ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES
Por Joaquim A. Roccha
continuação...
- António de Santa Maria dos Anjos Melgaço
(Frei). Nasceu no concelho de Melgaço a 17 de junho de 1718. Foi frade
franciscano. Professou no Convento de São Francisco de Lisboa a 22 de janeiro
de 1731. Fez os estudos de Filosofia e Teologia no Colégio de São Boaventura da
Feira, em Coimbra, entre 1731 e 1737. Foi professor nos Estudos de Mafra (fundados por D. João V) nos anos de 1737 a 1752.
Devia ser uma pessoa deveras inteligente e curiosa, pois o próprio rei o incita
a prosseguir os estudos. Segue os conselhos do monarca, e em 1743 adquire um
doutoramento em Teologia na Universidade de Coimbra, talvez o primeiro
melgacense a conseguir tal feito. Como escritor, deixou várias obras, todas
elas redigidas em latim. Uma delas tem por título «SCOTUS ACADEMICUS, seu
Philosophia Peripatetica ad commodiorem regalis Academiae Mafrensis usum, juxta
mentem venerabilis, subtilisque Magistri Joannis Duns Scoti.» (Tomo I, Lisboa, 1747). Por ter sido eleito
provincial «da sua província», em
1751, viu-se obrigado a suspender por algum tempo a continuação da obra. O
segundo volume estava em impressão apenas no ano de 1755, o qual se queimou
aquando do grande terramoto. No Convento de São Francisco arderam também, nessa
altura, outros escritos da sua autoria, que tinha prontos para publicação. Em
1759 publicou, completamente revisto, o tomo II do «SCOTUS ARISTOTELICUS». Os
dois volumes debruçam-se sobre a «logica
parva», ou seja, pequena lógica, e a «logica
magna», que significa grande lógica, «e
interessam para o conhecimento do movimento de ideias em Portugal no século
XVIII e dos estudos na escola de Mafra». Faleceu em Vila do Conde a 14 de
Agosto de 1780, com 62 anos de idade. // Quem desejar consultar a bibliografia
pode fazê-lo em {Frei António do Sacramento, História Seráfica, sexta parte, manuscrito 703, da Torre do Tombo.
/ Memória da forma com que Dom João o
Quinto mandou para Mafra religiosos para Lentes de Faculdade, manuscrito
801, folhas 682 e seguintes, do arquivo da casa Cadaval (Muge). / A. A. Andrade, A Orientação do Estudo da Filosofia dos Franciscanos, in Brotéria
43 (1946), páginas 43 a 45.} // (Verbo –
Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, páginas 648 e 649).
###
- Jerónimo José Andrade. Filho do Dr. Francisco Daniel Nogueira, médico do exército, e de
Mariana Josefa Veloso de Campos de Andrade. Nasceu em Melgaço em 1750. // No
Dicionário Histórico, Biográfico, etc., na página 511 lê-se: «escritor que se conhece somente pela sua
obra, intitulada “Descrição do estado em que ficaram os negócios da capitania
de Moçambique nos fins de novembro de 1789, com algumas observações e reflexões
sobre as causas da decadência do comércio, e dos estabelecimentos portugueses
na costa oriental da África”. Escrita no ano de 1790. Saiu no Investigador
Portuguez, no ano de 1815, começando no n.º XLVI, e continuada nos seguintes
até ao LIV, em que terminou.» // Na Wikipédia acrescentam-se mais alguns
dados. Diz-se aí que tinha sido militar, e secretário do governo de Moçambique
de 1783 a 1784; com a patente de brigadeiro, foi comandante das armas de Pará,
Brasil, a 5/3/1803. Também fora nomeado governador da capitania de Santa
Catarina, mas não assumiu o cargo. // Escreveu o general A. E. Mateus da Silva:
{Em 1796, e então sargento maior do regimento de artilharia da marinha, JJNA
foi autor do «Projecto de huma nova arma
Portuguesa». Este manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional,
carateriza-se por uma grande minuciosidade, e nele o seu autor descreve a
construção de uma arma balística que designou “foguete incendiário”.}
###
- Aníbal Bernardo
Rodrigues Passos (Padre). Filho do Dr.
Francisco Luís Rodrigues Passos, médico-cirúrgico, natural de Paços, Melgaço, e
de Ludovina Rosa Monteiro de Vasconcelos Mourão, natural de Viana do Castelo,
moradores na Vila de Melgaço. Neto paterno de Bento Isidoro Rodrigues e de Rosa
Maria Salgado, de Paços; neto materno de Vitorino Monteiro Vasconcelos Mourão,
de Vila Real, e de Albina Clara de Abreu Cunha Araújo, de Melgaço. Nasceu na
Rua da Calçada, Vila de Melgaço, às sete horas da manhã de 23 de Dezembro de 1866
e foi batizado a 14/1/1867. Padrinhos: a sua avó materna e o padre Bernardo
António Rodrigues Passos, seu tio paterno, pároco colado da freguesia de
Arnoso, Famalicão, representado por seu procurador, Gaspar Eduardo Lopes da
Fonseca, contador do Juízo de Direito. // Ordenou-se em 1890, ficando adido à
corte do bispo de Meliapor como secretário particular até 1892, ano em que
cantou missa nova. // Foi redator de “O Melgacense”, propriedade de José
Cândido Gomes de Abreu; de “O Século”; e de “A Pátria”. // Colaborou nos
jornais: “Jornal de Notícias”; “Jornal de Viagens”; “Zé Povinho”; “Revistas das
Escolas”, etc. // Como escritor sobressai a sua “Tragédia de Lisboa – A
Política Portuguesa”, obra com 322 páginas, escrita logo após o regicídio de
1/2/1908 (Jornal de Melgaço n.º 733). Cada brochura custava 600 réis (se
fosse pelo correio 630 réis); encadernado, em
capas especiais, vendia-se a 800 réis (pelo correio 850 réis). // Era também um distinto orador sagrado, sendo notável o
sermão “A Cruz”, por ele composto e pregado em Matosinhos a 7/5/1899. //
Reconhecendo o seu mérito, nomearam-no sócio ordinário da Sociedade de
Geografia de Lisboa. // Em 1915 era diretor do Colégio da Beira Mar, em Leça de
Palmeira, Matosinhos. // No governo de Sidónio Pais foi chefe de gabinete
ministerial do Dr. Alfredo de Magalhães. // Parece que foi professor na
Universidade de Lisboa. // Morreu no Campo Grande, Lisboa, a 8/1/1934; os seus
restos mortais jazem no cemitério do Lumiar (Notícias
de Melgaço n.º 219, de 14/1/1934). // Nota: consta
que o padre Aníbal Bernardo teve, já
sacerdote, uma aventura amorosa com uma jovem, talvez Afra de Castro Louzada,
solteira, nascida na freguesia do Bomfim, Porto, por volta de 1873, surgindo
dessa paixão um menino, a quem deram o nome de António Aníbal (Toi), o qual usou o apelido
Rodrigues Passos; o moço estudou engenharia, concluindo o Curso. O Eng.º
António Aníbal Rodrigues Passos (Toi) finou-se em Luanda, Angola, em 1975 (salvo erro), com cerca de 70 anos
de idade. Fora criado por uma irmã do progenitor, talvez a Ludovina Augusta.
Era anti-salazarista, tendo sido perseguido pelo regime corporativista.
Trabalhou em Goa, Moçambique, em São Tomé e Príncipe, e finalmente em Angola,
onde morreu solteiro. Era amante da leitura, deixando por sua morte uma
riquíssima biblioteca. // (Estas
valiosas informações foram-me fornecidas por João Carlos Magno de Castro,
nascido na Vila de Melgaço em 1945, da Casa de Galvão, que conviveu com o dito
engenheiro em Angola).
###
- Augusto César Esteves (Dr.) Filho de Francisco António Esteves, emigrante no Brasil e
proprietário, natural de Chaviães, e de Belarmina Cândida Esteves,
proprietária, natural da Vila. Neto paterno de Diogo Manuel Esteves e de Maria
Rita Esteves, lavradores, chavianenses; neto materno de Manuel José Esteves
“Melgaço” e de Maria Rita Alves, proprietários, moradores em Eiró, Rouças.
Nasceu na Rua Nova de Melo, SMP, a 19/9/1889, na casa que seu pai comprara ao
Dr. João Luís de Sousa Palhares, de Prado, e foi batizado a 3 de outubro desse
ano. Padrinhos: José de Jesus Esteves, solteiro, proprietário, morador em SMP,
e a avó materna do batizando, viúva. // Ficou órfão de mãe a 17/10/1889. //
Aprendeu as primeiras letras com o padre João Nepomuceno Vaz, teve como
professor de caligrafia o escrivão de Direito, Miguel Ângelo Barros Ferreira,
frequentou em seguida, na cidade de Braga, o Colégio do Espírito Santo, e
depois a Universidade em Coimbra. // Foi padrinho de Zoé Augusta Rodrigues,
batizada na igreja de Rouças a 14/2/1898; não assinou, por não saber! A
madrinha era a sua madrasta. // A 30/8/1904 foi padrinho de Manuel Augusto
Esteves, nascido na Fonte da Vila a 28 de julho desse ano. // A 18/6/1912 fez
direito internacional, 5.º ano, 19.ª cadeira; nesse mesmo ano fez exame da 18.ª
cadeira, 5.º ano, medicina legal, obtendo 14 valores; em julho desse ano fez a
13.ª cadeira, direito colonial, 4.º ano, 14.ª cadeira, processo penal, 4.º ano,
e 17.ª cadeira, prática extra judicial, 5.º ano; nesse dito ano de 1912, no mês
de Julho, concluiu o curso de Ciências Jurídicas, na já citada Universidade de
Coimbra. // Nos primeiros dias de dezembro participou como ator não
profissional, juntamente com o Dr. António Augusto Durães e Maker Pinto, na
comédia designada “Anedota” (Correio de Melgaço
n.º 27, de 8/12/1912). // Foi nomeado notário interino para
a comarca de Monção, tomando posse perante o tribunal desse concelho a
10/12/1912, terça-feira; em 1914 passou a ser efetivo (Correio de Melgaço n.º 88, de 22/2/1914); ocupou esse cargo até 19/8/1915. // Ainda em 1912 foi autorizado
superiormente a exercer a advocacia (Correio
de Melgaço n.º 29, de 22/12/1912). //
Fez a sua estreia como advogado no tribunal de Monção, defendendo Manuel Alves
(o Fará),
acusado de crimes de burla e roubo (Correio
de Melgaço n.º 47, de 27/4/1913). // No concurso
para notários, realizado em Lisboa nos inícios de 1914, obteve a classificação
de 1 MB e 4 BB (Correio de Melgaço n.º 85, de 1/2/1914). // Tomou posse a uma segunda-feira, 2/3/1914, perante o
juiz de direito, de notário efetivo em Monção (Correio
de Melgaço n.º 90, de 8/3/1914). // Casou a
25/10/1914, na Conservatória do Registo Civil, e a 16 de Dezembro desse ano na
igreja católica, com Esmeralda da Ascensão, de 24 anos de idade, filha de
Justiniano António Esteves e de Lina Rosa Lourenço. Testemunhas: Justiniano
António Esteves e Maria de Nazaré dos Santos Lima. // Em 1915 pediu a
exoneração de notário na comarca de Monção, aceitando ser nomeado escrivão de
Direito para a comarca de Melgaço. Fez as malas e veio para a terra natal, onde
foi Secretário do Tribunal Judicial e Ajudante do Conservador do Registo Predial.
// A 3/3/1919 tomou posse como presidente da Comissão Camarária, composta por
sete elementos, desempenhando esse cargo até agosto desse ano. // A 4/8/1919 o
seu moinho, denominado o “Grande”, foi pasto de chamas; desconfiava-se que
foram mãos criminosas a incendiá-lo (JM 1258,
de 17/8/1919). Em 1920 deu-se ali uma tentativa de
assalto (JM1293, de 20/6/1920). // Foi presidente da Assembleia Geral do Grémio da
Lavoura e administrador do concelho de Melgaço nos anos de 1922 e 1923. // A
11/1/1928 desempenhava as funções de tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia
de Melgaço, ascendendo à provedoria a 27/12/1942, lugar que deixou em 1945. //
A 30/4/1936 tomou posse do lugar de chefe da Secretaria Judicial do Tribunal de
Melgaço, aposentando-se na 1.ª classe em maio de 1958; antes exercera o cargo
de chefe da 2.ª Secção do mesmo tribunal. // Pode, e deve ser, considerado o
principal fundador dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, de cuja direção foi
presidente durante vários anos. Em 1937, em reunião da Assembleia Geral, foi
aprovada por unanimidade uma proposta do corpo ativo, elegendo-o seu comandante
honorário «pelos relevantes serviços
prestados à corporação desde a fundação desta tão útil e benemérita instituição»
(NM 346). // Era republicano convicto, mas
teve de calar e consentir muita coisa durante a ditadura corporativista, que
infelizmente não viu desaparecer. // Polemicou com o padre Júlio Vaz e com o
“Mário de Prado”, mas sempre com educação e respeito devidos. // Lê-se no
Notícias de Melgaço n.º 851, de 14/3/1948, página 4: «O Sr. Dr. Augusto César Esteves é um fumador inveterado: abriu uma
gaveta, tirou um maço de tabaco superior, fez um paivante, acendeu-o e
principiou a fumar. (…) Um outro
cigarro se enrola e começou a arder, subindo ao ar espirais de fumo.» // Em
Julho de 1948 era presidente da Assembleia Geral dos BVM (NM 865, de 18/7/1948). //
Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 974, de 22 de Abril de 1951: «Para o Porto, e a fim de se submeter a
tratamento especializado, partiu no passado domingo o senhor Dr. Augusto César
Esteves, muito digno chefe da Secretaria Judicial desta comarca. Têm sido
inúmeras as pessoas que procuram informar-se do seu estado, o que não admira
dadas as suas altas virtudes e qualidades de simpatia. Notícias de Melgaço, que
mui honrosamente conta Sua Excelência no número dos seus amigos dedicados,
deseja-lhe um rápido restabelecimento e um breve regresso para o meio dos seus
amigos que tanto o apreciam.»
«Conforme
notícia já publicada neste jornal encontra-se no Porto, por motivos de saúde, o
Ex.mo Sr. Dr. Augusto César Esteves. Por informações recebidas, sabemos que
este ilustre melgacense, e nosso querido amigo, foi operado no Hospital da
Trindade, no passado dia 20, e que graças a Deus tudo correu à medida dos
desejos, dos seus familiares e dos seus numerosos amigos. E, assim, dentro de
breve tempo, teremos o prazer de o ver e abraçar de [novo]. “Notícias de
Melgaço” (que reconhece a desinteressada amizade que deve a Sua Ex.ª), congratula-se
pelas suas melhoras e faz sinceros votos para que seja muito breve o seu
regresso.»
Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 977, de
13/5/1951: «Vindo do Porto, já se
encontra entre nós o Ex.º Sr. Dr. Augusto César Esteves, que – graças a Deus –
se encontra em franca convalescença. “Notícias de Melgaço” apresenta ao seu
querido amigo os sinceros cumprimentos de boas vindas.»
Escreveu vários livros sobre Melgaço, que
editou à sua custa. Postumamente (1989 e
1991) foi publicada a sua obra “As Minhas
Gerações Melgacenses”, e ainda Obras Completas, Volume I, Tomo I e II (2002) com artigos por si publicados no
Notícias de Melgaço ao longo de vários anos. Por razões que se desconhecem, a
reedição das suas obras foi interrompida. // Os seus livros abriram sem
quaisquer dúvidas as portas a outros investigadores, e vão tornar possível
escrever-se uma história relativamente bem documentada sobre o concelho. //
Possuía uma boa biblioteca, a qual foi vendida pelo filho, depois da sua morte,
a um alfarrabista do Porto, por cinquenta contos de réis! // Augusto e Esmeralda
faleceram na Vila: a esposa a 4/12/1956 e ele a 26/3/1964; o seu funeral
realizou-se no dia seguinte, sexta-feira. // (ver
JM 1057, de 29/10/1914, CM 124, de 10/11/1914, NM n.º 18 e NM 1413). // A Câmara Municipal de Melgaço, presidida por Rui
Solheiro, deu em agosto de 2009, a uma rua da Vila, o seu nome.