segunda-feira, 5 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XI

 

 

As formigas também descansam

 

 

     Voltemos atrás no tempo; as verduras da idade ainda vestiam o meu cérebro, a realidade e a ficção ainda não tinham fronteiras nítidas. Como tinha ouvido dizer que era costume antigo os sapateiros não trabalharem às segundas-feiras, eis-me a fechar a porta da loja e a ir banhar-me para o rio Minho. Porém, o meu patrão, que para fugir ao calor excessivo que se fazia sentir também ele fora dar um mergulho nas águas límpidas do rio, não gostou nada que eu por lá aparecesse. Venham vocês também tomar um refrescante banho:

 

- Eu não te disse para ficares no estaminé?

- Mas senhor Hilário, você também veio, ontem engraxei sapatos até às três horas da tarde, estou cansado, hoje é segunda, às segundas os sapateiros não costumam trabalhar, você deixou-me lá sozinho, com este calor, e eu vim tomar banho ao rio, eu nem sabia que você estava aqui, se soubesse não tinha vindo, juro-lhe.

- Então toma um banho rápido e vai abrir a oficina, não quero a porta fechada, podem aparecer clientes e depois veem tudo fechado, recebe o calçado que entregarem, que digam para que é, tomas nota num papelinho, eu já vou para cima, não demoro muito, isso de fechar as sapatarias às segundas é com os antigos, eu preciso de ganhar dinheiro, não sou rico, aproveitar é enquanto somos novos, não é com vadiagem e calaceirice que se ganha pilim, eu comecei a trabalhar com dez anos, nem a quarta classe completei, só fiz a terceira, estudar era para os meninos, vós agora sois uns fidalgos, vê lá tu, não trabalhar à segunda, eu trabalhei toda a vida, sábados e domingos, que isto de não trabalhar é para milionários, que até esses trabalham, às vezes mais do que nós, por isso é que eles têm rios de dinheiro, olha o senhor Atílio se não trabalha: às seis da manhã lá vai para o Porto buscar contrabando, é assim que ele se enche, que nós por muito que trabalhemos nunca juntamos nada de nosso, vai-te embora, já te refrescaste.

- E se alguém quiser levar calçado, eu não sei o preço do conserto, não mexo em dinheiro, o que devo fazer?

- Não entregues calçado a ninguém, dizes-lhes que esperem, eu não me demoro, se tiverem pressa que voltem, fiado nem pensar, depois esquecem-se, já tenho alguns calotes, eu não ando a trabalhar de graça, que a sola também a pago, ninguém me dá nada, era o que faltava, que paguem, tu não entregas calçado a ninguém.

- Há um bocado entreguei uns sapatos, vieram para botar meias solas, ao senhor Norberto da Portela, insistiu tanto, disse que precisava deles, que se você lá estivesse também lhos entregava, que confiasse nele, que no dia de feira vinha à Vila e já lhe pagava, eu não pude fazer nada, tive de lhe entregar os sapatos, se não lhos entregasse até me comia vivo!

- Não devias ter feito isso, ai o filho da mãe, nunca mais me paga, agora vais lá e pedes-lhe o dinheirinho, se não to der trazes os sapatos de volta, são trinta escudos, não te esqueças, trinta escudos, vai a correr, tens boas pernas; ai o caloteiro, valeu-se de tu estares sozinho, se eu estivesse lá não os levava, não, que eu não ando a trabalhar para os outros, eu na minha oficina não fio, quem fia é a roca, olha eu a fiar, tenho de pagar a renda, ninguém ma paga, e tenho de comer, ninguém me dá nada, e vestir-me e calçar-me, tudo, eles querem é ver um homem a pedir, vai num pé e vem noutro, ai de ti se não me trazes o dinheiro ou os sapatos.

- É longe!

- Quero lá saber se é longe ou perto, desaparece daqui, mexe-te.        

   

XII

 

As surpresas são o prazer do quotidiano

  

     Mais ou menos duas horas depois, extenuadíssimo, cheio de vergonha, com o coração amargurado, indeciso, eis que a casa do espantado agricultor se mostra. Logo que ele me vê, pergunta-me:

 

- Tu por aqui, Cândido?!  

- Senhor Norberto, desculpe, o meu patrão mandou-me receber o dinheiro das meias-solas, disse-me para não sair de ao pé de si sem o dinheiro ou os sapatos.

- O teu patrão é um filho de loba, um perro, diz-lhe isso mesmo, quem pensa ele que eu sou: um ladrão, um vigarista, um trapaceiro? Eu sou um homem de boas contas, não devo nada a ninguém, e se devo pagarei, agora não tenho dinheiro, gastei o que tinha em adubos e sementes, não tenho um tostão em casa, mas também preciso dos sapatos para ir à Vila, não posso ir de tamancos, é uma vergonha, as botas estão a desfazer-se, maldita vida de lavrador, nem para botar meias-solas nuns sapatos um homem tem dinheiro, no dia de feira já lhe pago, vou vender umas cabeças de gado, já arranjo algum, diz-lhe que não lhe fico a dever, eu sou um homem honrado, ele devia saber isso, ai o filho da mãe que o pariu, pensa que eu não sou de contas, o cabrão veio de São Bernardo com uma mão à frente e a outra atrás, ele pensa que eu não sei quem ele é, o miserável, filho de um juiz de fora, ninguém gostava dele, pediu transferência logo que a amásia ficou de barriga, se não fossem os outros dar-lhe alguma coisa tinha morrido de fome, nem o pai o viu alguma vez, se calhar nunca soube quem era, o filho da mãe, má rês, eu sei bem quem é o meu pai, tenho o nome na cédula, ele não.

- Mas, senhor Norberto, ele ameaçou que me cascava se aparecesse na loja sem os sapatos ou o dinheiro, o que é que eu posso fazer, se não levar os sapatos fujo, não terei coragem de lhe aparecer de mãos vazias, quando se zanga é uma verdadeira fera, esfrangalha-me todo! Por que é que o senhor não me dá os sapatos e vai lá amanhã buscá-los? Se eu apareço de mãos a abanar, mata-me!

- Quem mata esse bandido, esse anormal, sou eu, levo um estadulho e dou-lhe com ele pelo lombo abaixo, parto-lhe os ossos todos do corpo, que ele bem merece, tu não tens culpa, que ele é teu patrão, tu obedeces-lhe, não tens outro remédio, mas eu não sou empregado dele, não lhe tenho medo, diz-lhe a ele isto, que ele quando me vir até se caga todo, dou-lhe uma coça que vai ver, nem sabe de que terra é, leva os sapatos, leva, que eu até já nem os quero, que os sirva à ceia, os marinheiros da nau Catrineta também rilharam sola, que se empanturre com eles.

- Obrigado senhor Norberto, que Deus lhe pague, já não sabia o que fazer à minha vida, mal de quem obedece, o senhor, apesar de tudo, é livre, não tem quem mande em si.

- O meu patrão são os campos, o gado, o tempo, a natureza em geral, os produtos que quero comprar e não arranjo capital, as dívidas, a colheita, tudo, ninguém está bem nesta terra, só os ricos, os da Câmara, mas esses não nos ajudam, ainda nos enterram, se puderem, décimas e mais décimas, esses esbirros dos impostos não largam a gente; não te iludas, rapaz, os pequenos agricultores não são senhores, são escravos! E os de Lisboa não vêm cá! O mais certo é nem saberem que existimos. Que eu gosto do Salazar, se não fosse ele ainda estaríamos pior, salvou o país da bancarrota e endireitou Portugal, claro que nós os do campo nada beneficiamos com tudo isso, mas pelo menos o país continua a ser dos portugueses, olha que esteve em vias de ir parar às mãos dos comunistas, e dos estrangeiros, isto disse-mo um senhor importante.          

- Ó senhor Norberto, eu não percebo nada dessas coisas, sou muito novo, o que eu queria era os sapatos ou o dinheiro; para mim tanto me dá que sejam uns ou outros, o meu país é a minha terra, nunca saí daqui.

- Tens razão, rapaz; na tua idade isso não interessa. Quando fores mais crescido, quando tiveres de tomar decisões, de escolher, poderá vir a interessar-te esse assunto, agora é ainda muito cedo para saberes dessas coisas.     

   

XIII

 

Por a porta da traição uma víbora deslizava

 

     Regressemos a 1964. Encostados a uma árvore de grande porte, frondosa, cuja sombra beneficiava uma vastíssima área, bem perto de uma vetusta casa de granito, sem estilo definido, arredores da sede do concelho, onde não há muito tempo conversava eu amenamente com a Bera, encontram-se duas figuras: um homem e uma mulher. Ela parece triste, receosa, pensativa, escavada, olhar distante, quase arrependida de ali estar. Ele, afoito, atrevido, decidido a concretizar o seu objetivo. Aproximem-se, lenta e sorrateiramente, a fim de ouvir o que eles dizem:

 

- Artur, não sei se deva aceitar a tua proposta: ele é bom rapaz, gosta imenso de mim, não merece que lhe faça essa desfeita, que lhe pregue essa partida.

- Não sejas parva, Bera; não vês que o Cândido não passa de um pobre diabo, sem ambições, sem quaisquer perspetivas de futuro, nunca te proporcionará bem-estar, enche-te a casa de tinhosos e de miséria. Comigo será diferente: vais para França, até podes trabalhar na casa de uma senhora francesa, olha que as criadas lá ganham bons francos, eu também ganho bem, poderemos dar uma boa escola aos filhos, vimos aqui passar as férias todos os anos, no mês de Agosto, ou de dois em dois anos, entretanto construiremos aqui uma boa vivenda, teremos um bom carro, vais ser uma verdadeira «madame».

- Mas, Artur, eu tenho escrúpulos em lhe fazer isso; e também um estranho pressentimento, sou muito supersticiosa; se ele já estivesse na tropa, longe daqui, mas não, só vai…

- Não te preocupes com ele, a partir de hoje deixa-o por minha conta; não apareces aos encontros, dás-lhe uma desculpa qualquer, que a tua mãe está doente e que tu tens de tratar das refeições, qualquer coisa do género. Ah! Diz ao teu pai para tratar da papelada, se puder já vai connosco, eu arranjo-lhe trabalho em uma fábrica.

- O que estamos a fazer não é bonito, mas de facto a minha vida e a dos meus pais e irmãos melhorará muito.

- Pensas tu que ele não te faria o mesmo, aquele bacoco desenxabido? Nem hesitaria! Eu nem sei como tu lhe olhaste para a cara, tão bonita como és, tão desenvolta…

- Não digas mal dele, coitado, é um bonacho, vai ter um tremendo desgosto quando souber.

- Dás-lhe muita importância; aquele tolo idiota, uma comida sem sal, nem sequer tem onde cair morto. E com aquela mãe: sempre bêbeda e porca! E uma língua! Onde te ias meter! Olha para mim, Bera: agradeço-te do fundo do coração que o esqueças, vamos falar de nós, do nosso futuro, da nossa vida em comum.

- Será que me vou dar bem em França?

- O que te vai custar um pouco é aprenderes a língua francesa, mas ao fim de um ano já a falarás mais ou menos, não é nada difícil, vais ver. Olha, logo já vou falar com o padre Alberto para nos casar, se os papéis demorarem casamos por procuração e tu segues depois para França com o teu pai.

- Tu não podes ficar aqui mais algum tempo? Foi tudo tão rápido!

- Nem mais um dia; temos um mês de férias e nada mais. Se chego lá depois do prazo tenho que arranjar uma justificação médica, pois o mais certo é já não encontrar o posto de trabalho disponível, os franceses são muito rigorosos e têm muita gente nas listas para trabalhar: espanhóis, italianos, marroquinos, argelinos, até gregos!

- Eu gostava de ir já contigo, depois tenho de ir de comboio, deve ser uma viagem cansativa.

- Os comboios espanhóis não valem nada, isso é verdade, ainda são piores do que os portugueses; os franceses sim, são cómodos e rápidos, chegam a atingir noventa quilómetros por hora!

- Tenho a alternativa das camionetas, mas segundo dizem vão ali como sardinha na lata! E os do monte, fazem uma barulheira infernal, que confusão!          

  

XIV

 

Hesitei em dizer-to: agora já sabes!

 

 

     Dois homens, meus clientes e amigos, sabiam da marosca; contudo, não se queriam comprometer, passar por abelhudos. Vim a saber mais tarde que tiveram o seguinte diálogo:

 

- Não sei se o avisaremos, a Bera anda a fisgá-la e o crédulo rapaz desconhece tudo, um dia destes ela está casada, arranca para a França com o Artur da Teresa, e o pobre desgraçado apanha um desgosto que nunca mais terá cara para aparecer a ninguém, ele já é um pouco tímido, coitado, a mãe apanha cada borracheira, não ganha juízo aquela pobre de Cristo, nem merece este filho, é um ótimo rapaz, e agora isto, é demais, ainda por riba está quase a ir para o serviço militar, já está apurado na inspeção médica.

- Eu acho que devíamos avisá-lo, pelo menos ficava prevenido, olha que as mulheres são de se lhe tirar o chapéu, aparece por aí um tipo com umas coroas e ela vai de se lhe entregar; nem sequer respeitam os compromissos já assumidos, o que elas querem é a nota, boa roupa, boa comida, pinturas, botar figura, mas olha que quando for para a França ela vai ver, terá de trabalhar como uma escrava, limpar o esterco dos outros, que as francesas não fazem nada, são as criadas que lhes fazem tudo, ela se casasse com o Cândido seria pobre, mas era dona da casa dela, assim vai ser criada de servir de uma estrangeira, o que ela pensa, que vai para lá passear?

- Ouvi dizer que o Artur vai levar o sogro com ele, já andam a tratar disso, até parece que é tudo um negócio, vende a catraia e consegue ir para França com o genro, ao que nós chegamos, nunca esperei ver isto, olha que no meu tempo de rapaz havia mais seriedade no casamento, agora aparecem por aqui no verão, arranjam rapariga e casam, nem chega a haver namoro, o matrimónio assim nem é abençoado por Deus, ouvi dizer que anda por aí um emigrante dos Arcos de Valdevez à procura de noiva, diz que tem oitocentos contos de réis no Banco, quem mos dera, parece que a Sofia do Bogas vai casar com ele, a mastronça, já andou com um e com outro, a coisinha dela deve assemelhar-se a uma peneira rota, a um longo túnel, e olha que ainda não tem sequer dezanove anos de idade, começou cedo a galdéria. Os pais dela não vão com certeza perder esta oportunidade!

- O Cândido é um ingénuo, um parvalhão, um lorpa; eu se fosse a ele desligava logo, nem lhe olhava para a cara, que ela é um pedaço de mulher, lá isso é, boa que se farta, o Artur teve olhinhos, olha se ele foi buscar outra, havia por aí ainda raparigas solteiras e descomprometidas, agradou-se desta, pudera! Bonita e boa, com um namorado pacífico. O Cândido bem lhe pode dizer adeus, se calhar nem sequer molhou a sopa, que ele é um anjinho, devia estar à espera da noite do casamento, ao menos tivesse aproveitado, mas o palerma pensava que ela não lhe fazia esta patifaria, não conhece as mulheres, são capazes de tudo, só querem luxo, andar de carrinho, dar nas vistas, causar inveja às outras, agora que chupe no dedo, e que não se ponha a pau, não, que o Artur é um latagão e ainda o estoira de pancada se ele lhe disser alguma coisa, coitado, não lhe queria estar na pele, mas ele também não se vai meter com ele, quando souber é bem capaz de se pôr a choramingar como uma donzela, coitadito, tão sensível.

- Lá diz o ditado: «o marido cornudo é o último a saber», ele ainda não era marido, mas era como se fosse, nós já o considerávamos como tal, aos anos que eles se namoram, e a família, não viam outra coisa: «o nosso Candinho», só conversa. Agora já estão ao lado do emigrante: «tão bom rapaz, trabalhador, poupado…» Logo viraram o bico ao prego, oportunistas é que eles são, não deviam pactuar com esta maldade, isso não se faz, não sei qual é a opinião do padre Alberto, mas olha que ele não deve ter gostado desta vil e feia ação, mas claro vai ter de os unir pelos laços do matrimónio.                    

- Ó Chico, o que os padres querem é maçaroca, e olha que o Artur é bem capaz de lhe untar bem as mãos, de lhe dar uma boa nota, das maiores, que ele tem pressa e não quer perder a noiva, o sacerdote que lhe apresse o matrimónio, que ande depressa com a papelada, um mês voa.

- Ó Tónio, cá na minha, penso que o moço devia ser avisado, o rapaz vai ter um chelique quando souber.

- Que se cozam, depois ainda dizem que a gente anda a intrometer-se na vida deles; olha, mulheres há muitas, quando vier da tropa que arranje outra, o futuro a Deus pertence, eu não me meto nisso, se quiseres avisá-lo avisa-o, mas não me impliques a mim nesses imbróglios.    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha


 

IX

 

Os túneis da alma também podem ser iluminados

 

 

     Insaciável, vou adquirindo informação, jogando os trunfos disponíveis, ansioso por saber o meu passado e o dos meus maiores; não é uma curiosidade mórbida que me move, que me faz rodopiar sobre um tempo que não é o meu mas que julgo também pertencer-me por sangue, pelos laços que me ligam a essas pessoas. Vão ter mais uma oportunidade de escutar uma conversa com o meu irmão Olavo, o meu irmão inteiro, como gosto de sublinhar. Desta vez encontrámo-nos sentados num banco do jardim, perto do coreto da Vila. Não façam qualquer ruído e escutem:

 

- Então tu, depois de fazeres a quarta classe, foste para a cidade dos alfacinhas?

- Fiz a quarta-classe em Julho de 1954, na escola primária Conde de Ferreira, situada bem ao cimo da Praça da República, era meu professor o senhor Romano, iria completar treze anos em Setembro, portanto ainda a acabei com doze anos de idade. Nessa altura estava a nossa mãe amantizada com o velho, o tendeiro Acúrsio. O bruxo não gostava nada de mim, fazia-me a vida negra, da cor do basalto, o que ele queria era que saísse de casa, para se sentir mais à vontade com a velhota, tu não estorvavas, eras um badameco, um medricas, um zé-ninguém, um choninhas, não contavas absolutamente para nada; eu não, era teso, impunha-lhe respeito, comigo não se metia, ai não, que o derretia, que o amassava de pancada, rachava-o ao meio, ao filho da mãe, ao feiticeiro duma figa. Nas férias grandes puseram-me a servir, em Cendrães, a tratar do gado e a cavar os campos, a puxar a charrua, a mim, uma criança, e sem nunca ter trabalhado na agricultura; a tua mãe colaborava com a besta, e aplaudia, tinha medo dele, mas também o que ela queria era alguém que lhe desse vinho e que dormisse com ela, uma badalhoca, uma cabra, andar com aquele velho porco, que nem sequer era da terra, era de fora, da terra dos bandidos.

- A mamã não teve culpa, coitada, estava farta de sofrer, precisava de alguém que olhasse por ela e pelos dois filhos mais novos.

- Olhar?! Maltratar, queres tu dizer. Contigo as coisas eram diferentes, eras um coitado, não podias com um gato pelo rabo; ora eu tinha corpo, já fazia a barba com treze anos, tinha cara de homem. Mal acabei a escola mandaram-me plantar pinheiros para a floresta, a mais de vinte quilómetros da Vila; tinha de ir a pé, carregado com batatas, feijão, toucinho, uma panela para cozinhar, alimentos para uma semana, tinha de passar por aqueles montes, os lobos uivando, assustavam qualquer um, depois de lá chegar tinha de trabalhar como um escravo, tínhamos de plantar milhares de pinheiros, a comida era escassa, dormíamos no chão, em cima de palha de centeio, aquilo não era vida para um rapaz de treze anos.

- Então resolveste ir para Lisboa.

- Não foi fácil, pois era necessário ter lá alguém que me arranjasse emprego, o Ambrósio estava prestes a ir para a América do Sul e a Susana era criada doméstica, pouco me poderiam valer, mesmo assim ainda ajudaram. Conheciam um indivíduo aqui da Vila, o senhor Anastácio, que possuía estabelecimento de comércio na capital do país, fui para lá, mas o ordenado era demasiado baixo, e fartava-me de trabalhar, tinha de entregar os cabazes das compras aos fregueses, subir centenas de escadas todos os dias, agora os prédios já têm elevador, naquele tempo não tinham, carregado que nem uma mula, sem horários, coitado de mim, ia rebentando.

- Foste promovido…

- Saiu de lá um empregado de balcão e o senhor Anastácio deu-me esse lugar à experiência; fiz tudo para agradar, agradei, a minha vida melhorou um bocadinho, mas olha que a comida não prestava, e o pagamento era uma ninharia, uma miséria, não havia uma hora de sair, trabalhava mais de doze horas por dia!

- Estavas a ser explorado.

- Se estava! Bem o podes dizer. O tipo enriquecia à nossa custa, todos se aproveitam dos pobres, depois vão à igreja bater com a mão no peito, os filhos de uma macaca, é para Deus lhes perdoar, mas não lhes perdoa, que ele é justo, está do lado dos desprotegidos, dos sem rumo, mas olha que às vezes tenho dúvidas, há ricos que nunca são castigados e fartam-se de fazer patifarias, de cometer pecados.

- Que sabemos nós disso?! Estiveste em Lisboa até ires para a tropa.

- Que remédio; tinha imensas saudades da terra, dos amigos, mas nessa cidade é que tinha o emprego, não era grande coisa mas era melhor do que nada, aqui só se fosse trabalhar para a estrada, abrir valas para os cabos telefónicos, ou outra vez para a floresta, isso nunca mais, fartei-me de sofrer, só o cheiro daqueles homens imundos, nunca tomavam banho, eu ainda ia ao rio tomar, mas eles nem isso, cheiravam mal que tresandavam, uma imundície, não se aguentava, e ainda por cima se peidavam, fartavam-se de comer feijão e depois mais parecia uma guerra de puns, e os filhos da mãe riam, achavam graça àquilo! Eu sentia repugnância, metia a cabeça debaixo da manta, mas o cheiro era demais; depois as pulgas, as gajas mordiam-me todo, de manhã acordava cheio de picadelas, e os piolhos, às centenas, era uma autêntica tragédia, pior ainda do que em nossa casa. Em Lisboa havia mais limpeza, dois lençóis brancos na cama, uma caminha pequenina só para mim, alugara um quarto na Baixa, numas águas-furtadas, baratucho, o pior era quando chovia, o telhado estava uma desgraça, o prédio era do século passado, se sofrera obras já devia ter sido há muitos anos, a dona era uma macróbia e não tinha dinheiro para o mandar consertar, quando caísse, caía, mas primeiro ainda havia de morrer ela.

- É engraçado, quando eu e a mamã fomos a Lisboa visitar-vos em 1961 estavas tu prestes a entrar na recruta.

 - Muito me ri à tua custa; eras um autêntico saloio! Pensavas que na cidade ninguém dormia, tinhas medo de pinchar dos carros elétricos em andamento, ficavas boquiaberto com tantas luzes, com tantos reclamos luminosos.

- E lembras-te daquela vez que penetrei na casa dos vizinhos da Susana?

- Já não me recordo bem, conta.

- Ainda na rua, toquei à campainha do terceiro andar quando devia ter tocado para o quarto; de cima abriram, deviam ser seis horas da tarde, e fui subindo as escadas, que nunca mais terminavam; logo que vi uma porta aberta entrei; sentei-me no banquinho que se encontrava na cozinha e esperei tranquilamente como era hábito. Às tantas começo a ver caras totalmente desconhecidas para mim. Então pensei: «olha que este não deve ser o apartamento onde reside a tua irmã!» Sem me denunciar, ergo-me sorrateiramente, saio porta fora, galgo mais uns degraus, e fui bater à porta do andar de cima – reconheci de imediato a pessoa que me veio abrir a porta.

- Eras mesmo um labrego! E tiveste sorte, pois aquelas pessoas na sua maioria eram hóspedes; se fosse uma família mandavam-te prender, pensando que eras um ladrão!

- Normalmente os irmãos mandam ir os outros para a cidade ou para o estrangeiro, mas tu a mim nunca me disseste para ir trabalhar perto de ti!                      

- Ainda pensei nisso, mas tu não tinhas corpo nem energia suficiente para aguentar aquela vida, borravas-te todo, não aguentavas uma semana, ias-te logo abaixo das canetas; aquele trabalho de carregar às costas cestos com quilos e quilos de mercadoria só para gajos fortes, possantes como bois, por outro lado tu estavas a aprender um ofício, embora não desse muito sempre ia dando para a comida, casa não pagavam e o bruxo sempre ia desembolsando alguns escudos.

- Não sabes que a mamã se zangou com o feiticeiro no ano seguinte à tua ida para Lisboa? Zangaram-se, mas depois ele começou a rondar a porta, o que ele procurava sabia eu, era velho, mas para isso não! A tua mãe pouco tempo lhe resistiu, fez logo as pazes, mas aí intervim eu, apanhei os dois na cama, eles pensavam que eu só aparecia à noite, que tinha ido ao rio, eu costumava ir todos os fins-de-semana à pesca, era o meu desporto favorito, além do futebol, levava um livro para ler, o que me fascinou mais foi o Don Quixote de la Mancha, fartava-me de rir, é uma obra extraordinária, muito bem escrita. Sabes que eu até falava com as águas que, lenta ou velozmente, corriam para o mar? Serviam-me de amigo e confidente. Nesse domingo de verão à tarde, e como já havia tempo desconfiava deles, não fui à pesca. Nesse dia resolvi andar ali por perto. A porta da casa estava trancada, era para eu não entrar caso aparecesse de surpresa, mas eu engendrei outro processo, outro método de entrar. Ágil como era, qual esquilo jovem, entrei pela varanda, peguei na machada, aquela que levava para o monte para cortar a lenha, e gritei-lhe: «saia imediatamente dessa cama, seu velho porco, e ponha-se na rua, se o vejo cá outra vez mato-o!» O filho da mãe viu que eu estava a falar a sério, a mamã chorava, não era certamente de vergonha, que essa já a tinha perdido há muito tempo, mas de raiva por ver que eu já estava crescidinho e jamais lhe aceitaria estas jogadas sujas, enquanto esteve amigada com ele era uma coisa, agora ele entrar na casa como se ela fosse uma prostituta, talvez pagando-lhe, isso não.

- E o bandido, como reagiu?

- O patife meteu o rabo entre as pernas, como fazem os cães cobardes, e nunca mais entrou na nossa casa, grande besta, tinha-lhe uma raiva, um pó, que nem para a cara lhe podia olhar.

- Pensava que te davas bem com ele!

- O somítico, quando eu fiz a quarta classe, em Julho de 1955, ofereceu-me um fato de macaco, de ganga, de cor azul, daqueles que usam os mecânicos nas suas oficinas, e umas alpercatas, para levar ao exame, parecia uma miniatura de operário, até os outros alunos se riram de mim, que vergonha, valia mais ter ido com a minha roupinha rasgada e o cinto e corda, era assim que eu sempre andava, e já ninguém se ria de mim.

- Depois ficaste sozinho com a mamã.

- Ficámos com alguma tenda e fomos pelos lugares do concelho tentar vendê-la. Muito calcorreámos: léguas e léguas de veredas, caminhos de cabras, por vezes tudo encharcado. Claro que foi um autêntico fiasco: a mamã embebedava-se e perdia a conta aos artigos que se vendiam, eu ia apontando, mas que queres, tinha pouco mais de onze anos de idade, sem experiência de vendas, ela era uma analfabeta pura, o velho é que sabia vender, até parece que nascera tendeiro o raio do homem. Passado uns meses já não tínhamos tenda nem dinheiro para pagar aos fornecedores, foi um autêntico caos, um desastre absoluto. A seguir fui aprender o ofício de sapateiro, engraxava sapatos nos dias de feira e aos domingos, dez tostões cada engraxadela, alguns ainda achavam caro! Ia ganhando para a bucha, a mamã continuou a percorrer as aldeias, agora sem tenda, conhecia muita gente, ajudava aqui e acolá, iam-lhe dando umas malgas, algum milho, uns pedaços de broa, feijão, umas chouriças, coisas estavam muitas vezes já a estragar-se, que eles receavam comer, nós éramos o caixote do lixo, a cloaca; ela aproveitava tudo, eu não podia ingerir essas coisas, já tinha o estômago estragado, fartava-me de vomitar. Lembras-te quando estive internado no hospital?

- Lembro-me perfeitamente, foi quando viemos para a Vila, tinha eu quase nove anos, tu andavas muito enfezado, não comias nada, amarelinho, parecias tuberculoso, a tua mãe foi pedir ao médico para te internar no hospital da Santa Casa da Misericórdia, estiveste lá uns dias, depois fugiste, não sei porquê!

- Fugi porque não gostava de lá estar; parecia-me uma prisão, tu cá fora a brincar e eu lá preso, a comer sopa de galinha, sem sal, aquilo não prestava para nada, as enfermeiras é que eram simpáticas, sobretudo a Maria do Céu, nunca a esquecerei, era o meu anjo da guarda, tratava-me como se eu fosse o menino querido dela, tão bondosa, eu pinchei as grades, pronto, não gostava de lá estar, nem da comida, dormia junto com velhos, morreu lá um à minha beira, apanhei um susto dos demónios, nem queiras saber, nunca tinha visto um homem morrer, tinha os olhos esbugalhados, parecia um fantasma, muito branco e amarelo, meterem-me ali, com aqueles idosos doentes, aquele cheiro a remédios, eu vomitava, até desejava morrer, saltei aquele portão, aquelas setas de ferro apontadas ao céu, podia ter ficado ali espetado, coitado de mim, mas eu também não me importava, o que eu não queria era lá estar, queriam dar-me óleo de fígado de bacalhau, que nojo, ainda vomitava mais, saía-me da garganta um líquido verde, viscoso, aquilo vinha das tripas, porque eu não tinha no estômago nenhum alimento.

- Sofreste muito, eu na altura ainda te batia, estou cheio de remorsos.

- Escusas de estar, eras uma criança, só mais velho do que eu cerca de três anos, não compreendias o meu tormento, pensavas que eu fazia tudo aquilo por maldade.

- Depois a mamã, quando soube, andou à tua procura, tu não aparecias, ninguém sabia onde te meteras, levaras sumiço! Até se pensava que tinhas ido para o rio, que te afogaras… Pensaram-se imensas coisas. Eu, apesar de tudo, de seres refilão, de brigares com todos, de seres um rebelde, apesar disso, gostava de ti, mas claro, andavas atrás de mim, eu tinha os meus amigos, tu eras uma formiga à nossa beira, nós íamos à fruta, eu não queria que nos acompanhasses, devias andar com os da tua idade. Tu insistias e eu tinha que te bater, casquei-te bem, um dia até desmaiaste! Fiquei com medo, o soco fora muito forte, mas passado pouco tempo abriste os olhos, que alívio para mim.

 - São águas passadas. Lembro-me que quando fugi do hospital escondi-me nos campos, apareci somente à noite, sempre tive receio da noite, sobretudo por causa dos espíritos dos mortos, a nossa mãe levava-me aos velórios, o defunto ali na sala, estendido no caixão, aquele cheiro a cadáver, aqueles panos brancos a cheirar a água da colónia barata nos olhos vítreos, que algumas pessoas tiravam para lhe ver a cara. Aquelas histórias de espíritos malignos que se contavam durante aquelas horas intermináveis: «não se deve andar pelo meio da rua depois da meia-noite, é a partir dessa hora que passam os funerais, os mortos afastam violentamente os vivos…»; eu a querer dormir mas não tendo um local para o fazer, tão pequenino e naquelas andanças, a mamã oferecia-se sempre para lavar os corpos dos que tinham falecido, não sei se era para os familiares ficarem agradecidos ou se ela era mesmo assim, sempre pronta a ajudar os outros, ou porque gostava daquilo, é difícil saber ao certo, isso está no íntimo da pessoa, os outros não sabem, nem mesmo os filhos, o mais provável era ela ajudar desinteressadamente, eu não gostava dos velórios, mas não podia ficar em casa sozinho, não suportava a solidão, preferia ir com ela, se calhar nem sequer teria alternativa, andava todo borrado de medo, já via fantasmas em todo o lado, tinha horror da escuridão, ficava triste, arrepiado, completamente aterrorizado. No velório do tio Catão foi uma comédia: o morto na urna e por baixo, na corte, o porco a grunhir, até parece que estava a lamentar-se pela morte do dono, toda a gente riu, pudera, já estavam cheios de café e bagaço, por volta das cinco íamos ao forno comprar pequenos pães, chamados petins, ou moletes, quentinhos, para barrar com manteiga, até anedotas se contavam junto ao defunto! Noutro velório, o do tio Fabião, entrou o neto, uma criança de quatro anos de idade, e perguntou: «o que é que o meu avô está a fazer ali deitado no caixote?» Calculas a risada que foi! A mamã ia para as aldeias, aparecia altas horas, eu assobiava para enganar o espantalho do medo, no inverno era pior, os dias são curtos, há pouco sol, a noite cola-se ao dia, quase que nem se dá por nada, é tudo escuro, a nossa alma é escura, cinzenta, o receio oprime e invade o nosso coração, ainda hoje detesto a noite.

- A mamã quis levar-te outra vez para o hospital…

- Eu disse-lhe então que preferia matar-me, preferia desaparecer para sempre, que me importava? Que me batesse, que me arrastasse pelas ruas, eu fugiria sempre, iria para o monte, para junto dos lobos, das feras, não queria estar na «cadeia», com aquela gente esquisita, a comer somente caldos de galinha, a cheirar permanente aqueles químicos, a apanhar todos os dias aquelas injeções assassinas.

- Ficaste em casa, foste melhorando pouco a pouco.

- Naquelas idades ou se melhora ou se morre; é verdade que nunca fiquei completamente bom, tive sempre problemas na barriga, de vez em quando bichas pelo rabo, até pela boca, mas as coisas evoluíram favoravelmente; graças a deus, e talvez àquele chã de ervas amargas, que todos os dias tomava, comecei a comer melhor, a engordar um nadinha. Lembro-me que até alfarrobas comi! Tinham vindo do Algarve para alimentar os cavalos dos guardas-fiscais; apanhei-os de costas, saltei para dentro da camioneta e tirei um punhado cheio – que grande barrigada! E eram doces como o mel.

- Podias ter rebentado, dizem que a alfarroba é muito indigesta. Depois a escola…

- Entrei para a primeira classe aos sete anos, era tão pequenino, tão raquítico, um fuinha; o professor nem queria acreditar que eu tivesse aquela idade, parecia um anão, magrinho, lanudo, descalço, que calçado só aos treze ou catorze anos é que tive umas sandálias que a mulher de um carabineiro me deu, estavam-me grandes, mas era melhor do que nada, pelo menos não trazia os pés no chão, que olha: os meus pés já pareciam de sola, eram mais duros do que as pedras, tu também passaste por isso, sabes do que estou a falar, mas olha que mesmo com fome e sem agasalho era dos melhores alunos, o professor Romano gostava muito de mim, chamava-me o Candinho, tinha uma grande simpatia por mim, ai não!... Que eu levava a escola a sério, sabia a tabuada de cor, não era como alguns, desertavam, não gostavam das aulas, depois o professor batia-lhes, os pais iam reclamar, acusavam, diziam que os filhos tinham as costas todas doridas das canadas que o professor lhes dava, daquela cana-da-índia sempre encostada ao quadro-negro, até parecia que nos olhava com ar zombeiro! Mas eles não estudavam, os mandriões, só andavam na escola porque eram obrigados, nunca estavam atentos ao que o mestre ensinava, depois não sabiam nada, nem a tabuada dos dois! Um chegou a ir à cama por causa das canadas e reguadas que apanhou, coitadito, mas o professor fazia aquilo para bem deles, pensava que batendo-lhes eles se dedicariam mais aos estudos, mas não resultava, só alguns, poucos, é que começaram a portar-se melhor, com receio de apanharem!                              

- Tu ainda chegaste a estudar mais alguma coisita…

- Tinha eu dezassete anos, apareceu aqui na Vila curso designado “Curso Elementar de Aprendizagem Agrícola”, teria a duração de quatro anos, mas só fiz os dois primeiros, era necessário haver um determinado número de alunos, todos do sexo masculino, as raparigas não eram aceites, foi pena, porque os rapazes não gostavam de estudar, preferiam o trabalho pesado da lavoura ou da construção civil, assim só davam o corpo ao manifesto, não esforçavam o cérebro, e por essa razão acabou por falta de estudantes, ao cabo de dois anos éramos somente três, eu ainda cheguei a ir buscá-los a casa, mas eles, calaceiros, arranjavam quase sempre uma desculpa infantil para não irem. O professor era o senhor Salomão, boa pessoa, viria a morrer atropelado na cidade por um automóvel anos depois, gostava muito de dar as aulas, aprendia-se bastante, eram matérias interessantes: português, matemática, desenho profissional, ciências…; foi quando eu comecei a trabalhar por conta própria, o meu patrão tinha ido para França – não ganhou nada com isso, acabou por morrer estoirado, ele era trinca espinhas como eu, foi à procura dos francos, mas o que ele encontrou foi a maldita morte. Coitado, deixou dois filhos pequenos e a viúva, ele aqui até ganhava mais ou menos, mas viu os outros irem e não resistiu, a ganância, queria enriquecer, mas olha que eu nunca vi ninguém enriquecer com o trabalho, seja em França ou noutro país qualquer, só se for com negócios, e por vezes sujos.     

- Isso é verdade, eu também nunca vi ninguém ficar rico a trabalhar, claro que os emigrantes juntam algum dinheiro mas é à custa de muitas horas de trabalho, quase que não descansam, e cuidam eles próprios da alimentação e da roupa, além disso vivem em barracas de lata, nos chamados bidonvilles, porque se morassem numa casa verdadeira já não amealhavam tanto, os carros que trazem são alugados ou comprados em segunda ou terceira mão, porque os novos são muito caros, não são para a sua bolsa, os usados é que são baratos, ouvi dizer que os franceses mudam de carro como quem muda de camisa, ganham bem, podem comprar bons carros, os portugueses comparados com eles são uns pelintras, uns pobretanas. 

- Quando apareceu a televisão já tu estavas em Lisboa quase há três anos. Nem fazes ideia o que foi por aqui: as mulheres e os homens, velhos e novos, acorriam ao único Café com aparelho de TV; o dono não tinha cadeiras e espaço para todos, alguns, muitos, ficavam em pé, chegava a haver zaragatas; era obrigatório consumir, pelo menos um café ou um leite com chocolate. Nos primeiros tempos era uma borga, interrompiam constantemente os programas, havia um interlúdio, um gato de um lado para o outro, as pessoas desesperavam, a tia Ernestina dizia alto e bom som que preferia a rádio novela, pelo menos não havia interrupções nem gatos; é verdade que ela deixava passar em claro o facto de se ouvir mal a rádio, era só ruídos, pois a corrente elétrica espanhola não era suficientemente potente para os aparelhos funcionarem bem.

- Em Lisboa também foi uma paródia, um pandemónio, todos os Cafés rivalizavam entre si, compraram aparelhos enormes, pareciam caixas, queriam atrair mais clientela, as ruas a certas horas da noite permaneciam desérticas, toda a gente ficava horas especada frente ao televisor. Um grande acontecimento, um fenómeno!     

- Ainda me lembro dos primeiros programas, com o Artur Agostinho, o Camilo de Oliveira, etc.; muito nos ríamos com aquelas palhaçadas! Passados que foram os meses iniciais, voltou tudo à normalidade. Além dos Cafés as pessoas começaram também a adquirir televisores, o espantoso evento vulgarizou-se.

- Quem deve ter perdido clientes foram os donos dos cinemas e outras casas de espetáculo.

- Sem dúvida. Aquelas casas cheias: quintas à noite, sábados e domingos, tarde e noite, deixaram de se verificar. O dono do Cine-Pelicano já dizia que por aquele andar mais tarde ou mais cedo teria de encerrar as portas, os alugueres dos filmes eram elevados, tinha de pagar aos guardas-republicanos e aos bombeiros, consumia muita eletricidade, havia que pagar aos empregados, a receita já não cobria a despesa.

- Tantos filmes lindos, eu vi naquela Sala!

- Lembras-te dos filmes de Charlot, do Cantinflas, do Bucha e Estica, do Fernandel, do Totó? E o Costinha, Vasco Santana, o extraordinário António Silva?! Fizeram-me rir até às lágrimas.

- Eu gostava mais dos filmes de cow-boys e peles vermelhas, do Búfalo Bill, dos Três Mosqueteiros, e também dos policiais.

- Também apreciava esses, mas os meus preferidos eram os filmes bíblicos. Por exemplo «Moisés», «Dez Mandamentos», «Ben-Hur», etc. Um filme que nunca esqueci, e não me importava de ver outra vez, foi «A mulher que viveu duas vezes»! Grande filme. «A Senhora de Fátima e os Três Pastorinhos» teve aqui muito êxito; muitas pessoas saíram do cinema a chorar, de tão comovidas.    

- A mim vinham-me as lágrimas aos olhos com os filmes de Joselito e de Marisol, que comoventes, e que vozes, pareciam rouxinóis a cantar! Também gostava de «Robin dos Bosques». O Errol Flynn fazia um papel extraordinário em «O Gavião dos Mares». O «Corcunda de Lagardère» encheu-me as medidas. Tantos! 

- Por causa dos filmes de espadachins perdeu um olho o “Vesgo”.

- É verdade. Brincávamos com espadas feitas de madeira e o “Zé Pirete” furou-lhe um olho. 

- Podia ter havido mais incidentes. Lembras-te quando andávamos a atirar setas uns aos outros?

- Se lembro! Uma altura o “Nesgas” fez um buraco na perna do “Pinchas” – o rapaz gritava como um doido.

- Velhos tempos! Apesar da fome que rapámos, do frio, de toda aquela miséria, mesmo assim sinto saudades desses anos, desses incríveis momentos que jamais voltarão, do meu pião, do meu arco, do meu carro de madeira, de todos aqueles brinquedos que eu tive.  

- A tua vida quase dava um romance!

- Dava, dava; mas logo nas primeiras páginas os leitores desistiriam de o ler – quem gosta de chorar?!

  

X

 

A denúncia virtuosa e a virtude enxovalhada

  

     Eu desdobrava-me em consertos, a confecionar o almoço (que no Minho chamam jantar). Nesta região há quatro refeições por dia: almoço (entre as sete e oito da manhã); jantar (entre as doze e as treze horas); merenda (a meio da tarde); e a ceia (entre as oito e as nove horas da noite). A maior parte dos dias também fazia a ceia, pois como já sabem a minha mãe deslocava-se para as aldeias e no regresso, entre as nove e dez da noite, quando não mais tarde, já trazia uma grande piela, mal se segurando nas pernas. Por tudo isto, eu não dispunha de muito tempo livre para o namoro e por essa razão a minha apalavrada começou a ver outros “filmes”, cenários mais vistosos, perspetivas mais consoladoras. O meu grande amigo Rina apercebeu-se, raposa como era, da tramoia, e corre à oficina a fim de me avisar. Escutem:

 

- Ó Cândido, conheces-me, eu não quero ser intrometido, mexeriqueiro, mas olha que dizem coisas por aí!

- Eh, pá, desembucha.

- A tua namorada anda a pôr-tos, já a viram aos beijos com o filho da Teresa, cheira-lhe a «cacau», eles vêm de lá cheio dele, o tipo já está em França há uns anitos, por isso é que pôde cá vir, pagou a taxa militar, até já se fala em casamento, tu põe-te a pau senão ficas sem ela, agora que vais para a tropa, ela deixar-te assim! Eu não vi nada, mas quem mo afirmou não costuma mentir, põe-te a pau, repito, eu no teu lugar esclarecia isso com ela, ser tua namorada e andar no marmelanço com outro é que não, comigo as raparigas não fazem farinha, que eu até lhes rebento com a focinheira, elas a mim têm-me um temor que se pelam todas.

- Mas ouve lá, Rina: ainda ontem estive com ela, não me disse nada, não abordou esse assunto, portou-se como de costume, com naturalidade, isso deve ser mentira, aqui na nossa patriazinha toda a gente mete o bedelho na vida dos outros; lá que o marmanjo se interesse por ela, isso talvez, e até certo ponto compreende-se, ela é um pedaço de mulher, não é por ser minha namorada, mas olha que deve ser a mais bonita do concelho, põe os olhos em bico a qualquer um, eu sei que me têm inveja, lá isso têm, mas eu não me importo, ela gosta de mim e respeita-me, já deu provas disso, não acredito que me trocasse por ele, muito mais velho do que ela; não acredito. Que falem, deixa-os falar, tu és meu amigo, somos como irmãos, e sabes que eu não me importo com o que dizem, a boca é para falar, que falem: «o cão ladra e a caravana passa!»

- Não sei, não há fumo sem fogo, se fosse a ti precavia-me, as mulheres são capazes de tudo, conheço-as bem, como as palmas das minhas mãos, já tive mais de seis namoradas; as cabronas não eram de fiar, logo que outros lhes rondassem a porta, lhes piscassem um olho, fizessem tilintar uma moeda no bolso, atiravam-se-lhes para os braços, mas não se ficavam a rir, partia-lhes os dentes logo que tivesse conhecimento disso, pelo menos não se ficavam a rir.    

- Também há quem diga que uma delas te pôs o corpinho de molho!

- Isso foi a Amália do Regueiro, a malvada tinha uma força de dois homens, era virago, dei-lhe umas bofetadas nas ventas, mas a gaja atirou-se a mim como uma gata, um tigre, arranhou-me todo, mordeu-me o nariz, ia-mo cortando, deu-me um pontapé nos tomates, ia-me aleijando, cabrona, que força ela tinha, tive de dar às de vila-diogo, se não matava-me, quando a vejo ainda tremo, mas olha que essa é tesa, ninguém lhe faz frente, depois vinguei-me nas outras, malhei que nem em centeio, é como se estivesse a bater nela! 

- E o irmão da Filomena, parece que também te amaciou a pele!

- Oh! O João da Queijas, esse, coitado, veio gabar-se para aqui que me batera! Eu dera uma tareia na irmã, quis vingar-se; mas foi tudo mentira, quem levou das boas foi ele, que eu, não é para me exibir, mas assapei-lhe bem, dei-lhe uma moia que não esquecerá tão cedo, até foge de mim quando me vê, ainda outro dia fui a um baile à aldeia dele, a Goibães, olha que não apareceu; eu, se ele aparecesse, já estava preparado para lhe malhar outra vez, mas o tratante não é parvo, se calhar avisaram-no, ele que aparecesse…

- Estas guerras entre os da Vila e os da aldeia nunca acabam, já quando nós éramos pequenos, quando eu vim para cá, ouvia falar nelas, os daqui gabavam-se que tinham dado grandes tareias nos da aldeia, mas parece que não era bem assim, os outros jogavam bem o pau, eram exímios com ele, não temiam os da Vila, chegavam-lhes bem, uma coisa é um indivíduo ser gabarolas, outra coisa é a realidade, quando os paus voam pelo ar não há costas que escapem, levam todos. 

- Nós agora é que estamos a ficar cobardolas, olha que os mais antigos, os da idade do meu pai, esses tinham-nos no sítio, a esses ninguém fazia o ninho atrás da orelha, pudera! Levavam poucas, nós encolhemo-nos, quando vamos às festas e bailes estamos sempre com receio que caia bordoada, mas olha que naquele tempo eles é que tomavam a iniciativa, não esperavam que os outros começassem, as pobres mulheres desandavam, era uma gritaria dos diabos, eu ainda assisti a algumas lutas, a minha mãe fazia um escabeche dos diabos, não queria que o meu velho andasse à pancada, mas ele tinha de ajudar os outros, aquilo fazia lembrar os mosqueteiros «um por todos, todos por um.»

- Nós agora somos mais civilizados, já não usamos pau, por outro lado antigamente não havia GNR, agora os guardas não consentem essas guerrilhas, e andam bem armados, caramba, até podem num ápice matar um tipo. Outro dia, na festa de Santa Quitéria, não sei se lá estavas, os guardas Silvino e Rómulo puseram-se aos tiros, um tipo borra-se todo, uma bala daquelas leva um homem para o jardim das tabuletas num segundo, eu pus-me detrás de uma árvore, apanhei cá um susto, nem é bom lembrar.

- Eu chegara havia minutos, andava à tua procura, os guardas trouxeram uns quantos presos para a cadeia, parece que bateram neles que nem fossem animais, nunca mais vão querer meter-se noutra, os gajos não são para brincadeiras, dão tareia da grossa, hóstia, dão com a coronha da espingarda, até partem a cabeça a uma pobre criatura de Deus.

- As festas assim ficam mais calmas, já toda a gente pode andar à vontade, sem receio de apanhar uma paulada, esse costume está fora de moda, nós queremos e desejamos é divertirmo-nos, eu não gosto de confusões, de balbúrdias; os arruaceiros estragavam a festa quando ela estava no auge, embebedavam-se e pronto, toma lá porrete!

- Mas assim as festas não prestam, perdem toda aquela beleza, o colorido, tornam-se festas para mulheres e crianças, calmas, somente a música, primeiro a missa, a procissão, toda a gentalha sabe o que se vai passar, não têm graça nenhuma!   

- Há as cantigas ao desafio, os ranchos folclóricos, as moçoilas a passear de um lado para o outro, os namoricos, a banda de música… Sabes que a nossa banda é considerada uma das melhores do Minho?

- Graças sobretudo ao mestre Fernandes.

- Extraordinário maestro! Mas dizia eu: na festa de Santa Maria levámos, eu e a minha velhota, para merenda, um galo estufadinho no tacho, que bom, foi um petisco, passámos um dia maravilhoso, eu gosto de paz, sempre fui pacífico. 

- Também não tens corpo, nem garra, se tivesses eras como os outros, quererias botar figura, assim refugias-te debaixo das saias das mulheres, e elas abusam de ti!

- Sabes que isso não é cem por cento verdade; há pessoas agressivas por natureza e outras que não o são, eu pertenço a estas últimas, nasci assim e sinto-me bem comigo, com a minha consciência.

- És muito diferente de mim, eu gosto de movimento, de ação, de protagonismo.