O FIM DE UM SONHO
Conto
Por Joaquim A. Rocha
Aurora Germana casara
nova, aos dezanove anos de idade. O seu namorado entrara há pouco tempo na
Universidade a fim de tirar o curso de jornalista. Apaixonara-se loucamente por
ele ainda não tinha completado os dezassete anos. Estudava na escola secundária,
mas não pretendia tirar curso superior. Queria um emprego de escritório, talvez
a Caixa Geral de Depósitos, uma Companhia de Seguros. Gostaria de ser mãe de
dois filhos, um casal, se possível. Um emprego sem grandes responsabilidades
permitir-lhe-ia arranjar tempo para tratar da casa, do marido, e dos filhos. Se
fosse doutora as coisas seriam diferentes. É certo que ganharia mais, mas o
dinheiro não é tudo na vida, pensava ela. O seu homem era inteligente, seria
com certeza um ótimo jornalista, não teria dificuldade alguma em conseguir um
lugar de jornalista num desses grandes jornais nacionais. Era um homem alto,
bem-parecido, com um espírito alegre e folgazão, nada tímido, canté, não tinha
quaisquer dúvidas, seria um dos melhores na sua profissão. O pouco que ela
ganhasse ajudava a suportar todas as despesas. Não era uma mulher de grandes
luxos, mas gostava de andar bem vestida. Ia, de quando, em quando, ao salão de
cabeleireiro, mas essas despesas estavam cem por cento controladas. O Rodolfo,
como se chamava o seu marido, membro de uma família remediada, também não estava
habituado a despesas exageradas. O seu defeito maior era ser fumador. O tabaco
e ele eram inseparáveis. Chegava a fumar dois maços, ou mais, por dia! Ela
dizia-lhe constantemente:
- Amor, tu assim matas-te. Os pulmões ficam doentes e depois… E outra
coisa: os teus dentes, os mais bonitos do mundo, estão a ficar amarelos, o
esmalte está a abandoná-los. Qualquer
dia ficas com dentes de velho!
Ele não ligava a essas coisas. Era
demasiado novo para pensar em doenças, quanto mais na morte. A vida sorria-lhe.
Era casado com a mulher mais formosa do planeta, dizia ele, tinha dois filhos
lindíssimos, perfeitos, a Patrícia e o Cândido, um trabalho bem remunerado,
amigos sem conta; que mais ele desejava? Os leitores gostavam imenso do que ele
escrevia, as suas crónicas eram lidas por milhares de pessoas. Possuía tudo de
que precisava para se sentir feliz. As crianças iam crescendo, na escola eram considerados
dos melhores alunos, inteligentes e perspicazes.
A vida sorria a ambos. Ele até recebera
convites para trabalhar na rádio e na televisão. Um dia, quem sabe, talvez
aceitasse, pensava ele. Os portugueses só conheciam os seus textos. Se
aceitasse os convites, passariam a conhece-lo fisicamente e à sua voz, grave e
bem timbrada. A fama já lhe batera à porta, mas ainda não era suficiente;
queria mais, muito mais. A sua esposa trabalhava no escritório de uma grande
empresa; o ordenado não era grande, mas chegava. Recebia catorze meses por
anos, subsídio de férias e de natal. Os colegas olhavam para ela com respeito,
mas esse olhar escondia um desejo oculto, guardado a sete chaves no cofre de
Pandora. Invejavam Rodolfo, um felizardo, famoso, bem pago, e com uma mulher
daquelas! É certo que nem todos os humanos alcançam esse patamar de felicidade.
A natureza, ou as forças divinas, vão distribuindo o bom e o mau por todos os
seres vivos, mas a alguns, poucos, é-lhes dado a melhor parte, a fatia mais
substancial, a sorte está quase sempre do seu lado. A inteligência, a
capacidade de trabalho, a robustez física, a beleza, a simpatia, reúnem-se
nesse ser, como se fosse filho de um deus poderoso. Outros, coitados, nascem
com cérebros pequenos, atrofiados, fisicamente tortos, com os olhos doentes à
nascença, tornando-se indesejáveis à sociedade. Fazem-se promessas a santos,
aguarda-se o milagre, mas este nunca chega.
A Rodolfo é comunicado que recebeu mais um
prémio de jornalismo. Para ele é importante, não o rejeita, mas é apenas mais
um. Há anos que andava no mundo jornalístico, já escrevera milhares de artigos.
Estava quase com cinquenta anos de idade. O tabaco, tal como a esposa lhe
dissera, e também os médicos, arruinara-lhe a saúde. Dentes naturais já eram
somente meia dúzia; e esses, amarelados, queimados pelo calor do lume. A mulher
raramente o beijava, tinha nojo da sua boca. Fumava diariamente três maços de
cigarros! Os amigos pediam-lhe:
- «Larga o cigarro; deixa de
fumar, homem; assim não vais durar muito.» Ele respondia quase sempre a
mesma coisa:
- «Deixem-me em paz; o vício é meu, sou eu que o pago, e se vier a morte,
que interessa, já vivi o suficiente.»
Mais uns aninhos passaram. Estávamos no
verão de 2019. Depois de uma consulta ao seu médico, depois de uns exames
rigorosos, umas análises ao sangue, etc., eis que chega a notícia:
diagnosticado um cancro nos pulmões. Uma notícia há muito esperada. Ninguém se
espantou. Todos aqueles que o conheciam, colegas, amigos, família, já
calculavam que isso viria a acontecer. A próstata também estava de rastos:
grande como um tomate gigante. Foi internado num dos melhores hospitais do
país. Os médicos especialistas, apesar de duvidarem da sua cura, tentaram tudo
para o salvar. Foi operado pelos melhores cirurgiões, aguentou-se durante algum
tempo, por momentos recuperava a antiga lucidez, a sua esposa visitava-o
diariamente, reprovava-o com o olhar, mas as palavras saíam da sua boca doces
como o mel, meigas, um sorriso triste, tentando conter as lágrimas, que
teimavam inundar todo o espaço circundante.
O dia chegou. Um simples telefonema
transmitiu a notícia: Rodolfo morrera. Fizera havia pouco tempo cinquenta e
três anos de idade. Aurora Germana libertou do seu já frágil corpo toda a
angústia, frustração, até ódio acumulado contra os santos e deuses que não
quiseram ouvir as suas comovidas preces. E agora? Com cinquenta anos de idade,
ainda bonita, mas cansada de tanto sofrimento, com dois filhos já licenciados,
o rapaz já casado, pai de uma menina, a rapariga com alguns problemas, devido a
desgostos de amor, enfim, um mundo de problemas que ela tentava gerir da melhor
maneira, mas para os quais não estava psicologicamente preparada. Fez-se um
funeral de primeira, o corpo do defunto foi sepultado em campa rasa, a seu
pedido, vá-se lá saber porquê, ela, no início, ia lá todos os santos dias
colocar flores na campa, iluminar aqueles dois metros quadrados, como se ele
precisasse de luz para viajar pelo espaço sideral, por esse universo sem limites,
conduzindo o seu veículo imaginário, através de uma estrada irreal e infinda.
Tornou-se um tanto ou quanto azeda, de uma
amargura insuportável. A sua filha, já cansada de ouvir todos os dias aqueles
choros, reclamações contra todos e tudo, diz à mãe que vai viver sozinha. Quer
apenas uma mensalidade que lhe permita pagar as despesas da renda, alimentação,
etc. Logo que termine o curso vai trabalhar, ganhar o seu ordenado, a fim de
não precisar do dinheiro da progenitora. Assim aconteceu. Patrícia deixou a
casa onde vivera aqueles anos todos, o seu lindo quarto, a sua casa de banho,
com um espelho gigante, no qual diariamente admirava, tal como Narciso, o seu
belo e escultural corpo. Graças às aulas de psicologia e de filosofia, tudo
aceitava de boamente, apesar de saber que dificilmente teria aquelas
instalações luxuosas na sua futura casa. A recompensa, porém, saltava à vista:
viver sozinha, sem aturar quem quer que fosse, sobretudo a sua mãe, a resvalar
paulatinamente para o fanatismo, a raiva contra este mundo prenhe de
contradições. O seu pai suicidara-se lentamente, ao longo dos anos; o seu irmão
casara, tinha a sua vida, os seus próprios problemas; ela agora, tomando esta
difícil decisão, tornaria a sua vida mais suportável. Havia de encontrar um jovem
que gostasse dela, que a fizesse feliz, quem sabe?
Aurora Germana, agora sozinha em casa,
naquele casarão, com duas grandes salas, seis quartos de dormir, um grande
quintal e jardim, deixou de ir todos os dias ao cemitério; ia apenas duas ou
três vezes por semana. Junto à campa, onde o retrato do marido defunto
sobressaía, resmungava sempre:
- «Malandro, arruinaste a tua e a minha vida; tão bem que a gente vivia,
não nos faltava nada, criamos os filhos na maior fartura e conforto. Tu
destruíste tudo, até a minha vontade de viver. Que me interessa ter aquela
enorme casa, todo o conforto do mundo, se não te tenho a ti a meu lado? Agora
até a nossa filha me deixou; não suporta a minha presença, a minha tristeza, a
minha resmunguice permanente, o meu mau humor. E tudo por tua causa, por causa
do teu maldito vício. Se pudéssemos voltar atrás eu não permitiria que tu
fumasses. E logo agora que estavas a terminar o teu segundo romance, quanto a
mim melhor, muito melhor do que o primeiro. Podias ter sido um grande escritor,
ser famoso como Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco; mas não, preferiste o
maldito prazer, o assassino maior desta sociedade. E depois vinha a sede, mas
não bebias água, não, eram litros de cerveja diariamente. Tolo! Tolo é que tu
és, o que foste. Rejeitaste a saúde, fugiste dela, por causa do maldito vício.
E agora? Estás aí, a ser devorado por milhões de bichos!»
Após este discurso, retirava-se para casa,
deitava-se na cama e adormecia. Tinha sonhos terríveis: monstros assaltavam-lhe
a casa, matavam-na, cortavam-na aos pedaços, que metiam em sacos pretos e malcheirosos.
No natal de 2019 não há festa em sua casa.
O filho tentou levá-la para a sua vivenda durante uns dias, mas ela recusou
veementemente. Festejar o quê? O nascimento de um deus que não a soube
proteger; de um céu que não atendeu as suas preces, tão sentidas, tão
verdadeiras, tão banhadas em lágrimas. Os santos esqueceram-na; tantas esmolas em
dinheiro ela deu aos padres católicos para rezarem pelo seu doente marido.
Provavelmente não o fizeram, dinheiro é dinheiro, não fala! Estava a ficar
descrente. As religiões proliferam por todo o planeta, os seus arautos prometem
milagres, Jesus Cristo transformou água em vinho, curou a vista de cegos, os
povos acreditam em todas essas manifestações divinas, vão a Lurdes, a Fátima,
etc., a pé, de carro, de avião, solicitam a cura dos seus doentes, queimam
velas, dão dinheiro, tudo aquilo que têm, mas infelizmente nada acontece. Os
padres das variadíssimas religiões, nas suas homilias, pregam a paz, a
concórdia, mas sabe-se que, salvo raríssimas exceções, todas essas palavras não
passam de um conjunto de sons, buscando eco na montanha rochosa, onde os catos
crescem desmesuradamente. São trechos de peças de teatro, ensaiadas, preparadas
com todo o rigor da arte teatral. A sua principal fonte é a bíblia, ou outros
livros de cariz religioso, escritos por várias mãos ao longo de séculos. A
fantasia predomina nesses textos. Alguns, muito bem elaborados, contam belas histórias,
semelhantes às da mitologia grega, romana, etc. Adão e Eva, Sansão e Dalila,
Jesus e Madalena, Tristão e Isolda, comovem-nos, mexem com os nossos
sentimentos, tornam-nos crianças, num mundo adulto, semeado de crimes e de paixões
violentas. Cervantes tinha razão quando criou a figura de Dom Quixote: um
sonhador, cujos sonhos desejava transformar em realidade. Serviu-se de um
idiota, Sancho Pança, para o ajudar a vencer os seus inimigos, moinhos de vento
e afins. Dulcineia, uma humilde camponesa, era a sua princesa, a Julieta do
Romeu. Dom Quixote ficou doido porque leu demasiados livros de cavalaria; nós,
povos deste planeta chamado Terra, estamos a ficar tontos porque ouvimos
demasiados sermões e palestras inflamadas, tudo oco e sem sentido.
O
ano 2020 chega. Para alguns traz novas esperanças, sonhos de grandeza, de
bem-estar. Para outros, é a continuação de uma pobre vida, cheia de obstáculos,
de azares inultrapassáveis. O turismo em Portugal vai crescendo como labaredas
na floresta, após um incêndio naquele imenso mato amarelo, seco, com troncos altos
como gigantes. Os incêndios em Portugal, devido à sua grandeza,
transformaram-se em polos de interesse: por um lado os madeireiros; por outro
lado os corpos de bombeiros, voluntários e profissionais. Alguns políticos veem
as suas carreiras interrompidas devido ao fracasso no combate a esse flagelo.
Há sempre falta de equipamento, de pessoal, etc.; os comandantes são acusados
de não saberem coordenar as operações. Enfim, em «casa onde não há pão todos
ralham e ninguém tem razão.»
Em março desse ano de 2020 surge a
terrível notícia: um vírus, pequeno e façanhudo, que residia na China há
milhões e milhões de anos, apenas conhecido pelos cientistas dessa
especialidade, residindo habitualmente em sítios sombrios, “em casa dos
morcegos”, espalha-se pelo planeta através do ser humano. Homem, ou mulher, que
fosse infetado por esse minúsculo ser, invisível a olho nu, logo transmitia a
outro ser humano, através da boca, ou nariz, a doença, designada COVID 19. Em
virtude de toda a gente, ou quase toda, no século XX e XXI, viajar, é óbvio que
o bicharoco se espalha rapidamente por todos os países e continentes. Os
médicos, os enfermeiros, procuram rapidamente suster a pandemia, mas isso
torna-se impossível. Milhares e milhares de pessoas são infetadas, sobretudo as
mais idosas, incapazes de resistir a esse animalzinho, um predador que tudo
destrói no seu percurso de morte, mais feroz do que um tubarão assassino. Os
políticos tudo fazem para minimizar os prejuízos causados por essa “fera
asiática”, mas as economias dos países, antes fortes, tornam-se caravelas ao
sabor do mau tempo, num mar agitado. Os hospitais, centros de saúde, e também
as clínicas, enchem-se de doentes; os lares, onde a gente da terceira ou quarta
idade aguardam a hora da partida, são fortemente atacados, sobretudo devido às
visitas, pelo bichinho gorduroso, as mortes acontecem com regularidade, quase
naturalmente. Compram-se milhões de máscaras de tecido a fim de todos as usarem
quando saem à rua. Protegem sobretudo a boca e o nariz, diz-se. O tempo vai
passando e o bicho permanece. Subsistem dúvidas. Será que isto terá um fim?
Quem sobreviverá? Há quem diga que, tal como os tremores de terra, haverá
réplicas. As igrejas cristãs, e outras, estão com receio que as pessoas deixem
de acreditar nos santos e em Jesus, etc. Fátima tornou-se, no século XX, no
peteiro da igreja católica portuguesa. No ano de 2020, por causa do vírus,
nada, ou pouco rendeu. Os clubes de futebol, bem assim como de outras
modalidades, estão com graves problemas de receita. A escandalosa venda de
jogadores estagnou. Quanto tempo mais durará esta incerteza? Os bancos,
companhias de seguro, restaurantes, livrarias, teatros, cinemas, o comércio em
geral, quase paralisaram. A natureza está imensamente descontente com a espécie
humana: os oceanos, os mares, os rios, estão poluídos, as florestas vão a pouco,
e pouco, desaparecendo, os animais selvagens sentem-se encurralados. Os
automóveis, os aviões, os barcos, etc, tudo invadem, ocupam tudo, são os
senhores do planeta. Ao cidadão comum, às aves, aos peixes, está a faltar o
espaço vital. As gaivotas, esfomeadas, vêm até à cidade em busca de alimento;
por isso, as andorinhas e os andorinhões, grandes comedores de insetos, por
causa delas, pois são suas vítimas, já mal se veem no meio urbano.
Aurora Germana, como toda a gente, ficou
com medo. Era uma mulher de meia-idade, ainda lhe restavam uns anitos para ocupar
o seu lugar na barca de Gil Vicente, não estava nada interessada em acabar seus
dias devorada por bichinhos de meia tigela. Perto de sua casa morava uma
brasileira, alta, forte, bonita, sempre bem-disposta, mais nova do que ela uns
bons dez anos. Falava-se que tinha um pacto com o demónio, ou coisa do género.
Constava por ali que ela falava com os espíritos dos mortos. Através das cartas
adivinhava o futuro das pessoas; tinha uma bola de cristal, búzios, etc. Estava
bem apetrechada para adivinhar o passado e o futuro de todos. Quanto a
dinheiro, recebia o que lhe dessem, não possuía tabela de preços. Certo dia,
Aurora não hesitou. Mandou chamá-la, apenas para ter uma simples conversa com
ela. Não queria envolver-se demasiado em negócios de espiritismo e bruxaria.
Segundo lhe tinham dito, algumas amigas, estas entrevistas por vezes acabavam
mal. O diabo, ou lá quem era, depois de invocado, entrava em ação, e naquela
sala tudo se mexia, tudo rebolava pelo chão, pratos, chávenas, pires, os
cabelos ficavam de pé. A brasileira não tinha aspeto de bruxa, mas nunca
fiando. A metamorfose dá-se de um momento para outro. Os espíritos falam por
intermédio da sua boca, a médium, com vozes roufenhas, normalmente agressivas,
respondendo ao que se lhe perguntou. Há quem afirme que tudo isto não passa de
uma pequena peça de teatro, cujo ator principal é a tal mulher, neste caso
concreto, a brasileira. E os padres? Alguns deles são exorcistas. Ficção?
Realidade?
A estrangeira chegou meia hora mais tarde
do que o previsto, às dezoito horas em ponto. Aurora pediu-lhe que fizesse o
favor de entrar. A brasileira não se fez rogada. Estava habituada a estes
rituais, ao pavor dos clientes, quando penetrava em casa, àquele medo que jamais
se extingue. Conduziu-a à sala de estar. Uma mesa, com quatro cadeiras, um
sofá, e pouco mais. No meio da mesa jazia um jarro com flores naturais: rosas,
orquídeas, etc. A brasileira pediu licença à dona da casa e sentou-se numa das cadeiras.
O jarro das flores foi retirado, pois aquele espaço seria necessário para os
fins em vista. A mulher colocou as mãos sobre a mesa, umas mãos grandes e
magras, brancas como a cal, e disse à cliente:
- «Minha senhora, antes de mais nada vai tomar um comprimido a fim de se
acalmar. Eu estou pronta para começar a sessão; não se assuste. O que vai ouvir
seguidamente são vozes de outro mundo, de pessoas que já morreram, mas em
princípio não fazem mal a ninguém. A senhora limita-se a fazer as perguntas e
ele, ou eles, responderão. Já sei que a senhora, por causa do novo vírus, ou
corona vírus, como é designado, não tem podido visitar o seu defunto marido no
cemitério, limpar a campa, pôr-lhe flores, mas agora, caso o queira, vai falar
com ele. A voz não será cem por cento igual, apenas semelhante, porque eu sirvo
de intermediária, empresto-lhe as minhas cordas vocais, mas pode crer que se
trata do seu marido. Quando a senhora quiser, diga; eu estou preparada.»
D. Aurora Germana hesitou. Tremia de medo,
apesar do comprimido servir para a acalmar. Se ainda tivesse ali alguém
conhecido, uma pessoa da sua inteira confiança, mas não; estava ali sozinha com
uma estranha, forte como um touro, embora simpática. Estaria ela a meter-se num
grande sarilho, cujo resultado não se podia prever? Mas como recuar neste
momento? Fora longe de mais. Nada planeara, fora tudo feito em cima do joelho;
agora estava ali, indecisa, medrosa, aterrorizada. Falar com um morto? Com o
seu Rodolfo? Ela, provavelmente, não aguentaria tal sensação. No entanto,
decidiu-se:
- «Vamos para a frente; quero que isto termine o mais rápido possível.»
A vidente arregaçou as mangas da camisola,
ou blusa, passou as mãos na garganta, afinou a voz, e disse:
- «Ó vós, que estais pairando sobre oceanos e mares, sobre montanhas
intransponíveis, espíritos poderosos, companheiros dos anjos, trazei até nós o
marido de Aurora Germana, de seu nome Rodolfo.»
A brasileira pousou sobre a mesa os seus
longos braços e mãos… e esperou. Às tantas, a mesa começou a bulir, como se
alguém a estivesse empurrando. Uma voz, quase sumida, vinda de um túnel ou de
uma profunda mina, diz:
- «Eu sou quem invocaste. Que me queres?»
Aurora, até ali calada, pergunta-lhe:
- «Rodolfo, és mesmo tu? Onde estás? Eu posso ver-te?»
Comovida, as lágrimas a escorrem-lhe pela
cara abaixo, aguarda a resposta às suas perguntas. A voz de outro mundo,
responde:
- «Sou eu, em vida chamado Rodolfo. Eu estou em toda a parte e em nenhuma.
Os vivos não me podem ver, porque habitamos espaços diferentes.»
Estava terminada a sessão. A médium estava
exausta. Esta atividade dava cabo dela, mas o dinheiro que recebia era
compensador. Aurora chorava. A voz do defunto era de facto parecida, mas não
aquela voz que ela adorava ouvir. Quando sonhava com ele, e isso acontecia
amiúde, ouvia a sua voz, a genuína, aquela de antigamente, antes de ele ficar
doente. Esta, vinda não se sabe de onde, podia ser uma reles imitação. Talvez
não contratasse mais a brasileira. Quem sabe se ela não seria uma atriz de
segunda categoria, extorquindo dinheiro aos ingénuos clientes? Vozes de outro
mundo!
A brasileira abriu os olhos, levantou-se da
cadeira, e disse à dona da casa:
- «A senhora hoje teve sorte; nem sempre isto corre tão bem. Por vezes os
espíritos zangam-se, e quando isso acontece vai tudo pelos ares: mesa,
cadeiras, tudo.»
Aurora, agora um bocadinho mais calma,
reage a essa notícia.
- «Eu sou católica, nasci nesta religião, cresci acreditando em Jesus
Cristo, em seu divino pai e no espírito santo, na sua santa mãe, Maria.
Confesso-me regularmente ao senhor abade, rezo todas as noites ao senhor,
pratico todos os atos da igreja. O que eu fiz hoje nada tem a ver com a minha
religião. Quis apenas verificar, por mim própria, se era possível falar com os
mortos. Pelos vistos, é. No entanto, restará sempre a dúvida. A senhora diz que
eles pairam sobre oceanos, etc. Como é que a senhora sabe? Esteve lá para ver?
São os mortos que o afirmam?»
A brasileira reage:
- Minha cara senhora: eu respondo às suas perguntas, mas quanto às
dúvidas permanecerão na sua mente para sempre. O criador do universo, da vida, de
tudo que se vê e não vê, incluindo os seres humanos, já existe desde tempos
imemoriais. Ninguém, cientistas ou não, pode determinar a sua idade, a sua
forma, o seu quotidiano. Antes da nossa espécie, ser algum questionava a sua
existência, o seu domínio absoluto sobre as coisas. O homem, cuja criação é
recente, cerca de três milhões de anos, foi evoluindo, desenvolvendo o seu
cérebro, foi olhando para o céu, interrogando as estrelas, afastando-se cada
vez mais das outras espécies, domando algumas delas, descobrindo alguns
segredos da natureza, julgando-se um pequeno deus, pondo em causa a sofisticada
máquina universal. Através da investigação foi descobrindo remédios para curar
certas doenças; inventou barcos para navegar sobre as águas profundas; inventou
aparelhos para voar como as aves; e agora tenta deslocar-se até aos longínquos
planetas, assumindo-se como os senhores do universo. O senhor Deus, criador do
céu e da terra, não permitirá tal coisa. Castigará severamente quem ouse
enfrentá-lo; a sua capacidade de destruir é tão grande como a de construir. E
como é que eu sei estas coisas? Há seres que foram dotados pelo Senhor para o
servir, para serem seus mensageiros, seus porta-vozes. Nós conseguimos ver
através do vácuo; os nossos olhos veem mesmo no escuro e as distâncias
incalculáveis; os nossos ouvidos ouvem praticamente tudo. Fomos dotados pelo
Senhor para ajudar quem precisa, apesar do ser humano ter alguma liberdade de
ação, vulgarmente conhecida por livre arbítrio. Deus dá a saúde, mas também a
doença, para que os humanos saibam que a liberdade, o bem-estar, o sofrimento,
fazem parte de uma vida, que de uma maneira geral é curta, somente Deus é
eterno. Criaram-se as religiões a fim de minimizar os efeitos do sofrimento; a
submissão dos humanos conta imenso para o Senhor. O homem arrogante torna-se
perigoso aos olhos do omnipotente. Esses seres arrogantes, graças às suas
fortunas, que cresceram à custa do pobre trabalhador, julgam-se importantes,
capazes de enfrentar a força divina. Por isso o grande Deus manda para este
planeta pequeninos seres, por exemplo vírus, a fim de mostrarem a esses
senhores arrogantes, que são frágeis, incapazes de sobreviverem a um bichinho
tão minúsculo, que só por meio de grandes lentes se conseguem ver. A força de Deus,
o seu poder ilimitado, não concede benesses a quem não as merece, a quem não
crê na sua grandiosidade. A senhora é católica, acredita em Jesus, cumpre todos
os preceitos, as regras, leis emanadas do Vaticano, mas isso por si só não
chega. Submeta-se ao Senhor, à sua Vontade, siga as suas instruções, e o seu
espírito ficará sossegado. Existem transformações, ao longo da vida e depois da
morte física; ninguém o pode negar. As estrelas, com o tempo, extinguem-se;
outras nascem para iluminarem os planetas, os quais não têm luz própria. Está
tudo otimamente organizado, tudo perfeito. E isto é obra de Deus.»
Aurora ofereceu bastante dinheiro à cidadã
brasileira e ambas se despediram. A brasileira diz-lhe:
- «Agradeço a sua oferta, a sua generosidade. Se precisar de mim, sabe
onde me encontrar. Estarei sempre às suas ordens.»
O tempo foi decorrendo, na sua velocidade
intemporal, e Aurora, depois da pandemia ter desaparecido, continuou a tratar
da campa, mas agora só um dia por semana, quase sempre ao domingo. Tinham
decorrido três anos depois da morte do marido, uma eternidade! Começou a
mirar-se mais ao espelho. Apesar dos seus cinquenta e tal anos de idade, ainda
mantinha alguma beleza. Bem arranjada, lábios pintados, cabelos tratados no
salão de cabeleira, até parecia mais nova. Havia um colega, viúvo, mais ou
menos da sua idade, que a olhava com alguma atenção. Convidava-a para irem
tomar café, conversavam sobre diversos assuntos, mas não ousavam declarar-se. Ela,
uma certa vez, disse-lhe, quase a brincar:
- «Ai eu, não sei se voltarei a casar; estou bem assim, não tenho de
aturar quem quer que seja; ainda tenho a minha mãe viva, tenho dois filhos e
netos. O mais certo é deixar-me estar como estou.»
Ele, cujo nome ainda não fixei, também com
um sorriso nos lábios, especula.
- «Eu não conheço o dia de amanhã. Não imagino sequer o que me poderá
acontecer, mas desde já confesso: gostaria de encontrar uma mulher que me
estimasse, que fosse meiga, minha companheira leal nas horas boas e más. Sinto-me
só, triste, naquela casa tão grande. Os meus filhos casaram, estão no
estrangeiro, apenas os vejo uma vez em cada ano. Já tenho netos, mas nem
português falam! Enfim, sinto mesmo necessidade de ter a meu lado uma parceira,
uma verdadeira amiga.»
Sugere ela, com alguma ironia:
- Põe um anúncio no jornal, talvez alguém do sexo feminino te responda.
- «Isso é perigoso. Imagina que me aparece uma galdéria, armada em boa
senhora. Nunca se sabe o que pode acontecer. A minha esposa era uma pessoa
educada, carinhosa… Tinha os seus defeitos, é claro, como toda a gente, mas as
suas virtudes eram enormes, gigantescas. Sinto muitas saudades dela, fazia-me
imensa falta, mas Deus não quis que ela vivesse mais. Levou-ma para o céu, que
descanse em paz.»
Voltaram ao trabalho de escritório,
pensativos. Quem sabe se esta amizade de agora não se transformaria em amor.
O destino por vezes é caprichoso. O tal
colega de Aurora, chamado Rafael, um dia pediu a Aurora:
- «Sei que vais quase todos os domingos visitar a campa de Rodolfo. No
próximo domingo gostaria de ir contigo. Não me esqueço que nós os dois, eu e o
teu marido, fomos amigos durante algum tempo, sobretudo antes de ele ser
famoso; depois de isso acontecer, deixou de ter tempo para mim. Eu compreendi,
e jamais o critiquei por tal atitude. Provavelmente eu teria feito o mesmo.
Permites que te acompanhe?»
Aurora
meditou um pouco e respondeu assim à pergunta:
- «Percebo perfeitamente a tua intenção. Nós já nos conhecemos há muitos
anos, simpatizamos um com o outro, sempre nos respeitamos. Agora somos viúvos,
temos pouco mais de cinco décadas de vida, vivemos sós, a solidão não é boa
companhia. Está bem, no domingo, por volta das quatro da tarde, encontramo-nos
no cemitério. Leva rosas vermelhas, as preferidas de Rodolfo.»
No dia combinado lá estava, à porta do
cemitério, o senhor Rafael. Tinha vestido um fato escuro, uma gravata a
condizer. O seu cabelo ainda não era completamente branco, a cara estava bem
barbeada. Um pequeno bigode dava-lhe aquele ar sério, de pessoa honrada. Não
fumava, bebia apenas um copo de vinho à refeição. Era um manga d’alpaca queirosiano.
A sua cultura era média, não cometia grandes erros gramaticais ao falar. Tinha
somente o quinto ano do liceu, mas gostava de ler, sobretudo romances e livros
de história. Costumava dizer: - «Cuidado
comigo! Em história, ninguém me bate; fui um dos melhores alunos da escola.»
Exagerava um pouco, mas de facto sabia bastante nessa área do conhecimento, o
que é raro neste país de poetas e analfabetos. Finalmente chega a tão desejada
Aurora. Vinha toda aperaltada. Um vestido pouco decotado, descendo abaixo dos
joelhos, uma cor discreta, um casaco de lã ou algodão sobre as costas, o cabelo
muito bem arranjado, os lábios pintados, mas sem brilhos excessivos, quase
imitando a cor natural. Ele recebe-a com carinho, quase como se fossem
namorados. Cumprimenta-a:
- «Boa tarde, Aurora. Estás muito bonita. Não sou homem de grandes
discursos, como sabes, a timidez acompanhou-me ao longo dos anos, mas sei
apreciar a tua beleza. Eu sinto-me feliz por estar a teu lado. Esperemos que
este seja o primeiro dia da nossa longa caminhada.»
- «Boa tarde, Rafael. Vamos falando e caminhando, a fim de visitarmos a
campa onde está sepultado o Rodolfo. Não será fácil para mim aceitar outro
homem na minha vida. É certo que o Rodolfo morreu. Jamais o verei. Jamais
dormiremos na mesma cama. Também é verdade que ainda não sou uma velha
caquética. Posso, mas não sei se deva, encetar uma segunda vida de casada. Por
mais que a gente se esforce, tente ignorar, tu serás sempre o marido de outra
mulher, e eu serei a esposa de outro homem. Até é possível que as coisas deem
certo. Quem sabe? Se o casamento não resultar, separamo-nos; o divórcio, em
nossos dias, é facílimo. Tudo bem! Contudo, as feridas deixadas por um fracasso
desta natureza eternizar-se-ão. Eu entreguei ao Rodolfo não só o meu corpo mas
também a minha alma, a minha mente, tudo aquilo que eu possuía. Contigo será
diferente: entregar-te-ei o que resta do meu corpo e pouco mais. Os meus filhos
não te receberão como pai nem como padrasto, serás para eles um intruso. Eu não
poderei tratar os teus filhos com carinho, pois não sou hipócrita. Vamos tentar
viver juntos, sem casamento, envelhecer juntos, cuidar um do outro. Em termos
financeiros não há qualquer constrangimento: eu tenho o meu ordenado, uma
razoável pensão de sobrevivência, ou viuvez, uma boa vivenda; tu tens também o
suficiente para te manteres sem precisares do apoio de ninguém. Hoje já podemos
dormir juntos em minha casa; não na cama onde me deitava com o Rodolfo, ali
não; nem no mesmo quarto. Esse quarto é a minha capela, o meu refúgio: ali
rezo, ali choro, ali rogo pragas aos santos, aos demónios, até a Deus quando
estou muito zangada. Tu, com o tempo, vais-te adaptando à minha maneira de
viver; eu vou-me esforçar bastante para não te desiludir. Concordas?»
Gabriel não esperava aquele discurso: tão
frio, tão materialista, tão pensado; mas, por outro lado, pensou que Aurora
estava a ser sincera, verdadeira. Amara Rodolfo até ao âmago. Ele correspondera
a esse amor, mas cedera ao vício, destruindo dessa maneira a sua vida e a dela.
Ela agora queria reagir, não se deixar abater pela adversidade, evitar a
loucura. Não amava o seu colega, ninguém substituiria o defunto marido, mas
simpatizava com ele, reconhecia nele virtudes que nem todos as têm, um homem
sério, bondoso, capaz de se sacrificar pelos outros. Na sua juventude fora
bombeiro voluntário e nadador salvador. Estimou a esposa, educou os filhos,
preparou-os para a vida. Agora, com mais de cinquenta anos de idade, viúvo, os
filhos casados, desejava envelhecer ao lado de uma mulher honesta, que o
tratasse bem. Depois de meditar alguns segundos, ou minutos, respondeu-lhe:
- «Eu não quero ser o teu dono, o teu senhor. Há quase trinta anos que
trabalhamos juntos, nunca nos zangamos, jamais dissemos mal um do outro, o
respeito foi mútuo, assumimos as nossas responsabilidades de cidadãos normais.
Formamos uma boa equipa de trabalho, ajudamo-nos uns aos outros, as chefias
gabaram sempre o nosso comportamento, o nosso método de trabalho. Tudo
continuaria assim se nós os dois não tivéssemos ficado viúvos. Infelizmente
aconteceu. Eu sempre te admirei como mulher e como colega. Depois de ambos
estarmos viúvos, comecei a olhar para ti de outra maneira: a amizade foi-se
transformando em amor. És a mulher que eu desejo para companheira, quero estar
contigo vinte e quatro horas por dia; mas, como não sou egoísta, aceitarei as
tuas regras, a tua maneira de ser. Lentamente, sem pressas, vais gostando de
mim, estimando-me, conhecendo-me melhor.»
Depois destes discursos comoventes e de
colocarem as flores na campa do defunto, dirigiram-se a um restaurante da
cidade e jantaram. Trocaram impressões sobre diversos assuntos, e às tantas
chamaram o empregado para pagarem a conta. Ele adiantou-se, puxou da carteira,
mas…
- «Eu falei-te em regras. As contas de restaurante serão pagas pelos dois
– “contas à moda do Porto.” Tu pagas aquilo que consumires e eu pago também o
que consumir. Ninguém ficará prejudicado, nem inibido; comes o que gostas e eu
faço o mesmo.»
- «Tens razão. Aceito plenamente. Assim cada um de nós escolhe o que mais
lhe agrada; no final paga apenas o que comeu e bebeu. Ótima ideia.»
O tempo, esse ditador invisível e
implacável, acelerou a sua marcha. No ano de 2050, no mês de junho,
encontrei-os num belo jardim da cidade. Estavam de mãos dadas, sentados num
banco. As suas bengalas dormiam sossegadamente. Conversavam e sorriam. As
folhas das árvores, as pétalas das flores, divertiam-se com o vento. Aquele sol
de junho abençoava aquela união.