes; por isso, a rainha dá ordens determinantes para perseguirem os
bandidos. As autoridades locais são informadas de que José Figueiredo Frazão,
major de Caçadores 4, «vai ocupar esse
concelho, o de Monção e Valadares, com o fim de conseguirem o extermínio ou
dispersão da quadrilha de salteadores que tantos males tem causado aos seus
infelizes habitantes, e de que é chefe o malvado Quingostas.»
Este, conhecedor do terreno, ótimo
estratega, não se deixava apanhar. O que
acontecera em Orjais não voltaria a acontecer, dizia ele amiúde aos seus apaniguados. A sua perspicácia, o sexto sentido, os seus olhos de
águia, a colaboração de alguns populares, permitiam-lhe prever o perigo com
alguma antecedência. Assim, um dia, o Administrador Geral de Viana, escreve ao
provedor do concelho de Melgaço, António Máximo Gomes de Abreu: «… como ordinariamente se costumam colher
melhores frutos das medidas que se praticam sem publicidade, V. S.ª terá em
consideração o concertar os seus planos em segredo. Enquanto, porém, ao
façanhudo Tomás Joaquim Codesso, das Quingostas, será preciso buscar um
traidor, que o denuncie e entregue; eu autorizo a Vossa Senhoria a prometer um
prémio…» (“Melgaço e as Lutas Civis”,
p. 124).
Mas nem desse modo conseguem deitar-lhe a
mão! Até porque nos primeiros meses de 1836 ele não dá muito nas vistas.
Prefere dar oportunidade e protagonismo a seus colaboradores, tais como José
Joaquim Codesseira (10).
Estava na forja, contudo, uma tomada do
país, levada a cabo pelos realistas, mas «perseguidos
pelos contingentes militares que ocupavam Melgaço, os oficiais miguelistas, em
número de duzentos, atravessaram a fronteira terrestre com o auxílio do bando
do Tomás das Quingostas e
internaram-se em Espanha.» E ainda: «depois
de terem protegido a retirada dos oficiais miguelistas, Tomás e os seus homens
regressaram a Portugal, onde eram activamente procurados, dirigindo-se para os
Arcos.» (“Ler História”, p. 138).
Todos os ladrões eram, aparentemente,
escumalha. A prová-lo temos o caso de Francisco António Rodrigues, nascido em
Castro. O administrador dos concelhos de Melgaço e Castro Laboreiro, João
António de Abreu Cunha Araújo, da Casa fidalga do Rio do Porto, recebeu, em
1837, do juiz eleito de Castro Laboreiro, Manuel José de Almeida, o seguinte ofício:
«Ilustríssimo
Senhor – Tenho a
honra de participar a Vossa Senhoria que no dia de ontem, indo eu com José
Pires, oficial deste juízo, e João Baptista, Bernardo Oliveira e Domingos
Esteves, para testemunhas de uma penhora, que por ordem do Sr. Juiz de Direito
deste julgado ia fazer a Francisco António Rodrigues, ferreiro, desta vila, e
preso nas cadeias dessa (Vila de Melgaço), e no acto da mesma penhora em casa
do dito ferreiro, dentro de uma caixa por baixo da roupa da mulher encontramos
uma calça riscada e feita à militar, uma jaqueta redonda de sempre dura, um
colete de duraque de gola virada, uma gola de seda no pescoço, um chapéu fino
com fumo, trastes estes que o mesmo indivíduo nunca usou, nem são do uso desta
terra, o que tudo remeto e levo à presença de Vossa Senhoria. // Castro
Laboreiro, 1/4/1837.»
continua...
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