quinta-feira, 24 de setembro de 2026

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha 



PREFÁCIO

 

 

     Não é de modo algum fácil fazer uma introdução a um livro de poemas de valor tão desigual: poder-se-ia dizer, não errando muito, sem poesia! Muitos deles, sei-o, nem sequer deveriam aqui figurar, pois correm o risco de serem ridicularizados por quem os ler. No entanto, não quero privilegiar qualquer deles, visto que todos são fruto da minha imaginação, do meu trabalho e, até certo ponto, refletem o meu sentir na ocasião em que os escrevi.

     Não me lembro bem quando comecei a rabiscar poemas, mas julgo que essa necessidade de escrever se verificou aquando da minha comissão em terras da Guiné-Bissau, como soldado. Longe da terra, da família, dos amigos, enfim de tudo aquilo que me era querido.

     Escrever foi o escape por onde saiu a raiva por me sentir impotente perante uma estrutura demoníaca que nos atirava para as matas africanas sem sequer ouvir as nossas vontades. Éramos lançados às feras sem quaisquer possibilidades de defesa. Pode-se hoje afirmar – sem grande margem de erro – que se fossem para a guerra colonial apenas os voluntários não teriam – os governantes – pessoal nem para encher um bote. Contudo, estiveram na guerra centenas de milhar de jovens! Contrariados, mas estiveram!

     A minha vida não começou a ter história somente com a minha inserção na tropa; poder-se-á dizer, sem exagero, que a sua história começa mesmo antes de eu ter nascido! Ninguém pode negar que a nossa vida é a continuação de outras, são elos de uma cadeia interminável. Os meus avós, que morreram quando eu era criança, tinham com certeza a sua história; porém, perdeu-se no tempo e na memória das gentes.

     Eu nasci em plena guerra mundial, num lugarejo junto a dois rios, e tudo era difícil nessa altura: os géneros de primeira necessidade não abundavam, embora houvesse a circular algum dinheiro – sem valor, claro. Dizia a minha mãe que fome nunca passámos. Matar a dita, para ela, era encher o estômago de pão grosseiro.

     O lugar era solitário, mas belo. Hoje em dia está praticamente deserto, vai desaparecer em breve.

     Não me considero poeta, se comparado com Camões, Antero, Bocage, e outros tais. Como atrás disse, comecei na tropa a fazer uns versitos; mas, claro, sem quaisquer conhecimentos técnicos e científicos sobre arte poética não podia produzir coisa que valesse. A saudade da terra, da família, dos amigos, até do meu antigo trabalho, inspiravam-me e assim vertia para o papel as palavras que, tímido, não tinha a coragem de dizer oralmente. Inculto como então era, dizia apenas banalidades. Os temas eram o amor (platónico), a saudade, a natureza, e pouco mais. Escrevi, durante a minha permanência na Guiné-Bissau, dezenas de cartas a raparigas da província, cujas moradas me tinham sido dadas por rapazes seus conterrâneos. Escrevi também a rapazes do meu concelho que se encontravam, tal como eu, a cumprir o serviço militar em África. Esta troca de correspondência foi muito importante para mim: por um lado não me sentia tão só; por outro lado, descobri que podia escrever um texto seguindo uma ideia lógica, um pensamento coerente. Eu era capaz de dizer quase corretamente o que pensava! Foi uma descoberta importante para mim, valiosa, fundamental.

     A poesia é para mim a possibilidade que o indivíduo tem de dizer aquilo que sente, sem hipocrisia, sem fingimentos, mas com arte. O poeta põe a nu o seu corpo, a sua alma, e confessa-se: não a um padre, não a um deus, mas a si próprio. Ao poeta pouco interessa os outros. Estes são mais símbolos da existência do que propriamente recetores da sua mensagem. Esta é enviada de dentro para dentro e só rasga o tecido por descuido ou vaidade do ser humano. Ninguém, desde que seja normal, gosta de aparecer sem roupa no meio da praça.

     Dizem que o poeta não é feliz. Há até quem afirme que só o infeliz pode ser poeta! A verdade é que há poetas nos dois lados da fronteira: uns cantam a alegria, o sol, a natureza viva, e outros, zangados consigo mesmos, só a tristeza, o horror, a agonia... Por vezes, o mesmo poeta, muda de posição, sofre uma metamorfose, e torna-se outro, como se fora duas pessoas totalmente diferentes.

     No meu poema “Ser Poeta” eu escrevo: «ser poeta é ser nada/é ser ninguém». Quer dizer: o poeta despoja-se do seu «eu», reencarna, ou assume, a vida de outrem; ignora a sua existência e realça a luta pelas vidas alheias. Será assim? Será que o poeta, como pessoa, se identifica com aquilo que escreve? / Se analisarmos a índole do poeta, tão complexa e tão simples ao mesmo tempo, verificamos que são insuficiências de vária ordem o que o leva a exprimir a sua dor ou o seu otimismo. Ninguém consegue falar, ou escrever, se não tiver algo, por pouco importante que seja, para comunicar aos outros. Se partirmos deste raciocínio chegamos à conclusão de que existe então no seu espírito um desequilíbrio qualquer, uma necessidade imparável de deitar para fora de si algo que o perturba. Ele procura compensar com palavras, sentidas, quantas vezes amarguradas, aquilo que a vida, por diversas razões, não lhe proporcionou ainda. A sua sensibilidade é afetada por acontecimentos que não controla: por fraqueza ou por integridade. O poeta, quanto a mim, é um ser íntegro, cheio de preconceitos, carregado de moral.

     Eu posso afirmar que na minha vida tudo tem sido insuficiência: de afeto, de conforto, de compreensão. A culpa pode ser repartida, equitativamente, pela sociedade e por mim próprio, que não tenho tido a coragem para suplantar a fraqueza que me envolve os músculos. Viver é fácil quando o indivíduo nasce num meio organizado e suficiente. É difícil quando as carências são mais do que as possibilidades de as diminuir. Há pessoas que gostariam de ser apenas matéria dentro da matéria, isto é, não terem nascido; porque no fundo, o que sofre é o que pensa e só pensa quem vive. E o que vive é espírito, embora feito a partir da matéria.

     A poesia escapa-se-me pelos dedos. Talvez por tão pouco perceber do assunto. É certo que li poetas como Camões, Antero, Pessoa, Aleixo, João de Deus, etc.; li, até, um tratado de poesia! Contudo, continuo a afirmar que sou um ignorante na arte de poetizar. E não penso que esteja a cair em alguma contradição. O facto de ter lido esses poetas e o tratado não me habilitam a escrever sobre tema tão volúvel. É certo que muita gente julga saber do assunto; eu não sei quase nada. Apesar desta ignorância toda eu escrevi poemas! Serão bons? Assim-assim? Maus? Os entendidos que o digam, se os lerem, o que sinceramente não espero. Todos eles se destinam à gaveta, ao bruto esquecimento. / Não tenho pretensões de vir a ser conhecido: nem como poeta, nem de qualquer outra forma. Sou demasiado bicho do mato para suportar popularidades. / Este pequeno livro, de qualidade duvidosa, tem apenas um único objetivo: deixar, não sei a quem, umas páginas escritas, lembrando-lhes que vivi e pensei. Dizer-lhes que é possível ser quase feliz, apesar das condições adversas, mesmo quando outros não conseguiram sê-lo. A felicidade, procurando-a, é passível de ser encontrada. É necessário saber quais os pontos de referência que devem guiar os nossos passos. Estradas dúbias, ou perigosas, também podem conduzir à felicidade. Deve-se evitar, no entanto, permanecer nelas. Toda a energia deve ser ali concentrada.

     A vida é energia e esta deve ser utilizada racionalmente. Desperdiçar é ir contra o próprio viver. Claro que se eu fizesse um código de vivência não se adaptaria a todos os seres vivos: o animal fisiológico cumpre regras; o animal espiritual, nem sempre.  É por essa razão que a existência do ser humano é colocada perante situações absurdas: a guerra, por exemplo! O ser humano lutando contra si próprio, contra os seus interesses comuns, contra o seu objetivo primeiro… que é sobreviver.

     Se os códigos não funcionam, é porque enfermam dos males da insuficiência: a espécie humana recusa-se a si mesma perante a natureza existencial. Ser pela vida é já querer estar. Destruir é negar a vida. Não falo do amor para connosco ou para com os outros. Que é isso? Algo abstrato e superficial se encarado levianamente.

     A vida deve assentar em princípios lógicos e concretos. Devemos viver com os outros mas não pelos outros, porque esses outros são a essência e esta deve ser respeitada, sob pena de estarmos a coartar um princípio fundamental: a liberdade de cada qual gerir a sua existência. Dentro do todo, as partes devem mover-se livremente.

     Os “outros” são a base sobre a qual erguemos o nosso “prédio” e nós somos igualmente a sua base. A guerra mina os alicerces da própria vida; corta e seca raízes de árvores que jamais darão fruto.

     E a poesia? Ia ficando esquecida! Quando leio um poema sinto que outros também tentaram dizer algo aos seus botões. O que os poetas viveram não deve servir de paradigma a ninguém. Não deve ser consentido que outros sigam os seus passos. Eles foram – e são – geralmente, elementos decadentes de uma subespécie que não pode evitar a sua continuidade. Eles foram – e são – células de um corpo que não se quer em putrefação.

     O poeta, embora decadente, tem o seu papel ativo no organismo social. É a partir dele que o “médico” diagnostica. Uma sociedade mede-se pelos seus poetas: muitos poetas, muitas células feridas. Ninguém é poeta sem causa.

     O sentimento, se não for controlado, é uma fraqueza. O ser humano deve agir pelo pensamento lógico e não pelo irracional. Eu procuro agir de acordo com a matéria viva, isto é, de acordo com a natureza e não contra ela. Não se pode nadar contra a corrente. É perigoso querer alterar o sentido da mesma. Quando se altera – seja o que for – deve-se medir as consequências.

     Não existe a certeza de nada em absoluto, que o digam os filósofos. O conceito de certeza é convencional, no entanto o ser humano não tem feito outra coisa, ao longo da sua existência, do que procurar certezas.

     Não descobriu ainda que é possível conviver com a dúvida permanente; mas, se isso descobrisse, ficava com essa certeza, o que não seria nada confortável. Então o que fazer? Viver na ignorância de que vive em dúvida ou em certeza?!

     O louco aprendeu uma coisa assaz importante: a sua sobrevivência passou a depender da sua loucura! A lucidez pertence ao seu passado. O seu mundo agora é o irreal, a fantasia.

     Eu cresci como uma planta silvestre, mas, ao invés dela, não aproveitei o sol que, afetuosamente, se oferecia. Sou um fruto sem flor, um fruto amargo. Cresci nos bosques humanos, encoberto pelas árvores mais altas.            

                               

                 O autor

  

1

 

MELGAÇO

 

 

Melgaço, praça-forte alevantada

para teu nobre reino defenderes.

Por el-rei João primeiro tomada,

por teus filhos eternamente amada,

tua seiva secularmente forjada

nos cheios peitos de tantos quereres.

 

De Portugal, Melgaço, és o primeiro

concelho da província do Minho;

com a Espanha confinas (és fronteiro),

da lusitana terra o verdadeiro

povo mui são, erguido, justiceiro,

és terra do pão e do verde vinho.

 

Teus lindos cachos de uvas, doirados,

tuas belas frutas, tão saborosas,

lendas de mil tesouros, encantados,

(diz-se, por gente moura enterrados),

quão pedaços de beleza ignorados,

águas minerais já tão famosas!

 

Vales e serras de cor verdejantes

na primavera e no quente verão!

Com seus formosos ribeiros, cantantes…

Descendo – mas, parando por instantes,

pra admirar as belezas deslumbrantes

que existem com vida em teu coração.

 

Montanhas, lá no alto, brancas de neve,

no outono… no longo e frio inverno!

Um clarão de esperança concebe

tua alma pura, que só a deuses concede

a sublime entrega. E assim precede

o nascer da vida, do sonho eterno.

  

Quando de ti, Melgaço, me afastei,

trouxe comigo a estreme saudade.

Lágrimas amargas, tristes, chorei.

Ainda choro, e sempre chorarei;

humildes versos te dedicarei,

não importa o lugar onde, ou a idade.

 

Quando teus filhos partem, também choras.

Gritas de desespero… adoeces!

Mas ouve: tu, em seu coração moras.

Não te lamentes, como as velhas noras,

não olhes no relógio da torre as horas,

porque assim, Melgaço, tu envelheces!

 

Tens, pra recordar, o exemplo de Inês

- a nossa Inês Negra, virago amada –

a que restituiu ao povo, outra vez

(no florido Abril, em Março talvez),

teu chão, genuinamente português,

o tirou das garras da Arrenegada.

 

Ergue-te! E caminha altivamente

pela senda do progresso e da virtude;

mostra ao mundo, mostra a toda a gente,

dá – a boa nova – urgentemente…

Diz-lhes: - «eu sou, do velho continente,

a força indómita da juventude…»

 

Não sou mais aquela velha esquecida,

carcomida pelo tempo, pela idade;

vestes novas, alegre, e tenra vida

  me deram aqueles, cuja guarida

sou. E eu, para sempre agradecida,

 dou-lhes amor, esperança, eternidade!»

 

(1.º prémio dos III Jogos Florais Melgaço 1991)

  

2

 

A NOSSA MENINA

 

A nossa menina é d’oiro,

é de prata, é de marfim;

é todo o nosso tesoiro…

é um encanto sem fim.

 

E quando vem para mim

parece mais uma abelha

volteando no jardim…

belos jardins de Marselha.

 

Se lhe chamo querubim

sorri, fica assaz contente;

é um anjo, serafim,

é o orgulho

 da gente.

  

3

 

ESTRANHA COISA

 

Há qualquer coisa, qualquer coisa,

que não está bem em mim!

É o espírito, frio,

frio de loisa,

é o olhar cru, olhar ruim!

 

Mas a terra nunca foi assim!

Era a frescura da hera,

o odor suave vindo do jardim;

o pastar manso da fera…

A terra era boa pra mim.

 

Então, porque há esta coisa,

 esta coisa estranha em mim?!

 

29/11/1980

 

4

 

Ó VÓS MINHA BEM-AMADA

 

Se vosso amor eu tenho,

meu amor tendes também;

e que ninguém diga, ninguém,

que vosso amor eu desdenho.

 

Eu sei porque me detenho

em vossos olhos formosos;

eu de outro mundo não venho,

são os vossos e já famosos.

 

Já os vi quase chorosos,

tão mortinhos por chorar;

estavam tristes, medrosos,

tão prestes a se entregar.

 

Meu amor não tens razão

pra mentir ou pra sofrer;

o amor nunca é um não,

é um eterno sempre querer.

 

E nesta fresca orvalhada,

em que refresco meu olhar,

eu vos quero encantar,

ó vós minha bem-amada.

 

1980

 

5

 

ADOLESCENTE

 

Quando eu era adolescente

altamente enamorado,

buscava no bosque encantado

uma certa luz reluzente

que na noite, de repente,

 brilhava, brilhava, brilhava…

nunca mais a luz se apagava!

Era a gata borralheira,

que logo pela vez primeira,

trapo estrela experimentava.

Casei com ela, e depois,

nasceram os antónios, joões,

as sofias e gabrielas;

agora já não sei qual delas

amo mais… e me reparto

em carinho, bofetões,

em meiguices, supetões,

à espera de outro parto.

Por este andar já não sei

se fiz certo ou errei

ter-me casado com ela.

O tempo, esse maroto,

que me viu, quando garoto,

apaixonado e atrevido

vê-me agora inibido,

perdido e amargurado,

solteiro, estando casado,

sozinho e acompanhado,

desejando fugir para longe,

deixar o mundo, qual monge,

dedicar-me à oração;

de gente, tornar-me cão

e de cão ave de rapina;

depois raposa ladina,

 árvore de porte distinto,

de branco tornar-me tinto,

 cor que não haja no mundo;

viver como vagabundo

na terra de meus avós,

percorrendo o infinito,

sem sair de ao pé de vós,

vestido de lenda e mito!

 

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O FIM DE UM SONHO

Conto

Por Joaquim A. Rocha 



    Aurora Germana casara nova, aos dezanove anos de idade. O seu namorado entrara há pouco tempo na Universidade a fim de tirar o curso de jornalista. Apaixonara-se loucamente por ele ainda não tinha completado os dezassete anos. Estudava na escola secundária, mas não pretendia tirar curso superior. Queria um emprego de escritório, talvez a Caixa Geral de Depósitos, uma Companhia de Seguros. Gostaria de ser mãe de dois filhos, um casal, se possível. Um emprego sem grandes responsabilidades permitir-lhe-ia arranjar tempo para tratar da casa, do marido, e dos filhos. Se fosse doutora as coisas seriam diferentes. É certo que ganharia mais, mas o dinheiro não é tudo na vida, pensava ela. O seu homem era inteligente, seria com certeza um ótimo jornalista, não teria dificuldade alguma em conseguir um lugar de jornalista num desses grandes jornais nacionais. Era um homem alto, bem-parecido, com um espírito alegre e folgazão, nada tímido, canté, não tinha quaisquer dúvidas, seria um dos melhores na sua profissão. O pouco que ela ganhasse ajudava a suportar todas as despesas. Não era uma mulher de grandes luxos, mas gostava de andar bem vestida. Ia, de quando, em quando, ao salão de cabeleireiro, mas essas despesas estavam cem por cento controladas. O Rodolfo, como se chamava o seu marido, membro de uma família remediada, também não estava habituado a despesas exageradas. O seu defeito maior era ser fumador. O tabaco e ele eram inseparáveis. Chegava a fumar dois maços, ou mais, por dia! Ela dizia-lhe constantemente:

- Amor, tu assim matas-te. Os pulmões ficam doentes e depois… E outra coisa: os teus dentes, os mais bonitos do mundo, estão a ficar amarelos, o esmalte está a abandoná-los. Qualquer dia ficas com dentes de velho!

     Ele não ligava a essas coisas. Era demasiado novo para pensar em doenças, quanto mais na morte. A vida sorria-lhe. Era casado com a mulher mais formosa do planeta, dizia ele, tinha dois filhos lindíssimos, perfeitos, a Patrícia e o Cândido, um trabalho bem remunerado, amigos sem conta; que mais ele desejava? Os leitores gostavam imenso do que ele escrevia, as suas crónicas eram lidas por milhares de pessoas. Possuía tudo de que precisava para se sentir feliz. As crianças iam crescendo, na escola eram considerados dos melhores alunos, inteligentes e perspicazes.

     A vida sorria a ambos. Ele até recebera convites para trabalhar na rádio e na televisão. Um dia, quem sabe, talvez aceitasse, pensava ele. Os portugueses só conheciam os seus textos. Se aceitasse os convites, passariam a conhece-lo fisicamente e à sua voz, grave e bem timbrada. A fama já lhe batera à porta, mas ainda não era suficiente; queria mais, muito mais. A sua esposa trabalhava no escritório de uma grande empresa; o ordenado não era grande, mas chegava. Recebia catorze meses por anos, subsídio de férias e de natal. Os colegas olhavam para ela com respeito, mas esse olhar escondia um desejo oculto, guardado a sete chaves no cofre de Pandora. Invejavam Rodolfo, um felizardo, famoso, bem pago, e com uma mulher daquelas! É certo que nem todos os humanos alcançam esse patamar de felicidade. A natureza, ou as forças divinas, vão distribuindo o bom e o mau por todos os seres vivos, mas a alguns, poucos, é-lhes dado a melhor parte, a fatia mais substancial, a sorte está quase sempre do seu lado. A inteligência, a capacidade de trabalho, a robustez física, a beleza, a simpatia, reúnem-se nesse ser, como se fosse filho de um deus poderoso. Outros, coitados, nascem com cérebros pequenos, atrofiados, fisicamente tortos, com os olhos doentes à nascença, tornando-se indesejáveis à sociedade. Fazem-se promessas a santos, aguarda-se o milagre, mas este nunca chega.

    A Rodolfo é comunicado que recebeu mais um prémio de jornalismo. Para ele é importante, não o rejeita, mas é apenas mais um. Há anos que andava no mundo jornalístico, já escrevera milhares de artigos. Estava quase com cinquenta anos de idade. O tabaco, tal como a esposa lhe dissera, e também os médicos, arruinara-lhe a saúde. Dentes naturais já eram somente meia dúzia; e esses, amarelados, queimados pelo calor do lume. A mulher raramente o beijava, tinha nojo da sua boca. Fumava diariamente três maços de cigarros! Os amigos pediam-lhe:

- «Larga o cigarro; deixa de fumar, homem; assim não vais durar muito.» Ele respondia quase sempre a mesma coisa:

- «Deixem-me em paz; o vício é meu, sou eu que o pago, e se vier a morte, que interessa, já vivi o suficiente.»                   

     Mais uns aninhos passaram. Estávamos no verão de 2019. Depois de uma consulta ao seu médico, depois de uns exames rigorosos, umas análises ao sangue, etc., eis que chega a notícia: diagnosticado um cancro nos pulmões. Uma notícia há muito esperada. Ninguém se espantou. Todos aqueles que o conheciam, colegas, amigos, família, já calculavam que isso viria a acontecer. A próstata também estava de rastos: grande como um tomate gigante. Foi internado num dos melhores hospitais do país. Os médicos especialistas, apesar de duvidarem da sua cura, tentaram tudo para o salvar. Foi operado pelos melhores cirurgiões, aguentou-se durante algum tempo, por momentos recuperava a antiga lucidez, a sua esposa visitava-o diariamente, reprovava-o com o olhar, mas as palavras saíam da sua boca doces como o mel, meigas, um sorriso triste, tentando conter as lágrimas, que teimavam inundar todo o espaço circundante.      

     O dia chegou. Um simples telefonema transmitiu a notícia: Rodolfo morrera. Fizera havia pouco tempo cinquenta e três anos de idade. Aurora Germana libertou do seu já frágil corpo toda a angústia, frustração, até ódio acumulado contra os santos e deuses que não quiseram ouvir as suas comovidas preces. E agora? Com cinquenta anos de idade, ainda bonita, mas cansada de tanto sofrimento, com dois filhos já licenciados, o rapaz já casado, pai de uma menina, a rapariga com alguns problemas, devido a desgostos de amor, enfim, um mundo de problemas que ela tentava gerir da melhor maneira, mas para os quais não estava psicologicamente preparada. Fez-se um funeral de primeira, o corpo do defunto foi sepultado em campa rasa, a seu pedido, vá-se lá saber porquê, ela, no início, ia lá todos os santos dias colocar flores na campa, iluminar aqueles dois metros quadrados, como se ele precisasse de luz para viajar pelo espaço sideral, por esse universo sem limites, conduzindo o seu veículo imaginário, através de uma estrada irreal e infinda.

     Tornou-se um tanto ou quanto azeda, de uma amargura insuportável. A sua filha, já cansada de ouvir todos os dias aqueles choros, reclamações contra todos e tudo, diz à mãe que vai viver sozinha. Quer apenas uma mensalidade que lhe permita pagar as despesas da renda, alimentação, etc. Logo que termine o curso vai trabalhar, ganhar o seu ordenado, a fim de não precisar do dinheiro da progenitora. Assim aconteceu. Patrícia deixou a casa onde vivera aqueles anos todos, o seu lindo quarto, a sua casa de banho, com um espelho gigante, no qual diariamente admirava, tal como Narciso, o seu belo e escultural corpo. Graças às aulas de psicologia e de filosofia, tudo aceitava de boamente, apesar de saber que dificilmente teria aquelas instalações luxuosas na sua futura casa. A recompensa, porém, saltava à vista: viver sozinha, sem aturar quem quer que fosse, sobretudo a sua mãe, a resvalar paulatinamente para o fanatismo, a raiva contra este mundo prenhe de contradições. O seu pai suicidara-se lentamente, ao longo dos anos; o seu irmão casara, tinha a sua vida, os seus próprios problemas; ela agora, tomando esta difícil decisão, tornaria a sua vida mais suportável. Havia de encontrar um jovem que gostasse dela, que a fizesse feliz, quem sabe?

     Aurora Germana, agora sozinha em casa, naquele casarão, com duas grandes salas, seis quartos de dormir, um grande quintal e jardim, deixou de ir todos os dias ao cemitério; ia apenas duas ou três vezes por semana. Junto à campa, onde o retrato do marido defunto sobressaía, resmungava sempre:

- «Malandro, arruinaste a tua e a minha vida; tão bem que a gente vivia, não nos faltava nada, criamos os filhos na maior fartura e conforto. Tu destruíste tudo, até a minha vontade de viver. Que me interessa ter aquela enorme casa, todo o conforto do mundo, se não te tenho a ti a meu lado? Agora até a nossa filha me deixou; não suporta a minha presença, a minha tristeza, a minha resmunguice permanente, o meu mau humor. E tudo por tua causa, por causa do teu maldito vício. Se pudéssemos voltar atrás eu não permitiria que tu fumasses. E logo agora que estavas a terminar o teu segundo romance, quanto a mim melhor, muito melhor do que o primeiro. Podias ter sido um grande escritor, ser famoso como Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco; mas não, preferiste o maldito prazer, o assassino maior desta sociedade. E depois vinha a sede, mas não bebias água, não, eram litros de cerveja diariamente. Tolo! Tolo é que tu és, o que foste. Rejeitaste a saúde, fugiste dela, por causa do maldito vício. E agora? Estás aí, a ser devorado por milhões de bichos!»

     Após este discurso, retirava-se para casa, deitava-se na cama e adormecia. Tinha sonhos terríveis: monstros assaltavam-lhe a casa, matavam-na, cortavam-na aos pedaços, que metiam em sacos pretos e malcheirosos.                      

     No natal de 2019 não há festa em sua casa. O filho tentou levá-la para a sua vivenda durante uns dias, mas ela recusou veementemente. Festejar o quê? O nascimento de um deus que não a soube proteger; de um céu que não atendeu as suas preces, tão sentidas, tão verdadeiras, tão banhadas em lágrimas. Os santos esqueceram-na; tantas esmolas em dinheiro ela deu aos padres católicos para rezarem pelo seu doente marido. Provavelmente não o fizeram, dinheiro é dinheiro, não fala! Estava a ficar descrente. As religiões proliferam por todo o planeta, os seus arautos prometem milagres, Jesus Cristo transformou água em vinho, curou a vista de cegos, os povos acreditam em todas essas manifestações divinas, vão a Lurdes, a Fátima, etc., a pé, de carro, de avião, solicitam a cura dos seus doentes, queimam velas, dão dinheiro, tudo aquilo que têm, mas infelizmente nada acontece. Os padres das variadíssimas religiões, nas suas homilias, pregam a paz, a concórdia, mas sabe-se que, salvo raríssimas exceções, todas essas palavras não passam de um conjunto de sons, buscando eco na montanha rochosa, onde os catos crescem desmesuradamente. São trechos de peças de teatro, ensaiadas, preparadas com todo o rigor da arte teatral. A sua principal fonte é a bíblia, ou outros livros de cariz religioso, escritos por várias mãos ao longo de séculos. A fantasia predomina nesses textos. Alguns, muito bem elaborados, contam belas histórias, semelhantes às da mitologia grega, romana, etc. Adão e Eva, Sansão e Dalila, Jesus e Madalena, Tristão e Isolda, comovem-nos, mexem com os nossos sentimentos, tornam-nos crianças, num mundo adulto, semeado de crimes e de paixões violentas. Cervantes tinha razão quando criou a figura de Dom Quixote: um sonhador, cujos sonhos desejava transformar em realidade. Serviu-se de um idiota, Sancho Pança, para o ajudar a vencer os seus inimigos, moinhos de vento e afins. Dulcineia, uma humilde camponesa, era a sua princesa, a Julieta do Romeu. Dom Quixote ficou doido porque leu demasiados livros de cavalaria; nós, povos deste planeta chamado Terra, estamos a ficar tontos porque ouvimos demasiados sermões e palestras inflamadas, tudo oco e sem sentido.             

  O ano 2020 chega. Para alguns traz novas esperanças, sonhos de grandeza, de bem-estar. Para outros, é a continuação de uma pobre vida, cheia de obstáculos, de azares inultrapassáveis. O turismo em Portugal vai crescendo como labaredas na floresta, após um incêndio naquele imenso mato amarelo, seco, com troncos altos como gigantes. Os incêndios em Portugal, devido à sua grandeza, transformaram-se em polos de interesse: por um lado os madeireiros; por outro lado os corpos de bombeiros, voluntários e profissionais. Alguns políticos veem as suas carreiras interrompidas devido ao fracasso no combate a esse flagelo. Há sempre falta de equipamento, de pessoal, etc.; os comandantes são acusados de não saberem coordenar as operações. Enfim, em «casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.»          

     Em março desse ano de 2020 surge a terrível notícia: um vírus, pequeno e façanhudo, que residia na China há milhões e milhões de anos, apenas conhecido pelos cientistas dessa especialidade, residindo habitualmente em sítios sombrios, “em casa dos morcegos”, espalha-se pelo planeta através do ser humano. Homem, ou mulher, que fosse infetado por esse minúsculo ser, invisível a olho nu, logo transmitia a outro ser humano, através da boca, ou nariz, a doença, designada COVID 19. Em virtude de toda a gente, ou quase toda, no século XX e XXI, viajar, é óbvio que o bicharoco se espalha rapidamente por todos os países e continentes. Os médicos, os enfermeiros, procuram rapidamente suster a pandemia, mas isso torna-se impossível. Milhares e milhares de pessoas são infetadas, sobretudo as mais idosas, incapazes de resistir a esse animalzinho, um predador que tudo destrói no seu percurso de morte, mais feroz do que um tubarão assassino. Os políticos tudo fazem para minimizar os prejuízos causados por essa “fera asiática”, mas as economias dos países, antes fortes, tornam-se caravelas ao sabor do mau tempo, num mar agitado. Os hospitais, centros de saúde, e também as clínicas, enchem-se de doentes; os lares, onde a gente da terceira ou quarta idade aguardam a hora da partida, são fortemente atacados, sobretudo devido às visitas, pelo bichinho gorduroso, as mortes acontecem com regularidade, quase naturalmente. Compram-se milhões de máscaras de tecido a fim de todos as usarem quando saem à rua. Protegem sobretudo a boca e o nariz, diz-se. O tempo vai passando e o bicho permanece. Subsistem dúvidas. Será que isto terá um fim? Quem sobreviverá? Há quem diga que, tal como os tremores de terra, haverá réplicas. As igrejas cristãs, e outras, estão com receio que as pessoas deixem de acreditar nos santos e em Jesus, etc. Fátima tornou-se, no século XX, no peteiro da igreja católica portuguesa. No ano de 2020, por causa do vírus, nada, ou pouco rendeu. Os clubes de futebol, bem assim como de outras modalidades, estão com graves problemas de receita. A escandalosa venda de jogadores estagnou. Quanto tempo mais durará esta incerteza? Os bancos, companhias de seguro, restaurantes, livrarias, teatros, cinemas, o comércio em geral, quase paralisaram. A natureza está imensamente descontente com a espécie humana: os oceanos, os mares, os rios, estão poluídos, as florestas vão a pouco, e pouco, desaparecendo, os animais selvagens sentem-se encurralados. Os automóveis, os aviões, os barcos, etc, tudo invadem, ocupam tudo, são os senhores do planeta. Ao cidadão comum, às aves, aos peixes, está a faltar o espaço vital. As gaivotas, esfomeadas, vêm até à cidade em busca de alimento; por isso, as andorinhas e os andorinhões, grandes comedores de insetos, por causa delas, pois são suas vítimas, já mal se veem no meio urbano.                             

     Aurora Germana, como toda a gente, ficou com medo. Era uma mulher de meia-idade, ainda lhe restavam uns anitos para ocupar o seu lugar na barca de Gil Vicente, não estava nada interessada em acabar seus dias devorada por bichinhos de meia tigela. Perto de sua casa morava uma brasileira, alta, forte, bonita, sempre bem-disposta, mais nova do que ela uns bons dez anos. Falava-se que tinha um pacto com o demónio, ou coisa do género. Constava por ali que ela falava com os espíritos dos mortos. Através das cartas adivinhava o futuro das pessoas; tinha uma bola de cristal, búzios, etc. Estava bem apetrechada para adivinhar o passado e o futuro de todos. Quanto a dinheiro, recebia o que lhe dessem, não possuía tabela de preços. Certo dia, Aurora não hesitou. Mandou chamá-la, apenas para ter uma simples conversa com ela. Não queria envolver-se demasiado em negócios de espiritismo e bruxaria. Segundo lhe tinham dito, algumas amigas, estas entrevistas por vezes acabavam mal. O diabo, ou lá quem era, depois de invocado, entrava em ação, e naquela sala tudo se mexia, tudo rebolava pelo chão, pratos, chávenas, pires, os cabelos ficavam de pé. A brasileira não tinha aspeto de bruxa, mas nunca fiando. A metamorfose dá-se de um momento para outro. Os espíritos falam por intermédio da sua boca, a médium, com vozes roufenhas, normalmente agressivas, respondendo ao que se lhe perguntou. Há quem afirme que tudo isto não passa de uma pequena peça de teatro, cujo ator principal é a tal mulher, neste caso concreto, a brasileira. E os padres? Alguns deles são exorcistas. Ficção? Realidade?

     A estrangeira chegou meia hora mais tarde do que o previsto, às dezoito horas em ponto. Aurora pediu-lhe que fizesse o favor de entrar. A brasileira não se fez rogada. Estava habituada a estes rituais, ao pavor dos clientes, quando penetrava em casa, àquele medo que jamais se extingue. Conduziu-a à sala de estar. Uma mesa, com quatro cadeiras, um sofá, e pouco mais. No meio da mesa jazia um jarro com flores naturais: rosas, orquídeas, etc. A brasileira pediu licença à dona da casa e sentou-se numa das cadeiras. O jarro das flores foi retirado, pois aquele espaço seria necessário para os fins em vista. A mulher colocou as mãos sobre a mesa, umas mãos grandes e magras, brancas como a cal, e disse à cliente:

- «Minha senhora, antes de mais nada vai tomar um comprimido a fim de se acalmar. Eu estou pronta para começar a sessão; não se assuste. O que vai ouvir seguidamente são vozes de outro mundo, de pessoas que já morreram, mas em princípio não fazem mal a ninguém. A senhora limita-se a fazer as perguntas e ele, ou eles, responderão. Já sei que a senhora, por causa do novo vírus, ou corona vírus, como é designado, não tem podido visitar o seu defunto marido no cemitério, limpar a campa, pôr-lhe flores, mas agora, caso o queira, vai falar com ele. A voz não será cem por cento igual, apenas semelhante, porque eu sirvo de intermediária, empresto-lhe as minhas cordas vocais, mas pode crer que se trata do seu marido. Quando a senhora quiser, diga; eu estou preparada.»

     D. Aurora Germana hesitou. Tremia de medo, apesar do comprimido servir para a acalmar. Se ainda tivesse ali alguém conhecido, uma pessoa da sua inteira confiança, mas não; estava ali sozinha com uma estranha, forte como um touro, embora simpática. Estaria ela a meter-se num grande sarilho, cujo resultado não se podia prever? Mas como recuar neste momento? Fora longe de mais. Nada planeara, fora tudo feito em cima do joelho; agora estava ali, indecisa, medrosa, aterrorizada. Falar com um morto? Com o seu Rodolfo? Ela, provavelmente, não aguentaria tal sensação. No entanto, decidiu-se:

- «Vamos para a frente; quero que isto termine o mais rápido possível.»

     A vidente arregaçou as mangas da camisola, ou blusa, passou as mãos na garganta, afinou a voz, e disse:

- «Ó vós, que estais pairando sobre oceanos e mares, sobre montanhas intransponíveis, espíritos poderosos, companheiros dos anjos, trazei até nós o marido de Aurora Germana, de seu nome Rodolfo.»

     A brasileira pousou sobre a mesa os seus longos braços e mãos… e esperou. Às tantas, a mesa começou a bulir, como se alguém a estivesse empurrando. Uma voz, quase sumida, vinda de um túnel ou de uma profunda mina, diz:

- «Eu sou quem invocaste. Que me queres?»

     Aurora, até ali calada, pergunta-lhe:

- «Rodolfo, és mesmo tu? Onde estás? Eu posso ver-te?»

     Comovida, as lágrimas a escorrem-lhe pela cara abaixo, aguarda a resposta às suas perguntas. A voz de outro mundo, responde:

- «Sou eu, em vida chamado Rodolfo. Eu estou em toda a parte e em nenhuma. Os vivos não me podem ver, porque habitamos espaços diferentes.»

     Estava terminada a sessão. A médium estava exausta. Esta atividade dava cabo dela, mas o dinheiro que recebia era compensador. Aurora chorava. A voz do defunto era de facto parecida, mas não aquela voz que ela adorava ouvir. Quando sonhava com ele, e isso acontecia amiúde, ouvia a sua voz, a genuína, aquela de antigamente, antes de ele ficar doente. Esta, vinda não se sabe de onde, podia ser uma reles imitação. Talvez não contratasse mais a brasileira. Quem sabe se ela não seria uma atriz de segunda categoria, extorquindo dinheiro aos ingénuos clientes? Vozes de outro mundo!                      

    A brasileira abriu os olhos, levantou-se da cadeira, e disse à dona da casa:

- «A senhora hoje teve sorte; nem sempre isto corre tão bem. Por vezes os espíritos zangam-se, e quando isso acontece vai tudo pelos ares: mesa, cadeiras, tudo.»

     Aurora, agora um bocadinho mais calma, reage a essa notícia.

- «Eu sou católica, nasci nesta religião, cresci acreditando em Jesus Cristo, em seu divino pai e no espírito santo, na sua santa mãe, Maria. Confesso-me regularmente ao senhor abade, rezo todas as noites ao senhor, pratico todos os atos da igreja. O que eu fiz hoje nada tem a ver com a minha religião. Quis apenas verificar, por mim própria, se era possível falar com os mortos. Pelos vistos, é. No entanto, restará sempre a dúvida. A senhora diz que eles pairam sobre oceanos, etc. Como é que a senhora sabe? Esteve lá para ver? São os mortos que o afirmam?»

     A brasileira reage:

- Minha cara senhora: eu respondo às suas perguntas, mas quanto às dúvidas permanecerão na sua mente para sempre. O criador do universo, da vida, de tudo que se vê e não vê, incluindo os seres humanos, já existe desde tempos imemoriais. Ninguém, cientistas ou não, pode determinar a sua idade, a sua forma, o seu quotidiano. Antes da nossa espécie, ser algum questionava a sua existência, o seu domínio absoluto sobre as coisas. O homem, cuja criação é recente, cerca de três milhões de anos, foi evoluindo, desenvolvendo o seu cérebro, foi olhando para o céu, interrogando as estrelas, afastando-se cada vez mais das outras espécies, domando algumas delas, descobrindo alguns segredos da natureza, julgando-se um pequeno deus, pondo em causa a sofisticada máquina universal. Através da investigação foi descobrindo remédios para curar certas doenças; inventou barcos para navegar sobre as águas profundas; inventou aparelhos para voar como as aves; e agora tenta deslocar-se até aos longínquos planetas, assumindo-se como os senhores do universo. O senhor Deus, criador do céu e da terra, não permitirá tal coisa. Castigará severamente quem ouse enfrentá-lo; a sua capacidade de destruir é tão grande como a de construir. E como é que eu sei estas coisas? Há seres que foram dotados pelo Senhor para o servir, para serem seus mensageiros, seus porta-vozes. Nós conseguimos ver através do vácuo; os nossos olhos veem mesmo no escuro e as distâncias incalculáveis; os nossos ouvidos ouvem praticamente tudo. Fomos dotados pelo Senhor para ajudar quem precisa, apesar do ser humano ter alguma liberdade de ação, vulgarmente conhecida por livre arbítrio. Deus dá a saúde, mas também a doença, para que os humanos saibam que a liberdade, o bem-estar, o sofrimento, fazem parte de uma vida, que de uma maneira geral é curta, somente Deus é eterno. Criaram-se as religiões a fim de minimizar os efeitos do sofrimento; a submissão dos humanos conta imenso para o Senhor. O homem arrogante torna-se perigoso aos olhos do omnipotente. Esses seres arrogantes, graças às suas fortunas, que cresceram à custa do pobre trabalhador, julgam-se importantes, capazes de enfrentar a força divina. Por isso o grande Deus manda para este planeta pequeninos seres, por exemplo vírus, a fim de mostrarem a esses senhores arrogantes, que são frágeis, incapazes de sobreviverem a um bichinho tão minúsculo, que só por meio de grandes lentes se conseguem ver. A força de Deus, o seu poder ilimitado, não concede benesses a quem não as merece, a quem não crê na sua grandiosidade. A senhora é católica, acredita em Jesus, cumpre todos os preceitos, as regras, leis emanadas do Vaticano, mas isso por si só não chega. Submeta-se ao Senhor, à sua Vontade, siga as suas instruções, e o seu espírito ficará sossegado. Existem transformações, ao longo da vida e depois da morte física; ninguém o pode negar. As estrelas, com o tempo, extinguem-se; outras nascem para iluminarem os planetas, os quais não têm luz própria. Está tudo otimamente organizado, tudo perfeito. E isto é obra de Deus.»                

     Aurora ofereceu bastante dinheiro à cidadã brasileira e ambas se despediram. A brasileira diz-lhe:

- «Agradeço a sua oferta, a sua generosidade. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. Estarei sempre às suas ordens.»

     O tempo foi decorrendo, na sua velocidade intemporal, e Aurora, depois da pandemia ter desaparecido, continuou a tratar da campa, mas agora só um dia por semana, quase sempre ao domingo. Tinham decorrido três anos depois da morte do marido, uma eternidade! Começou a mirar-se mais ao espelho. Apesar dos seus cinquenta e tal anos de idade, ainda mantinha alguma beleza. Bem arranjada, lábios pintados, cabelos tratados no salão de cabeleira, até parecia mais nova. Havia um colega, viúvo, mais ou menos da sua idade, que a olhava com alguma atenção. Convidava-a para irem tomar café, conversavam sobre diversos assuntos, mas não ousavam declarar-se. Ela, uma certa vez, disse-lhe, quase a brincar:

- «Ai eu, não sei se voltarei a casar; estou bem assim, não tenho de aturar quem quer que seja; ainda tenho a minha mãe viva, tenho dois filhos e netos. O mais certo é deixar-me estar como estou.»

     Ele, cujo nome ainda não fixei, também com um sorriso nos lábios, especula.

- «Eu não conheço o dia de amanhã. Não imagino sequer o que me poderá acontecer, mas desde já confesso: gostaria de encontrar uma mulher que me estimasse, que fosse meiga, minha companheira leal nas horas boas e más. Sinto-me só, triste, naquela casa tão grande. Os meus filhos casaram, estão no estrangeiro, apenas os vejo uma vez em cada ano. Já tenho netos, mas nem português falam! Enfim, sinto mesmo necessidade de ter a meu lado uma parceira, uma verdadeira amiga.»

     Sugere ela, com alguma ironia:

- Põe um anúncio no jornal, talvez alguém do sexo feminino te responda.      

- «Isso é perigoso. Imagina que me aparece uma galdéria, armada em boa senhora. Nunca se sabe o que pode acontecer. A minha esposa era uma pessoa educada, carinhosa… Tinha os seus defeitos, é claro, como toda a gente, mas as suas virtudes eram enormes, gigantescas. Sinto muitas saudades dela, fazia-me imensa falta, mas Deus não quis que ela vivesse mais. Levou-ma para o céu, que descanse em paz.»    

     Voltaram ao trabalho de escritório, pensativos. Quem sabe se esta amizade de agora não se transformaria em amor.

     O destino por vezes é caprichoso. O tal colega de Aurora, chamado Rafael, um dia pediu a Aurora:

- «Sei que vais quase todos os domingos visitar a campa de Rodolfo. No próximo domingo gostaria de ir contigo. Não me esqueço que nós os dois, eu e o teu marido, fomos amigos durante algum tempo, sobretudo antes de ele ser famoso; depois de isso acontecer, deixou de ter tempo para mim. Eu compreendi, e jamais o critiquei por tal atitude. Provavelmente eu teria feito o mesmo. Permites que te acompanhe?»

     Aurora meditou um pouco e respondeu assim à pergunta:

- «Percebo perfeitamente a tua intenção. Nós já nos conhecemos há muitos anos, simpatizamos um com o outro, sempre nos respeitamos. Agora somos viúvos, temos pouco mais de cinco décadas de vida, vivemos sós, a solidão não é boa companhia. Está bem, no domingo, por volta das quatro da tarde, encontramo-nos no cemitério. Leva rosas vermelhas, as preferidas de Rodolfo.»  

     No dia combinado lá estava, à porta do cemitério, o senhor Rafael. Tinha vestido um fato escuro, uma gravata a condizer. O seu cabelo ainda não era completamente branco, a cara estava bem barbeada. Um pequeno bigode dava-lhe aquele ar sério, de pessoa honrada. Não fumava, bebia apenas um copo de vinho à refeição. Era um manga d’alpaca queirosiano. A sua cultura era média, não cometia grandes erros gramaticais ao falar. Tinha somente o quinto ano do liceu, mas gostava de ler, sobretudo romances e livros de história. Costumava dizer: - «Cuidado comigo! Em história, ninguém me bate; fui um dos melhores alunos da escola.» Exagerava um pouco, mas de facto sabia bastante nessa área do conhecimento, o que é raro neste país de poetas e analfabetos. Finalmente chega a tão desejada Aurora. Vinha toda aperaltada. Um vestido pouco decotado, descendo abaixo dos joelhos, uma cor discreta, um casaco de lã ou algodão sobre as costas, o cabelo muito bem arranjado, os lábios pintados, mas sem brilhos excessivos, quase imitando a cor natural. Ele recebe-a com carinho, quase como se fossem namorados. Cumprimenta-a:

- «Boa tarde, Aurora. Estás muito bonita. Não sou homem de grandes discursos, como sabes, a timidez acompanhou-me ao longo dos anos, mas sei apreciar a tua beleza. Eu sinto-me feliz por estar a teu lado. Esperemos que este seja o primeiro dia da nossa longa caminhada.»          

- «Boa tarde, Rafael. Vamos falando e caminhando, a fim de visitarmos a campa onde está sepultado o Rodolfo. Não será fácil para mim aceitar outro homem na minha vida. É certo que o Rodolfo morreu. Jamais o verei. Jamais dormiremos na mesma cama. Também é verdade que ainda não sou uma velha caquética. Posso, mas não sei se deva, encetar uma segunda vida de casada. Por mais que a gente se esforce, tente ignorar, tu serás sempre o marido de outra mulher, e eu serei a esposa de outro homem. Até é possível que as coisas deem certo. Quem sabe? Se o casamento não resultar, separamo-nos; o divórcio, em nossos dias, é facílimo. Tudo bem! Contudo, as feridas deixadas por um fracasso desta natureza eternizar-se-ão. Eu entreguei ao Rodolfo não só o meu corpo mas também a minha alma, a minha mente, tudo aquilo que eu possuía. Contigo será diferente: entregar-te-ei o que resta do meu corpo e pouco mais. Os meus filhos não te receberão como pai nem como padrasto, serás para eles um intruso. Eu não poderei tratar os teus filhos com carinho, pois não sou hipócrita. Vamos tentar viver juntos, sem casamento, envelhecer juntos, cuidar um do outro. Em termos financeiros não há qualquer constrangimento: eu tenho o meu ordenado, uma razoável pensão de sobrevivência, ou viuvez, uma boa vivenda; tu tens também o suficiente para te manteres sem precisares do apoio de ninguém. Hoje já podemos dormir juntos em minha casa; não na cama onde me deitava com o Rodolfo, ali não; nem no mesmo quarto. Esse quarto é a minha capela, o meu refúgio: ali rezo, ali choro, ali rogo pragas aos santos, aos demónios, até a Deus quando estou muito zangada. Tu, com o tempo, vais-te adaptando à minha maneira de viver; eu vou-me esforçar bastante para não te desiludir. Concordas?»          

     Gabriel não esperava aquele discurso: tão frio, tão materialista, tão pensado; mas, por outro lado, pensou que Aurora estava a ser sincera, verdadeira. Amara Rodolfo até ao âmago. Ele correspondera a esse amor, mas cedera ao vício, destruindo dessa maneira a sua vida e a dela. Ela agora queria reagir, não se deixar abater pela adversidade, evitar a loucura. Não amava o seu colega, ninguém substituiria o defunto marido, mas simpatizava com ele, reconhecia nele virtudes que nem todos as têm, um homem sério, bondoso, capaz de se sacrificar pelos outros. Na sua juventude fora bombeiro voluntário e nadador salvador. Estimou a esposa, educou os filhos, preparou-os para a vida. Agora, com mais de cinquenta anos de idade, viúvo, os filhos casados, desejava envelhecer ao lado de uma mulher honesta, que o tratasse bem. Depois de meditar alguns segundos, ou minutos, respondeu-lhe:         

- «Eu não quero ser o teu dono, o teu senhor. Há quase trinta anos que trabalhamos juntos, nunca nos zangamos, jamais dissemos mal um do outro, o respeito foi mútuo, assumimos as nossas responsabilidades de cidadãos normais. Formamos uma boa equipa de trabalho, ajudamo-nos uns aos outros, as chefias gabaram sempre o nosso comportamento, o nosso método de trabalho. Tudo continuaria assim se nós os dois não tivéssemos ficado viúvos. Infelizmente aconteceu. Eu sempre te admirei como mulher e como colega. Depois de ambos estarmos viúvos, comecei a olhar para ti de outra maneira: a amizade foi-se transformando em amor. És a mulher que eu desejo para companheira, quero estar contigo vinte e quatro horas por dia; mas, como não sou egoísta, aceitarei as tuas regras, a tua maneira de ser. Lentamente, sem pressas, vais gostando de mim, estimando-me, conhecendo-me melhor.» 

    Depois destes discursos comoventes e de colocarem as flores na campa do defunto, dirigiram-se a um restaurante da cidade e jantaram. Trocaram impressões sobre diversos assuntos, e às tantas chamaram o empregado para pagarem a conta. Ele adiantou-se, puxou da carteira, mas…

- «Eu falei-te em regras. As contas de restaurante serão pagas pelos dois – “contas à moda do Porto.” Tu pagas aquilo que consumires e eu pago também o que consumir. Ninguém ficará prejudicado, nem inibido; comes o que gostas e eu faço o mesmo.»

- «Tens razão. Aceito plenamente. Assim cada um de nós escolhe o que mais lhe agrada; no final paga apenas o que comeu e bebeu. Ótima ideia.»

     O tempo, esse ditador invisível e implacável, acelerou a sua marcha. No ano de 2050, no mês de junho, encontrei-os num belo jardim da cidade. Estavam de mãos dadas, sentados num banco. As suas bengalas dormiam sossegadamente. Conversavam e sorriam. As folhas das árvores, as pétalas das flores, divertiam-se com o vento. Aquele sol de junho abençoava aquela união.