quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


4.º Capítulo

 

TREM-AUTO

 

     Os dois amigos, numa conversa amena, intercalada com olhares furtivos às moças que circulavam no passeio, umas elegantes e outras menos, ainda não estávamos no tempo da obesidade, bebendo umas “imperiais”, comendo uns amendoins ou tremoços, lá iam, paulatinamente, queimando as etapas da narrativa. Ouçamo-los:   

 

     - O quartel de Lisboa, chamado Trem Auto, para onde me recambiaram de Infantaria 6, estava instalado na Avenida de Berna, onde hoje existe, salvo erro, uma Universidade. Nele faríamos o estágio durante algum tempo. Depois… logo se veria! Não sei se por nos considerarem prontos ou profissionais (no bolso, novinha em folha, já repousava a carta de condução militar), se por qualquer um outro motivo, o tratamento para com os novíssimos condutores passou a ser bem diferente – para melhor. Nem queria acreditar.

- Os lisboetas sabem receber bem – aproveitou a deixa Henrique, um alfacinha de gema.

- É verdade. E tinham obrigação disso, pois estávamos na capital do país. Mas escuta: eles tinham à nossa espera as novas viaturas, as famosas «Berliets», carrões enormes (lá dentro sentia-me uma formiguinha, um dos anões da Branca de Neve), a fim de nós as experimentarmos. Providas de seis velocidades, bons amortecedores, arranque perfeito, silenciosas… uma maravilha!

- Bastante sofisticadas para a época – observou o jovem, com alguma admiração.

- Efetivamente. Eu estava espantado com tamanho avanço da tecnologia. Era mais fácil conduzir um carrão daqueles do que uma viatura ligeira.

- E deixaram os exercícios físicos e prática de tiro?

- Não completamente; continuamos, mas menos tempo. Tiro, praticávamo-lo num descampado, no local onde agora se encontra o Palácio da Justiça, na Rua Marquês de Fronteira, e também na Carregueira. Em termos teóricos, caso fôssemos mobilizados, nós não iríamos para a guerra como atiradores, mas sim como condutores auto; logo, as armas de fogo pouco seriam utilizadas por estes especialistas, julgava a gente. No entanto… Mais tarde dir-te-ei o que se passou na realidade.

 

         Pelas manobras encetadas, pelo cochichar da caserna, tudo nos levava a crer que o objetivo principal das chefias militares era preparar-nos para a maldita guerra colonial. Aliás, em Lisboa tomavam-se todas as decisões, por isso já estava tudo decidido a nosso respeito.

- Do Trem Auto não tem grandes críticas a fazer, pelos vistos.

- Bem, apesar de estar num quartel, receber ordens, comer mal, embora melhor do que no Porto, não me posso queixar muito. Uma boa notícia foi terem-nos aumentado o pré: passamos a ganhar 30$00 por mês, um escudo por dia! Andávamos nos carros de um lado para o outro, conduzíamos «Berliets», Jipes, «Unimogs», etc. (quem mais conduzia era o monitor, um verdadeiro apaixonado pela condução); corríamos a cidade de uma ponta à outra; parávamos, antes de regressar ao pequeno quartel, para bebermos uma cervejinha. Fazíamos uns serviços: guardas, faxinas, o normal, já estávamos habituados a isso tudo.

- Rica vida! – ironizou Henrique.

- Não se pode dizer que fosse uma vida insuportável. Por outro lado, como tinha irmãos em Lisboa e na Amadora, de vez, em quando, visitava-os e lá comia e dormia. Mas vou contar-te uma historieta que aconteceu comigo:

     Certo dia, depois do jantar, talvez fossem umas sete horas da tarde, no verão, como sabes, ainda é dia alto, saindo como de costume com um camarada transmontano, o “Vila Real”, fomos abordados por duas estrangeiras, ainda novas, altas, bonitas, elegantes, olhos azuis e cabelos loiros, ali para os lados do Parque Eduardo VII. Pelo seu aspeto e sotaque pareciam nórdicas: suecas ou norueguesas. Uma delas, toda-sorrisos, pergunta-nos qualquer coisa em inglês. Com gestos teatrais, de duvidosa mímica, dei-lhe a entender que não sabíamos falar essa língua. A outra, com um à-vontade surpreendente, insiste: «hablan espanhol?!» Armado em poliglota, respondo: «Si, um poco.»

     Eu lembrei-me das galegas, quando atravessava o rio Minho para ir falar com elas, mas o galego e o espanhol (castelhano) são diferentes, agora é que eu compreendia o que me tinham dito das línguas que se falavam na Espanha: do catalão, do basco... De qualquer modo, a gente havia de se entender. Então ela informa-nos que estavam no Hotel Ritz e que andavam por ali a passear, a fim de conhecerem melhor Lisboa… e os muchachos lusos! Continua, insinuando: «los chicos portugueses, nos agradam mucho!»)

     O meu colega, impaciente, sugere: «despacha as gajas, ou então vamos com elas para o Hotel.» Encontrava-me em um dilema: tinha a perceção que elas queriam mais do que conversar, andavam certamente à procura de novas e empolgantes aventuras, mas eu, coitado de mim, não possuía nenhuma experiência neste tipo de coisas, tímido e moralista, já me estava a apetecer fugir…

- Fugir?! – pergunta Henrique, horrorizado.

- Sim! Isso já me acontecera numa das freguesias do meu concelho, teria eu uns dezoito anos de idade. A um domingo de tarde, numa daquelas festas de aldeia, eu e um amigo, o Tónio, é agora emigrante na França, “arranjamos” duas moças bonitinhas, lavradeiras, e começamos a passear à volta da igreja, como era hábito, pois o resto do espaço para a dita festa estava normalmente ocupado pelos tendeiros, taberneiros, doceiras, etc. Eu e a cachopa separamo-nos do outro casal e às tantas não tínhamos absolutamente nada para dizer um ao outro. Beijá-la estava fora de questão, pois nesse tempo nem um olhar atrevido seria permitido, quanto mais um beijo. Ela ainda me disse que tinha comido três malgas de caldo ao almoço, com toucinho e broa, comia bem porque trabalhava muito, levantava-se cedo para tratar do gado, tinha um pequeno rebanho, cabras e ovelhas, eram caseiros, mas também possuíam uns campitos próprios. Eu ainda lhe falei do último filme que tinha visto, com Mário Moreno, o Cantinflas, mas ela nunca fora ao cinema, não lhe interessava essa conversa. Nem sequer Joselito e Marisol lhe diziam alguma coisa! De que lhe havia de falar?! Disse-lhe então que ia fazer uma necessidade, ali a um campo, e ainda hoje espera por mim!

- Isso não se faz a uma menina – reprova Henrique, quase zangado.

- Eu queria ver-te no meu lugar. O nervosismo era tanto, que até suava!

- E quanto às suecas?

- Bem, eu permanecia indeciso, elas certamente notaram. De repente, por artes mágicas, surge, pertíssimo de nós, um táxi. Para ao nosso lado e o motorista pergunta-nos: «Querem levar as estrangeiras para Monsanto

     Respondo-lhe, meio a rir, meio a sério, inibido: «Nem dinheiro a gente tem para mandar cantar um cego

     O motorista, com cara de mafioso, já acostumado a essas coisas, acusa-nos: «Saloios! Não veem que elas é que pagam?!»

     Exige, dono do mundo e arredores, abruptamente: «Se não querem, deixem o campo aberto para outros

     De facto, e só agora me apercebia, ali perto rondavam grupos de homens que nos olhavam com um certo descaramento – alguma coisa se passava! A rapariga que falava espanhol solicita-nos: «Vamos embora daqui

     Fomos somente com elas até à entrada do Hotel; antes de entrarem pediram-nos amavelmente que esperássemos – já voltavam. Fiquei com a sensação que iam buscar dinheiro. Ainda não tinham desaparecido por completo da nossa vista e já eu dizia ao meu colega: «Ó Vila Real, cavemos, antes que isto dê para o torto!» Agradou-lhe a ideia. Respondeu-me: «Vamos, é comida boa demais para os nossos dentes!»                     

- E foram embora! É inacreditável!

- É verdade, fomos! Avenida da Liberdade abaixo, até ao Rossio, vendo estátuas, montras, admirando as últimas novidades da moda, piscando o olho e sorrindo aos manequins femininos, por sinal muito bem concebidos – pareciam autênticos! Aquilo sim: regalava os nossos olhos, não custava dinheiro, não provocava sarilhos, não corríamos quaisquer perigos. Os prazeres viriam a seu tempo. Quando fôssemos livres e com algum dinheiro no bolso pensaríamos nisso. Agora era época de hibernação.

 

- Não me digam que não gastavam um tostão?!

- Nós não éramos turistas; esses sim, podiam gastá-lo, ganhavam bem; ora nós, a auferir qualquer coisa como trinta escudos por mês… Olha, gastávamo-lo no bar do quartel, a comer umas sandes e a beber cerveja. Quase que nem sequer para isso dava! Nos primeiros quatro meses de tropa deram-me três ou quatro escudos por mês, e sobre esse astronómico vencimento ainda incidiam descontos!

- Miseráveis, unhas-de-fome! E em África, pagavam bem?

- Claro que comparado com o que vencíamos em Portugal significava um aumento enorme: de trinta escudos passamos a receber quinhentos e cinquenta, isto é, dezoito escudos por dia! Na minha humilde oficina tirava entre mil e oitocentos a dois mil escudos todos os meses, qualquer coisa como sessenta escudos diários. Trabalhava muitas horas, mas com gosto, e não corria perigo de vida…

- Não querendo ser indiscreto, que profissão tinha na sua terra?

- Era alfaiate, trabalhava por conta própria.

- Não me diga!

- Sim, desde os dezassete anos. O meu patrão emigrara para França, fora à caça dos francos, e eu abri uma modesta oficina nos baixos da casa onde morava.

- Nunca mais voltou a exercer essa arte?

- Não. Até porque eu nunca cheguei a ser um verdadeiro artista, apenas fui um remendão; mestres eram considerados aqueles que sabiam preparar moldes, escolher o pano, cortar o tecido, fazer fatos por medida. Esses, sim! Eu nunca passei de aprendiz, nunca fui além da calça. Uma altura atrevi-me a fazer um casaco e o resultado foi catastrófico: uma manga mais curta do que outra; os chumaços ficaram uma miséria! Nunca mais o tentei. O que me valeu foi que o pano tinha sido barato, comprara-o na feira, o prejuízo não se verificou elevado. Depois da disponibilidade, isto é, depois de deixar o exército, fiquei em Lisboa, continuei a estudar à noite, e o pouco que sabia da antiga profissão já esqueci, quase que nem um botão sei pregar!

- Também não exagere. Mas voltando à sua vida militar. Apesar de crítico acérrimo, de só dizer mal, julgo que não era tão ruim assim: tinha roupa de graça, calçado, comida, alojamento… Aprendeu a dirigir um carro, conheceu terras…

- Já vejo que estás a brincar. Só pode. Essa expressão irónica nunca te abandona, mesmo quando estás a falar de assuntos sérios?!      

- Desculpe a ironia, mas não resisto. Tudo isto me parece ter acontecido na Idade Média, no tempo de Carlos Magno… ou até antes, no período em que os lusitanos, comandados por Viriato, resistiam heroicamente aos legionários de Roma.

- Se essas comparações absurdas te divertem e te libertam a bílis, tudo bem! Também eu estou de acordo que não se deve dramatizar o que não é passível de dramatização: o que lá vai, lá vai, e águas passadas não movem moinhos! Deixa continuar o meu relato:

     Um dia entrou, para o Trem-Auto, um jovem de etnia cigana. Ninguém sabia de que quartel vinha. Ficamos todos com inexcedível curiosidade. Era a primeira vez que a gente via um cigano fardado. Em tudo se assemelhava a nós, mas aquela pele avermelhada, a pronúncia, tornava-o diferente. Uma raridade! Perguntamos a um sargento a razão daquela presença, sabíamos que os zíngaros não cumpriam o serviço militar, muito menos agora, que estávamos em guerra. Disse-nos que viera voluntariamente, queria ver como era a tropa, romper com a tradição étnica.

- Aceitaram-no bem, espero.

- Certamente; ninguém ali era racista. Nascera em Portugal, tinha nacionalidade portuguesa… Quanto a mim até tinham obrigação de cumprir o serviço militar, por quê o privilégio?! Por outro lado, esse tempo da tropa podiam aproveitá-lo para estudar, para adquirir conhecimentos técnicos, enfim, tornarem-se cidadãos como os outros.

- E depois?!

- Não vais acreditar! Nessa noite ficou aquartelado, mas de manhã, logo após o pequeno-almoço, pôs-se a andar. Com a farda no corpo!

- Foram logo atrás dele?

- Nem penses. O assunto ficou encerrado, por ordem superior. E ninguém falou mais nisso.

     Mas há outro caso também curioso: um filho do proprietário de uma grande companhia de transportes, que possuía uma, ou mais agências de viagens, era nosso camarada. Como não tinha estudos, apenas a 4.ª classe da instrução primária, e não quis emigrar, teve de vestir a farda de soldado raso. Acontece que entrava e saía da unidade militar com a maior displicência e facilidade! Umas vezes fardado, outras vezes à paisana. Não comia no quartel, não fazia serviços, nada! Nós estávamos de boca aberta!

- Que tropa fandanga! Assim até dava gosto…

- Pudera! Rico e importante, fazia o que queria. Mas espera: ao cabo de uns dias desapareceu, tal como o gitano. Perguntando nós o que se tinha passado, fomos informados de que já passara à disponibilidade – cumprira dois ou três meses! Provavelmente nem um tiro dera!

- Afinal, o rigor no tempo de Salazar é um mito!

- Isto é só aquilo a que assisti. Não fazemos sequer ideia do que se passou na realidade. A podridão alastra em qualquer regime; onde houver humanos há corrupção, há vítimas e privilegiados. Quem tinha dinheiro não permitia que os filhos fossem para a guerra – íamos nós, os pobres, a tal carne para canhão. Daqueles que morreram e ficaram mutilados quantos eram filhos de ricos?

- Nenhum! – afirmou Henrique, perentoriamente.

- Podes ter a certeza... Até podia haver um caso isolado, a exceção à regra, um jovem família, fascista, que se alistara por ideologia, para defender a “pátria sagrada”, ou empurrado pela família, militarista, mas que eu saiba não.

 

*

 

     Dois meses passam depressa quando as coisas correm mais ou menos de feição. Certo dia chamam Cândido à Secretaria e o amanuense diz-lhe que tinha sido destacado para a Academia Militar, na Rua Gomes Freire, Lisboa, a fim de prestar serviços de condutor. Teria de levar os cadetes para os seus exercícios em Sintra, e arredores, bem como para outros lados; seria, quando a escala assim o determinasse, condutor dia, isto é, nesse dia estaria ao dispor da Academia para ir aonde fosse necessário.                                                             

continua... 

 

***


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

(romance histórico)

Por Joaquim A. Rocha


3.º Capítulo

 

INFANTARIA 6

 

     Uma semana passa depressa. É a juventude. Na velhice o tempo já custa a passar, apesar de se saber que a morte está próxima. Tudo isso está relacionado com a solidão e o sofrimento.

      Depois de um aperto de mão, de um sorriso conivente, ei-los sentados na mesa do Café. Cândido reinicia o relato:

 

- O quartel, enorme, situava-se na freguesia de Custóias, ou Senhora da Hora, já não me lembro, a geografia nunca foi o meu forte; sei que ficava no concelho de Matosinhos, a alguns quilómetros do Porto. Havia aí mais asseio do que no CICA-1: as camas bem-feitas (andava amiúde um cabo a fazer a inspeção – bastava um pormenor insignificante para ele mandar logo desfazer tudo e fazer de novo), com as fronhas bem esticadas; armas sempre limpas e oleadas; todo o equipamento sempre em ordem. Mas nas relações com os superiores, mesmo da classe mais baixa: cabos, furriéis, sargentos, notava-se uma maior distância. A bandalheira tinha acabado!

- E vocês, o que faziam durante o dia? – perguntou Henrique, somente para lembrar que estava ali.

- Metade do dia, entre as sete e as doze horas, destinava-se a exercícios físicos, a manejar armas, montar e desmontar, e fazer fogo; a outra metade, das treze às dezoito, empregava-se na condução.

- E as viaturas, estavam em bom estado?

- Eram velhas, pesadas, desprovidas de conforto, com assentos mostrando as grossas molas, a cheirarem a óleo queimado; deixavam - por vezes - ficar mal o nosso monitor. Eram autênticas carroças! Quedavam avariadas nos sítios mais díspares, à espera que o mecânico aparecesse para reparar a avaria, quando tinha conserto!

- Como é que o exército podia preparar bons condutores com viaturas tão velhas e ruins?! – empertiga-se Henrique, num gesto de revolta.

- Eles finalmente compreenderam isso. No estio de 1965 o governo adquiriu à França, ou à Alemanha, não sei bem, para as Forças Armadas portuguesas, alguns carros novos. Faço ideia o que deve ter custado ao Salazar! Forreta como era, esse dinheiro deve-o ter chorado o resto da vida.

- A partir daí, carrinho novo em folha…

- Estás enganado! Eram poucos, não dava para abastecer todos os quartéis do país. A nós só calhou um pesado e um jipe. Tivemos de continuar com os trambolhos.

     Mas continuando… Sargentos e oficiais extremavam-se em antipatias. Consideravam, assim penso, o pobre soldado, uma massa disforme, não pensante, com cérebros do tamanho de uma pulga. Tratavam-no bem pior do que se trata o camelo no deserto: montando-o a seu belo prazer, sem sequer para ele olhar – no entanto, não podiam dispensá-lo! Embora fosse a razão de ser da sua profissão, jamais deixavam fugir uma oportunidade para humilhá-lo, ao zé-ninguém, ao parolo, calcá-lo aos pés, espezinhá-lo, para lhe mostrar que ali, no quartel, ele, soldado, igual ao sujo chão, não riscava nada, era uma formiga à beira de um rinoceronte! Mina, de onde extraíam toda a sua riqueza, faziam tudo para ignorá-lo; não o conseguindo, exigiam-lhe que vergasse a cerviz!

- Você ficou traumatizado – sentenciou Henrique.

- Talvez; e não era para menos, meu amigo. O pobre do tarata vivia o seu dia-a-dia amedrontado, inseguro. E não se podia queixar a ninguém! Se se queixasse, fosse do que fosse, ai dele: seria imediatamente trucidado, atirado à lúgubre masmorra, às leoas famintas, onde permaneceria dias infindos, até ser devorado, ou transformado em mera serapilheira. 

- Não havia pelo menos um oficial que estimasse os subordinados?

- Bem, um ou outro superior, tratava o pobre coitado com mais humanismo, com mais lisura – as exceções à regra. Porém, os seus iguais, não gostavam dessas “cortesias” e quase os odiavam por isso. Não perdoavam a sua “fraqueza”.  

     O sofrido tempo, como tudo na vida, passava. Depois de termos percorrido quase todas as estradas do norte e feito imenso fogo com a vetusta «mauser» na carreira de tiro de Espinho, provocando-me dores insuportáveis nos frágeis ombros, por pouco quebrando a omoplata…

- E não punha nada para se proteger? – pergunta com espanto o jovem Henrique. 

- Eu usava, como me tinham sugerido outros jovens, uma toalha por baixo da camisa, mas o diabólico instrutor deu por isso. Ministrou-me uma tareia monumental: pontapés e bofetadas mil! Nunca esquecerei esse dia. Ele berrava que nem um possesso: «quero ver se levas para a guerra a toalha, menino da mamã

- Não se trata assim um ser humano – lamenta Henrique, indignado com tamanha agressividade.

- Nós não éramos considerados seres humanos, mas sim máquinas de guerra, coisas execráveis, tratados pior, quem sabe, do que os presos na cadeia! Nos discursos dos governantes nós éramos os «Soldados de Portugal», com letra maiúscula; nos aquartelamentos éramos os cães raivosos, a escumalha, sacos de lixo!

- E os outros, como reagiram?   

- Ficaram indiferentes! Não era nada com eles. Continuaram a disparar para aqueles alvos, bonecos de madeira, parecidos connosco, os quais estavam a uma distância enorme, perto da praia. Eu fui dos piores em tiro ao alvo, salvo erro. Para disparar bem é necessário que o espírito esteja sossegado e haja uma motivação. Eu, na tropa, nunca estive bem.

- Você é antimilitarista.

- Podes crê-lo. Fui sempre, desde que nasci, praticamente. Nunca gostei de fardas militares, de gente que dá ordens por tudo e por nada, de domadores de cérebros, de parasitas que vivem, a bem dizer, do orçamento. Muito gastam, e produzem nada.

- Nem toda a gente estará de acordo consigo. E das polícias? O que pensa delas? – perguntou Henrique com alguma expectativa.

- É diferente. A Polícia de Segurança Pública, a Guarda Nacional Republicana, a Judiciária, e outras, são necessárias para combater o banditismo, a ladroeira, os assassinos, etc. Não tem comparação, embora eu, se tivesse poder, talvez fundisse a GNR (conotada com os militares) com a PSP. E outra coisa: criava (ou desenvolvia, caso já exista) uma polícia marítima, com equipamentos sofisticados: ótimos helicópteros, lanchas rápidas, etc., a fim de defender a nossa costa, tanto dos pescadores estrangeiros que roubam o nosso pescado, como dos traficantes de droga, armas, e prostituição, além de impedir a entrada de imigrantes clandestinos; criava também uma polícia aérea, para vigiar, do ar, todo o nosso território e prevenir incêndios. Ambas as polícias teriam um comando comum.

- E as Forças Armadas?! – interroga Henrique, incrédulo com aquilo que ouvia. 

- Acabava com elas, obviamente.       

- Contudo, elas derrubaram o regime que você tanto detestava – lembrou Henrique, quase num desafio.

- É verdade, e ainda bem que me falas nisso. Porém, não te esqueças que também foram elas que, em Maio de 1926, derrubaram a 1.ª República, dando assim azo a que surgisse o chamado Estado Novo. O “edifício” salazarista desmoronar-se-ia, mais tarde ou mais cedo, por si próprio. «Nada é eterno». Depois da morte do chefe, os seus herdeiros de regime já não se entendiam. Era uma questão de tempo. Exemplos desses existem em todo o lado. Repara: Marcelo Caetano não era bem visto pelos ultras e pelo diretor da PIDE/DGS – algo iria acontecer brevemente; a situação política teria de se definir. Fosse quem fosse que ganhasse o poder, algo teria de mudar. Por outro lado, os militares que fizeram o 25 de Abril de 1974 não estavam todos, como sabes, imbuídos do espírito revolucionário – muitos deles queriam era acabar com a guerra colonial.

- Por quê? Sendo militares, deviam gostar da guerra! – espicaça o jovem Henrique.

- De certo modo gostavam. Simplesmente já lá iam treze anos! Alguns desses militares de carreira tinham combatido em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Estavam cansados, fartos desses conflitos. E outra coisa: aquela guerra não era clássica, não prestigiava quem nela combatia. Os soldados da FRELIMO, por exemplo, andavam mal vestidos e alguns deles descalços! Se não fossem ajudados por vários governos, morriam à fome. Um oficial desse exército, em termos de eficácia, não valia um soldado americano. Os combatentes de Angola não se entendiam entre si! O MPLA tanto odiava o exército português como o da UNITA!

     O pequenino Napoleão Bonaparte granjeou prestígio porque venceu algumas batalhas a generais famosos; não é o mesmo que ganhar a maltrapilhos! Além disso, a África não é para brincadeiras, é perigosíssima: o clima, as febres... E há outra coisa: o governo, como estavam a faltar oficiais de carreira: alferes, tenentes e capitães, toca a promover milicianos a esses postos, sem terem passado pela Academia Militar! Eu conheci um alferes que tinha apenas o 3.º ou 4.º ano do liceu! Fora o melhor aluno no curso de furriéis, um militarista ferrenho, cara de pau, e por isso passou para a escola de oficiais; se continuasse na tropa, não sei, logo seria promovido a tenente, e a seguir a capitão!              

- Com tão poucas habilitações literárias?!

- Estás a ver agora por que os militares de carreira derrubaram o regime? Não foi certamente pelos nossos lindos olhos, para implementar em Portugal o socialismo científico, ou uma democracia a sério. Os militares são conservadores, por natureza. Agem como os médicos, os juízes, etc. – tentam preservar a sua classe, aumentar os privilégios, o prestígio...   

- O Cândido é demolidor!

- Nem por isso! Sou justo, pelo menos tento sê-lo. Mas deixemos isso, esses assuntos são para os especialistas na matéria, eu sou apenas um empregado de escritório e um estudante do Curso Comercial (técnico de contas). Mas sabes que em Infantaria Seis me aconteceram duas coisas que nunca mais esqueci. Uma desagradável e outra assim-assim. A primeira foi quando barrei o meu casqueiro com o doce de cereja que a minha mãe me mandara. Logo que dou uma dentada, parto um molar. A velhota não se apercebera e deixara lá dentro um caroço. O dente, pouco a pouco, foi apodrecendo, causou-me dores intensas, noites sem dormir.

- E por que não foi tratá-lo?

- Também eu queria. Mas aonde? Expus o caso ao enfermeiro e ele disse-me para ir aguentando, o exército não tinha médicos dentistas, e se os tinha não tratavam os dentes dos soldados.

- E os particulares?

- Para esses tinha de se marcar consulta, perder horas, e os preços eram proibitivos, não estavam ao alcance das nossas bolsas.

- Valia mais arrancá-lo.

- Foi o que eu fiz, mas em África, no Hospital Militar de Bissau. E aí já foram dois! Um contagiara o outro.

- Mais uma razão para odiar a tropa.

- Sim, mais uma razão a acrescer às outras. Mas deixa-me contar-te aquele episódio engraçado, mas ao mesmo tempo esclarecedor. Como estava perto do Porto, que eu já conhecia mais ou menos, na noite de São João, em Junho, não quis perder essa oportunidade, única talvez, de conhecer uma das maiores manifestações de alegria no país inteiro.

      Queria ver «in loco» essa famosíssima festa. Depois do jantar, servido às dezoito horas, uma feijoada de porco (só a cabeça e orelhas, porque a parte nobre ia toda para as messes), sigo, com mais alguns camaradas, em direção ao centro da cidade nortenha. Percorríamos esse longo trajeto a pé! Não é que o dinheiro do ordenado não desse para chamarmos um táxi; ganhávamos três ou quatro escudos por mês, uma autêntica “fortuna”, simplesmente nós gostávamos de caminhar!       

- Estou a ver! Para fazerem a digestão da feijoada! – ironiza Henrique.

- O táxi custaria trinta ou quarenta escudos. Isso não lucrava eu em dez meses! Mas continuando… Pelo caminho íamos na galhofa, atirando piropos às sopeiras que apareciam às varandas dos prédios ou na rua, umas bonitas e outras feias, enfim, divertíamo-nos à nossa maneira. A cidade invicta lembrava (de acordo com o que vira no cinema) Pequim, Nova Iorque, Londres, Tóquio… um mar de gente, o bulício, a barafunda. Em certas ruas quase já não se podia andar. Nem queria crer. Habituado a um meio calmo, aquilo mexia comigo, deixava-me intranquilo. Tantas luzes, e tamanha cacetada de alho-porro na cabeça, estavam a pôr-me tonto, completamente perturbado. Empurra daqui, empurra dali, graçola daqui, piadinha dacolá, vamos seguindo de rua em rua, de beco em beco, ouvindo música popular, gritos eufóricos, guinchos de crianças. Uma verdadeira loucura. A certa altura, seriam dez horas da noite, já nem os meus camaradas do quartel eu conseguia enxergar; encontrava-me sozinho no meio daquela imensa multidão. Um cenário assustador!

     Os gracejos choviam de todo o lado, mas eu de cada vez que os ouvia achava menos piada. Se o São João era aquilo… não gostava! Fui andando, andando, perdido, e cheguei, sem eu saber como, às Fontainhas. Aí as coisas estavam, se possível, ainda mais movimentadas. O espaço físico era insuficiente, exíguo, para tanto folião. O cheiro a sardinhas assadas era insuportável. Eu sufocava. Disse para os meus botões: «depois do tão apregoado fogo-de-artifício pões-te imediatamente a caminho do colchão

     O espetáculo foi maravilhoso. Nunca tinha visto coisa tão bonita. Nas festas da minha terrinha também havia fogos de vista, mas à beira disto… Não me recordo quanto tempo durou – estaria ali o resto da noite a ver o céu em festa. Logo que a harmoniosa “trovoada” acabou, recomeçaram as cacetadas, as mil brincadeiras, a folia, a pândega. Eu, porém, não tinha feitio para colaborar nessas manifestações de alegria e espontaneidade. Era demasiado tímido e bicho do mato para isso. Tentei furar como um rato pelo meio da multidão em delírio, todos bem bebidos, vi-me gladiador no circo de Roma, Hércules lutando contra a hidra de Lerna, e depois de enorme esforço dou comigo na estrada a caminhar em direção a Custóias.

     Aproveitei para fazer um chichi, já não esvaziava a bexiga há séculos! Como o tempo passou rapidamente! Quase cinco horas da manhã! Chego finalmente ao aquartelamento, cansado, extenuadíssimo, e peço à sentinela que me abra a porta de entrada. Recusou, alegando que não podia, só às seis da manhã. Até a essa hora teria de aguardar na rua. Não insisti. Não valeria a pena. O regulamento militar assim o determinava e eu tinha de me resignar. Quem era eu para impor a sua abertura? Se ainda fosse graduado, mas não, era apenas um simples soldado raso! Não insisti, também para não prejudicar o colega, caso ele acedesse ao pedido e fosse apanhado nessa falta. Uma hora passava depressa. Comecei a movimentar-me, sem destino, sereno e tranquilo, sem pressas, e eis que vejo um barracão. Tratava-se de um silo, uma espécie de armazém, cheio de palha. Fui até lá e estendi-me deleitosamente. Estava quase a adormecer quando ouço algo a mexer-se ali perto. Levanto-me ligeiramente e qual não é o meu espanto ao verificar que se tratava de ratazanas! «Que se lixe», resmunguei. Com o sono a dominar-me, não podia ser esquisito.

      Deitei-me novamente e adormeci profundamente. Corria o risco de dormir todo o dia. No entanto, por volta das seis da manhã, uma poderosa voz faz-se ouvir: «Quem está aí dentro?» Na mão trazia longa e temível forquilha. Ainda estremunhado, respondo: «sou eu, um soldado de Infantaria 6; assisti à festa de São João e como cheguei antes da alvorada ao quartel não me deixaram entrar

     O agricultor pareceu satisfeito e convencido com a minha resposta. Olhou fixamente para mim, com aqueles olhos de águia, que tudo veem, e com uma certa complacência diz: «Está bem, está bem; agora vá-se embora

     Fiquei aliviado, como me tirassem do lombo um fardo de chumbo. Cheguei ao quartel ainda a tempo do pequeno-almoço e contei aos camaradas aquele estranho e hilariante episódio. Todos se riram a bom rir, até eu me ri!

- Como é bom ter vinte anos! – diz Henrique, encantado com a história.

- Estes pequenos episódios são somente banalidades; servirão um dia mais tarde, quando estivermos aposentados, para contar aos netos. Eles provavelmente não acreditarão, tal como hoje já não acreditam nos contos de fadas e no pai natal. A televisão, sobretudo, mas também a entrada para a escola em tenra idade, afastando assim as crianças dos avós, mata os sonhos da infância.     


continua...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 

2.º Capítulo

 

CENTRO DE INSTRUÇÃO DE CONDUÇÃO AUTO

  

     Os dias agora eram compridos, o sol brilhava, banhando de luz a cidade de Lisboa, mas não havia aquele calor excessivo do verão. Tudo convidava ao passeio, mas os dois amigos preferiam conversar, sentados na esplanada, beber umas cervejinhas em garrafa, e os populares “finos” ou “imperiais”, acompanhadas de tremoços ou amendoim. Cândido, sabendo do interesse do outro, iniciou a conversa:

     - Finalmente a hora da partida chegou. Muito triste, choroso, amargurado, quase doente, apanhei a camioneta no Largo da Calçada, ou Largo José Cândido Gomes de Abreu, em homenagem ao fundador do Hospital da Misericórdia, conhecida por carreira, e depois o comboio em Monção, em segunda classe, para a grande cidade do norte. O primeiro dia destinou-se a receber a fardeta cinzenta, cujo capote pesava quilos – só em Abril ou Maio desse ano de 1965 é que nos entregaram as novas fardas, de cor verde – e as instruções acerca do funcionamento do quartel.

     Tínhamos de conhecer os cantos à casa, apreender as regras para as cumprir escrupulosamente. As fardas, por mais estranho e absurdo que isso pareça, não as davam à medida do nosso corpo – botas com o número 44 entregavam-nas, por vezes, a rapazes que calçavam o número 39! Essa forma de distribuir os fardamentos mostrava-se, à primeira vista, caótica, sem sentido, e quanto a mim, era, mas depois, já na caserna, tudo se resolvia através da troca. Não seria isto também um teste à nossa inteligência? Ao lançarem esta confusão, os militares de carreira iam verificando como os jovens recrutas encontravam a saída do labirinto.

- Engenhoso! Genial! – reconheceu Henrique, até ali calado.

         Cândido, ao ouvir a voz do seu amigo, quase deu um salto! Imaginara-se sozinho, a discorrer sobre o seu passado, matando-o se possível, esquecendo-o, pelo menos. Não estava só, e ainda bem. Aquela amizade livrava-o do isolamento, libertava-o de pesadelos horríveis. Logo a seguir continuou:

 - Uma gritaria imensa atroava os ares; entregues a nós próprios, extenuados e numa babel sem rumo, sentávamo-nos sobre as caixas de madeira de pinho que no futuro nos iriam servir de roupeiro e despensa. Essas caixas tornaram-se mais tarde motivo para muita rixa, pois os filhos de camponeses e agricultores levavam nacos de presunto e chouriços da sua casa, da sua adega, e metiam-nos ali; como cheirava, os improvisados ladrões rebentavam as frágeis arrecadações, as que não tinham aloquete, e comiam regaladamente essas iguarias. Quando descobriam o guloso gatuno, havia tareia pela certa. Tinha de vir o cabo, ou o sargento de dia, apartá-los, de contrário o sangue jorrava.

- O Cândido chegou a andar à bofetada com algum colega?!

- Não vais acreditar! Um dia, ou melhor, uma noite, quando me ia deitar não tinha roupa na cama! Que fazer? Comprá-la não podia! Onde havia dinheiro para isso? Por outro lado, não podia sair do quartel a essa hora. Fiz o que outros fariam nessa situação: procurei uma cama onde não estivesse ninguém e levei a roupa para a minha. No dia seguinte aparece um soldado e atira-se a mim! Andamos aos socos, eu até parecia o Belarmino, e depois veio o cabo e separou-nos. Depois de tudo esclarecido, fizemos as pazes.

- E a roupa? – interroga Henrique.

- Já não me lembro, mas penso que o oficial dia resolveu isso. Os que furtavam as coisas – sobretudo fardas e calçado – era para depois as vender. Não sei como conseguiam passá-las para a rua, é um autêntico enigma, pois a vigilância era apertada!

        Eu tinha imensas saudades da minha terra, da minha gente, dos meus hábitos quotidianos, da minha equipa de futebol, da minha saborosa comida, do jogo da sueca e dos matraquilhos. A Vila de Melgaço estava algures, longe, muito longe. Eu sonhava. Primeiro começava a vê-la vagamente, mergulhada em densas nuvens, de variadíssimas cores; depois, pouco a pouco, elas adensavam-se de tal modo, que me ofuscavam totalmente a visão. Possuía asas e voava, sobre os mares e montanhas, mas regressava sempre àquele sítio onde eu nascera; mas quando me aproximava a minha vilazinha fugia, desaparecia como levada pelo vento em fúria! Eu gritava desesperado: «Não, não roubem o meu adorado Melgaço, eu preciso de ver o seu rosto, de respirar o seu ar, de o abraçar afetuosamente

      Acordava sobressaltado. Estava ali, naquele casarão de cimento, com rapazes que se pareciam vagamente comigo, mas que não perfilhavam a mesma linguagem, embora utilizassem o mesmo idioma. Quem seriam? Tinham outros costumes, vozes roucas, palavras rudes; ao falarem, denunciavam a sua origem; palavrões obscenos faziam já parte do seu parco vocabulário; a agressividade era inerente ao seu temperamento. Olhava para as suas enormes mãos e pareciam-me garras de ave de rapina, prontas a sonegarem a qualquer momento, se me distraísse, os meus escassos bens. Tive medo, confesso, mas não gritei. Esperar; a solução para o meu infundado terror seria esperar. «O tempo será o meu grande aliado», comentei em surdina.         

      A corneta tocou a alvorada. Seis da manhã. Levanto-me a correr, no meio de uma algazarra ensurdecedora. Da camarata íamos para as casas de banho cortar os pelos da barba, no meu caso uns pelitos que no meu rosto tinham aparecido clandestinamente, sem aviso prévio, e tomar um refrescante banho. Antes fôramos buscar as toalhas, umas brancas, outras amareladas, de tanto terem sido lavadas, de um pano grosseiro, a imitar o linho. Todos nus. A vergonha, o pudor, iriam desaparecendo, pouco a pouco. Depois do banho fardei-me e dirijo-me ao espelho. Afinal, o meu esqueleto franzino e o meu pé miúdo, ainda não tinham crescido para a vida de guerreiro!

 - Você tinha vinte anos, era um homem – comenta Henrique, quase esquecido, enterrado na cadeira, bebericando cerveja e comendo uns tremoços.

- É verdade, fizera vinte anos havia sete meses, mas o meu corpo era pequeno e magro, pouco mais pesava do que cinquenta quilos!

- Depois engordou com o rancho – riu-se Henrique.

- Nem sequer fazes ideia do que era aquela porcaria. Ao pequeno-almoço davam-nos um pão grande, chamado casqueiro, para todo o dia, um púcaro de café com leite desnatado e um bocadinho de margarina ou marmelada, feita, salvo erro, de maçã! Ao almoço e jantar um caldo de couves, aguado, sem azeite, com uns bocados de carne, ou gordura de porco, de terceira categoria, sem lavar, quantas vezes fora do prazo, provocando um cheiro nauseabundo, e o presigo, carne ou peixe, acompanhado de batatas, arroz ou massa. Tudo mal confecionado e sem higiene. Muitas vezes na sopa apareciam pedaços de piaçaba, que caíam da vassoura quando os faxinas – ou ajudantes do cozinheiro – esfregavam as panelas. Não esquecerei jamais a primeira refeição: arroz de polvo. Intragável! A cem metros de distância já se obtinha a indescritível sensação de estarmos perto de uma fossa a céu aberto. Não comer, seria o nosso fim; comer, era um sacrifício. De qualquer modo, não existia alternativa. Comparecer às refeições e comer, ou fingir que se comia, era obrigatório – fazia parte do regulamento. O homem, o ser humano, senhor do mundo mas não senhor dele próprio, tem de se adaptar ao meio que o rodeia. Teríamos de nos habituar, e quanto mais depressa melhor.    

- Você é fidalgo! – ironizou Henrique, desejando desdramatizar.

- Nem por isso. A minha mãe era cozinheira profissional, num hotel das Termas do Peso, e por isso eu estava habituado a comer comidinha da melhor. Mas também te digo: por incrível que isso pareça, alguns jovens das zonas rurais, campónios, maltratados pela vida dura do campo, não estranharam. Pelo contrário: muitos deles até engordaram como texugos! Comiam que nem labregos. Tudo que viesse à rede era peixe. Lembro-me de um que aumentou o seu peso em vinte quilos bem medidos, no período de quatro meses. Parecia um cevado!

     Depois de um dia fatigante, exercício físico, manejo de armas, condução de pesados, reunimos na parada. Eram seis horas da tarde e o corneteiro estava pronto a tocar para a janta. Momentos antes mirei novamente a minha ridícula figura no espelho. Sorri, sem querer. Que diriam os meus conterrâneos se vissem este pequenino corpo enfiado naquele desmedido uniforme? Troçariam de mim, de certeza absoluta! A corneta tocou. Era o relógio de ponto, o ditador implacável, o Hitler mecânico. A partir desse dia andaríamos sempre ao toque dela: para levantar, para as refeições, para os exercícios, para recolher, para tudo!

     Destroçar e refeitório. Desatei a correr atrás dos outros. À nossa espera estavam os “velhos”; queriam rir à nossa custa. E riram! Tinham sido, no passado recente, também eles, alvo de chacota, de gargalhadas mil. Vingavam-se.

           Henrique não fizera a tropa, porque quando tinha vinte anos a guerra colonial já terminara. Não precisaram dele. Por um lado lamentava tal facto, pois dizia-se na altura que quem não fosse militar não era homem, mas por outro lado agradeceu, visto ter-lhe permitido estudar sem sobressaltos. Perguntou:

 - E os sargentos e oficiais, não comiam com vocês?

- É óbvio que não, meu amigo; eles possuíam refeitórios separados, a que chamavam messes, e aí, a comida, segundo constava, era ótima. Servidos com delicadeza, com abundância… Até vinho bom bebiam – nós bebíamos a zurrapa, vinho batizado e mesmo assim, pouco. Ao contrário da maioria dos soldados, a sua pele era luzidia, bem tratada, o que só se consegue através de uma saudável alimentação. Eu lembro-me de algumas crianças do meu concelho, raquíticas, com pele de velhos, porque andavam mal alimentadas.

     Permaneci no Centro de Instrução de Condução Auto (CICA-1) dois meses. Sessenta dias de intensos e temerários exercícios: capacete metálico na cabeça, armas às costas… Sabes que muitos rapazes apanharam uma doença qualquer no couro cabeludo por causa dos capacetes?!

- Não me diga? – exclamou Henrique, admirado.

- É verdade! Não punham nada entre o capacete e o cabelo e assim os micróbios que havia na armadura passavam para a raiz do cabelo, sobretudo quando se suava, o que acontecia diariamente. Alguns ficaram sem um único cabelinho!       

- E você, não apanhou o vírus?

- Não, porque eu colocava um lenço enorme na cabeça; tinha nojo, asco, do capacete – já tinham servido, segundo constava, na Primeira Grande Guerra, em 1917 e 1918, quando os portugueses lutaram em França contra os militares alemães. 

- Caramba! Eram antigos, os bichos!

- Todos os cuidados são poucos para preservarmos a saúde. Mas o que mais me custou naqueles longos dois meses foram os vexames, aquelas ordens que soavam como vergastadas no meu frágil corpo – doíam por dentro: «Não para. A correr, a correr.» «Quem cair leva um pontapé no traseiro.» «Salta o galho, seu nabo!» «Não sou capaz, meu aspirante.» «Filho da mãe, levas cinquenta flexões de castigo.» E as humilhações eram contínuas: «Ó recruta!» «Sim, meu sargento.» «Sabes andar de bicicleta?» «Sei, meu sargento.» «Então vais varrer a parada!» A vassoura era enorme! Os prontos passavam e riam-se, aquele riso sarcástico, que penetra fundo na alma da gente.

     Quando queria sair à rua, o que raras vezes era permitido, tinha de pedir no portão de saída ao oficial de dia, normalmente um aspirante ou alferes. «Posso sair, meu alferes?» «Ora deixa-me ver. As botas não estão mal engraxadas, não senhor, mas esses amarelos… deixam muito a desejar.» «Meu alferes, estive quase meia hora a limpá-los, até brilham…» Ele irritava-se, ou fingia: «Eh, pá! Estás a gozar comigo? Vais limpá-los imediatamente.» «Sim, meu alferes.» Cabisbaixo, resignado, lá ia eu outra vez para a caserna, dar mais uma esfregadela nos metais da farda – parecia ouro a brilhar! O estômago podia estar vazio, mas o exterior, esse tinha de estar bem tratado!

- Isso revoltava – reagiu Henrique com espontaneidade.

- Nada de armar em esperto, meu amigo, isso ali não resultava. Executar as ordens, justas ou injustas, dadas por aqueles seres sentados num pedestal, mais poderosos do que os deuses do Olimpo, e calar. Tinham muito poder aqueles algozes, até nos podiam matar à porrada! Houve casos em que isso ia acontecendo, depois argumentavam que o soldado era anarquista, não quisera obedecer às suas ordens, enfim, ficavam sempre na mó de cima. Os oficiais superiores, até ao general, davam-lhes sempre razão, mal do soldado – ia parar à cadeia ou à enfermaria. A seguir, logo que melhorasse, mandavam-no para a frente de batalha, para morrer!

- Era quase um assassínio!

- Mais ou menos. Camuflado, mas um crime, sim…

- Tempos difíceis, meu amigo, tempos difíceis.

- Podes crer. E como se não bastasse, ainda tive de apanhar uma vacina que me levou à cama com febre. Colocaram-nos em fila indiana, junto à enfermaria, e os enfermeiros – semelhantes a magarefes – iam espetando nos nossos braços a agulha; minutos depois outros iam injetando o malvado líquido. Alguns rapazes não reagiram bem à vacina e tombaram no chão, desmaiados! Nesse dia assustei-me deveras. Pensei não resistir.

- Foi dose para cavalo! – aventou Henrique.

- Era precisamente isso que todos dizíamos. Quase que nem um elefante aguentava. Os mais antigos, talvez para nos gozar, ou quem sabe, com pena de nós, aconselhavam-nos a ir ao bar beber vinho. «O álcool atenua o efeito», diziam eles. Os enfermeiros, esses, pediam-nos que aguentássemos, pois dentro de uns meses iríamos para África, e estas vacinas evitariam as febres que grassavam com frequência naqueles climas quentes.         

        O quartel ficava paredes-meias com o Palácio de Cristal e perto do rio Douro. Talvez por isso me tenha deixado algumas réstias de saudades quando de lá parti. Podendo, ia até ao rio, ver os pescadores pescarem, lembrava-me sempre o meu rio Minho, as margens mais bonitas, mais verdes, aqui e ali surgindo uma fonte natural, água fresca, nunca mais encontrei em parte alguma dessa água maravilhosa. O rio Douro era maior, mas sujinho, coitado. As suas margens, no Porto, não são belas nem naturais. Construíram casas abarracadas, onde vivem centenas de pessoas miseráveis e com pouca, ou nenhuma instrução. No Minho era diferente: os arvoredos, os campos de milho e de centeio, as vinhas, dão à paisagem um tom alegre e colorido. De um lado os galegos e de outro os portugueses, umas vezes à pancada e outras vezes aos abraços!

     O poeta monçanense João Verde soube cantar em verso como ninguém essa proximidade/afastamento:

 «Vendo-os assim tão pertinho/a Galiza mail’o Minho,/são como dois namorados/que o rio traz separados/quase desde o nascimento…»

     Durante esses dois meses de permanência no CICA-1 fiquei a conhecer razoavelmente a capital do norte: as suas grandezas e misérias, as suas belezas (monumentos extraordinários) e fealdades (ruas estreitas e íngremes, quase sempre sujas e mal cheirosas, gente bêbada e pouco educada).

- Mais misérias do que grandezas, talvez? – pergunta Henrique, com redobrada curiosidade.

- Na cidade média e grande está tudo equilibrado. Mas estava eu a dizer… Ah! já me lembro. As montras das lojas eram a minha atração favorita: atraíam-me, como os brinquedos atraem o bebé. Olhava, bronco, embasbacado, para os objetos nelas expostos – um autêntico papalvo! Aquelas luzes variegadas, os milhentos anúncios luminosos, fascinavam-me, arrastavam-me para um novo mundo, para o sonho, para o devaneio…      

- Estava a nascer em si um poeta.

- Mais um observador. Foi lá, onde vira a luz do sol pela vez primeira o infante D. Henrique, que eu entendi verdadeiramente o que queria dizer prostituição. Certo dia, já quase noite, caminhava tranquilamente por uma rua esconsa quando uma esguia mão me puxa e voz roufenha, voz de bagaço e de tabaco, me pergunta: «Não queres vir comigo?!» Senti um calafrio a percorrer-me o corpo, tive receio, e afastei-me rapidamente, como esquilo na mata quando se apercebe do perigo iminente. A alguns metros de distância, ainda ouvi a criatura resmungar: «Chulo, paneleiro, cabrão!» Instintivamente, rebuscando na memória frases que ouvira na infância e na adolescência, quando alguém corria algum risco, e queria esconjurar o mal, pronunciei: «Vade retro, Satanás


     Henrique, até ali muito sério, soltou uma estridente gargalhada! Depois disse:


- Eu não acredito! Você a fugir de uma rameira! Não acredito!

- Tu és um homem da capital, habituado, desde criança, a ver prostitutas, a observar o seu comportamento, a lidar com elas, provavelmente. Eu não; na minha terra não havia nada disso. É certo que havia mães solteiras, mas normalmente ficavam grávidas dos namorados, ou dos patrões, e até há quem diga que dos padres! Na cidade do Porto, e aqui em Lisboa, as mulheres de vida fácil vendem o corpo mediante um pagamento pré-estabelecido! Têm um preço! Não há amor, atração física, nada! Nem sequer se conhecem! A minha mente não está preparada para perceber esta atividade humana.

- Você é um moralista!

- É verdade. Reconheço-me como tal. De meia tigela, mas um moralista. Um antiquado, um conservador. Para mim, se possível, só existiriam coisas boas no planeta. Amor, amizade, segurança, paz, verdade… O ódio e a guerra não teriam lugar no meu universo.

- Um sonhador, é o que você é, Cândido; a religião marcou-o imenso.

- É verdade, mas felizmente libertei-me.

- Restam resquícios…

- Não, penso que não. Parece que foi Marx que afirmou qualquer coisa como «a religião é o ópio do povo». A minha vida agora pauta-se por princípios filosóficos e racionais. Estou esperançado em que um dia, não muito longe, as pessoas se tornem melhores, compreendam que a felicidade cabe num grão de areia, existe nas coisas mais ínfimas e banais.


     Gerou-se um breve silêncio. Então Henrique interveio, a fim de salvar a situação:

 

- Desculpe Cândido. Por minha causa interrompeu a narrativa.

- Não faz mal. Não te lamentes. A reflexão também faz parte da vida. Estava a dizer… Sabes que meditei profundamente no caso e contei-o depois a um colega de camarata. Por pura coincidência, ele nascera e residia no Porto. Explicou-me tudo sobre a mais antiga “profissão” do mundo e também sobre a homossexualidade. Ele próprio, confessou-me, arranjava uns cobres “indo” com invertidos! Diz-me ele, com uma desfaçatez tremenda: «Eh pá! é preciso um gajo desenrascar-se!» «E não tens nojo»?! – indaguei. «Nojo?! Há panascas que usam perfume como as mulheres.» Não quis prolongar essa conversa escabrosa, nojenta... Já estou um bocado baralhado… Onde é que eu ia?

- Disse-me que os dois meses no CICA-1 estavam prestes a terminar.

- Pois é. A recruta. Findou. Sessenta dias terríveis, mesquinhos, para esquecer. A chamada especialidade viria a seguir, em Infantaria 6. Para trás ficava muito sofrimento, mil vexames, um cerimonioso juramento de bandeira, cuja fórmula resumiam assim, por reinação, por brincadeira, alguns recrutas: «juro e jurarei que ao pré e ao rancho jamais faltarei».

     Contudo, não foi tudo mau: o nosso instrutor de condução era uma boa pessoa. Soldado, como nós, estava no quartel há pouco mais de um ano. Como tinha a carta de condução de pesados e ligeiros, e o exército precisava de instrutores, por ali ficou. Embora tivesse algum poder sobre nós, os instruendos, não o exercia ditatorialmente; era de opinião de que nem todos têm jeito para conduzir um carro, sobretudo esses monstros pré-históricos que o exército teimava em utilizar. Quantas vezes ficavam pelo caminho. O mecânico militar tentava dar-lhes conserto, mas, coitados, a sua vida útil tinha terminado. Sentíamos imenso respeito por ele, e muita estima. Tirámos algumas fotografias juntos, que eu guardo com carinho.       

- Ao longo da vida vão-se encontrando pessoas com bom coração.

- É verdade. Embora raras, mas aparecem. Conheces-me bem e sabes que eu não sou muito expansivo, mesmo assim tenho conseguido algumas amizades sólidas. Bem, a tarde vai caindo, vem a noite, a hora do jantar, já estou com o estômago a dar horas, amanhã é outro dia de trabalho e de estudo.

- No próximo domingo cá estaremos de novo - promete Henrique, com entusiasmo.

- Não faltarei por nada deste mundo. Só uma grande desgraça, um imprevisto, me impediria de comparecer.

- Então adeus!

                                            continua...