LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
XXII
Enquanto a
chuva cai, o carrasco aguarda impaciente o condenado.
Como repararam, o tal Guilherme era um
vadiote e assim eu vi-me forçado a escolher outra atividade. Neste momento
vamos os dois, eu e a minha mãe, a caminho da oficina do senhor Hilário,
pedir-lhe que me aceite como aprendiz.
- Hilário, o meu
Cândido pode ficar aqui a trabalhar contigo, ensinas-lhe a arte?
- E tenda?
- Isso acabou; quem
sabe daquilo é o tio Acúrsio, já não vivo com ele, como sabes. Eu nunca entendi
nada de negócios, cada qual nasce para o que nasce, eu não nasci para
tendeira.
- Então ele pode ficar
a trabalhar comigo, mas não lhe posso pagar nada, quando souber alguma coisa da
arte logo se vê.
- Só te peço é que o
deixes ir engraxar aos dias de feira para ganhar algum dinheiro.
- Está bem, até pode
levar daqui essa caixa, enquanto não mandas fazer uma, é raro servir-me dela, e
na primeira semana dou-lhe a pomada e a tinta e empresto-lhe as escovas; até lá
vai treinando.
- Obrigada; que Deus te
pague. E tu já sabes: ficas aqui com o senhor Hilário, obedeces às suas ordens,
e não lhe faltes ao respeito; fazes tudo o que ele mandar.
- Está bem, mamã; até
logo.
*
- Chega aqui, rapaz;
senta-te ali naquele banquinho. Tens de estar na oficina às oito da manhã,
largamos ao meio-dia e depois voltamos a pegar ao trabalho às duas da tarde até
às oito da noite. Se te portares bem não perderás nada comigo. Agora vais endireitar
essas tachas, cuidado com os dedos, agarras aí no seixo e no martelo e com
jeitinho vais endireitando, olha como eu faço, vês, não custa nada.
- Já dei cabo dum dedo!
- Ah! Ah! É assim que
se começa, agora vais ter mais cuidado.
*
- Tens catorze anos de
idade, estás a trabalhar comigo há dois anos, não te dei nada até agora, a não
ser esses sapatos que já não me serviam, malditos calos, estão-te grandes, mas
que se pode fazer, tens os pés pequenos, sais à tua mãe. Bem, acho que chegou a
hora de te dar qualquer coisa, tu merece-lo, vou começar a pagar-te 2$50 por
dia, não é muito, mas é melhor do que nada, eu estive quase três anos como
aprendiz sem receber um centavo, é certo que me davam de comer e me deixavam
dormir no palheiro, mas isso era porque estava longe de casa.
- Obrigado, senhor
Hilário, já ajuda, sabe que a minha mãe, coitada, anda sempre na aldeia, lá vai
trazendo o que lhe dão.
- A tua mãe se tivesse
juízo ganhava bem, é uma boa cozinheira, a melhor do concelho, faz um arroz de
lampreia e um cabrito no forno que é de se lhe tirar o chapéu, é comer e chorar
por mais, um cozido à portuguesa como nunca comi igual, mas a pinga dá cabo
dela, o maldito vício, eu também lhe bebo, mas só nos fins-de-semana, sobretudo
ao domingo de tarde, ai não, nos outros dias tenho que governar a barca, que
ninguém dá nada sem trabalhar, mas a tua mãe é parecida com a minha, umas
desgraçadas, um homem faz muita falta numa casa, não casaram e acabaram assim,
que o vinho não tem espinhas, escorrega pela goela baixo que é uma maravilha,
um mimo, tem de se lhe pôr travão, mas elas não são capazes.
- Sabe que às vezes nem
ceio, tenho de ir esperá-la, nem sequer sei por onde vem, quando a encontro vem
a cair, ralho-lhe, mas ela nem me ouve, se eu tivesse pai seria diferente, mas
não tenho.
- Eu também não tive, a
minha mãe dizia que eu sou filho de um tal doutor António, nessa altura era
criada dele, aproveitou-se, o vilão; eu nunca o vi, nem sei se era gordo ou
magro, mas olha, vamos ganhando para a bucha, não preciso do filho da mãe para
nada, se agora aparecesse nem lhe falava, bandido.
- Por que é que os
homens fazem os filhos nas mulheres e depois não casam com elas?
- Por vaidade, bazófia,
para dizerem aos outros que são machos, eu também fiz uma filha à Cremilda e
não casei com ela, mas olha que a culpa não foi minha, foram os pais dela que
se opuseram, disseram que eu era muito pobre, e insultaram a minha mãe, muita tareia
dos pais a rapariga levou por minha causa, uma vez iam-na matando, eu
afastei-me para não haver mais chatices, ainda hoje gosto dela, e a filha é
minha, olha que é muito bonita.
- E parece-se com a sua
mãe, é a cara dela.
- Aí tens razão, é a
cara chapada da minha velhota. O que me custa mais, até tenho remorsos, é saber
que ela ficou aleijada por causa do parto, não correu nada bem, a criança
estava numa posição esquisita, a parteira viu-se grega para a tirar cá para
fora.
*
- Senhor Hilário, há
três anos que trabalho consigo, tenho quinze anos, acho que já é altura de
ganhar mais do que 2$50 por dia, o senhor Cerdeira encontrou-me e disse-me que
se eu quisesse ser empregado dele que me dava 5$00, eu respondi que primeiro
teria de falar com o meu patrão.
- Eu não te posso dar
esse dinheiro, se ele to dá é lá com ele, é rico, dar a um aprendiz 5$00, onde
já se viu, tu se quiseres ir vai, és livre, não mando em ti, ensinei-te o
melhor que pude e soube, tu até tens jeito para a profissão, mas essa quantia não
te dou. Quando começas a trabalhar com ele?
- Se o senhor Hilário
não se importasse começava já no princípio da semana que vem. E desculpe.
- Primeiro acaba esse
serviço que tens aí; põe os saltos nesses sapatos de senhora. Vai-me custar, já
estava habituado contigo e ainda somos parentes afastados.
- Depressa arranja
outro, não falta quem queira aprender a arte.
- Não é bem assim,
agora os pais vão para França e já todos pensam que são lordes, mas vem para cá
o Crispim, a mãe já outro dia me falou, morreu-lhe o pai há pouco tempo, a mãe
está a servir na casa do senhor Octávio; coitada, ficou viúva muito nova, o que
vale é que só tem aquele filho, mas ele parece que não gosta muito de vergar a
mola, só porque o padrinho é comerciante…
- Ouvi dizer que é
doente, por isso é que não aprendeu uma profissão até agora.
- Para trabalhar são
todos doentes, mas para gozar a vida e encher a pança estão saudáveis, olha que
ele não tem cara de doente.
- Esperemos que se
adapte; é importante na vida ter-se uma profissão, mesmo que não dê para
enriquecer.
XXIII
Na alcateia
o lobo uiva e a presa geme
Os jovens, tarde ou cedo, uns mais cedo e
outros mais tarde, iniciam a sua prática sexual. Nas terras do interior existe
quase sempre uma desgraçada, geralmente abandonada pelo namorado, ou pelo
amante, e depois pela família, com uma criança nos braços, que virá a ser a
mestra de todos eles. É o caso:
- Queres ir esta noite
à Corga de Cima?
- Eh, pá! Aquilo de
noite é perigoso, não há luz, o regato leva muita água, estou com receio, ainda
sou tão novo!...
- Temos dezasseis anos,
somos uns homens; todos vão lá, só leva 2$50, já combinei com os outros, saímos
do Terreiro às nove em ponto, quem não aparecer não vai.
- Quem são os outros?
- O Joca, O Rina, o
Afonso, o Barata…
- Parece um regimento;
nunca mais de lá saímos!
- Aquilo é rápido, eu
já lá fui uma vez, levou-me lá o meu primo Teotónio.
- E não faz mal? Ouvi
dizer que aquilo era uma nojeira.
- Tens é de mijar a
seguir, senão podes apanhar uma doença chamada “galiqueira”; nós nem a vemos,
ela deita-se numa palhas secas, em cima duns sacos de lona, abre as pernas e
pronto, às escuras, é um ver se te avias, tudo num ápice.
- Não sei se
aparecerei; até porque a minha mãe se souber dá-me uma soberba coça, é cá uma
bronca!
- Eh, pá! Alguma vez
tens de começar, ou queres que te chamem aquele nome feio? Ela está lá para
isso mesmo, agora anda prenha, a filha da mãe, dizem que é melhor ainda, o
filho é do Tebas, o figurão está em cima dela quase meia hora, assim qualquer
um a enchia.
- O primeiro bebé que
teve – era ela nessa altura uma linda rapariga – é, segundo dizem, do senhor
Santos, o da drogaria; não quis casar com ela, foi pena, mas ela rogou-lhe
todas as pragas do mundo.
- Pragas?!
- Sim; pediu a Deus e a
todos os santos que o primeiro filho do casamento dele tivesse uma morte
violenta, para que assim soubesse o que era sofrer.
- E morreu mesmo,
coitadinho, ainda não teria cinco anos de idade, era tão bonito, era a criança
mais linda da Vila, até parecia uma menina, ou um anjo.
- E sofreu muito antes
de embarcar para o céu, até ficou com o rosto desfigurado de tanto padecimento.
- Dizem que o Luís da
Peneiras viu o funeral antes de ele se realizar! Coitadito, não teve culpa dos
erros do pai, de certeza que a sua pequenina alma está em repouso.
- Cá se fazem, cá se
pagam; a mãe da criança, a Mirta, ficou maluquinha, nunca mais foi a mesma, nem
de casa sai!
- E agora a Ruça
prenha! Mais uma criança para passar fome, já tem uma data delas, cada uma de
seu pai; ela atraía os homens, era jeitosa, ainda hoje, com trinta e tal anos
de idade, não é de se deitar fora.
- Se andasse
arranjadinha e asseada, mas anda porca e a cheirar mal que tresanda, mal
vestida, despenteada, julgo que nem se lava, e se o fizer deve ser naquele
alguidar onde depena os frangos! Também! A viver naquele pardieiro, e sempre
gajos a entrar e a sair.
- Os filhos vão ter
vergonha dela quando forem grandes.
- Há tantos putos por
aí sem pai, quem é que liga a isso? Se viessem a ser ricos é que se podiam
importar, mas nesse caso saíam daqui, iam para a cidade, lá há muita gente e
ninguém os conhecia, nem reparam nessas coisas.
- Tens razão, há tantos
filhos sem pai nesta terra! Eu, os meus irmãos, os da Pulquéria, os da Joana
Caganitas…
- Podias estar um dia
inteiro a contá-los; deixa lá isso, os homens nicam e as mulheres engordam,
quantos mais melhor, uma malga de caldo e um naco de pão duro haverá sempre,
ninguém morre à míngua.
- Maldita região; a
pobreza nunca nos larga, pega-se a nós como o caracol à erva, e para cúmulo da desgraça,
a ignomínia, o ferrete.
- Eh, pá! Deixa lá
essas coisas, o que é preciso é viver, nós não nascemos para sermos ricos,
quantos há nesta terra? Conta-os: meia dúzia, o resto é tudo pobre ou
remediado.
- Tu gostarias de ser
rico?
- Que pergunta mais
idiota; quem não gostaria, com empregados, boa casa, boa comida, bom carro,
muito dinheiro, passear, boas mulheres, boa vida, os outros que trabalhassem
para mim, havia de viver regaladamente.
- E os pobres? Nem
sequer pensavas neles!
- Dava esmolas àqueles
que me fossem bater à porta, nunca negaria uma esmola, e dava trabalho aos
operários e caseiros.
- Sonhos, não é, Cleto?
Nunca seremos alguém, eu a ganhar cinco escudos por dia naquela minúscula
oficina, tu nas obras a ganhar sete escudos, mal dá para comer, andamos
andrajosos, sempre com o mesmo calçado, a mesma roupa, o rosto chupado, uma
corda a servir-nos de cinto! E eles, os poderosos, têm de mais, até dá para
estragar, olha o Atílio, com três ou quatro carros, duas casas, empregadas com
farda, os filhos a estudar na cidade, nós fizemos a primária e pronto, alguns
nem isso conseguiram, toca a trabalhar para eles, a engordar o seu peteiro,
eles cada dia mais ricos e nós sempre pobres, maldita vida esta. E quando lavra
um incêndio nas suas casas, nos seus bens, somos nós, bombeiros voluntários e o
povo que o vai apagar, que eles nem sequer pegam num balde de água! E no fim
nem obrigado dizem.
- Qualquer dia vou para
a França, já está lá o meu cunhado e diz que me manda ir, nem que vá a pé por
essa Espanha fora, o Trinchas também foi, conta que passou fome de rabo, mas
hoje está cheio de massa, o filho da mãe também só come tripas e carne de porco
de terceira, acho que bifes só em dia de festa, e feitos com carne de cozer,
olha que os filhos saem a ele, são uns sovinas, para viver assim não vale a
pena sair da nossa terra natal.
- Eu não gostava de
sair daqui, gosto imenso disto, até as pedras da rua conheço, todos os
cantinhos, as pessoas, tenho os meus amigos, a banda de música, o meu
clarinete, qualquer dia já vou tocar para as festas, o mestre prometeu-me, diz
que eu estou a aprender bem, já vai mandar fazer a minha farda, com este corpo
não vão gastar muito pano; vou também começar a jogar na equipa de futebol. Se
fores para França lá não tens amigos, eles falam outra língua, não te vais
entender com eles.
- A língua aprende-se,
o meu cunhado já a arranha, o que é preciso é saber o nome das ferramentas e
mais qualquer coisa: «bonjure», «bonsuare», «mangere», e pouco mais; e aquilo
que não se souber fala-se por gestos, os franceses não são burros.
- Ah!, ah!, ah!; até já
tu falas francês sem nunca teres ido a França!
*
- Tudo a postos? Ao
caminho; vamos separados, em grupos de dois, para não dar nas vistas.
Juntamo-nos todos no campo a seguir à estrada, o Barata não veio?
- Até agora não
apareceu, é provável que os pais, de castigo, não o deixassem sair, deve-lhes
ter feito grande malandrice.
- Oquei! Não podemos
esperar eternamente por ele. Todos trazem o cacau? Eu é que o entrego,
passem-mo para cá. Está certo, vamos andando.
- Caramba! Já me
enterrei na lama, andaram a regar os milhos, quase que nem posso mover-me.
- Descalça-te; não
podemos perder tempo, já não é cedo, devem ser quase dez horas, arregacem as
calças e não façam barulho que os lavradores andam por aí.
- Já tenho vontade de
voltar para trás, por que é que eu me meti nisto?!
- Se quiseres voltar
para trás volta, nós continuamos, mas isso é seres cobarde, medricas, que raio
de homem és tu?
- Está bem, eu vou.
- Silêncio, já vejo uma
luz; um de nós tem de se aproximar para ver se ouve alguém a falar, se não se
ouvirem vozes bate-se à porta. Quem é que quer ir?
- Vai tu, Cleto; já cá
vieste uma vez, para nós é a primeira.
- São todos uns medrosos,
se não fosse eu só haviam de montar éguas. Escutem: ouço vozes, deve ser alguém
que está com ela, deve estar a despedir-se.
- Está a abrir a porta,
saiu alguém; já podes ir lá.
- Pode-se entrar?
- Quantos são?
- Cinco.
- Entra um de cada vez;
os outros que esperem por detrás do muro. Trazem dinheiro?
- Trazemos; tome.
- Está certo. Entra.
*
- Eh, pá! Eu nunca mais
cá venho; que cheirete insuportável, ia vomitando as tripas. Ela tem a pia tão
suja e funda, quase que cabia lá eu, não gostei nada.
- Com essas
esquisitices todas ainda acabas em panasca!
- Não digas asneiras;
quando tinha onze anos brinquei aos namorados com a neta do senhor Rodrigues,
fomos para a cama, ela despiu-se…, mas assim não, com o bebé ali ao lado a
choramingar, não dá qualquer gozo; além disso, estou farto de espirrar, devo
estar com uma gripe dos caraças, se a minha mãe descobre que foi por causa
disto, mata-me.
- Não tenhas medo.
Enquanto resfolegavas à espera das estrelas da Ruça, sentava-se a tua mãe no
colo do teu patrão.
- Ó Afonso, não digas
isso ao rapaz.
- É mentira? Toda a
gente sabe que eles…
- Olha, Afonso: eu não
sabia, nunca mo tinham dito, mas já desconfiava; fizeste bem em dizê-lo, amanhã
mesmo já saio da sua oficina. Eu já não gostava dele, mas a partir de agora…
- Se dizes mais alguma
coisa desse género ao Cândido, sou eu que te dou um murro na tromba.
- Tu, Rina?! Tens a
mania de que és forte.
- Ó rapaziada, guardem
essas disputas para amanhã; e não se esqueçam de que ao chegarmos à Vila toca a
separar, cada um vai para sua casa e nada de dar com a língua nos dentes,
oquei?
XXIV
Todos os
passos do condenado o conduzem ao patíbulo
Decorre o ano de 1962; eu tenho agora
dezoito anos, sou um homenzinho, frequento um curso noturno, com a duração de
quatro anos, criado por decreto do Ministério da Agricultura. Dedico-me a ele
na esperança de encontrar um outro rumo para a minha vida. O meu cérebro vai
despertando para o sublime conhecimento, a minha alma descobre o fascínio da
ciência. Embora estivesse subjacente a política, ali, naquela escola, ela não
se fazia notar, pois o professor, um salazarista confesso, legionário por
convicção, tinha como verdade indiscutível que todos os alunos serviam
lealmente o regime corporativista. Mas o melhor é porem-se à escuta:
- Tu és o meu melhor
aluno, o curso deve-te muito, tens trazido para ele muitos rapazes, fizeste
dezoito anos, trabalhas por conta própria, é certo, mas considero que tens
capacidade para ires mais longe, a tua arte é muito humilde, e dia a dia
degrada-se mais, hoje ninguém manda fazer calçado novo a um sapateiro, só
trabalham em consertos, eu vou arranjar-te um emprego no Grémio da lavoura,
como sabes sou seu presidente, no princípio do mês que vem já começas lá a
trabalhar, o Lito vai para a França, o irmão mais velho mandou-lhe carta de
chamada, vamos precisar de alguém para o substituir.
- Mas, senhor
professor; eu nunca tive outra profissão, não sei se me vou adaptar, é tão
diferente uma coisa da outra.
- Ninguém nasce
ensinado, com o tempo habituas-te, vais ver que acabas por gostar, o ordenado
inicial não é muito grande, mas depois serás aumentado, tens ali o teu futuro,
sempre é uma atividade mais asseada, com outro estatuto, e descontas para a
previdência, para quando fores velho teres direito a uma pensão. Está assente:
no início do mês apresentas-te ao serviço, eu vou falar com o senhor Roque, ele
é o chefe do pessoal. Outra coisa: leva a tua melhor roupinha, isso sempre
ajuda, impressiona bem, vais ter de atender ao balcão logo que para isso
estejas preparado.
- Sim, senhor
professor.
*
- Senhor Roque, venho
apresentar-me, o senhor professor Salomão mandou-me vir para cá.
- Já sei; vai falar ali
com o senhor Couto, ele já te dará trabalho, já te dirá o que tens a fazer.
Couto!
- Sim, senhor Roque.
- Encaminha aqui o novo
funcionário.
- Sim, senhor; deixe-o
comigo. Cândido!
- Sim, senhor Couto.
- Vês estes sacos?
- Vejo sim, senhor
Couto.
- Estão cheios de
sementes, adubos, rolhas de cortiça…
- Pelo que vejo, as
sementes têm cores variadas!
- E os adubos também;
mas cuidado, não os cheires, olha que alguns são tóxicos, muito perigosos. Os
preços estão aqui, nesta tabela, não os confundas, há duas balanças, uma
grande, pode-se pesar nela centenas de quilos, e uma mais pequena, a que se
encontra no balcão, essa é só para os artigos leves.
- E vem cá muita gente
comprar?
- Nos dias de feira o
Grémio é muito movimentado, mas todos os dias há muito trabalho, terás também
de ir à Central de Camionagem buscar os sacos que chegam dos armazéns para nós,
levarás aquele carrinho de ferro.
- Oh! raio. Disso é que
o senhor professor não me informou, só me disse que era para trabalhar ao
balcão; andar por aí com o carrinho, e logo este que faz uma chiadeira dos
diabos.
- Pões-lhe óleo; olha
que não te caem os parentes na lama, tu até tiveste sorte ter vindo para aqui,
houve muitos pedidos, o senhor professor é que gosta de ti, aprecia as tuas
qualidades, e pronto, trouxe-te. Em relação ao carro, o Nando, que está cá há
pouco tempo, também vai à Central algumas vezes, ultimamente é ele que lá tem
ido.
- E o ordenado, sabe
quanto vou ganhar?
- O senhor Roque disse
que começas a ganhar trezentos escudos por mês, depois será aumentado.
- Trezentos escudos?!
Isso é pouco, eu já tirava mais na minha oficina.
- Olha que eu não estou
a ganhar muito mais, e tenho já vinte anos de carreira.
*
- Ó Nando, sabes que
isto de andar com o carrinho de um lado para o outro, carregado até não poder
mais, está bem que é quase todo o caminho a descer, não me está a agradar
muito, se ainda o ordenado fosse bom, mas é uma miséria, baixíssimo, e querem
que um tipo ande bem vestido, o que se ganha não dá para comprar roupa, eu se
calhar vou-me despedir, que metam outro, ganho mais na oficina e não preciso de
andar vestido com roupa domingueira, e tomar banho duas vezes por semana, no
verão vá lá, vai-se ao rio, mas no inverno… nem casa de banho há na minha casa,
tomo banho num alguidar de barro, já está a ficar pequeno para o meu corpo; por
outro lado, tenho vergonha de andar pelo meio da Vila com este carro, faz um
barulho tremendo, toda a gente olha para nós.
- Tu é que sabes, eu
terei de aguentar, se saísse, o meu pai dava cabo de mim, esfolava-me vivo,
fartou-se de correr atrás do senhor professor para ele me ter no Grémio, mas tu
não tens pai, a tua mãe não risca peva; além disso, és mais velho do que eu quase
dois anos, eu apenas tenho dezassete.
- Está decidido, vou-me
despedir; o professor Salomão é que vai ficar danado comigo, mas o senhor Roque
anda-me sempre a chatear, sempre a dar ordens, raspanetes… Eu não posso com ele;
o Couto, esse é boa pessoa, um paz de alma, o Roque faz dele o que quer, eu não
aguentava.
*
- Senhor Roque: no fim
deste mês vou embora daqui, deste emprego.
- Embora?! E porquê,
posso saber?
- Não gosto deste
trabalho, vou continuar a trabalhar na minha oficina, os meus clientes andam
sempre a pedir-me para voltar, apreciam muito o meu serviço, até a criada do
senhor doutor juiz me pediu para reabrir a oficina.
- Já informaste o
senhor professor?
- Não, estou com receio
que ele fique zangado comigo; quase um ano aqui já deu para ver se gosto ou
não, o senhor professor vai certamente compreender.
- Deixa lá, eu falo com
ele; de facto nunca te vi muito entusiasmado, não nasceste para isto, segue o
teu rumo.
- Obrigado, tira-me um
grande peso de cima.
- O pior é arranjar
outro, agora com a guerra colonial foge tudo para o estrangeiro, qualquer dia
não há população masculina neste concelho, têm medo da guerra, olha que eu
lutei na primeira grande guerra, a de 1914-1918, e não morri, naquele tempo
havia homens, não tínhamos medo, agora fogem como cobardes, deviam ser todos
presos e enviados para África, para a frente de batalha.
- Eles também fogem
porque aqui nesta terra se ganha pouco, eu entrei a ganhar trezentos escudos
por mês e ao fim de quase um ano continuo a receber o mesmo ordenado!
- Estávamos a pensar
aumentar-te, mas vais-te embora.
- Nem para comprar
roupa chega, e aqueles que trabalham nas obras não ganham muito mais, e
trabalham como escravos, de sol a sol; os camponeses, coitados, se os anos
agrícolas correm mal é a fome, a absoluta miséria.
- Não exageres;
antigamente vivia-se bem pior, olha que antes do senhor doutor Oliveira Salazar
assumir o poder os partidos políticos não se entendiam, havia revoluções
constantemente, não havia paz em Portugal, a economia estava de rastos, os
anarquistas e os republicanos deram cabo do nosso país, levaram-no à banca
rota, já não tínhamos crédito no estrangeiro, a nossa moeda não tinha qualquer
valor, Salazar foi o grande salvador da nossa pátria, devemos-lhe tudo, tudo!
- Eu não sou desse
tempo, sou deste, e agora vive-se mal, a não ser os ricos, e também aqueles que
têm ordenados chorudos. O senhor Roque já pensou o que se pode fazer num mês
com apenas trezentos escudos?
- É bem melhor do que
nada, vocês agora querem levar vida de lorde, são arrogantes; pobrezitos, mas
com barriga de nababo! Soberbos, é o que vocês são, olha que eu para chegar
aonde cheguei tive de esperar e guerrear muito, que os meus pais também eram gente
de escassos recursos, são do tempo do teu avô Gaspar, era boa pessoa, humilde,
bom homem, os copos é que deram cabo dele; também, era a única alegria e
distração que eles tinham! Andava pelas festas, a vender rebuçados, fabricados
por ele, deliciosos, muitos comi! Está bem, queres ir embora vai, faço votos
para que tudo te corra pelo melhor.
XXV
Na toca do
lobo a raposa ri e dança
Passou mais algum tempo e agora estou
quase a trajar de cinzento, a cor da farda do exército português. A minha mãe
continuava a fazer jus à alcunha que alguém lhe pôs: «pinguça». A minha namorada, com quem pensava casar logo que da
tropa regressasse, não me ligava mais: o carro e a conta bancária falaram mais
alto do que o coração. Mas quem pode condenar esse desejo legítimo de viver sem
dificuldades de espécie alguma? Deitemos para trás das costas os impertinentes
ou pertinentes juízos; isso já aconteceu há muito tempo e não é agora que
alguém se vai preocupar com coisas do passado. Venham mas é assistir ao
espetáculo:
- Não acredito! A
dançar com o Artur? E disse-me ela que não vinha à festa, estava adoentada, a
mãe também tinha problemas de saúde, pulha, impostora!
- Não querias
acreditar, eu bem te avisei.
- Apetecia-me
partir-lhe a cara no meio desta gente toda. Cabra!
- As mulheres são todas
iguais, umas megeras; tu vivias de olhos tapados, eu há muito tempo que te
andava a chamar a atenção, mas não querias ouvir, pensavas que eu te mentia.
- Vou lá e parto-lhe as
bentas, filha da mãe, era só amor, eu era o seu ídolo, preferia morrer a casar
com outro, e agora aparece-lhe este, com carrinho, meia dúzia de francos no
bolso do casaco, e toca a trocar-me por ele!
- Espero que te sirva
de lição, faz como eu: tenho sempre uma ou duas de reserva, comigo elas não
brincam. Vem comigo, vamos-lhe beber uns copos para esquecer.
- Primeiro quero que
ela me diga aqui, no meio desta multidão, porque é que me trocou. Por ser
pobre?
- Acalma-te. Olha que o
Artur dá-te uma moia, o tipo tem o corpo puxado, é um latagão, tem aí os irmãos
também, os cunhados, o melhor é esqueceres, não te faltarão raparigas, lixa-te
para ela e para as da laia dela e vamos embora.
- Cabrona, mentirosa,
falsa; nunca mais quero namorar na vida, jamais confiarei numa mulher, já não
me bastava ter uma mãe sem jeito, agora também esta desavergonhada a
desrespeitar-me, a abandonar-me como se eu tivesse peçonha; tantas promessas,
tantos sonhos, e tudo deitado por água-abaixo; hoje destruiu as minhas ilusões,
a minha razão de viver, oxalá vá para África, para a guerra, e por lá fique, ao
menos morrerei lutando pela pátria.
- Vamos embora, estás a
martirizar-te, não adianta, mesmo que fosses ter com ela só arranjarias
sarilhos, ela já fez a sua escolha, trocou-te pelo dinheiro, pelo carro, por um
futuro mais desafogado. Que lhe podias tu oferecer? Um rancho de filhos borrados,
uma cozinha minúscula para cozinhar para ambos e para os fedelhos, uma carteira
magra, amiúde vazia, sempre a contar os tostões, a lamentar talvez ter casado
contigo. Assim vai para França, mesmo que trabalhe vai ver dinheiro, o tal
«l’arjão», como os emigrantes lhe chamam, algum conforto, virá passar as férias
no seu popó, terão aqui uma vivenda, os filhos que nascerem em França estudarão
e até podem vir a ter boas profissões, um futuro risonho; se gostas dela
deixa-a seguir o seu rumo em paz.
- E o amor?
- Qual amor? O amor é
ter a pança cheia, roupa para vestir, calçado, uma boa casa, dinheiro,
vislumbrar um amanhã melhor para os filhos; tu, por enquanto, não lhe poderás
oferecer nada disso, vais assentar praça, por lá andarás três ou quatro anos,
irás quase de certeza para a guerra colonial, podes ficar ferido, doente, eu
sei lá!
- Talvez tenhas razão,
mas é cruel o que ela me fez, não lhe merecia isto; olha que gosto imenso dela,
para mim não existe mais ninguém, nunca mais a esquecerei, magoou-me muito, não
sei se lhe perdoarei um dia esta atitude, este procedimento, abominável e
impiedoso.
- Vamos beber uns
copos, olha, vem ali o Bordelhas, dizem que a pinga da Amélia é fora de série.
- Ora viva! Aqui os
dois tão sossegadinhos, até parece que estão a tramar alguma.
- Aqui o Cândido é que
sofreu um grande desgosto, a Bera trocou-o pelo Artur…
- Que grande novidade a
tua, amigo Rina! Isso já toda a gente sabe, na Vila não se fala noutra coisa,
que ela não é tola, não, dizem que o marmanjo tem pilim, olha, mulheres é o que
há mais, eu se quisesse engatar aí uma…, mas não estou para a aturar, vamos mas
é beber que estou com a garganta seca.
*
- Lá, lalá, lalá! O
mundo está louco, o mundo está louco, e eu já estou rouco!
- Ó Cândido, filho de
uma putona, cala-te que eu quero dormir. Caramba! Bebemos que nem uns camelos
do deserto, estamos borrachos como cachos, e eu que tenho de pegar às oito!
- Deixa lá cantar o enganado,
Bordelhas. «Quem canta seus males espanta».
Que horas são?
- O sino da torre deu
as sete, vamos para casa comer uma bucha e arrancar para o trabalho, e logo
hoje que tenho de ir para a serra, nem posso com as pernas.
- Vão vocês embora, eu
ainda fico aqui debaixo desta árvore, não posso com a cabeça.
- E querias tu pelejar
com o Artur, nem sequer aguentas uma borracheira, és um podriqueiro!
- Ó Rina, sabes bem que
não estou habituado, é a minha primeira bebedeira a sério, nunca tinha ficado
fora de casa, a minha mioleira anda às voltas, parece que vou vomitar.
- Vamos levar-te a
casa, a tua mãe que te faça um chá.
*
- Senhora Matilde, faça
um chá ao seu filho que ele está doente.
- Ó desgraçado, que
andaste tu a fazer esta noite?
- Apanhámos todos nós uma
grande piela; foi de caixão à cova!
- Vai-te deitar, vai,
que estás bonito; pareces um cadáver!