quinta-feira, 17 de setembro de 2026





 

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


20.º Capítulo

 

BISSAU

 

 

     A narrativa estava praticamente no fim. Mas o tema, a guerra colonial, daria ainda pano para mangas, não só a estes dois amigos, mas também a jornalistas, escritores, sociólogos… Vamos então aproximar-nos e escutar a conversa dos dois:

 

- Finalmente em Bissau, amigo Henrique. Na capital da então província portuguesa da Guiné encontrei pessoas do meu torrão paterno, que ali viviam havia décadas. Dedicavam-se ao comércio: exploravam lojas de roupas, bares, restaurantes, cervejarias… Nesses anos, e devido em parte à guerra colonial, o negócio estava assaz próspero. 

- Esses conflitos armados trazem vantagens para alguns…

- É verdade. Houve muita gente que medrou à custa do sangue do soldado. Mas, enfim! Satisfeitíssimas por as ter visitado, logo nesse dia me obrigaram a prometer-lhes que iria almoçar com elas todos os fins-de-semana enquanto não embarcasse para a metrópole. Acedi, com relutância, ao convite, mas a minha ingénita timidez deixar-me-ia ficar mal. Poucas vezes cumpri a minha palavra, e quando ia arranjava sempre uma desculpa pouco convincente para não ir no domingo seguinte. Preferia comer, quando tinha uma folga, e duas notas de vinte mil réis no bolso, naqueles restaurantes modestos: um bife com batatas fritas e uma garrafinha de vinho verde de sete decilitros e meio, só para mim!

- E conseguia bebê-la toda? – pergunta Henrique, pasmado, mas com um sorriso zombeteiro nos lábios.

- Até a escorropichava! Que é isso, em África? Com aquele calor não havia líquido que chegasse. Tirei, como tinha planeado, a carta para condutores profissionais (pesados e ligeiros), dei uns chutos na bola, apenas futebol de salão, muito em voga na altura, dando direito a taça no final do torneio, e fui aguardando pacientemente, como um eremita, que a roda do tempo rodasse e cumprisse a sua obrigação. Certo dia recebi uma série de epístolas, já atrasadas, entre as quais uma da madrinha Fernanda.

- Já sei que a vai ler – diz Henrique, satisfeito, e já familiarizado com as cartas da mocinha.

- Acertaste. Ouve, então:

 

 

Querido afilhado

 

                     Faço votos para que ao receber esta esteja com boa disposição e saúde; são esses os meus sinceros desejos. Compreendo o seu estado de ânimo ao ver aproximar-se o natal e estar longe da família, por isso perdoo-lhe tudo o que me disse; realmente eu, pode crer, não posso guardar rancor a ninguém, só se me ofendem muito, essa pessoa para mim é-me indiferente, mas a si como podia ficar zangada? Quando lhe escrevi, para ser franca, tinha uma ideia que o meu afilhado me responderia. Aí deve estar um tempo formidável; aqui está um frio de rachar, nem calcula; os montes estão brancos em virtude da neve que caiu, parece-se com a Suíça, só que nesse país pode-se esquiar e aqui não, apesar de a neve atingir muitos centímetros de altura; não solidifica e as pessoas ao andarem enterram os pés. A neve é muito bonita, de uma maviosa beleza, e hoje então os montes estão completamente brancos, vejo-os da minha janela, até apetece sonhar, mas é fria e causa-me arrepios pelo corpo todo.

         Espero que tivesse passado, na companhia de todos os seus colegas, um natal muito feliz, eu passei-o bem; só que nesse dia não fui ao baile que aqui houve. Na passagem do ano, sim: voltei para casa às quatro da manhã, quase mesmo no fim. Acompanharam-me familiares e só dancei com rapazes da minha confiança. Tenho quase a certeza que vocês também o tiveram, pois aqueles que daí já voltaram disseram-me que no fim do ano faziam um baile. Por isso é que estou a falar-lhe no assunto. Também desde o Carnaval passado que não ia, não é que não os haja, mas não sou muito amante deles – prefiro o cinema. Tenha muito cuidado, pois disseram-me que as coisas aí, e em Angola e Moçambique estão a correr mal, peço a Deus que tudo acabe depressa e que não lhe aconteça nada de grave. Vou terminar, embora tenha imensas coisas para lhe dizer, mas tenho uma forte dor de cabeça, até parece que não posso com ela. Receba abraços muito apertados da madrinha amiga, e nada de zangas, entendido?             

                                                                                                 Fernanda

 

*

 

- Cada vez me convenço mais de que essa rapariga fazia projetos a seu respeito. Que lhe escreveu, se é que posso saber, que a magoou tanto?

- Bem, passou-me pela cabeça acabar com este pseudo, absurdo namoro. Estava a tornar-se perigosa, ou seja, era a mais culta, das mais bonitas (pelo menos na fotografia) e as suas cartas estavam a tornar-se necessárias, algo que se espera com ansiedade. Não podia, nem queria, avançar mais – tinha de tomar uma decisão.

- Compreendo. Mas não pensa que estava a ser cobarde? Se começou a gostar dela e ela não estava comprometida com outro, qual a razão desse sentimento negativo? Temia que quando ela o visse em pessoa ficasse desiludida?

- Se me prometeres que não contas a ninguém eu revelo-te um segredo que tenho guardado religiosamente. Prometes?

- Prometo solenemente… Se quiser, até vou buscar a bíblia para jurar sobre ela – diz o rapaz, fazendo um gesto teatral.

- Amigo Henrique: não encaras nada com seriedade. Apesar disso, e porque trago este peso há muitos anos, vou confiar em ti. Eis a confissão: a fotografia que mandei à Fernanda tinha-a pedido a um camarada amigo, daqueles que mais pareciam atores dos anos quarenta e cinquenta, como Cari Grant, Charlton Heston, Paul Newman… daí ela estar tão interessada. Se lhe tivesse enviado uma foto das minhas provavelmente deixaria de me escrever!

- Cândido, Cândido! Isso não se faz; é indigno da sua pessoa. E também fez isso com as outras madrinhas? Olhe que desceu muito na minha consideração, praticou um ato muito vil e desumano.

- Não fiz isso com mais nenhuma, e olha que sofri muito por ter feito essa canalhice; os remorsos têm-me perseguido pela vida fora. Ela não o merecia. Penso até que era delas todas a mais sincera, a mais empenhada em ajudar-me a passar aqueles maus momentos. Portei-me como um vilão.

- Valha ao menos o seu arrependimento… - admitiu Henrique, compreensivo.

 

*

 

     A história estava quase no seu final. Cândido encontrava-se em Bissau à espera que a Companhia regressasse de Contuboel para embarcarem rumo a Portugal. Mas ouçamos a sua conversa com Henrique.

 

- Caro amigo: episódios dignos de registo, alguns mesmo insólitos, aconteceram na capital da Guiné. Logo a seguir à minha chegada visitei a cidade, que ainda não conhecia (o hospital, onde já estivera, ficava nos arredores). As montras, decoradas com requinte, com arte, iluminadas e recheadas de tudo quanto era bonito, reclamavam a minha atenção: camisas de seda, colchas de Macau, louças chinesas, com várias cores, deixavam-me perplexo. Ficava boquiaberto com tanta coisa bela, apetecível. E pensava nos militares que se encontravam no mato, na mortífera selva, a matar e a morrer, privados de tudo aquilo: maldita guerra! Tão admirado e fascinado andava a espiolhar as vitrinas que não me apercebi da presença de um poste da iluminação pública e assim fui contra ele de forma absurda e ridícula. Vi as estrelas todas do firmamento, e mais veria se as houvesse! «Saloio» - resmunguei, insultando-me a mim próprio.

- Isso acontece… - diz o moço, com comiseração.

- Um dia estava sentado num banco do jardim, ali perto do Palácio do Governador, lendo uma revista, quando se aproxima uma mulata. Mete conversa: «Preciso urgentemente de dinheiro, não te apetece?» Como era uma mulher nova, na casa dos trinta anos, fui. Descemos uma rua de terra batida e ladeada por ramagens. Pelo caminho foi-me dizendo que vivia com um cabo-verdiano: «O meu homem trabalha nas docas, só vem à noitinha.» Ao fundo da rua avistavam-se dezenas de barracas, como as que agora se veem um pouco por todo o lado, neste país de brandos costumes e um pouco desleixado. De repente para e pede-me: «Fica aqui; quando eu te fizer sinal entras.» Aguardei pacientemente, já com algum receio, mas eis que depois de uns minutos de espera ela me avisa por gestos de que posso avançar. Entrei com pés de lã e qual não foi o meu espanto ao ver junto da cama da jovem mulher um bercinho com um bebé lá dentro. Choramingava. Pensei: «deve ser por causa da criança, para a alimentar, que ela se anda a prostituir.» Hesitei. Contudo, e tendo em conta que já ali me encontrava, comecei a despir-me. Não sei o que se passou comigo. Comecei a suar, um suor frio, afogueado, e não tive coragem de levar avante a intenção. Então, tirei do bolso das calças umas moedas e dei-lhas: «Não lhe posso dar mais!» Retirei-me constrangido, destroçado, com vergonha de mim. O mundo estava a precisar de uma mudança.

- O Cândido tem um grande coração…

- O meu nome figurava inúmeras vezes na escala de serviços: sentinelas, guardas, faxinas, tudo! De condução, a minha especialidade, nada! Quando me encontrava de guarda ao quartel, sobretudo à noite, com uma vontade danada de passar pelas brasas, ouvia o ribombar dos canhões, o rebentamento de minas, os tiroteios mais ou menos duradouros, e apreciava as línguas de fogo penetrando pelo céu dentro. Que pena sentia dos meus camaradas; como eles sofriam; e eu, impotente, não os podia sequer confortar com uma palavra amiga. Fui escalado certo dia para prestar serviço no Hospital Militar e lá, mais uma vez, tive a perceção correta e profunda do que se passava: quantos mortos e quantos feridos chegavam a todo o momento! E na metrópole afirmava-se, cambada de ignorantes, que morria mais gente nas estradas do que na guerra! Cretinos! Os helicópteros não tinham um segundo de descanso: chegavam e partiam, ininterruptamente! Os estropiados gritavam com desespero, até metiam dó; os mortos, esses, como que dormitavam silenciosamente. E eu, ali ao lado deles, metralhadora na mão, apático, como que a vigiá-los! Infelizes criaturas. Seriam depois conduzidos para a morgue, e aí eram colocados em urnas de chumbo. Oportunamente, a Força Aérea, ou a Marinha, trasladaria esses cadáveres para a sua terra de nascimento.

- Terrível! Pelo que você passou, amigo Cândido. Até me arrepio todo.

- É verdade... o que passei! Naquele estabelecimento hospitalar também se encontravam alguns prisioneiros a receberem tratamento; entre eles, um cubano, um súbdito de Fidel. Lutara ao lado dos guerrilheiros do PAIGC e como «quem anda à chuva molha-se», chegou o seu dia de azar. O rosto denunciava uma expressão mal contida de resignação e de sofrimento controlado. Valia-lhe, certamente, ao contrário de mim, a convicção inabalável, o pensar que estava lutando por uma causa justa, pela libertação de um povo. Eu esperava ansiosamente, com impaciência, o dia do regresso; ele aguardava com expectativa e esperança o dia da independência da Guiné-Bissau. Os nossos olhares cruzaram-se e, por mais incrível que isso te pareça, não o considerei meu inimigo! Em Bissau a vida quotidiana decorria normalmente. Muito comércio, vida noturna, sala de cinema (a única em toda a colónia), uma filial do Banco Ultramarino. Sabias, Henrique, que as notas e as moedas lá não eram iguais às da metrópole e não tinham aceitação em outras partes do país?!

- Não acredito! Isso não faz sentido.

- Podes crer; não minto. E sabes como os guineenses menos instruídos lhe chamavam? Patacão! «Manga de patacão» significava ter muito dinheiro.

- Com essa designação existiu uma moeda antiga, do reinado de Dom João III, cujo valor era dez réis – recordou Henrique, a fim de mostrar os seus conhecimentos históricos e de numismática.

- Por aí podes imaginar como a evolução se processou nesse território.

- E quando os militares vinham embora, o que faziam a esse «patacão»?

- Havia sempre alguém – especuladores –, que o recebia em troca de escudos da metrópole. Por exemplo: davam cinquenta ou sessenta escudos por cem da Guiné!

- E qual era o seu valor real?

- Não tenho a certeza, mas pelo menos valia oitenta escudos. Além disso, esse negócio era ilegal. Fazia-se por dois motivos: o primeiro consistia na rapidez - toma lá dá cá; o segundo motivo tinha a ver com a ignorância – muitos soldados nunca tinham entrado num Banco, não sabiam preencher um impresso! Esse dinheiro ainda circulou mesmo depois da independência!

- Não me diga?! – exclama Henrique.

- É verdade. O PAIGC não tinha na altura condições para emitir moeda e notas; assim, durante algum tempo, aproveitou o que existia – claro que apunha nas notas um carimbo da nova República para as tornar legais.

- Essa não sabia eu; andamos sempre a aprender. Esse tema daria pano para mangas, mas…

- Sim, esses assuntos terão de ser tratados com outro tempo, e outro rigor técnico e científico.

- Dava uma interessante tese de licenciatura na área da Economia e Finanças.

- Pode ser que um dia aproveitem a ideia. Posso continuar a minha história?

- Faça favor…

- Do Portugal europeu iam cantores e cantoras atuar. Mas não iam ao mato – ficavam-se pela cidade. Eram grupos jovens, recentemente criados, que desejavam dar-se a conhecer. Num desses conjuntos cantava o Paulo de Carvalho, agora bem conhecido. Até dava a impressão de que a colónia não estava em guerra. Somente os para-quedistas, fuzileiros, comandos, irmãos inimigos de há muito, uns julgando-se melhor do que os outros, de vez, em quando, davam um ar da sua graça: travavam-se de razões e as fascinantes montras dos estabelecimentos comerciais ficavam reduzidas a cisco, a estilhaços, a fragmentos! Pareciam verdadeiros adversários! Atuavam como tal. Suponho que essas tropas de escol, a nata das forças armadas portuguesas, a quinta-essência, queriam exibir, perante a população civil, a sua capacidade, a sua destreza. Eram os bons! Nós, comparados com eles, não passávamos de garotos fardados, gente de segunda categoria. Eles sim, tinham treinos adequados, comiam bem, envergavam fardas bem-feitas e de bom tecido, possuíam armamento sofisticado. Eram forças especiais, tropa rica.

- Ainda hoje deve ser assim – arrisca Henrique.

- E há de ser sempre enquanto houver exércitos, julgo eu. Prossigamos: a sua prosápia ganhara notoriedade. Até no andar e vestir de nós se distinguiam: peito para fora, bem constituídos, davam logo nas vistas. Nós, mal alimentados, fardas grosseiras, de fabrico duvidoso, esqueléticos a maior parte, alguns gordos, parecíamos mais uma milícia da segunda guerra mundial!

- «Carne para canhão», como disseram aquelas mulheres do Porto! – remata Henrique, desejando acabar com aquela lengalenga.         

 

*

 

- O tempo, no seu passo vagaroso, desfalecia. Aproveitei esses meses de Bissau para visitar os arredores (sítios havia, porém, onde seria impossível ser bem recebido: por exemplo, nos bairros degradados, onde o crime e a miséria reinavam), e tirar algumas fotografias para a posteridade, para mais tarde recordar, como se costuma dizer. Talvez um dia te mostre o meu álbum.

- Gostava imenso de vê-las.

- Brinquei, sem qualquer tipo de malícia, com as raparigas de cor: as poucas brancas que residiam na cidade estavam sob controlo absoluto – quer dos pais, dos irmãos, dos namorados… Elas também não davam confiança a simples praças – só de furriel para cima! Ainda tentei catrapiscar uma, mas ela rejeitou com severidade excessiva a minha humilde corte: «O senhor não tem mais nada para fazer senão andar atrás de mim como um reles cachorro, um rafeiro? Quer que vá fazer queixa de si ao seu comandante

- Era má, a miúda. Como reagiu à ameaça?

- Fiquei siderado. Se ali houvera um abismo, um fundo buraco provocado por um meteorito, não hesitaria uma fração de segundo que fosse: atirar-me-ia! «Perdoe, menina» - disse-lhe eu, a gaguejar, com humildade e temeroso. Compreendi então que nada valia, nem um leve sorriso de uma jovem branca!

- É óbvio: pertencia a outro estrato social; «cada macaco no seu galho»! Se fosse agora, com os seus estudos, o seu emprego, as suas perspetivas futuras… E vocês estavam lá para os defender… Ingratos! – comenta Henrique, indignado com a atitude da rapariga.

- Nem tanto… Nós fomos defender, penso eu, a soberania nacional, não as pessoas; mesmo que na Guiné não houvesse um único branco, um português do continente europeu, nós iríamos… Para Salazar o mais importante era o Império!

- Depois de Deus – corroborou Henrique.

- Com o divino estava sempre bem, pois tinha a Igreja de Roma do seu lado, o cardeal Cerejeira…

- O meu amigo não lhes perdoa!

- Não sou juiz, nem carrasco; apenas senti na minha pele a diferença entre ser ou não ser pessoa. O regime nunca nos ligou, tratou-nos como farrapos, como coisas. Que culpa tinha eu de ser pobre e ser soldado? Não lhes perdoo nem deixo de perdoar: onde estão os meus poderes, os meus conhecimentos, para os julgar, para os levar ao tribunal da História?

- Há azedume nas suas palavras…

- Não sou rancoroso, meu amigo. Também não sou santo, nem candidato a tal. Lamento apenas tudo aquilo que vivi e observei na ex-colónia durante quase dois anos. Há quem afirme que Deus de Israel, ou dos judeus, quando criou o mundo, estava a pensar em todos os seres vivos; é assim que consta na Bíblia, no livro dos livros…

- Isso foi há tanto tempo! Já se esqueceram.

- Terá de ser relembrado.

 

*

 

     Nesse curto e, simultaneamente, longo espaço de tempo aprendi igualmente a olhar a paz em tempo de guerra! Frequentei, com certa regularidade, o mercado, porque gostava de assistir à chegada daquelas mulheres e homens com uma espécie de cabaças, ou açafates, à cabeça, transportando mancarra (conhecida também por alcagoita ou amendoim), mandioca, ananás, batata-doce, bananas, laranjas, cocos, manga, e outros frutos da Guiné. Maçãs, peras, dióspiros, nêsperas, ameixas, cerejas, pêssegos, nozes, figos, etc., parece-me que não havia por esses lados – nunca vi. Julgo que as árvores que os produzem não se adaptam ao clima: quente e húmido. Vendia-se também panos garridos, estatuetas, peles de jiboia…, um pouco de tudo! Aquele movimento constante, o cenário, os cheiros, atraíam-me, fascinavam-me! As mil cores, a linguagem variegada, as jovens mulheres carregadas de roncos, ou seja, pulseiras, e outros objetos decorativos, feitos por elas próprias, ou por artesãos, artistas negros, guineenses, tornavam aquele local diferente de tudo que tinha visto até então. Sabes que na Guiné se usava muito a expressão: «manga de ronco, pessoal»!

- Manga não é um fruto?

- Sim; mas pelo facto de existir em grande quantidade, tornou-se sinónimo de «muito». Quase todas as etnias, sobretudo as mais próximas da capital, seguramente teriam, ali no mercado, um seu representante. A África, apesar de ser um continente onde a guerra, a doença e a fome coabitam, encanta o homem europeu. Ainda hoje, passados tantos anos, sinto uma grande nostalgia, algo indecifrável, um não sei quê.

- Saudade não é?!

- Tenho a certeza que não! O que lá passei, o que lá sofri e vi sofrer, não é passível desse estreme e melancólico sentimento.

- Gostaria de lá voltar?

- Não! Nem que me dessem uma fortuna. Isso teria um efeito nefasto na minha vida, era o mesmo que destruir a minha memória. Contudo, guardo algumas recordações. Por exemplo: as mulheres, a tomar banho nos tanques e rios. Corpos nus, isentas de preconceitos, mas prenhes de pudor; os homens que sorriam e as crianças que brincavam, sãs, ignorando o perigo que à sua volta existia e a miséria e o terror que com elas se mesclavam; as bajudas, ingénuas, mostrando embevecidas (e deixando mexer) os seus rijos seios. A noite africana, com o seu mistério e o seu encantamento; os braços de mar, ladeados por selvas espessas e infindas; os pantanais, mais traiçoeiros do que Judas bíblico; as clareiras (geometricamente circulares); os estranhos animais e as árvores gigantescas, as frutas (bananas enormes, de uma cor entre o vermelho e o roxo, e sabor delicioso). Tudo! Que pena não haver paz em África. Todos ganhariam. Nesse continente maravilhoso e potencialmente rico poderiam coexistir milhões e milhões de seres humanos: brancos, negros, mestiços… Que importa a cor da pele? Sem guerra, sem doenças, a África, pode ser um paraíso. «Ó povos de África: atirai fora as armas, os ódios, e abraçai-vos fraternalmente     

- Não vai ser fácil alcançar-se esse desiderato… Você mesmo me disse que os negros são belicosos, pouco amantes da harmonia, da concórdia. Mas passemos a outro assunto: a sua madrinha Fernanda, rompeu com ela?

- Não se pode acabar assim, do pé para a mão, com uma situação destas. Ainda nos continuamos a escrever por mais algum tempo. As nossas cartas já não eram bem de madrinha para afilhado, exagerava as minhas emoções na esperança de que ela me deixasse de escrever; mas não, parece que até estava a gostar, tornou-se um desafio assaz perigoso.  

- E como acabou?

- Decidi-me depois da carta que te vou ler:

 

 

Cândido

 

               Saúde e boa disposição; são esses os meus sinceros desejos. Recebi a sua carta com a qual fiquei bastante admirada (não era para menos!) Realmente não penso que seja má ideia arranjar trabalho na Guiné, e isso de se querer casar e depois levar para aí a esposa também está certo, não concebo o casamento em que o marido tem de estar separado da mulher, ora como me pergunta se eu não me importava de ir viver, depois de casada, para África, a vida aí dá uma grande cambalhota e não se pode dizer «desta água não beberei». O casamento, penso, é o ato mais importante que uma pessoa pratica, para isso deve refletir muito e ambos se devem conhecer perfeitamente, ora eu não o conheço senão por cartas, não quer dizer que seja mau rapaz, não sinta por si um profundo carinho, mas não o conheço pessoalmente, para mim representa muito mais o espírito da pessoa do que o físico. Ambos somos ainda novos, temos muitos anos à nossa frente, devemos encontrar-nos, conhecermo-nos melhor, e depois tomar a decisão que os nossos corações acharem a mais acertada. Acha bem? Receba muitos abraços da

                                            

                                                                                    Fernanda  

 

 

- A partir daqui abriu uma brecha na muralha, rompeu o dique, adquiriu o estatuto de namorada - sentencia Henrique, de semblante carregado. - Não se portou bem, meu caro. Se não tencionava casar com ela, porque fez nascer e alimentou esse romance, tipo Simão e Teresa? Não seria obrigado a isso. Não me diga que o fez como teste, para verificar se as suas cartas surtiam efeito nos frágeis corações das jovens mulheres. Esse comportamento é mesmo de macho latino; queria ser um colecionador de almas femininas!

- Disse-to há pouco: a nossa situação, quase tudo justificava; eu apenas me aproveitei de um pequenito dom, que era o de saber escrever razoavelmente. Outros aproveitam-se do físico. De qualquer modo, jamais lhes toquei; nem sequer cheguei a conhecê-las fisicamente. Se mal lhes fiz, esse mal foi passageiro, efémero. Muitas delas, ou todas, já estarão casadas agora. Tenho remorsos, mas o meu crime não é assim tão grande, tão escabroso.

- Está redondamente enganado, meu caro Cândido; os crimes de coração, sentimentais, não têm tamanho, não se podem medir, e jamais se perdoam. Você desencadeou nelas uma onda de expectativas, uma maré de sonhos, uma primavera de emoções, uma fogueira que jamais se extinguirá. 

- Podes ter razão, mas exageras. Achas, meu amigo, que podia casar com elas todas?! Em relação à Fernanda, quando cheguei a Lisboa ainda lhe escrevi uma longa carta; carta essa que não fiz seguir – tive medo das consequências!

- Ainda conserva essa missiva?

- Sim. Guardei-a e de vez, em quando, volto a lê-la.

- Se a tiver consigo quer ter a bondade de ma ler?

- Não a tenho aqui comigo, mas no próximo encontro trago-a.

         

*

 

     Passaram-se uns dias. Cândido não esqueceu a promessa que fizera. Naquela tarde dirigiu-se ao Café, ao encontro habitual. Henrique já lá estava, sentado, talvez meditando na vida. Quando viu o amigo, perguntou-lhe:

 

- Não se esqueceu da carta, pois não?!

- De maneira nenhuma. O prometido é devido. Escuta:

 

 

Fernanda

 

                  Nem sei como começar esta carta. Sinto imensos remorsos por ter criado em ti a ilusão do amor, esse sentimento tão nobre. Peço-te que me desculpes, se puderes; perdoa a este ser que não soube respeitar uma jovem sublime, grandiosa… Tudo que te fiz, merece castigo, reprovação. Até a fotografia que te enviei não me pertence, mas sim a um camarada meu da mesma Companhia. Sou um tipo banal, sem o mínimo de interesse. Tive receio que não respondesses depois de veres a minha cara – daí ter feito isso! Sou um monstro sem escrúpulos, nunca poderei aspirar a ti, apesar de todo este arrependimento sincero. Jamais te esquecerei e podes crer que idolatrarei sempre a tua memória; serás uma espécie de santa de altar para mim. Se fosse poeta cantar-te-ia em magoados versos. Mas não: sou apenas um rude camponês da palavra. Desejo que encontres o homem ideal, que mereça o teu carinho e saiba respeitar-te com dignidade. Eu não me casarei; arrastarei a minha existência, tentando penitenciar-me do abominável pecado que cometi em relação à tua doce pessoa. Mesmo que contigo eventualmente viesse um dia a casar formaríamos um lar sob o signo da desconfiança. Tu verias em mim o outro, e eu próprio considerar-me-ia a segunda escolha! Teria toda a vida ciúmes de um homem retrato! O matrimónio tem de nascer de um ato espontâneo, sem sombras, sem mágoas; o nosso, caso acontecesse, era o produto de uma fraude, de uma brincadeira de péssimo gosto. Em dias de mau humor atiraríamos, um ao outro, as pedras que guardáramos ciosamente no recôndito baú.

                  Adeus meu anjo, que os deuses e os fados te sejam favoráveis, e que o teu caminhar pela vida se revista de suaves contornos, e que as penas que vieres a sofrer sejam plumas de avezinha, sem peso e sem dor.

                                                                                                            

                                                                                                                                     Cândido

 

 

- Comovente. Devia tê-la feito seguir, ela perdoar-lhe-ia de certeza. Enfim, talvez o destino assim o tivesse determinado. Uma das coisas de que ainda não falou, não sei se voluntariamente, se por esquecimento, foi do papel que desempenharam o Movimento Nacional Feminino e a Cruz Vermelha Portuguesa. Pensa que foram importantes para vocês?

- Essas duas instituições tinham caráter distinto, embora na ocasião não as distinguíssemos muito bem. O MNF foi criado pelas mulheres salazaristas para apoiarem o regime, mediante uma propaganda assanhada e cínica, mas por vezes bem-sucedida. Este movimento extinguir-se-ia logo que a guerra, ou o regime, terminassem. E foi assim, como bem sabes, que aconteceu. Quanto à Cruz Vermelha é totalmente diferente. Trata-se de uma instituição planetária, cujos membros, médicos e enfermeiros, sobretudo, procuram socorrer os feridos aquando das sucessivas guerras que vão surgindo por esse mundo fora. Que desejávamos nós, soldados, dessa gente? Apenas uma coisa: que nos apoiassem materialmente, isto é, que nos mandassem aquilo que nós lhe pedíamos.

- Que lhes solicitavam, concretamente?

- Falo pela minha pessoa: revistas, livros de estudo, um calção de banho, um álbum para colocar as fotografias que me iam oferecendo, uma pastinha para pôr as cartas. Bagatelas, mas que para mim seriam importantíssimas, visto que não tinha dinheiro para as comprar e, mesmo que o tivesse, no mato não existia estabelecimento onde adquiri-las.

- E recebeu tudo aquilo que solicitou ao M.N.F. e à Cruz Vermelha?

- Não brinques comigo! As revistas que eu recebia eram usadas, já tinham sido lidas e relidas, desatualizadíssimas, sem qualquer interesse; os calções de banho não mos mandaram, alegando ultrapassar a sua capacidade financeira; a pasta para cartas enviaram-na, mas era de plástico reles – nem sequer cinco tostões valia; o álbum, pequenino e ruim! Quanto aos livros de estudo, ouve esta: «Soldado de Portugal – Sobre o seu pedido de livros de estudo enviado a esta Comissão, vimos informá-lo que terá que se dirigir à Comissão Provincial do M.N.F. em Bissau, pois é essa Secção que faz a distribuição destes livros na Guiné. Para facilitar os serviços e ter os livros com mais brevidade, deverá pedir ao seu Comandante uma declaração comprovando a necessidade do seu pedido. / Com os nossos melhores cumprimentos. / POR DEUS E PELA PÁTRIA. // Achas, meu caro amigo, que uma resposta destas merece algum comentário? Para cúmulo do disparate, em todas as cartas constava o aviso: «Este Serviço encerra durante os meses de Agosto e Setembro para férias, e Novembro e Dezembro para tratar do Natal do Soldado.» Já reparaste na hipocrisia deste aviso? E se nós, soldados, também encerrássemos para férias? E o natal, que natal?! Suponho, não tenho bem a certeza, que nessa noite andava eu aos tiros na mata! O mais certo era fazerem a festinha num quartel da capital, com a tropa de elite, onde a televisão do regime e alguns jornalistas divulgariam para todo o país a cerimónia natalícia.

- Diz-se que o M.N.F. destinava as verbas recolhidas em nome dos soldados a outros fins, em proveito próprio. Que pensa acerca disso?

- Não sei; não tenho elementos suficientes que me permitam chegar a essa conclusão. Mas olha que se isso corresponder à verdade não vi até hoje ninguém, nenhum governo democrático, condenar esse vergonhoso acto. Será que não passou de um boato?! A Cruz Vermelha Portuguesa sempre teve uma boa reputação, pese embora a sua ausência no interior da mata africana. Talvez tenham estado em Angola e Moçambique; na Guiné-Bissau… não me apercebi da sua presença, e se ela era necessária!

- Provavelmente não teriam quadros suficientes, enfermeiros, médicos, maqueiros, ou quem sabe, o exército não lhe tivesse solicitado ajuda…

- São pormenores que eu desconheço. Apenas me limito a contar-te aquilo que eu próprio vi. Os historiadores terão de investigar muito, colher imensa informação, para depois esclarecerem o público em geral. A minha narrativa está quase no fim, tens tido muita paciência e denodo até agora; se me permites vou dar as últimas pinceladas a ver se isto termina com chave de ouro.

- Só lhe quero pedir, antes de prosseguir o seu interessante relato, que me elucide sobre eventuais traumas que os militares trouxeram de África. O que é que o Cândido pensa acerca disso?

- Já esperava essa pergunta. É comum e vulgar ouvir-se dizer que os soldados que participaram na guerra colonial ficaram com imensos traumas, com problemas nervosos; traumas, esses, que os acompanharão toda a vida. Em parte pode-se considerar verdade; no entanto, isso não significa de maneira nenhuma que todos os ex-combatentes tenham vindo doentes de África, ou que sejam potenciais doentes por essa causa. Contam-se por vezes histórias disparatadas acerca do nosso equilíbrio mental: saltamos da cama quando ouvimos o rebentamento dos foguetes, qualquer pequerrucho ruído nos faz atirar para o chão… Disparates! Teremos de separar as águas; e das duas, uma: ou o soldado psicologicamente era forte, e resistiu; ou, então, sendo fraco, não se aguentou nas canetas! Se esta última hipótese se verificou, só lhe restava, e resta, o tratamento médico adequado. Terá de consultar psicólogos, psiquiatras, quaisquer especialistas que o ajudem a superar a crise, a terrível doença. Porque, meu amigo, doentes do sistema nervoso sempre houve e haverá, e não é preciso ir combater nesta ou naquela guerra para se sofrer desse mal. Quantas pessoas estão internadas no Hospital Júlio de Matos, e noutros, vulgarmente conhecidos por loucos, malucos, ou tarados, que nunca participaram num conflito armado?

- No entanto... – tenta defender-se Henrique. 

- Claro que devido à tensão a que fomos submetidos, aos padecimentos sofridos, à angústia, ao medo permanente, à descaraterização da personalidade, ao vexame, admite-se que tenhamos sido bastante afetados. Não obstante tudo isso, convenhamos que o sistema neurológico do ser humano é por demais complexo para indivíduos sem conhecimentos científicos no âmbito da psiquiatria estarem a especular, como se fossem homens doutos nesse domínio. Contentemo-nos com esta simples conclusão: há doentes que contraíram a doença na guerra colonial e outros que a obtiveram noutro lado qualquer e por outras razões. Uns não são mais enfermos do que os outros; contudo, poderemos e deveremos interrogar-nos sobre se aqueles que adquiriram as suas maleitas na Guiné, Angola e Moçambique, as teriam arranjado se lá não tivessem ido.  

- Essa resposta, só os médicos a poderão dar…

- Nem os médicos! Meu caro: felizmente nunca tive problemas de maior no que diz respeito ao foro psicológico e psiquiátrico; trouxe, porém, da Guiné, uma doença do aparelho digestivo e menos quatro dentes. Herdei também um grande ódio às guerras e muita raiva àqueles que as fomentam – e nós sabemos quem eles são, não sabemos?

- Se sabemos! E quanto ao alcoolismo?

- Bem, quanto a esse ponto, vício provocado pelos traumas, de acordo com a voz do povo, tenho a dizer o seguinte: Portugal foi desde tempos imemoriais berço de um grande número de borrachos; isso, nada tem a ver, quanto a mim, com a guerra, antes dela já existia grande consumo, é mais uma questão de educação, formação, costumes antigos e arreigados. Nos meios rurais, onde se colhe em abundância o fruto da videira, o sumo da uva, bebe-se, desde tenra idade, vinho e aguardente em consideráveis quantidades, isso não é segredo para ninguém. No princípio deste século XX ainda se dava, nas festas escolares, bebidas alcoólicas aos alunos, juntamente com figos secos! Os traumas, meu amigo, acompanharam sempre o homem ao longo da sua já cansada existência: são o medo do futuro, a insegurança, a não afirmação, a ambição desmedida, o excesso ou falta de neurónios, as causas principais desses males. Teremos de viver, por mais que isso nos custe, com eles.

- O Cândido argumenta filosoficamente mas, a crer no que dizem por aí, o caso é deveras assustador: há muita, muita gente, doente. Sem contar com os estropiados!

- As consequências de uma guerra são sempre terríveis e imprevisíveis; no entanto, há muito patife que ganha com elas! Depois, é nas guerras que se podem experimentar os novos aviões de combate, fazem-se explodir bombas de grande potência, ensaiam-se táticas modernas, enfim – põe-se em prática estudos e teorias bélicas, renovam-se os arsenais.

- Até há quem afirme que é graças a elas que a ciência avança! Não lhe parece, isso, algo absurdo?

- A guerra já é, em si, completamente absurda; o ser humano devia tudo fazer para as evitar. Homens matando homens! Que crueldade. O cúmulo da aberração. Quanto ao avanço da ciência… julgo que não é necessário que existam conflitos para ela se desenvolver. Tem o seu caminho, a sua estrada, que percorre diariamente. Mas deixemos este assunto, pois sempre que o abordo causa-me arrepios na espinha, apetece-me bater nesses malandros que passam o seu tempo a conceber novas armas para destruírem vidas e bens. 

- Estou plenamente de acordo consigo; a inteligência desses génios dever-se-ia concentrar na ciência do bem e não na ciência do mal – remata Henrique, dando ênfase às suas palavras. 

 

*

 

- Finalmente apareceram os meus camaradas da Companhia, que se encontravam aquartelados em Contuboel e arredores. Trocamos alguns abraços, havia meses que não nos víamos, a amizade perdurava. Brevemente teríamos dois anos de campanha. Informaram-me que partiríamos dentro de quinze dias, no navio Uíge, o mesmo que nos levara para a Guiné-Bissau. Agora só farra. Tudo tinha terminado. Parecia mentira! A guerra fora um mau sonho, um pesadelo. Deixámos, eu e o colega Vinhais, o aquartelamento onde nos encontrávamos e fomos para junto da nossa Companhia, para um quartel mesmo perto do Cais de Bissau. E sabes quem lá estava?

- Como posso saber?!

- O famoso Marco Paulo! Soldado raso, como eu! Estava constantemente a treinar a voz, sobretudo no balneário, mas confesso-te uma coisa: não gostava de o ouvir. Chegou a cantar nalgumas festas em Bissau.

- Marco Paulo! Quem diria! Pensava que era mais novo, e que possuía mais habilitações literárias. Eu não desgosto dele – penso que canta bem. Claro, não é de todas as canções... E o tal oficial, incomodou-o de novo?!

- Não te esqueceste do biltre! O tal alferes, nascido algures em uma tremenda noite de trovoada, tão forte que nem Santa Bárbara lhe pôde valer, olhou-me com azedume, com frieza, com hostilidade, com asco até, mas eu fiz de conta que não era comigo. Dentro de pouco tempo deixaria de sentir a sua presença demoníaca. Em compensação, o alferes Briosa abraçou-me, disse-me que sentira saudades; que me desejava sorte na vida. E deu-me um bom conselho: «Estuda, estuda muito, que vais longe!» O capitão mandou reunir a Companhia e distribuiu louvores e medalhas a todos – a recompensa!

- Medalhas essas que se têm vendido na feira da ladra!

- Julgo que sim; a minha medalha continua em meu poder. Não é que tenha por ela uma grande estima, mas não gosto de me desfazer daquilo que me oferecem. Além disso, entregou a cada soldado uma caneta de tinta permanente, marca de prestígio, com alguma qualidade, e quinhentos escudos «para comprarem prendas para a família». Disse-nos que o nosso coronel, comandante do Batalhão, se orgulhava muito de nós, que podíamos voltar de cabeça erguida, tínhamos cumprido a nossa comissão com brio e honra: «O Comandante Militar atesta o seu apreço ao soldado condutor-auto, Cândido Alves, pelos serviços prestados à Pátria na Província da Guiné

- Palavras ocas!

- Soam a tal… Antes de deixarmos Bissau, rumo ao nosso muito amado país, ainda apanhei um valente susto: corriam rumores de que um determinado quartel, bem perto da capital, estava a ser atacado ferozmente pelo inimigo. O capitão, segundo constava, armado em cavaleiro medieval, qual Lançarote ou Galaaz, não em busca do santo Graal, mas talvez buscando frutuosas glórias, tinha-se oferecido, juntamente com toda a Companhia, para ajudar a defender essa unidade. Medroso e prudente como era, suei frio. Havia meses que não punha os pés no matagal e além disso já me encontrava apenas a uns escassos dias do embarque. Só me faltava esta! Que mais me poderia acontecer? «Que fossem os novos» - monologuei, egoisticamente. Não sei explicar a razão, o certo é que não chegamos a ir.

- Atoarda?!

- Talvez, quem o sabe?! Estivemos mais tempo à espera do barco do que o previsto, mas eis que um belo dia, um dia que vale por uma vida, um anjo chamado Uíge surge aos nossos olhos imponente e majestoso, soberbo, altivo! Caramba! O que passáramos estava passado! O futuro residia ali, a dois passos de nós!

     As dificuldades vindouras seriam sempre insignificantes comparadas com aquelas que protagonizáramos – adeus Guiné-Bissau!

 

*

 

     A viagem de regresso decorreu sem incidentes: a bem dizer ninguém enjoou, a comida a bordo soube melhor, cantou-se, bailou-se.

     O oceano atlântico reconciliara-se connosco! Alguns colegas não voltaram vivos, é certo, mas nós tentámos esquecer, minimizar, essas contrariedades, essas perdas insubstituíveis; que diabo, estávamos ali, dentro de um navio que nos levava para junto dos familiares, da nossa terra, dos nossos sonhos…

     Em Lisboa, junto ao cais, encontravam-se centenas e centenas de pessoas à espera. Há quantas horas estariam ali, com a lágrima no canto do olho, ansiosas por abraçar o seu ente querido: «Mãe, minha querida mãe!»; «Meu filho, meu adorado filho; pensei nunca mais abraçar-te!»; «Oh! meu irmão, que saudades!» // «Querida esposa, como é bom voltar a ver-te

     Depois cada um seguia para o quartel fazer o espólio, despir a farda e vestir a roupa civil. O futuro começava ali…

 

FIM


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico


Por Joaquim A. Rocha 



19.º Capítulo

 

CONTUBOEL

 

 

     Mais uma tarde de domingo. As ruas da Baixa fervilhavam de gente; aproximava-se o natal e as lojas tentavam vender o máximo possível. Os portugueses gostam de oferecer prendas nesta quadra do ano, todos se reúnem na famosa ceia de família, e à meia-noite trocam as prendas adquiridas, quantas vezes com que sacrifícios financeiros. É uma tradição antiga e o povo não abdica dela. Claro que com o tempo irá desaparecer, como tudo se extingue, mas não será para já. As ruas estavam iluminadas, a Câmara Municipal fizera questão nisso, e à noite era um autêntico espetáculo. Milhares de lâmpadas, de várias cores, proporcionavam uma visão de sonho, de irreal. Os dois amigos mais uma vez se encontraram. O primeiro a chegar foi Cândido, mas não esperou muito. Quando avistou Henrique disse-lhe: 

 

- Boa tarde. Hoje está um dia cinzento, não sei se preferes antes ir ao cinema, agora nesta época passam bons filmes.

- Não me importava nada de ir ver um desses filmes bíblicos, mas prefiro ouvir a sua história africana. Quando a acabar então sim, vamos ao cinema e ao teatro, agora estão boas peças em cartaz. No Parque Mayer estão em cena umas revistas interessantes.

- Tudo bem! Tu mandas. Então escuta: em Contuboel encontrei um rapaz dos meus lados. Chamava-se Jeremias e era ajudante de cozinheiro. Tinha sensivelmente menos um ano de Guiné do que eu, um periquito (alcunha dada aos novos por causa da farda esverdeada), e não passara ainda pelos sucessos que atrás te narrei. Contou-me que, tal como eu, não arranjara o dinheiro suficiente para o engajador, que ainda tinha circulado por Espanha «somente a ver como as coisas decorriam, onde as modas paravam, quais as probabilidades», mas depressa chegou à conclusão de que sozinho nunca conseguiria chegar a França «é um país longínquo e correm-se imensos riscos; cumprirei a minha sina», diz-me num tom lamuriento e resignado. «Melgaço está cada vez mais desértico» - lamenta-se. «Só velhos e crianças lá continuam!» «E as belas raparigas da nossa terra?» - perguntei-lhe. «Os emigrantes levam-nas todas; até com quinze anos de idade já estão a casar!» Foi ele, num gesto de solidariedade, que me deu a morada de uma garota sua conhecida, a viver no sul de França com os pais, gente da primeira geração de emigrantes.

     Escrevi-lhe ainda nesse dia. Pedi-lhe a fotografia, e ela mandou-ma. Era linda, menina de uma beleza serena, suave, comovedora, com feições nobres. Fiquei logo pelo beicinho. Trocámos algumas missivas. Não passou disso, apesar de lhe ter criado alguma afeição. Rematava sempre as suas cartas: «Desculpe o meu péssimo português

 

- E a guerra, acabara?! – pergunta Henrique com salpicos de ingenuidade.

- Dali, desse calmo e aprazível lugar, partíamos, quase diariamente, para patrulhamentos em toda a zona junto à fronteira do Senegal; levávamos a cabo ações de psicossocial, isto é, tentávamos convencer os indígenas de que o governo era forçado a combater os rebeldes, porque estes não acatavam a ordem e as leis portuguesas. «A guerra não se faz contra o povo», dizíamos-lhes.

- E conseguiram transmitir-lhes essa mensagem?! – pergunta Henrique, convencido de antemão de que a resposta seria negativa.

- Quem falava sempre era um oficial, nós, os soldados rasos, permanecíamos calados que nem gente muda! Numa dessas ações psicológicas, tendo ido libertar águas atrás de uma árvore, vi fugirem da tabanca, sorrateiramente, dois latagões negros. Fiquei indeciso: disparo, não disparo? Na dúvida, optei por não disparar.

- Podiam ser dois homens da guerrilha; devia, talvez, tê-los mandado parar.

- E se não fossem? E se não parassem? Teria de agir, teria de matá-los. Não sou nenhum assassino!

- Então por que fugiram eles? Não acha esquisita essa atitude?

- No lugar deles provavelmente faria o mesmo; os nossos superiores, quando desconfiavam de alguém, sobretudo de homens jovens, davam-lhes ordem de prisão, independentemente de pertencerem, ou não, ao PAIGC. Depois se veria se a decisão tinha sido acertada. Às vezes já era tarde de mais para estes desgraçados! Mas deixemos isso… Falava-se em recentes combates com os guerrilheiros, para os lados de Pirada, mas eu tive a sorte de não assistir a nenhum – estava saturadíssimo de tiros e de confusão, o que eu queria era paz e sossego. Os habitantes da região passavam de um lado para o outro da fronteira com a maior das naturalidades; nós, nada podíamos fazer, pertenciam à mesma etnia, falavam a mesma língua (o francês e o português para eles não passavam de duas línguas estrangeiras), e além disso possuíam terrenos de cultivo em ambos os países. Faziam-me lembrar aqueles povos serranos do Alto Minho, que têm propriedades na Galiza, circulando à vontade entre a Espanha e Portugal, quando, claro, os dois países estão de boas relações.

- Para eles as fronteiras são simbólicas. E a sua especialidade?!

- Apesar de ser condutor, andando aqueles meses ao volante, não conduzia qualquer tipo de viatura, visto estas não chegarem para as encomendas. O capitão escolheu quatro ou cinco, ao seu exclusivo critério, ou aconselhado pelos alferes, e os restantes continuaram a ser atiradores e a não receberem o prémio a que tinham direito.

- Mais uma brutal injustiça, amigo Cândido, mais uma brutal injustiça!

- Tens razão. E olha que o dinheiro do prémio, não obstante ser pouco significativo, cem, ou duzentos escudos por mês, dava um grande jeito.

- Pensa que alguém se abotoava com ele?!

- Não sei concretamente, falava-se nisso, mas como deves calcular nós não tínhamos acesso às contas, à escrita; o cabo amanuense era o único da nossa classe afeto à contabilidade; mas esse era astuto, «rato», um privilegiado, a nada aludia, por conseguinte, tudo que nós disséssemos a esse respeito, reverteria contra nós próprios. Por muito menos, colegas nossos, de outras Companhias, tiveram de cumprir outra comissão de serviço numa das três frentes de guerra!

- Isso foi cruel, desumano! – explode, irado, Henrique.

- Também acho. E, como é evidente, não ficariam na cidade, mas sim bem no interior da colónia, nos locais onde sibilavam as balas e o troar dos canhões. Mas deixa-me continuar, se não perco o fio à meada. Existia em Contuboel um campo de futebol, de pequenas dimensões e de terra dura. Como ele me fazia lembrar o do Monte de Prado, onde tantas vezes competira! Que estremes saudades daquele tempo, dos meus patrícios: «Hoje vamos jogar contra os de Cristóval, vensIa sempre. Por vezes tínhamos de levar uma enxada para arrancar os torrões que já o cobriam, surgidos durante os meses de inverno, bastante rigoroso, mas com que satisfação nós o fazíamos! Levávamos também umas sandes e um garrafão de vinho de cinco litros, do verdinho, para matar a fome e a sede. No mini estádio de Contuboel disputámos alguns jogos, bastante renhidos, embora eu evitasse participar, devido à pouca resistência física. Iria levar algum tempo a recuperar a minha antiga pujança.

- Mas agora já comia comida quente, todos os dias?!

- Sim. A alimentação melhorou, tínhamos refeições com pontual regularidade, no aniversário do comandante foi-nos servida uma gazela estufada (a carne mais saborosa que comi até hoje); podia-se caçar aves e alguns animais, podíamos ir à pesca ali bem perto. Como a maioria não possuía equipamento apropriado, pescavam com granadas de mão! Claro que por este processo, matavam peixe graúdo e miúdo. Um crime ecológico, como em nossos dias é vulgar ouvir-se. Parecia que a temível guerra, pelo menos aquela que nós conhecêramos anteriormente, tinha finalmente terminado para a minha Companhia. Até as cartas das madrinhas de guerra tinham outro sabor, exalavam um perfume inebriante.

- Ainda bem que me fala nelas; suplico-lhe, Cândido, leia-me uma cartinha. Concorda?

- Como posso recusar um pedido assim formulado?

 

Querido afilhado:

 

          A continuação de boa saúde é esse o meu desejo. Já estava a estranhar não me escrever, até pensava nas piores coisas, que tinha ido para fora do sítio onde está, em alguma missão perigosa, mas felizmente não foi por isso. Diz-me que a um soldado, quando vem de cumprir o serviço militar lhe é dado facilmente o passaporte; está nisso muito enganado, pelo menos aqui neste distrito. Conheço um rapaz que esteve quatro anos na tropa e quando veio pediu-o e não lho deram, está na Suíça a trabalhar, mas seguiu com contrato de trabalho; já vê que não é fácil arranjá-lo nem que seja de turista, só se tiverem rendimentos suficientes. Diz-me que é melancólico; eu sou bastante alegre, toda a gente me diz que se não existisse teriam de me inventar, pois à minha beira só há boa disposição, não gosto de ver pessoas de semblante carregado. Vai ver que quando sair dessa guerra já fica com outro espírito, eu dou uma ajudinhaO tempo custa a passar para aqueles que sofrem, mas é preciso ser forte, paciente; o galardão será serem heróis, os defensores da Pátria. Continuo a ver filmes de grande interesse; ultimamente vi o «Adeus às Armas», com Rock Hudson, deve conhecê-lo, e estou a pensar ver a «Ultrapassagem». Nunca me canso de ver cinema, é a minha distração predileta. Vocês aí não veem? Provavelmente só nas cidades; quando voltar, desforra-se.       

          Por agora é tudo. Não desespere, continuo a rezar muito por si, vai ver que em breve estará de volta, para nos conhecermos, estou ansiosa por isso. Receba abraços sinceros da madrinha muito amiga.

 

                                                                                    Fernanda   

 

 

- As ondas estão a agitar-se; o namoro está a criar raízes, daqui a pouco não lhe poderá escapar!

- Henrique! Brincas com assuntos sérios; se te lesse algumas cartas de outras madrinhas verias que as coisas já estavam bem mais adiantadas!

- Não me diga! Por favor, leia-me uma dessas, morro de curiosidade.

- Tiveste sorte, porque, a prever esse teu pedido, também as trouxe. Mas é uma exceção.

 

Afilhado querido:  

 

                     Em primeiro de tudo o que te desejo é a tua saúde. Cá recebi a tua carta e nela vi que tinhas ficado um pouco chateado por te mandar dizer que tinha ouvido na rádio o teu nome todo a dedicar um disco aos pais, irmãos e noiva, e que nesse caso não podia estar a perder tempo nem a gastar dinheiro em cartas, pois a minha mãe também diz ter ouvido, e aconselhou-me a não te escrever mais, mas como dizes que é mentira, que há muitos soldados com o mesmo nome, então continuo a escrever-te. Mas vê lá, se for verdade eu o saberei pelo padre da freguesia. Mandaste-me dizer que agora tens aí uma vida boa, que só é pena eu não poder ir, pois olha: às vezes pode ser que vá ter contigo aí, quem me dera para te ver pessoalmente.

          Com isto, querido, não te estou a ser mais maçadora, só te pedia que me fosses sincero, que tu bem deves saber que em ti acredito. Mandaste-me dizer que fui eu o teu primeiro amor. Pois olha: tu, para mim, também o foste; e serás o único, toda a minha vida. E com isto não estou a demorar mais. Recebe muitos beijinhos e abraços juntos e um coração cheio de saudades desta tua querida apaixonada.

                                                                                  Genoveva

 

 

- Esta madrinha, pelos vistos, não perdia tempo. Não me diga que lhe apareceu na Guiné!

- Qual quê?! Escreveu-me mais uma ou duas cartas e deixou de escrever. Certamente apareceu-lhe um emigrante e casou-se; assim procediam as raparigas da província naquela época. A vida do campo (especialmente para as jovens) era árdua; logo que lhe pudessem fugir, faziam-no. Depois iam para França lavar as escadas e os cães das senhoras francesas, desempenhar o cargo de porteiras nos altos prédios de Paris, mas recebiam os francos, com os quais vinham mais tarde pavonear-se para a sua terra natal. Aquele amor de que fala nas cartas não é verdadeiro, é fruto da imaginação, da imaturidade, e porque sabe à partida que a distância nos impedia de concretizar fosse o que fosse.

- O Cândido estimulava…

- Alimentava esse tipo de linguagem porque me divertia, e precisava imenso de me distrair, não pensar na parca. Já que vem a talhe de foice, vou abrir mais uma exceção e ler-te outra carta, de outra madrinha… Posso?

- Até lhe agradeço. Desse modo fico a saber que a relação soldado madrinha se baseava num divertido jogo de palavras, de linguagens amorosas, mais ou menos escondidas, de um subterfúgio!

- De certo modo, acertaste no alvo, mas não vás tão longe. As primeiras missivas que se trocavam revelariam o caminho a seguir: tudo dependia das respostas. Mas ouve, em silêncio, esta:

 

Querido afilhado

 

                      Em primeiro lugar estimo que esta minha carta o vá encontrar de ótima saúde. Eu fico bem, graças a Deus. Cá recebi o seu aerograma e nele vi tudo quanto me mandava dizer, pois mandava-me dizer que passa lá muitos trabalhos. Peço-lhe que nunca desanime, o tempo vai passando lentamente, Deus Nosso Senhor há de ter dó de si, há de livrá-lo de todos os perigos, pois saberá que eu rezo cá muito por si para que Nosso Senhor o livre de todo o mal e quando vier venha com saúde, então não é assim? Como tem passado esses meses de tropa? Gostava que me contasse um pouco da sua vida. Tenho uma irmã e um cunhado e uma sobrinha no Brasil que estão muito bem, vai qualquer dia um que anda para ser meu cunhado para lá, que lhe arranjou lá um emprego a minha mana e cunhado, e é para um emprego bom; pois saberá, se nós houvermos de ser um para o outro, já me mandou dizer que nos arranja lá também um emprego para nós os dois. Saberá que vamos ter cá na terra uma grande festa, é pena que você não possa cá vir este ano. Para o próximo já espero que cá esteja junto de mim. Peço-lhe que me mande dizer quantos anos tem, gostava muito de saber, mais ou menos.

                      Por agora não me lembro de mais nada para lhe dizer. Receba muitos cumprimentos e despede-se a

                                                  

                                                                              Maria Teresa  

 

  - Não sei o que hei de dizer-lhe, meu caro Cândido. Você era um Don Juan, ou andava a brincar com os sentimentos das raparigas casadoiras!    

- Nem uma coisa, nem outra; apenas dei início a uma troca de correspondência com jovens madrinhas de guerra, sem outro objetivo que não fosse o de me distrair, esquecer a violência do dia-a-dia na terrífica guerra. Não desejava namorar (sabes que a única namorada que tive antes dos meus vinte anos me trocou por um emigrante e com ele casou logo que ingressei no serviço militar?!); muito menos queria casar novo, pois não tinha nessa ocasião um rumo definido – a minha vida ainda iria sofrer uma grande reviravolta. Este princípio de namoro fazia parte do contrato inicial: «tu aceitas ser madrinha de guerra e com o tempo aceitas ser namorada até ao fim da comissão; acabada esta, cada qual segue o seu caminho.» Eis o jogo, ninguém se pode queixar. Nunca critiquei aquelas que me deixaram de escrever de um momento para o outro, sem uma explicação, sem um adeus; seguiram o seu destino. Não seria a mesma coisa se respondesse a um anúncio de jornal pedindo noivo – nesse caso assumiria um compromisso.

- A minha observação reside mais na ausência de princípios, isto é, se era madrinha não poderia ser namorada, e vice-versa; vocês não tinham isso em conta, desdobravam o estatuto conforme lhes conviesse. A não ser que elas aceitassem tornar-se madrinhas de guerra na esperança de arranjarem marido!

- Esse é um estudo que está por fazer; não duvido que algumas delas pensassem assim; a maioria, não. De qualquer modo, tiveram um papel importantíssimo na nossa vida belicosa, ajudaram-nos muito. Eu até penso que não fiquei maluco graças a elas!

- Quase me convenceu, mas, como disse, esse tema está por explorar. Talvez um dia apareçam sociólogos e psiquiatras que se debrucem sobre o assunto. 

 

    Depois de uma curta pausa, Cândido continua a contar ao amigo a sua interessante história.

 

- Amigo Henrique, logo que as coisas correm mais ou menos, ninguém quer a gente! Explico-te por quê: quando não ia nas colunas patrulhar a zona, ficava na oficina a ajudar o mecânico. Gostava desse serviço. Apesar de sujinho, aprendi bastante. Trabalhávamos e divertíamo-nos. Alguns colegas gostavam de cantar o fado, e até havia um ou outro que não cantava mal. Jamais esqueci a letra de um desses fados, escrito por um lisboeta ferrenho, nascido no Bairro Alto, salvo erro, cujo nome nunca soubemos. Hoje conheço mais ou menos a vida noturna na capital do país, embora não tenha tempo nem dinheiro para andar em farras. Eu não tenho jeito para declamar, não sou nenhum João Vilaret, mas apesar disso, escuta: 

  

Já morei na Mouraria

na Rua do Terreirinho;

num prédio muito velhinho,

cai, não cai, mas não caía.

 

Hóspede duma beiroa,

natural de Vila Chã;

mulher simples e boa,

como agora já não há.

 

Tinha um quarto pequenino,

com cama a condizer;

era quarto de menino,

de menino a crescer.

 

Estava nas águas furtadas,

mesmo junto do telhado;

vinham as chuvas zangadas

ficava todo molhado.

 

Havia uma tasca ao lado,

daquelas d’antigamente;

na qual se cantava o fado

e se bebia aguardente.

 

Era uma tasca bairrista,

de tosco e velho balcão

que amparava o fadista,

o tal fadista gingão.

 

Cantava lá um mocinho,

tinha voz de rouxinol;

davam-lhe um copo de vinho

parecia um raio de sol.

 

Hoje é nome conhecido,

até tem discos gravados;

mas à tasca, agradecido,

vai cantar um ou dois fados.

 

Não cobra nem um tostão,

só quer goela molhada;

aquele vinho rascão,

feitinho à martelada.

 

Quando me lembro entristeço,

já tanto tempo passou;

e quanta coisa eu esqueço…

não aquilo que se amou!

 

Não vou lá e que saudade,

tanta vida a recordar;

ali, na velha cidade,

onde eu estive a morar.

 

Talvez um dia, um dia…

eu volte àquele lugar;

quase assim em romaria,

minha promessa pagar.

 

- Uma letra bem gira! – aprova Henrique. – Afinal de contas também se divertiam.

- Naquelas idades, e depois de nos termos safado daquelas batalhas infernais, tudo nos parecia já cor-de-rosa. A esperança voltou aos nossos corações. À tardinha, depois do jantar, íamos dar umas voltas (até o furriel Bonito podia passear livremente o seu pastor alemão, não correndo agora o risco de lhe deitar a G-3 ao rio, como o fizera antes); assistíamos às festas dos indígenas, entrávamos nas suas danças, embora eles não gostassem muito dessa intromissão (sabes que cantam e dançam quando morre alguém com idade avançada?! Ficam contentes porque, dizem eles, a pessoa viveu aquele tempo todo e foi feliz; choram os novos, pela razão contrária.)

- Julgo que estão certos. E como são os cemitérios deles? – pergunta Henrique, roído de curiosidade.

- Perguntas bem, mas francamente não me lembro! Penso que usarão campas térreas, pois jazigos – (com espaços fechados por paredes ou gradeamentos) – nunca vi; por outro lado, penso que enterram os seus mortos, não me apercebi que utilizem a cremação. Mas continuando: quando lá aparecia o homem da sétima arte, com a maquineta, víamos cinema – filmes antigos, já ultrapassados: Charlot, Cantinflas, Irmãos Marx, Bucha e Estica, Tarzan, dramalhões, fitas policiais, cow-boyadas…, ao ar livre, pois salas não existiam. A fita, já tão usada como o fato coçado e porco do seu dono, rebentava constantemente; o exibidor tentava consertar aquilo o mais depressa possível – pateticamente, ríamos. Ele não gostava nada de ouvir essas risadas hipócritas e mesquinhas, mas reconhecia humildemente que o público tinha razão. «Mas que diabo!» - comentava ele – «vocês querem galinha gorda por pouco dinheiro?! Pensam que é fácil andar pelo interior da Guiné a exibir filmes? Não estamos em Bissau

- Vocês não deviam ter gozado com o homem! - criticou Henrique, fazendo uma cara séria.

- Que é que tu queres. Achas, que era possível, e razoável, aguentar todas aquelas interrupções sem botar uma saudável e sonora gargalhada?! Certo dia, o capitão mandou reunir a Companhia e disse: «De Bissau pedem dois soldados para fazerem serviços de guarda. Se houver voluntários, que se ofereçam; caso contrário, terei eu de os escolher 

- Ofereceram-se às mãos cheias!

- Pelo contrário: ninguém se ofereceu! Depois de catorze ou quinze meses de guerra intensa; depois de termos percorrido quase todas as matas da Guiné-Bissau a pé; depois de tanta fome e sede; depois de tanto padecimento, ir agora para Bissau fazer guardas, quando se estava num lugar calmo, correndo embora alguns perigos… Não! Ninguém queria ir. Por outro lado, já se tinham criado laços de amizade, que iriam, porventura, durar toda a vida. O capitão retirou-se. Passado algum tempo o amanuense diz-me para me dirigir à Secretaria. Estremeci. Fez-me lembrar a Academia Militar. Peço licença e entro. Sem introito, o primeiro-sargento avisa-me: «Foste tu um dos escolhidos para ir fazer guardas em Bissau. Prepara as tuas coisas. Só voltas a integrar a Companhia quando esta embarcar para a Metrópole

- E o Cândido, como reagiu?

- Eu disse-lhe: «Desculpe, meu primeiro, mas eu sou condutor auto; as guardas, que eu saiba, são feitas por atiradores.» Ele, furioso, levanta-se com ímpeto da cadeira, e lembra-me: «Ordens, são ordens; não se discutem! Rapaz! Pega na trouxa e vai para onde te mandam

     Fiquei sem jeito! Mas a minha fragilidade perante aquela máquina militar saltava à vista. Eu era apenas um número. Com os colegas também não podia contar. A solidariedade só existia nalguns casos; neste, concretamente, sabia de antemão que não me ajudariam. Aliás, indo eu não iria um deles, como era óbvio. O egoísmo é muito forte no povo português.

- Haveria alguma razão forte para o afastarem?! – pergunta Henrique, incrédulo, aborrecido com aquela atitude prepotente.

- Penso que sim. Havia na Companhia um alferes, o segundo comandante, o tal militarista vaidoso de quem já te falei, que não apreciava muito a minha presença. Antipatia parva e inexplicável, porquanto nunca lhe fizera mal, nem lho podia fazer, mesmo se o quisesse. O meu maior defeito a seus olhos era porventura o facto de eu não gostar da tropa, da guerra, ou do que quer que fosse ligado à vida militar. Nem toda a gente pode apreciar as mesmas coisas. Por outro lado, a minha modéstia, simplicidade, desprendimento, representavam para ele uma ofensa, uma afronta. Para teres uma ideia do que te acabo de dizer, ouve esta: um dia os cabos especialistas resolveram promover um copioso almoço de confraternização, uma festa convívio, entre todos aqueles que possuíam especialidade. Contuboel, devido em parte à sua fisionomia singela, revelava-se lugar propício a estas manifestações.  

- Queriam, certamente, marcar a diferença!

- Talvez; mas de qualquer maneira, não havia espaço para todos. Convidaram os condutores, enfermeiros… e também os furriéis, sargentos e oficiais. O almoço, por deferência do comandante, seria servido na messe. As mesas estavam impecáveis: guardanapos em forma de flor – (as costas das mãos serviram-nos durante a campanha de guardanapos) – copos de vidro limpíssimos, pratos de vários tamanhos e talheres a condizer. Há quantos meses eu não comia num prato! As inestéticas, ferrugentas e velhas marmitas de lata ocupavam indevidamente o seu lugar. Que trabalheira elas davam para as limparmos: esfrega, esfrega, com areia, com sabão, e o esforço era quase em vão! O pitéu já cheirava; os aperitivos serviam-se numa mesa à parte. Quando me aproximo, a fim de me sentar, pergunta maliciosamente o militarão: «Que está aqui a fazer aquele soldado? Não me digam que tem uma especialidade?!»

- Imperdoável! O indivíduo era grosseiro. Como reagiu? – perguntou Henrique, de punhos cerrados, simulando uma agressão física.

- Timorato como era, tomei uma atitude que ainda hoje não sei se foi a mais correta.

- Insultou-o?

- Vontade não me faltou; pura e simplesmente ignorei o que tinha ouvido, engoli o vexame, recuei dois passos e sorrateiramente saí porta fora. Pensas que algum dos meus camaradas me foi procurar? Nem um!

- Quer a minha opinião? Fez muitíssimo bem. O que o meu amigo desejava era ver o tempo a passar. Se brigasse com ele, ou ripostasse, seria pela certa castigado.

- Não tinha, nessa ocasião, nem tenho agora, quaisquer dúvidas que isso me aconteceria. O pobre do soldado nunca levava a melhor. Ainda pensei, simbolicamente, esmagar-lhe a cabeça da sua própria sombra, mas até isso não pude fazer, pois ele protegia-a como o avarento protege o seu tesouro. Este era um forte motivo para eu desejar agora a partida. Mais guarda, menos guarda, ninguém morreria por isso, e as armas reais não me cairiam aos pés. Em Bissau teria a possibilidade de obter a carta de condução para profissionais, que um dia mais tarde me poderia vir a ser útil – nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Vale mais prevenir do que remediar, como diz o ditado. Apesar de ter conduzido pouquíssimo, o “bichinho” já tinha nascido, sobretudo com a cativante condução do jipe.

- Como se chamava o outro soldado que foi consigo?

- Comigo para Bissau seguiu também o Vinhais, atirador. Bom moço. Não tinha com ele grandes afinidades, pois tratava-se de um jovem quase analfabeto, embora de bacoco nada tivesse. O regime corporativista, superiormente comandado pelo hediondo Salazar, não deu grandes hipóteses de estudo a esses rapazes; a escola primária ficava longe dos lugares onde eles residiam. Por outro lado, aos seis, sete anos, já andavam a guardar gado no monte. Não havia estímulos, nem condições materiais, para os que trabalhavam na agricultura, na pastorícia, na pesca... Agora começa-se a fazer alguma coisa, vamos lá ver se conseguimos. Demo-nos sempre muito bem até ao dia em que fizemos o espólio em Tomar; depois disso nunca mais nos vimos. Ainda na região de Contuboel assisti a uma cena deveras interessante e elucidativa.

- Estou em pulgas para ouvi-lo – interrompe Henrique, há muito calado.

- Escuta: numa camioneta do nosso exército vinha uma data de negros com trajes de cerimónia (panos de cores garridas) e no meio deles uma figura feminina coberta dos pés à cabeça com um longo pano branco. Por mera curiosidade, perguntei o que se estava a passar e alguém me elucidou de que a bajuda, pois de uma virgem se tratava, tinha sido comprada aos pais por um dos chefes tribais da zona – um homem de idade avançada e já com várias mulheres e filhos!

- Fazerem isso à cachopa – não se admite!

- Espera: o velho pagara por ela umas quantas cabeças de gado! Sem o querer, fiquei horrorizado e com pena da catraia. Que raio de costumes eles albergavam no seu seio! Mas, graças a este acontecimento, fiquei a saber que as mulheres nesta parte de África não possuíam quaisquer direitos: compravam-se e vendiam-se como qualquer mercadoria – uma questão de preço! Elas, vítimas do sistema, nem sequer se queixavam: achavam tal coisa natural!

- Os movimentos de libertação da mulher não teriam ali nenhuma hipótese de êxito.

- Também acho. Mas repara que a maior parte das mulheres portuguesas também não desfrutavam, por esse tempo, de grandes liberdades. Os pais escolhiam o noivo para a filha, ou rejeitavam o que ela elegesse, caso não lhes agradasse. Não tinham rédea solta, como agora, podes crer. Não podiam sair à noite, só se fossem ver um filme, uma peça de teatro, um concerto, uma revista, mas acompanhadas pelos pais ou irmãos mais velhos, sempre bem vigiadas, porque a ausência da virgindade na rapariga era um anátema quase para toda a vida. Em nossos dias, salvo raras exceções, nenhuma moça vai virgem para o casamento. E mais: já consta que alguns namorados, sobretudo na cidade, se juntam para evitarem as ciclópicas despesas da boda. Os costumes estão a mudar em todo o lado. E com a emigração forçada, para França e outros países da Europa, os portugueses vão adquirindo outros hábitos, outras maneiras de viver.

- Ai eu, quero-me casar à antiga. A noiva vestida de branco, o noivo com o seu fato preto ou azul, uma cerimónia inesquecível. As fotos para o álbum, para depois mostrar aos filhos e aos netos, que lindo!

- Eu não me casarei na igreja católica, ou outra, devido a não ser religioso, mas casar-me-ei na Conservatória do Registo Civil. Ao fim, e ao cabo, tudo vai dar ao mesmo. Viver juntos, sem casamento, não concordo. No entanto, nem tu nem eu podemos alterar seja o que for; somos demasiado insignificantes para impedir essas coisas. Dizem por aí que é progresso. Talvez seja, mas eu nunca vou mudar. Se um homem gosta a sério de uma mulher, tem confiança nela, quer que ela seja a mãe dos seus filhos, deve casar com ela, provar-lhe que não foge às responsabilidades. O matrimónio é um acontecimento muito sério, que obriga por vezes a pequenos e grandes sacrifícios. Eu penso que vou ser um bom marido, mas também muito dependerá da esposa; se ela for meiga, compreensiva, etc., tudo dará certo. Enfim, o destino, e os deuses, antigos e menos antigos, saberão guiar-nos no nosso caminhar.

- Caro Cândido: esta conversa, interessantíssima, levar-nos-ia longe, mas o tempo esgotou-se. O relógio não para e nós temos de ir andando.

- Bem, então até à próxima. A seguir falar-te-ei de Bissau, uma cidade mais insignificante do que qualquer vila portuguesa.


continua...