quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico


Por Joaquim A. Rocha 



19.º Capítulo

 

CONTUBOEL

 

 

     Mais uma tarde de domingo. As ruas da Baixa fervilhavam de gente; aproximava-se o natal e as lojas tentavam vender o máximo possível. Os portugueses gostam de oferecer prendas nesta quadra do ano, todos se reúnem na famosa ceia de família, e à meia-noite trocam as prendas adquiridas, quantas vezes com que sacrifícios financeiros. É uma tradição antiga e o povo não abdica dela. Claro que com o tempo irá desaparecer, como tudo se extingue, mas não será para já. As ruas estavam iluminadas, a Câmara Municipal fizera questão nisso, e à noite era um autêntico espetáculo. Milhares de lâmpadas, de várias cores, proporcionavam uma visão de sonho, de irreal. Os dois amigos mais uma vez se encontraram. O primeiro a chegar foi Cândido, mas não esperou muito. Quando avistou Henrique disse-lhe: 

 

- Boa tarde. Hoje está um dia cinzento, não sei se preferes antes ir ao cinema, agora nesta época passam bons filmes.

- Não me importava nada de ir ver um desses filmes bíblicos, mas prefiro ouvir a sua história africana. Quando a acabar então sim, vamos ao cinema e ao teatro, agora estão boas peças em cartaz. No Parque Mayer estão em cena umas revistas interessantes.

- Tudo bem! Tu mandas. Então escuta: em Contuboel encontrei um rapaz dos meus lados. Chamava-se Jeremias e era ajudante de cozinheiro. Tinha sensivelmente menos um ano de Guiné do que eu, um periquito (alcunha dada aos novos por causa da farda esverdeada), e não passara ainda pelos sucessos que atrás te narrei. Contou-me que, tal como eu, não arranjara o dinheiro suficiente para o engajador, que ainda tinha circulado por Espanha «somente a ver como as coisas decorriam, onde as modas paravam, quais as probabilidades», mas depressa chegou à conclusão de que sozinho nunca conseguiria chegar a França «é um país longínquo e correm-se imensos riscos; cumprirei a minha sina», diz-me num tom lamuriento e resignado. «Melgaço está cada vez mais desértico» - lamenta-se. «Só velhos e crianças lá continuam!» «E as belas raparigas da nossa terra?» - perguntei-lhe. «Os emigrantes levam-nas todas; até com quinze anos de idade já estão a casar!» Foi ele, num gesto de solidariedade, que me deu a morada de uma garota sua conhecida, a viver no sul de França com os pais, gente da primeira geração de emigrantes.

     Escrevi-lhe ainda nesse dia. Pedi-lhe a fotografia, e ela mandou-ma. Era linda, menina de uma beleza serena, suave, comovedora, com feições nobres. Fiquei logo pelo beicinho. Trocámos algumas missivas. Não passou disso, apesar de lhe ter criado alguma afeição. Rematava sempre as suas cartas: «Desculpe o meu péssimo português

 

- E a guerra, acabara?! – pergunta Henrique com salpicos de ingenuidade.

- Dali, desse calmo e aprazível lugar, partíamos, quase diariamente, para patrulhamentos em toda a zona junto à fronteira do Senegal; levávamos a cabo ações de psicossocial, isto é, tentávamos convencer os indígenas de que o governo era forçado a combater os rebeldes, porque estes não acatavam a ordem e as leis portuguesas. «A guerra não se faz contra o povo», dizíamos-lhes.

- E conseguiram transmitir-lhes essa mensagem?! – pergunta Henrique, convencido de antemão de que a resposta seria negativa.

- Quem falava sempre era um oficial, nós, os soldados rasos, permanecíamos calados que nem gente muda! Numa dessas ações psicológicas, tendo ido libertar águas atrás de uma árvore, vi fugirem da tabanca, sorrateiramente, dois latagões negros. Fiquei indeciso: disparo, não disparo? Na dúvida, optei por não disparar.

- Podiam ser dois homens da guerrilha; devia, talvez, tê-los mandado parar.

- E se não fossem? E se não parassem? Teria de agir, teria de matá-los. Não sou nenhum assassino!

- Então por que fugiram eles? Não acha esquisita essa atitude?

- No lugar deles provavelmente faria o mesmo; os nossos superiores, quando desconfiavam de alguém, sobretudo de homens jovens, davam-lhes ordem de prisão, independentemente de pertencerem, ou não, ao PAIGC. Depois se veria se a decisão tinha sido acertada. Às vezes já era tarde de mais para estes desgraçados! Mas deixemos isso… Falava-se em recentes combates com os guerrilheiros, para os lados de Pirada, mas eu tive a sorte de não assistir a nenhum – estava saturadíssimo de tiros e de confusão, o que eu queria era paz e sossego. Os habitantes da região passavam de um lado para o outro da fronteira com a maior das naturalidades; nós, nada podíamos fazer, pertenciam à mesma etnia, falavam a mesma língua (o francês e o português para eles não passavam de duas línguas estrangeiras), e além disso possuíam terrenos de cultivo em ambos os países. Faziam-me lembrar aqueles povos serranos do Alto Minho, que têm propriedades na Galiza, circulando à vontade entre a Espanha e Portugal, quando, claro, os dois países estão de boas relações.

- Para eles as fronteiras são simbólicas. E a sua especialidade?!

- Apesar de ser condutor, andando aqueles meses ao volante, não conduzia qualquer tipo de viatura, visto estas não chegarem para as encomendas. O capitão escolheu quatro ou cinco, ao seu exclusivo critério, ou aconselhado pelos alferes, e os restantes continuaram a ser atiradores e a não receberem o prémio a que tinham direito.

- Mais uma brutal injustiça, amigo Cândido, mais uma brutal injustiça!

- Tens razão. E olha que o dinheiro do prémio, não obstante ser pouco significativo, cem, ou duzentos escudos por mês, dava um grande jeito.

- Pensa que alguém se abotoava com ele?!

- Não sei concretamente, falava-se nisso, mas como deves calcular nós não tínhamos acesso às contas, à escrita; o cabo amanuense era o único da nossa classe afeto à contabilidade; mas esse era astuto, «rato», um privilegiado, a nada aludia, por conseguinte, tudo que nós disséssemos a esse respeito, reverteria contra nós próprios. Por muito menos, colegas nossos, de outras Companhias, tiveram de cumprir outra comissão de serviço numa das três frentes de guerra!

- Isso foi cruel, desumano! – explode, irado, Henrique.

- Também acho. E, como é evidente, não ficariam na cidade, mas sim bem no interior da colónia, nos locais onde sibilavam as balas e o troar dos canhões. Mas deixa-me continuar, se não perco o fio à meada. Existia em Contuboel um campo de futebol, de pequenas dimensões e de terra dura. Como ele me fazia lembrar o do Monte de Prado, onde tantas vezes competira! Que estremes saudades daquele tempo, dos meus patrícios: «Hoje vamos jogar contra os de Cristóval, vensIa sempre. Por vezes tínhamos de levar uma enxada para arrancar os torrões que já o cobriam, surgidos durante os meses de inverno, bastante rigoroso, mas com que satisfação nós o fazíamos! Levávamos também umas sandes e um garrafão de vinho de cinco litros, do verdinho, para matar a fome e a sede. No mini estádio de Contuboel disputámos alguns jogos, bastante renhidos, embora eu evitasse participar, devido à pouca resistência física. Iria levar algum tempo a recuperar a minha antiga pujança.

- Mas agora já comia comida quente, todos os dias?!

- Sim. A alimentação melhorou, tínhamos refeições com pontual regularidade, no aniversário do comandante foi-nos servida uma gazela estufada (a carne mais saborosa que comi até hoje); podia-se caçar aves e alguns animais, podíamos ir à pesca ali bem perto. Como a maioria não possuía equipamento apropriado, pescavam com granadas de mão! Claro que por este processo, matavam peixe graúdo e miúdo. Um crime ecológico, como em nossos dias é vulgar ouvir-se. Parecia que a temível guerra, pelo menos aquela que nós conhecêramos anteriormente, tinha finalmente terminado para a minha Companhia. Até as cartas das madrinhas de guerra tinham outro sabor, exalavam um perfume inebriante.

- Ainda bem que me fala nelas; suplico-lhe, Cândido, leia-me uma cartinha. Concorda?

- Como posso recusar um pedido assim formulado?

 

Querido afilhado:

 

          A continuação de boa saúde é esse o meu desejo. Já estava a estranhar não me escrever, até pensava nas piores coisas, que tinha ido para fora do sítio onde está, em alguma missão perigosa, mas felizmente não foi por isso. Diz-me que a um soldado, quando vem de cumprir o serviço militar lhe é dado facilmente o passaporte; está nisso muito enganado, pelo menos aqui neste distrito. Conheço um rapaz que esteve quatro anos na tropa e quando veio pediu-o e não lho deram, está na Suíça a trabalhar, mas seguiu com contrato de trabalho; já vê que não é fácil arranjá-lo nem que seja de turista, só se tiverem rendimentos suficientes. Diz-me que é melancólico; eu sou bastante alegre, toda a gente me diz que se não existisse teriam de me inventar, pois à minha beira só há boa disposição, não gosto de ver pessoas de semblante carregado. Vai ver que quando sair dessa guerra já fica com outro espírito, eu dou uma ajudinhaO tempo custa a passar para aqueles que sofrem, mas é preciso ser forte, paciente; o galardão será serem heróis, os defensores da Pátria. Continuo a ver filmes de grande interesse; ultimamente vi o «Adeus às Armas», com Rock Hudson, deve conhecê-lo, e estou a pensar ver a «Ultrapassagem». Nunca me canso de ver cinema, é a minha distração predileta. Vocês aí não veem? Provavelmente só nas cidades; quando voltar, desforra-se.       

          Por agora é tudo. Não desespere, continuo a rezar muito por si, vai ver que em breve estará de volta, para nos conhecermos, estou ansiosa por isso. Receba abraços sinceros da madrinha muito amiga.

 

                                                                                    Fernanda   

 

 

- As ondas estão a agitar-se; o namoro está a criar raízes, daqui a pouco não lhe poderá escapar!

- Henrique! Brincas com assuntos sérios; se te lesse algumas cartas de outras madrinhas verias que as coisas já estavam bem mais adiantadas!

- Não me diga! Por favor, leia-me uma dessas, morro de curiosidade.

- Tiveste sorte, porque, a prever esse teu pedido, também as trouxe. Mas é uma exceção.

 

Afilhado querido:  

 

                     Em primeiro de tudo o que te desejo é a tua saúde. Cá recebi a tua carta e nela vi que tinhas ficado um pouco chateado por te mandar dizer que tinha ouvido na rádio o teu nome todo a dedicar um disco aos pais, irmãos e noiva, e que nesse caso não podia estar a perder tempo nem a gastar dinheiro em cartas, pois a minha mãe também diz ter ouvido, e aconselhou-me a não te escrever mais, mas como dizes que é mentira, que há muitos soldados com o mesmo nome, então continuo a escrever-te. Mas vê lá, se for verdade eu o saberei pelo padre da freguesia. Mandaste-me dizer que agora tens aí uma vida boa, que só é pena eu não poder ir, pois olha: às vezes pode ser que vá ter contigo aí, quem me dera para te ver pessoalmente.

          Com isto, querido, não te estou a ser mais maçadora, só te pedia que me fosses sincero, que tu bem deves saber que em ti acredito. Mandaste-me dizer que fui eu o teu primeiro amor. Pois olha: tu, para mim, também o foste; e serás o único, toda a minha vida. E com isto não estou a demorar mais. Recebe muitos beijinhos e abraços juntos e um coração cheio de saudades desta tua querida apaixonada.

                                                                                  Genoveva

 

 

- Esta madrinha, pelos vistos, não perdia tempo. Não me diga que lhe apareceu na Guiné!

- Qual quê?! Escreveu-me mais uma ou duas cartas e deixou de escrever. Certamente apareceu-lhe um emigrante e casou-se; assim procediam as raparigas da província naquela época. A vida do campo (especialmente para as jovens) era árdua; logo que lhe pudessem fugir, faziam-no. Depois iam para França lavar as escadas e os cães das senhoras francesas, desempenhar o cargo de porteiras nos altos prédios de Paris, mas recebiam os francos, com os quais vinham mais tarde pavonear-se para a sua terra natal. Aquele amor de que fala nas cartas não é verdadeiro, é fruto da imaginação, da imaturidade, e porque sabe à partida que a distância nos impedia de concretizar fosse o que fosse.

- O Cândido estimulava…

- Alimentava esse tipo de linguagem porque me divertia, e precisava imenso de me distrair, não pensar na parca. Já que vem a talhe de foice, vou abrir mais uma exceção e ler-te outra carta, de outra madrinha… Posso?

- Até lhe agradeço. Desse modo fico a saber que a relação soldado madrinha se baseava num divertido jogo de palavras, de linguagens amorosas, mais ou menos escondidas, de um subterfúgio!

- De certo modo, acertaste no alvo, mas não vás tão longe. As primeiras missivas que se trocavam revelariam o caminho a seguir: tudo dependia das respostas. Mas ouve, em silêncio, esta:

 

Querido afilhado

 

                      Em primeiro lugar estimo que esta minha carta o vá encontrar de ótima saúde. Eu fico bem, graças a Deus. Cá recebi o seu aerograma e nele vi tudo quanto me mandava dizer, pois mandava-me dizer que passa lá muitos trabalhos. Peço-lhe que nunca desanime, o tempo vai passando lentamente, Deus Nosso Senhor há de ter dó de si, há de livrá-lo de todos os perigos, pois saberá que eu rezo cá muito por si para que Nosso Senhor o livre de todo o mal e quando vier venha com saúde, então não é assim? Como tem passado esses meses de tropa? Gostava que me contasse um pouco da sua vida. Tenho uma irmã e um cunhado e uma sobrinha no Brasil que estão muito bem, vai qualquer dia um que anda para ser meu cunhado para lá, que lhe arranjou lá um emprego a minha mana e cunhado, e é para um emprego bom; pois saberá, se nós houvermos de ser um para o outro, já me mandou dizer que nos arranja lá também um emprego para nós os dois. Saberá que vamos ter cá na terra uma grande festa, é pena que você não possa cá vir este ano. Para o próximo já espero que cá esteja junto de mim. Peço-lhe que me mande dizer quantos anos tem, gostava muito de saber, mais ou menos.

                      Por agora não me lembro de mais nada para lhe dizer. Receba muitos cumprimentos e despede-se a

                                                  

                                                                              Maria Teresa  

 

  - Não sei o que hei de dizer-lhe, meu caro Cândido. Você era um Don Juan, ou andava a brincar com os sentimentos das raparigas casadoiras!    

- Nem uma coisa, nem outra; apenas dei início a uma troca de correspondência com jovens madrinhas de guerra, sem outro objetivo que não fosse o de me distrair, esquecer a violência do dia-a-dia na terrífica guerra. Não desejava namorar (sabes que a única namorada que tive antes dos meus vinte anos me trocou por um emigrante e com ele casou logo que ingressei no serviço militar?!); muito menos queria casar novo, pois não tinha nessa ocasião um rumo definido – a minha vida ainda iria sofrer uma grande reviravolta. Este princípio de namoro fazia parte do contrato inicial: «tu aceitas ser madrinha de guerra e com o tempo aceitas ser namorada até ao fim da comissão; acabada esta, cada qual segue o seu caminho.» Eis o jogo, ninguém se pode queixar. Nunca critiquei aquelas que me deixaram de escrever de um momento para o outro, sem uma explicação, sem um adeus; seguiram o seu destino. Não seria a mesma coisa se respondesse a um anúncio de jornal pedindo noivo – nesse caso assumiria um compromisso.

- A minha observação reside mais na ausência de princípios, isto é, se era madrinha não poderia ser namorada, e vice-versa; vocês não tinham isso em conta, desdobravam o estatuto conforme lhes conviesse. A não ser que elas aceitassem tornar-se madrinhas de guerra na esperança de arranjarem marido!

- Esse é um estudo que está por fazer; não duvido que algumas delas pensassem assim; a maioria, não. De qualquer modo, tiveram um papel importantíssimo na nossa vida belicosa, ajudaram-nos muito. Eu até penso que não fiquei maluco graças a elas!

- Quase me convenceu, mas, como disse, esse tema está por explorar. Talvez um dia apareçam sociólogos e psiquiatras que se debrucem sobre o assunto. 

 

    Depois de uma curta pausa, Cândido continua a contar ao amigo a sua interessante história.

 

- Amigo Henrique, logo que as coisas correm mais ou menos, ninguém quer a gente! Explico-te por quê: quando não ia nas colunas patrulhar a zona, ficava na oficina a ajudar o mecânico. Gostava desse serviço. Apesar de sujinho, aprendi bastante. Trabalhávamos e divertíamo-nos. Alguns colegas gostavam de cantar o fado, e até havia um ou outro que não cantava mal. Jamais esqueci a letra de um desses fados, escrito por um lisboeta ferrenho, nascido no Bairro Alto, salvo erro, cujo nome nunca soubemos. Hoje conheço mais ou menos a vida noturna na capital do país, embora não tenha tempo nem dinheiro para andar em farras. Eu não tenho jeito para declamar, não sou nenhum João Vilaret, mas apesar disso, escuta: 

  

Já morei na Mouraria

na Rua do Terreirinho;

num prédio muito velhinho,

cai, não cai, mas não caía.

 

Hóspede duma beiroa,

natural de Vila Chã;

mulher simples e boa,

como agora já não há.

 

Tinha um quarto pequenino,

com cama a condizer;

era quarto de menino,

de menino a crescer.

 

Estava nas águas furtadas,

mesmo junto do telhado;

vinham as chuvas zangadas

ficava todo molhado.

 

Havia uma tasca ao lado,

daquelas d’antigamente;

na qual se cantava o fado

e se bebia aguardente.

 

Era uma tasca bairrista,

de tosco e velho balcão

que amparava o fadista,

o tal fadista gingão.

 

Cantava lá um mocinho,

tinha voz de rouxinol;

davam-lhe um copo de vinho

parecia um raio de sol.

 

Hoje é nome conhecido,

até tem discos gravados;

mas à tasca, agradecido,

vai cantar um ou dois fados.

 

Não cobra nem um tostão,

só quer goela molhada;

aquele vinho rascão,

feitinho à martelada.

 

Quando me lembro entristeço,

já tanto tempo passou;

e quanta coisa eu esqueço…

não aquilo que se amou!

 

Não vou lá e que saudade,

tanta vida a recordar;

ali, na velha cidade,

onde eu estive a morar.

 

Talvez um dia, um dia…

eu volte àquele lugar;

quase assim em romaria,

minha promessa pagar.

 

- Uma letra bem gira! – aprova Henrique. – Afinal de contas também se divertiam.

- Naquelas idades, e depois de nos termos safado daquelas batalhas infernais, tudo nos parecia já cor-de-rosa. A esperança voltou aos nossos corações. À tardinha, depois do jantar, íamos dar umas voltas (até o furriel Bonito podia passear livremente o seu pastor alemão, não correndo agora o risco de lhe deitar a G-3 ao rio, como o fizera antes); assistíamos às festas dos indígenas, entrávamos nas suas danças, embora eles não gostassem muito dessa intromissão (sabes que cantam e dançam quando morre alguém com idade avançada?! Ficam contentes porque, dizem eles, a pessoa viveu aquele tempo todo e foi feliz; choram os novos, pela razão contrária.)

- Julgo que estão certos. E como são os cemitérios deles? – pergunta Henrique, roído de curiosidade.

- Perguntas bem, mas francamente não me lembro! Penso que usarão campas térreas, pois jazigos – (com espaços fechados por paredes ou gradeamentos) – nunca vi; por outro lado, penso que enterram os seus mortos, não me apercebi que utilizem a cremação. Mas continuando: quando lá aparecia o homem da sétima arte, com a maquineta, víamos cinema – filmes antigos, já ultrapassados: Charlot, Cantinflas, Irmãos Marx, Bucha e Estica, Tarzan, dramalhões, fitas policiais, cow-boyadas…, ao ar livre, pois salas não existiam. A fita, já tão usada como o fato coçado e porco do seu dono, rebentava constantemente; o exibidor tentava consertar aquilo o mais depressa possível – pateticamente, ríamos. Ele não gostava nada de ouvir essas risadas hipócritas e mesquinhas, mas reconhecia humildemente que o público tinha razão. «Mas que diabo!» - comentava ele – «vocês querem galinha gorda por pouco dinheiro?! Pensam que é fácil andar pelo interior da Guiné a exibir filmes? Não estamos em Bissau

- Vocês não deviam ter gozado com o homem! - criticou Henrique, fazendo uma cara séria.

- Que é que tu queres. Achas, que era possível, e razoável, aguentar todas aquelas interrupções sem botar uma saudável e sonora gargalhada?! Certo dia, o capitão mandou reunir a Companhia e disse: «De Bissau pedem dois soldados para fazerem serviços de guarda. Se houver voluntários, que se ofereçam; caso contrário, terei eu de os escolher 

- Ofereceram-se às mãos cheias!

- Pelo contrário: ninguém se ofereceu! Depois de catorze ou quinze meses de guerra intensa; depois de termos percorrido quase todas as matas da Guiné-Bissau a pé; depois de tanta fome e sede; depois de tanto padecimento, ir agora para Bissau fazer guardas, quando se estava num lugar calmo, correndo embora alguns perigos… Não! Ninguém queria ir. Por outro lado, já se tinham criado laços de amizade, que iriam, porventura, durar toda a vida. O capitão retirou-se. Passado algum tempo o amanuense diz-me para me dirigir à Secretaria. Estremeci. Fez-me lembrar a Academia Militar. Peço licença e entro. Sem introito, o primeiro-sargento avisa-me: «Foste tu um dos escolhidos para ir fazer guardas em Bissau. Prepara as tuas coisas. Só voltas a integrar a Companhia quando esta embarcar para a Metrópole

- E o Cândido, como reagiu?

- Eu disse-lhe: «Desculpe, meu primeiro, mas eu sou condutor auto; as guardas, que eu saiba, são feitas por atiradores.» Ele, furioso, levanta-se com ímpeto da cadeira, e lembra-me: «Ordens, são ordens; não se discutem! Rapaz! Pega na trouxa e vai para onde te mandam

     Fiquei sem jeito! Mas a minha fragilidade perante aquela máquina militar saltava à vista. Eu era apenas um número. Com os colegas também não podia contar. A solidariedade só existia nalguns casos; neste, concretamente, sabia de antemão que não me ajudariam. Aliás, indo eu não iria um deles, como era óbvio. O egoísmo é muito forte no povo português.

- Haveria alguma razão forte para o afastarem?! – pergunta Henrique, incrédulo, aborrecido com aquela atitude prepotente.

- Penso que sim. Havia na Companhia um alferes, o segundo comandante, o tal militarista vaidoso de quem já te falei, que não apreciava muito a minha presença. Antipatia parva e inexplicável, porquanto nunca lhe fizera mal, nem lho podia fazer, mesmo se o quisesse. O meu maior defeito a seus olhos era porventura o facto de eu não gostar da tropa, da guerra, ou do que quer que fosse ligado à vida militar. Nem toda a gente pode apreciar as mesmas coisas. Por outro lado, a minha modéstia, simplicidade, desprendimento, representavam para ele uma ofensa, uma afronta. Para teres uma ideia do que te acabo de dizer, ouve esta: um dia os cabos especialistas resolveram promover um copioso almoço de confraternização, uma festa convívio, entre todos aqueles que possuíam especialidade. Contuboel, devido em parte à sua fisionomia singela, revelava-se lugar propício a estas manifestações.  

- Queriam, certamente, marcar a diferença!

- Talvez; mas de qualquer maneira, não havia espaço para todos. Convidaram os condutores, enfermeiros… e também os furriéis, sargentos e oficiais. O almoço, por deferência do comandante, seria servido na messe. As mesas estavam impecáveis: guardanapos em forma de flor – (as costas das mãos serviram-nos durante a campanha de guardanapos) – copos de vidro limpíssimos, pratos de vários tamanhos e talheres a condizer. Há quantos meses eu não comia num prato! As inestéticas, ferrugentas e velhas marmitas de lata ocupavam indevidamente o seu lugar. Que trabalheira elas davam para as limparmos: esfrega, esfrega, com areia, com sabão, e o esforço era quase em vão! O pitéu já cheirava; os aperitivos serviam-se numa mesa à parte. Quando me aproximo, a fim de me sentar, pergunta maliciosamente o militarão: «Que está aqui a fazer aquele soldado? Não me digam que tem uma especialidade?!»

- Imperdoável! O indivíduo era grosseiro. Como reagiu? – perguntou Henrique, de punhos cerrados, simulando uma agressão física.

- Timorato como era, tomei uma atitude que ainda hoje não sei se foi a mais correta.

- Insultou-o?

- Vontade não me faltou; pura e simplesmente ignorei o que tinha ouvido, engoli o vexame, recuei dois passos e sorrateiramente saí porta fora. Pensas que algum dos meus camaradas me foi procurar? Nem um!

- Quer a minha opinião? Fez muitíssimo bem. O que o meu amigo desejava era ver o tempo a passar. Se brigasse com ele, ou ripostasse, seria pela certa castigado.

- Não tinha, nessa ocasião, nem tenho agora, quaisquer dúvidas que isso me aconteceria. O pobre do soldado nunca levava a melhor. Ainda pensei, simbolicamente, esmagar-lhe a cabeça da sua própria sombra, mas até isso não pude fazer, pois ele protegia-a como o avarento protege o seu tesouro. Este era um forte motivo para eu desejar agora a partida. Mais guarda, menos guarda, ninguém morreria por isso, e as armas reais não me cairiam aos pés. Em Bissau teria a possibilidade de obter a carta de condução para profissionais, que um dia mais tarde me poderia vir a ser útil – nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Vale mais prevenir do que remediar, como diz o ditado. Apesar de ter conduzido pouquíssimo, o “bichinho” já tinha nascido, sobretudo com a cativante condução do jipe.

- Como se chamava o outro soldado que foi consigo?

- Comigo para Bissau seguiu também o Vinhais, atirador. Bom moço. Não tinha com ele grandes afinidades, pois tratava-se de um jovem quase analfabeto, embora de bacoco nada tivesse. O regime corporativista, superiormente comandado pelo hediondo Salazar, não deu grandes hipóteses de estudo a esses rapazes; a escola primária ficava longe dos lugares onde eles residiam. Por outro lado, aos seis, sete anos, já andavam a guardar gado no monte. Não havia estímulos, nem condições materiais, para os que trabalhavam na agricultura, na pastorícia, na pesca... Agora começa-se a fazer alguma coisa, vamos lá ver se conseguimos. Demo-nos sempre muito bem até ao dia em que fizemos o espólio em Tomar; depois disso nunca mais nos vimos. Ainda na região de Contuboel assisti a uma cena deveras interessante e elucidativa.

- Estou em pulgas para ouvi-lo – interrompe Henrique, há muito calado.

- Escuta: numa camioneta do nosso exército vinha uma data de negros com trajes de cerimónia (panos de cores garridas) e no meio deles uma figura feminina coberta dos pés à cabeça com um longo pano branco. Por mera curiosidade, perguntei o que se estava a passar e alguém me elucidou de que a bajuda, pois de uma virgem se tratava, tinha sido comprada aos pais por um dos chefes tribais da zona – um homem de idade avançada e já com várias mulheres e filhos!

- Fazerem isso à cachopa – não se admite!

- Espera: o velho pagara por ela umas quantas cabeças de gado! Sem o querer, fiquei horrorizado e com pena da catraia. Que raio de costumes eles albergavam no seu seio! Mas, graças a este acontecimento, fiquei a saber que as mulheres nesta parte de África não possuíam quaisquer direitos: compravam-se e vendiam-se como qualquer mercadoria – uma questão de preço! Elas, vítimas do sistema, nem sequer se queixavam: achavam tal coisa natural!

- Os movimentos de libertação da mulher não teriam ali nenhuma hipótese de êxito.

- Também acho. Mas repara que a maior parte das mulheres portuguesas também não desfrutavam, por esse tempo, de grandes liberdades. Os pais escolhiam o noivo para a filha, ou rejeitavam o que ela elegesse, caso não lhes agradasse. Não tinham rédea solta, como agora, podes crer. Não podiam sair à noite, só se fossem ver um filme, uma peça de teatro, um concerto, uma revista, mas acompanhadas pelos pais ou irmãos mais velhos, sempre bem vigiadas, porque a ausência da virgindade na rapariga era um anátema quase para toda a vida. Em nossos dias, salvo raras exceções, nenhuma moça vai virgem para o casamento. E mais: já consta que alguns namorados, sobretudo na cidade, se juntam para evitarem as ciclópicas despesas da boda. Os costumes estão a mudar em todo o lado. E com a emigração forçada, para França e outros países da Europa, os portugueses vão adquirindo outros hábitos, outras maneiras de viver.

- Ai eu, quero-me casar à antiga. A noiva vestida de branco, o noivo com o seu fato preto ou azul, uma cerimónia inesquecível. As fotos para o álbum, para depois mostrar aos filhos e aos netos, que lindo!

- Eu não me casarei na igreja católica, ou outra, devido a não ser religioso, mas casar-me-ei na Conservatória do Registo Civil. Ao fim, e ao cabo, tudo vai dar ao mesmo. Viver juntos, sem casamento, não concordo. No entanto, nem tu nem eu podemos alterar seja o que for; somos demasiado insignificantes para impedir essas coisas. Dizem por aí que é progresso. Talvez seja, mas eu nunca vou mudar. Se um homem gosta a sério de uma mulher, tem confiança nela, quer que ela seja a mãe dos seus filhos, deve casar com ela, provar-lhe que não foge às responsabilidades. O matrimónio é um acontecimento muito sério, que obriga por vezes a pequenos e grandes sacrifícios. Eu penso que vou ser um bom marido, mas também muito dependerá da esposa; se ela for meiga, compreensiva, etc., tudo dará certo. Enfim, o destino, e os deuses, antigos e menos antigos, saberão guiar-nos no nosso caminhar.

- Caro Cândido: esta conversa, interessantíssima, levar-nos-ia longe, mas o tempo esgotou-se. O relógio não para e nós temos de ir andando.

- Bem, então até à próxima. A seguir falar-te-ei de Bissau, uma cidade mais insignificante do que qualquer vila portuguesa.


continua...

terça-feira, 15 de setembro de 2026

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico


Por Joaquim A. Rocha  



18.º Capítulo

 

A CAMINHO DE CONTUBOEL

 

            Alguns dias depois do último aperto de mão, os dois amigos voltam a reencontrar-se. Henrique está cada vez mais familiarizado com a história de Cândido, começa a compreender melhor aquilo que se passou na guerra colonial. Nunca lhe passara pela cabeça que os soldados tivessem penado tanto. «De factopensava ele –, não há nada como a pazDirigindo-se ao amigo, saúda-o cordialmente:

 

- Boa tarde, Cândido. Então, vamos continuar a história?

- De boa vontade; já está quase a chegar ao fim. Tu já deves estar saturado de ouvi-la…

- Pelo contrário, estou entusiasmado; até merecia ser publicada em romance.

- Quem sabe! Mas uma coisa é narrar-ta assim, oralmente; outra coisa bem diferente é escrevê-la. Os verdadeiros escritores já nascem com esse dom, têm apenas de desenvolver as técnicas narrativas e adquirir um vocabulário rico e adequado à história que vão contar. Camilo e Eça na prosa, e Camões e Antero na poesia, são raros, apenas aparecem de quando, em vez. Eu, até hoje, somente escrevi umas cartas, uns pequenos artigos e poemas para a Revista dos Serviços Sociais da minha Empresa, nada mais! Terei um caminho imenso a percorrer para lá chegar.

- Nada se alcança sem sacrifícios e persistência - filosofa o jovem.

- Isso é verdade. Mas continuemos: encontrávamo-nos na colónia há cerca de catorze meses quando veio a ordem de Bissau para irmos para Contuboel, pequena localidade a alguns quilómetros da cidade de Bafatá; esta pequeníssima cidade situa-se junto ao rio Geba – o purgatório, depois do inferno em chamas! Perto dessa simpática aldeia achava-se a fronteira com o Senegal. Nessa altura era seu Presidente da República o poeta Léopold Sédar Senghor.

- Político e poeta – acrescenta Henrique.

- Nunca li nada dele, mas há quem diga que escreve bem. Nessa região, a prática da guerra, se é lícito dizê-lo, tinha um cariz diferente. A razão dessa diferença consistia sobretudo no facto de nessa zona a mata ser menos densa, com mais espaços abertos, talvez com mais população ligada ao homem branco, isto é, mais dependente materialmente do negócio, do comércio em geral, em suma: uma população mais europeizada, e também islamizada. Aqui até era mais fácil lidar com os africanos, pois alguns deles falavam a nossa língua, o que não acontecia no norte. A Companhia seguiu então para o seu novo destino e a mim enviaram-me para os adidos, unidade perto do Hospital, a fim de ser submetido a tratamento e arrancar os dentes cariados.

- Finalmente! Deve ter sofrido muito.

- Se sofri. Só eu é que sei quanto. Não me lembro quantos dias lá estive, presumo que uma semana. Dos adidos (quartel onde iam parar centenas de militares de todas as Companhias que atuavam na Guiné-Bissau) saíam a toda a hora viaturas para a capital, a estrada era asfaltada, não corríamos nenhuns riscos, a não ser o que provinha das altas velocidades que os condutores, embriagados pela emotividade, imprimiam às máquinas. Pelo que me disseram, e depois eu confirmei isso mesmo, os desastres ocorriam nesse troço com alguma regularidade. Depois daquela curta convivência com camaradas de todos os batalhões repartidos pela ex-colónia, ouvindo relatos de duras batalhas e pequenos episódios do quotidiano, e depois de ter feito tratamento ao estômago e me extraírem dois dentes, chegou o dia da partida. Tinha de me juntar novamente à Companhia. De Bissau até perto de Bafatá fui, ao longo do rio, em um barco da marinha. A lancha, a certa altura, não pôde prosseguir porque a partir daí o rio tinha pouca profundidade e apresentava-se demasiado estreito. Desembarcámos, eu e demais colegas de outros regimentos, e dirigimo-nos para o quartel ali próximo. O nome desse belo lugar, não o conservei na minha memória.

- Talvez tenha o nome do rio! – aventou Henrique.

- Não sei. É possível. Dali fui transportado em jipe até Bafatá por uma estrada novinha em folha que, apesar de ser de terra batida, poder-se-ia considerar uma das melhores da ex-província. Pelo caminho avistámos alguns macacos, tão corpulentos que até pareciam chimpanzés. Olharam para nós com alguma desconfiança e desataram a correr, aos guinchos, pelo interior da floresta. Por graça, disse ao motorista: «E se lhes déssemos uns tiros?!» Parou o jipe e, mais entusiasmado ainda do que eu, aquiesceu: «É para já, camarada!» Descemos e andámos uns bons metros, atirando, atirando, sem acertar em nenhum. Fiquei satisfeito. Apesar de ter sido eu a sugerir tal disparate, tal tolice, não gostaria de ver morrer um bicho que nenhum mal nos fizera e que se encontrava a passear tranquilamente no seu habitat natural. Regressámos ao jipe e seguimos caminho. Bafatá parecia estar em festa. Gente movimentando-se, lojas escancaradas ao público, viaturas militares de um lado para o outro. Enfim, via-se bem que não estávamos no mato. Cidade é cidade, mesmo sendo, como esta, uma pequena urbe.

- Até parece que tinha terminado a malvada guerra!

- Não, não acabara, infelizmente. No entanto ali havia mais sossego. Os militares não pareciam tão acabrunhados como no norte; riam-se, diziam chalaças acerca dos guerrilheiros, embora os temessem, pois com frequência havia tremendas escaramuças, das quais resultavam feridos e mortos. Constava que os homens de Amílcar Cabral…

- Viria a ser assassinado a 20 de Janeiro de 1973 – lembra Henrique, com alguma tristeza no seu semblante, pois simpatizava com ele.

- É verdade. Oxalá essa morte nunca tivesse acontecido; mas isso já é outra história. Quando ele foi abatido já eu tinha regressado da Guiné havia seis anos! Ia então dizer-te que os paigecês afixavam avisos nos caminhos, ameaçando de morte a nossa gente; nunca li nenhum, mas acredito que seja autêntica essa informação. Algumas vezes desloquei-me em serviço a esta minúscula cidade, altura em que todos aproveitavam para visitar as «pegas», como ironicamente as designava o furriel Galhardo, o “escangalhado”, como entre nós, praças, era conhecido, porque ao andar, e devido talvez à sua coluna pouco direita, dava sempre a sensação de ir cair ora para um lado, ora para outro!

 

     Cândido levantou-se da cadeira e tentou imitar o furriel, mas desajeitadamente. Henrique achou graça, e riu-se a bom rir. Depois de um momento hilariante, continuou:

 

     No princípio eu não sabia do que se tratava; pega, para mim, era uma ave dos campos. Por que razão chamariam esse nome a estas mulheres de vida fácil?!              

- Caríssimo Cândido: afinal a maldita prostituição está espalhada por todos os continentes!

- Infelizmente é verdade; olha que a tendência é para aumentar. E arrasta consigo outros malefícios… A droga, por exemplo! A dicotomia entre pobres e ricos acentua-se dia a dia assustadoramente. Em muitos países: de África, Ásia, América Latina, as raparigas iniciam a sua prática aos doze, treze anos! É o fim das civilizações alicerçadas na moral!

- Isso acontece sobretudo no chamado terceiro mundo…

- No segundo, e até no primeiro! A prostituição é uma praga que acompanha o ser humano ao longo dos séculos. E não há uma explicação racional para este fenómeno. Como é que uma mulher vende o seu corpo por dinheiro? E como é que um homem vai manter relações sexuais com uma fulana que pertence por uns minutos a quem lhe paga?!

- E o risco que correm… as doenças, devidas quase sempre por falta de higiene.    

- E a dignidade, Henrique, a dignidade! E acima de tudo as crianças que nascem desses atos impuros. Não foram desejadas, ninguém as quer, nem a mãe nem a sociedade. Nascem com um estigma, com a marca da maldição. Salvo raríssimas exceções, serão umas miseráveis, a escumalha, a cloaca…

- E por sua vez trarão ao mundo outros seres!

 

     A noite aproximava-se vertiginosamente, e os dois amigos tiveram de se despedir mais uma vez.

 

continua...

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico


Por Joaquim A. Rocha 



17.º Capítulo

 

AS LAVADEIRAS

 

     Após uns dias sem se verem, os dois amigos retomam a conversa, como habitualmente à mesa de um Café na Baixa Lisboeta. O verão já se fora, e agora tinham de ficar na parte de dentro, respirando o ar impuro, poluído, motivado sobretudo pelo maldito fumo do tabaco. Não sei que dera aos portugueses, cada vez fumavam mais, agora até as raparigas e senhoras o faziam, mesmo na rua, numa exibição bacoca, parola, prejudicando a sua saúde e a dos outros! O efeito já se começava a notar, sobretudo nos dentes. O dinheiro para essa droga não sei aonde o iam buscar, pois cada maço custava os olhos da cara e a malta nova não tinha quaisquer rendimentos. É provável que fosse parte do dinheiro que os pais lhe davam para se alimentarem na cantina da Escola, eu sei lá! Alguns médicos iam aconselhando os jovens a deixarem de fumar, pois, o mais certo, era virem a sofrer do coração, cancro, e até os dentes perdem o protetor esmalte e tornam-se amarelados! Depois de se cumprimentarem, Cândido dirigiu-se ao amigo com estas palavras simpáticas:

 

- Louvo a tua insaciável curiosidade relativamente à vida do soldado enquanto combatente nas matas africanas. Quanto às lavadeiras vou contar-te aquilo que sei. No que me diz respeito, eu entregava de facto a roupa a lavadeiras, mas jamais olhei para elas como potenciais amantes. Digo-te mais: sempre manifestei algum receio em ter relações de tipo íntimo com essas mulheres. Não por me achar superior, ou um anjo, mas sim por causa das doenças venéreas. Preferia a abstinência. Nesse tempo não distribuíam preservativos, mas sim umas bisnagas para se usarem após a cópula. A sua eficácia era diminuta, não ofereciam grandes garantias.

- Os seus colegas da altura não seriam assim tão castos… - tenta tirar nabos da púcara o jovem interlocutor.

- É provável que um ou outro, os mais aventureiros, quiçá os mais imprudentes, esquecessem os perigos que desse ato adviriam; arriscavam a sua saúde pelo simples prazer carnal – era com eles! As lavadeiras negras sempre me mereceram o máximo respeito e consideração. Trabalhadoras conscientes, procuravam servir o melhor possível, nunca tive queixa delas. Muitas dessas mulheres tinham uma caterva de filhos, provavelmente mães solteiras, dava-lhes as minhas rações de combate (carne de porco e de vaca, atum, sardinhas, chouriço, etc., tudo isso em latas de conserva), além de lhes pagar o preço de tabela.

- Que era baixo, suponho – quis saber Henrique.

- Tudo é relativo; se levassem muito caro também não lhe poderíamos entregar a roupa. Os nossos ordenados eram curtos, como sabes. Moravam quase sempre perto dos tropas e os seus rendimentos provinham exclusivamente desse trabalho. As inúmeras crianças aguardavam pacientemente que acabássemos de comer para depois requisitarem os restos, não os das marmitas, mas sim aquela comida que sobrava nas terrinas e caldeirões.      

- Depois da independência, essas crianças ficaram sem essa fonte de alimentos…

- É verdade; mas isso já não é problema nosso. Por outro lado, aquilo não se podia prolongar eternamente. Que estudem, que trabalhem, que se tornem independentes economicamente. Ninguém pode, nem deve, viver uma vida inteira à sombra do rancho dos militares: é aviltante, indigno de um ser humano. A igualdade entre as raças passa sem dúvida pela negação da subserviência. A mendicidade submerge a dignidade; o homem negro tem de compreender isso.

- Você exalta-se com facilidade!... – observa Henrique.

- Empolgo-me um bocado, é certo; mas a minha indignação é motivada pelo servilismo de alguns: sejam amarelos, brancos, negros, vermelhos, ou de outra qualquer cor ou raça. O ser humano deve emancipar-se; somos todos donos do planeta e, por isso, sem exceção, temos direito a nele residir com dignidade.

- Estou plenamente de acordo consigo, amigo Cândido. O planeta Terra é de todos os seus habitantes, mas nem todos pensam assim... Mas falava-me das lavadeiras…

- Como já te disse anteriormente, a maioria dos soldados, cabos, furriéis e sargentos, dava a sua roupa a lavar às lavadeiras africanas. Os oficiais, como ganhavam bem, contratavam, a maior parte deles, empregada doméstica; as esposas, quando casados, habitavam numa das cidades mais próximas do acampamento. Sabes que se contava uma história de adultério acerca de um destes casais, separados periodicamente devido à guerra?      

- Uma história de faca e alguidar, calculo!

- Mais ou menos. Queres ouvir?

- Quero, quero… – diz Henrique, eufórico.

- Pois bem: um oficial, suponho que alferes miliciano, foi mobilizado para a Guiné logo depois de ter rebentado a insurreição armada. Como era casado, e a mulher pouco mais de vinte anos teria, resolveu chamá-la para a sua beira, não fosse um gabiru rondar-lhe a porta. Arrendou uma casa numa pequena cidade, Mansoa, salvo erro, e espera com ansiedade e pacientemente que a esposa chegue. Abraços e beijos, misturados com grossas lágrimas de alegria. Passava um dia ou dois em casa, quinze dias no mato, e o tempo ia assim decorrendo. Certo dia, ou melhor, certa noite, aparece de surpresa no lar. Metralhadora a tiracolo, fatigado, mete a chave à porta e entra. Ouve uns suspiros estranhos, pensou que a sua mulherzinha sonhava: «sonha comigo, possivelmente!» - sussurrou.

     Pousa a arma nas costas de uma cadeira e prepara-se para se descalçar. Os gemidos e ais aumentam de intensidade e ele fica confuso. Pega na arma, pé ante pé, e dirige-se para o quarto de dormir. Parece-lhe ser de lá que provêm os tais ruídos. Arreda a porta e o que os seus olhos veem, embora numa meio escuridão, são dois corpos nus, juntos, enleados, movendo-se, ora lenta, ora com frenesim. As suas bocas ora se beijam ora deixam escapar gritinhos de prazer e êxtase. O nosso homem ficou bloqueado, estupefacto, não querendo acreditar no que via: «Não, não estou aqui, deliro

     Ergue a arma e aponta: pum! Dispara todas as balas do carregador. O sangue dos amantes esguichou por todo o quarto, a cama ficou num poço de líquido vermelho, vermelho!

- Terrífico desfecho, esse! E o oficial, que fez a seguir? – pergunta Henrique, bastante comovido, quase não acreditando naquilo que ouvira.

- Há quem diga que ele se suicidou após esse ato de desespero. Uma outra versão diz que ele se entregou às autoridades militares, cujo tribunal o condenou a uma comissão em Angola ou Moçambique, onde morreu em combate.

- Se soubessem o nome dele, seria fácil seguir-lhe o rasto…

- Ninguém sabe, somente os militares, e esses abafaram o caso.

- Que ela lembra outras histórias similares, verídicas, isso lembra. E tomaram conhecimento, ao menos, do nome do alvejado, do amante da adúltera?

- Aí as coisas complicam-se. Há quem diga que se tratava de um rapaz negro, de vinte anos de idade, criado do casal, muito habilidoso na cozinha, sorridente, simpático, bem-parecido.

- Pelos vistos, também era exímio na cama…

- São apenas boatos. Se foi esse rapaz, fora batizado não havia muito tempo, a solicitação da senhora, por sinal bastante religiosa, muito temente a Deus.

- Então, se o moço recebeu o banho na pia batismal, o pecado era menor…

- Brinca, brinca, maroto!

- Contudo, apontam outros suspeitos?

- Também se falava em colegas: solteiros, com um clima quentíssimo, muito piripiri na comida, afrodisíaco por excelência, enfim! São apenas suposições. A verdade, só os altos graduados a souberam.

- Muito interessante essa sua historieta. E as…

- Já sei: as lavadeiras. Algumas delas estragavam uma camisa, umas calças, mas que se havia de fazer? Não possuíam os ferros de engomar que agora existem, a eletricidade, e a vapor, e não dominavam ainda todas as técnicas de tal mester. Mas também os preços que cobravam não eram de molde a exigir-lhes perfeição. Quanto ao resto, bem: algumas viram aumentar o rol de filhos, os mulatos, a cor que não pode negar a sua origem. São eles que atestam a passagem do homem branco pela terra dos negros. Até se dizia que uma dessas mulheres veio com seu filho a Portugal à procura do militar que lho arranjara… Tretas!

- Repugnava-lhe casar com uma mulher de cor negra?

- A essa pergunta não é fácil responder. Penso, no entanto, que seria um verdadeiro disparate um branco casar com uma negra do mato se tencionasse vir para Portugal. Sabes por quê? Porque ela não iria adaptar-se facilmente à vida europeia. E como apresentá-la aos pais? «Eis aqui a minha esposa. Não fala a nossa língua, não sabe o que é morar numa casa de pedra, como a nossa, com divisórias, ignora o que é uma casa de banho! Vivia em uma palhota de barro amassado, coberta de capim.» E depois? Seria uma confusão tremenda.

- Até podia dar certo – retruca Henrique.

- Desde que ele ficasse a residir em África, não digo que não. E isto que te estou a dizer nada tem a ver com racismo, mas sim com culturas, com maneiras de gerir a vida: os negros que residem na selva são muito infelizes quando se encontram longe de África, do seu meio natural.


continua...