sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha


XXII

 

Enquanto a chuva cai, o carrasco aguarda impaciente o condenado.

 

     Como repararam, o tal Guilherme era um vadiote e assim eu vi-me forçado a escolher outra atividade. Neste momento vamos os dois, eu e a minha mãe, a caminho da oficina do senhor Hilário, pedir-lhe que me aceite como aprendiz.

 

- Hilário, o meu Cândido pode ficar aqui a trabalhar contigo, ensinas-lhe a arte?

- E tenda?

- Isso acabou; quem sabe daquilo é o tio Acúrsio, já não vivo com ele, como sabes. Eu nunca entendi nada de negócios, cada qual nasce para o que nasce, eu não nasci para tendeira. 

- Então ele pode ficar a trabalhar comigo, mas não lhe posso pagar nada, quando souber alguma coisa da arte logo se vê.

- Só te peço é que o deixes ir engraxar aos dias de feira para ganhar algum dinheiro.

- Está bem, até pode levar daqui essa caixa, enquanto não mandas fazer uma, é raro servir-me dela, e na primeira semana dou-lhe a pomada e a tinta e empresto-lhe as escovas; até lá vai treinando.

- Obrigada; que Deus te pague. E tu já sabes: ficas aqui com o senhor Hilário, obedeces às suas ordens, e não lhe faltes ao respeito; fazes tudo o que ele mandar. 

- Está bem, mamã; até logo.

 

*

 

- Chega aqui, rapaz; senta-te ali naquele banquinho. Tens de estar na oficina às oito da manhã, largamos ao meio-dia e depois voltamos a pegar ao trabalho às duas da tarde até às oito da noite. Se te portares bem não perderás nada comigo. Agora vais endireitar essas tachas, cuidado com os dedos, agarras aí no seixo e no martelo e com jeitinho vais endireitando, olha como eu faço, vês, não custa nada.

- Já dei cabo dum dedo!

- Ah! Ah! É assim que se começa, agora vais ter mais cuidado.

 

*

 

- Tens catorze anos de idade, estás a trabalhar comigo há dois anos, não te dei nada até agora, a não ser esses sapatos que já não me serviam, malditos calos, estão-te grandes, mas que se pode fazer, tens os pés pequenos, sais à tua mãe. Bem, acho que chegou a hora de te dar qualquer coisa, tu merece-lo, vou começar a pagar-te 2$50 por dia, não é muito, mas é melhor do que nada, eu estive quase três anos como aprendiz sem receber um centavo, é certo que me davam de comer e me deixavam dormir no palheiro, mas isso era porque estava longe de casa.

- Obrigado, senhor Hilário, já ajuda, sabe que a minha mãe, coitada, anda sempre na aldeia, lá vai trazendo o que lhe dão.

- A tua mãe se tivesse juízo ganhava bem, é uma boa cozinheira, a melhor do concelho, faz um arroz de lampreia e um cabrito no forno que é de se lhe tirar o chapéu, é comer e chorar por mais, um cozido à portuguesa como nunca comi igual, mas a pinga dá cabo dela, o maldito vício, eu também lhe bebo, mas só nos fins-de-semana, sobretudo ao domingo de tarde, ai não, nos outros dias tenho que governar a barca, que ninguém dá nada sem trabalhar, mas a tua mãe é parecida com a minha, umas desgraçadas, um homem faz muita falta numa casa, não casaram e acabaram assim, que o vinho não tem espinhas, escorrega pela goela baixo que é uma maravilha, um mimo, tem de se lhe pôr travão, mas elas não são capazes.

- Sabe que às vezes nem ceio, tenho de ir esperá-la, nem sequer sei por onde vem, quando a encontro vem a cair, ralho-lhe, mas ela nem me ouve, se eu tivesse pai seria diferente, mas não tenho.

- Eu também não tive, a minha mãe dizia que eu sou filho de um tal doutor António, nessa altura era criada dele, aproveitou-se, o vilão; eu nunca o vi, nem sei se era gordo ou magro, mas olha, vamos ganhando para a bucha, não preciso do filho da mãe para nada, se agora aparecesse nem lhe falava, bandido.

- Por que é que os homens fazem os filhos nas mulheres e depois não casam com elas?

- Por vaidade, bazófia, para dizerem aos outros que são machos, eu também fiz uma filha à Cremilda e não casei com ela, mas olha que a culpa não foi minha, foram os pais dela que se opuseram, disseram que eu era muito pobre, e insultaram a minha mãe, muita tareia dos pais a rapariga levou por minha causa, uma vez iam-na matando, eu afastei-me para não haver mais chatices, ainda hoje gosto dela, e a filha é minha, olha que é muito bonita.

- E parece-se com a sua mãe, é a cara dela.

- Aí tens razão, é a cara chapada da minha velhota. O que me custa mais, até tenho remorsos, é saber que ela ficou aleijada por causa do parto, não correu nada bem, a criança estava numa posição esquisita, a parteira viu-se grega para a tirar cá para fora.

 

*

 

- Senhor Hilário, há três anos que trabalho consigo, tenho quinze anos, acho que já é altura de ganhar mais do que 2$50 por dia, o senhor Cerdeira encontrou-me e disse-me que se eu quisesse ser empregado dele que me dava 5$00, eu respondi que primeiro teria de falar com o meu patrão.

- Eu não te posso dar esse dinheiro, se ele to dá é lá com ele, é rico, dar a um aprendiz 5$00, onde já se viu, tu se quiseres ir vai, és livre, não mando em ti, ensinei-te o melhor que pude e soube, tu até tens jeito para a profissão, mas essa quantia não te dou. Quando começas a trabalhar com ele?

- Se o senhor Hilário não se importasse começava já no princípio da semana que vem. E desculpe.

- Primeiro acaba esse serviço que tens aí; põe os saltos nesses sapatos de senhora. Vai-me custar, já estava habituado contigo e ainda somos parentes afastados.

- Depressa arranja outro, não falta quem queira aprender a arte.

- Não é bem assim, agora os pais vão para França e já todos pensam que são lordes, mas vem para cá o Crispim, a mãe já outro dia me falou, morreu-lhe o pai há pouco tempo, a mãe está a servir na casa do senhor Octávio; coitada, ficou viúva muito nova, o que vale é que só tem aquele filho, mas ele parece que não gosta muito de vergar a mola, só porque o padrinho é comerciante…

- Ouvi dizer que é doente, por isso é que não aprendeu uma profissão até agora.

- Para trabalhar são todos doentes, mas para gozar a vida e encher a pança estão saudáveis, olha que ele não tem cara de doente.  

- Esperemos que se adapte; é importante na vida ter-se uma profissão, mesmo que não dê para enriquecer.

  

XXIII

 

Na alcateia o lobo uiva e a presa geme

 

     Os jovens, tarde ou cedo, uns mais cedo e outros mais tarde, iniciam a sua prática sexual. Nas terras do interior existe quase sempre uma desgraçada, geralmente abandonada pelo namorado, ou pelo amante, e depois pela família, com uma criança nos braços, que virá a ser a mestra de todos eles. É o caso:

 

- Queres ir esta noite à Corga de Cima?

- Eh, pá! Aquilo de noite é perigoso, não há luz, o regato leva muita água, estou com receio, ainda sou tão novo!...

- Temos dezasseis anos, somos uns homens; todos vão lá, só leva 2$50, já combinei com os outros, saímos do Terreiro às nove em ponto, quem não aparecer não vai.

- Quem são os outros?

- O Joca, O Rina, o Afonso, o Barata…

- Parece um regimento; nunca mais de lá saímos!

- Aquilo é rápido, eu já lá fui uma vez, levou-me lá o meu primo Teotónio.

- E não faz mal? Ouvi dizer que aquilo era uma nojeira.

- Tens é de mijar a seguir, senão podes apanhar uma doença chamada “galiqueira”; nós nem a vemos, ela deita-se numa palhas secas, em cima duns sacos de lona, abre as pernas e pronto, às escuras, é um ver se te avias, tudo num ápice.

- Não sei se aparecerei; até porque a minha mãe se souber dá-me uma soberba coça, é cá uma bronca!

- Eh, pá! Alguma vez tens de começar, ou queres que te chamem aquele nome feio? Ela está lá para isso mesmo, agora anda prenha, a filha da mãe, dizem que é melhor ainda, o filho é do Tebas, o figurão está em cima dela quase meia hora, assim qualquer um a enchia.

- O primeiro bebé que teve – era ela nessa altura uma linda rapariga – é, segundo dizem, do senhor Santos, o da drogaria; não quis casar com ela, foi pena, mas ela rogou-lhe todas as pragas do mundo.

- Pragas?!

- Sim; pediu a Deus e a todos os santos que o primeiro filho do casamento dele tivesse uma morte violenta, para que assim soubesse o que era sofrer.

- E morreu mesmo, coitadinho, ainda não teria cinco anos de idade, era tão bonito, era a criança mais linda da Vila, até parecia uma menina, ou um anjo.

- E sofreu muito antes de embarcar para o céu, até ficou com o rosto desfigurado de tanto padecimento.

- Dizem que o Luís da Peneiras viu o funeral antes de ele se realizar! Coitadito, não teve culpa dos erros do pai, de certeza que a sua pequenina alma está em repouso.

- Cá se fazem, cá se pagam; a mãe da criança, a Mirta, ficou maluquinha, nunca mais foi a mesma, nem de casa sai!

- E agora a Ruça prenha! Mais uma criança para passar fome, já tem uma data delas, cada uma de seu pai; ela atraía os homens, era jeitosa, ainda hoje, com trinta e tal anos de idade, não é de se deitar fora.

- Se andasse arranjadinha e asseada, mas anda porca e a cheirar mal que tresanda, mal vestida, despenteada, julgo que nem se lava, e se o fizer deve ser naquele alguidar onde depena os frangos! Também! A viver naquele pardieiro, e sempre gajos a entrar e a sair.

- Os filhos vão ter vergonha dela quando forem grandes.

- Há tantos putos por aí sem pai, quem é que liga a isso? Se viessem a ser ricos é que se podiam importar, mas nesse caso saíam daqui, iam para a cidade, lá há muita gente e ninguém os conhecia, nem reparam nessas coisas.

- Tens razão, há tantos filhos sem pai nesta terra! Eu, os meus irmãos, os da Pulquéria, os da Joana Caganitas…

- Podias estar um dia inteiro a contá-los; deixa lá isso, os homens nicam e as mulheres engordam, quantos mais melhor, uma malga de caldo e um naco de pão duro haverá sempre, ninguém morre à míngua.

- Maldita região; a pobreza nunca nos larga, pega-se a nós como o caracol à erva, e para cúmulo da desgraça, a ignomínia, o ferrete.

- Eh, pá! Deixa lá essas coisas, o que é preciso é viver, nós não nascemos para sermos ricos, quantos há nesta terra? Conta-os: meia dúzia, o resto é tudo pobre ou remediado.     

- Tu gostarias de ser rico?

- Que pergunta mais idiota; quem não gostaria, com empregados, boa casa, boa comida, bom carro, muito dinheiro, passear, boas mulheres, boa vida, os outros que trabalhassem para mim, havia de viver regaladamente.

- E os pobres? Nem sequer pensavas neles!

- Dava esmolas àqueles que me fossem bater à porta, nunca negaria uma esmola, e dava trabalho aos operários e caseiros.

- Sonhos, não é, Cleto? Nunca seremos alguém, eu a ganhar cinco escudos por dia naquela minúscula oficina, tu nas obras a ganhar sete escudos, mal dá para comer, andamos andrajosos, sempre com o mesmo calçado, a mesma roupa, o rosto chupado, uma corda a servir-nos de cinto! E eles, os poderosos, têm de mais, até dá para estragar, olha o Atílio, com três ou quatro carros, duas casas, empregadas com farda, os filhos a estudar na cidade, nós fizemos a primária e pronto, alguns nem isso conseguiram, toca a trabalhar para eles, a engordar o seu peteiro, eles cada dia mais ricos e nós sempre pobres, maldita vida esta. E quando lavra um incêndio nas suas casas, nos seus bens, somos nós, bombeiros voluntários e o povo que o vai apagar, que eles nem sequer pegam num balde de água! E no fim nem obrigado dizem.

- Qualquer dia vou para a França, já está lá o meu cunhado e diz que me manda ir, nem que vá a pé por essa Espanha fora, o Trinchas também foi, conta que passou fome de rabo, mas hoje está cheio de massa, o filho da mãe também só come tripas e carne de porco de terceira, acho que bifes só em dia de festa, e feitos com carne de cozer, olha que os filhos saem a ele, são uns sovinas, para viver assim não vale a pena sair da nossa terra natal.

- Eu não gostava de sair daqui, gosto imenso disto, até as pedras da rua conheço, todos os cantinhos, as pessoas, tenho os meus amigos, a banda de música, o meu clarinete, qualquer dia já vou tocar para as festas, o mestre prometeu-me, diz que eu estou a aprender bem, já vai mandar fazer a minha farda, com este corpo não vão gastar muito pano; vou também começar a jogar na equipa de futebol. Se fores para França lá não tens amigos, eles falam outra língua, não te vais entender com eles.

- A língua aprende-se, o meu cunhado já a arranha, o que é preciso é saber o nome das ferramentas e mais qualquer coisa: «bonjure», «bonsuare», «mangere», e pouco mais; e aquilo que não se souber fala-se por gestos, os franceses não são burros.

- Ah!, ah!, ah!; até já tu falas francês sem nunca teres ido a França!

 

*

 

- Tudo a postos? Ao caminho; vamos separados, em grupos de dois, para não dar nas vistas. Juntamo-nos todos no campo a seguir à estrada, o Barata não veio?

- Até agora não apareceu, é provável que os pais, de castigo, não o deixassem sair, deve-lhes ter feito grande malandrice.

- Oquei! Não podemos esperar eternamente por ele. Todos trazem o cacau? Eu é que o entrego, passem-mo para cá. Está certo, vamos andando.

- Caramba! Já me enterrei na lama, andaram a regar os milhos, quase que nem posso mover-me.

- Descalça-te; não podemos perder tempo, já não é cedo, devem ser quase dez horas, arregacem as calças e não façam barulho que os lavradores andam por aí.

- Já tenho vontade de voltar para trás, por que é que eu me meti nisto?!

- Se quiseres voltar para trás volta, nós continuamos, mas isso é seres cobarde, medricas, que raio de homem és tu?

- Está bem, eu vou.

- Silêncio, já vejo uma luz; um de nós tem de se aproximar para ver se ouve alguém a falar, se não se ouvirem vozes bate-se à porta. Quem é que quer ir?

- Vai tu, Cleto; já cá vieste uma vez, para nós é a primeira.

- São todos uns medrosos, se não fosse eu só haviam de montar éguas. Escutem: ouço vozes, deve ser alguém que está com ela, deve estar a despedir-se.

- Está a abrir a porta, saiu alguém; já podes ir lá.

- Pode-se entrar?

- Quantos são?

- Cinco.

- Entra um de cada vez; os outros que esperem por detrás do muro. Trazem dinheiro?

- Trazemos; tome.

- Está certo. Entra.

 

*

 

- Eh, pá! Eu nunca mais cá venho; que cheirete insuportável, ia vomitando as tripas. Ela tem a pia tão suja e funda, quase que cabia lá eu, não gostei nada.

- Com essas esquisitices todas ainda acabas em panasca!       

- Não digas asneiras; quando tinha onze anos brinquei aos namorados com a neta do senhor Rodrigues, fomos para a cama, ela despiu-se…, mas assim não, com o bebé ali ao lado a choramingar, não dá qualquer gozo; além disso, estou farto de espirrar, devo estar com uma gripe dos caraças, se a minha mãe descobre que foi por causa disto, mata-me.

- Não tenhas medo. Enquanto resfolegavas à espera das estrelas da Ruça, sentava-se a tua mãe no colo do teu patrão.

- Ó Afonso, não digas isso ao rapaz.

- É mentira? Toda a gente sabe que eles…

- Olha, Afonso: eu não sabia, nunca mo tinham dito, mas já desconfiava; fizeste bem em dizê-lo, amanhã mesmo já saio da sua oficina. Eu já não gostava dele, mas a partir de agora…

- Se dizes mais alguma coisa desse género ao Cândido, sou eu que te dou um murro na tromba.

- Tu, Rina?! Tens a mania de que és forte.

- Ó rapaziada, guardem essas disputas para amanhã; e não se esqueçam de que ao chegarmos à Vila toca a separar, cada um vai para sua casa e nada de dar com a língua nos dentes, oquei?

  

XXIV

 

Todos os passos do condenado o conduzem ao patíbulo

 

     Decorre o ano de 1962; eu tenho agora dezoito anos, sou um homenzinho, frequento um curso noturno, com a duração de quatro anos, criado por decreto do Ministério da Agricultura. Dedico-me a ele na esperança de encontrar um outro rumo para a minha vida. O meu cérebro vai despertando para o sublime conhecimento, a minha alma descobre o fascínio da ciência. Embora estivesse subjacente a política, ali, naquela escola, ela não se fazia notar, pois o professor, um salazarista confesso, legionário por convicção, tinha como verdade indiscutível que todos os alunos serviam lealmente o regime corporativista. Mas o melhor é porem-se à escuta:

 

- Tu és o meu melhor aluno, o curso deve-te muito, tens trazido para ele muitos rapazes, fizeste dezoito anos, trabalhas por conta própria, é certo, mas considero que tens capacidade para ires mais longe, a tua arte é muito humilde, e dia a dia degrada-se mais, hoje ninguém manda fazer calçado novo a um sapateiro, só trabalham em consertos, eu vou arranjar-te um emprego no Grémio da lavoura, como sabes sou seu presidente, no princípio do mês que vem já começas lá a trabalhar, o Lito vai para a França, o irmão mais velho mandou-lhe carta de chamada, vamos precisar de alguém para o substituir.

- Mas, senhor professor; eu nunca tive outra profissão, não sei se me vou adaptar, é tão diferente uma coisa da outra.

- Ninguém nasce ensinado, com o tempo habituas-te, vais ver que acabas por gostar, o ordenado inicial não é muito grande, mas depois serás aumentado, tens ali o teu futuro, sempre é uma atividade mais asseada, com outro estatuto, e descontas para a previdência, para quando fores velho teres direito a uma pensão. Está assente: no início do mês apresentas-te ao serviço, eu vou falar com o senhor Roque, ele é o chefe do pessoal. Outra coisa: leva a tua melhor roupinha, isso sempre ajuda, impressiona bem, vais ter de atender ao balcão logo que para isso estejas preparado.      

- Sim, senhor professor.

 

*

 

- Senhor Roque, venho apresentar-me, o senhor professor Salomão mandou-me vir para cá.

- Já sei; vai falar ali com o senhor Couto, ele já te dará trabalho, já te dirá o que tens a fazer. Couto!

- Sim, senhor Roque.

- Encaminha aqui o novo funcionário.

- Sim, senhor; deixe-o comigo. Cândido!

- Sim, senhor Couto.

- Vês estes sacos?

- Vejo sim, senhor Couto.

- Estão cheios de sementes, adubos, rolhas de cortiça…

- Pelo que vejo, as sementes têm cores variadas!

- E os adubos também; mas cuidado, não os cheires, olha que alguns são tóxicos, muito perigosos. Os preços estão aqui, nesta tabela, não os confundas, há duas balanças, uma grande, pode-se pesar nela centenas de quilos, e uma mais pequena, a que se encontra no balcão, essa é só para os artigos leves.

- E vem cá muita gente comprar? 

- Nos dias de feira o Grémio é muito movimentado, mas todos os dias há muito trabalho, terás também de ir à Central de Camionagem buscar os sacos que chegam dos armazéns para nós, levarás aquele carrinho de ferro.

- Oh! raio. Disso é que o senhor professor não me informou, só me disse que era para trabalhar ao balcão; andar por aí com o carrinho, e logo este que faz uma chiadeira dos diabos.

- Pões-lhe óleo; olha que não te caem os parentes na lama, tu até tiveste sorte ter vindo para aqui, houve muitos pedidos, o senhor professor é que gosta de ti, aprecia as tuas qualidades, e pronto, trouxe-te. Em relação ao carro, o Nando, que está cá há pouco tempo, também vai à Central algumas vezes, ultimamente é ele que lá tem ido.

- E o ordenado, sabe quanto vou ganhar?   

- O senhor Roque disse que começas a ganhar trezentos escudos por mês, depois será aumentado.

- Trezentos escudos?! Isso é pouco, eu já tirava mais na minha oficina.

- Olha que eu não estou a ganhar muito mais, e tenho já vinte anos de carreira.

 

*

 

- Ó Nando, sabes que isto de andar com o carrinho de um lado para o outro, carregado até não poder mais, está bem que é quase todo o caminho a descer, não me está a agradar muito, se ainda o ordenado fosse bom, mas é uma miséria, baixíssimo, e querem que um tipo ande bem vestido, o que se ganha não dá para comprar roupa, eu se calhar vou-me despedir, que metam outro, ganho mais na oficina e não preciso de andar vestido com roupa domingueira, e tomar banho duas vezes por semana, no verão vá lá, vai-se ao rio, mas no inverno… nem casa de banho há na minha casa, tomo banho num alguidar de barro, já está a ficar pequeno para o meu corpo; por outro lado, tenho vergonha de andar pelo meio da Vila com este carro, faz um barulho tremendo, toda a gente olha para nós.

- Tu é que sabes, eu terei de aguentar, se saísse, o meu pai dava cabo de mim, esfolava-me vivo, fartou-se de correr atrás do senhor professor para ele me ter no Grémio, mas tu não tens pai, a tua mãe não risca peva; além disso, és mais velho do que eu quase dois anos, eu apenas tenho dezassete.

- Está decidido, vou-me despedir; o professor Salomão é que vai ficar danado comigo, mas o senhor Roque anda-me sempre a chatear, sempre a dar ordens, raspanetes… Eu não posso com ele; o Couto, esse é boa pessoa, um paz de alma, o Roque faz dele o que quer, eu não aguentava.    

 

*

 

- Senhor Roque: no fim deste mês vou embora daqui, deste emprego.

- Embora?! E porquê, posso saber?

- Não gosto deste trabalho, vou continuar a trabalhar na minha oficina, os meus clientes andam sempre a pedir-me para voltar, apreciam muito o meu serviço, até a criada do senhor doutor juiz me pediu para reabrir a oficina.

- Já informaste o senhor professor?

- Não, estou com receio que ele fique zangado comigo; quase um ano aqui já deu para ver se gosto ou não, o senhor professor vai certamente compreender.  

- Deixa lá, eu falo com ele; de facto nunca te vi muito entusiasmado, não nasceste para isto, segue o teu rumo.

- Obrigado, tira-me um grande peso de cima.

- O pior é arranjar outro, agora com a guerra colonial foge tudo para o estrangeiro, qualquer dia não há população masculina neste concelho, têm medo da guerra, olha que eu lutei na primeira grande guerra, a de 1914-1918, e não morri, naquele tempo havia homens, não tínhamos medo, agora fogem como cobardes, deviam ser todos presos e enviados para África, para a frente de batalha.

- Eles também fogem porque aqui nesta terra se ganha pouco, eu entrei a ganhar trezentos escudos por mês e ao fim de quase um ano continuo a receber o mesmo ordenado!

- Estávamos a pensar aumentar-te, mas vais-te embora.

- Nem para comprar roupa chega, e aqueles que trabalham nas obras não ganham muito mais, e trabalham como escravos, de sol a sol; os camponeses, coitados, se os anos agrícolas correm mal é a fome, a absoluta miséria.

- Não exageres; antigamente vivia-se bem pior, olha que antes do senhor doutor Oliveira Salazar assumir o poder os partidos políticos não se entendiam, havia revoluções constantemente, não havia paz em Portugal, a economia estava de rastos, os anarquistas e os republicanos deram cabo do nosso país, levaram-no à banca rota, já não tínhamos crédito no estrangeiro, a nossa moeda não tinha qualquer valor, Salazar foi o grande salvador da nossa pátria, devemos-lhe tudo, tudo!

- Eu não sou desse tempo, sou deste, e agora vive-se mal, a não ser os ricos, e também aqueles que têm ordenados chorudos. O senhor Roque já pensou o que se pode fazer num mês com apenas trezentos escudos?   

- É bem melhor do que nada, vocês agora querem levar vida de lorde, são arrogantes; pobrezitos, mas com barriga de nababo! Soberbos, é o que vocês são, olha que eu para chegar aonde cheguei tive de esperar e guerrear muito, que os meus pais também eram gente de escassos recursos, são do tempo do teu avô Gaspar, era boa pessoa, humilde, bom homem, os copos é que deram cabo dele; também, era a única alegria e distração que eles tinham! Andava pelas festas, a vender rebuçados, fabricados por ele, deliciosos, muitos comi! Está bem, queres ir embora vai, faço votos para que tudo te corra pelo melhor.

  

XXV

 

Na toca do lobo a raposa ri e dança

 

     Passou mais algum tempo e agora estou quase a trajar de cinzento, a cor da farda do exército português. A minha mãe continuava a fazer jus à alcunha que alguém lhe pôs: «pinguça». A minha namorada, com quem pensava casar logo que da tropa regressasse, não me ligava mais: o carro e a conta bancária falaram mais alto do que o coração. Mas quem pode condenar esse desejo legítimo de viver sem dificuldades de espécie alguma? Deitemos para trás das costas os impertinentes ou pertinentes juízos; isso já aconteceu há muito tempo e não é agora que alguém se vai preocupar com coisas do passado. Venham mas é assistir ao espetáculo:

 

- Não acredito! A dançar com o Artur? E disse-me ela que não vinha à festa, estava adoentada, a mãe também tinha problemas de saúde, pulha, impostora!

- Não querias acreditar, eu bem te avisei.

- Apetecia-me partir-lhe a cara no meio desta gente toda. Cabra!

- As mulheres são todas iguais, umas megeras; tu vivias de olhos tapados, eu há muito tempo que te andava a chamar a atenção, mas não querias ouvir, pensavas que eu te mentia.

- Vou lá e parto-lhe as bentas, filha da mãe, era só amor, eu era o seu ídolo, preferia morrer a casar com outro, e agora aparece-lhe este, com carrinho, meia dúzia de francos no bolso do casaco, e toca a trocar-me por ele!

- Espero que te sirva de lição, faz como eu: tenho sempre uma ou duas de reserva, comigo elas não brincam. Vem comigo, vamos-lhe beber uns copos para esquecer.

- Primeiro quero que ela me diga aqui, no meio desta multidão, porque é que me trocou. Por ser pobre?

- Acalma-te. Olha que o Artur dá-te uma moia, o tipo tem o corpo puxado, é um latagão, tem aí os irmãos também, os cunhados, o melhor é esqueceres, não te faltarão raparigas, lixa-te para ela e para as da laia dela e vamos embora.

- Cabrona, mentirosa, falsa; nunca mais quero namorar na vida, jamais confiarei numa mulher, já não me bastava ter uma mãe sem jeito, agora também esta desavergonhada a desrespeitar-me, a abandonar-me como se eu tivesse peçonha; tantas promessas, tantos sonhos, e tudo deitado por água-abaixo; hoje destruiu as minhas ilusões, a minha razão de viver, oxalá vá para África, para a guerra, e por lá fique, ao menos morrerei lutando pela pátria.  

- Vamos embora, estás a martirizar-te, não adianta, mesmo que fosses ter com ela só arranjarias sarilhos, ela já fez a sua escolha, trocou-te pelo dinheiro, pelo carro, por um futuro mais desafogado. Que lhe podias tu oferecer? Um rancho de filhos borrados, uma cozinha minúscula para cozinhar para ambos e para os fedelhos, uma carteira magra, amiúde vazia, sempre a contar os tostões, a lamentar talvez ter casado contigo. Assim vai para França, mesmo que trabalhe vai ver dinheiro, o tal «l’arjão», como os emigrantes lhe chamam, algum conforto, virá passar as férias no seu popó, terão aqui uma vivenda, os filhos que nascerem em França estudarão e até podem vir a ter boas profissões, um futuro risonho; se gostas dela deixa-a seguir o seu rumo em paz.

- E o amor?

- Qual amor? O amor é ter a pança cheia, roupa para vestir, calçado, uma boa casa, dinheiro, vislumbrar um amanhã melhor para os filhos; tu, por enquanto, não lhe poderás oferecer nada disso, vais assentar praça, por lá andarás três ou quatro anos, irás quase de certeza para a guerra colonial, podes ficar ferido, doente, eu sei lá!

- Talvez tenhas razão, mas é cruel o que ela me fez, não lhe merecia isto; olha que gosto imenso dela, para mim não existe mais ninguém, nunca mais a esquecerei, magoou-me muito, não sei se lhe perdoarei um dia esta atitude, este procedimento, abominável e impiedoso.

- Vamos beber uns copos, olha, vem ali o Bordelhas, dizem que a pinga da Amélia é fora de série.

- Ora viva! Aqui os dois tão sossegadinhos, até parece que estão a tramar alguma.

- Aqui o Cândido é que sofreu um grande desgosto, a Bera trocou-o pelo Artur…

- Que grande novidade a tua, amigo Rina! Isso já toda a gente sabe, na Vila não se fala noutra coisa, que ela não é tola, não, dizem que o marmanjo tem pilim, olha, mulheres é o que há mais, eu se quisesse engatar aí uma…, mas não estou para a aturar, vamos mas é beber que estou com a garganta seca.

 

*

 

- Lá, lalá, lalá! O mundo está louco, o mundo está louco, e eu já estou rouco!

- Ó Cândido, filho de uma putona, cala-te que eu quero dormir. Caramba! Bebemos que nem uns camelos do deserto, estamos borrachos como cachos, e eu que tenho de pegar às oito!

- Deixa lá cantar o enganado, Bordelhas. «Quem canta seus males espanta». Que horas são?

- O sino da torre deu as sete, vamos para casa comer uma bucha e arrancar para o trabalho, e logo hoje que tenho de ir para a serra, nem posso com as pernas.

- Vão vocês embora, eu ainda fico aqui debaixo desta árvore, não posso com a cabeça.

- E querias tu pelejar com o Artur, nem sequer aguentas uma borracheira, és um podriqueiro!

- Ó Rina, sabes bem que não estou habituado, é a minha primeira bebedeira a sério, nunca tinha ficado fora de casa, a minha mioleira anda às voltas, parece que vou vomitar.

- Vamos levar-te a casa, a tua mãe que te faça um chá.

 

*

 

- Senhora Matilde, faça um chá ao seu filho que ele está doente.

- Ó desgraçado, que andaste tu a fazer esta noite?

- Apanhámos todos nós uma grande piela; foi de caixão à cova!

- Vai-te deitar, vai, que estás bonito; pareces um cadáver!

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XVIII

 

As vias sinuosas encaminham-nos para o cais

 

     Apercebi-me, embora tardiamente, que a minha jovem namorada mudara o seu comportamento para comigo. Várias pessoas já sabiam nessa altura que ela e o Artur iriam casar; eu, porém, tudo ignorava, e nem sequer queria acreditar nessa possibilidade. «Cândido, meu pobre amigo, tu eras, nessa altura, um triste poeta, um sonhador.» Sejam ousados e aproximem-se: 

 

- Bera, não sei o que se passa contigo, não tens aparecido, ias à minha oficina todos os dias, a tua tia também já não vai com tanta frequência, a tua prima Guida já não me fala como antes, o que está a acontecer?!

- Nada, é impressão tua, escusas de estar preocupado, tenho tido muitíssimo trabalho, agora tenho ido com a minha mãe vender, praticamente não me sobram tempos livres, só nos fins-de-semana, mas até neste domingo tive de trabalhar, desculpa não ter aparecido, temos muito tempo para estarmos juntos, uma vida inteira.

- Pareces-me diferente, fisionomia carregada, a tua alegria contagiante desapareceu, nota-se em ti imensa preocupação, passa-se alguma coisa ruim, anda lá, diz-me, conta-me tudo, confia em mim.

- Estás a imaginar coisas, sou a mesma, só que ando maçada, temos de sair cedo de casa, a minha mãe anda outra vez grávida, já não se esperava este filho, a vida complica-se, mais uma boca para comer, já sabes como é, só preocupações.

- Correm por aí uns rumores, eu não acredito, estava bem arranjado se ligasse a tudo que dizem, eu em ti confio, pudera! Não havia de confiar naquela que vai ser a mãe dos meus filhos, a companheira de muitos anos, até parecia mal.

- Deixa essa gente falar, não têm nada para fazer, se tivessem não lhes sobrava tempo para se meterem na vida dos outros, olha que a tua mãe também anda a dizer coisas de mim, mas essa, coitada, é com a pinga, se não fosse o vinho já não diria esses disparates, que ela a mim não pode apontar nada, devia-se olhar no espelho, mas eu não lhe ligo, que fale.

- Sabes o que estive a pensar? 

- O quê?!

- Quando voltar da tropa e tiver algum dinheiro abrimos uma sapataria maior e melhor, com venda de calçado novo, as que há no concelho não prestam, as pessoas começam a ter dinheiro da emigração e já podem comprar, que dizes?

- Acho boa ideia, mas para abrires uma sapataria dessas será preciso muito capital, isso vai levar anos.

- E não disseste tu, há pouco, que temos muitos anos à nossa frente?

- Não cries ilusões, só na tropa vais botar pelo menos três anos, como sabes há rapazes que botaram quatro, depois vens sem um único tostão, que na tropa gastam o que têm e o que não têm, pensas que aquilo é a França, lá sim, ganham muitos francos, aqui nem para comer se ganha.

- Eu sei que tu tens razão, mas deixa-me sonhar um pouco, somos tão novos, não nos podemos comportar e pensar como se tivéssemos cinquenta anos de idade, a vida dá muitas cambalhotas e o futuro a Deus pertence, pode ser que as coisas melhorem, a guerra colonial pode acabar de um momento para o outro, eu tenho esperança que sim, tu não sejas pessimista, enfrenta o devir com otimismo.

- O que eu vejo em casa é cada vez mais miséria, mais carências, o meu pai adoeceu, não foi trabalhar durante um mês, não ganhou nada durante esse período, a minha mãe trabalha como uma escrava, os meus irmãos são ainda pequenos, só comem, não ajudam nada, eu faço o que posso, até já pensei oferecer-me como criada de servir, mas as casas dos senhores têm todas empregadas, algumas são de fora, coitadas, na aldeia delas também passam necessidades, o que farei?! Não me agradava deixar a terra.

- Nem eu permitia isso, nem que casemos antes de eu partir, mas depois também ficarias com a minha mãe, sabes como ela é, todos os dias aquilo, aquela bandalhice, nem te irias sentir bem, vê se aguentas até eu regressar.

- Peço a Deus e à Virgem Maria que me ajudem, que iluminem o meu caminho, só um milagre poderá melhorar a minha vida.

- Hoje estás impossível, nem te reconheço.

- Achas que é caso para menos? Tenho de ir, porque amanhã levanto-me cedo e tenho de dormir algumas horas, até depois.  

- E vais assim, se um beijo ao menos?

- Hoje não estou com disposição para essas coisas, sinto-me cansada e triste, é melhor ires já embora.

- Está bem, está bem; hoje nem te reconheço. Até amanhã.

- Se Deus o quiser.


XIX

 

Privilégios de macho cavalgam sábias fêmeas

 

     O leitor vai ficar abismado com tudo aquilo que se vai passar a seguir. Perguntar-se-ão: «como é possível?» Pois é: eu também fazia das minhas. Claro que naquela época, talvez ainda hoje, havia dois pesos e duas medidas: a traição da mulher pesava mais na sociedade, era suscetível de uma condenação severa; ao contrário, era de bom-tom o homem dar a sua escapadela! Mas já chega de retórica, venham todos assistir à malandrice:

 

- Cândido: nem sei como haverei de começar. A tua mãe não te disse nada?

- Se é o que estou a pensar, disse; mas já sabes como ela é.   

- Bem, ela falou comigo, disse-me que não gostava nada que tu casasses com a Bera, é uma leviana, não te vai respeitar, eu tive aquele problema, mas pronto, isso aconteceu porque aquele manco do diabo pensa que tem de tirar o virgo a todas as filhas dos caseiros, enquanto não faz isso não descansa, eu tinha apenas dezasseis anos de idade, era uma pobre inocente, não tenho culpa nenhuma, ameaçou despedir os meus pais da quinta, olha que sou uma rapariga séria, respeitar-te-ei sempre, comigo podes contar para a vida e para a morte, estarei sempre ao teu lado.

- Estás a colocar-me numa situação difícil, melindrosa, eu não quero prometer-te nada, é certo e verdade que a Bera ultimamente anda esquisita, não aparece aos encontros marcados, farto-me de lhe mandar recados, não sei o que ela tem, se calhar já não me quer, eu dou em doido, porque gosto profundamente dela.

- Eu ouvi dizer que vai casar com o Artur, sempre foi uma vaidosa, não dá confiança a ninguém, pensa que é importante, coitada, tem tanto como eu.

- Agradeço-te que não fales da Bera na minha presença, isso não admito a quem quer que seja, se ela me trocar pelo Artur está no seu direito, mas garantiu-me que isso não passa de um boato e prometeu esperar o meu regresso da tropa, depois casamos e já calaremos as más-línguas.     

- Espera-lhe pela volta, mas se não queres falar nesse assunto não fales, eu gosto de ti e estou às tuas ordens, se quiseres já sabes onde me encontrar, no domingo à tarde é o melhor momento, porque o meu pai anda aí pelas tabernas e a minha mãe não sai de casa, os meus irmãos ainda são pequenos, não se aperceberão de nada.

- Está bem, no domingo à tarde apareço, faço sinal cá de cima da avenida, mas não quero que te vejam comigo, se a Bera sabe então é o bom e o bonito, rompe logo comigo.

 

*

 

- Cá estou eu, ninguém te viu?

- Não, hoje há futebol no monte de Santiago, veio cá jogar o Limiano, foi toda a gente para lá, o meu pai a estas horas já deve estar bem bebido, a minha mãe está na cozinha a fazer a ceia, nem aos domingos tem direito ao descanso.

- Vamos arranjar um cantinho, daqui vê-se a tua casa, vamos mais para além, ali deve servir, a erva está seca, não há urtigas, esperemos que ninguém nos veja.

- Tanto medo, eu é que devia estar com esse receio, sou uma rapariga solteira, nem sequer sou tua namorada, nem sei porque vim, só porque gosto muito de ti, se quiseres vou-me embora.

- Desculpa, sei que estás a arriscar bastante, mas compreende, sou o namorado da Bera, se ela sabe, mas olha agora estamos aqui os dois e vamos pensar só em nós, deita-te aqui, assim, estás mesmo bem, és muito atraente, só tenho tido olhos para ela, mas tu não lhe ficas atrás, que pernas bonitas, macias, parecem de veludo, que seios, rijos, que bem me sinto aqui à tua beira, que lábios, parece que nunca beijaram, e tens os olhos lindos, nunca tinha reparado neles, nem sequer me tinha apercebido da cor deles, são verdes, ia jurar que eram castanhos, quase todas as raparigas daqui têm os olhos castanhos, o cabelo, brilhante, mais louro do que castanho, que bem me sinto entre as tuas pernas, deixa-me estar assim muito tempo, sempre.

 

*

 

- Até te esqueceste das horas, é quase noite, temos de ir embora, se não depois não podemos passar o regato, ainda caímos, foi uma tarde maravilhosa, não será a última, vamos passar muitas tardes assim, juntos, não estejas com essa cara de aflito, ninguém saberá.

- Promete-me, Celina, promete-me solenemente, que nunca dirás a ninguém o que se passou aqui, se ela sabe estou desgraçado, então é que eu a perco para sempre.

- Estás a ser-lhe mais fiel do que ela te está a ser a ti, mas podes confiar em mim, da minha boca não sairá uma única palavra a este respeito, nem sequer à tua mãe eu direi.  

- Sobretudo à minha mãe, se lho disseres espalhará por todo o lado, só para prejudicar a rapariga, vai botar tudo a perder, não lhe contes nada.

- Também, quem é que acredita naquilo que a tua mãe diz?

- Nunca fiando. 

      

XX

 

Caminhando sereno lambia as chagas de mórbidos prazeres

 

 

     Recuemos no tempo. Eu, com apenas onze anos de idade, acompanhando os meus amigos, vou revelar-vos os meus sentimentos, ainda prenhe de preconceitos, de temores; é a minha aprendizagem sexual, a primeira viagem num mundo onde o sexo é quase tudo. Deitem um olhar curioso sobre o ato:

 

- Eh, pá! Vamos ao rio, já está à nossa espera o Viriato e o Rina, levamos uma botelha de vinho que eu tirei da adega do meu pai, o Rina leva uma chouriça, tu levas pão, e o Viriato leva o sim-senhor, já nos prometeu que nos deixa ir a todos, vai ser uma festa, é a nossa rapariga, a prenda por termos concluído a quarta classe. Ele a ti tem-te muito respeito, passaste com distinção, nós somos uns burros, mas também passámos.   

- Ó Joca, e se a mãe dele, ou a avó, sabem? Olha que não são de brincadeiras, a velha é tesa, dá-nos uma coça que nos mata.

- Ele não lhes diz nada: quem tem cú tem medo! Eu já brinquei com ele, mas aquilo foi à pressa, por cima das calças, até me deu um pum, o filho da mãe, mas agora vai ser a sério, sem roupa a cobrir, perto do rio, uns vigiam e os outros nicam; depois tomamos um banho e comemos regaladamente, está tudo combinado, ai senão o gajo leva umas hóstias, não lhas perdoo.

- Ó Joca, ele é nosso amigo, coitado, tem esse vício, mas que diabo; nós temos de o respeitar, senão ele depois fica rabeta, como o tio dele.

- Eu quero lá saber se quando for grande é como o tio dele, eu quero é…

- Vou convosco, mas fazei vós. Que nojo!

- Depois até vais pedir, ou eu não me chame Joca.

 

*

 

- Estava a ver que nunca mais chegavam, o Viriato já se queria ir embora, tem um medo da avó que estremece todo, lá o consegui convencer, mas não foi fácil.

- Chimpo-te duas hóstias que te ponho a dormir durante oito dias, o que é que me prometeste, não foi vir connosco? Então porque é que te queres ir embora?!

- Demoravam, se a minha avó sabe, mata-me.

- Queremos lá saber disso, não sejas medroso, ninguém vai dizer à velha, era o que faltava.

- Ficamos aqui: com areia, relvinha, árvores, sombra, é o local ideal. Ó Rina, toca a vigiar, e tu também Cândido; eu e o Viriato vamos ali para o escondidinho, se alguém se aproximar avisam.

 

*

 

- Ó Joca, isso ainda demora muito, olha que eu e o Cândido também somos filhos de Deus, despacha-te.

- Agora é que eu estou no melhor, esperem um bocadinho, não demora nada.

- Vais tu, Rina; eu não quero, tenho nojo, até pode aparecer alguém, já viste o que iriam dizer de nós?

- O raio do Joca nunca mais se despacha; daqui a pouco também eu não quero.   

 

*

 

     A homossexualidade tem séculos de existência e até o próprio filho de Noé, o salvador da humanidade, segundo a bíblia, a praticou. Os médicos afirmam ser uma doença; porém, os próprios dizem que não, é apenas a busca do prazer oculto! O certo, certo, é que ao longo do percurso humano sempre surge, nesta ou naquela localidade, nas classes elevadas ou mesmo no submundo, um indivíduo propenso a estes actos contra natura. Mas deixemo-nos de especulações e, sem pressas, calmamente, assistam ao piquenique na relva:

 

- Rica pinga, que pena não ter trazido outra garrafa, e que fabuloso chouriço, isto é que é vida, que tarde, temos de vir cá mais vezes, não estão de acordo? Aqui o Cândido é que não sabe o que perdeu, pergunta ao Viriato se não gostou, diz-lhe, diz-lhe se não gostaste.

- Provocaste-me um bocadinho de dor, até parece que estou aleijado, tens cá uma pistola!

- Um homem é um homem, para a próxima já não te dói, vais ver…

- Para a próxima o Cândido vai ser o primeiro, queres?

- Não, não quero; acho que os rapazes não deviam fazer isso. Deus fez o homem e fez a mulher, devemos respeitar a sua vontade.   

- Santinho; tens de te ir confessar ao padre, olha que isto é melhor do que a alternativa. Ah! Ah! Eu até não me importava nada de ter aqui uma gaja boa, mas convencê-las?! E olha que o Viriato não fica prenho, podes estar descansado. E agora, meus bons amigos, para terminar em beleza, um cigarrinho, roubei-os ao meu velho.

- Vinho e cigarros! Se ele vem a saber!

- Hoje já deve andar com uma borracheira nos cornos, a esta hora já está a dormir em alguma mesa e a urinar-se pelas calças abaixo, é o costume.

- Vamos embora; a minha mãe e a minha avó já devem andar à minha procura, não posso chegar tarde a casa. Estão fartas de me avisar: «se fores ao rio e te afogares, quando chegares a casa levas uma tunda que te ficará de emenda para o resto da vida!»

     

XXI

 

O homem não nasceu para o trabalho; foi a preguiça que o inventou para ele!

  

     Recuemos vários anos no tempo. No mundo rural os rapazes e raparigas seriam forçosamente camponeses; nas Vilas os jovens sem recursos, ou mesmo remediados, teriam de aprender uma arte – sapateiro, alfaiate, barbeiro, etc., ou arranjar emprego ao balcão da mercearia ou de outro qualquer estabelecimento comercial. Eu teria gostado de ser alfaiate, mas essa profissão era monopólio de duas ou três famílias – os mestres alfaiates só ensinavam os seus parentes próximos. Daí terem-me encaminhado para a profissão de sapateiro, que por ser pouco asseada ficava reservada aos mais humildes. Se querem ouvir a conversa, ouçam:

 

- Mamã, não há quase fazenda nenhuma, nem dinheiro para pagar à fornecedora, o que vamos fazer?

- Vais aprender um mester, acabou-se o negócio, a fornecedora de Braga que leve o que ainda resta, sobraram uns aventais e meia dúzia de lençóis, para a prisão não me leva, vamos lá ver se aquelas a quem vendi fiado me pagam, coitadas, o São Miguel este ano não foi grande coisa, o milho foi uma desgraça, não se aproveitou nem a metade, a chuva veio antes da época própria, se calhar não vai haver vinho, um ano ruim meu filho, um ano para esquecer.

- E nós é que pagamos as favas; se não tinham dinheiro por que é que compraram?!

- Que queres! Nunca soube dizer não; tenho pena dessa gente, são todos bons para mim, não me fazem mais porque não podem.

- Nós não podemos viver disso, precisamos de dinheiro para pagar a quem nos vende as mercadorias; vai ser uma vergonha, eu nem quero estar presente quando vier a senhora Angelina receber, até fujo.    

- Digo-lhe para não trazer mais nada, depois pago-lhe quando puder, que tenha paciência, os negócios não correram bem.

- Por sua culpa, eu bem a avisei, mas não, fiava, fiava, depois malga aqui, malga acolá, às tantas nem se sabe a quem vendemos.

- Tens tudo apontado.

- Tenho, tenho; mas muitas dizem que não devem nada, que já lhe pagaram, se não foi com dinheiro foi com géneros, nós é que não riscamos!

- Se calhar têm razão, esqueço-me muito. Vais para alfaiate, falo com o filho da senhora Carmezinda, leva-te para lá, eu cá me arranjo; a cozinhar nos pequenos restaurantes, nos casamentos, pelas aldeias, à fome é que não morremos. Olha que os teus irmãos nem um tostão mandam!

- Coitados, o mais certo é também não terem para eles, na cidade deve gastar-se tudo que se ganha, mercam tudo, até dizem que se compra a salsa! Nós aqui temos couves, batatas, cebolas, quase tudo, e a hortaliça até no-la dão.

- A mim dão-me muita coisa; é certo que também lhes trabalho de graça, faço as vindimas, as desfolhadas, cozinho, ajudo em tudo, até a lavar os defuntos, não fazem demais dar-me o que me dão.  

- Dizem que o filho da senhora Carmezinda nunca está na alfaiataria, é porque não precisa, se precisasse que remédio se não vergar a mola, anda ele e o filho do senhor Fernandes a vagabundear, na borga até às cinco e seis da manhã, não perdem um serão nem um baile, não sei se irei aprender alguma coisa com ele.

- Experimentas; se não der resultado vais para outro lado, eu ainda hoje vou falar com a mãe dele, se ela quiser fico a cozinhar na taberna dela nos dias de feira, que ela tem muitos fregueses do monte.

 

*

 

- Na segunda-feira já podes ir para a alfaiataria do Guilherme, tens é que passar pela taberna da mãe para ela te dar a chave; ele levanta-se sempre tarde, parece que se deita todos os dias quase de madrugada! Um verdadeiro estroina!

- Mas se ele não está na oficina o que é que eu vou lá fazer, quem me ensina?

- Ele aparece, mas não passa lá muito tempo, segundo me disse a mãe; tu experimentas, se vires que não aprendes peço para ires para outro patrão.

- Está bem; na segunda-feira lá estarei, mas tenho a impressão que aquilo não vai dar certo.

 

*

 

- Eu não lhe dizia? O senhor Guilherme nem lá pôs os pés; esperei, esperei, ali feito parvo e ele sem aparecer, as pessoas que moram ali perto até se riram de mim, disseram-me que é raro verem-no, por outro lado nem sequer lhe entregam trabalho, nunca dá conta dele, e consta até que não é grande alfaiate, tem uma fama terrível.

- Então vais para sapateiro; vou pedir ao Hilário, ele aceita-te, ainda é da família, um tio dele foi casado com a minha falecida irmã Marília, esse é trabalhador, e serviço não lhe falta, não podes é esperar que te dê alguma coisa, é um forreta, um unhas-de-fome.

- Preferia a arte de alfaiate, é mais asseada, mas os mestres não aceitam aprendizes, só se forem filhos ou sobrinhos, são todos da mesma família, paciência.

- A profissão de sapateiro também é boa, não se apanha sol nem chuva, é da maneira que começas a andar calçado com sapatos, esses tamancos estão a dar-te cabo dos pés e descalço já não podes andar, já estás a ficar crescidinho, tens doze anos de idade, e agora também saiu para aí uma lei a proibir a gente a andar descalça! Mas olha que calçado não nos o dão eles, canté!

- Eu até não me importava de andar descalço, só que os dedos dos pés andam sempre esmurrados, uma lástima…

- Por causa do jogo da bola! Sabes o que podes fazer para ganhar algum dinheirinho?

- O quê?

- Podes ir engraxar sapatos para o terreiro nos dias de feira e domingos de manhã, sempre ajudava.

- Acho boa ideia; vou arranjar uma caixinha e escovas; compro a pomada e tinta na loja do senhor Landeiro.