sábado, 15 de agosto de 2026

 ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES (e afins)

Por Joaquim A. Rocha

(continuação).


- António de Santa Maria dos Anjos Melgaço (Frei). Nasceu no concelho de Melgaço a 17 de junho de 1718. Foi frade franciscano. Professou no Convento de São Francisco de Lisboa a 22 de janeiro de 1731. Fez os estudos de Filosofia e Teologia no Colégio de São Boaventura da Feira, em Coimbra, entre 1731 e 1737. Foi professor nos Estudos de Mafra (fundados por D. João V) nos anos de 1737 a 1752. Devia ser uma pessoa deveras inteligente e curiosa, pois o próprio rei o incita a prosseguir os estudos. Segue os conselhos do monarca, e em 1743 adquire um doutoramento em Teologia na Universidade de Coimbra, talvez o primeiro melgacense a conseguir tal feito. Como escritor, deixou várias obras, todas elas redigidas em latim. Uma delas tem por título «SCOTUS ACADEMICUS, seu Philosophia Peripatetica ad commodiorem regalis Academiae Mafrensis usum, juxta mentem venerabilis, subtilisque Magistri Joannis Duns Scoti.» (Tomo I, Lisboa, 1747). Por ter sido eleito provincial «da sua província», em 1751, viu-se obrigado a suspender por algum tempo a continuação da obra. O segundo volume estava em impressão apenas no ano de 1755, o qual se queimou aquando do grande terramoto. No Convento de São Francisco arderam também, nessa altura, outros escritos da sua autoria, que tinha prontos para publicação. Em 1759 publicou, completamente revisto, o tomo II do «SCOTUS ARISTOTELICUS». Os dois volumes debruçam-se sobre a «logica parva», ou seja, pequena lógica, e a «logica magna», que significa grande lógica, «e interessam para o conhecimento do movimento de ideias em Portugal no século XVIII e dos estudos na escola de Mafra». Faleceu em Vila do Conde a 14 de Agosto de 1780, com 62 anos de idade. // Quem desejar consultar a bibliografia pode fazê-lo em {Frei António do Sacramento, História Seráfica, sexta parte, manuscrito 703, da Torre do Tombo. / Memória da forma com que Dom João o Quinto mandou para Mafra religiosos para Lentes de Faculdade, manuscrito 801, folhas 682 e seguintes, do arquivo da casa Cadaval (Muge). / A. A. Andrade, A Orientação do Estudo da Filosofia dos Franciscanos, in Brotéria 43 (1946), páginas 43 a 45.} // (Verbo – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, páginas 648 e 649).   

 

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- Jerónimo José Andrade. Filho do Dr. Francisco Daniel Nogueira, médico do exército, e de Mariana Josefa Veloso de Campos de Andrade. Nasceu em Melgaço em 1750. // No Dicionário Histórico, Biográfico, etc., na página 511 lê-se: «escritor que se conhece somente pela sua obra, intitulada “Descrição do estado em que ficaram os negócios da capitania de Moçambique nos fins de novembro de 1789, com algumas observações e reflexões sobre as causas da decadência do comércio, e dos estabelecimentos portugueses na costa oriental da África”. Escrita no ano de 1790. Saiu no Investigador Portuguez, no ano de 1815, começando no n.º XLVI, e continuada nos seguintes até ao LIV, em que terminou.» // Na Wikipédia acrescentam-se mais alguns dados. Diz-se aí que tinha sido militar, e secretário do governo de Moçambique de 1783 a 1784; com a patente de brigadeiro, foi comandante das armas de Pará, Brasil, a 5/3/1803. Também fora nomeado governador da capitania de Santa Catarina, mas não assumiu o cargo. // Escreveu o general A. E. Mateus da Silva: {Em 1796, e então sargento maior do regimento de artilharia da marinha, JJNA foi autor do «Projecto de huma nova arma Portuguesa». Este manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional, carateriza-se por uma grande minuciosidade, e nele o seu autor descreve a construção de uma arma balística que designou “foguete incendiário”.}

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- Aníbal Bernardo Rodrigues Passos (Padre). Filho do Dr. Francisco Luís Rodrigues Passos, médico-cirúrgico, natural de Paços, Melgaço, e de Ludovina Rosa Monteiro de Vasconcelos Mourão, natural de Viana do Castelo, moradores na Vila de Melgaço. Neto paterno de Bento Isidoro Rodrigues e de Rosa Maria Salgado, de Paços; neto materno de Vitorino Monteiro Vasconcelos Mourão, de Vila Real, e de Albina Clara de Abreu Cunha Araújo, de Melgaço. Nasceu na Rua da Calçada, Vila de Melgaço, às sete horas da manhã de 23 de Dezembro de 1866 e foi batizado a 14/1/1867. Padrinhos: a sua avó materna e o padre Bernardo António Rodrigues Passos, seu tio paterno, pároco colado da freguesia de Arnoso, Famalicão, representado por seu procurador, Gaspar Eduardo Lopes da Fonseca, contador do Juízo de Direito. // Ordenou-se em 1890, ficando adido à corte do bispo de Meliapor como secretário particular até 1892, ano em que cantou missa nova. // Foi redator de “O Melgacense”, propriedade de José Cândido Gomes de Abreu; de “O Século”; e de “A Pátria”. // Colaborou nos jornais: “Jornal de Notícias”; “Jornal de Viagens”; “Zé Povinho”; “Revistas das Escolas”, etc. // Como escritor sobressai a sua “Tragédia de Lisboa – A Política Portuguesa”, obra com 322 páginas, escrita logo após o regicídio de 1/2/1908 (Jornal de Melgaço n.º 733). Cada brochura custava 600 réis (se fosse pelo correio 630 réis); encadernado, em capas especiais, vendia-se a 800 réis (pelo correio 850 réis). // Era também um distinto orador sagrado, sendo notável o sermão “A Cruz”, por ele composto e pregado em Matosinhos a 7/5/1899. // Reconhecendo o seu mérito, nomearam-no sócio ordinário da Sociedade de Geografia de Lisboa. // Em 1915 era diretor do Colégio da Beira Mar, em Leça de Palmeira, Matosinhos. // No governo de Sidónio Pais foi chefe de gabinete ministerial do Dr. Alfredo de Magalhães. // Parece que foi professor na Universidade de Lisboa. // Morreu no Campo Grande, Lisboa, a 8/1/1934; os seus restos mortais jazem no cemitério do Lumiar (Notícias de Melgaço n.º 219, de 14/1/1934). // Nota: consta que o padre Aníbal Bernardo teve, já sacerdote, uma aventura amorosa com uma jovem, talvez Afra de Castro Louzada, solteira, nascida na freguesia do Bomfim, Porto, por volta de 1873, surgindo dessa paixão um menino, a quem deram o nome de António Aníbal (Toi), o qual usou o apelido Rodrigues Passos; o moço estudou engenharia, concluindo o Curso. O Eng.º António Aníbal Rodrigues Passos (Toi) finou-se em Luanda, Angola, em 1975 (salvo erro), com cerca de 70 anos de idade. Fora criado por uma irmã do progenitor, talvez a Ludovina Augusta. Era anti-salazarista, tendo sido perseguido pelo regime corporativista. Trabalhou em Goa, Moçambique, em São Tomé e Príncipe, e finalmente em Angola, onde morreu solteiro. Era amante da leitura, deixando por sua morte uma riquíssima biblioteca. // (Estas valiosas informações foram-me fornecidas por João Carlos Magno de Castro, nascido na Vila de Melgaço em 1945, da Casa de Galvão, que conviveu com o dito engenheiro em Angola).                

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- Augusto César Esteves (Dr.) Filho de Francisco António Esteves, emigrante no Brasil e proprietário, natural de Chaviães, e de Belarmina Cândida Esteves, proprietária, natural da Vila. Neto paterno de Diogo Manuel Esteves e de Maria Rita Esteves, lavradores, chavianenses; neto materno de Manuel José Esteves “Melgaço” e de Maria Rita Alves, proprietários, moradores em Eiró, Rouças. Nasceu na Rua Nova de Melo, SMP, a 19/9/1889, na casa que seu pai comprara ao Dr. João Luís de Sousa Palhares, de Prado, e foi batizado a 3 de outubro desse ano. Padrinhos: José de Jesus Esteves, solteiro, proprietário, morador em SMP, e a avó materna do batizando, viúva. // Ficou órfão de mãe a 17/10/1889. // Aprendeu as primeiras letras com o padre João Nepomuceno Vaz, teve como professor de caligrafia o escrivão de Direito, Miguel Ângelo Barros Ferreira, frequentou em seguida, na cidade de Braga, o Colégio do Espírito Santo, e depois a Universidade em Coimbra. // Foi padrinho de Zoé Augusta Rodrigues, batizada na igreja de Rouças a 14/2/1898; não assinou, por não saber! A madrinha era a sua madrasta. // A 30/8/1904 foi padrinho de Manuel Augusto Esteves, nascido na Fonte da Vila a 28 de julho desse ano. // A 18/6/1912 fez direito internacional, 5.º ano, 19.ª cadeira; nesse mesmo ano fez exame da 18.ª cadeira, 5.º ano, medicina legal, obtendo 14 valores; em julho desse ano fez a 13.ª cadeira, direito colonial, 4.º ano, 14.ª cadeira, processo penal, 4.º ano, e 17.ª cadeira, prática extra-judicial, 5.º ano; nesse dito ano de 1912, no mês de Julho, concluiu o curso de Ciências Jurídicas, na já citada Universidade de Coimbra. // Nos primeiros dias de dezembro participou como ator não profissional, juntamente com o Dr. António Augusto Durães e Maker Pinto, na comédia designada “Anedota” (Correio de Melgaço n.º 27, de 8/12/1912). // Foi nomeado notário interino para a comarca de Monção, tomando posse perante o tribunal desse concelho a 10/12/1912, terça-feira; em 1914 passou a ser efetivo (Correio de Melgaço n.º 88, de 22/2/1914); ocupou esse cargo até 19/8/1915. // Ainda em 1912 foi autorizado superiormente a exercer a advocacia (Correio de Melgaço n.º 29, de 22/12/1912). // Fez a sua estreia como advogado no tribunal de Monção, defendendo Manuel Alves (o Fará), acusado de crimes de burla e roubo (Correio de Melgaço n.º 47, de 27/4/1913). // No concurso para notários, realizado em Lisboa nos inícios de 1914, obteve a classificação de 1 MB e 4 BB (Correio de Melgaço n.º 85, de 1/2/1914). // Tomou posse a uma segunda-feira, 2/3/1914, perante o juiz de direito, de notário efetivo em Monção (Correio de Melgaço n.º 90, de 8/3/1914). // Casou a 25/10/1914, na Conservatória do Registo Civil, e a 16 de Dezembro desse ano na igreja católica, com Esmeralda da Ascensão, de 24 anos de idade, filha de Justiniano António Esteves e de Lina Rosa Lourenço. Testemunhas: Justiniano António Esteves e Maria de Nazaré dos Santos Lima. // Em 1915 pediu a exoneração de notário na comarca de Monção, aceitando ser nomeado escrivão de Direito para a comarca de Melgaço. Fez as malas e veio para a terra natal, onde foi Secretário do Tribunal Judicial e Ajudante do Conservador do Registo Predial. // A 3/3/1919 tomou posse como presidente da Comissão Camarária, composta por sete elementos, desempenhando esse cargo até agosto desse ano. // A 4/8/1919 o seu moinho, denominado o “Grande”, foi pasto de chamas; desconfiava-se que foram mãos criminosas a incendiá-lo (JM 1258, de 17/8/1919). Em 1920 deu-se ali uma tentativa de assalto (JM1293, de 20/6/1920). // Foi presidente da Assembleia Geral do Grémio da Lavoura e administrador do concelho de Melgaço nos anos de 1922 e 1923. // A 11/1/1928 desempenhava as funções de tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, ascendendo à provedoria a 27/12/1942, lugar que deixou em 1945. // A 30/4/1936 tomou posse do lugar de chefe da Secretaria Judicial do Tribunal de Melgaço, aposentando-se na 1.ª classe em maio de 1958; antes exercera o cargo de chefe da 2.ª Secção do mesmo tribunal. // Pode, e deve ser, considerado o principal fundador dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, de cuja direção foi presidente durante vários anos. Em 1937, em reunião da Assembleia Geral, foi aprovada por unanimidade uma proposta do corpo ativo, elegendo-o seu comandante honorário «pelos relevantes serviços prestados à corporação desde a fundação desta tão útil e benemérita instituição» (NM 346). // Era republicano convicto, mas teve de calar e consentir muita coisa durante a ditadura corporativista, que infelizmente não viu desaparecer. // Polemicou com o padre Júlio Vaz e com o “Mário de Prado”, mas sempre com educação e respeito devidos. // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 851, de 14/3/1948, página 4: «O Sr. Dr. Augusto César Esteves é um fumador inveterado: abriu uma gaveta, tirou um maço de tabaco superior, fez um paivante, acendeu-o e principiou a fumar. (…) Um outro cigarro se enrola e começou a arder, subindo ao ar espirais de fumo.» // Em Julho de 1948 era presidente da Assembleia Geral dos BVM (NM 865, de 18/7/1948). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 974, de 22 de Abril de 1951: «Para o Porto, e a fim de se submeter a tratamento especializado, partiu no passado domingo o senhor Dr. Augusto César Esteves, muito digno chefe da Secretaria Judicial desta comarca. Têm sido inúmeras as pessoas que procuram informar-se do seu estado, o que não admira dadas as suas altas virtudes e qualidades de simpatia. Notícias de Melgaço, que mui honrosamente conta Sua Excelência no número dos seus amigos dedicados, deseja-lhe um rápido restabelecimento e um breve regresso para o meio dos seus amigos que tanto o apreciam 

     «Conforme notícia já publicada neste jornal encontra-se no Porto, por motivos de saúde, o Ex.mo Sr. Dr. Augusto César Esteves. Por informações recebidas, sabemos que este ilustre melgacense, e nosso querido amigo, foi operado no Hospital da Trindade, no passado dia 20, e que graças a Deus tudo correu à medida dos desejos, dos seus familiares e dos seus numerosos amigos. E, assim, dentro de breve tempo, teremos o prazer de o ver e abraçar de [novo]. “Notícias de Melgaço” (que reconhece a desinteressada amizade que deve a Sua Ex.ª), congratula-se pelas suas melhoras e faz sinceros votos para que seja muito breve o seu regresso  

     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 977, de 13/5/1951: «Vindo do Porto, já se encontra entre nós o Ex.º Sr. Dr. Augusto César Esteves, que – graças a Deus – se encontra em franca convalescença. “Notícias de Melgaço” apresenta ao seu querido amigo os sinceros cumprimentos de boas vindas

     Escreveu vários livros sobre Melgaço, que editou à sua custa. Postumamente (1989 e 1991) foi publicada a sua obra “As Minhas Gerações Melgacenses”, e ainda Obras Completas, Volume I, Tomo I e II (2002) com artigos por si publicados no Notícias de Melgaço ao longo de vários anos. Por razões que se desconhecem, a reedição das suas obras foi interrompida. // Os seus livros abriram sem quaisquer dúvidas as portas a outros investigadores, e vão tornar possível escrever-se uma história relativamente bem documentada sobre o concelho. // Possuía uma boa biblioteca, a qual foi vendida pelo filho, depois da sua morte, a um alfarrabista do Porto, por cinquenta contos de réis! // Augusto e Esmeralda faleceram na Vila: a esposa a 4/12/1956 e ele a 26/3/1964; o seu funeral realizou-se no dia seguinte, sexta-feira. // (ver JM 1057, de 29/10/1914, CM 124, de 10/11/1914, NM n.º 18 e NM 1413). // A Câmara Municipal de Melgaço, presidida por Rui Solheiro, deu em agosto de 2009, a uma rua da Vila, o seu nome.

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- António Augusto Durães (Dr.) Filho do Dr. António Joaquim Durães, natural de Paços, e de Beatriz Augusta Ribeiro Lima, proprietária, natural da Vila de Melgaço. Neto paterno de João Manuel Durães e de Francisca Caetana Pires, do lugar de Sá, freguesia de Paços, proprietários; neto materno de Carlos João Ribeiro [Lima] e de Ludovina Rosa dos Santos Lima, proprietários, da Vila. Nasceu no Campo da Feira de Fora às 13 horas de 24/7/1891, e foi batizado a 5 de Setembro desse ano. Padrinhos: os seus avós maternos. // Em 1908 concluiu os preparatórios num liceu do Porto (Jornal de Melgaço n.º 742). // A 18/7/1910, na Faculdade de Direito, fez ato das instituições de direito romano e de português. // A 20/6/1912 fez exame, com distinção, da 18.ª cadeira, medicina legal, e dias depois fez exame da 19.ª cadeira, direito internacional, 5.º ano; em Julho desse ano fez exame da 15.ª cadeira, 4.º ano, ficando distinto; também fez exame da 16.ª cadeira, 5.º ano, sendo aprovado com quinze valores (Correio de Melgaço n.º 8, de 28/7/1912), e direito colonial, 13.ª cadeira, 4.º ano (Correio de Melgaço n.º 10). // Formou-se em Ciências Jurídicas, na Universidade de Coimbra, a 13/8/1912. // A seguir abriu escritório em Melgaço, em cujo foro se estreou, a 12/11/1912, na defesa do padre José Joaquim Pinheiro, ex-pároco da Vila, conseguindo a sua absolvição; o padre fora acusado por Duarte de Magalhães de lhe ter recusado a comunhão na quaresma de 1902, praticando, por conseguinte, abuso de funções religiosas; o advogado de acusação era o Dr. Anselmo Ribeiro de Castro, advogado em Viana do Castelo. // Ainda nesse ano de 1912 foi nomeado subdelegado do Procurador da República em Melgaço (Correio de Melgaço n.º 30, de 29/12/1912), mas foi exonerado no ano seguinte (Correio de Melgaço n.º 59, de 27/7/1913). // Era um político ativo; aderira, depois de Outubro de 1910, ao Partido Republicano Português, e foi chefe, em Melgaço, do Partido Democrático, cujo presidente, ou secretário nacional, era o Dr. Afonso Costa. // Foi administrador do concelho de Melgaço, tomando posse a 24 de fevereiro de 1913, e esteve nesse cargo até maio do ano seguinte, interessando-se pelo prolongamento do caminho-de-ferro até Melgaço, mas os seus esforços foram em vão, devido em parte à falta de recursos financeiros por parte do Estado. Também lutou pela estrada para Castro Laboreiro, mas o dinheiro era escasso nessa altura. Quis para Melgaço a luz elétrica, água canalizada, etc., mas nada disso se tornou realidade durante a sua permanência no concelho. Foi ainda diretor do “Correio de Melgaço”, a partir do número 74, de 9/11/1913, mas devido a divergências com Hermenegildo José Solheiro, proprietário do jornal, afastou-se em 1915; o seu nome só aparece como diretor e editor até ao número 142, de 23/3/1915; a partir daí já figura como editor Adriano Augusto da Costa. // Suponho que em 1913 foi candidato a deputado pelo círculo de Melgaço (ver Correio de Melgaço n.º 57, de 13/7/1913). // A 28/11/1913, pelas 18 horas e 30 minutos, na Portela de Chaviães, quando vinha de moto de São Gregório para a Vila, foi de encontro a umas pedras que alguém, propositadamente, colocara na estrada; ficou ferido numa perna e num braço, e a motorizada ficou estragada (Correio de Melgaço n.º 77, de 30/11/1913). // Em sessão de 28/11/1913 o tribunal da Relação do Porto deu provimento ao agravo interposto por ele, Dr. Durães, do despacho do juiz de direito de Melgaço, que o inibia de advogar em polícia correcional de parte, com o fundamento de que ele era administrador do concelho (Correio de Melgaço n.º 77). // Em 1914 solicitou uma licença à Câmara Municipal para mandar fazer uns consertos no prédio que possuía na Rua Teófilo Braga, Vila, e para colocar umas pedras nessa rua, de maneira a não impedir o trânsito público, a qual lhe foi concedida (Correio de Melgaço n.º 97, de 26/4/1914). // Ainda em 1914 pediu a exoneração de administrador do concelho, pedido que foi aceite pelo Governador Civil do distrito (Correio de Melgaço n.º 98, de 3/5/1914). // Tudo lhe acontecia: pelas 23 horas de 2/5/1914, numa casa do lugar de Alcobaça, Lamas de Mouro, foi vítima de um acidente; estava encostado a uma varanda e esta cedeu, caindo sobre um pátio que se encontrava a quatro metros da varanda; foi socorrido por Jaime de Almeida, Macker Pinto, e por várias pessoas ali presentes. Felizmente o ferimento não era de grande gravidade; no dia seguinte regressou à Vila, onde foi analisado pelo Dr. Vitoriano (Correio de Melgaço n.º 99, de 10/5/1914). // A 7/9/1914, ele e mais três amigos, estiveram em perigo de vida em Vila Praia de Âncora, em virtude de se terem afastado da praia; foram socorridos pelos pescadores e banheiros, que os salvaram com imensa dificuldade (Correio de Melgaço n.º 115, de 8/9/1914). // Por despacho de 19/8/1915 foi nomeado notário interino da comarca de Monção, substituindo o Dr. Augusto César Esteves, que, a seu pedido, fora exonerado. Em Outubro ou Novembro desse ano foram-lhe concedidos trinta dias de licença (Correio de Melgaço n.º 174, de 14/11/1915). // Em 1916 foi-lhe oferecido de novo o cargo de administrador de Melgaço, mas recusou-o; aceitou, contudo, juntamente com o major reformado, Albino Pinto da Cunha, do Convento, Carvalhiças, o lugar de censor (Correio de Melgaço n.º 195, de 16/4/1916). Portugal entrara na I Guerra e a censura foi imposta aos meios de comunicação social. // Nesse ano de 1916 foi exonerado de notário interino em Monção (Correio de Melgaço n.º 199, de 14/5//1916). // Por causa de um artigo publicado no “Jornal de Melgaço” andou à tareia no dia 13/7/1916, quinta-feira, com o Dr. António Francisco de Sousa Araújo, no “Café Melgacense”; terminou com a intervenção de alguns amigos (Correio de Melgaço n.º 207, de 16/7/1916). // Foi advogado de defesa de “Amélia” Rodrigues, acusada de ofender a moral pública, a qual respondeu a 17/7/1916, ficando absolvida (Correio de Melgaço n.º 208, de 23/7/1916). // Casou na igreja de SMP em 1916 (o casamento civil decorrera na residência da noiva, Rua Mouzinho de Albuquerque, Valença, a 20/2/1916) com Maria Esménia, de dezoito anos de idade, de Santa Maria dos Anjos, Valença, filha de Francisco Antunes da Silva Guimarães, secretário de Finanças em São Tomé, e de Maria das Dores (ver Correio de Melgaço n.º 184, de 30/1/1916). // Em 1917 concorreu às eleições para a Câmara Municipal, em uma lista presidida pelo padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães. // Em Janeiro de 1919 tomou posse do lugar de notário na Vila de Caminha (JM 1234). Não sei quanto tempo ali permaneceu, pois o casal partiu para África, São Tomé, nos primeiros dias de Agosto desse ano de 1919, onde ele iria desempenhar o cargo de administrador de concelho (JM 1257, de 10/8/1919); dali embarca para Angola, onde ele esteve ao serviço do general Norton de Matos. // Em 1929 foi nomeado Governador de Benguela (NM 27, de 25/8/1929). // De vez, em quando, vinha à sua terra natal, mais a mulher, pois filhos não tiveram, trazendo com eles os empregados, fixando-se um deles, o Joaquim, em Melgaço, onde arranjou emprego e casou. // Passava, no Cine Pelicano, alguns filmes que trazia de África, películas que mostravam a vida quotidiana dos naturais de Angola. // Em Julho de 1934 esteve em Melgaço; vinha de Benguela, onde era advogado; as coisas não lhe deviam estar a correr muito bem, pois tencionava fixar residência em Viana do Castelo (NM 238, de 8/7/1934). Em Outubro desse ano já exercia advocacia nessa cidade (NM 248, de 14/10/1934). Não deve ter tido o êxito que esperava, pois voltou para África. // Antes da independência da ex-colónia o casal regressa a Melgaço, onde possuía uma boa casa na Rua do Rio do Porto e uma ótima Quinta. // Depois de Abril de 1974 foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Melgaço, até às eleições. Tomou posse a 4/11/1974. Foi a primeira Comissão Administrativa a tomar posse no distrito de Viana. Colaboraram com ele: o Engenheiro Artur José Rodrigues, professor do ensino liceal em Monção (vogal); Albertino Domingues, comerciante (vogal); António Fernandes, industrial (vogal); Manuel da Cruz Dias, ourives (vogal). Era então Governador do distrito o capitão-tenente Joaquim Teixeira (NM 1843, de 10/11/1974). // Quis criar, na sua Quinta da Pigarra, uma Escola Agrícola, mas o Ministério da Educação não se interessou pelo projeto; assim, ofereceu-a aos BVM e à SCMM. // Em maio de 1976 publicou um livro “ANGOLA E O GENERAL NORTON DE MATOS – Subsídios para a História e para uma Biografia.” // O casal faleceu na Vila de Melgaço: ela a 26/9/1974 e ele a 24/10/1976. // Na sede do concelho existe uma rua com o seu nome. (Ler a entrevista que ele concedeu ao Correio de Melgaço n.º 219, de 8/10/1916; nessa altura encabeçava a lista do concelho que disputava a liderança da Câmara Municipal de Melgaço, cujo presidente era João Pires Teixeira; ver também “A Voz de Melgaço” n.º 379, de 15 de Junho de 1967).


continua...

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES (e AFINS)

 

Joaquim A. Rocha

  


 

Edição de autor


Título: Escritores e Investigadores Melgacenses (e afins)

 

Autor – Joaquim Agostinho da Rocha

 

Capa – desenho de Manuel Félix Igrejas

 

Contra capa – desenho de Manuel Félix Igrejas

 

Fotografias –

 

Execução gráfica –

 

Tiragem –

 

Depósito legal –

 

ISBN –

 

Data de edição –

 

Correio eletrónico: joaquim.a.rocha@sapo.pt

Blogue: Melgaço, Minha Terra

  

Obras do autor

  

Obras a publicar

 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes do Concelho de Melgaço (biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

Melgaço: Padres, Monges e Frades

Frágeis Elos (2.ª edição)

Escritores e Investigadores Melgacenses (e afins)

Conto (O Fim de um Sonho)

Ferreira da Silva

Sob o Signo do Azar

 

Obras publicadas

 

Livros

 

Frágeis Elos (uma história familiar) 1.ª edição

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II volumes)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

Os Novos Lusíadas (de 1500 a 1974)

Melgacenses na I Grande Guerra …

(em parceria com Valter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

 

Prefácios nos seguintes livros de José A. Cerdeira e do Dr. Augusto César Esteves:

 

Tomaz das Quingostas (JAC)

O Buraco da Serpe (JAC)

A Adversidade por Madrasta (JAC)

O Sonhador dos Montes da Aguieira (JAC)

Nas Páginas do Notícias de Melgaço (ACE)

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal A Voz de Melgaço

No jornal Fronteira Notícias

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro Lugares Sagrados

 de Portugal I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

 

 

 Apresentação

  

     Quando comecei esta pesquisa não fazia a mínima ideia de quantos escritores houve e há em Melgaço, concelho do Alto Minho. Uma coisa tinha como certa: não seriam muitos, meia dúzia se tanto, mas enganei-me redondamente. Felizmente são mais, e alguns deles, os que já morreram, deixaram obras com muita qualidade. Quanto àqueles que ainda escrevem, vão-nos surpreendendo com bons trabalhos de escrita. Apenas vou considerar aqueles escritores que têm alguma notoriedade, editaram, ou alguém editou por eles, livros, quer na área da ficção e da poesia, quer na área da investigação histórica, ou no ensaio. Abriria, no entanto, uma exceção: a Dr.ª Ana Maria Fernandes, nascida em Melgaço no ano de 1953, tem escrito, ao longo dos anos, poesia, sobretudo sonetos, com uma mestria inexcedível. Contudo, até agora, nada publicou. É pena, porque a sua escrita é do melhor que há. Não se explica a sua recusa em publicar aqueles poemas maravilhosos. Esperemos que um dia vá a uma Tipografia e mande fazer uns quantos exemplares dos seus belos sonetos, a fim de nós, leitores, termos acesso a eles. Quererá ela imitar Fernando Pessoa, que guardava toda a sua obra literária em uma arca? Façamos votos para que a escritora Ana Maria se decida pela publicação e não pelo escondimento.      

     Os escritores vão ser colocados por ordem cronológica de nascimento. Esta arrumação tem uma vantagem: sabemos que os primeiros são os mais antigos, e à medida que formos folheando as páginas encontraremos os mais novos. Tenho pena não dominar a cem por cento o latim; se tivesse esse conhecimento traduziria para a língua portuguesa os textos de frei Francisco Melgaço e de outros. O Professor Doutor José Marques levou anos à volta do Cartulário do Mosteiro de Fiães, escrito em latim, mas, apesar de ter fixado o texto, não o traduziu para português, o que todos devemos lamentar. Lembro que há muitos anos, quando eu residia em Lisboa, pedi a dois ou três franciscanos, mestres de latim, para me ajudarem a traduzir para a nossa língua os forais dados a Melgaço pelos primeiros reis de Portugal. Quando se deu por finda essa tarefa, publiquei-os em “A Voz de Melgaço”. É óbvio que muitos dos leitores desse jornal não ligaram absolutamente nada a esse trabalho; provavelmente nem atribuem grande significado a esses textos antigos, de uma grande importância para a história de Melgaço. Costuma-se dizer que ninguém é santo na sua terra natal. Os melgacenses em geral nunca gabaram muito os seus conterrâneos. Fala-se em inveja, preguiça mental, desprendimento; seja o que for, aquele que nasce em terras melgacenses não espere grande coisa dos seus conterrâneos. Admiram mais os de fora. Podem eles não ter grande obra publicada, podem até ser medíocres, mas vieram de outro sítio qualquer. Se virmos a toponímia, ficamos todos de boca aberta: Rua Afonso Costa, Avenida Salgueiro Maia, Largo Amadeu Abílio Lopes {embora natural de Melgaço passou quase toda a sua vida no Brasil; que eu saiba, não se destacou em nada, apenas ajudou a criar uma sociedade anónima, o que é, quanto a mim, vulgaríssimo; muito mais fez pela nossa terra o comerciante José Cândido Gomes de Abreu (1825-1908) e tiraram-no do Largo da Calçada para lhe darem uma ruazinha com meia dúzia de metros de comprimento}, Rua das Carvalhiças, etc. Hermenegildo José Solheiro (1868-1931), apesar de ter sido um grande político concelhio, não devia, quanto a mim, ter um Largo e uma Rua com o seu nome. Ficaram esquecidas figuras como o grande escritor melgacense Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1996), Mestre Morais (1890-1971), o escultor Acácio Dias (1935-2013), Manuel Félix Igrejas (1928-2019), Óscar Marinho (1911-2001), Padre Bernardo Pintor (1911-1996), etc. Eu espero, com este humilde trabalho, avivar a memória dos políticos concelhios para que prestem alguma justiça a esses melgacenses de primeira categoria, que andam tão esquecidos.            

  

 

ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES

 

 

- Francisco Melgaço (Frei). Nasceu no concelho de Melgaço no ano de …? (não descobri até agora a data de seu nascimento). Foi religioso da Ordem de São Bernardo. Escreveu várias obras, relacionadas com a doutrina cristã, as quais não foram impressas. Os seus manuscritos (escritos em latim) conservam-se na livraria do Convento de Alcobaça, à espera de um especialista que os analise e divulgue. // (ver Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico. João Romano Torres – Editor. Lisboa – 1903. Página 960).

 

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- Martinho de Melo e Castro (Dr.) Embora conste que nasceu em Lisboa, monsenhor Almeida Silvano, na sua obra «As Águas de Melgaço», diz que ele nasceu em Melgaço (ver Padre Júlio Apresenta Mário, página 146). Como não tenho em meu poder fotocópia do seu assento de batismo, nem sequer do seu assento de óbito, limito-me a transcrever o texto seguinte, inserido no Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico. João Romano Torres, Editor. Lisboa, 1903: {«Estadista e grande diplomata. Nasceu em Lisboa a 11/11/1716 e faleceu a 24/3/1795. Era filho de Francisco de Melo e Castro, descendente da família dos Castro de Melgaço, tronco das casas dos condes de Resende e das Galveias. Destinando-se à vida eclesiástica, cursou filosofia na Universidade de Évora, pertencente à Companhia de Jesus, e obteve – ainda muito novo – o grau de bacharel, distinguindo-se por se mostrar um fervoroso apologista da filosofia peripatética, defendida pelos jesuítas contra os adversários, entre os quais tinham o mais importante lugar os congregados do Oratório. Passou depois a estudar Direito Pontifício, na Universidade de Coimbra, em que recebeu também o grau de bacharel, e por influência da família foi provido – ainda em curta idade – num canonicato da Sé Patriarcal. Mas a sua inteligência e vocação o chamavam a outra carreira, porque a eclesiástica nada lhe sorria. Favorecido pela proteção e amizade de el-rei D. José, encetou a carreira diplomática, indo em 1751 representar Portugal como enviado junto aos estados gerais das Províncias Unidas, sendo pouco depois, em 1754, transferido para a corte de Londres, onde o rei Jorge II o tratou com a maior distinção. Sucedendo em Lisboa o grande terramoto do primeiro de novembro de 1755, calamidade que excitou a compaixão dos ingleses, Jorge II resolveu acudir com avultada quantia, sob o pretexto de que Portugal ficaria colocado em sérios apuros financeiros com tão lamentável desgraça. O ilustre diplomata, para não ser desagradável ao soberano inglês, aceitou o donativo, e converteu-o a favor da sua terra, comprando com ele um parque de artilharia que mandou a el-rei Dom José. Por ocasião da guerra entre Espanha e Portugal, Martinho de Melo e Castro alcançou pelo trato em que vivia com os principais membros do governo e com os chefes da oposição, que segundo as letras dos tratados fossem mandados socorros de tropas ao nosso país, apesar da malevolência de lorde Tyrawley, que tendo sido pouco antes mandado a Portugal, informou o seu governo de que seria inútil qualquer auxílio porque Portugal decerto não poderia resistir a três meses de campanha. Foi ainda por intervenção de Martinho de Melo e Castro que se estipularam os contratos com que vieram servir no nosso exército muitos oficiais dos que então andavam a soldo de estrangeiros, e - segundo as próprias palavras do marquês de Pombal - o nosso enviado executou habilíssima e zelosissimamente todas as instruções durante a guerra de 1762. No ano de 1763 foi mandado a Paris para tomar parte no congresso em que se negociou a paz entre Portugal, França, Inglaterra e Espanha, e pretendendo o duque de Choiseul, então ministro dos estrangeiros de Luís xv, manter a preeminência da sua nação na assinatura do tratado, com tais razões sustentou o nosso representante o direito de Portugal, que logrou afinal sair quanto possível airoso dessas pendências diplomáticas. Diz-se que apenas terminou o congresso, el-rei Dom José mostrara desejos de aproveitar o superior talento e o valioso critério de Martinho de Melo e Castro para tomar parte no ministério, mas que o marquês de Pombal conseguira demorar a entrada do distinto diplomata, alegando a grande falta que fazia na corte de Londres um homem de tanta habilidade e competência, e Martinho de Melo e Castro voltara para aquela missão diplomática, onde se conservou até 1770, ano em que regressou ao reino, entrando então no ministério para dirigir a repartição do ultramar, lugar que ficara vago pela morte de Francisco Xavier de Mendonça, irmão do marquês de Pombal. Martinho de Melo e Castro era tido em alto conceito no Paço, e era indicado pela opinião pública como um dos infalíveis sucessores do marquês de Pombal, se o rei viesse a falecer, ou se por qualquer circunstância o primeiro-ministro se demitisse do elevado cargo que exercia. Martinho de Melo, apenas entrou na gerência dos negócios, não poupava as censuras e sátiras ao sistema de governo seguido em Portugal e começou a disputar a primazia e a minar a influência do marquês de Pombal, mas este em breve o fez moderar e recolher ao silêncio, valendo talvez a Martinho de Melo e Castro a sua incontestável habilidade própria e a amizade de el-rei Dom José, para que o primeiro-ministro o não obrigasse a seguir o caminho do desterro, para onde já enviara três dos seus colegas no ministério. Contudo, Martinho de Melo e Castro, embora se julgasse superior à justa medida dos seus merecimentos, era cuidadosamente aplicado aos negócios da sua secretaria, e sobre os mais graves temas da administração e reforma das colónias, escrevia memórias e projetos que eram justamente apreciados pelo exato conhecimento dos assuntos e pela madureza dos alvitres. Quando faleceu el-rei D. José e se desencadearam todos os ódios contra o marquês de Pombal, aproveitou a ocasião para se vingar, sugerindo a ideia de que se instaurasse processo contra o poderoso ministro, ideia que foi logo aceite. Foi ele quem se encarregou de anunciar ao marquês de Pombal que estava demitido dos altos cargos que exercia. No reinado de Dona Maria I continuou fazendo parte do ministério, e foi então que empreendeu notáveis reformas, organizando o quadro dos oficiais da armada, melhorando os estudos, aumentando o número de vasos da esquadra, mandando construir o dique no arsenal, alargando extraordinariamente a Cordoaria, e reorganizando o arsenal, podendo quase dizer-se que a todos os ramos de serviço naval levou a sua inteligência e ousada iniciativa. Escreveu: «Memória sobre o projeto da companhia da Índia». São muito interessantes os documentos seguintes, parte impressos, parte manuscritos, que servem para o estudo da história do Brasil, e dão uma ideia da importância dos serviços prestados por Martinho de Melo e Castro; «Memória sobre o melhoramento dos domínios de sua majestade no Brasil»; «Instruções de …, a Luís de Vasconcelos e Sousa acerca do governo do Brasil»; com a data de 27/1/1779, e saíram na revista do Instituto Histórico, tomo xxv, de 1862, página 479. Escreveu diversos avisos, em diferentes datas, dirigidos ao Brasil, que vêm mencionados no volume XVII do Dicionário Bibliográfico, páginas 6 e 7. Escreveu também várias memórias sobre o comércio da Ásia, o plano de uma companhia para o negócio de Cabo Verde, etc.}             

 continua...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Gentes do Concelho de Melgaço vol. 3_ Freguesia de Chaviães_ por Joaquim A. Rocha PDF gratuito

                                    Gentes do Concelho de Melgaço

Vol. 3- Freguesia de Chaviães



por Joaquim A. Rocha


Agora em PDF!

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OBRAS COMPLETAS DE JOAQUIM A. ROCHA


OS MEUS SONETOS

(e os do frade)

 

 

 

Edição de autor

 

 

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FICHA TÉCNICA

  

 

Título – Os Meus Sonetos (e os do frade)

 

Autor – Joaquim A. Rocha

 

Capa – Fotografia tirada no castelo de Castro Laboreiro

 

Execução Gráfica –  

 

Tiragem – 000 exemplares

 

Depósito legal –  

 

ISBN –

 

Data de edição –

 

Correio Eletrónico – joaquim.a.rocha@sapo.pt

 

Blogue: Melgaço, Minha Terra

 

 

 

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Obras do autor

 

Obras a publicar

 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes do concelho de Melgaço (biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

Frágeis Elos (2.ª edição)

Melgaço: padres, monges e frades

Escritores Melgacenses…

Sob o Signo do Azar

O Fim de um Sonho (conto)

 

Obras publicadas

 

Livros

 

Frágeis Elos (uma história familiar)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II v.)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

Os Novos Lusíadas (…)

Melgacenses na I Grande Guerra (…)

(em parceria com o Dr. Valter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

Prefácios nos livros de José A. Cerdeira e de Augusto César Esteves:

 

Tomaz das Quingostas

O Buraco da Serpe

A Adversidade por Madrasta

O Sonhador dos Montes da Aguieira

Nas Páginas do Notícias de Melgaço

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal A Voz de Melgaço

No jornal Fronteira Notícias

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro Lugares Sagrados

 de Portugal I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

 

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PREFÁCIO

 

 

     «O soneto, derivado do franco-provençal sonet, diminutivo de son, que significa melodia, é uma forma poética cuja invenção é atribuída a Jacopo da Lentini, poeta da escola siciliana que viveu e escreveu na primeira metade do século XIII. Sobre a origem do soneto têm-se defrontado desde o século XIX duas teses: - segundo uma, o soneto tem origem popular, resultando da fusão de dois estrambotes sicilianos, um de oito e outro de seis versos. Segundo outra, o soneto deriva de uma estância independente da canção (cobla esparsa).

     Segundo alguns investigadores contemporâneos (por exemplo Fubini) estas duas teorias não são mutuamente incompatíveis: como comprova a rima cruzada das quadras dos sonetos mais antigos de Jacopo da Lentini, rima prosseguida nos tercetos (ABAB… CDCD) o modelo originário seria de facto o estrambote ou a canzuna siciliana de oito versos, forma poética popular; na reelaboração, porém, deste esquema versificatório por poetas cultos faz-se sentir a influência da estrutura da canção, aparecendo então as rimas d’Arezzo, poeta da segunda metade do século XIII, o primeiro a usar este esquema rimático – e passando a distinguir-se claramente os dois quartetos e os dois tercetos do soneto (…) e enriquecendo-se de novas modalidades o esquema rimático dos tercetos. A origem do soneto seria, assim, híbrida: o estrambote, forma da poesia popular, ter-se-ia fundido com a poesia de arte, criando-se deste modo uma forma poética mais complexa.

     Adoptado por poetas como Cavalcanti, Dante e, sobretudo, Petrarca, o soneto em breve se transformou numa das mais relevantes formas poéticas do dolce stil nuovo, revelando-se particularmente apto para a expressão do sentimento amoroso, mas também para a meditação moral e para a captação satírica do real quotidiano(Aguiar e Silva)

 

     Erich Auerbach, na sua obra “Introduction aux Études de Philologie Romane”, ensina-nos: «A atividade literária começa no século treze pela imitação da poesia lírica provençal; os primeiros trovadores do norte da Itália, como Sordello de Mântua, que escreveu os seus versos pouco depois de 1200, serviram-se inclusive da língua provençal, mas no sul, na Sicília, a imitação da lírica cortês fez-se em italiano. Em Palermo residia o último imperador da grande casa alemã dos Hohenstaufen, Frederico II (morto em 1250), herdeiro, por parte da avó, uma princesa normanda, do reino da Sicília e de Nápoles... É um dos homens mais notáveis da idade Média, tanto pelas suas ideias políticas como pela sua formação intelectual; ele, seus filhos e sua corte foram os primeiros a compor poesias de inspiração provençal em língua italiana; imitaram a forma principal da poesia provençal, a grande canção de amor, e inventaram, a par dela, uma forma mais breve e mais concisa, que se tornou a forma lírica mais usual da poesia lírica italiana e que, mais tarde, foi imitada em toda a Europa: o soneto, poema de catorze versos de dez sílabas, composto de duas quadras e de dois tercetos…» (Tradução de José Paulo Pães).

 

     E Amorim de Carvalho: «O soneto, que é o mais célebre sistema estrófico, e que os clássicos levaram à mais alta perfeição formal, consta de quatro estrofes isométricas (mesmas dimensões): duas quadras, mais dois tercetos, perfazendo, portanto, catorze versos, com transportação das rimas da 1.ª para a 2.ª quadra e transportação das rimas do 1.º para o 2.º terceto. A distribuição mais prestigiosa das rimas é a deste exemplo: ABBA; ABBA; CDC; DCD (“Meu ser evaporei na lida insana”, de Bocage).»

 

     «Em virtude da aproximação de ideias que, por via de regra, há entre as duas quadras (na 1.ª o poeta põe a tese, na 2.ª explana) e entre os dois tercetos (no 1.º o poeta confirma a tese, no 2.º conclui), facilmente o soneto configura dois grupos de estrofes compostas: uma oitava composta de duas quadras mais uma sextilha composta de dois tercetos; nunca, porém, duas estrofes simples. É, pelo menos, assim no soneto perfeito. Aparecem, frequentemente, nos clássicos, com ou sem simetria, várias formas de distribuição de rimas para as quadras, embora mantendo o critério das duas rimas. Aos tercetos é que já se deram, com frequência, três rimas, assim: CDE-CDE; CDE-EDC; CDC-CDC. Ou assim, sem simetria: CDE-CED; CDE-DCE. Na poesia clássica portuguesa o decassílabo (dez sílabas) é o verso próprio do soneto, reputado o mais belo e grave. Só modernamente tem sido desrespeitado o uso exclusivo desse verso, assim como as distribuições rimáticas que atrás apresentámos(Tratado de Versificação Portuguesa).

 

     Depois destas valiosas transcrições, quero também dizer duas palavras da minha lavra. A primeira é para lembrar que o soneto não é de maneira nenhuma um poema que se faça com ligeireza. Bem pelo contrário, exige tanta concentração que por vezes até apetece desistir. Ter de contar em catorze versos de dez sílabas uma história, resumida que seja, expor um sentimento, uma ideia, não é nada fácil. Mas vale o esforço. De facto, o soneto, sendo bem elaborado, é de uma beleza inigualável. O meu sonho (quem não os têm?) é um dia aproximar-me dos grandes mestres portugueses: Camões, Bocage, Antero, Florbela… Essa meta é quase inatingível, porque eles foram génios e eu sou apenas um técnico da palavra, com um ou outro verso mais conseguido. O primeiro soneto que escrevi data dos anos setenta do século XX, depois da Revolução de Abril, inspirado sem dúvida pelos acontecimentos históricos de então. Não se pode, contudo, datar rigorosamente porque após isso já mexi neles todos – mudando palavras, até alterando por vezes o próprio conteúdo semântico!

     Já me apeteceu torná-los intemporais, mas por enquanto tenho resistido à tentação diabólica e tola. Fica no entanto aqui este registo que visa dois objetivos:

 

1.º - Aqueles que porventura me lerem, não levem muito em conta as datas que aí figuram.

 

2.º - Se não tiverem qualquer datação é porque não consegui suster os meus ímpetos destrutivos.

    

     Há anos atrás um fraco crítico sugeriu-me que abandonasse a poesia e me dedicasse somente à prosa. Achava ele que eu não tinha jeito para esta sublime arte. Apesar dessas contrárias opiniões, continuo.

    Não só por teimosia, mas convencido de que quem trabalha arduamente numa determinada profissão ou arte, alguma coisa dali há-de sair um dia. Não é verdade que Camilo Castelo Branco, que ninguém reconhece como poeta, escreveu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa? Estimulado por estes exemplos, prossigo no caminho que desde há muitos anos tracei. Quando for velhinho, e já não puder escrever, então nessa altura farei um balanço de tudo aquilo que fiz no passado e logo verei se algo de bom ou ótimo produzi. Se nada se aproveitar daquilo que fabriquei, é sinal de que o meu esforço, o meu suor intelectual, foi inútil e que mais me valera ter ido para a praia tomar banhos de sol, banhar a mente bronca, espreguiçar o meu ócio, ou então vestir o fato de campónio e ir para o campo semear batatas e feijões. Logo se há-de confirmar uma destas hipóteses. Mas também penso, ao contrário desse “crítico”, que se não existissem pessoas como eu, teimosas e medianamente dotadas, não haveria igualmente essas grandes estrelas, cuja luz nos ofusca a todos.

 

     Nós, os pequenos poetas, somos necessários – se mais não fosse para servirmos de termo de comparação com os maiores. Não ficamos, é certo, nas Histórias da Literatura, mas que importa? Um livro nosso há-de sempre surgir numa modesta biblioteca e talvez um qualquer leitor, embora distraído ou desinteressado, o tire da estante e o abra para ler. Não seremos tese de licenciatura, muito menos de mestrado ou doutoramento. Que importa? Essas teses são normalmente odiosas para aqueles que as elaboram e detestáveis para aqueles que as têm de ler por razões de ofício. Pelo menos aí nós ficamos a ganhar!

     Voltando ao soneto: esta forma de poesia tem imenso trabalho oficinal até se dar por concluído. Talvez seja por isso que hoje em dia praticamente não há sonetistas dignos desse nome. Poucas pessoas estão dispostas a perder tempo com o soneto quando com duas penadas, no computador, escrevem um “poema” tipo carta para longe, que ninguém percebe, onde o hermetismo é mais falha de saber do que intenção. Depois publicam, porque os donos da editora são amigos do papá, ou então fazem edição de autor, com o dinheiro da mamã! E os parolos comentam: - «que beleza de versos: não percebi nada, mas que interessa?!»)

     A poesia é para ser entendida, de contrário não se justifica. A arte pela arte é apenas uma utopia. Quem escreve gosta de ser lido e compreendido. Deseja que a sua mensagem (porque ela existe) seja apreendida, decifrada e até partilhada.

     A poesia tem sido usada aos longos dos séculos como arma de revolta e de agitação na voz de grandes e médios cantores. Ainda não há muito tempo, aqui em Portugal, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Vitorino, entre outros, a usaram com eficácia e gosto. Também noutro palco o ator João Villaret (1913-1961) recitou poemas com brilho e beleza inultrapassáveis. Mário Viegas tentou seguir-lhe os passos e por vezes conseguiu aproximar-se do mestre.

     Um livro é como a vida – um amontoado de páginas! A diferença está na ordem: naquele, elas obedecem a um critério rigoroso; nesta, nem por isso, o caos por vezes predomina. Espero que ao lerem estes medíocres e insípidos sonetos não bocejem. Se isso acontecer, caro leitor, arrume o livrinho na estante e leia outro tipo de literatura. Que tal a Odisseia e a Ilíada, de Homero, a Eneida, de Virgílio, ou a Guerra da Gália, de Júlio César? E se quiser rir, e também meditar, leia o Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes. Essa leitura tem uma enorme vantagem: sabe-se de antemão que são obras de grande qualidade, autênticas obras-primas.

     A inserção aqui dos sonetos do frade (no Notícias de Melgaço n.º 846, de 18/1/1948, página 2, diz-se que ele se chamava Agostinho da Cruz – onde teriam conseguido essa informação?) e as respostas, quer a minha (JAR), quer a do juiz e a do Elmano Minhoto (cujo nome verdadeiro dizem ser Carlos Alberto Seixo, mas com algumas reservas), não visam o escândalo para promover vendas, mas sim levar ao conhecimento dos leitores, sobretudo dos melgacenses, aquilo que se escreveu da nossa querida terra: seja o positivo, seja o negativo. E é bom sublinhar que ele, frade, fala da Vila, não do concelho. Nós não somos cegos, nem idiotas, e sabemos perfeitamente que numa vila, ou numa cidade, vai existindo gente boa e gente com mau carácter ao longo dos séculos. Há-de ser sempre assim enquanto houver seres humanos. Porém, o fradeco exagerou propositadamente! A sua escrita tem como objetivo vingar uma afronta que alguém da vila de Melgaço lhe fez. Não se compreenderia se fosse doutro modo. Não sei a que mosteiro pertenceu, mas em princípio devia ser monge de Fiães, pois assim o dá a entender o juiz Dr. Cândido Furtado Dantas em 1798.

     Se eu fosse escultor, erguer-lhe-ia uma estátua, onde ele, de joelhos, pediria perdão eternamente aos naturais e residentes da Vila de Melgaço – era o castigo que lhe dava!

     O soneto «Sinal Meu» foi inspirado num outro, publicado no «Notícias de Melgaço» n.º 128, de 25/10/1931, que por sua vez se inspirara num soneto de Camões.

    Quanto ao sinal, a história é simples: comprei uma pequena casa, dei um adiantamento e, depois, por ter surgido uma doença na família, tive que desistir e fiquei sem esse dinheiro.

     O do jornal chorava uma nota de 500$00 que tivera que gastar, e escrevera o soneto na dita nota! No meu caso, o choque (e o cheque) foi mais sensível porque o dono da vivenda era meu colega de Empresa! Por outro lado, vendeu dias depois a habitação, não perdendo tempo nem capital com a minha desistência.

 

     Quanto ao soneto «O Cão da Rasela», é inspirado no seguinte artigo de jornal, escrito por um seu correspondente:

 

     «Faleceu, a 12/12/1954, no lugar de Parada, Chaviães, Melgaço, a indigente Rosa Pires (Rasela), que por caridade dos senhores José Maria Esteves e Júlio Alves, vizinhos da finada, foi feito um peditório para angariar o necessário para o caixão e outras despesas inevitáveis. No enterro da pobre Rasela um facto chamou a atenção de toda a gente e deu a nota interessante da sua grande bondade. Possuía ela uma cadelinha, companheira inseparável da velha, e comparsa das suas horas de alegria e de dor. Com o falecimento da infeliz Rasela, faltaram ao inteligente animal os carinhos habituais; ele estranhou o facto e todo o tempo que durou o depósito da defunta não foi capaz de a abandonar, como não a deixou em todo o acompanhamento, nem para comer! // Escorraçado o pobre animal nesta ocasião, afastava-se um pouco para logo voltar para o pé do caixão mortuário. E agora que o corpo da infeliz Rasela descansa em paz no cemitério paroquial, ainda lá permanece, de dia e de noite, a uivar, que outra voz lhe não deu Deus, para mostrar aos homens a saudade da sua pobre dona. Pobre animal! Como é grande o teu exemplo(Notícias de Melgaço 1137, de 19/12/1954).

 

                                                    

                                                                                                                    O autor

 

 

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SONETOS

(e sonetilhos)

 

 

 

MUNDO NOVO

(1)

 

 

 

A minha vida é uma interrupção

Que não seguirá dentro de momentos!

É – ainda – um sistema em formação.

É, já, um mundo prenhe de tormentos!

 

Daqui a longos, quantos longos anos…

Acordará: – seu letargo interrompe.

Esquecerá gregos, persas, germanos…

Com o mundo antigo, bárbaro, rompe.

 

Trará um mundo novo para dar;

Um espírito alto, criativo…

Lançará de novo as barcas ao mar.

 

Libertará o Ser, inda cativo.

Fará do universo o seu lar…

A casa do homem novo: bom, altivo.

 

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FILHO DE JEOVÁ

(2)

 

  

Quem o criou, lhe deu figura d’homem?

O modelou e lhe deu a lucidez?

O tornou beato, santo e lobisomem?

Crucificou com raiva e malvadez?

 

Quem o aprisionou num falso paraíso,

Puniu, como quem pune um criminoso?

Quem lhe roubou dos lábios o sorriso,

Quem o vestiu com trajes de andrajoso?

 

Não fui eu, que não sou demo nem deus!

Nem sequer estava lá quando o criaram:

Vivia algures na terra de ninguém!

 

Ignorando anjos, génios, fariseus…

Perdido nos sonhos que não vingaram.

Errante como um judeu, aqui e além!

 

 

 continua...