domingo, 30 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


6.º Capítulo

 

SANTA MARGARIDA

 

  

     Naquela tarde calma, serena, nem sequer uma folha das árvores do Rossio bulia. O calor começava a apertar, convidando as pessoas a ingerir mais líquidos. Toda a gente procurava uma sombra, a fim de fugir à torreira do sol. Na mesa do Café Suíça, onde já tanta gente se sentara antes, os dois amigos cavaqueiam animadamente. Dizia Cândido:

 

- Da Academia Militar parti, ai de mim, triste e cabisbaixo, mais infeliz do que uma viúva, para Santa Margarida, freguesia do concelho de Constância, distrito de Santarém. Nome de santa e de flor, nome lindíssimo, mas sem nenhuma santidade, além da capela inaugurada em 1959, e com cheiro a pólvora e a gasolina, não a capela, claro está, essa cheirava a incenso, unidade bem conhecida nos círculos castrenses, por ser palco de manobras militares.

     Estávamos em Novembro. O outono, nesse ano de 1965, mostrava-se mais agressivo do que em anos anteriores, segundo a meteorologia e informações de militares que ali já estavam desde 1964. A chuva e o frio, coniventes, de uma cumplicidade demoníaca, davam as mãos na sua luta sem tréguas contra o desgraçado do magala que não possuía meios suficientes para deles se defender. Ainda, por cima, os treinos eram longos, fastidiosos, e pouco ortodoxos: simulavam-se ambientes de guerra; saíamos à noite nas viaturas, luzes apagadas, pelos montes da região.

     Não havia estradas, mas sim caminhos de cabras, íngremes, e até regatos sinuosos tínhamos de atravessar! Numa terrível noite, mais negra do que o breu, tombei o meu «Unimog», viatura mais feia do que um dinossauro carnívoro. Não houve feridos graves, pois a velocidade a que íamos não o justificaria, contudo não pudemos tirá-lo do buraco onde caiu. Somente no dia imediato, pela madrugada, o guindaste arrancou aquele monstro pré-histórico da ridícula posição em que ficara.

- E foi castigado? – perguntou Henrique, com dó do amigo.

- Querias maior castigo do que ir para a Guiné-Bissau? Para uma luta armada? Eu, que só usara a fisga para caçar pássaros, e mesmo assim sem qualquer pontaria, rindo-se eles de mim, sobretudo os pardais e os melros, velozes, desconfiados – não conseguindo apanhar nenhum.

- Bons tempos! – comenta Henrique, sonhando tempos que não vivera.

- Em parte, sim; brincava, trabalhava, andava na escola, mas havia muitas carências…

- A riqueza em Portugal esteve sempre muito mal distribuída – lembra Henrique, com pesar.

- É verdade. Desde Afonso Henriques que isso acontece no nosso país. Poucos têm muito, e muitos pouco ou nada têm! Mas continuando: o campo de treinos de Santa Margarida lembrava, nessa ocasião, o verdadeiro inferno. Escassa comida, e mal confecionada, hostilidade, atmosfera psicológica pesada. O medo pairava à nossa volta, anunciando o próximo futuro: violento e incerto. A guerra, esse mostrengo de sete cabeças, esperava-nos ansiosamente.

     Santa Margarida: fome e frio, ódio e desprezo. Antro de duros, estéril, árida. Aí não havia lugar para a ternura. Os soldados, mesmo querendo sair nas suas curtíssimas folgas, não tinham para onde, embora os mandões dissessem que existia perto um barracão no qual se exibiam uns filmes – nunca lá fui. Provavelmente seriam fitas de propaganda corporativista, onde se destacariam as caras sinistras dos governantes: Salazar, Tomás e companhia.         

- Parece que esses rostos o marcaram!

- Bem podes crer. Ainda hoje sinto náuseas quando vejo aquelas caretas horríveis, cujos olhos espalham ódio e vingança.

- Mas não houve nenhuma personagem simpática durante aqueles anos todos?!

- Quanto a mim, a figura mais simpática do regime saído da ditadura militar de Maio de 1926 talvez tenha sido Duarte Pacheco, que morreu em 1943, ainda eu não nascera, com apenas quarenta e quatro anos de idade. Era um homem de iniciativas, dinâmico, com personalidade vincada. Não obedecia cegamente ao «Chefe» e talvez daí a sua morte prematura.

- Está a insinuar que foi assassinado?!

- Quem sabe…; há mortes e mortes! Mas voltando a Santa Margarida: era, nessa altura, um lugar ermo e sombrio. Matagais e mais matagais; fardas e mais fardas; manobras e mais manobras! Mas, mesmo que houvesse zonas de divertimento ou lazer, o cansaço não convidava ao passeio, nem as moedas tilintavam em nossos vazios bolsos. O pouco que havia era para enganar a fome.

- Custa a acreditar naquilo que estou a ouvir!

- Tudo isso é a pura verdade. Corpos mal alimentados, exercícios que se prolongavam pela noite dentro, obrigavam-nos a esquecer o exterior, o outro “mundo” – nós tínhamos sido selecionados pelo tenebroso deus Marte: deveríamos tudo fazer para merecermos essa distinção.

- Todos sofremos ao longo da vida… - filosofa Henrique – mas...

- Uns mais, outros menos. Muitas pessoas minhas conterrâneas, alguns anos mais tarde, contaram-me que muito padeceram e aguentaram em França, na Alemanha, no Canadá, e noutros países, a esgalhar dez e doze horas por dia, nas obras de construção civil, nos caminhos-de-ferro, aeroportos e autoestradas, nas minas, nos vários trabalhos pesados, que lembravam os tempos da escravatura, e até antes já tinham padecido, quando tiveram de ir a “salto” para lá chegarem. Eu, a esses, falei-lhes assim: «Acredito sinceramente que tenham passado maus momentos, isso não está sequer em causa; mas o vosso sofrimento estava impregnado de esperança, visionavam o futuro e iam enchendo o peteiro. Nós, não! O nosso futuro durava apenas um minuto, uma hora, quando muito um dia! Esfumava-se! Vós sofrestes para ganhar a vida; o nosso padecimento servia para merecermos, segundo a ideologia dominante – militarista /corporativista – a morte com “honra”. Talvez tenhais sido escravos, mas de seres humanos, de capitalistas; nós fomos escravos robots de uma poderosa máquina, de um pensamento ignominioso, de um sistema cruel e ultrapassado! Os vossos músculos tiveram de enrijecer para poderdes assim construir; os nossos tornaram-se fortes para poderem desse modo melhor destruir! Além disso, vocês podiam voltar para Portugal, para junto da família, ou mudar de trabalho, caso não aguentassem o esforço, ou bem assim por um outro motivo qualquer; nós só regressaríamos no fim da comissão. Se viéssemos antes era mau sinal: tínhamos sido gravemente feridos ou então estávamos mortos, dentro de um caixão de chumbo

- Discurso inflamado, mas realista. Permita-me, contudo, que discorde de si num pormenor – solicita o amigo.

- À vontade. Entre nós não há cerimónias. Diz tudo o que te vai na alma.

- É o seguinte: quando diz que os emigrantes podiam voltar a qualquer momento não é cem por cento verdade. Por um lado, tinham de cumprir os contratos que assinavam com a entidade patronal; por outro lado, a maioria deles, se regressasse a Portugal, teria de cumprir o serviço militar!

- Tens razão. Reconheço que me falhou esse pormenor; no entanto, penso que estavam numa situação mais vantajosa do que a minha. Por outro lado, desde que pagassem uma determinada taxa, ficavam livres para virem a Portugal. Isso posso eu garantir, pois sei de casos desses: um rapaz da minha idade emigrou para França a salto em 1963 e em 1966, estando eu na Guiné-Bissau, a combater em pleno mato, estava ele a casar-se na igreja matriz da terra natal! A notícia está publicada no jornal concelhio. Ainda existe outro pormenor interessante: a idade. Um homem mais velho, caso quisesse voltar para Portugal poderia faze-lo sem sofrer quaisquer consequências.

     Mas continuando: em Santa Margarida encontrava-se também um primo meu, mais velho um ano, já tinha quase todo o tempo militar cumprido. Escapara da malvada guerra! E nem sei como!

- Nem todos iam…

- Sim, isso é verdade. Mas hoje penso que foi por pedido, ou “cunha”. O pai dele, meu tio, trabalhava no Secretariado Nacional de Informação e Propaganda, órgão muito influente no regime salazarista. Já livrara outro filho mais velho.

- E por que não o safou a si?!

- Quando o meu tio saiu da terra onde nascera era eu uma criança, fora residir primeiro para Loures, depois para Lisboa, mal nos conhecíamos. Nem sequer me passou pela cabeça pedir-lhe tal coisa, além disso acho que ele não podia abusar, conseguir esses privilégios para os seus descendentes já era ótimo.

- Fez mal; podia ter dado certo.

- Nessa altura eu era muito tímido, um bicho do mato, não ousaria fazer-lhe um tal pedido. Além disso, quando eu era pequeno disseram-me que o nosso destino já está traçado no berço. Por outro lado, sabendo ele que eu estava na tropa, por que não tomou a iniciativa?

- Não se lembrou – insinua Henrique, ironicamente.

- Ou não quis lembrar-se. Sobrinhos não são filhos, e não digo isto com azedume.

- Mas são do mesmo sangue, pertencem à mesma estirpe.

- Segundo a bíblia, o livro sagrado dos cristãos e dos judeus, somos todos descendentes de Adão!

- E se nós acreditarmos nos cientistas, a nossa espécie descende do macaco!

- Talvez Adão fosse macaco! Mas, sejamos filhos de uns ou de outros, o certo é que os seres humanos estão constantemente a esquecer a origem comum e matam-se com a mesma facilidade e frieza com que se abate um boi no talho. São autênticos magarefes!

- Concordo consigo. E esse tal primo, foi-lhe ao menos prestável?

- Bem, ele era apenas soldado como eu, condutor de tanques. Uma ou outra vez ainda me procurou e juntos comemos toucinho com pão de milho e centeio. Manjar frugal, mas gerador de algumas calorias. Ficamo-nos a conhecer melhor, ganhamos amizade. Mais tarde encontrei-o, já libertos da canga tropeira. Tinha estudado alguma coisa, o equivalente ao segundo ano do liceu, salvo erro, mais por necessidade do que por prazer, e depois ingressou num banco como tesoureiro. Foi colocado na província do Minho. Bom rapaz.

- Quanto tempo esteve em Santa Margarida?

- Deixei para trás, após vinte turbulentos dias, sem qualquer laivo de saudade, meio desfalecido, esse ninho de víboras, covil de chacais, esse malvado, infernal, aquartelamento, antecâmara da morte e do aviltamento.


continua...

sábado, 29 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

romance histórico

Por Joaquim A. Rocha

5.º Capítulo

 

ACADEMIA MILITAR

 

 

     O número de carros começava a aumentar na cidade capital do país, a poluição crescia proporcionalmente, Lisboa alterava, impavidamente, a sua fisionomia. Alguns estabelecimentos comerciais encerravam mais cedo por causa dos assaltos, a noite começava a ser perigosa. Os dois amigos encontram-se de novo e encetam longa conversa:

 

- O trabalho na Academia Militar não matava ninguém, chegava a aborrecer-me de fazer tão pouco, e o comer não era mau de todo.

- Seria sinal de que já se estava a habituar ao rancho?

- Talvez não; a comida era de facto melhor, embora não fosse boa. Os cozinheiros não eram militares.

- Sendo assim!...

- Na Academia trabalhava, como empregado civil, o marido da minha irmã, de seu nome Rodolfo. Era rijo como um touro bravo. Nunca vira ninguém com tanta força. Levantava um saco de cem quilos de batata com a mesma facilidade com que eu levanto dez quilos! Viera da província de Trás-os-Montes para Lisboa, com as mãos cheias de calos, provocados pela enxada, cumprir o serviço militar, e por cá foi ficando depois daquele concluído. Quando podia chamava-me e perguntava se eu queria comer alguma coisa, visto que amiúde os seus chefes lhe pediam para ajudar na cozinha. Raríssimas vezes aceitei – nunca fui comilão.

- Podia ter aproveitado.

- Pois podia! Dizia-me ele, constantemente: «Dou aos outros, que não me são nada, por que não hei de dar ao meu cunhado?!» Mas eu, não sei por quê, não queria, não aceitava.

- Orgulho?

- Quem sabe… talvez. Há coisas que não têm explicação, essa é uma delas. Eu julgo que era mais vergonha, embora uma coisa e outra pudessem existir em mim. Sabes: é a personalidade de cada um de nós. Somos todos diferentes, apesar de termos muitíssimas caraterísticas em comum. Por outro lado, herdamos traços dos nossos antepassados – pais, avós…

- Por falar nisso, nunca me falou do seu pai!

- É verdade, nunca te falei dele… mas crê-me, nada há para dizer a esse respeito. Partiu, teria eu três meses de vida. Emigrou para as Américas, segundo me contou a minha mãe. Deve ter arranjado por lá outra mulher, rodeou-se de fedelhos, ou então morreu, mas não de saudades certamente.  

- Lamento.

- Nem sequer o conheci. A minha mãe também pouco me falava dele. Ficou apenas uma fotografia, um pedaço de papel. O tempo, tudo faz esquecer. Não se pode ter saudades daquilo que não se viveu, do que não se amou.

 

         Henrique compreendeu. Em Cândido existia uma mágoa profunda, algo de inexplicável, uma ferida nunca fechada, talvez um segredo. Não insistiria.

 

- Desviou-se do assunto! – lembrou Henrique.

- Pois desviei. Falava da Academia Militar. Sabes que a condução em Lisboa jamais se tornou fácil para mim. Não me sentia com competência bastante para guiar naquelas ruas movimentadas e com aqueles polícias sinaleiros sempre a fazer sinais, pareciam autênticos robôs! Questão de medo, de caráter: sei eu lá! Os jipes, tudo bem, mas as outras viaturas…

- Para se conduzir bem é necessário concentração. A sua mente andava agitada. E agora já não tinha o instrutor ao lado.

- Pois não. Era eu o máximo responsável pela condução. Certo dia, na subida da Rua Joaquim António de Aguiar, a caminho de Sintra, com vários cadetes dentro, um a meu lado e os restantes nos bancos de trás, o motor deixou de funcionar. Acelera, não acelera, estava a ver que não conseguia sair dali! Os carros, na minha retaguarda, começavam a buzinar ininterruptamente, pessoas ansiosas, olhando para os relógios de pulso, enervando-me ainda mais, se possível. «Com os diabos!» - resmunguei entre dentes. «Sou um autêntico zero à esquerda a conduzir, não sei como me vou livrar desta

     O meu Cireneu, quem me socorreu naquela aflição, foi um dos cadetes. Pede-me, com esmerada educação e ao mesmo tempo com autoridade: «Você está muito nervoso, passe para o meu lado, eu guio

     Obedeci prontamente – queria sair dali, ultrapassar aquela ridícula situação.

- Sentia-se humilhado! – comentou, com semblante triste, Henrique.

- Eu sentia-me mais frustrado. Não gostava que traçassem o meu destino. A tropa não era nenhuma etapa da minha vida – estava ali contrariado. Eu até poderia um dia aprender a conduzir, comprar um carro, mas assim não – eu não nascera para escravo, para obedecer...

- E para mandar?! – atira Henrique, como um repto.

- Nem para isso, meu amigo. A minha filosofia de vida resume-se a muito pouco: todos somos iguais, homens e mulheres, e devemos viver em liberdade e responsabilidade; cada um de nós dá à sociedade o melhor de si e recebe aquilo de que necessita. Para sermos felizes não precisamos de muito. Todos devíamos ter direito à instrução, ao conhecimento, e depois cada um escolhe, mediante as suas potencialidades, a sua profissão.

- Há profissões melhores do que outras…

- Aparentemente é assim. Um mineiro pode queixar-se de levar uma vida dura, pouco saudável; mas se ele gostar dessa atividade, só quer uma coisa – boas condições de trabalho, além de ótima remuneração, que lhe permita viver bem, sem sobressaltos. Os pescadores, por exemplo, arriscam a vida no mar, mas vai dizer-lhes para abandonarem essa faina! Não querem, gostam daquilo que fazem, sentem-se livres como as aves do céu e também úteis à sociedade. Contudo, quanto a mim, devem ser bem pagos e dar-lhes a oportunidade de se instruírem. Um barco pode estar bem equipado, ter uma pequena biblioteca, música, etc. E por aí, fora. Todos os mesteres são dignos desde que as pessoas que os desempenham o sejam.

- Até certo ponto estou de acordo, mas isso é utópico.

- A utopia só o é enquanto não se torna realidade. Não era utópico desejar a República? Pois em 5 de Outubro de 1910 uns quantos republicanos conseguiram-no! Não penses que foi fácil, muitos obstáculos surgiram, mas por fim a vitória surgiu radiosa.

- Não durou muito! – contrapõe Henrique.

- É verdade, não durou muito, apenas dezasseis anos. A igreja católica, apoiada pelos monárquicos, e também alguns pseudorepublicanos, tudo fizeram para a derrubar. Paiva Couceiro, refugiado em Espanha, invadiu o país pelo norte, mas saiu-lhe o tiro pela culatra. No entanto, a minha história não é essa.

- Fiquei com curiosidade: no regresso levou a viatura para a Academia?

- Sim, com alguma facilidade. Acalmei, os cadetes fizeram por esquecer o triste episódio, e tudo correu bem. Nunca ouviste dizer que «para baixo todos os santos ajudam?!»

- Ainda bem, senão seria traumático para si.

- Ainda procurei mudar de especialidade. Argumentei que era baixo, mal chegava aos pedais, enfim, que não queria continuar a conduzir.

- E eles?

- Esperei pela resposta. Nunca me foi dada!

 

     Com altos e baixos, asneiras e proezas, alguns reveses, os dias morriam um a um; dias que ia abatendo no meu canhenho. O tempo, no seu rolar lento e imperturbável, começava a ganhar volume. Dez, onze meses (contava desde Janeiro), é muita hora para um soldado que anda na tropa por obrigação, como se estivesse no presídio. Comecei a criar ilusões e a fazer perguntas, interrogações, a mim próprio: «Ter-se-iam esquecido de mim, porventura?! já não irei para a guerra colonial?!»

- Porém…

- Pura ilusão! Sonho infantil! Finalmente chegara o momento da terrível notícia, aquela que nos destroça, nos fulmina. É como subir ao cadafalso, ao patíbulo, para nos separarem a cabeça do resto do corpo! O amanuense avisou-me de que o 1.º sargento me esperava na Secretaria. Era um homem aparentemente simpático, mas cruel. Nem sequer rodeou a questão. Não queria perder tempo: «Arruma a trouxa, foste mobilizado para a província da Guiné-Bissau; tiveste pouca sorte, seria muito melhor Angola, ou mesmo Moçambique. Paciência, alguém teria de ir para lá

- Teve azar… - lamentou sinceramente Henrique.

- Já não faltava muito para completar um ano de serviço militar. Tive, de facto, pouca sorte. Não me podia esquecer de que representava um simples número, e os números jogam-se, não se esquecem!                    

- Como reagiu?

- Perdi completamente o apetite; esperneei de raiva. A Guiné-Bissau apavorava qualquer um: o clima, a guerra, as doenças, feriam, matavam, dizimavam, diziam os que de lá vinham! Um camarada de caserna, fervoroso católico, aconselhou-me a fazer uma promessa à Senhora de Fátima e aos dois pastorinhos que morreram logo a seguir a 1917, primos da Lúcia. «Vais ver que te protegem», garantiu-me.

     Eu, desiludido com tudo, descrente, digo-lhe: «Não adianta, morre quem tem de morrer!» Ele não ficou nada convencido com a minha precipitada resposta: «Não é bem assim – olha que conheço muitos que se salvaram oferecendo promessas aos santos da sua devoção.» E mencionou uma caterva de santinhos, com os seus milagres.

     Eu, que não estava interessado na conversa, rematei: «Sopraram, para as suas bandas, ventos benfazejos; do meu lado apanhei com os tufões

- Ele estava a tentar somente ajudá-lo, não devia ter sido tão severo – reprova Henrique.

- Hoje estou arrependido, mas na ocasião, danado como estava, não refleti o suficiente e fui antipático com o camarada. Há momentos na nossa vida em que a ajuda, ou pseudoajuda, dos outros nos parece ofensiva. Eu fui mobilizado e logo para a pior frente de guerra.

- Se você não fosse iria outro…

- Isso é verdade, eles teriam de preencher as vagas; mas logo eu, que não gostava minimamente da tropa, muito menos da guerra. Quem a provocou que a combatesse; que fosse o Salazar e os seus ministros, os secretários de Estado, e podiam levar com eles as suas amantes…, a famelga completa.      

- Não adianta protestar, manda quem pode; sempre foi assim e assim continuará a ser.

- Talvez não: a inteligência e a cultura do cidadão comum levá-lo-á a rejeitar a violência, é uma questão de tempo. O cérebro evolui.  

- Otimista! – ironiza Henrique, convencido de que as coisas não mudam do pé para a mão. – As mudanças levam anos, ou séculos, a concretizarem-se – remata ele


continua...

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


4.º Capítulo

 

TREM-AUTO

 

     Os dois amigos, numa conversa amena, intercalada com olhares furtivos às moças que circulavam no passeio, umas elegantes e outras menos, ainda não estávamos no tempo da obesidade, bebendo umas “imperiais”, comendo uns amendoins ou tremoços, lá iam, paulatinamente, queimando as etapas da narrativa. Ouçamo-los:   

 

     - O quartel de Lisboa, chamado Trem Auto, para onde me recambiaram de Infantaria 6, estava instalado na Avenida de Berna, onde hoje existe, salvo erro, uma Universidade. Nele faríamos o estágio durante algum tempo. Depois… logo se veria! Não sei se por nos considerarem prontos ou profissionais (no bolso, novinha em folha, já repousava a carta de condução militar), se por qualquer um outro motivo, o tratamento para com os novíssimos condutores passou a ser bem diferente – para melhor. Nem queria acreditar.

- Os lisboetas sabem receber bem – aproveitou a deixa Henrique, um alfacinha de gema.

- É verdade. E tinham obrigação disso, pois estávamos na capital do país. Mas escuta: eles tinham à nossa espera as novas viaturas, as famosas «Berliets», carrões enormes (lá dentro sentia-me uma formiguinha, um dos anões da Branca de Neve), a fim de nós as experimentarmos. Providas de seis velocidades, bons amortecedores, arranque perfeito, silenciosas… uma maravilha!

- Bastante sofisticadas para a época – observou o jovem, com alguma admiração.

- Efetivamente. Eu estava espantado com tamanho avanço da tecnologia. Era mais fácil conduzir um carrão daqueles do que uma viatura ligeira.

- E deixaram os exercícios físicos e prática de tiro?

- Não completamente; continuamos, mas menos tempo. Tiro, praticávamo-lo num descampado, no local onde agora se encontra o Palácio da Justiça, na Rua Marquês de Fronteira, e também na Carregueira. Em termos teóricos, caso fôssemos mobilizados, nós não iríamos para a guerra como atiradores, mas sim como condutores auto; logo, as armas de fogo pouco seriam utilizadas por estes especialistas, julgava a gente. No entanto… Mais tarde dir-te-ei o que se passou na realidade.

 

         Pelas manobras encetadas, pelo cochichar da caserna, tudo nos levava a crer que o objetivo principal das chefias militares era preparar-nos para a maldita guerra colonial. Aliás, em Lisboa tomavam-se todas as decisões, por isso já estava tudo decidido a nosso respeito.

- Do Trem Auto não tem grandes críticas a fazer, pelos vistos.

- Bem, apesar de estar num quartel, receber ordens, comer mal, embora melhor do que no Porto, não me posso queixar muito. Uma boa notícia foi terem-nos aumentado o pré: passamos a ganhar 30$00 por mês, um escudo por dia! Andávamos nos carros de um lado para o outro, conduzíamos «Berliets», Jipes, «Unimogs», etc. (quem mais conduzia era o monitor, um verdadeiro apaixonado pela condução); corríamos a cidade de uma ponta à outra; parávamos, antes de regressar ao pequeno quartel, para bebermos uma cervejinha. Fazíamos uns serviços: guardas, faxinas, o normal, já estávamos habituados a isso tudo.

- Rica vida! – ironizou Henrique.

- Não se pode dizer que fosse uma vida insuportável. Por outro lado, como tinha irmãos em Lisboa e na Amadora, de vez, em quando, visitava-os e lá comia e dormia. Mas vou contar-te uma historieta que aconteceu comigo:

     Certo dia, depois do jantar, talvez fossem umas sete horas da tarde, no verão, como sabes, ainda é dia alto, saindo como de costume com um camarada transmontano, o “Vila Real”, fomos abordados por duas estrangeiras, ainda novas, altas, bonitas, elegantes, olhos azuis e cabelos loiros, ali para os lados do Parque Eduardo VII. Pelo seu aspeto e sotaque pareciam nórdicas: suecas ou norueguesas. Uma delas, toda-sorrisos, pergunta-nos qualquer coisa em inglês. Com gestos teatrais, de duvidosa mímica, dei-lhe a entender que não sabíamos falar essa língua. A outra, com um à-vontade surpreendente, insiste: «hablan espanhol?!» Armado em poliglota, respondo: «Si, um poco.»

     Eu lembrei-me das galegas, quando atravessava o rio Minho para ir falar com elas, mas o galego e o espanhol (castelhano) são diferentes, agora é que eu compreendia o que me tinham dito das línguas que se falavam na Espanha: do catalão, do basco... De qualquer modo, a gente havia de se entender. Então ela informa-nos que estavam no Hotel Ritz e que andavam por ali a passear, a fim de conhecerem melhor Lisboa… e os muchachos lusos! Continua, insinuando: «los chicos portugueses, nos agradam mucho!»)

     O meu colega, impaciente, sugere: «despacha as gajas, ou então vamos com elas para o Hotel.» Encontrava-me em um dilema: tinha a perceção que elas queriam mais do que conversar, andavam certamente à procura de novas e empolgantes aventuras, mas eu, coitado de mim, não possuía nenhuma experiência neste tipo de coisas, tímido e moralista, já me estava a apetecer fugir…

- Fugir?! – pergunta Henrique, horrorizado.

- Sim! Isso já me acontecera numa das freguesias do meu concelho, teria eu uns dezoito anos de idade. A um domingo de tarde, numa daquelas festas de aldeia, eu e um amigo, o Tónio, é agora emigrante na França, “arranjamos” duas moças bonitinhas, lavradeiras, e começamos a passear à volta da igreja, como era hábito, pois o resto do espaço para a dita festa estava normalmente ocupado pelos tendeiros, taberneiros, doceiras, etc. Eu e a cachopa separamo-nos do outro casal e às tantas não tínhamos absolutamente nada para dizer um ao outro. Beijá-la estava fora de questão, pois nesse tempo nem um olhar atrevido seria permitido, quanto mais um beijo. Ela ainda me disse que tinha comido três malgas de caldo ao almoço, com toucinho e broa, comia bem porque trabalhava muito, levantava-se cedo para tratar do gado, tinha um pequeno rebanho, cabras e ovelhas, eram caseiros, mas também possuíam uns campitos próprios. Eu ainda lhe falei do último filme que tinha visto, com Mário Moreno, o Cantinflas, mas ela nunca fora ao cinema, não lhe interessava essa conversa. Nem sequer Joselito e Marisol lhe diziam alguma coisa! De que lhe havia de falar?! Disse-lhe então que ia fazer uma necessidade, ali a um campo, e ainda hoje espera por mim!

- Isso não se faz a uma menina – reprova Henrique, quase zangado.

- Eu queria ver-te no meu lugar. O nervosismo era tanto, que até suava!

- E quanto às suecas?

- Bem, eu permanecia indeciso, elas certamente notaram. De repente, por artes mágicas, surge, pertíssimo de nós, um táxi. Para ao nosso lado e o motorista pergunta-nos: «Querem levar as estrangeiras para Monsanto

     Respondo-lhe, meio a rir, meio a sério, inibido: «Nem dinheiro a gente tem para mandar cantar um cego

     O motorista, com cara de mafioso, já acostumado a essas coisas, acusa-nos: «Saloios! Não veem que elas é que pagam?!»

     Exige, dono do mundo e arredores, abruptamente: «Se não querem, deixem o campo aberto para outros

     De facto, e só agora me apercebia, ali perto rondavam grupos de homens que nos olhavam com um certo descaramento – alguma coisa se passava! A rapariga que falava espanhol solicita-nos: «Vamos embora daqui

     Fomos somente com elas até à entrada do Hotel; antes de entrarem pediram-nos amavelmente que esperássemos – já voltavam. Fiquei com a sensação que iam buscar dinheiro. Ainda não tinham desaparecido por completo da nossa vista e já eu dizia ao meu colega: «Ó Vila Real, cavemos, antes que isto dê para o torto!» Agradou-lhe a ideia. Respondeu-me: «Vamos, é comida boa demais para os nossos dentes!»                     

- E foram embora! É inacreditável!

- É verdade, fomos! Avenida da Liberdade abaixo, até ao Rossio, vendo estátuas, montras, admirando as últimas novidades da moda, piscando o olho e sorrindo aos manequins femininos, por sinal muito bem concebidos – pareciam autênticos! Aquilo sim: regalava os nossos olhos, não custava dinheiro, não provocava sarilhos, não corríamos quaisquer perigos. Os prazeres viriam a seu tempo. Quando fôssemos livres e com algum dinheiro no bolso pensaríamos nisso. Agora era época de hibernação.

 

- Não me digam que não gastavam um tostão?!

- Nós não éramos turistas; esses sim, podiam gastá-lo, ganhavam bem; ora nós, a auferir qualquer coisa como trinta escudos por mês… Olha, gastávamo-lo no bar do quartel, a comer umas sandes e a beber cerveja. Quase que nem sequer para isso dava! Nos primeiros quatro meses de tropa deram-me três ou quatro escudos por mês, e sobre esse astronómico vencimento ainda incidiam descontos!

- Miseráveis, unhas-de-fome! E em África, pagavam bem?

- Claro que comparado com o que vencíamos em Portugal significava um aumento enorme: de trinta escudos passamos a receber quinhentos e cinquenta, isto é, dezoito escudos por dia! Na minha humilde oficina tirava entre mil e oitocentos a dois mil escudos todos os meses, qualquer coisa como sessenta escudos diários. Trabalhava muitas horas, mas com gosto, e não corria perigo de vida…

- Não querendo ser indiscreto, que profissão tinha na sua terra?

- Era alfaiate, trabalhava por conta própria.

- Não me diga!

- Sim, desde os dezassete anos. O meu patrão emigrara para França, fora à caça dos francos, e eu abri uma modesta oficina nos baixos da casa onde morava.

- Nunca mais voltou a exercer essa arte?

- Não. Até porque eu nunca cheguei a ser um verdadeiro artista, apenas fui um remendão; mestres eram considerados aqueles que sabiam preparar moldes, escolher o pano, cortar o tecido, fazer fatos por medida. Esses, sim! Eu nunca passei de aprendiz, nunca fui além da calça. Uma altura atrevi-me a fazer um casaco e o resultado foi catastrófico: uma manga mais curta do que outra; os chumaços ficaram uma miséria! Nunca mais o tentei. O que me valeu foi que o pano tinha sido barato, comprara-o na feira, o prejuízo não se verificou elevado. Depois da disponibilidade, isto é, depois de deixar o exército, fiquei em Lisboa, continuei a estudar à noite, e o pouco que sabia da antiga profissão já esqueci, quase que nem um botão sei pregar!

- Também não exagere. Mas voltando à sua vida militar. Apesar de crítico acérrimo, de só dizer mal, julgo que não era tão ruim assim: tinha roupa de graça, calçado, comida, alojamento… Aprendeu a dirigir um carro, conheceu terras…

- Já vejo que estás a brincar. Só pode. Essa expressão irónica nunca te abandona, mesmo quando estás a falar de assuntos sérios?!      

- Desculpe a ironia, mas não resisto. Tudo isto me parece ter acontecido na Idade Média, no tempo de Carlos Magno… ou até antes, no período em que os lusitanos, comandados por Viriato, resistiam heroicamente aos legionários de Roma.

- Se essas comparações absurdas te divertem e te libertam a bílis, tudo bem! Também eu estou de acordo que não se deve dramatizar o que não é passível de dramatização: o que lá vai, lá vai, e águas passadas não movem moinhos! Deixa continuar o meu relato:

     Um dia entrou, para o Trem-Auto, um jovem de etnia cigana. Ninguém sabia de que quartel vinha. Ficamos todos com inexcedível curiosidade. Era a primeira vez que a gente via um cigano fardado. Em tudo se assemelhava a nós, mas aquela pele avermelhada, a pronúncia, tornava-o diferente. Uma raridade! Perguntamos a um sargento a razão daquela presença, sabíamos que os zíngaros não cumpriam o serviço militar, muito menos agora, que estávamos em guerra. Disse-nos que viera voluntariamente, queria ver como era a tropa, romper com a tradição étnica.

- Aceitaram-no bem, espero.

- Certamente; ninguém ali era racista. Nascera em Portugal, tinha nacionalidade portuguesa… Quanto a mim até tinham obrigação de cumprir o serviço militar, por quê o privilégio?! Por outro lado, esse tempo da tropa podiam aproveitá-lo para estudar, para adquirir conhecimentos técnicos, enfim, tornarem-se cidadãos como os outros.

- E depois?!

- Não vais acreditar! Nessa noite ficou aquartelado, mas de manhã, logo após o pequeno-almoço, pôs-se a andar. Com a farda no corpo!

- Foram logo atrás dele?

- Nem penses. O assunto ficou encerrado, por ordem superior. E ninguém falou mais nisso.

     Mas há outro caso também curioso: um filho do proprietário de uma grande companhia de transportes, que possuía uma, ou mais agências de viagens, era nosso camarada. Como não tinha estudos, apenas a 4.ª classe da instrução primária, e não quis emigrar, teve de vestir a farda de soldado raso. Acontece que entrava e saía da unidade militar com a maior displicência e facilidade! Umas vezes fardado, outras vezes à paisana. Não comia no quartel, não fazia serviços, nada! Nós estávamos de boca aberta!

- Que tropa fandanga! Assim até dava gosto…

- Pudera! Rico e importante, fazia o que queria. Mas espera: ao cabo de uns dias desapareceu, tal como o gitano. Perguntando nós o que se tinha passado, fomos informados de que já passara à disponibilidade – cumprira dois ou três meses! Provavelmente nem um tiro dera!

- Afinal, o rigor no tempo de Salazar é um mito!

- Isto é só aquilo a que assisti. Não fazemos sequer ideia do que se passou na realidade. A podridão alastra em qualquer regime; onde houver humanos há corrupção, há vítimas e privilegiados. Quem tinha dinheiro não permitia que os filhos fossem para a guerra – íamos nós, os pobres, a tal carne para canhão. Daqueles que morreram e ficaram mutilados quantos eram filhos de ricos?

- Nenhum! – afirmou Henrique, perentoriamente.

- Podes ter a certeza... Até podia haver um caso isolado, a exceção à regra, um jovem família, fascista, que se alistara por ideologia, para defender a “pátria sagrada”, ou empurrado pela família, militarista, mas que eu saiba não.

 

*

 

     Dois meses passam depressa quando as coisas correm mais ou menos de feição. Certo dia chamam Cândido à Secretaria e o amanuense diz-lhe que tinha sido destacado para a Academia Militar, na Rua Gomes Freire, Lisboa, a fim de prestar serviços de condutor. Teria de levar os cadetes para os seus exercícios em Sintra, e arredores, bem como para outros lados; seria, quando a escala assim o determinasse, condutor dia, isto é, nesse dia estaria ao dispor da Academia para ir aonde fosse necessário.                                                             

continua... 

 

***


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

(romance histórico)

Por Joaquim A. Rocha


3.º Capítulo

 

INFANTARIA 6

 

     Uma semana passa depressa. É a juventude. Na velhice o tempo já custa a passar, apesar de se saber que a morte está próxima. Tudo isso está relacionado com a solidão e o sofrimento.

      Depois de um aperto de mão, de um sorriso conivente, ei-los sentados na mesa do Café. Cândido reinicia o relato:

 

- O quartel, enorme, situava-se na freguesia de Custóias, ou Senhora da Hora, já não me lembro, a geografia nunca foi o meu forte; sei que ficava no concelho de Matosinhos, a alguns quilómetros do Porto. Havia aí mais asseio do que no CICA-1: as camas bem-feitas (andava amiúde um cabo a fazer a inspeção – bastava um pormenor insignificante para ele mandar logo desfazer tudo e fazer de novo), com as fronhas bem esticadas; armas sempre limpas e oleadas; todo o equipamento sempre em ordem. Mas nas relações com os superiores, mesmo da classe mais baixa: cabos, furriéis, sargentos, notava-se uma maior distância. A bandalheira tinha acabado!

- E vocês, o que faziam durante o dia? – perguntou Henrique, somente para lembrar que estava ali.

- Metade do dia, entre as sete e as doze horas, destinava-se a exercícios físicos, a manejar armas, montar e desmontar, e fazer fogo; a outra metade, das treze às dezoito, empregava-se na condução.

- E as viaturas, estavam em bom estado?

- Eram velhas, pesadas, desprovidas de conforto, com assentos mostrando as grossas molas, a cheirarem a óleo queimado; deixavam - por vezes - ficar mal o nosso monitor. Eram autênticas carroças! Quedavam avariadas nos sítios mais díspares, à espera que o mecânico aparecesse para reparar a avaria, quando tinha conserto!

- Como é que o exército podia preparar bons condutores com viaturas tão velhas e ruins?! – empertiga-se Henrique, num gesto de revolta.

- Eles finalmente compreenderam isso. No estio de 1965 o governo adquiriu à França, ou à Alemanha, não sei bem, para as Forças Armadas portuguesas, alguns carros novos. Faço ideia o que deve ter custado ao Salazar! Forreta como era, esse dinheiro deve-o ter chorado o resto da vida.

- A partir daí, carrinho novo em folha…

- Estás enganado! Eram poucos, não dava para abastecer todos os quartéis do país. A nós só calhou um pesado e um jipe. Tivemos de continuar com os trambolhos.

     Mas continuando… Sargentos e oficiais extremavam-se em antipatias. Consideravam, assim penso, o pobre soldado, uma massa disforme, não pensante, com cérebros do tamanho de uma pulga. Tratavam-no bem pior do que se trata o camelo no deserto: montando-o a seu belo prazer, sem sequer para ele olhar – no entanto, não podiam dispensá-lo! Embora fosse a razão de ser da sua profissão, jamais deixavam fugir uma oportunidade para humilhá-lo, ao zé-ninguém, ao parolo, calcá-lo aos pés, espezinhá-lo, para lhe mostrar que ali, no quartel, ele, soldado, igual ao sujo chão, não riscava nada, era uma formiga à beira de um rinoceronte! Mina, de onde extraíam toda a sua riqueza, faziam tudo para ignorá-lo; não o conseguindo, exigiam-lhe que vergasse a cerviz!

- Você ficou traumatizado – sentenciou Henrique.

- Talvez; e não era para menos, meu amigo. O pobre do tarata vivia o seu dia-a-dia amedrontado, inseguro. E não se podia queixar a ninguém! Se se queixasse, fosse do que fosse, ai dele: seria imediatamente trucidado, atirado à lúgubre masmorra, às leoas famintas, onde permaneceria dias infindos, até ser devorado, ou transformado em mera serapilheira. 

- Não havia pelo menos um oficial que estimasse os subordinados?

- Bem, um ou outro superior, tratava o pobre coitado com mais humanismo, com mais lisura – as exceções à regra. Porém, os seus iguais, não gostavam dessas “cortesias” e quase os odiavam por isso. Não perdoavam a sua “fraqueza”.  

     O sofrido tempo, como tudo na vida, passava. Depois de termos percorrido quase todas as estradas do norte e feito imenso fogo com a vetusta «mauser» na carreira de tiro de Espinho, provocando-me dores insuportáveis nos frágeis ombros, por pouco quebrando a omoplata…

- E não punha nada para se proteger? – pergunta com espanto o jovem Henrique. 

- Eu usava, como me tinham sugerido outros jovens, uma toalha por baixo da camisa, mas o diabólico instrutor deu por isso. Ministrou-me uma tareia monumental: pontapés e bofetadas mil! Nunca esquecerei esse dia. Ele berrava que nem um possesso: «quero ver se levas para a guerra a toalha, menino da mamã

- Não se trata assim um ser humano – lamenta Henrique, indignado com tamanha agressividade.

- Nós não éramos considerados seres humanos, mas sim máquinas de guerra, coisas execráveis, tratados pior, quem sabe, do que os presos na cadeia! Nos discursos dos governantes nós éramos os «Soldados de Portugal», com letra maiúscula; nos aquartelamentos éramos os cães raivosos, a escumalha, sacos de lixo!

- E os outros, como reagiram?   

- Ficaram indiferentes! Não era nada com eles. Continuaram a disparar para aqueles alvos, bonecos de madeira, parecidos connosco, os quais estavam a uma distância enorme, perto da praia. Eu fui dos piores em tiro ao alvo, salvo erro. Para disparar bem é necessário que o espírito esteja sossegado e haja uma motivação. Eu, na tropa, nunca estive bem.

- Você é antimilitarista.

- Podes crê-lo. Fui sempre, desde que nasci, praticamente. Nunca gostei de fardas militares, de gente que dá ordens por tudo e por nada, de domadores de cérebros, de parasitas que vivem, a bem dizer, do orçamento. Muito gastam, e produzem nada.

- Nem toda a gente estará de acordo consigo. E das polícias? O que pensa delas? – perguntou Henrique com alguma expectativa.

- É diferente. A Polícia de Segurança Pública, a Guarda Nacional Republicana, a Judiciária, e outras, são necessárias para combater o banditismo, a ladroeira, os assassinos, etc. Não tem comparação, embora eu, se tivesse poder, talvez fundisse a GNR (conotada com os militares) com a PSP. E outra coisa: criava (ou desenvolvia, caso já exista) uma polícia marítima, com equipamentos sofisticados: ótimos helicópteros, lanchas rápidas, etc., a fim de defender a nossa costa, tanto dos pescadores estrangeiros que roubam o nosso pescado, como dos traficantes de droga, armas, e prostituição, além de impedir a entrada de imigrantes clandestinos; criava também uma polícia aérea, para vigiar, do ar, todo o nosso território e prevenir incêndios. Ambas as polícias teriam um comando comum.

- E as Forças Armadas?! – interroga Henrique, incrédulo com aquilo que ouvia. 

- Acabava com elas, obviamente.       

- Contudo, elas derrubaram o regime que você tanto detestava – lembrou Henrique, quase num desafio.

- É verdade, e ainda bem que me falas nisso. Porém, não te esqueças que também foram elas que, em Maio de 1926, derrubaram a 1.ª República, dando assim azo a que surgisse o chamado Estado Novo. O “edifício” salazarista desmoronar-se-ia, mais tarde ou mais cedo, por si próprio. «Nada é eterno». Depois da morte do chefe, os seus herdeiros de regime já não se entendiam. Era uma questão de tempo. Exemplos desses existem em todo o lado. Repara: Marcelo Caetano não era bem visto pelos ultras e pelo diretor da PIDE/DGS – algo iria acontecer brevemente; a situação política teria de se definir. Fosse quem fosse que ganhasse o poder, algo teria de mudar. Por outro lado, os militares que fizeram o 25 de Abril de 1974 não estavam todos, como sabes, imbuídos do espírito revolucionário – muitos deles queriam era acabar com a guerra colonial.

- Por quê? Sendo militares, deviam gostar da guerra! – espicaça o jovem Henrique.

- De certo modo gostavam. Simplesmente já lá iam treze anos! Alguns desses militares de carreira tinham combatido em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Estavam cansados, fartos desses conflitos. E outra coisa: aquela guerra não era clássica, não prestigiava quem nela combatia. Os soldados da FRELIMO, por exemplo, andavam mal vestidos e alguns deles descalços! Se não fossem ajudados por vários governos, morriam à fome. Um oficial desse exército, em termos de eficácia, não valia um soldado americano. Os combatentes de Angola não se entendiam entre si! O MPLA tanto odiava o exército português como o da UNITA!

     O pequenino Napoleão Bonaparte granjeou prestígio porque venceu algumas batalhas a generais famosos; não é o mesmo que ganhar a maltrapilhos! Além disso, a África não é para brincadeiras, é perigosíssima: o clima, as febres... E há outra coisa: o governo, como estavam a faltar oficiais de carreira: alferes, tenentes e capitães, toca a promover milicianos a esses postos, sem terem passado pela Academia Militar! Eu conheci um alferes que tinha apenas o 3.º ou 4.º ano do liceu! Fora o melhor aluno no curso de furriéis, um militarista ferrenho, cara de pau, e por isso passou para a escola de oficiais; se continuasse na tropa, não sei, logo seria promovido a tenente, e a seguir a capitão!              

- Com tão poucas habilitações literárias?!

- Estás a ver agora por que os militares de carreira derrubaram o regime? Não foi certamente pelos nossos lindos olhos, para implementar em Portugal o socialismo científico, ou uma democracia a sério. Os militares são conservadores, por natureza. Agem como os médicos, os juízes, etc. – tentam preservar a sua classe, aumentar os privilégios, o prestígio...   

- O Cândido é demolidor!

- Nem por isso! Sou justo, pelo menos tento sê-lo. Mas deixemos isso, esses assuntos são para os especialistas na matéria, eu sou apenas um empregado de escritório e um estudante do Curso Comercial (técnico de contas). Mas sabes que em Infantaria Seis me aconteceram duas coisas que nunca mais esqueci. Uma desagradável e outra assim-assim. A primeira foi quando barrei o meu casqueiro com o doce de cereja que a minha mãe me mandara. Logo que dou uma dentada, parto um molar. A velhota não se apercebera e deixara lá dentro um caroço. O dente, pouco a pouco, foi apodrecendo, causou-me dores intensas, noites sem dormir.

- E por que não foi tratá-lo?

- Também eu queria. Mas aonde? Expus o caso ao enfermeiro e ele disse-me para ir aguentando, o exército não tinha médicos dentistas, e se os tinha não tratavam os dentes dos soldados.

- E os particulares?

- Para esses tinha de se marcar consulta, perder horas, e os preços eram proibitivos, não estavam ao alcance das nossas bolsas.

- Valia mais arrancá-lo.

- Foi o que eu fiz, mas em África, no Hospital Militar de Bissau. E aí já foram dois! Um contagiara o outro.

- Mais uma razão para odiar a tropa.

- Sim, mais uma razão a acrescer às outras. Mas deixa-me contar-te aquele episódio engraçado, mas ao mesmo tempo esclarecedor. Como estava perto do Porto, que eu já conhecia mais ou menos, na noite de São João, em Junho, não quis perder essa oportunidade, única talvez, de conhecer uma das maiores manifestações de alegria no país inteiro.

      Queria ver «in loco» essa famosíssima festa. Depois do jantar, servido às dezoito horas, uma feijoada de porco (só a cabeça e orelhas, porque a parte nobre ia toda para as messes), sigo, com mais alguns camaradas, em direção ao centro da cidade nortenha. Percorríamos esse longo trajeto a pé! Não é que o dinheiro do ordenado não desse para chamarmos um táxi; ganhávamos três ou quatro escudos por mês, uma autêntica “fortuna”, simplesmente nós gostávamos de caminhar!       

- Estou a ver! Para fazerem a digestão da feijoada! – ironiza Henrique.

- O táxi custaria trinta ou quarenta escudos. Isso não lucrava eu em dez meses! Mas continuando… Pelo caminho íamos na galhofa, atirando piropos às sopeiras que apareciam às varandas dos prédios ou na rua, umas bonitas e outras feias, enfim, divertíamo-nos à nossa maneira. A cidade invicta lembrava (de acordo com o que vira no cinema) Pequim, Nova Iorque, Londres, Tóquio… um mar de gente, o bulício, a barafunda. Em certas ruas quase já não se podia andar. Nem queria crer. Habituado a um meio calmo, aquilo mexia comigo, deixava-me intranquilo. Tantas luzes, e tamanha cacetada de alho-porro na cabeça, estavam a pôr-me tonto, completamente perturbado. Empurra daqui, empurra dali, graçola daqui, piadinha dacolá, vamos seguindo de rua em rua, de beco em beco, ouvindo música popular, gritos eufóricos, guinchos de crianças. Uma verdadeira loucura. A certa altura, seriam dez horas da noite, já nem os meus camaradas do quartel eu conseguia enxergar; encontrava-me sozinho no meio daquela imensa multidão. Um cenário assustador!

     Os gracejos choviam de todo o lado, mas eu de cada vez que os ouvia achava menos piada. Se o São João era aquilo… não gostava! Fui andando, andando, perdido, e cheguei, sem eu saber como, às Fontainhas. Aí as coisas estavam, se possível, ainda mais movimentadas. O espaço físico era insuficiente, exíguo, para tanto folião. O cheiro a sardinhas assadas era insuportável. Eu sufocava. Disse para os meus botões: «depois do tão apregoado fogo-de-artifício pões-te imediatamente a caminho do colchão

     O espetáculo foi maravilhoso. Nunca tinha visto coisa tão bonita. Nas festas da minha terrinha também havia fogos de vista, mas à beira disto… Não me recordo quanto tempo durou – estaria ali o resto da noite a ver o céu em festa. Logo que a harmoniosa “trovoada” acabou, recomeçaram as cacetadas, as mil brincadeiras, a folia, a pândega. Eu, porém, não tinha feitio para colaborar nessas manifestações de alegria e espontaneidade. Era demasiado tímido e bicho do mato para isso. Tentei furar como um rato pelo meio da multidão em delírio, todos bem bebidos, vi-me gladiador no circo de Roma, Hércules lutando contra a hidra de Lerna, e depois de enorme esforço dou comigo na estrada a caminhar em direção a Custóias.

     Aproveitei para fazer um chichi, já não esvaziava a bexiga há séculos! Como o tempo passou rapidamente! Quase cinco horas da manhã! Chego finalmente ao aquartelamento, cansado, extenuadíssimo, e peço à sentinela que me abra a porta de entrada. Recusou, alegando que não podia, só às seis da manhã. Até a essa hora teria de aguardar na rua. Não insisti. Não valeria a pena. O regulamento militar assim o determinava e eu tinha de me resignar. Quem era eu para impor a sua abertura? Se ainda fosse graduado, mas não, era apenas um simples soldado raso! Não insisti, também para não prejudicar o colega, caso ele acedesse ao pedido e fosse apanhado nessa falta. Uma hora passava depressa. Comecei a movimentar-me, sem destino, sereno e tranquilo, sem pressas, e eis que vejo um barracão. Tratava-se de um silo, uma espécie de armazém, cheio de palha. Fui até lá e estendi-me deleitosamente. Estava quase a adormecer quando ouço algo a mexer-se ali perto. Levanto-me ligeiramente e qual não é o meu espanto ao verificar que se tratava de ratazanas! «Que se lixe», resmunguei. Com o sono a dominar-me, não podia ser esquisito.

      Deitei-me novamente e adormeci profundamente. Corria o risco de dormir todo o dia. No entanto, por volta das seis da manhã, uma poderosa voz faz-se ouvir: «Quem está aí dentro?» Na mão trazia longa e temível forquilha. Ainda estremunhado, respondo: «sou eu, um soldado de Infantaria 6; assisti à festa de São João e como cheguei antes da alvorada ao quartel não me deixaram entrar

     O agricultor pareceu satisfeito e convencido com a minha resposta. Olhou fixamente para mim, com aqueles olhos de águia, que tudo veem, e com uma certa complacência diz: «Está bem, está bem; agora vá-se embora

     Fiquei aliviado, como me tirassem do lombo um fardo de chumbo. Cheguei ao quartel ainda a tempo do pequeno-almoço e contei aos camaradas aquele estranho e hilariante episódio. Todos se riram a bom rir, até eu me ri!

- Como é bom ter vinte anos! – diz Henrique, encantado com a história.

- Estes pequenos episódios são somente banalidades; servirão um dia mais tarde, quando estivermos aposentados, para contar aos netos. Eles provavelmente não acreditarão, tal como hoje já não acreditam nos contos de fadas e no pai natal. A televisão, sobretudo, mas também a entrada para a escola em tenra idade, afastando assim as crianças dos avós, mata os sonhos da infância.     


continua...