quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES (e AFINS)

 

Joaquim A. Rocha

  


 

Edição de autor


Título: Escritores e Investigadores Melgacenses (e afins)

 

Autor – Joaquim Agostinho da Rocha

 

Capa – desenho de Manuel Félix Igrejas

 

Contra capa – desenho de Manuel Félix Igrejas

 

Fotografias –

 

Execução gráfica –

 

Tiragem –

 

Depósito legal –

 

ISBN –

 

Data de edição –

 

Correio eletrónico: joaquim.a.rocha@sapo.pt

Blogue: Melgaço, Minha Terra

  

Obras do autor

  

Obras a publicar

 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes do Concelho de Melgaço (biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

Melgaço: Padres, Monges e Frades

Frágeis Elos (2.ª edição)

Escritores e Investigadores Melgacenses (e afins)

Conto (O Fim de um Sonho)

Ferreira da Silva

Sob o Signo do Azar

 

Obras publicadas

 

Livros

 

Frágeis Elos (uma história familiar) 1.ª edição

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II volumes)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

Os Novos Lusíadas (de 1500 a 1974)

Melgacenses na I Grande Guerra …

(em parceria com Valter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

 

Prefácios nos seguintes livros de José A. Cerdeira e do Dr. Augusto César Esteves:

 

Tomaz das Quingostas (JAC)

O Buraco da Serpe (JAC)

A Adversidade por Madrasta (JAC)

O Sonhador dos Montes da Aguieira (JAC)

Nas Páginas do Notícias de Melgaço (ACE)

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal A Voz de Melgaço

No jornal Fronteira Notícias

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro Lugares Sagrados

 de Portugal I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

 

 

 Apresentação

  

     Quando comecei esta pesquisa não fazia a mínima ideia de quantos escritores houve e há em Melgaço, concelho do Alto Minho. Uma coisa tinha como certa: não seriam muitos, meia dúzia se tanto, mas enganei-me redondamente. Felizmente são mais, e alguns deles, os que já morreram, deixaram obras com muita qualidade. Quanto àqueles que ainda escrevem, vão-nos surpreendendo com bons trabalhos de escrita. Apenas vou considerar aqueles escritores que têm alguma notoriedade, editaram, ou alguém editou por eles, livros, quer na área da ficção e da poesia, quer na área da investigação histórica, ou no ensaio. Abriria, no entanto, uma exceção: a Dr.ª Ana Maria Fernandes, nascida em Melgaço no ano de 1953, tem escrito, ao longo dos anos, poesia, sobretudo sonetos, com uma mestria inexcedível. Contudo, até agora, nada publicou. É pena, porque a sua escrita é do melhor que há. Não se explica a sua recusa em publicar aqueles poemas maravilhosos. Esperemos que um dia vá a uma Tipografia e mande fazer uns quantos exemplares dos seus belos sonetos, a fim de nós, leitores, termos acesso a eles. Quererá ela imitar Fernando Pessoa, que guardava toda a sua obra literária em uma arca? Façamos votos para que a escritora Ana Maria se decida pela publicação e não pelo escondimento.      

     Os escritores vão ser colocados por ordem cronológica de nascimento. Esta arrumação tem uma vantagem: sabemos que os primeiros são os mais antigos, e à medida que formos folheando as páginas encontraremos os mais novos. Tenho pena não dominar a cem por cento o latim; se tivesse esse conhecimento traduziria para a língua portuguesa os textos de frei Francisco Melgaço e de outros. O Professor Doutor José Marques levou anos à volta do Cartulário do Mosteiro de Fiães, escrito em latim, mas, apesar de ter fixado o texto, não o traduziu para português, o que todos devemos lamentar. Lembro que há muitos anos, quando eu residia em Lisboa, pedi a dois ou três franciscanos, mestres de latim, para me ajudarem a traduzir para a nossa língua os forais dados a Melgaço pelos primeiros reis de Portugal. Quando se deu por finda essa tarefa, publiquei-os em “A Voz de Melgaço”. É óbvio que muitos dos leitores desse jornal não ligaram absolutamente nada a esse trabalho; provavelmente nem atribuem grande significado a esses textos antigos, de uma grande importância para a história de Melgaço. Costuma-se dizer que ninguém é santo na sua terra natal. Os melgacenses em geral nunca gabaram muito os seus conterrâneos. Fala-se em inveja, preguiça mental, desprendimento; seja o que for, aquele que nasce em terras melgacenses não espere grande coisa dos seus conterrâneos. Admiram mais os de fora. Podem eles não ter grande obra publicada, podem até ser medíocres, mas vieram de outro sítio qualquer. Se virmos a toponímia, ficamos todos de boca aberta: Rua Afonso Costa, Avenida Salgueiro Maia, Largo Amadeu Abílio Lopes {embora natural de Melgaço passou quase toda a sua vida no Brasil; que eu saiba, não se destacou em nada, apenas ajudou a criar uma sociedade anónima, o que é, quanto a mim, vulgaríssimo; muito mais fez pela nossa terra o comerciante José Cândido Gomes de Abreu (1825-1908) e tiraram-no do Largo da Calçada para lhe darem uma ruazinha com meia dúzia de metros de comprimento}, Rua das Carvalhiças, etc. Hermenegildo José Solheiro (1868-1931), apesar de ter sido um grande político concelhio, não devia, quanto a mim, ter um Largo e uma Rua com o seu nome. Ficaram esquecidas figuras como o grande escritor melgacense Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1996), Mestre Morais (1890-1971), o escultor Acácio Dias (1935-2013), Manuel Félix Igrejas (1928-2019), Óscar Marinho (1911-2001), Padre Bernardo Pintor (1911-1996), etc. Eu espero, com este humilde trabalho, avivar a memória dos políticos concelhios para que prestem alguma justiça a esses melgacenses de primeira categoria, que andam tão esquecidos.            

  

 

ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES

 

 

- Francisco Melgaço (Frei). Nasceu no concelho de Melgaço no ano de …? (não descobri até agora a data de seu nascimento). Foi religioso da Ordem de São Bernardo. Escreveu várias obras, relacionadas com a doutrina cristã, as quais não foram impressas. Os seus manuscritos (escritos em latim) conservam-se na livraria do Convento de Alcobaça, à espera de um especialista que os analise e divulgue. // (ver Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico. João Romano Torres – Editor. Lisboa – 1903. Página 960).

 

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- Martinho de Melo e Castro (Dr.) Embora conste que nasceu em Lisboa, monsenhor Almeida Silvano, na sua obra «As Águas de Melgaço», diz que ele nasceu em Melgaço (ver Padre Júlio Apresenta Mário, página 146). Como não tenho em meu poder fotocópia do seu assento de batismo, nem sequer do seu assento de óbito, limito-me a transcrever o texto seguinte, inserido no Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico. João Romano Torres, Editor. Lisboa, 1903: {«Estadista e grande diplomata. Nasceu em Lisboa a 11/11/1716 e faleceu a 24/3/1795. Era filho de Francisco de Melo e Castro, descendente da família dos Castro de Melgaço, tronco das casas dos condes de Resende e das Galveias. Destinando-se à vida eclesiástica, cursou filosofia na Universidade de Évora, pertencente à Companhia de Jesus, e obteve – ainda muito novo – o grau de bacharel, distinguindo-se por se mostrar um fervoroso apologista da filosofia peripatética, defendida pelos jesuítas contra os adversários, entre os quais tinham o mais importante lugar os congregados do Oratório. Passou depois a estudar Direito Pontifício, na Universidade de Coimbra, em que recebeu também o grau de bacharel, e por influência da família foi provido – ainda em curta idade – num canonicato da Sé Patriarcal. Mas a sua inteligência e vocação o chamavam a outra carreira, porque a eclesiástica nada lhe sorria. Favorecido pela proteção e amizade de el-rei D. José, encetou a carreira diplomática, indo em 1751 representar Portugal como enviado junto aos estados gerais das Províncias Unidas, sendo pouco depois, em 1754, transferido para a corte de Londres, onde o rei Jorge II o tratou com a maior distinção. Sucedendo em Lisboa o grande terramoto do primeiro de novembro de 1755, calamidade que excitou a compaixão dos ingleses, Jorge II resolveu acudir com avultada quantia, sob o pretexto de que Portugal ficaria colocado em sérios apuros financeiros com tão lamentável desgraça. O ilustre diplomata, para não ser desagradável ao soberano inglês, aceitou o donativo, e converteu-o a favor da sua terra, comprando com ele um parque de artilharia que mandou a el-rei Dom José. Por ocasião da guerra entre Espanha e Portugal, Martinho de Melo e Castro alcançou pelo trato em que vivia com os principais membros do governo e com os chefes da oposição, que segundo as letras dos tratados fossem mandados socorros de tropas ao nosso país, apesar da malevolência de lorde Tyrawley, que tendo sido pouco antes mandado a Portugal, informou o seu governo de que seria inútil qualquer auxílio porque Portugal decerto não poderia resistir a três meses de campanha. Foi ainda por intervenção de Martinho de Melo e Castro que se estipularam os contratos com que vieram servir no nosso exército muitos oficiais dos que então andavam a soldo de estrangeiros, e - segundo as próprias palavras do marquês de Pombal - o nosso enviado executou habilíssima e zelosissimamente todas as instruções durante a guerra de 1762. No ano de 1763 foi mandado a Paris para tomar parte no congresso em que se negociou a paz entre Portugal, França, Inglaterra e Espanha, e pretendendo o duque de Choiseul, então ministro dos estrangeiros de Luís xv, manter a preeminência da sua nação na assinatura do tratado, com tais razões sustentou o nosso representante o direito de Portugal, que logrou afinal sair quanto possível airoso dessas pendências diplomáticas. Diz-se que apenas terminou o congresso, el-rei Dom José mostrara desejos de aproveitar o superior talento e o valioso critério de Martinho de Melo e Castro para tomar parte no ministério, mas que o marquês de Pombal conseguira demorar a entrada do distinto diplomata, alegando a grande falta que fazia na corte de Londres um homem de tanta habilidade e competência, e Martinho de Melo e Castro voltara para aquela missão diplomática, onde se conservou até 1770, ano em que regressou ao reino, entrando então no ministério para dirigir a repartição do ultramar, lugar que ficara vago pela morte de Francisco Xavier de Mendonça, irmão do marquês de Pombal. Martinho de Melo e Castro era tido em alto conceito no Paço, e era indicado pela opinião pública como um dos infalíveis sucessores do marquês de Pombal, se o rei viesse a falecer, ou se por qualquer circunstância o primeiro-ministro se demitisse do elevado cargo que exercia. Martinho de Melo, apenas entrou na gerência dos negócios, não poupava as censuras e sátiras ao sistema de governo seguido em Portugal e começou a disputar a primazia e a minar a influência do marquês de Pombal, mas este em breve o fez moderar e recolher ao silêncio, valendo talvez a Martinho de Melo e Castro a sua incontestável habilidade própria e a amizade de el-rei Dom José, para que o primeiro-ministro o não obrigasse a seguir o caminho do desterro, para onde já enviara três dos seus colegas no ministério. Contudo, Martinho de Melo e Castro, embora se julgasse superior à justa medida dos seus merecimentos, era cuidadosamente aplicado aos negócios da sua secretaria, e sobre os mais graves temas da administração e reforma das colónias, escrevia memórias e projetos que eram justamente apreciados pelo exato conhecimento dos assuntos e pela madureza dos alvitres. Quando faleceu el-rei D. José e se desencadearam todos os ódios contra o marquês de Pombal, aproveitou a ocasião para se vingar, sugerindo a ideia de que se instaurasse processo contra o poderoso ministro, ideia que foi logo aceite. Foi ele quem se encarregou de anunciar ao marquês de Pombal que estava demitido dos altos cargos que exercia. No reinado de Dona Maria I continuou fazendo parte do ministério, e foi então que empreendeu notáveis reformas, organizando o quadro dos oficiais da armada, melhorando os estudos, aumentando o número de vasos da esquadra, mandando construir o dique no arsenal, alargando extraordinariamente a Cordoaria, e reorganizando o arsenal, podendo quase dizer-se que a todos os ramos de serviço naval levou a sua inteligência e ousada iniciativa. Escreveu: «Memória sobre o projeto da companhia da Índia». São muito interessantes os documentos seguintes, parte impressos, parte manuscritos, que servem para o estudo da história do Brasil, e dão uma ideia da importância dos serviços prestados por Martinho de Melo e Castro; «Memória sobre o melhoramento dos domínios de sua majestade no Brasil»; «Instruções de …, a Luís de Vasconcelos e Sousa acerca do governo do Brasil»; com a data de 27/1/1779, e saíram na revista do Instituto Histórico, tomo xxv, de 1862, página 479. Escreveu diversos avisos, em diferentes datas, dirigidos ao Brasil, que vêm mencionados no volume XVII do Dicionário Bibliográfico, páginas 6 e 7. Escreveu também várias memórias sobre o comércio da Ásia, o plano de uma companhia para o negócio de Cabo Verde, etc.}             

 continua...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Gentes do Concelho de Melgaço vol. 3_ Freguesia de Chaviães_ por Joaquim A. Rocha PDF gratuito

                                    Gentes do Concelho de Melgaço

Vol. 3- Freguesia de Chaviães



por Joaquim A. Rocha


Agora em PDF!

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OBRAS COMPLETAS DE JOAQUIM A. ROCHA


OS MEUS SONETOS

(e os do frade)

 

 

 

Edição de autor

 

 

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FICHA TÉCNICA

  

 

Título – Os Meus Sonetos (e os do frade)

 

Autor – Joaquim A. Rocha

 

Capa – Fotografia tirada no castelo de Castro Laboreiro

 

Execução Gráfica –  

 

Tiragem – 000 exemplares

 

Depósito legal –  

 

ISBN –

 

Data de edição –

 

Correio Eletrónico – joaquim.a.rocha@sapo.pt

 

Blogue: Melgaço, Minha Terra

 

 

 

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Obras do autor

 

Obras a publicar

 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes do concelho de Melgaço (biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

Frágeis Elos (2.ª edição)

Melgaço: padres, monges e frades

Escritores Melgacenses…

Sob o Signo do Azar

O Fim de um Sonho (conto)

 

Obras publicadas

 

Livros

 

Frágeis Elos (uma história familiar)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II v.)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

Os Novos Lusíadas (…)

Melgacenses na I Grande Guerra (…)

(em parceria com o Dr. Valter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

Prefácios nos livros de José A. Cerdeira e de Augusto César Esteves:

 

Tomaz das Quingostas

O Buraco da Serpe

A Adversidade por Madrasta

O Sonhador dos Montes da Aguieira

Nas Páginas do Notícias de Melgaço

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal A Voz de Melgaço

No jornal Fronteira Notícias

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro Lugares Sagrados

 de Portugal I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

 

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PREFÁCIO

 

 

     «O soneto, derivado do franco-provençal sonet, diminutivo de son, que significa melodia, é uma forma poética cuja invenção é atribuída a Jacopo da Lentini, poeta da escola siciliana que viveu e escreveu na primeira metade do século XIII. Sobre a origem do soneto têm-se defrontado desde o século XIX duas teses: - segundo uma, o soneto tem origem popular, resultando da fusão de dois estrambotes sicilianos, um de oito e outro de seis versos. Segundo outra, o soneto deriva de uma estância independente da canção (cobla esparsa).

     Segundo alguns investigadores contemporâneos (por exemplo Fubini) estas duas teorias não são mutuamente incompatíveis: como comprova a rima cruzada das quadras dos sonetos mais antigos de Jacopo da Lentini, rima prosseguida nos tercetos (ABAB… CDCD) o modelo originário seria de facto o estrambote ou a canzuna siciliana de oito versos, forma poética popular; na reelaboração, porém, deste esquema versificatório por poetas cultos faz-se sentir a influência da estrutura da canção, aparecendo então as rimas d’Arezzo, poeta da segunda metade do século XIII, o primeiro a usar este esquema rimático – e passando a distinguir-se claramente os dois quartetos e os dois tercetos do soneto (…) e enriquecendo-se de novas modalidades o esquema rimático dos tercetos. A origem do soneto seria, assim, híbrida: o estrambote, forma da poesia popular, ter-se-ia fundido com a poesia de arte, criando-se deste modo uma forma poética mais complexa.

     Adoptado por poetas como Cavalcanti, Dante e, sobretudo, Petrarca, o soneto em breve se transformou numa das mais relevantes formas poéticas do dolce stil nuovo, revelando-se particularmente apto para a expressão do sentimento amoroso, mas também para a meditação moral e para a captação satírica do real quotidiano(Aguiar e Silva)

 

     Erich Auerbach, na sua obra “Introduction aux Études de Philologie Romane”, ensina-nos: «A atividade literária começa no século treze pela imitação da poesia lírica provençal; os primeiros trovadores do norte da Itália, como Sordello de Mântua, que escreveu os seus versos pouco depois de 1200, serviram-se inclusive da língua provençal, mas no sul, na Sicília, a imitação da lírica cortês fez-se em italiano. Em Palermo residia o último imperador da grande casa alemã dos Hohenstaufen, Frederico II (morto em 1250), herdeiro, por parte da avó, uma princesa normanda, do reino da Sicília e de Nápoles... É um dos homens mais notáveis da idade Média, tanto pelas suas ideias políticas como pela sua formação intelectual; ele, seus filhos e sua corte foram os primeiros a compor poesias de inspiração provençal em língua italiana; imitaram a forma principal da poesia provençal, a grande canção de amor, e inventaram, a par dela, uma forma mais breve e mais concisa, que se tornou a forma lírica mais usual da poesia lírica italiana e que, mais tarde, foi imitada em toda a Europa: o soneto, poema de catorze versos de dez sílabas, composto de duas quadras e de dois tercetos…» (Tradução de José Paulo Pães).

 

     E Amorim de Carvalho: «O soneto, que é o mais célebre sistema estrófico, e que os clássicos levaram à mais alta perfeição formal, consta de quatro estrofes isométricas (mesmas dimensões): duas quadras, mais dois tercetos, perfazendo, portanto, catorze versos, com transportação das rimas da 1.ª para a 2.ª quadra e transportação das rimas do 1.º para o 2.º terceto. A distribuição mais prestigiosa das rimas é a deste exemplo: ABBA; ABBA; CDC; DCD (“Meu ser evaporei na lida insana”, de Bocage).»

 

     «Em virtude da aproximação de ideias que, por via de regra, há entre as duas quadras (na 1.ª o poeta põe a tese, na 2.ª explana) e entre os dois tercetos (no 1.º o poeta confirma a tese, no 2.º conclui), facilmente o soneto configura dois grupos de estrofes compostas: uma oitava composta de duas quadras mais uma sextilha composta de dois tercetos; nunca, porém, duas estrofes simples. É, pelo menos, assim no soneto perfeito. Aparecem, frequentemente, nos clássicos, com ou sem simetria, várias formas de distribuição de rimas para as quadras, embora mantendo o critério das duas rimas. Aos tercetos é que já se deram, com frequência, três rimas, assim: CDE-CDE; CDE-EDC; CDC-CDC. Ou assim, sem simetria: CDE-CED; CDE-DCE. Na poesia clássica portuguesa o decassílabo (dez sílabas) é o verso próprio do soneto, reputado o mais belo e grave. Só modernamente tem sido desrespeitado o uso exclusivo desse verso, assim como as distribuições rimáticas que atrás apresentámos(Tratado de Versificação Portuguesa).

 

     Depois destas valiosas transcrições, quero também dizer duas palavras da minha lavra. A primeira é para lembrar que o soneto não é de maneira nenhuma um poema que se faça com ligeireza. Bem pelo contrário, exige tanta concentração que por vezes até apetece desistir. Ter de contar em catorze versos de dez sílabas uma história, resumida que seja, expor um sentimento, uma ideia, não é nada fácil. Mas vale o esforço. De facto, o soneto, sendo bem elaborado, é de uma beleza inigualável. O meu sonho (quem não os têm?) é um dia aproximar-me dos grandes mestres portugueses: Camões, Bocage, Antero, Florbela… Essa meta é quase inatingível, porque eles foram génios e eu sou apenas um técnico da palavra, com um ou outro verso mais conseguido. O primeiro soneto que escrevi data dos anos setenta do século XX, depois da Revolução de Abril, inspirado sem dúvida pelos acontecimentos históricos de então. Não se pode, contudo, datar rigorosamente porque após isso já mexi neles todos – mudando palavras, até alterando por vezes o próprio conteúdo semântico!

     Já me apeteceu torná-los intemporais, mas por enquanto tenho resistido à tentação diabólica e tola. Fica no entanto aqui este registo que visa dois objetivos:

 

1.º - Aqueles que porventura me lerem, não levem muito em conta as datas que aí figuram.

 

2.º - Se não tiverem qualquer datação é porque não consegui suster os meus ímpetos destrutivos.

    

     Há anos atrás um fraco crítico sugeriu-me que abandonasse a poesia e me dedicasse somente à prosa. Achava ele que eu não tinha jeito para esta sublime arte. Apesar dessas contrárias opiniões, continuo.

    Não só por teimosia, mas convencido de que quem trabalha arduamente numa determinada profissão ou arte, alguma coisa dali há-de sair um dia. Não é verdade que Camilo Castelo Branco, que ninguém reconhece como poeta, escreveu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa? Estimulado por estes exemplos, prossigo no caminho que desde há muitos anos tracei. Quando for velhinho, e já não puder escrever, então nessa altura farei um balanço de tudo aquilo que fiz no passado e logo verei se algo de bom ou ótimo produzi. Se nada se aproveitar daquilo que fabriquei, é sinal de que o meu esforço, o meu suor intelectual, foi inútil e que mais me valera ter ido para a praia tomar banhos de sol, banhar a mente bronca, espreguiçar o meu ócio, ou então vestir o fato de campónio e ir para o campo semear batatas e feijões. Logo se há-de confirmar uma destas hipóteses. Mas também penso, ao contrário desse “crítico”, que se não existissem pessoas como eu, teimosas e medianamente dotadas, não haveria igualmente essas grandes estrelas, cuja luz nos ofusca a todos.

 

     Nós, os pequenos poetas, somos necessários – se mais não fosse para servirmos de termo de comparação com os maiores. Não ficamos, é certo, nas Histórias da Literatura, mas que importa? Um livro nosso há-de sempre surgir numa modesta biblioteca e talvez um qualquer leitor, embora distraído ou desinteressado, o tire da estante e o abra para ler. Não seremos tese de licenciatura, muito menos de mestrado ou doutoramento. Que importa? Essas teses são normalmente odiosas para aqueles que as elaboram e detestáveis para aqueles que as têm de ler por razões de ofício. Pelo menos aí nós ficamos a ganhar!

     Voltando ao soneto: esta forma de poesia tem imenso trabalho oficinal até se dar por concluído. Talvez seja por isso que hoje em dia praticamente não há sonetistas dignos desse nome. Poucas pessoas estão dispostas a perder tempo com o soneto quando com duas penadas, no computador, escrevem um “poema” tipo carta para longe, que ninguém percebe, onde o hermetismo é mais falha de saber do que intenção. Depois publicam, porque os donos da editora são amigos do papá, ou então fazem edição de autor, com o dinheiro da mamã! E os parolos comentam: - «que beleza de versos: não percebi nada, mas que interessa?!»)

     A poesia é para ser entendida, de contrário não se justifica. A arte pela arte é apenas uma utopia. Quem escreve gosta de ser lido e compreendido. Deseja que a sua mensagem (porque ela existe) seja apreendida, decifrada e até partilhada.

     A poesia tem sido usada aos longos dos séculos como arma de revolta e de agitação na voz de grandes e médios cantores. Ainda não há muito tempo, aqui em Portugal, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Vitorino, entre outros, a usaram com eficácia e gosto. Também noutro palco o ator João Villaret (1913-1961) recitou poemas com brilho e beleza inultrapassáveis. Mário Viegas tentou seguir-lhe os passos e por vezes conseguiu aproximar-se do mestre.

     Um livro é como a vida – um amontoado de páginas! A diferença está na ordem: naquele, elas obedecem a um critério rigoroso; nesta, nem por isso, o caos por vezes predomina. Espero que ao lerem estes medíocres e insípidos sonetos não bocejem. Se isso acontecer, caro leitor, arrume o livrinho na estante e leia outro tipo de literatura. Que tal a Odisseia e a Ilíada, de Homero, a Eneida, de Virgílio, ou a Guerra da Gália, de Júlio César? E se quiser rir, e também meditar, leia o Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes. Essa leitura tem uma enorme vantagem: sabe-se de antemão que são obras de grande qualidade, autênticas obras-primas.

     A inserção aqui dos sonetos do frade (no Notícias de Melgaço n.º 846, de 18/1/1948, página 2, diz-se que ele se chamava Agostinho da Cruz – onde teriam conseguido essa informação?) e as respostas, quer a minha (JAR), quer a do juiz e a do Elmano Minhoto (cujo nome verdadeiro dizem ser Carlos Alberto Seixo, mas com algumas reservas), não visam o escândalo para promover vendas, mas sim levar ao conhecimento dos leitores, sobretudo dos melgacenses, aquilo que se escreveu da nossa querida terra: seja o positivo, seja o negativo. E é bom sublinhar que ele, frade, fala da Vila, não do concelho. Nós não somos cegos, nem idiotas, e sabemos perfeitamente que numa vila, ou numa cidade, vai existindo gente boa e gente com mau carácter ao longo dos séculos. Há-de ser sempre assim enquanto houver seres humanos. Porém, o fradeco exagerou propositadamente! A sua escrita tem como objetivo vingar uma afronta que alguém da vila de Melgaço lhe fez. Não se compreenderia se fosse doutro modo. Não sei a que mosteiro pertenceu, mas em princípio devia ser monge de Fiães, pois assim o dá a entender o juiz Dr. Cândido Furtado Dantas em 1798.

     Se eu fosse escultor, erguer-lhe-ia uma estátua, onde ele, de joelhos, pediria perdão eternamente aos naturais e residentes da Vila de Melgaço – era o castigo que lhe dava!

     O soneto «Sinal Meu» foi inspirado num outro, publicado no «Notícias de Melgaço» n.º 128, de 25/10/1931, que por sua vez se inspirara num soneto de Camões.

    Quanto ao sinal, a história é simples: comprei uma pequena casa, dei um adiantamento e, depois, por ter surgido uma doença na família, tive que desistir e fiquei sem esse dinheiro.

     O do jornal chorava uma nota de 500$00 que tivera que gastar, e escrevera o soneto na dita nota! No meu caso, o choque (e o cheque) foi mais sensível porque o dono da vivenda era meu colega de Empresa! Por outro lado, vendeu dias depois a habitação, não perdendo tempo nem capital com a minha desistência.

 

     Quanto ao soneto «O Cão da Rasela», é inspirado no seguinte artigo de jornal, escrito por um seu correspondente:

 

     «Faleceu, a 12/12/1954, no lugar de Parada, Chaviães, Melgaço, a indigente Rosa Pires (Rasela), que por caridade dos senhores José Maria Esteves e Júlio Alves, vizinhos da finada, foi feito um peditório para angariar o necessário para o caixão e outras despesas inevitáveis. No enterro da pobre Rasela um facto chamou a atenção de toda a gente e deu a nota interessante da sua grande bondade. Possuía ela uma cadelinha, companheira inseparável da velha, e comparsa das suas horas de alegria e de dor. Com o falecimento da infeliz Rasela, faltaram ao inteligente animal os carinhos habituais; ele estranhou o facto e todo o tempo que durou o depósito da defunta não foi capaz de a abandonar, como não a deixou em todo o acompanhamento, nem para comer! // Escorraçado o pobre animal nesta ocasião, afastava-se um pouco para logo voltar para o pé do caixão mortuário. E agora que o corpo da infeliz Rasela descansa em paz no cemitério paroquial, ainda lá permanece, de dia e de noite, a uivar, que outra voz lhe não deu Deus, para mostrar aos homens a saudade da sua pobre dona. Pobre animal! Como é grande o teu exemplo(Notícias de Melgaço 1137, de 19/12/1954).

 

                                                    

                                                                                                                    O autor

 

 

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SONETOS

(e sonetilhos)

 

 

 

MUNDO NOVO

(1)

 

 

 

A minha vida é uma interrupção

Que não seguirá dentro de momentos!

É – ainda – um sistema em formação.

É, já, um mundo prenhe de tormentos!

 

Daqui a longos, quantos longos anos…

Acordará: – seu letargo interrompe.

Esquecerá gregos, persas, germanos…

Com o mundo antigo, bárbaro, rompe.

 

Trará um mundo novo para dar;

Um espírito alto, criativo…

Lançará de novo as barcas ao mar.

 

Libertará o Ser, inda cativo.

Fará do universo o seu lar…

A casa do homem novo: bom, altivo.

 

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FILHO DE JEOVÁ

(2)

 

  

Quem o criou, lhe deu figura d’homem?

O modelou e lhe deu a lucidez?

O tornou beato, santo e lobisomem?

Crucificou com raiva e malvadez?

 

Quem o aprisionou num falso paraíso,

Puniu, como quem pune um criminoso?

Quem lhe roubou dos lábios o sorriso,

Quem o vestiu com trajes de andrajoso?

 

Não fui eu, que não sou demo nem deus!

Nem sequer estava lá quando o criaram:

Vivia algures na terra de ninguém!

 

Ignorando anjos, génios, fariseus…

Perdido nos sonhos que não vingaram.

Errante como um judeu, aqui e além!

 

 

 continua...