quarta-feira, 9 de setembro de 2026

ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES

Por Joaquim A. Rocha 


continuação...


- António Augusto Durães (Dr.) Filho do Dr. António Joaquim Durães, natural de Paços, e de Beatriz Augusta Ribeiro Lima, proprietária, natural da Vila de Melgaço. Neto paterno de João Manuel Durães e de Francisca Caetana Pires, do lugar de Sá, freguesia de Paços, proprietários; neto materno de Carlos João Ribeiro [Lima] e de Ludovina Rosa dos Santos Lima, proprietários, da Vila. Nasceu no Campo da Feira de Fora às 13 horas de 24/7/1891, e foi batizado a 5 de Setembro desse ano. Padrinhos: os seus avós maternos. // Em 1908 concluiu os preparatórios num liceu do Porto (Jornal de Melgaço n.º 742). // A 18/7/1910, na Faculdade de Direito, fez ato das instituições de direito romano e de português. // A 20/6/1912 fez exame, com distinção, da 18.ª cadeira, medicina legal, e dias depois fez exame da 19.ª cadeira, direito internacional, 5.º ano; em Julho desse ano fez exame da 15.ª cadeira, 4.º ano, ficando distinto; também fez exame da 16.ª cadeira, 5.º ano, sendo aprovado com quinze valores (Correio de Melgaço n.º 8, de 28/7/1912), e direito colonial, 13.ª cadeira, 4.º ano (Correio de Melgaço n.º 10). // Formou-se em Ciências Jurídicas, na Universidade de Coimbra, a 13/8/1912. // A seguir abriu escritório em Melgaço, em cujo foro se estreou, a 12/11/1912, na defesa do padre José Joaquim Pinheiro, ex-pároco da Vila, conseguindo a sua absolvição; o padre fora acusado por Duarte de Magalhães de lhe ter recusado a comunhão na quaresma de 1902, praticando, por conseguinte, abuso de funções religiosas; o advogado de acusação era o Dr. Anselmo Ribeiro de Castro, advogado em Viana do Castelo. // Ainda nesse ano de 1912 foi nomeado subdelegado do Procurador da República em Melgaço (Correio de Melgaço n.º 30, de 29/12/1912), mas foi exonerado no ano seguinte (Correio de Melgaço n.º 59, de 27/7/1913). // Era um político ativo; aderira, depois de Outubro de 1910, ao Partido Republicano Português, e foi chefe, em Melgaço, do Partido Democrático, cujo presidente, ou secretário nacional, era o Dr. Afonso Costa. // Foi administrador do concelho de Melgaço, tomando posse a 24 de fevereiro de 1913, e esteve nesse cargo até maio do ano seguinte, interessando-se pelo prolongamento do caminho-de-ferro até Melgaço, mas os seus esforços foram em vão, devido em parte à falta de recursos financeiros por parte do Estado. Também lutou pela estrada para Castro Laboreiro, mas o dinheiro era escasso nessa altura. Quis para Melgaço a luz elétrica, água canalizada, etc., mas nada disso se tornou realidade durante a sua permanência no concelho. Foi ainda diretor do “Correio de Melgaço”, a partir do número 74, de 9/11/1913, mas devido a divergências com Hermenegildo José Solheiro, proprietário do jornal, afastou-se em 1915; o seu nome só aparece como diretor e editor até ao número 142, de 23/3/1915; a partir daí já figura como editor Adriano Augusto da Costa. // Suponho que em 1913 foi candidato a deputado pelo círculo de Melgaço (ver Correio de Melgaço n.º 57, de 13/7/1913). // A 28/11/1913, pelas 18 horas e 30 minutos, na Portela de Chaviães, quando vinha de moto de São Gregório para a Vila, foi de encontro a umas pedras que alguém, propositadamente, colocara na estrada; ficou ferido numa perna e num braço, e a motorizada ficou estragada (Correio de Melgaço n.º 77, de 30/11/1913). // Em sessão de 28/11/1913 o tribunal da Relação do Porto deu provimento ao agravo interposto por ele, Dr. Durães, do despacho do juiz de direito de Melgaço, que o inibia de advogar em polícia correcional de parte, com o fundamento de que ele era administrador do concelho (Correio de Melgaço n.º 77). // Em 1914 solicitou uma licença à Câmara Municipal para mandar fazer uns consertos no prédio que possuía na Rua Teófilo Braga, Vila, e para colocar umas pedras nessa rua, de maneira a não impedir o trânsito público, a qual lhe foi concedida (Correio de Melgaço n.º 97, de 26/4/1914). // Ainda em 1914 pediu a exoneração de administrador do concelho, pedido que foi aceite pelo Governador Civil do distrito (Correio de Melgaço n.º 98, de 3/5/1914). // Tudo lhe acontecia: pelas 23 horas de 2/5/1914, numa casa do lugar de Alcobaça, Lamas de Mouro, foi vítima de um acidente; estava encostado a uma varanda e esta cedeu, caindo sobre um pátio que se encontrava a quatro metros da varanda; foi socorrido por Jaime de Almeida, Macker Pinto, e por várias pessoas ali presentes. Felizmente o ferimento não era de grande gravidade; no dia seguinte regressou à Vila, onde foi analisado pelo Dr. Vitoriano (Correio de Melgaço n.º 99, de 10/5/1914). // A 7/9/1914, ele e mais três amigos, estiveram em perigo de vida em Vila Praia de Âncora, em virtude de se terem afastado da praia; foram socorridos pelos pescadores e banheiros, que os salvaram com imensa dificuldade (Correio de Melgaço n.º 115, de 8/9/1914). // Por despacho de 19/8/1915 foi nomeado notário interino da comarca de Monção, substituindo o Dr. Augusto César Esteves, que, a seu pedido, fora exonerado. Em Outubro ou Novembro desse ano foram-lhe concedidos trinta dias de licença (Correio de Melgaço n.º 174, de 14/11/1915). // Em 1916 foi-lhe oferecido de novo o cargo de administrador de Melgaço, mas recusou-o; aceitou, contudo, juntamente com o major reformado, Albino Pinto da Cunha, do Convento, Carvalhiças, o lugar de censor (Correio de Melgaço n.º 195, de 16/4/1916). Portugal entrara na I Guerra e a censura foi imposta aos meios de comunicação social. // Nesse ano de 1916 foi exonerado de notário interino em Monção (Correio de Melgaço n.º 199, de 14/5//1916). // Por causa de um artigo publicado no “Jornal de Melgaço” andou à tareia no dia 13/7/1916, quinta-feira, com o Dr. António Francisco de Sousa Araújo, no “Café Melgacense”; terminou com a intervenção de alguns amigos (Correio de Melgaço n.º 207, de 16/7/1916). // Foi advogado de defesa de “Amélia” Rodrigues, acusada de ofender a moral pública, a qual respondeu a 17/7/1916, ficando absolvida (Correio de Melgaço n.º 208, de 23/7/1916). // Casou na igreja de SMP em 1916 (o casamento civil decorrera na residência da noiva, Rua Mouzinho de Albuquerque, Valença, a 20/2/1916) com Maria Esménia, de dezoito anos de idade, de Santa Maria dos Anjos, Valença, filha de Francisco Antunes da Silva Guimarães, secretário de Finanças em São Tomé, e de Maria das Dores (ver Correio de Melgaço n.º 184, de 30/1/1916). // Em 1917 concorreu às eleições para a Câmara Municipal, em uma lista presidida pelo padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães. // Em Janeiro de 1919 tomou posse do lugar de notário na Vila de Caminha (JM 1234). Não sei quanto tempo ali permaneceu, pois o casal partiu para África, São Tomé, nos primeiros dias de Agosto desse ano de 1919, onde ele iria desempenhar o cargo de administrador de concelho (JM 1257, de 10/8/1919); dali embarca para Angola, onde ele esteve ao serviço do general Norton de Matos. // Em 1929 foi nomeado Governador de Benguela (NM 27, de 25/8/1929). // De vez, em quando, vinha à sua terra natal, mais a mulher, pois filhos não tiveram, trazendo com eles os empregados, fixando-se um deles, o Joaquim, em Melgaço, onde arranjou emprego e casou. // Passava, no Cine Pelicano, alguns filmes que trazia de África, películas que mostravam a vida quotidiana dos naturais de Angola. // Em Julho de 1934 esteve em Melgaço; vinha de Benguela, onde era advogado; as coisas não lhe deviam estar a correr muito bem, pois tencionava fixar residência em Viana do Castelo (NM 238, de 8/7/1934). Em Outubro desse ano já exercia advocacia nessa cidade (NM 248, de 14/10/1934). Não deve ter tido o êxito que esperava, pois voltou para África. // Antes da independência da ex-colónia o casal regressa a Melgaço, onde possuía uma boa casa na Rua do Rio do Porto e uma ótima Quinta. // Depois de Abril de 1974 foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Melgaço, até às eleições. Tomou posse a 4/11/1974. Foi a primeira Comissão Administrativa a tomar posse no distrito de Viana. Colaboraram com ele: o Engenheiro Artur José Rodrigues, professor do ensino liceal em Monção (vogal); Albertino Domingues, comerciante (vogal); António Fernandes, industrial (vogal); Manuel da Cruz Dias, ourives (vogal). Era então Governador do distrito o capitão-tenente Joaquim Teixeira (NM 1843, de 10/11/1974). // Quis criar, na sua Quinta da Pigarra, uma Escola Agrícola, mas o Ministério da Educação não se interessou pelo projeto; assim, ofereceu-a aos BVM e à SCMM. // Em maio de 1976 publicou um livro “ANGOLA E O GENERAL NORTON DE MATOS – Subsídios para a História e para uma Biografia.” // O casal faleceu na Vila de Melgaço: ela a 26/9/1974 e ele a 24/10/1976. // Na sede do concelho existe uma rua com o seu nome. (Ler a entrevista que ele concedeu ao Correio de Melgaço n.º 219, de 8/10/1916; nessa altura encabeçava a lista do concelho que disputava a liderança da Câmara Municipal de Melgaço, cujo presidente era João Pires Teixeira; ver também “A Voz de Melgaço” n.º 379, de 15 de Junho de 1967).


 

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     Eurico Crispim (Eurico António Crispim da Silva). Filho de Francisco Crispim, carpinteiro, natural de Rouças, e de Maria Teresa Trancoso [da Silva], lavradeira, natural de Paços, moradores no lugar de Merelhe. Neto paterno de João Manuel Crispim e de Maria Rodrigues; neto materno de Francisco Trancoso e de Francisca Afonso. Nasceu em Paços a 18/9/1898 e foi batizado na igreja paroquial a 22 desse mês e ano. Padrinhos: António Trancoso da Silva, negociante, residente no Rio de Janeiro, Brasil, representado por Luís Martins, casado, lavrador, do lugar de Sá, Paços, e Alexandrina Gonçalves Torres, solteira, camponesa, moradora no lugar da Granja. // Ainda novo, embarcou para o Brasil, onde se tornou famoso.

     Vejamos o que se diz na Internet sobre ele: «Dois anos depois de chegar ao Brasil, em 1919, e a viver no Rio de Janeiro com amigos portugueses, iniciou a carreira de ator ao estrear-se na Companhia Eduardo Pereira com a peça “O Mártir do Calvário”, de Eduardo Garrido, apresentada no Teatro Carlos Gomes. Nos seguintes anos percorreu várias cidades brasileiras com diferentes companhias e peças teatrais, enquanto aprendia a arte do seu ofício e ganhava nome no meio artístico. Nos seus tempos livres escrevia histórias e peças teatrais, sem no entanto as publicar ou encenar. Anos mais tarde, em 1932, apresentou a primeira das quinze peças que escreveu até então: “Um Caso de Polícia”, estreando-se como dramaturgo na Companhia de Procópio Ferreira, notório ator e produtor, filho de pais portugueses, ainda hoje considerado um dos grandes nomes do teatro brasileiro. Com a mesma Companhia percorreu as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, apresentou as peças “Delicadeza”, 1933, “Pense Alto”, 1933, “Divorciados”, 1934, “Um Homem”, 1936, e “Frederico II”, 1936, todas da sua autoria, e traduziu outras nove obras, a pedido do próprio Procópio Ferreira. // No ramo das adaptações, durante a década de trinta e quarenta, realizou a tradução de várias peças do francês, italiano ou espanhol, muitas vezes em parceria com Djalma Betencourt, futuro administrador da Revista de Teatro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Os autores que escolhia geralmente eram comediógrafos espanhóis ou da América Latina, como Enrique Suarez de Deza, Pedro Muñoz Seca, Perez Fernandes, ou ainda ingleses, como Harry Paulton e Oscar Wilde. // Em 1937 Eurico Silva fundou e dirigiu a Companhia Teatral Cazarré-Elza Delorges, continuando a actuar, escrever e encenar inúmeras peças. Nos seguintes anos iniciou uma nova fase na sua vida: estreou-se na rádio, atuando no programa “Teatro em Casa”, 1939, da Rádio Nacional, como ator e produtor, e no cinema, ajudando Luís de Barros com a adaptação do seu roteiro em “O Samba da Vida”, 1937, escrevendo os diálogos dos filmes “Asas do Brasil”, 1940, “Céu Azul”, 1941, que contava com a participação de Chianca de Garcia, e “Não Adianta Chorar”, 1945, com o comediante Oscarito e o compositor de samba português J. Rui, sendo o argumento inteiramente da sua autoria   

      «Entre 1947 e 1950 foi roteirista do programa “Poemas e Canções”, que teve continuação com “Poemas Sonoros”, da Rádio Nacional, e desde então como produtor tornou-se responsável por vários programas famosos à época, como “Versos e Melodias”, “Paisagens de Portugal”, “Casa da Sogra”, “Neguinho e Juraci”. Foi ainda autor de radionovelas, como “Boa Noite”, “Saudade”, 1962. “A Noite do Meu Destino”, 1957, além de ter traduzido outras, como “O Direito de Nascer”, 1951, de Félix Caignet, transmitida em 273 capítulos, tornando-se no caso de maior sucesso do género já registado no país. // Durante a década de cinquenta estreou-se na televisão, adaptando a peça de sua autoria “O Grande Marido”, para um episódio da série televisiva Grande Teatro Tupi, sendo novamente adaptado para o cinema como “Um Marido Barra-Limpa”, 1957, que marcou a estreia do ator comediante Ronald Golias (embora o seu lançamento tenha ocorrido dez anos depois). Mais tarde, em 1965, escreveu as novelas “Olhos Que Amei”, para a Rede Tupi, e “E a Primavera Chegou”, para a TV Rio. // No total escreveu trinta e três peças de teatro, mais de quarenta radionovelas, duas telenovelas, três filmes, traduziu trinta e quatro peças estrangeiras, actuou e encenou dezenas de peças, produziu inúmeros programas de rádio e ainda dirigiu alguns filmes


      «Português de nascimento, EACS nasceu na Vila de Melgaço a 16/9/1900 (!). Autor de radionovelas durante a era do rádio, mudou-se para o Brasil em 1916 e em 1919 iniciou a carreira de ator com a peça O Mártir do Calvário, de Eduardo Garrido, apresentada no Teatro Carlos Gomes. A mudança para o Rio de Janeiro dera-se por ter ali alguns amigos padeiros, mas logo Eurico Silva se interessa pelo meio artístico. A primeira das quinze peças que escreveu, estreou em 1932, pela Companhia de Procópio Ferreira, para quem traduziu outras tantas. Em 1939 transferiu-se para o rádio, atuando no programa “Teatro em Casa” da Rádio Nacional, como ator e produtor. Dois anos mais tarde voltou para o teatro e em 1945 voltou à emissora. Como produtor tornou-se responsável por vários programas famosos à época, como “Versos e Melodias”, “Casa da Sogra”, “Neguinho e Juraci”, e foi autor de vinte e oito radionovelas, além de ter traduzido outras, como o “Direito de Nascer”, de Félix Caignet, transmitida em 1951 em 273 capítulos, e que veio a ser o maior sucesso do género já registado no país. Com a estreia da televisão, é um dos redatores das novelas da Rede Tupi, onde escreveu “Olhos Que Amei”, em 1965…”»

 

     «E.A.C.S. nasceu em Portugal no dia 18/9/1900 (!). Aos dezasseis anos veio para o Brasil e três anos depois estreava como ator da Companhia Eduardo Pereira, no antigo Teatro Carlos Gomes, na peça “O Mártir do Calvário”. Em 1939 a Rádio Nacional o contratou como ator e produtor de peças para o saudoso e histórico Teatro em Casa. Em 1941 voltou ao teatro para em 1945 reingressar na PRE-8, dessa vez como ator, ensaiador e produtor. Redigiu, entre 1941 e 1959, cerca de 28 novelas e produziu inúmeros programas, entre os quais “Versos e Melodias”, “Casa da Sogra”, “Neguinho e Juraci”, “Tabuleiro da Baiana”, “Poemas Sonoros”, e “Você Faz o Programa”

 

continua...

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026


ENTRE MORTOS E FERIDOS



13.º Capítulo

 

A CAMINHO DE CUFAR

 

 

     Mais um domingo lisboeta. As lindas ruas da Baixa… sempre a abarrotar de gente! Começava a notar-se turistas estrangeiros e imigrantes africanos por tudo que era sítio. Políticas de imigração não existiam; entrava quem queria neste pequeno e periférico país. Depois da descolonização vieram de África centenas de milhar de pessoas: novas, velhas, saudáveis e doentes; honestas e nem por isso.

     Os dois amigos reencontraram-se, como já era hábito, no Café Suíça; mas agora já era difícil arranjar um lugar, pois as mesas estavam quase sempre ocupadas. Esperaram um pouco e lá conseguiram sentar-se. Henrique perguntou:

 

- Depois de Bolama foram para onde?

- Encaminhamo-nos para Cufar (que numa das línguas locais significa morrer, terra onde se morre).

     Três dias antes de partirmos escrevi a uma cantora do norte, a tal namorada do fadista, na altura já muito em voga, de seu nome Mariana, a pedir-lhe que fosse minha madrinha de guerra. O Luís Augusto, assim ele se chamava, deu-me a morada e eu não hesitei – se ela não respondesse o que perderia eu? O fadista queria era ler as cartas dela, pelos vistos estavam indiferentes.

- E ela respondeu?

- Nem pensar! Silêncio absoluto. Responder a um soldado? Se eu fosse oficial! Escrevi também a duas raparigas do Minho, de origem modesta.

- Essas responderam.

- Sim, essas aceitaram o meu pedido. Queres que te leia as cartas?

- Adoraria.

- Como tive sete madrinhas de guerra, somente te vou ler as cartas de uma delas, apesar de serem todas interessantes.

- Sete?! Nada mal: uma para cada dia da semana! Gostaria que as lesse todas, mas já que não quer…

- Não se trata de querer ou não querer, simplesmente seria enfadonho para ti. E tens sorte eu trazer uma dessas cartas, pois com as mudanças de quarto não sei como ainda as conservo! Eis a primeira:

   

Senhor:

 

            Recebi o seu aerograma e realmente fiquei surpreendida e para mais sendo de uma pessoa para mim desconhecida. Ainda gostava de saber quem foi esse meu conterrâneo conhecido que lhe deu o meu nome e morada, mas já calculo quem seja e da minha parte diga-lhe que mando os meus parabéns; eu não me importo ser madrinha de guerra do senhor, mas desde já lhe digo que sou ainda muito nova, pois tenho somente dezoito anos. Se isso não lhe causa nenhum impedimento, eu pela minha parte aceito.

     Diz o senhor que é de Monção, realmente é uma terra muito linda, já lá fui algumas vezes, mas é pura coincidência, tenho também uma pessoa na família que foi madrinha de um rapaz dos seus sítios, que estava em Moçambique, mas felizmente já voltou para cá são e salvo.

     E é tudo, não tenho mais nada para lhe dizer, mas há de ver que daqui para o futuro as cartas que lhe escrever não vão ser curtas, pois a mim parece-me que se fosse jornalista havia de ter sempre qualquer coisa para pôr nos jornais, quem sabe, ainda pode ser que o venha a ser, ainda sou nova e o mundo dá tantas voltas…

     Receba cumprimentos sinceros da que já pode considerar madrinha de guerra.

                                                                                                                                            Fernanda

 

 - Parece-me que teve sorte. Moça brilhante a escrever, nova e culta. Uma minhota inteligente.

- Sim, é verdade. No entanto…

- Aconteceu depois alguma coisa desagradável?!

- Se não te importas, continuo a contar-te a minha modesta odisseia. Mais tarde digo-te o que se passou com esta madrinha. Não levas a mal?

- De modo algum! Preciso controlar a minha mórbida curiosidade.

 

*

 

- Vou continuar a minha história: as lanchas da armada lusa, feitas de chapa anti bala, equipadas com metralhadoras potentíssimas, transportaram-nos até Catió, interessante vila perto do Cantanhez (mata densa e reconhecidamente perigosa, uma das bases do PAIGC: Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

     Em toda esta região habitavam as etnias designadas de balantas e nalus. Os primeiros distinguiam-se pela sua corpulência e cor negríssima, daí os seus dentes parecerem mais brancos do que na realidade eram. Diziam ser um dos povos mais evoluídos da Guiné.

     Saímos quase de noite, ao lusco-fusco, quando todos os gatos começam a ser pardos, a fim de não levantar suspeitas, e passadas algumas horas entrávamos no pequeno rio Combidjam.

     Os marinheiros, receosos, pediam-nos silêncio, para assim poderem escutar eventuais ruídos que das sinuosas margens surgissem.

- E foram atacados?

- Tudo correu bem, felizmente, até Catió, aonde chegámos já de madrugada. No cais éramos esperados pelos velhos e cansados camiões, que nos conduziram até ao quartel.            

     Essa vila de Catió revestia-se de uma beleza exótica e inesquecível. Se não fora sacrilégio, quase apetecia dizer: «Deixem-me ficar aqui para sempre!» Mulheres negras, com as suas roupas de cores garridas, pés completamente descalços, amplas coxas e largas ancas, sorriso nos grossos lábios, encontravam-se na berma da estrada oferecendo, a preços irrisórios, toda a casta de fruta da região: laranjas (mesmo quando já maduras continuam a ter a cor verde), banana, manga, caju, e tantas outras variedades! Muita dessa fruta, sobretudo manga, coco e banana, matou-me diversas vezes a fome durante esse período longo de carências.

- Até parece que se encontrava no paraíso! – diz Henrique, num tom jocoso.

- Se não fosse a guerra poder-se-ia afirmar isso; mas a verdade é que a maldita rondava por perto. As instalações militares ocupavam uma área extensa. Dentro, em forte rede e rodeada de arame farpado, situava-se a prisão para os “turras”. Pareciam animais acossados! Serviam de chacota e gáudio aos soldados mais rudes e mais atrevidos, aos brincalhões exibicionistas, ao pagode! Os insultos choviam em português das Beiras, do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Alto e Baixo Minho, de todo o país!

- Aposto que não gostou de ver isso!

- O meu peito arfava. Não queria crer. Circo é circo; zoológico é zoológico! Não estávamos a tratar com palhaços, muito menos com feras, mas sim com pessoas que tinham sido presas por defender ideais diferentes.        

- Não me diga que interveio?!

- Vontade não me faltou. Um furor imenso invadiu minhas entranhas, todo eu tremia. Um oficial, alferes ou tenente, já não me recordo bem, notando a minha agitação, lembra-me em um tom que não admitia réplica: «Na guerra as coisas passam-se assim! Somos inimigos. Pensas tu que os turras, se por azar um dia nos apanham, nos tratarão melhor?!»

- Não teve coragem, com certeza, de replicar.

- Disse-lhe, embora com respeito, olhos nos olhos: «Nunca estive preso, por isso não sei; sei, isso sim, que nós somos pessoas civilizadas, não vis carrascos. O cristianismo, que quase todos os portugueses professam, é tolerante, não repressivo

- E ele, como reagiu?

- Deu-me uma leve palmada nas costas, e foi-se embora. Sabia que não valia a pena continuar a conversa. Eram dois mundos que estavam em confronto: o mundo bélico e o outro, o da harmonia, da paz, da conciliação. Nós, a minoria, teríamos de ver, ouvir e calar. Lamentações, para quê? Os seus corações eram feitos de granito, empedernidos, a lei da guerra imperava, a religião ali não tinha lugar – estava a mais, estorvava! Fomos encaminhados para o refeitório. A fome apertava e não resistimos a uma refeição quente. Depois do “repasto” pediram-nos que esperássemos. Breve chegaria uma Companhia experimentada para nos escoltar até Cufar.

- Iam finalmente entrar no território do lobo!

- Do lobo, da hiena, do tigre, do chacal, da pantera, do crocodilo, do tubarão, eu sei lá!... De repente, alguém disse: «Já está atrasada!» E logo outra voz alvitrou: «Certamente surgiram problemas    

     Essa constatação tinha, infelizmente, fundamento. Quando a referida Companhia chegou, vinha exausta. Nos olhos dos nossos camaradas notava-se ainda o terror, o medo incontrolável, devido a tudo aquilo que acabaram de passar. Informa um deles: «Sofremos dois mortos; vários feridos! Uma emboscada perfeita: não tínhamos para onde fugir! Podiam, se quisessem, matar-nos a todos.» A sua voz, em um tom plangente, comoveu-nos até às lágrimas.

- O sítio não era para brincadeiras! – alvitra Henrique.

- Não era mesmo! Terra da morte, de sofrimento, Cufar aumentava assim a sua sinistra fama. Mas a vida resume-se a esta insignificância: uns partem, outros vão aguardando, mesmo sem terem consciência disso, a sua vez. Segundo a ciência, ninguém morre antes de nascer; e ninguém se livra da loba voraz, insaciável!

- Mas acabar assim!... – lamenta Henrique.

- Depois da morte ninguém sente nada, nem o zumbir do mosquito. Os sinistrados sim: sofriam horrivelmente; os seus gritos de dor ouviam-se a distância!     

- E incomodavam!...

- Ainda, por cima, o quartel não tinha na altura nenhum médico, apenas enfermeiros de segunda categoria, formados já na tropa! Os feridos foram evacuados para Bissau.

- E a sua Companhia, ficou em Catió?

- Esse era o nosso desejo, mas não aconteceu assim. Logo a seguir o tenente Fontelas, com a sua voz de trovão, gritou, tentando galvanizar-nos: «Preparar! E nada de medos; todos teremos de dar contas ao diabo um dia. O soldado português não teme o adversário: enfrenta-o, como os forcados enfrentam o touro na praça

     Morte e vida; vida e morte! A existência falaz, tirana, passageira. Discurso de monge ou de filósofo. Que nos interessava isso? O que nós queríamos, jovens de vinte e um anos, não se encontrava ali.

- E partiram!

- Que remédio. Nós e o resto da Companhia que sofrera a emboscada. Pelo caminho que leva a Cufar passámos pela aldeia dos macacos. São aos milhares e provocam um alarido tal que se repercute por uma vasta área, pelas entranhas da floresta.

- Sentiram receio…

- Metem respeito ao mais destemido. Todo o trajeto teria de ser feito a pé e de metralhadora em posição de tiro. Uns soldados, virados para um lado; os restantes virados para o lado oposto – não fosse o demo tecê-las! De vez, em quando, deixava-se de ouvir qualquer ruído e o silêncio, sepulcral, abatia-se sobre todo o território envolvente. O medo e a expectativa paralisavam os nossos movimentos! Os corpos deixam de ter peso e só a alma, essência do nada, existe. É de facto uma experiência quase sobrenatural, inatingível.

- Qual a distância de Catió a Cufar? – pergunta o jovem, a fim de desanuviar o ambiente.

- Não deve ultrapassar os dez quilómetros; mas naquelas circunstâncias, parecia-nos um longo caminho, interminável, imaterializado – por mais que caminhássemos nunca mais se chegava ao destino!

     Na frente seguia um pequeno carro de combate (a moderna cavalaria); pronto para o que desse, e viesse.

- Funcionava como dissuasor...

- Os guerrilheiros temiam essas máquinas porque as suas metralhadoras varriam o terreno como as vassouras varrem o lixo!

    Passámos pelo local onde horas antes as duas forças antagónicas se tinham enfrentado. Notava-se nitidamente o capim pisado, ramos partidos, folhas espalhadas e restos de sangue. Um cheiro amargo envolvia todo aquele arvoredo. Uma sensação de raiva e de impotência invadia os nossos corpos, o sistema nervoso alterava-se, o cérebro por momentos nada controlava, jurava-se vingança.   


continua... 


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha

12.º Capítulo

 

A MASCOTE

 

    A tarde estava linda. Pelas ruas da cidade banhada pelo Tejo passeava imensa gente, olhando as montras, algumas com manequins expostos que pareciam mesmo pessoas! As roupas, o calçado, os livros, etc., estavam muito bem colocadas, tudo arranjadinho, atraente! Em tudo se notava a mão do artista, do mestre em decoração. Os saloios ficavam embasbacados com tanta beleza, com tanta arte. Apetecia comprar tudo!

     Henrique fora o primeiro a chegar ao Café. Sentou-se, como já era seu hábito, na esplanada e aguardou pacientemente a chegada de Cândido.

     Este não demorou muito. Tinha almoçado, como habitualmente, num daqueles restaurantes da Baixa lisboeta, quase todos geridos por minhotos ou galegos. Os preços eram acessíveis, o raio do ordenado é que não crescia, e por essa razão tudo parecia caro.

     Sentou-se à beira do amigo, sorriu, e disse:

 

- Deves estar ansioso por saber que tipo de mascote tinha a minha Companhia?!

- Estou mesmo. O que, ou quem era?!

- Chamava-se Mamadu. Era um rapaz de raça negra, com um metro e sessenta de altura, aproximadamente, magro, mas com boa aparência, com a pele acastanhada. Parece até que estou a vê-lo! Vinha da misteriosa mata, essa selva imensa e impenetrável, densa, inacessível, traiçoeira. Não teria mais do que quinze anos de idade; era filho da floresta africana e do deus Sacarabu «deus justo, terrível nas suas vinganças e ávido de sangue…» que o gerou numa noite de tormenta e lhe pede apenas que sobreviva; a partir de agora será também filho da tropa.

     «Fula amigo de branco» - dizia-nos ele no seu português criança. «Balanta inimigo, balanta quer independência, balanta quer dominar Guiné

     Isso talvez fosse verdadeiro. O homem balanta, de rosto altivo, arrogante, peito de atleta, não desejava o homem branco no sagrado solo guineense; queria ser senhor e não escravo – ele não se sentia, ao contrário de outras tribos, inferior ao europeu. Pensava: «Nenhuma raça é superior a outra, o homem é um ser universal, tem as mesmas capacidades. A sua vivência, os seus interesses, é que são diferentes uns dos outros

     Lamentava que os brancos tivessem ido para África como senhores e não como iguais. Agora era tarde: só através das armas poderiam os negros reapoderar-se das suas antigas heranças, dormir em paz com os seus espíritos avoengos.          

     Os fulas não pensavam assim. O europeu, segundo eles, trazia o progresso: as fábricas, as máquinas, a estrada, os carros, as armas de muitos tiros, e acima de tudo o dinheiro, que tudo comprava! Sabiam que o branco se dava bem com o negro desde que este o respeitasse, fosse humilde, trabalhador, obediente. Reconheciam-lhe superioridade em quase todos os domínios e não punham em causa a sua justa autoridade.

- Isso significava que os fulas e os balantas se odiavam? – pergunta Henrique, admirado, mastigando mais um tremoço.

- De certo modo, sim. Os balantas, porém, não estavam sós. Outras etnias, que antes se guerreavam entre si, uniam agora os seus esforços a fim de expulsar o intruso, o usurpador, que lhes tentava impor conceções e estilos de vida diferentes dos seus; costumes e crenças estranhas e nocivas – a aculturação forçada!

- E o miúdo? Que fazia?

- Mamadu estava radiante. A tropa dava-lhe comida, roupa e uma cama para ele dormir. Dera-lhe também uma arma para combater contra os balantas, essa tribo de homens fortes e orgulhosos que ele odiava. Os fulas eram inteligentes, mas não fortes; com a ajuda do homem branco, sob as suas ordens e orientação expulsariam do seu amado chão esses indivíduos indesejáveis.

- Então não era casual a sua colaboração com a tropa?!

- Os fulas possuíam o seu programa de ação, o seu plano. Todos veriam como eles seriam capazes de o pôr em prática!

     Mamadu tinha sonhos, estratégias, ambições. Na Companhia todos gostavam dele: aqueles dentes branquíssimos abriam-se prodigamente, num sorriso sem fim, às solicitações do soldado – era a mascote. Tudo correria bem daí para a frente: graças ao Mamadu!

- Vocês então acreditavam que ele lhes trazia sorte!

- Com certeza. Como o trevo de quatro folhas.

 

     Passou a acompanhar-nos em todas as operações. Sem aparente cansaço, sempre atento, um sorriso satisfeito bailando-lhe nos olhos brilhantes e enigmáticos, disparando com o à-vontade do hábil atirador profissional!

     Estava na guerra, estava ali para matar. Era a sua opção: matar, matar sempre, até ao último inimigo. Era um jovem formado na escola da guerra; a sua academia seria o próprio local das operações. A logística, balística, ou quaisquer outras ciências ou técnicas do âmbito, ou foro militar, a ele, nada lhe ensinariam, pois o instinto, o ódio, a determinação e a sagacidade superavam de longe essa carência.        

- Frequentara a escola?

- Suponho que não. Não me recordo se te informei que escolas, mesmo do ensino primário, só as havia em Bissau! No entanto, nunca ninguém soube se ele escrevia, lia e contava. Também de pouco lhe serviriam esses conhecimentos ali: manejar a arma com destreza, destruir sem compaixão, e sorrir, sorrir sempre, eram de longe dotes mais importantes, necessários, imprescindíveis... A guerra não se faz com poemas: faz-se com tiros, com raiva, com sangue, com morte.

     Mamadu não tinha nada de idiota, sabia isso. Ali, no inferno de Dante, não havia lugar para devaneios; as ideias deviam transformar-se em munições e os sonhos em palpáveis realidades. O jovem, que tinha somente quinze anos de idade, ou pouco mais, também sabia isso; adaptou-se à guerra, e esta jamais o desiludiu, o dececionou.  

- Até parece que o Cândido estava lá apenas como observador!

- De certo modo, sim; eu nunca tive espírito de guerreiro. Era civil fardado e não militar. Esses são diferentes de nós: no pensar, no agir, em tudo. Todos aqueles anos de lavagem ao cérebro, aboletados, moldam inexoravelmente o seu espírito. Mas vou dizer-te uma coisa: existia, sem dúvida, uma certa harmonia naqueles grupos heterogéneos: a tropa, os amigos da tropa, os inimigos da tropa e dos seus amigos! Lutava-se rijamente: uns, para manter o seu “status quo”; outros, para instituir o seu regime; e ainda aqueles que queriam preservar a tradição, os ancestrais costumes. Duas civilizações, várias culturas, diferentes e antagónicas, frente a frente, numa luta sem tréguas e sem fim à vista!

 

     O moço, talvez analfabeto, apercebia-se do conflito. Não sabia História, nem sequer Geografia; sabia, isso sim, que Alá significava o Deus e Maomé o seu profeta; que o Corão era o grande livro sagrado dos muçulmanos e que nele se ensinava: «dente por dente, olho por olho», ao contrário do cristianismo, que sugere que se dê a outra face a quem nos bate, mas na prática tanto uns como outros, se puderem, arrancam dentes e olhos aos seus inimigos.

- O rapaz acaba por ser uma figura exótica, uma espécie de extraterrestre, do seu ponto de vista…

- Talvez. Foi em Bolama que o vi pela primeira vez, naquela ilha bela e estranha, a ilha das noites serenas e dos amores adiados. Ao princípio imaginei que se tratava de um prisioneiro, mas não: era a mascote! Nunca soube como o encontraram ou como ele encontrou a Companhia. E logo naquela operação que faltei – a minha febre subira aos quarenta graus! E por causa daquelas feridas, a que dão o nome de impigem, na virilha, entre pernas, provocadas sem dúvida pelas lamas asquerosas das intermináveis bolanhas. Pensei morrer.

     Caramba! Como eu gostaria de ter assistido a tudo; não teria o mesmo encanto, o infinito mistério, mas saberia. E os meus camaradas apenas me informavam: «surgiu!»

     Durante muito tempo permaneceu na Companhia. Só a abandonou, desaparecendo misteriosamente, como surgira, como o vento depois da procela, quando a destacaram, no ano de mil novecentos e sessenta e sete, para Contuboel, uma zona mais pacífica.        

     Parecia alheio ao mundo que o rodeava: as cubatas incendiadas; os corpos desfeitos; as fugas rocambolescas; o medo e a morte, os feridos, tudo o deixavam indiferente. O rapazinho era feito de aço e de ação! E aquele sorriso de anjo guerreiro, apocalíptico, permanecia, teimoso, no seu fidíaco rosto. Sem desfalecer, sem jamais dar parte de fraco, continuava a sua justa luta.

- Andava fardado?

- Mais ou menos. Vestiu camuflado do exército luso e teve direito a G-3, a metralhadora que então se utilizava. Deixou de ter idade, de ter família, de ter chão. Estava onde estivesse a Companhia, pensava militarmente, pensava guerra, respirava e vivia tempestade!

     Teve direito a medalhas, qual atleta vitorioso nuns quaisquer jogos olímpicos, louvores mil; tornou-se herói nacional! Um exemplo a seguir. Os antigos escultores gregos teriam de ser ressuscitados para produzirem a sua estátua: a colossal e eterna estátua do pequeno grande Mamadu!

- Está a exagerar – farfalhou Henrique.

- Talvez… Medalhado, e já com a arca cheia de troféus, não parou – isto eram coisas de somenos. O seu objetivo pairava alto, residia na sua mente obcecada. A sua tribo… tinha-se esquecido dela! O filho da selva lutava em nome dos fulas, mas estes já não o reconheciam.

     Se tivesse olhado com atenção à sua volta verificaria que quase todas as etnias da Guiné-Bissau tinham esquecido as suas antigas rixas e, unidos, combatiam o colonizador. Não olhava! Estava fora do tempo e do espaço. Os chefes tribais compreenderam finalmente que o ódio cansa e que o seu inimigo nunca poderia ser o seu irmão de cor, de raça, de estirpe.

- O gaiato ficou, desse modo, isolado!

- Completamente sozinho. A sua guerra terminara no dia em que a maioria das etnias se abraçaram e decididas lutavam contra o regime opressor. Encontrava-se entre a espada e a parede. Passou a ser um alvo a abater!

- E o que é que ele fez?

- Quando toma consciência da situação desaparece: «Desapareceu o Mamadu» - comentavam com emotividade os meus camaradas. «Ninguém sabe para onde foi!» «Ele não era deste mundo» – disse-lhes eu por graça.

    «Mamadu reencarnava Farang, herói dos Sorcos», brincava o alferes Briosa, amante dos mitos e das lendas.

     «Farang?» - perguntaram todos a uma só voz.         

     «Querem saber quem foi essa importante personagem?»

     «Sim, meu alferes; conte» - pediram alguns soldados.

     [«Então…, ouçam atentamente:

    

     (…) Farang ficou triste. A partir daí lutou incansavelmente contra todos os génios e deuses contrários. Mandou construir uma guitarra e começou a tocar. Ouvindo a música, todos os peixes do rio vêm para a sua beira. É assim que agora pesca e dá alimento ao seu clã.»]

 

*

 

     «Que linda história, meu alferes. Estaríamos, se pudéssemos, um dia inteiro a ouvi-lo», apressa-se a comentar o “Almada”.

 

*

 

     Henrique, tudo escutava com redobrada atenção. Curioso, pergunta:

 

- E nunca mais viram a vossa mascote?!

- No término de 1967, quando entramos no Uíge para regressar a Portugal, um soldado gritou: «Olhem o Mamadu, é ele, olhem…! Está a dizer-nos adeus.» Não sei se alguém o viu além desse camarada, pode ter sido uma alucinação. Eu, só tendo olhos para o mar, não o vi, confesso, mas senti um arrepio pelo corpo todo, o seu forte abraço de despedida, a sua presença ausente!

 

continua...

domingo, 6 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


11.º Capítulo

 

BOLAMA

 

     Desta vez o reencontro entre os dois amigos demorou mais do que o previsto. O trabalho e os estudos não permitiam grandes folgas. Henrique, contudo, estava ansioso por ouvir o relato daquela aventura que foi a guerra colonial. Logo que lhes foi possível encontraram-se. Ainda Cândido não aquecera o lugar, já o amigo lhe perguntava:

 

- Como se sentiu ao pisar terras africanas? Teve receio?

- Nessa ilha, de uma beleza paradisíaca, não havia quaisquer confrontos armados. No entanto, já aí se respirava uma atmosfera de guerra. Barcos chegavam e partiam com contingentes para o “mato”, para o barulho, como na altura se dizia. Os rostos desses jovens, mas já experientes beligerantes, denunciavam fadiga; porém nos seus olhos, apesar de tudo, ainda se vislumbrava uma chama de esperança. Lembro-me de ter perguntado a um marinheiro, com aspeto de patriarca – grisalho, longas patilhas, bigode farfalhudo e pera pontiaguda – se a guerra iria ou não durar muito. Sorriu, com aquele sorriso de quem sabe muito da vida e dos homens, e sentenciou em tom solene: «Talvez os teus filhos e netos, se os vieres a ter, cá venham batê-las

     Na sua rudeza, o marujo experimentado, cheio de tarimba, falava como um oráculo! Este tipo de conflito, mais tarde eu pude verificar isso mesmo, não tem um tempo determinado para a sua duração: aguenta até a causa que lhe deu origem desaparecer. São deveras complexas estas lutas de libertação. Os grupos, ou o grupo, que combatem são geralmente apoiados por este ou aquele país, por este ou por aquele movimento internacional, pela própria população. Aparecem armas, surgem apoios em alimentos, fardas, instrução. Os generais afetos ao poder pensam que determinada zona está controlada; pode estar, mas logo surge outra zona, não muito longe daquela, com problemas insolúveis. E assim sucessivamente. 

    

     Henrique, desejando intervir, pergunta:

 

- Pensa que era possível não haver mais guerras?!

- Possível, sim; e desejável também. Mas não é provável que isso venha a acontecer em breve, embora correspondesse ao anseio da maioria esmagadora da humanidade. Quanto a mim, todas as guerras são alimentadas por homens com cérebros bélicos, e enquanto estes existirem elas existirão também.  

 

     Era uma resposta razoável, mas insuficiente, pensou o rapaz. Por isso, perguntou-lhe:

 

- Como se definiria ideologicamente?

- Referes-te ao tempo presente, é óbvio. Bem, eu considero-me eclético, isto é, aproveito tudo que de bom têm os outros, rejeitando, se puder, tudo aquilo que acho errado. Exemplificando: já me pediram para me inscrever em um partido político. Eu perguntei-lhes: «Concordam com a existência de Forças Armadas nos países?» A resposta, já eu a sabia de antemão:

     «Sim, concordamos.» «Entãodisse-lhesnão posso filiar-me no vosso Partido.» Ficaram irritados comigo: «Mas isso é uma utopia, onde se viu um país sem Forças Armadas, sem defesa, à mercê de qualquer bando que aparecesse por aí…»

- Ficou sem argumentos… - disse o amigo, convencido, também ele, de que tudo não passava de um devaneio.

- Pelo contrário. Respondi-lhes: «está provado que as guerras são prejudiciais à humanidade; só meia dúzia de capitalistas e generais sem escrúpulos ganha com elas; se elas acabarem é um bem e não um mal

- Radicalismo puro. Acha o meu amigo que no caso de se extinguirem as Forças Armadas terminam as guerras?!

- Exatamente. Então não tens reparado que são sempre os militares e os donos das fábricas de armamento a pressionar os políticos para estes declararem os conflitos armados?

- Hitler, Mussolini… - recordou Henrique.

- Esses monstros, embora civis, tinham espírito militarista. Não te apercebeste por acaso que usavam sempre farda? E não eram quaisquer fardas – feitas de ótimo tecido e à medida dos seus deformados corpos. E julgas que os grandes industriais de armamento não estavam por detrás disso tudo?

- Salazar nunca vestiu uma farda, penso eu, e no entanto provocou a chamada guerra colonial! - ripostou o moço, na ânsia de alimentar a fogueira da polémica.

- Historicamente talvez não seja correta essa afirmação. A guerra foi-lhe imposta. Entrou nela, mas algo contrafeito. Foi obrigado a isso. Nunca se sentiu bem nesse papel. Se ele gostasse dessas coisas, teria entrado na Segunda Grande Guerra. Por outro lado, não queria cometer os mesmos erros que cometeram os republicanos na 1.ª República. Era um ditador, mas dentro de casa; não um guerreiro, no campo de batalha. As Forças Armadas no seu regime nunca brilharam; bem pelo contrário, muitas vezes foram por ele enxovalhadas! O único militar que respeitou, de certo modo, foi o marechal Carmona. Por gratidão. Devia-lhe favores. Não sabes por acaso que o almirante Américo Tomás foi um joguete nas suas mãos? E que o general Craveiro Lopes lhe virou as costas, já farto de obedecer, não comungando provavelmente os seus ideais? O grande erro de Salazar, quanto a mim, foi não se ter sentado à mesa a fim de conversar com os políticos africanos: Agostinho Neto, etc. Ter-se-ia evitado a luta armada.              

    

     Henrique estava a ficar cansado de tanta verborreia. «Que diabo: isto não fazia parte da narrativa» – pensava ele. // Cândido, ótimo observador, notou o aborrecimento do amigo e diz:

 

- Com toda essa conversa da treta ia-me esquecendo do essencial. Desculpa. Quanto ao marinheiro… Depois de ele falar eu fiquei pensativo. Para quê ripostar se tinha ficado esclarecido? Teria, doravante, de arranjar calo, um pouco de coragem e paciência para suportar os tempos árduos que se avizinhavam.

     Os nossos camuflados verdes, do pouco uso, contrastavam com os amarelados, gastos, da tropa “velha”; a nossa pele, alva, parecia pertencer a bonecos de neve, comparada com a pele escura, queimada, dos que se encontravam em África havia já algum tempo. Ao contrário do que seria de esperar, os veteranos não riam do nosso aspeto, não riam dos maçaricos (assim chamados por a farda ainda manter a cor da pequena ave de nome maçarico verde); eles sabiam o que nos esperava e isso não podia de modo algum inspirar motivo para regozijo. Por outro lado, nós íamos substituir alguns deles, que assim poderiam regressar à sua amada terra, ao seu querido lar, abraçar filhos que possivelmente ainda não conheciam e esposas que deixaram banhadas em lágrimas!

     Nessa pequeníssima cidade, Bolama, quase terra de brancos nessa altura, havia um hotel, não sei de quantas estrelas. Nunca lá entrei. Por fora tinha bom aspeto. Enquanto houve guerra colonial esteve ao serviço das nossas Forças Armadas – era um pequeno quartel-general. Ali na zona estivemos algum tempo a exercitar o nosso instinto guerreador. Durante esse tempo, e a partir desse ponto, levámos a cabo algumas ações, com Companhias de Caçadores já bastante castigadas pela guerra. Iniciava-se, dessa maneira, a nossa odisseia e o nosso batismo de fogo.

     Mas, para desanuviar um pouco o ambiente de guerra, vou-te contar um episódio engraçado no qual eu fui o principal ator. Certo dia o cozinheiro adoeceu e o seu ajudante ainda não chegara da metrópole – chegaria precisamente no dia seguinte. O comandante mandou reunir a Companhia e expôs o assunto: «hoje não temos jantar, o cozinheiro está de cama; se houver aí alguém que saiba cozinhar que o diga – não é preciso grande requinte, umas batatas com atum já serve  

     Todos ficaram calados. Eu, contudo, não podia ficar indiferente àquele silêncio. Lembrando-me que já cozinhara algumas vezes, mas para pouquíssimas pessoas, levantei a mão e disse: «eu faço o jantar.» Suponho que até bateram palmas! O pior foi depois. Quantos quilos de batatas eu iria colocar na panela? E a água – que quantidade? E o sal? Quanto ao atum era fácil, se fossem latas pequenas, uma por cabeça, mas se fossem grandes? Entrei em pânico.

     Bem: pôs-se a panela gigante ao lume, quase cheia de água, descascaram-se as batatas e puseram-se a ferver. Às tantas a água já deitava por fora, num borbulhar infernal. Para mexer aquilo, com a enorme colher de pau, era necessária a força de um gigante. Deitei alguma água fora e fui buscar o sal. Aqui é que o desastre se completou. Atirei-lhe com uns punhados lá para dentro, à sorte, ao calha, ultrapassaria o quilograma!  

     Quando as batatas já estavam cozidas, chamei o pessoal e comecei a distribui-las. Um ajudante improvisado misturava o atum. Logo que começaram a comer desatam aos gritos: «isto é intragável, está salgado que nem uma pilha…»

     O tenente chegou esbaforido e disse: «Acalmem-se – comam apenas o atum com pão. Um dia não são dias

     As coisas serenaram, alguns até compreenderam a situação, mas a vergonha foi muita.          

 

     Henrique, que já estava calado havia algum tempo, riu-se com gosto, e depois interroga:

 

- E quanto ao clima? Dizem que era terrível!

- O clima da ex-colónia não podia ser pior. O ar, quente e húmido; as melgas existiam em tanta quantidade que se tornava inútil e frustrante combatê-las! Graças aos leves e transparentes mosquiteiros podíamos dormir umas horas, porque dormir durante esse período era de facto um verdadeiro privilégio, um luxo. Já sei que me vais perguntar: “os negros também eram atacados pelas temíveis melgas?” Respondo-te desde já: não, não eram, por mais incrível que isso pareça!

- E há alguma explicação para que tal facto acontecesse?! – pergunta o jovem, algo incrédulo, convencido talvez de que o amigo já confundia a realidade com a fábula.

- Ao princípio, embora esse “milagre” me tivesse chamado a atenção, não o entendia. Pensava que existiria uma espécie de pacto de boa vizinhança entre eles, ou então estávamos perante uma trégua, mais ou menos prolongada, depois de uma luta de séculos!

- Mas não era nada disso, suponho eu!

- Pudera! Mais tarde, bem mais tarde, soube tratar-se de um fenómeno natural. Os africanos negros possuem umas glândulas que exalam um odor especial, cheiro esse que consegue afastar da sua beira esses horripilantes bichinhos!

 

     Henrique estava maravilhado com essas explicações. Exterioriza:

 

- A natureza é, sem um grão de dúvida, quase perfeita!

- Vê lá tu: tão desprotegidos em termos de habitação e de vestuário, de assistência médica, os indígenas não teriam certamente quaisquer possibilidades de resistir àqueles “vampiros” ousados e nojentos. Mas além desse cheiro caraterístico, eles ainda se servem do fumo e do fogo para afastar potenciais perigos de feras e de outros inimigos naturais. A fogueira (espécie de fogo sagrado) acompanha-os praticamente toda a vida. Têm isso em comum com os povos primitivos e com os ciganos nómadas.

- Estiveram muito tempo em Bolama?

- Um mês, talvez mês e meio; já não me recordo exatamente. Daí, e após peripécias várias, entre elas a operação que levou ao hospital dezenas de camaradas...

- O que aconteceu? Foram atacados?

- Sim, mas pelas abelhas. Eu conto-te a impertinência das grandes produtoras de cera e mel, cujas armas, os ferrões, são tão temíveis como uma metralhadora: saímos de Bolama, ainda o sol não nascera, atravessando um pantanal imenso, e, afoitos, embrenhámo-nos na mata chamada de São João; às tantas, quase num golpe de magia, aparecem-nos milhares e milhares de abelhas, um enxame inteiro, sedentas de vingança, com o seu subtil ferrão em riste! Desordenadamente, fugimos, largámos as armas e munições, gritámos e até houve quem chorasse como autênticas crianças abandonadas. Os nossos camaradas radiotelegrafistas chamaram os helicópteros logo que isso lhes foi possível, e os mais atingidos foram evacuados para o hospital militar de Bissau.

- Dramático! – comenta Henrique.

- Não há, nem poderá jamais haver palavras que consigam descrever esta louca situação. Uma coisa é combater contra seres humanos armados, embora escondidos e conhecedores do terreno; outra coisa bem diferente é lutar contra ousados animais minúsculos, e aparentemente inofensivos, que apenas tentam defender desesperadamente as suas colmeias. Para nós, confesso, foi assaz humilhante. Até houve depois quem dissesse que tinha sido manobra do inimigo!

- O Cândido acredita nessa balela?

- Não acredito em tal: abelhas adestradas? A não ser que elas fossem nacionalistas, estivessem ao serviço da guerrilha!       

- Nunca se sabe! – riu-se com vontade o rapaz.

- Brinca, brinca; mas nós, desgraçados, é que sofremos na pele esse ataque. Nem a mascote nos valeu!

- O que era a vossa mascote? Um macaco?

    

     A resposta ficou no ar, pois o tempo escoou-se. Ambos se levantaram da mesa do Café e despediram-se amigavelmente.


continua...