ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
19.º Capítulo
CONTUBOEL
Mais uma tarde de domingo. As ruas
da Baixa fervilhavam de gente; aproximava-se o natal e as lojas tentavam vender
o máximo possível. Os portugueses gostam de oferecer prendas nesta quadra do
ano, todos se reúnem na famosa ceia de família, e à meia-noite trocam as prendas
adquiridas, quantas vezes com que sacrifícios financeiros. É uma tradição
antiga e o povo não abdica dela. Claro que com o tempo irá desaparecer, como
tudo se extingue, mas não será para já. As ruas estavam iluminadas, a Câmara
Municipal fizera questão nisso, e à noite era um autêntico espetáculo. Milhares
de lâmpadas, de várias cores, proporcionavam uma visão de sonho, de irreal. Os
dois amigos mais uma vez se encontraram. O primeiro a chegar foi Cândido, mas
não esperou muito. Quando avistou Henrique disse-lhe:
- Boa tarde. Hoje está um dia cinzento,
não sei se preferes antes ir ao cinema, agora nesta época passam bons filmes.
- Não me importava nada de ir ver um
desses filmes bíblicos, mas prefiro ouvir a sua história africana. Quando a
acabar então sim, vamos ao cinema e ao teatro, agora estão boas peças em
cartaz. No Parque Mayer estão em cena umas revistas interessantes.
- Tudo bem! Tu mandas. Então escuta: em
Contuboel encontrei um rapaz dos meus lados. Chamava-se Jeremias e era ajudante
de cozinheiro. Tinha sensivelmente menos um ano de Guiné do que eu, um
periquito (alcunha dada aos novos por
causa da farda esverdeada), e não passara ainda pelos sucessos que atrás te
narrei. Contou-me que, tal como eu, não arranjara o dinheiro suficiente para o
engajador, que ainda tinha circulado por Espanha «somente a ver como as coisas decorriam, onde as modas paravam, quais as
probabilidades», mas depressa chegou à conclusão de que sozinho nunca conseguiria
chegar a França «é um país longínquo e
correm-se imensos riscos; cumprirei a minha sina», diz-me num tom lamuriento
e resignado. «Melgaço está cada vez mais
desértico» - lamenta-se. «Só velhos e
crianças lá continuam!» «E as belas raparigas
da nossa terra?» - perguntei-lhe. «Os
emigrantes levam-nas todas; até com quinze anos de idade já estão a casar!»
Foi ele, num gesto de solidariedade, que me deu a morada de uma garota sua
conhecida, a viver no sul de França com os pais, gente da primeira geração de
emigrantes.
Escrevi-lhe ainda nesse dia. Pedi-lhe a fotografia, e ela mandou-ma. Era
linda, menina de uma beleza serena, suave, comovedora, com feições nobres.
Fiquei logo pelo beicinho. Trocámos algumas missivas. Não passou disso, apesar
de lhe ter criado alguma afeição. Rematava sempre as suas cartas: «Desculpe o meu péssimo português.»
- E a guerra, acabara?! – pergunta Henrique com salpicos de ingenuidade.
- Dali, desse calmo e aprazível lugar,
partíamos, quase diariamente, para patrulhamentos em toda a zona junto à
fronteira do Senegal; levávamos a cabo ações de psicossocial, isto é,
tentávamos convencer os indígenas de que o governo era forçado a combater os
rebeldes, porque estes não acatavam a ordem e as leis portuguesas. «A guerra não se faz contra o povo»,
dizíamos-lhes.
- E conseguiram transmitir-lhes essa
mensagem?! – pergunta Henrique,
convencido de antemão de que a resposta seria negativa.
- Quem falava sempre era um oficial,
nós, os soldados rasos, permanecíamos calados que nem gente muda! Numa dessas
ações psicológicas, tendo ido libertar águas atrás de uma árvore, vi fugirem da
tabanca, sorrateiramente, dois latagões negros. Fiquei indeciso: disparo, não
disparo? Na dúvida, optei por não disparar.
- Podiam ser dois homens da guerrilha;
devia, talvez, tê-los mandado parar.
- E se não fossem? E se não parassem?
Teria de agir, teria de matá-los. Não sou nenhum assassino!
- Então por que fugiram eles? Não acha
esquisita essa atitude?
- No lugar deles provavelmente faria o
mesmo; os nossos superiores, quando desconfiavam de alguém, sobretudo de homens
jovens, davam-lhes ordem de prisão, independentemente de pertencerem, ou não,
ao PAIGC. Depois se veria se a decisão tinha sido acertada. Às vezes já era
tarde de mais para estes desgraçados! Mas deixemos isso… Falava-se em recentes
combates com os guerrilheiros, para os lados de Pirada, mas eu tive a sorte de
não assistir a nenhum – estava saturadíssimo de tiros e de confusão, o que eu
queria era paz e sossego. Os habitantes da região passavam de um lado para o
outro da fronteira com a maior das naturalidades; nós, nada podíamos fazer,
pertenciam à mesma etnia, falavam a mesma língua (o francês e o português para eles não passavam de duas línguas
estrangeiras), e além disso possuíam terrenos de cultivo em ambos os
países. Faziam-me lembrar aqueles povos serranos do Alto Minho, que têm
propriedades na Galiza, circulando à vontade entre a Espanha e Portugal,
quando, claro, os dois países estão de boas relações.
- Para eles as fronteiras são
simbólicas. E a sua especialidade?!
- Apesar de ser condutor, andando
aqueles meses ao volante, não conduzia qualquer tipo de viatura, visto estas
não chegarem para as encomendas. O capitão escolheu quatro ou cinco, ao seu
exclusivo critério, ou aconselhado pelos alferes, e os restantes continuaram a
ser atiradores e a não receberem o prémio a que tinham direito.
- Mais uma brutal injustiça, amigo
Cândido, mais uma brutal injustiça!
- Tens razão. E olha que o dinheiro do
prémio, não obstante ser pouco significativo, cem, ou duzentos escudos por mês,
dava um grande jeito.
- Pensa que alguém se abotoava com
ele?!
- Não sei concretamente, falava-se
nisso, mas como deves calcular nós não tínhamos acesso às contas, à escrita; o
cabo amanuense era o único da nossa classe afeto à contabilidade; mas esse era
astuto, «rato», um privilegiado, a
nada aludia, por conseguinte, tudo que nós disséssemos a esse respeito,
reverteria contra nós próprios. Por muito menos, colegas nossos, de outras Companhias,
tiveram de cumprir outra comissão de serviço numa das três frentes de guerra!
- Isso foi cruel, desumano! – explode, irado, Henrique.
- Também acho. E, como é evidente, não
ficariam na cidade, mas sim bem no interior da colónia, nos locais onde
sibilavam as balas e o troar dos canhões. Mas deixa-me continuar, se não perco
o fio à meada. Existia em Contuboel um campo de futebol, de pequenas dimensões
e de terra dura. Como ele me fazia lembrar
o do Monte de Prado, onde tantas vezes competira! Que estremes saudades daquele
tempo, dos meus patrícios: «Hoje
vamos jogar contra os de Cristóval, vens?» Ia sempre. Por vezes tínhamos de levar uma enxada para arrancar os
torrões que já o cobriam, surgidos durante os meses de inverno, bastante
rigoroso, mas com que satisfação nós o fazíamos! Levávamos também umas sandes e
um garrafão de vinho de cinco litros,
do verdinho, para matar a fome e a sede. No mini estádio de Contuboel
disputámos alguns jogos, bastante renhidos, embora eu evitasse participar,
devido à pouca resistência física. Iria levar algum tempo a recuperar a minha
antiga pujança.
- Mas agora já comia comida quente,
todos os dias?!
- Sim. A alimentação melhorou, tínhamos
refeições com pontual regularidade, no aniversário do comandante foi-nos servida
uma gazela estufada (a carne mais saborosa que comi até hoje); podia-se caçar
aves e alguns animais, podíamos ir à pesca ali bem perto. Como a maioria não
possuía equipamento apropriado, pescavam com granadas de mão! Claro que por
este processo, matavam peixe graúdo e miúdo. Um crime ecológico, como em nossos
dias é vulgar ouvir-se. Parecia que a temível guerra, pelo menos aquela que nós
conhecêramos anteriormente, tinha finalmente terminado para a minha Companhia.
Até as cartas das madrinhas de guerra tinham outro sabor, exalavam um perfume
inebriante.
- Ainda bem que me fala nelas;
suplico-lhe, Cândido, leia-me uma cartinha. Concorda?
- Como posso recusar um pedido assim
formulado?
Querido afilhado:
A continuação de boa saúde é esse o meu desejo. Já estava a estranhar
não me escrever, até pensava nas piores coisas, que tinha ido para fora do
sítio onde está, em alguma missão perigosa, mas felizmente não foi por isso.
Diz-me que a um soldado, quando vem de cumprir o serviço militar lhe é dado
facilmente o passaporte; está nisso muito enganado, pelo menos aqui neste
distrito. Conheço um rapaz que esteve quatro anos na tropa e quando veio pediu-o
e não lho deram, está na Suíça a trabalhar, mas seguiu com contrato de
trabalho; já vê que não é fácil arranjá-lo nem que seja de turista, só se tiverem
rendimentos suficientes. Diz-me que é melancólico; eu sou bastante alegre, toda
a gente me diz que se não existisse teriam de me inventar, pois à minha beira
só há boa disposição, não gosto de ver pessoas de semblante carregado. Vai ver
que quando sair dessa guerra já fica com outro espírito, eu dou uma ajudinha…
O tempo custa a passar para aqueles que
sofrem, mas é preciso ser forte, paciente; o galardão será serem heróis, os
defensores da Pátria. Continuo a ver
filmes de grande interesse; ultimamente vi o «Adeus às Armas», com Rock Hudson,
deve conhecê-lo, e estou a pensar ver a «Ultrapassagem». Nunca me canso de ver
cinema, é a minha distração predileta. Vocês aí não veem? Provavelmente só
nas cidades; quando voltar, desforra-se.
Por agora é tudo. Não
desespere, continuo a rezar muito por si, vai ver que em breve estará de volta,
para nos conhecermos, estou ansiosa por isso. Receba abraços sinceros da
madrinha muito amiga.
Fernanda
- As ondas estão a agitar-se; o namoro
está a criar raízes, daqui a pouco não lhe poderá escapar!
- Henrique! Brincas com assuntos
sérios; se te lesse algumas cartas de outras madrinhas verias que as coisas já
estavam bem mais adiantadas!
- Não me diga! Por favor, leia-me uma
dessas, morro de curiosidade.
- Tiveste sorte, porque, a prever esse
teu pedido, também as trouxe. Mas é uma exceção.
Afilhado querido:
Em primeiro de tudo o que te desejo é a tua saúde. Cá recebi a tua
carta e nela vi que tinhas ficado um pouco chateado por te mandar dizer que
tinha ouvido na rádio o teu nome todo a dedicar um disco aos pais, irmãos e
noiva, e que nesse caso não podia estar a perder tempo nem a gastar dinheiro em
cartas, pois a minha mãe também diz ter ouvido, e aconselhou-me a não te escrever mais, mas como dizes que é mentira, que
há muitos soldados com o mesmo nome, então continuo a escrever-te. Mas vê lá,
se for verdade eu o saberei pelo padre da freguesia. Mandaste-me dizer que
agora tens aí uma vida boa, que só é pena eu não poder ir, pois olha: às vezes
pode ser que vá ter contigo aí, quem me dera para te ver pessoalmente.
Com isto, querido, não te estou a ser mais
maçadora, só te pedia que me fosses sincero, que tu bem deves saber que em ti
acredito. Mandaste-me dizer que fui eu o teu primeiro amor. Pois olha: tu, para
mim, também o foste; e serás o único, toda a minha vida. E com isto não estou a
demorar mais. Recebe muitos beijinhos e abraços juntos e um coração cheio de
saudades desta tua querida apaixonada.
Genoveva
- Esta madrinha, pelos vistos, não
perdia tempo. Não me diga que lhe apareceu na Guiné!
- Qual quê?! Escreveu-me mais uma ou
duas cartas e deixou de escrever. Certamente apareceu-lhe um emigrante e
casou-se; assim procediam as raparigas da província naquela época. A vida do
campo (especialmente para as jovens)
era árdua; logo que lhe pudessem fugir, faziam-no. Depois iam para França lavar
as escadas e os cães das senhoras francesas, desempenhar o cargo de porteiras
nos altos prédios de Paris, mas recebiam os francos, com os quais vinham mais
tarde pavonear-se para a sua terra natal. Aquele amor de que fala nas cartas
não é verdadeiro, é fruto da imaginação, da imaturidade, e porque sabe à partida
que a distância nos impedia de concretizar fosse o que fosse.
- O Cândido estimulava…
- Alimentava esse tipo de linguagem
porque me divertia, e precisava imenso de me distrair, não pensar na parca. Já
que vem a talhe de foice, vou abrir mais uma exceção e ler-te outra carta, de
outra madrinha… Posso?
- Até lhe agradeço. Desse modo fico a
saber que a relação soldado madrinha se baseava num divertido jogo de palavras,
de linguagens amorosas, mais ou menos escondidas, de um subterfúgio!
- De certo modo, acertaste no alvo, mas
não vás tão longe. As primeiras missivas que se trocavam revelariam o caminho a
seguir: tudo dependia das respostas. Mas ouve, em silêncio, esta:
Querido afilhado
Em primeiro lugar estimo que esta minha carta o vá encontrar de ótima
saúde. Eu fico bem, graças a Deus. Cá recebi o seu aerograma e nele vi tudo
quanto me mandava dizer, pois mandava-me dizer que passa lá muitos trabalhos.
Peço-lhe que nunca desanime, o tempo vai passando lentamente, Deus Nosso Senhor
há de ter dó de si, há de livrá-lo de todos os perigos, pois saberá que eu rezo
cá muito por si para que Nosso Senhor o livre de todo o mal e quando vier venha
com saúde, então não é assim? Como tem passado esses meses de tropa? Gostava
que me contasse um pouco da sua vida. Tenho uma irmã e um cunhado e uma
sobrinha no Brasil que estão muito bem, vai qualquer dia um que anda para ser
meu cunhado para lá, que lhe arranjou lá um emprego a minha mana e cunhado, e é
para um emprego bom; pois saberá, se nós houvermos de ser um para o outro, já
me mandou dizer que nos arranja lá também um emprego para nós os dois. Saberá
que vamos ter cá na terra uma grande festa, é pena que você não possa cá vir
este ano. Para o próximo já espero que cá esteja junto de mim. Peço-lhe que me mande dizer quantos anos
tem, gostava muito de saber, mais ou menos.
Por agora não me lembro de mais nada para lhe dizer. Receba muitos
cumprimentos e despede-se a
Maria Teresa
- Não sei o que hei de dizer-lhe, meu caro Cândido. Você era um Don
Juan, ou andava a brincar com os sentimentos das raparigas casadoiras!
- Nem uma coisa, nem outra; apenas dei
início a uma troca de correspondência com jovens madrinhas de guerra, sem outro
objetivo que não fosse o de me distrair, esquecer a violência do dia-a-dia na
terrífica guerra. Não desejava namorar (sabes
que a única namorada que tive antes dos meus vinte anos me trocou por um emigrante
e com ele casou logo que ingressei no serviço militar?!); muito menos
queria casar novo, pois não tinha nessa ocasião um rumo definido – a minha vida
ainda iria sofrer uma grande reviravolta. Este princípio de namoro fazia parte
do contrato inicial: «tu aceitas ser
madrinha de guerra e com o tempo aceitas ser namorada até ao fim da comissão;
acabada esta, cada qual segue o seu caminho.» Eis o jogo, ninguém se pode
queixar. Nunca critiquei aquelas que me deixaram de escrever de um momento para
o outro, sem uma explicação, sem um adeus; seguiram o seu destino. Não seria a
mesma coisa se respondesse a um anúncio de jornal pedindo noivo – nesse caso
assumiria um compromisso.
- A minha observação reside mais na
ausência de princípios, isto é, se era madrinha não poderia ser namorada, e
vice-versa; vocês não tinham isso em conta, desdobravam o estatuto conforme
lhes conviesse. A não ser que elas aceitassem tornar-se madrinhas de guerra na
esperança de arranjarem marido!
- Esse é um estudo que está por fazer;
não duvido que algumas delas pensassem assim; a maioria, não. De qualquer modo,
tiveram um papel importantíssimo na nossa vida belicosa, ajudaram-nos muito. Eu
até penso que não fiquei maluco graças a elas!
- Quase me convenceu, mas, como disse,
esse tema está por explorar. Talvez um dia apareçam sociólogos e psiquiatras
que se debrucem sobre o assunto.
Depois de uma curta pausa, Cândido continua
a contar ao amigo a sua interessante história.
- Amigo Henrique, logo que as coisas
correm mais ou menos, ninguém quer a gente! Explico-te por quê: quando não ia
nas colunas patrulhar a zona, ficava na oficina a ajudar o mecânico. Gostava
desse serviço. Apesar de sujinho, aprendi bastante. Trabalhávamos e
divertíamo-nos. Alguns colegas gostavam de cantar o fado, e até havia um ou
outro que não cantava mal. Jamais esqueci a letra de um desses fados, escrito
por um lisboeta ferrenho, nascido no Bairro Alto, salvo erro, cujo nome nunca
soubemos. Hoje conheço mais ou menos a vida noturna na capital do país, embora
não tenha tempo nem dinheiro para andar em farras. Eu não tenho jeito para
declamar, não sou nenhum João Vilaret, mas apesar disso, escuta:
Já
morei na Mouraria
na
Rua do Terreirinho;
num
prédio muito velhinho,
cai,
não cai, mas não caía.
Hóspede
duma beiroa,
natural
de Vila Chã;
mulher
simples e boa,
como
agora já não há.
Tinha
um quarto pequenino,
com
cama a condizer;
era
quarto de menino,
de
menino a crescer.
Estava
nas águas furtadas,
mesmo
junto do telhado;
vinham
as chuvas zangadas
ficava
todo molhado.
Havia
uma tasca ao lado,
daquelas
d’antigamente;
na
qual se cantava o fado
e
se bebia aguardente.
Era
uma tasca bairrista,
de
tosco e velho balcão
que
amparava o fadista,
o
tal fadista gingão.
Cantava
lá um mocinho,
tinha
voz de rouxinol;
davam-lhe
um copo de vinho
parecia
um raio de sol.
Hoje
é nome conhecido,
até
tem discos gravados;
mas
à tasca, agradecido,
vai
cantar um ou dois fados.
Não
cobra nem um tostão,
só
quer goela molhada;
aquele
vinho rascão,
feitinho
à martelada.
Quando
me lembro entristeço,
já
tanto tempo passou;
e
quanta coisa eu esqueço…
não
aquilo que se amou!
Não
vou lá e que saudade,
tanta
vida a recordar;
ali,
na velha cidade,
onde
eu estive a morar.
Talvez
um dia, um dia…
eu
volte àquele lugar;
quase
assim em romaria,
minha
promessa pagar.
- Uma letra bem gira! – aprova Henrique. – Afinal de contas
também se divertiam.
- Naquelas idades, e depois de nos
termos safado daquelas batalhas infernais, tudo nos parecia já cor-de-rosa. A
esperança voltou aos nossos corações. À tardinha, depois do jantar, íamos dar
umas voltas (até o furriel Bonito podia
passear livremente o seu pastor alemão, não correndo agora o risco de lhe deitar
a G-3 ao rio, como o fizera antes); assistíamos às festas dos indígenas,
entrávamos nas suas danças, embora eles não gostassem muito dessa intromissão (sabes que cantam e dançam quando morre
alguém com idade avançada?! Ficam
contentes porque, dizem eles, a pessoa viveu aquele tempo todo e foi feliz;
choram os novos, pela razão contrária.)
- Julgo que estão certos. E como são os
cemitérios deles? – pergunta Henrique,
roído de curiosidade.
- Perguntas bem, mas francamente não me
lembro! Penso que usarão campas térreas, pois jazigos – (com espaços fechados por paredes ou gradeamentos) – nunca vi; por
outro lado, penso que enterram os seus mortos, não me apercebi que utilizem a
cremação. Mas continuando: quando lá aparecia o homem da sétima arte, com a
maquineta, víamos cinema – filmes antigos, já ultrapassados: Charlot,
Cantinflas, Irmãos Marx, Bucha e Estica, Tarzan, dramalhões, fitas policiais, cow-boyadas…,
ao ar livre, pois salas não existiam. A fita, já tão usada como o fato coçado e
porco do seu dono, rebentava constantemente; o exibidor tentava consertar
aquilo o mais depressa possível – pateticamente, ríamos. Ele não gostava nada
de ouvir essas risadas hipócritas e mesquinhas, mas reconhecia humildemente que
o público tinha razão. «Mas que diabo!»
- comentava ele – «vocês querem galinha
gorda por pouco dinheiro?! Pensam que é fácil andar pelo interior da Guiné a
exibir filmes? Não estamos em Bissau!»
- Vocês não deviam ter gozado com o
homem! - criticou Henrique, fazendo uma
cara séria.
- Que é que tu queres. Achas, que era possível,
e razoável, aguentar todas aquelas interrupções sem botar uma saudável e sonora
gargalhada?! Certo dia, o capitão mandou reunir a Companhia e disse: «De Bissau pedem dois soldados para fazerem
serviços de guarda. Se houver voluntários, que se ofereçam; caso contrário,
terei eu de os escolher.»
- Ofereceram-se às mãos cheias!
- Pelo contrário: ninguém se ofereceu!
Depois de catorze ou quinze meses de guerra intensa; depois de termos
percorrido quase todas as matas da Guiné-Bissau a pé; depois de tanta fome e
sede; depois de tanto padecimento, ir agora para Bissau fazer guardas, quando
se estava num lugar calmo, correndo embora alguns perigos… Não! Ninguém queria
ir. Por outro lado, já se tinham criado laços de amizade, que iriam,
porventura, durar toda a vida. O capitão retirou-se. Passado algum tempo o amanuense
diz-me para me dirigir à Secretaria. Estremeci. Fez-me lembrar a Academia
Militar. Peço licença e entro. Sem introito, o primeiro-sargento avisa-me: «Foste tu um dos escolhidos para ir fazer
guardas em Bissau. Prepara as tuas coisas. Só voltas a integrar a Companhia
quando esta embarcar para a Metrópole.»
- E o Cândido, como reagiu?
- Eu disse-lhe: «Desculpe, meu primeiro, mas eu sou condutor auto; as guardas, que eu
saiba, são feitas por atiradores.» Ele, furioso, levanta-se com ímpeto da
cadeira, e lembra-me: «Ordens, são
ordens; não se discutem! Rapaz! Pega na trouxa e vai para onde te mandam!»
Fiquei sem jeito! Mas a minha fragilidade perante aquela máquina militar
saltava à vista. Eu era apenas um número. Com os colegas também não podia
contar. A solidariedade só existia nalguns casos; neste, concretamente, sabia
de antemão que não me ajudariam. Aliás, indo eu não iria um deles, como era
óbvio. O egoísmo é muito forte no povo português.
- Haveria alguma razão forte para o
afastarem?! – pergunta Henrique,
incrédulo, aborrecido com aquela atitude prepotente.
- Penso que sim. Havia na Companhia um
alferes, o segundo comandante, o tal militarista vaidoso de quem já te falei,
que não apreciava muito a minha presença. Antipatia parva e inexplicável,
porquanto nunca lhe fizera mal, nem lho podia fazer, mesmo se o quisesse. O meu
maior defeito a seus olhos era porventura o facto de eu não gostar da tropa, da
guerra, ou do que quer que fosse ligado à vida militar. Nem toda a gente pode
apreciar as mesmas coisas. Por outro lado, a minha modéstia, simplicidade,
desprendimento, representavam para ele uma ofensa, uma afronta. Para teres uma
ideia do que te acabo de dizer, ouve esta: um dia os cabos especialistas resolveram
promover um copioso almoço de confraternização, uma festa convívio, entre todos
aqueles que possuíam especialidade. Contuboel, devido em parte à sua fisionomia
singela, revelava-se lugar propício a estas manifestações.
- Queriam, certamente, marcar a
diferença!
- Talvez; mas de qualquer maneira, não
havia espaço para todos. Convidaram os condutores, enfermeiros… e também os
furriéis, sargentos e oficiais. O almoço, por deferência do comandante, seria
servido na messe. As mesas estavam impecáveis: guardanapos em forma de flor – (as costas das mãos serviram-nos durante a
campanha de guardanapos) – copos de vidro limpíssimos, pratos de vários
tamanhos e talheres a condizer. Há quantos meses eu não comia num prato! As
inestéticas, ferrugentas e velhas marmitas de lata ocupavam indevidamente o seu
lugar. Que trabalheira elas davam para as limparmos: esfrega, esfrega, com
areia, com sabão, e o esforço era quase em vão! O pitéu já cheirava; os
aperitivos serviam-se numa mesa à parte. Quando me aproximo, a fim de me
sentar, pergunta maliciosamente o militarão: «Que está aqui a fazer aquele soldado? Não me digam que tem uma especialidade?!»
- Imperdoável! O indivíduo era
grosseiro. Como reagiu? – perguntou
Henrique, de punhos cerrados, simulando uma agressão física.
- Timorato como era, tomei uma atitude
que ainda hoje não sei se foi a mais correta.
- Insultou-o?
- Vontade não me faltou; pura e
simplesmente ignorei o que tinha ouvido, engoli o vexame, recuei dois passos e
sorrateiramente saí porta fora. Pensas que algum dos meus camaradas me foi
procurar? Nem um!
- Quer a minha opinião? Fez muitíssimo
bem. O que o meu amigo desejava era ver o tempo a passar. Se brigasse com ele,
ou ripostasse, seria pela certa castigado.
- Não tinha, nessa ocasião, nem tenho
agora, quaisquer dúvidas que isso me aconteceria. O pobre do soldado nunca
levava a melhor. Ainda pensei, simbolicamente, esmagar-lhe a cabeça da sua
própria sombra, mas até isso não pude fazer, pois ele protegia-a como o
avarento protege o seu tesouro. Este era um forte motivo para eu desejar agora
a partida. Mais guarda, menos guarda, ninguém morreria por isso, e as armas
reais não me cairiam aos pés. Em Bissau teria a possibilidade de obter a carta
de condução para profissionais, que um dia mais tarde me poderia vir a ser útil
– nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Vale mais prevenir do que remediar,
como diz o ditado. Apesar de ter conduzido pouquíssimo, o “bichinho” já tinha nascido, sobretudo com a cativante condução do
jipe.
- Como se chamava o outro soldado que
foi consigo?
- Comigo para Bissau seguiu também o
Vinhais, atirador. Bom moço. Não tinha com ele grandes afinidades, pois
tratava-se de um jovem quase analfabeto, embora de bacoco nada tivesse. O
regime corporativista, superiormente comandado pelo hediondo Salazar, não deu
grandes hipóteses de estudo a esses rapazes; a escola primária ficava longe dos
lugares onde eles residiam. Por outro lado, aos seis, sete anos, já andavam a
guardar gado no monte. Não havia estímulos, nem condições materiais, para os
que trabalhavam na agricultura, na pastorícia, na pesca... Agora começa-se a
fazer alguma coisa, vamos lá ver se conseguimos. Demo-nos sempre muito bem até ao
dia em que fizemos o espólio em Tomar; depois disso nunca mais nos vimos. Ainda
na região de Contuboel assisti a uma cena deveras interessante e elucidativa.
- Estou em pulgas para ouvi-lo – interrompe Henrique, há muito calado.
- Escuta: numa camioneta do nosso
exército vinha uma data de negros com trajes de cerimónia (panos de cores garridas) e no meio deles uma figura feminina
coberta dos pés à cabeça com um longo pano branco. Por mera curiosidade,
perguntei o que se estava a passar e alguém me elucidou de que a bajuda, pois
de uma virgem se tratava, tinha sido comprada aos pais por um dos chefes
tribais da zona – um homem de idade avançada e já com várias mulheres e filhos!
- Fazerem isso à cachopa – não se
admite!
- Espera: o velho pagara por ela umas
quantas cabeças de gado! Sem o querer, fiquei horrorizado e com pena da
catraia. Que raio de costumes eles albergavam no seu seio! Mas, graças a este
acontecimento, fiquei a saber que as mulheres nesta parte de África não
possuíam quaisquer direitos: compravam-se e vendiam-se como qualquer mercadoria
– uma questão de preço! Elas, vítimas do sistema, nem sequer se queixavam: achavam
tal coisa natural!
- Os movimentos de libertação da mulher
não teriam ali nenhuma hipótese de êxito.
- Também acho. Mas repara que a maior
parte das mulheres portuguesas também não desfrutavam, por esse tempo, de
grandes liberdades. Os pais escolhiam o noivo para a filha, ou rejeitavam o que
ela elegesse, caso não lhes agradasse. Não tinham rédea solta, como agora,
podes crer. Não podiam sair à noite, só se fossem ver um filme, uma peça de
teatro, um concerto, uma revista, mas acompanhadas pelos pais ou irmãos mais
velhos, sempre bem vigiadas, porque a ausência da virgindade na rapariga era um
anátema quase para toda a vida. Em nossos dias, salvo raras exceções, nenhuma
moça vai virgem para o casamento. E mais: já consta que alguns namorados,
sobretudo na cidade, se juntam para evitarem as ciclópicas despesas da boda. Os
costumes estão a mudar em todo o lado. E com a emigração forçada, para França e
outros países da Europa, os portugueses vão adquirindo outros hábitos, outras
maneiras de viver.
- Ai eu, quero-me casar à antiga. A
noiva vestida de branco, o noivo com o seu fato preto ou azul, uma cerimónia
inesquecível. As fotos para o álbum, para depois mostrar aos filhos e aos
netos, que lindo!
- Eu não me casarei na igreja católica,
ou outra, devido a não ser religioso, mas casar-me-ei na Conservatória do
Registo Civil. Ao fim, e ao cabo, tudo vai dar ao mesmo. Viver juntos, sem
casamento, não concordo. No entanto, nem tu nem eu podemos alterar seja o que
for; somos demasiado insignificantes para impedir essas coisas. Dizem por aí
que é progresso. Talvez seja, mas eu nunca vou mudar. Se um homem gosta a sério
de uma mulher, tem confiança nela, quer que ela seja a mãe dos seus filhos,
deve casar com ela, provar-lhe que não foge às responsabilidades. O matrimónio
é um acontecimento muito sério, que obriga por vezes a pequenos e grandes
sacrifícios. Eu penso que vou ser um bom marido, mas também muito dependerá da
esposa; se ela for meiga, compreensiva, etc., tudo dará certo. Enfim, o
destino, e os deuses, antigos e menos antigos, saberão guiar-nos no nosso
caminhar.
- Caro Cândido: esta conversa,
interessantíssima, levar-nos-ia longe, mas o tempo esgotou-se. O relógio não
para e nós temos de ir andando.
- Bem, então até à próxima. A seguir
falar-te-ei de Bissau, uma cidade mais insignificante do que qualquer vila
portuguesa.
continua...