sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


10.º Capítulo

 

A VIAGEM

 

      A parte da narrativa relacionada com a guerra vai agora começar. Viajantes forçados, transportados como animais de carga, ações de empresas falidas, ei-los a caminho das matas africanas. Cândido, como sempre, usando um discurso didático, esclarece:


- Meu caríssimo amigo: quem nunca viajou de barco há de pensar certamente que é um prazer. Isso acontece somente quando se viaja em paquetes de luxo, com todas as comodidades, poucos passageiros e muitos serviçais, em águas calmas, com constantes idas a terra. Mas viajar em um navio para quinhentas pessoas, e lá dentro serem transportadas quase duas mil, sem quaisquer confortos…

- Estou a ver… E quanto tempo durou a viagem?

- Cerca de seis dias, e seis noites: uma vida! Seis dias de tortura: má disposição, enjoos, vómitos. Ao sairmos a barra, e mal penetramos no Atlântico, este, talvez por não gostar da nossa intromissão – ou relembrando épocas passadas – quis aniquilar-nos, provar que era o mais forte. Atirou com raiva incontida o navio ao ar e bateu-lhe rijo com ondas de muitos metros de altura!

- Assustou-se…

- Eu, que pela primeira vez navegava, não tendo em conta aquelas passagens na batela no rio Minho, poucos metros de largura e com águas calmíssimas, senti um horrendo calafrio: afinal o meu fim – pensei – estava mais próximo do que previra. Seria o mar, o imenso mar, e não a terra, o meu leito de morte! Uma sepultura marítima, como os marinheiros de outros tempos tiveram. E lembrei-me então de Ulisses, seus homens a serem engolidos pelas profundas águas, pelos deuses em fúria: «Enquanto olhávamos para Caríbdes com receio da morte, Cila arrebatou-me da nau côncava seis companheiros, os melhores de braços e os mais valentes. Ao volver os olhos para a nau ligeira – e para os meus companheiros – só então percebi os pés e os braços dos que tinham sido arrebatados…»

 

     Henrique, tudo ouvia, fascinado, mas comovidíssimo. «Como era possível, tudo aquilo, ter acontecido? As pessoas não são gado», pensava. Arriscou uma pergunta, cuja resposta já fora dada, mas que lhe escapara devido a uma pequena desatenção:

 

- E o navio, quantas pessoas levava?

- Meu caro amigo, o Uíge fora construído para transportar cerca de quinhentas almas, como mais atrás te disse; como o governo precisava urgentemente de colocar soldados em África, naquela viagem o barco transportava cerca de duas mil criaturas! Vidas flutuando ao sabor das ondas e do destino.

- Aposto que não iam lá dentro oficiais de alta patente…

- Acertaste em cheio. O oficial mais graduado a bordo era capitão. Os oficiais com patente superior eram transportados por via aérea: mais cómodo, muito mais segurança, mais rápido. Não queriam correr riscos, nem misturar-se com a ralé. Lusos, todos; mas uns mais do que outros! Como estava longe o tempo em que os generais acompanhavam as suas tropas: Júlio César, Alexandre Magno, Aníbal, Carlos Magno, Napoleão Bonaparte… Nos tempos hodiernos refugiam-se em gabinetes atapetados e daí, através de sistemas modernos e sofisticados, complexos, computadores, transmitem as suas ordens, inventam as suas estratégias: puros jogos de guerra moderna!

- Não teme que esses comentários, esse seu modo de pensar, o comprometam? Nunca se sabe o dia de amanhã.

- Não estamos nós num país livre? A ditadura já acabou e espero que em minha vida a não volte a sentir. Sabes, Henrique, que é quase impossível indivíduos com as minhas caraterísticas sobreviverem num regime ditatorial – simplesmente sufocamos.    

- Calculo. Eu apenas lhe senti o efeito pela rama. De qualquer modo tenha cuidado. Comigo está à vontade, pode confiar cegamente, mas nem todos são seus amigos como eu – há muita maldade no mundo.

- A quem o dizes. Eu sou prudente, embora por vezes me exceda nas minhas apreciações; mas não posso com injustiças…

- Sugiro-lhe que continue a sua narrativa, embora goste de ouvir as suas divagações.

- Faço-te a vontade. Escuta, então: nos dois primeiros dias da viagem não consegui ingerir qualquer espécie de alimento – o meu delicado estômago não permitia; depois, lentamente, fui-me adaptando ao baloiçar ininterrupto, pendular, da embarcação. Outros camaradas não o conseguiram. Logo que chegámos perto de Bissau tiveram de ser conduzidos para o hospital militar (infelizmente não havia outro em todo o território, dando-nos de imediato a ideia do que era a província, ou colónia, da Guiné-Bissau, com o que poderíamos futuramente contar).   

- E durante o trajeto passou-se algo de importante, um episódio que mereça destaque?

- Talvez! A bordo ia um mercenário, isto é, um soldado voluntário que já tinha feito campanhas em Angola e Moçambique! Comparado connosco parecia um ancião, devia ter à volta de trinta anos de idade. Penso que ele iria mais pela aventura do que pelo dinheiro, visto que o exército português pagava muito mal aos seus soldados.

- A não ser que se tratasse de uma exceção ou de um agente da PIDE!

 

     Olhando para a cara do amigo, incrédulo, diz-lhe: Admira-se? Olhe que é uma conclusão plausível; segundo me disseram, eles infiltravam-se em todo o lado, nada lhes escapando.

- É possível; mas ele contou-nos que tivera um grande desgosto de amor; a namorada trocou-o por um emigrante e foi com ele para França. Desejava a morte, pois a sua vida era um autêntico calvário, e por isso procurava-a nas matas africanas. Como não pertencia à minha Companhia só nos encontrámos no mato uma única vez e devido ao seu comportamento, pouco consentâneo com o momento que se estava a viver, logo fiquei com a impressão de que não regulava bem da cabeça.

- Mas o que é que ele fez para o impressionar assim tanto?!

- Bem! Andava alegre, descontraído, cantava, queria que fôssemos com ele à caça, afastando-nos do acampamento, correndo riscos inúteis, até parecia que se encontrava nas serras do continente!

- Devia estar mesmo doido. A cachopa deixou-o de rastos!

- Estava, de certeza! Vou-te contar outro episódio interessante: no navio, e pertencendo à minha Companhia, encontrava-se um fadista já com alguma fama, natural do Porto, chamado Luís Rocha. Logo arranjaram uma guitarra e ele cantou uns fados. Cantava bem, mas parece que após o regresso se tornou alcoólico, ou qualquer coisa do género, devido a um tremendo desgosto de amor. Como simpatizou comigo, contou-me que namorara uma cantora, também no início de carreira, e que agora é famosa, mas quando ele foi para a Guiné já ela tinha outro. Não suportou a rejeição, é o diabo! As mulheres são volúveis e os homens sofrem as consequências.     

- Nem todas serão, mas eu acerca disso não me posso pronunciar, tenho pouca experiência, e a que possuo ainda não dá para tecer grandes considerações sobre tão melindroso assunto. Uma coisa é certa: ninguém deve casar com uma pessoa de quem não gosta.

- Tens razão. Eu ainda continuo solteiro, mas já namorei com algumas raparigas. Não é fácil entendermo-nos.

- Desembarcaram no porto de Bissau?

- Não, não desembarcámos aí, mas sim muito longe. Quem nos dera que isso tivesse acontecido. Lanchas da marinha, semelhantes a ferry-boat, esperavam a Companhia. Descemos do Uíge para as lanchas e depois seguimos rumo a Bolama, antiga capital da Guiné. Pelo caminho os marinheiros ofereceram-nos pão de trigo e centeio (casqueiro) com chouriço e um pouco de vinho tinto, que saboreamos com um certo prazer.

 

continua...

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


9.º Capítulo

 

O EMBARQUE

 

     Eram três horas da tarde. Henrique, sentado na esplanada, espera o seu grande amigo Cândido. Sabe que a história ainda está no princípio e a parte mais importante, passada em África, ainda está por contar. Quer saber tudo em pormenor.

     Os ex-combatentes não publicaram, até essa altura, absolutamente nada sobre a guerra colonial, uns por não saberem escrever, outros, quem sabe, por não quererem falar de coisas tristes, de acontecimentos que os marcaram negativamente para toda a vida. Era um privilégio ouvir da boca de um ex-soldado uma narração completa sobre essa satânica guerra que tantos mortos e feridos provocara.

     Por fim chega o nosso Cândido. O amigo, depois de o cumprimentar efusivamente, dispara à queima-roupa:

 

- Ainda se lembra do dia da partida?

- Recordo-me tão bem! Como se todos os cronómetros do planeta tivessem parado! Ali, naquele infausto dia, naquele local. Vinte de Janeiro de 1966. Cais do Conde de Óbidos. Ainda era manhã cedo; o barco estava à nossa espera… Chamava-se Uíge e era gigantesco, semelhante à goela de um monstro que nos queria devorar. Esperava os “mártires da pátria”. Eu, que odiava toda e qualquer violência, encontrava-me naquele sítio no papel de belígero para tomar parte ativa na contenda! Para ir lutar contra indivíduos que defendiam a autonomia e a independência das suas nações, tal como os portugueses o fizeram no tempo de D. Afonso Henriques, Dom João I e Dom João IV.

 

     Henrique, que bebia sofregamente todas as palavras do amigo, interrompe-o a fim de lhe colocar a seguinte questão:

 

- E no princípio do século XIX, aquando das Invasões Francesas, os portugueses não lutaram, também, pela sua independência?

 

     Cândido meditou um pouco sobre o assunto, não desejava dar uma resposta precipitada, a História era uma coisa muito séria, merecia todo o respeito. Por fim disse:

 

- Sim, é verdade. Governava então a França o célebre Napoleão Bonaparte, que andava às turras com a Inglaterra, país nosso aliado desde o tempo de Fernando I. O imperador francês deu ordens a Portugal para não permitir que os barcos ingleses entrassem em portos lusos, mas o regente (futuro D. João VI), que se encontrava no Brasil (a Corte deslocara-se para lá pouco tempo antes das invasões francesas) não acatou tal ordem. Bonaparte manda invadir por três vezes Portugal, mas com a ajuda dos ingleses lá nos livramos de tal gente.

         

     Henrique ouviu tudo com atenção, mas não concordava com uma coisa:

 

- Há quem afirme que a ida da Corte para o Brasil se justifica plenamente!

 

     Cândido, democrata por excelência, não contesta essa ideia:

 

- É polémica essa asserção; é certo que a rainha D. Maria I estava muito débil, já não decidia nada, e o seu filho, futuro rei, não era, segundo dizem, homem de grandes rasgos. Se têm ficado prisioneiros dos franceses não seria bom para eles, nobreza, mas para o país certamente seria melhor, pois os franceses teriam desenvolvido Portugal, ao contrário dos reis portugueses que pouco ou nada fizeram. Na primeira metade do século XIX não havia indústria, nem transportes, o comércio era insignificante, o analfabetismo rondava os 90%.

 

     Henrique, tudo escutava. Gostava de História, sobretudo a de Portugal. Para alimentar a conversa, atirou com mais uma acha para a fogueira:

 

- E as colónias? Tão ricas, e não produziam nada?

     Cândido, depois de ponderar a resposta, afirma categoricamente:

 

- Há um lapso na História de Portugal que carece de emenda: os portugueses do século XV não foram, em princípio, conquistar ou descobrir terras, pois a que tinham chegava bem para a população dessa altura, bastante reduzida, mas sim procurar, através dos oceanos, as fontes, as origens, dos artigos necessários ao consumo da nobreza e da alta burguesia, as famosas especiarias, a fim de deixarem, desse modo, de estar dependentes dos mercados venezianos e de outros, que os compravam ao oriente e os vendiam na Europa a preços exorbitantes. Além disso, iam alargando o mercado para os nossos próprios produtos.

- E dilatar a fé… acrescenta Henrique.

- A fé? Por detrás dela há sempre razões económicas e financeiras, não te esqueças. O infante Dom Henrique, Dom João II, Dom Manuel I, tentaram conciliar ambas. Por outro lado, os mandões da igreja católica eram quase todos nobres, filhos do rei ou do duque, enfim, poderosos. Não te lembras que depois da morte de D. Sebastião foram buscar o cardeal para ser rei?!

- É verdade. Havia uma grande ligação entre a Igreja e o Estado. A 1.ª República acabou com essa promiscuidade, mas Salazar voltou a pôr tudo como dantes.

- Amigo Rique: quando os portugueses chegaram a África, à Ásia, à América, a todo o lado, essas regiões já estavam habitadas, salvo as ilhas de Cabo Verde que, devido às suas condições climatéricas e à sua pequena dimensão, não atraíam quem quer que fosse para aí viver: ninguém as cobiçava.

 

     E empolgado prossegue:

 

        Em quase todas as regiões contactadas pelos portugueses havia um mínimo de organização: tinham um Estado, embora rudimentar e tribal (como esquecer Gungunhana, imperador dos vátuas? Os portugueses obrigaram o desgraçado a colocar-se de joelhos e depois trouxeram-no para Portugal, tendo morrido, já no século XX, nos Açores), formavam, ou constituíam, uma nação. É certo que muitos se guerreavam entre si, alimentavam ódios milenários, mas o que se vê hoje no mundo dito civilizado?     

 

     Henrique estava arrebatado com a conversa. Como repto, lançou a pergunta:

 

- Pensa que esses povos se identificaram com os portugueses?

 

     Cândido parece ter ficado desarmado perante aquela pergunta. No entanto, e senhor de um pensamento consistente, respondeu:

 

- O que me perguntas é pertinente, mas quanto a mim esses povos aceitaram bem os lusos como comerciantes e não como dominadores. Resistiram quando os nossos quiseram ir além do que permitia a hospitalidade. Meu caro amigo: lê, se ainda não o fizeste, o maravilhoso livro de Fernão Mendes Pinto, com o título «Peregrinação». Nele se descreve, com certa minúcia, o deambular dos nossos antepassados por terras da Ásia, e como eles foram vistos por essas gentes de costumes e mentalidades tão diferentes dos nossos.  

 

     Henrique respirou fundo. O tema da conversa interessava-o imenso. Na escola não aprendera assim a História. Mas quem teria razão?! Faz um reparo:

 

- Quanto a Fernão Mendes Pinto já li alguns excertos do livro e na escola disseram-me que metade do que escreveu é mentira. No entanto, vou tentar ler a obra completa e depois já falaremos dela.

- Nem tudo que ele escreveu, corresponderá à verdade; contudo, ele participou em muitas aventuras, percorreu muitas terras, conviveu com gente de outras latitudes e com culturas e religiões diferentes da sua. Mas, com toda esta conversa, ia-me esquecendo de te contar o que de facto aconteceu aquando do meu embarque para a Guiné-Bissau.

- Conte, conte por favor.

- Foi assim: antes do embarque, que ocorreu mais ou menos ao meio-dia, houve um grande desfile e depois disso ouviu-se um longo e fastidioso discurso, proferido por um oficial de alta patente. Duvido que os familiares dos soldados, ou os próprios, prestassem atenção àquilo (eu nem sequer sei de que ele falava); o que ouviam (e eu ouvi) era o bater forte de corações despedaçados; as lágrimas caindo estrepitosamente no chão; os gritos de mães, esposas, irmãos. O distinto militar não discursava para ninguém – representava o apagado papel de pobre declamador sem público!

     As senhoritas do Movimento Nacional Feminino por lá andavam, como abutres agoirando, pressagiando a desgraça, distribuindo sorrisos cínicos e de circunstância e alguns maços de tabaco aos meus parceiros de armas, cujo vício já carregavam, infelizmente, desde adolescentes!

     Uma banda militar tocou o hino nacional: «heróis do mar…», e o barco a afastar-se, a afastar-se… Nossos olhos, embaciados pelas lágrimas, procuravam sofregamente os rostos queridos dos familiares e amigos, das namoradas… Nunca mais voltaríamos a vê-los, pensávamos!

 

     Henrique estava profundamente emocionado. O que ouvia não era uma pequena história romanceada. Aquilo acontecera! Ao seu amigo e aos outros, a milhares de jovens portugueses. Após um prolongado silêncio, por fim reagiu:

 

- O que importa é que o Cândido voltou, e com saúde.

- Com saúde… nem por isso! Fiquei sem alguns dentes, com problemas de estômago, com… Enfim! Não vale a pena falar disso. Vou-te ler um soneto que escrevi recentemente sobre a partida, a que dei o título A Caminho da Guerra.

      

Naquele triste vinte de Janeiro,

Com correntes fortes, amordaçado,

Cabisbaixo, o peito destroçado,

Parte sofrendo o fraco guerrilheiro.

 

Manhã fria, manhã de nevoeiro,

Desenha a silhueta do soldado:

Estatura média, adelgaçado,

Um andar pacato, olhar ordeiro.

 

Sobe, a chorar, os degraus do paquete,

Do bolso das calças um branco lenço

Agita num gesto de despedida;

 

Com a mão esquerda brande o barrete.

Depois, já no navio, perde o senso…

E cai sobre a intermitente vida!


continua...

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha

8.º Capítulo

 

EM VÉSPERAS DA PARTIDA

 

 

     Naquela tarde de domingo, e devido a terem chegado depois da hora habitual, os dois amigos não acharam nenhuma mesa vazia no Café Suíça. Nem na esplanada, do lado da Praça da Figueira, conseguiram arranjar um lugar. De mútuo acordo dirigiram-se ao Café Gelo, também na Praça do Rossio. Poderiam, caso essa fosse a opção, ter ido ao Nicola, mas esse estava sempre cheio. Depois de sentados, e aguardando a sua vez para serem atendidos, Henrique, roído de curiosidade, tudo querendo saber, interroga:

 

- Os seus passos encaminharam-se para Melgaço, suponho.

- Não, meu amigo. Na minha terra já não tinha familiares chegados, apenas primos em terceiro grau. Fui para Lisboa, para um lindo bairro chamado das Laranjeiras, pertinho do Jardim Zoológico, para casa da minha irmã Ludovina; se tivesse ido ao Minho provavelmente desertaria – não me agradava nada a ideia de ir combater para as matas dos cafres. Medroso como eu era, amedrontado como andava, pessimista como poucos, não me seria difícil passar a fronteira, dar às de vila-diogo.

  

     O amigo ficou com algumas dúvidas e pergunta, meio atarantado:

 

- Mas, se não possuía dinheiro, ia para onde?!

 

     Cândido, apercebendo-se da contradição, responde:

 

- O drama era esse. O maldito metal. Sempre a atrapalhar a minha vida. Enfim, sonhos! Durante esses dias pouco mais fiz do que meditar. Ia de vez, em quando, até à janela, olhava o exterior como em uma despedida definitiva. Uma manhã ouvi alguém a cantar. Parecia ser a voz da sopeirinha, cujos patrões moravam ali defronte. Não me recordo nitidamente do seu rosto, mas aquele som entrou em mim como um canto de sereia e apaziguou o meu ânimo, acalmou a minha ira. Podia ser coincidência, mas até parece que a melodia fora feita só para mim.

- Você é um romântico!

- Talvez seja. Sensibilizou-me tanto, tanto, que peguei num papel e em uma caneta e escrevi os versos seguintes:

 

Rosa Maria

minha linda flor

eu a ti daria

todo o meu amor;

lindos olhos teus Maria

minha rosa em flor

eu por eles capaz seria

de matar, morrer, amor;

se ouvires dizer, Maria,

que uma bala me deu fim

reza sempre um padre nosso

em cada dia por mim;

vou partir para combater

em favor desta nação

vou à minha obrigação

desta pátria defender;

posso ter vida ou morrer

ter tristeza ou alegria

posso ainda voltar um dia

à minha terra natal;

não creias de mim o mal

se ouvires dizer, Maria;

eu um dia voltarei

à minha terra tão querida

cheio de força e de vida

e feliz ainda serei;

parto a cumprir uma lei

à qual fugir não posso

vou defender o que é nosso

o que é teu e da nação

e tu à noite, ao serão,

reza sempre um padre nosso;

posso muito tempo estar

sem te poder escrever

mas eu juro, podes crer,

que contigo hei de casar;

se uma bala me matar

ou tiver um outro fim

só por isso, só assim,

não cumpro o meu juramento;

tu reza sempre um momento

em cada dia por mim.

 

     Henrique ouviu com algum assombro estes versos. Comenta:

 

- Não lhe conhecia essa faceta, essa veia poética. Ela adorou…

- Qual quê! A sopeira nunca leu este ingénuo poema, o mais certo também era ela não saber ler, nem sequer soube da minha presença naquele local. O nome que lhe atribuí podia ter sido outro qualquer, simplesmente este soou-me bem ao ouvido e é ótimo para rimar.

- E depois, o que aconteceu? – interroga, enternecido, o nosso Henrique.

- Bem, vagueei pelas ruas da cidade de Ulisses, olhar perdido e distante, coração amarfanhado, chocho e só. Podes crer, meu caro amigo, que várias vezes me apeteceu escapulir, desaparecer do mapa: mas iria para onde?! Logo a seguir seria preso, metido num barco ou num avião e atirado na mesma para as matas africanas, desterrado – todos nós tínhamos plena consciência disso. O regime não perdoava àqueles que o contrariassem. Para evitar as fileiras do exército havia apenas duas maneiras: 1.ª - não comparecer à inspeção militar e de imediato emigrar clandestinamente (se a sorte favorecesse o candidato a emigrante este nunca vestiria a farda; se tivesse azar…); 2.ª - ter amigos poderosos no sistema e através de um pedido sair livre da inspeção médica.

- E por amparo de mãe, por doença?

- Nessa época até os coxos e aqueles que tinham falta de dedos nas mãos, desde que possuíssem o do gatilho, eram considerados aptos! Somente os desprovidos de vista, os privados de pernas e braços, os filhos únicos, cuja mãe fosse viúva e apresentasse uma declaração de extrema pobreza, passada pela Repartição de Finanças e pela Junta de Freguesia, alegando que ele era o seu exclusivo amparo, é que se livravam. De resto tudo servia. Dou-te um exemplo: na minha Companhia havia um colega com a altura aproximada de metro e meio – quase um pigmeu!

- Ouvi dizer que alguns indivíduos, filhos de gente graúda, se safaram da tropa, pagando. Terá algum laivo de veracidade?

- De certo modo, já te respondi a essa questão. Sabes, o vil metal compra quase tudo e a quase toda a gente! É de admitir que alguns pais ricos, e influentes, tudo fizessem, tudo tentassem, para livrar os seus rebentos da maldita e indesejável guerra colonial. Eu dei-te o exemplo do ricaço, filho de proprietários de agências de viagens. Por outro lado, há sempre alguém que aceita dinheiro em troca de favores. A corrupção faz parte de qualquer sociedade. A honestidade, a moral, não é para toda a gente – muitos aproveitam-se do lugar destacado que ocupam para conseguirem obter rendimentos ilícitos. Há uma coisa que eu aprendi: a ideologia, que nos obriga a ser coerentes, é posta de parte por alguns quando lesa interesses materiais.

- Nem sempre o que se diz corresponde à verdade – comenta Henrique, ainda na verdura dos seus anos.

- A corrupção e a chantagem sempre existiram, fazem parte da luta pela sobrevivência. Só se é perfeito quando tudo se alcança, daí não haver ninguém nesse estado de pureza! Há santos nos altares que foram refinados patifes; e alguns seres humanos morreram desonrados sendo eles boas pessoas! Tudo faz parte de um percurso irregular, um caminhar aos solavancos. Até o deus dos cristãos errou, segundo a bíblia: criou o universo, criou o homem à sua semelhança, e o que aconteceu? Adão sentiu-se só e quis uma companheira. Tiveram filhos: Abel e Caim, e, este último, mata, sem dó nem piedade, o seu mano! E chamam a isso, perfeição?!  

- O meu amigo Cândido é um filósofo. Eu estou de acordo consigo em algumas coisas. A cunha, por exemplo: é uma instituição nacional, todos a ela recorrem – uns para conseguir um bom emprego, outros para subirem na carreira, outros até para obterem uma simples consulta médica! Ninguém pode passar sem recorrer à maldita; além disso todas as sociedades geram privilegiados. Os nossos pais ensinam-nos a ser corretos, bons cidadãos, mas depois a vida não permite que a gente se sirva amiúde dessas virtudes! Se nos comportamos sempre bem somos tidos por lorpas e todos nos enganam, porque somos bonzinhos. É complexa a vida.

 

     Cândido, depois de beber calmamente a sua imperial, diz ao amigo:

 

- Caro Henrique, tu és muito jovem. Muita coisa irás contemplar ainda neste mundo belo e diabólico, mas desde já te aconselho: procura sempre o equilíbrio. O radicalismo não nos leva a lado nenhum. Não embarques em fanatismos religiosos nem em ideologias baratas. A vida é o somatório de muitos acontecimentos. Mas não falemos mais nessas coisas, senão esgotamos o assunto e depois ficamos calados como mudos. Até breve.

   

continua...

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


7.º capítulo


TOMAR

 

     «O tempo voa!», costumamos dizer. Assim é. Havia já meses que os dois amigos se encontravam. Henrique estava a ficar maravilhado com a história de Cândido. A realidade superava a imaginação. Numa dessas tardes pergunta-lhe:

 

- Qual foi a etapa seguinte? E de imediato, sem esperar pela resposta, com um longo sorriso nos lábios, comenta: - o meu amigo não parava!

    

     Cândido, pensando à velocidade da luz, responde-lhe:

 

- Mandaram-nos para Tomar. A cidade que me encantou. O seu vetusto castelo, mandado construir no século XII por Dom Gualdim, mestre dos Templários, é interessantíssimo. Também o seu mosteiro, velho de séculos, nos seduz. Não nos é difícil imaginarmos os monges na sua labuta diária pelo sustento físico e espiritual; as freiras, moças casadoiras, empurradas pelas circunstâncias para aquela vida sem quaisquer perspetivas de futuro. Enfim, tempos e costumes que tiveram a sua época. 

 

     Nessa belíssima cidade histórica, situada no distrito de Santarém, com cerca de sete mil habitantes, já se encontrava a Companhia de Caçadores, à qual eu doravante pertenceria. O comandante, com o posto de tenente, tinha obtido a sua formação militar na Academia de Lisboa, possuindo também um quartel na Amadora.

     Indivíduo ainda novo, vinte e cinco, vinte e seis anos de idade, rosto aparentemente duro, inexpressivo, mente insondável, um metro e setenta e cinco de altura, mais centímetro menos centímetro, setenta quilos de peso bem musculados, moreno, cabelo cortado à escovinha, olhos escuros, quase pretos, atlético, mentalizado para enfrentar a luta armada «contra os inimigos da pátria e do seu lídimo chefe

     O segundo comandante, homem esbelto, cabelo aos caracóis, olhos castanhos-claros, sorriso cínico, olhar esquivo e irónico, apesar de ser um alferes miliciano dava ares de mercenário, de profissional da guerra. Enquanto os outros oficiais tentavam disfarçar a pistola que traziam à cintura, ele exibia-a com gestos infantis e parolos, convencido talvez de que era o maior pistoleiro das planícies americanas, do tempo dos chamados peles vermelhas, ou índios.

- Era vaidoso, petulante!

- Muito! Usava fardas justas a fim de realçar o seu físico, que não aparentava, mesmo assim, ser muito musculoso. Era só aparência!

- As pessoas são diferentes umas das outras, não se esqueça. Espero que essa fanfarronice toda não se transformasse em opressão.

- Vim a saber mais tarde que esses exibicionismos andavam estreitamente ligados a dolorosos complexos, pois apenas podia apresentar como habilitações literárias o quinto ano dos liceus! Os outros alferes eram todos licenciados, tinham um curso superior.

- Então como chegou a segundo comandante da Companhia?! – pergunta, admirado, perplexo, Henrique.

- A Academia Militar (Amadora e Gomes Freire) não formava muitos oficiais. Eram cursos de vários anos e alguns cadetes, como eram designados, ou alunos, desistiam e outros não ficavam classificados. Assim, e devido à guerra colonial, foi necessário ao regime promover civis, depois de uma permanência curta nas Forças Armadas. Tratava-se de professores, empregados de escritório, bancários, etc., ligados quase todos à mocidade portuguesa e à legião, preparados por esses tais oficiais de carreira. Os melhores (embora sem curso superior), passavam de furriel a aspirante e logo depois eram promovidos a alferes. Aqueles que tivessem curso superior não passavam pela classe de sargentos. Desse modo, o regime conseguiu milhares de oficiais milicianos, alguns dos quais seguiram depois a carreira militar, combatendo nas várias frentes, atingindo patentes nunca antes imaginadas.

- E os profissionais, como reagiram?

- No princípio da guerra aceitaram a coisa, a incongruência, pois não havia quaisquer alternativas. Eles sabiam que eram poucos para fazer face ao que lhes era solicitado. Três frentes de batalha: Guiné-Bissau, Moçambique e Angola, não é brincadeira nenhuma. Mas depois, nos anos setenta, começaram a reagir. Alguns milicianos estavam a passar-lhes a perna. O 25 de Abril é, em parte, consequência dessa constatação.

- Então o 25 de Abril de 1974 não teve como objetivo principal derrubar o salazarismo?!

- Não, meu amigo. Serviu de pretexto, mas a causa principal tem a ver com aquilo que te disse. Os militares já não suportavam serem superados pelos civis.

- Então qual foi o papel dos partidos políticos na revolução? – pergunta Henrique, algo confuso.

- Os partidos: PCP e PS, além de outros menos importantes, estavam no estrangeiro. Em Portugal tinham alguns elementos, mas na clandestinidade.

     O governo, tanto da ditadura militar (1926-1932), como do Salazar (1933-1968), assim como o de Marcelo Caetano (1968-1974), não permitia quaisquer forças políticas contrárias ao regime designado por Estado Novo.

- Então os partidos tiveram pouco peso na revolução?

- Vejamos: o que aconteceu no 25 de Abril não é uma revolução, mas sim um golpe militar. Logo a seguir, e tendo em conta a adesão do povo, sobretudo os das principais cidades, e com a vinda de Mário Soares e Álvaro Cunhal do estrangeiro, deu-se início a uma revolução, que (a pouco e pouco) foi criando o regime democrático burguês – mais conhecido por «social-democracia».

- Estavam todos fartos da ditadura…

- Isso facilitou imenso a mudança. Mas voltando a Tomar. A minha Companhia estava, a bem dizer, quase completa. Apenas aguardava os inúmeros especialistas: enfermeiros, mecânicos, radiotelegrafistas, amanuenses, condutores, cozinheiros, vagomestre, etc.

- O que é propriamente uma Companhia? – quer saber Henrique, com o objetivo de compreender melhor a história que o amigo lhe vinha contando.

- Uma Companhia faz parte de um Batalhão (corpo de infantaria com cerca de seiscentos homens), e subdivide-se em quatro pelotões, à frente dos quais se encontra um oficial subalterno, geralmente com a patente de alferes. Os pelotões por sua vez ainda se desdobram em setores, comandados por segundos-sargentos e por furriéis.                

     Nós (os fracos especialistas), digo fracos porque mal preparados, íamos sendo, à medida que chegávamos, integrados nos respetivos pelotões e logo se começava, a partir daí, a conviver com todos aqueles que iriam ser os nossos camaradas de África durante a campanha, que normalmente durava dois longos anos, e companheiros provavelmente de hospital e de morgue. Seríamos cobardes ou heróis, mártires ou desertores – não sabíamos ainda. Os dados estavam lançados, mas não por nós, meros paus mandados, mas sim por eles, governantes e generais.

- Você lamenta-se, mas graças à tropa conheceu vários sítios – ironiza Henrique, para não estar calado.

- Preferia tê-los conhecido como turista; mas quanto a Tomar, agradou-me sobremaneira, apesar de ter um clima inóspito quando ali estive. A sua população dimanava simpatia e jamais hostilizou o soldado. Ainda cheguei, antes de partir para a Guiné, a fazer algumas guardas no convento, e nem o capote nem a manta chegavam para me aquecer! O mercúrio do termómetro descia muitos graus abaixo de zero!

- Tudo passou; agora deve tentar recordar-se apenas das coisas boas – diz Henrique, em uma tentativa para apaziguar o espírito amargurado do amigo.

- Sim, tudo passou… Tudo passa!... Mas não se esquece com facilidade. No entanto, também tenho lembranças positivas: o rio Nabão, que nessa altura, Dezembro de 1965, ainda não estava poluído, proporcionava-nos agradáveis momentos de ócio. As suas águas corriam límpidas, murmurando canções de embalar, algumas aves brincavam no seu leito, apesar de estarmos na época fria, tudo numa harmonia natural, sem artifícios.     


- Você gosta muito da natureza.

- Desde criança que sinto essa atração por ela. Tenho imensa pena quando vejo um curso de água ou uma floresta serem maltratados. Infelizmente o capitalismo cego, e selvagem, tudo destrói, alegando que é para o bem da humanidade! Um dia até eles próprios vão ver que estão errados.

- E Dezembro escoava-se…

- O dia da partida aproximava-se vertiginosamente. O tenente reuniu a Companhia e informou que o embarque seria no dia vinte de Janeiro. Antes disso teríamos direito a uma curta licença para podermos passar o natal e dizer adeus à família e aos amigos. Quantos de nós os tornariam a ver novamente?

- Já voltou a Tomar?

- Ainda lá regressámos, não todos, infelizmente, em finais de 1967 para entregar as execráveis e carcomidas fardas, e despedirmo-nos da vida militar, vestir a calça e o casaco, colocar ao pescoço a gravata domingueira, calçar sapatos, passar à disponibilidade, ou peluda, como então se costumava dizer.


// continua...

domingo, 30 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


6.º Capítulo

 

SANTA MARGARIDA

 

  

     Naquela tarde calma, serena, nem sequer uma folha das árvores do Rossio bulia. O calor começava a apertar, convidando as pessoas a ingerir mais líquidos. Toda a gente procurava uma sombra, a fim de fugir à torreira do sol. Na mesa do Café Suíça, onde já tanta gente se sentara antes, os dois amigos cavaqueiam animadamente. Dizia Cândido:

 

- Da Academia Militar parti, ai de mim, triste e cabisbaixo, mais infeliz do que uma viúva, para Santa Margarida, freguesia do concelho de Constância, distrito de Santarém. Nome de santa e de flor, nome lindíssimo, mas sem nenhuma santidade, além da capela inaugurada em 1959, e com cheiro a pólvora e a gasolina, não a capela, claro está, essa cheirava a incenso, unidade bem conhecida nos círculos castrenses, por ser palco de manobras militares.

     Estávamos em Novembro. O outono, nesse ano de 1965, mostrava-se mais agressivo do que em anos anteriores, segundo a meteorologia e informações de militares que ali já estavam desde 1964. A chuva e o frio, coniventes, de uma cumplicidade demoníaca, davam as mãos na sua luta sem tréguas contra o desgraçado do magala que não possuía meios suficientes para deles se defender. Ainda, por cima, os treinos eram longos, fastidiosos, e pouco ortodoxos: simulavam-se ambientes de guerra; saíamos à noite nas viaturas, luzes apagadas, pelos montes da região.

     Não havia estradas, mas sim caminhos de cabras, íngremes, e até regatos sinuosos tínhamos de atravessar! Numa terrível noite, mais negra do que o breu, tombei o meu «Unimog», viatura mais feia do que um dinossauro carnívoro. Não houve feridos graves, pois a velocidade a que íamos não o justificaria, contudo não pudemos tirá-lo do buraco onde caiu. Somente no dia imediato, pela madrugada, o guindaste arrancou aquele monstro pré-histórico da ridícula posição em que ficara.

- E foi castigado? – perguntou Henrique, com dó do amigo.

- Querias maior castigo do que ir para a Guiné-Bissau? Para uma luta armada? Eu, que só usara a fisga para caçar pássaros, e mesmo assim sem qualquer pontaria, rindo-se eles de mim, sobretudo os pardais e os melros, velozes, desconfiados – não conseguindo apanhar nenhum.

- Bons tempos! – comenta Henrique, sonhando tempos que não vivera.

- Em parte, sim; brincava, trabalhava, andava na escola, mas havia muitas carências…

- A riqueza em Portugal esteve sempre muito mal distribuída – lembra Henrique, com pesar.

- É verdade. Desde Afonso Henriques que isso acontece no nosso país. Poucos têm muito, e muitos pouco ou nada têm! Mas continuando: o campo de treinos de Santa Margarida lembrava, nessa ocasião, o verdadeiro inferno. Escassa comida, e mal confecionada, hostilidade, atmosfera psicológica pesada. O medo pairava à nossa volta, anunciando o próximo futuro: violento e incerto. A guerra, esse mostrengo de sete cabeças, esperava-nos ansiosamente.

     Santa Margarida: fome e frio, ódio e desprezo. Antro de duros, estéril, árida. Aí não havia lugar para a ternura. Os soldados, mesmo querendo sair nas suas curtíssimas folgas, não tinham para onde, embora os mandões dissessem que existia perto um barracão no qual se exibiam uns filmes – nunca lá fui. Provavelmente seriam fitas de propaganda corporativista, onde se destacariam as caras sinistras dos governantes: Salazar, Tomás e companhia.         

- Parece que esses rostos o marcaram!

- Bem podes crer. Ainda hoje sinto náuseas quando vejo aquelas caretas horríveis, cujos olhos espalham ódio e vingança.

- Mas não houve nenhuma personagem simpática durante aqueles anos todos?!

- Quanto a mim, a figura mais simpática do regime saído da ditadura militar de Maio de 1926 talvez tenha sido Duarte Pacheco, que morreu em 1943, ainda eu não nascera, com apenas quarenta e quatro anos de idade. Era um homem de iniciativas, dinâmico, com personalidade vincada. Não obedecia cegamente ao «Chefe» e talvez daí a sua morte prematura.

- Está a insinuar que foi assassinado?!

- Quem sabe…; há mortes e mortes! Mas voltando a Santa Margarida: era, nessa altura, um lugar ermo e sombrio. Matagais e mais matagais; fardas e mais fardas; manobras e mais manobras! Mas, mesmo que houvesse zonas de divertimento ou lazer, o cansaço não convidava ao passeio, nem as moedas tilintavam em nossos vazios bolsos. O pouco que havia era para enganar a fome.

- Custa a acreditar naquilo que estou a ouvir!

- Tudo isso é a pura verdade. Corpos mal alimentados, exercícios que se prolongavam pela noite dentro, obrigavam-nos a esquecer o exterior, o outro “mundo” – nós tínhamos sido selecionados pelo tenebroso deus Marte: deveríamos tudo fazer para merecermos essa distinção.

- Todos sofremos ao longo da vida… - filosofa Henrique – mas...

- Uns mais, outros menos. Muitas pessoas minhas conterrâneas, alguns anos mais tarde, contaram-me que muito padeceram e aguentaram em França, na Alemanha, no Canadá, e noutros países, a esgalhar dez e doze horas por dia, nas obras de construção civil, nos caminhos-de-ferro, aeroportos e autoestradas, nas minas, nos vários trabalhos pesados, que lembravam os tempos da escravatura, e até antes já tinham padecido, quando tiveram de ir a “salto” para lá chegarem. Eu, a esses, falei-lhes assim: «Acredito sinceramente que tenham passado maus momentos, isso não está sequer em causa; mas o vosso sofrimento estava impregnado de esperança, visionavam o futuro e iam enchendo o peteiro. Nós, não! O nosso futuro durava apenas um minuto, uma hora, quando muito um dia! Esfumava-se! Vós sofrestes para ganhar a vida; o nosso padecimento servia para merecermos, segundo a ideologia dominante – militarista /corporativista – a morte com “honra”. Talvez tenhais sido escravos, mas de seres humanos, de capitalistas; nós fomos escravos robots de uma poderosa máquina, de um pensamento ignominioso, de um sistema cruel e ultrapassado! Os vossos músculos tiveram de enrijecer para poderdes assim construir; os nossos tornaram-se fortes para poderem desse modo melhor destruir! Além disso, vocês podiam voltar para Portugal, para junto da família, ou mudar de trabalho, caso não aguentassem o esforço, ou bem assim por um outro motivo qualquer; nós só regressaríamos no fim da comissão. Se viéssemos antes era mau sinal: tínhamos sido gravemente feridos ou então estávamos mortos, dentro de um caixão de chumbo

- Discurso inflamado, mas realista. Permita-me, contudo, que discorde de si num pormenor – solicita o amigo.

- À vontade. Entre nós não há cerimónias. Diz tudo o que te vai na alma.

- É o seguinte: quando diz que os emigrantes podiam voltar a qualquer momento não é cem por cento verdade. Por um lado, tinham de cumprir os contratos que assinavam com a entidade patronal; por outro lado, a maioria deles, se regressasse a Portugal, teria de cumprir o serviço militar!

- Tens razão. Reconheço que me falhou esse pormenor; no entanto, penso que estavam numa situação mais vantajosa do que a minha. Por outro lado, desde que pagassem uma determinada taxa, ficavam livres para virem a Portugal. Isso posso eu garantir, pois sei de casos desses: um rapaz da minha idade emigrou para França a salto em 1963 e em 1966, estando eu na Guiné-Bissau, a combater em pleno mato, estava ele a casar-se na igreja matriz da terra natal! A notícia está publicada no jornal concelhio. Ainda existe outro pormenor interessante: a idade. Um homem mais velho, caso quisesse voltar para Portugal poderia faze-lo sem sofrer quaisquer consequências.

     Mas continuando: em Santa Margarida encontrava-se também um primo meu, mais velho um ano, já tinha quase todo o tempo militar cumprido. Escapara da malvada guerra! E nem sei como!

- Nem todos iam…

- Sim, isso é verdade. Mas hoje penso que foi por pedido, ou “cunha”. O pai dele, meu tio, trabalhava no Secretariado Nacional de Informação e Propaganda, órgão muito influente no regime salazarista. Já livrara outro filho mais velho.

- E por que não o safou a si?!

- Quando o meu tio saiu da terra onde nascera era eu uma criança, fora residir primeiro para Loures, depois para Lisboa, mal nos conhecíamos. Nem sequer me passou pela cabeça pedir-lhe tal coisa, além disso acho que ele não podia abusar, conseguir esses privilégios para os seus descendentes já era ótimo.

- Fez mal; podia ter dado certo.

- Nessa altura eu era muito tímido, um bicho do mato, não ousaria fazer-lhe um tal pedido. Além disso, quando eu era pequeno disseram-me que o nosso destino já está traçado no berço. Por outro lado, sabendo ele que eu estava na tropa, por que não tomou a iniciativa?

- Não se lembrou – insinua Henrique, ironicamente.

- Ou não quis lembrar-se. Sobrinhos não são filhos, e não digo isto com azedume.

- Mas são do mesmo sangue, pertencem à mesma estirpe.

- Segundo a bíblia, o livro sagrado dos cristãos e dos judeus, somos todos descendentes de Adão!

- E se nós acreditarmos nos cientistas, a nossa espécie descende do macaco!

- Talvez Adão fosse macaco! Mas, sejamos filhos de uns ou de outros, o certo é que os seres humanos estão constantemente a esquecer a origem comum e matam-se com a mesma facilidade e frieza com que se abate um boi no talho. São autênticos magarefes!

- Concordo consigo. E esse tal primo, foi-lhe ao menos prestável?

- Bem, ele era apenas soldado como eu, condutor de tanques. Uma ou outra vez ainda me procurou e juntos comemos toucinho com pão de milho e centeio. Manjar frugal, mas gerador de algumas calorias. Ficamo-nos a conhecer melhor, ganhamos amizade. Mais tarde encontrei-o, já libertos da canga tropeira. Tinha estudado alguma coisa, o equivalente ao segundo ano do liceu, salvo erro, mais por necessidade do que por prazer, e depois ingressou num banco como tesoureiro. Foi colocado na província do Minho. Bom rapaz.

- Quanto tempo esteve em Santa Margarida?

- Deixei para trás, após vinte turbulentos dias, sem qualquer laivo de saudade, meio desfalecido, esse ninho de víboras, covil de chacais, esse malvado, infernal, aquartelamento, antecâmara da morte e do aviltamento.


continua...