domingo, 4 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha


 

IX

 

Os túneis da alma também podem ser iluminados

 

 

     Insaciável, vou adquirindo informação, jogando os trunfos disponíveis, ansioso por saber o meu passado e o dos meus maiores; não é uma curiosidade mórbida que me move, que me faz rodopiar sobre um tempo que não é o meu mas que julgo também pertencer-me por sangue, pelos laços que me ligam a essas pessoas. Vão ter mais uma oportunidade de escutar uma conversa com o meu irmão Olavo, o meu irmão inteiro, como gosto de sublinhar. Desta vez encontrámo-nos sentados num banco do jardim, perto do coreto da Vila. Não façam qualquer ruído e escutem:

 

- Então tu, depois de fazeres a quarta classe, foste para a cidade dos alfacinhas?

- Fiz a quarta-classe em Julho de 1954, na escola primária Conde de Ferreira, situada bem ao cimo da Praça da República, era meu professor o senhor Romano, iria completar treze anos em Setembro, portanto ainda a acabei com doze anos de idade. Nessa altura estava a nossa mãe amantizada com o velho, o tendeiro Acúrsio. O bruxo não gostava nada de mim, fazia-me a vida negra, da cor do basalto, o que ele queria era que saísse de casa, para se sentir mais à vontade com a velhota, tu não estorvavas, eras um badameco, um medricas, um zé-ninguém, um choninhas, não contavas absolutamente para nada; eu não, era teso, impunha-lhe respeito, comigo não se metia, ai não, que o derretia, que o amassava de pancada, rachava-o ao meio, ao filho da mãe, ao feiticeiro duma figa. Nas férias grandes puseram-me a servir, em Cendrães, a tratar do gado e a cavar os campos, a puxar a charrua, a mim, uma criança, e sem nunca ter trabalhado na agricultura; a tua mãe colaborava com a besta, e aplaudia, tinha medo dele, mas também o que ela queria era alguém que lhe desse vinho e que dormisse com ela, uma badalhoca, uma cabra, andar com aquele velho porco, que nem sequer era da terra, era de fora, da terra dos bandidos.

- A mamã não teve culpa, coitada, estava farta de sofrer, precisava de alguém que olhasse por ela e pelos dois filhos mais novos.

- Olhar?! Maltratar, queres tu dizer. Contigo as coisas eram diferentes, eras um coitado, não podias com um gato pelo rabo; ora eu tinha corpo, já fazia a barba com treze anos, tinha cara de homem. Mal acabei a escola mandaram-me plantar pinheiros para a floresta, a mais de vinte quilómetros da Vila; tinha de ir a pé, carregado com batatas, feijão, toucinho, uma panela para cozinhar, alimentos para uma semana, tinha de passar por aqueles montes, os lobos uivando, assustavam qualquer um, depois de lá chegar tinha de trabalhar como um escravo, tínhamos de plantar milhares de pinheiros, a comida era escassa, dormíamos no chão, em cima de palha de centeio, aquilo não era vida para um rapaz de treze anos.

- Então resolveste ir para Lisboa.

- Não foi fácil, pois era necessário ter lá alguém que me arranjasse emprego, o Ambrósio estava prestes a ir para a América do Sul e a Susana era criada doméstica, pouco me poderiam valer, mesmo assim ainda ajudaram. Conheciam um indivíduo aqui da Vila, o senhor Anastácio, que possuía estabelecimento de comércio na capital do país, fui para lá, mas o ordenado era demasiado baixo, e fartava-me de trabalhar, tinha de entregar os cabazes das compras aos fregueses, subir centenas de escadas todos os dias, agora os prédios já têm elevador, naquele tempo não tinham, carregado que nem uma mula, sem horários, coitado de mim, ia rebentando.

- Foste promovido…

- Saiu de lá um empregado de balcão e o senhor Anastácio deu-me esse lugar à experiência; fiz tudo para agradar, agradei, a minha vida melhorou um bocadinho, mas olha que a comida não prestava, e o pagamento era uma ninharia, uma miséria, não havia uma hora de sair, trabalhava mais de doze horas por dia!

- Estavas a ser explorado.

- Se estava! Bem o podes dizer. O tipo enriquecia à nossa custa, todos se aproveitam dos pobres, depois vão à igreja bater com a mão no peito, os filhos de uma macaca, é para Deus lhes perdoar, mas não lhes perdoa, que ele é justo, está do lado dos desprotegidos, dos sem rumo, mas olha que às vezes tenho dúvidas, há ricos que nunca são castigados e fartam-se de fazer patifarias, de cometer pecados.

- Que sabemos nós disso?! Estiveste em Lisboa até ires para a tropa.

- Que remédio; tinha imensas saudades da terra, dos amigos, mas nessa cidade é que tinha o emprego, não era grande coisa mas era melhor do que nada, aqui só se fosse trabalhar para a estrada, abrir valas para os cabos telefónicos, ou outra vez para a floresta, isso nunca mais, fartei-me de sofrer, só o cheiro daqueles homens imundos, nunca tomavam banho, eu ainda ia ao rio tomar, mas eles nem isso, cheiravam mal que tresandavam, uma imundície, não se aguentava, e ainda por cima se peidavam, fartavam-se de comer feijão e depois mais parecia uma guerra de puns, e os filhos da mãe riam, achavam graça àquilo! Eu sentia repugnância, metia a cabeça debaixo da manta, mas o cheiro era demais; depois as pulgas, as gajas mordiam-me todo, de manhã acordava cheio de picadelas, e os piolhos, às centenas, era uma autêntica tragédia, pior ainda do que em nossa casa. Em Lisboa havia mais limpeza, dois lençóis brancos na cama, uma caminha pequenina só para mim, alugara um quarto na Baixa, numas águas-furtadas, baratucho, o pior era quando chovia, o telhado estava uma desgraça, o prédio era do século passado, se sofrera obras já devia ter sido há muitos anos, a dona era uma macróbia e não tinha dinheiro para o mandar consertar, quando caísse, caía, mas primeiro ainda havia de morrer ela.

- É engraçado, quando eu e a mamã fomos a Lisboa visitar-vos em 1961 estavas tu prestes a entrar na recruta.

 - Muito me ri à tua custa; eras um autêntico saloio! Pensavas que na cidade ninguém dormia, tinhas medo de pinchar dos carros elétricos em andamento, ficavas boquiaberto com tantas luzes, com tantos reclamos luminosos.

- E lembras-te daquela vez que penetrei na casa dos vizinhos da Susana?

- Já não me recordo bem, conta.

- Ainda na rua, toquei à campainha do terceiro andar quando devia ter tocado para o quarto; de cima abriram, deviam ser seis horas da tarde, e fui subindo as escadas, que nunca mais terminavam; logo que vi uma porta aberta entrei; sentei-me no banquinho que se encontrava na cozinha e esperei tranquilamente como era hábito. Às tantas começo a ver caras totalmente desconhecidas para mim. Então pensei: «olha que este não deve ser o apartamento onde reside a tua irmã!» Sem me denunciar, ergo-me sorrateiramente, saio porta fora, galgo mais uns degraus, e fui bater à porta do andar de cima – reconheci de imediato a pessoa que me veio abrir a porta.

- Eras mesmo um labrego! E tiveste sorte, pois aquelas pessoas na sua maioria eram hóspedes; se fosse uma família mandavam-te prender, pensando que eras um ladrão!

- Normalmente os irmãos mandam ir os outros para a cidade ou para o estrangeiro, mas tu a mim nunca me disseste para ir trabalhar perto de ti!                      

- Ainda pensei nisso, mas tu não tinhas corpo nem energia suficiente para aguentar aquela vida, borravas-te todo, não aguentavas uma semana, ias-te logo abaixo das canetas; aquele trabalho de carregar às costas cestos com quilos e quilos de mercadoria só para gajos fortes, possantes como bois, por outro lado tu estavas a aprender um ofício, embora não desse muito sempre ia dando para a comida, casa não pagavam e o bruxo sempre ia desembolsando alguns escudos.

- Não sabes que a mamã se zangou com o feiticeiro no ano seguinte à tua ida para Lisboa? Zangaram-se, mas depois ele começou a rondar a porta, o que ele procurava sabia eu, era velho, mas para isso não! A tua mãe pouco tempo lhe resistiu, fez logo as pazes, mas aí intervim eu, apanhei os dois na cama, eles pensavam que eu só aparecia à noite, que tinha ido ao rio, eu costumava ir todos os fins-de-semana à pesca, era o meu desporto favorito, além do futebol, levava um livro para ler, o que me fascinou mais foi o Don Quixote de la Mancha, fartava-me de rir, é uma obra extraordinária, muito bem escrita. Sabes que eu até falava com as águas que, lenta ou velozmente, corriam para o mar? Serviam-me de amigo e confidente. Nesse domingo de verão à tarde, e como já havia tempo desconfiava deles, não fui à pesca. Nesse dia resolvi andar ali por perto. A porta da casa estava trancada, era para eu não entrar caso aparecesse de surpresa, mas eu engendrei outro processo, outro método de entrar. Ágil como era, qual esquilo jovem, entrei pela varanda, peguei na machada, aquela que levava para o monte para cortar a lenha, e gritei-lhe: «saia imediatamente dessa cama, seu velho porco, e ponha-se na rua, se o vejo cá outra vez mato-o!» O filho da mãe viu que eu estava a falar a sério, a mamã chorava, não era certamente de vergonha, que essa já a tinha perdido há muito tempo, mas de raiva por ver que eu já estava crescidinho e jamais lhe aceitaria estas jogadas sujas, enquanto esteve amigada com ele era uma coisa, agora ele entrar na casa como se ela fosse uma prostituta, talvez pagando-lhe, isso não.

- E o bandido, como reagiu?

- O patife meteu o rabo entre as pernas, como fazem os cães cobardes, e nunca mais entrou na nossa casa, grande besta, tinha-lhe uma raiva, um pó, que nem para a cara lhe podia olhar.

- Pensava que te davas bem com ele!

- O somítico, quando eu fiz a quarta classe, em Julho de 1955, ofereceu-me um fato de macaco, de ganga, de cor azul, daqueles que usam os mecânicos nas suas oficinas, e umas alpercatas, para levar ao exame, parecia uma miniatura de operário, até os outros alunos se riram de mim, que vergonha, valia mais ter ido com a minha roupinha rasgada e o cinto e corda, era assim que eu sempre andava, e já ninguém se ria de mim.

- Depois ficaste sozinho com a mamã.

- Ficámos com alguma tenda e fomos pelos lugares do concelho tentar vendê-la. Muito calcorreámos: léguas e léguas de veredas, caminhos de cabras, por vezes tudo encharcado. Claro que foi um autêntico fiasco: a mamã embebedava-se e perdia a conta aos artigos que se vendiam, eu ia apontando, mas que queres, tinha pouco mais de onze anos de idade, sem experiência de vendas, ela era uma analfabeta pura, o velho é que sabia vender, até parece que nascera tendeiro o raio do homem. Passado uns meses já não tínhamos tenda nem dinheiro para pagar aos fornecedores, foi um autêntico caos, um desastre absoluto. A seguir fui aprender o ofício de sapateiro, engraxava sapatos nos dias de feira e aos domingos, dez tostões cada engraxadela, alguns ainda achavam caro! Ia ganhando para a bucha, a mamã continuou a percorrer as aldeias, agora sem tenda, conhecia muita gente, ajudava aqui e acolá, iam-lhe dando umas malgas, algum milho, uns pedaços de broa, feijão, umas chouriças, coisas estavam muitas vezes já a estragar-se, que eles receavam comer, nós éramos o caixote do lixo, a cloaca; ela aproveitava tudo, eu não podia ingerir essas coisas, já tinha o estômago estragado, fartava-me de vomitar. Lembras-te quando estive internado no hospital?

- Lembro-me perfeitamente, foi quando viemos para a Vila, tinha eu quase nove anos, tu andavas muito enfezado, não comias nada, amarelinho, parecias tuberculoso, a tua mãe foi pedir ao médico para te internar no hospital da Santa Casa da Misericórdia, estiveste lá uns dias, depois fugiste, não sei porquê!

- Fugi porque não gostava de lá estar; parecia-me uma prisão, tu cá fora a brincar e eu lá preso, a comer sopa de galinha, sem sal, aquilo não prestava para nada, as enfermeiras é que eram simpáticas, sobretudo a Maria do Céu, nunca a esquecerei, era o meu anjo da guarda, tratava-me como se eu fosse o menino querido dela, tão bondosa, eu pinchei as grades, pronto, não gostava de lá estar, nem da comida, dormia junto com velhos, morreu lá um à minha beira, apanhei um susto dos demónios, nem queiras saber, nunca tinha visto um homem morrer, tinha os olhos esbugalhados, parecia um fantasma, muito branco e amarelo, meterem-me ali, com aqueles idosos doentes, aquele cheiro a remédios, eu vomitava, até desejava morrer, saltei aquele portão, aquelas setas de ferro apontadas ao céu, podia ter ficado ali espetado, coitado de mim, mas eu também não me importava, o que eu não queria era lá estar, queriam dar-me óleo de fígado de bacalhau, que nojo, ainda vomitava mais, saía-me da garganta um líquido verde, viscoso, aquilo vinha das tripas, porque eu não tinha no estômago nenhum alimento.

- Sofreste muito, eu na altura ainda te batia, estou cheio de remorsos.

- Escusas de estar, eras uma criança, só mais velho do que eu cerca de três anos, não compreendias o meu tormento, pensavas que eu fazia tudo aquilo por maldade.

- Depois a mamã, quando soube, andou à tua procura, tu não aparecias, ninguém sabia onde te meteras, levaras sumiço! Até se pensava que tinhas ido para o rio, que te afogaras… Pensaram-se imensas coisas. Eu, apesar de tudo, de seres refilão, de brigares com todos, de seres um rebelde, apesar disso, gostava de ti, mas claro, andavas atrás de mim, eu tinha os meus amigos, tu eras uma formiga à nossa beira, nós íamos à fruta, eu não queria que nos acompanhasses, devias andar com os da tua idade. Tu insistias e eu tinha que te bater, casquei-te bem, um dia até desmaiaste! Fiquei com medo, o soco fora muito forte, mas passado pouco tempo abriste os olhos, que alívio para mim.

 - São águas passadas. Lembro-me que quando fugi do hospital escondi-me nos campos, apareci somente à noite, sempre tive receio da noite, sobretudo por causa dos espíritos dos mortos, a nossa mãe levava-me aos velórios, o defunto ali na sala, estendido no caixão, aquele cheiro a cadáver, aqueles panos brancos a cheirar a água da colónia barata nos olhos vítreos, que algumas pessoas tiravam para lhe ver a cara. Aquelas histórias de espíritos malignos que se contavam durante aquelas horas intermináveis: «não se deve andar pelo meio da rua depois da meia-noite, é a partir dessa hora que passam os funerais, os mortos afastam violentamente os vivos…»; eu a querer dormir mas não tendo um local para o fazer, tão pequenino e naquelas andanças, a mamã oferecia-se sempre para lavar os corpos dos que tinham falecido, não sei se era para os familiares ficarem agradecidos ou se ela era mesmo assim, sempre pronta a ajudar os outros, ou porque gostava daquilo, é difícil saber ao certo, isso está no íntimo da pessoa, os outros não sabem, nem mesmo os filhos, o mais provável era ela ajudar desinteressadamente, eu não gostava dos velórios, mas não podia ficar em casa sozinho, não suportava a solidão, preferia ir com ela, se calhar nem sequer teria alternativa, andava todo borrado de medo, já via fantasmas em todo o lado, tinha horror da escuridão, ficava triste, arrepiado, completamente aterrorizado. No velório do tio Catão foi uma comédia: o morto na urna e por baixo, na corte, o porco a grunhir, até parece que estava a lamentar-se pela morte do dono, toda a gente riu, pudera, já estavam cheios de café e bagaço, por volta das cinco íamos ao forno comprar pequenos pães, chamados petins, ou moletes, quentinhos, para barrar com manteiga, até anedotas se contavam junto ao defunto! Noutro velório, o do tio Fabião, entrou o neto, uma criança de quatro anos de idade, e perguntou: «o que é que o meu avô está a fazer ali deitado no caixote?» Calculas a risada que foi! A mamã ia para as aldeias, aparecia altas horas, eu assobiava para enganar o espantalho do medo, no inverno era pior, os dias são curtos, há pouco sol, a noite cola-se ao dia, quase que nem se dá por nada, é tudo escuro, a nossa alma é escura, cinzenta, o receio oprime e invade o nosso coração, ainda hoje detesto a noite.

- A mamã quis levar-te outra vez para o hospital…

- Eu disse-lhe então que preferia matar-me, preferia desaparecer para sempre, que me importava? Que me batesse, que me arrastasse pelas ruas, eu fugiria sempre, iria para o monte, para junto dos lobos, das feras, não queria estar na «cadeia», com aquela gente esquisita, a comer somente caldos de galinha, a cheirar permanente aqueles químicos, a apanhar todos os dias aquelas injeções assassinas.

- Ficaste em casa, foste melhorando pouco a pouco.

- Naquelas idades ou se melhora ou se morre; é verdade que nunca fiquei completamente bom, tive sempre problemas na barriga, de vez em quando bichas pelo rabo, até pela boca, mas as coisas evoluíram favoravelmente; graças a deus, e talvez àquele chã de ervas amargas, que todos os dias tomava, comecei a comer melhor, a engordar um nadinha. Lembro-me que até alfarrobas comi! Tinham vindo do Algarve para alimentar os cavalos dos guardas-fiscais; apanhei-os de costas, saltei para dentro da camioneta e tirei um punhado cheio – que grande barrigada! E eram doces como o mel.

- Podias ter rebentado, dizem que a alfarroba é muito indigesta. Depois a escola…

- Entrei para a primeira classe aos sete anos, era tão pequenino, tão raquítico, um fuinha; o professor nem queria acreditar que eu tivesse aquela idade, parecia um anão, magrinho, lanudo, descalço, que calçado só aos treze ou catorze anos é que tive umas sandálias que a mulher de um carabineiro me deu, estavam-me grandes, mas era melhor do que nada, pelo menos não trazia os pés no chão, que olha: os meus pés já pareciam de sola, eram mais duros do que as pedras, tu também passaste por isso, sabes do que estou a falar, mas olha que mesmo com fome e sem agasalho era dos melhores alunos, o professor Romano gostava muito de mim, chamava-me o Candinho, tinha uma grande simpatia por mim, ai não!... Que eu levava a escola a sério, sabia a tabuada de cor, não era como alguns, desertavam, não gostavam das aulas, depois o professor batia-lhes, os pais iam reclamar, acusavam, diziam que os filhos tinham as costas todas doridas das canadas que o professor lhes dava, daquela cana-da-índia sempre encostada ao quadro-negro, até parecia que nos olhava com ar zombeiro! Mas eles não estudavam, os mandriões, só andavam na escola porque eram obrigados, nunca estavam atentos ao que o mestre ensinava, depois não sabiam nada, nem a tabuada dos dois! Um chegou a ir à cama por causa das canadas e reguadas que apanhou, coitadito, mas o professor fazia aquilo para bem deles, pensava que batendo-lhes eles se dedicariam mais aos estudos, mas não resultava, só alguns, poucos, é que começaram a portar-se melhor, com receio de apanharem!                              

- Tu ainda chegaste a estudar mais alguma coisita…

- Tinha eu dezassete anos, apareceu aqui na Vila curso designado “Curso Elementar de Aprendizagem Agrícola”, teria a duração de quatro anos, mas só fiz os dois primeiros, era necessário haver um determinado número de alunos, todos do sexo masculino, as raparigas não eram aceites, foi pena, porque os rapazes não gostavam de estudar, preferiam o trabalho pesado da lavoura ou da construção civil, assim só davam o corpo ao manifesto, não esforçavam o cérebro, e por essa razão acabou por falta de estudantes, ao cabo de dois anos éramos somente três, eu ainda cheguei a ir buscá-los a casa, mas eles, calaceiros, arranjavam quase sempre uma desculpa infantil para não irem. O professor era o senhor Salomão, boa pessoa, viria a morrer atropelado na cidade por um automóvel anos depois, gostava muito de dar as aulas, aprendia-se bastante, eram matérias interessantes: português, matemática, desenho profissional, ciências…; foi quando eu comecei a trabalhar por conta própria, o meu patrão tinha ido para França – não ganhou nada com isso, acabou por morrer estoirado, ele era trinca espinhas como eu, foi à procura dos francos, mas o que ele encontrou foi a maldita morte. Coitado, deixou dois filhos pequenos e a viúva, ele aqui até ganhava mais ou menos, mas viu os outros irem e não resistiu, a ganância, queria enriquecer, mas olha que eu nunca vi ninguém enriquecer com o trabalho, seja em França ou noutro país qualquer, só se for com negócios, e por vezes sujos.     

- Isso é verdade, eu também nunca vi ninguém ficar rico a trabalhar, claro que os emigrantes juntam algum dinheiro mas é à custa de muitas horas de trabalho, quase que não descansam, e cuidam eles próprios da alimentação e da roupa, além disso vivem em barracas de lata, nos chamados bidonvilles, porque se morassem numa casa verdadeira já não amealhavam tanto, os carros que trazem são alugados ou comprados em segunda ou terceira mão, porque os novos são muito caros, não são para a sua bolsa, os usados é que são baratos, ouvi dizer que os franceses mudam de carro como quem muda de camisa, ganham bem, podem comprar bons carros, os portugueses comparados com eles são uns pelintras, uns pobretanas. 

- Quando apareceu a televisão já tu estavas em Lisboa quase há três anos. Nem fazes ideia o que foi por aqui: as mulheres e os homens, velhos e novos, acorriam ao único Café com aparelho de TV; o dono não tinha cadeiras e espaço para todos, alguns, muitos, ficavam em pé, chegava a haver zaragatas; era obrigatório consumir, pelo menos um café ou um leite com chocolate. Nos primeiros tempos era uma borga, interrompiam constantemente os programas, havia um interlúdio, um gato de um lado para o outro, as pessoas desesperavam, a tia Ernestina dizia alto e bom som que preferia a rádio novela, pelo menos não havia interrupções nem gatos; é verdade que ela deixava passar em claro o facto de se ouvir mal a rádio, era só ruídos, pois a corrente elétrica espanhola não era suficientemente potente para os aparelhos funcionarem bem.

- Em Lisboa também foi uma paródia, um pandemónio, todos os Cafés rivalizavam entre si, compraram aparelhos enormes, pareciam caixas, queriam atrair mais clientela, as ruas a certas horas da noite permaneciam desérticas, toda a gente ficava horas especada frente ao televisor. Um grande acontecimento, um fenómeno!     

- Ainda me lembro dos primeiros programas, com o Artur Agostinho, o Camilo de Oliveira, etc.; muito nos ríamos com aquelas palhaçadas! Passados que foram os meses iniciais, voltou tudo à normalidade. Além dos Cafés as pessoas começaram também a adquirir televisores, o espantoso evento vulgarizou-se.

- Quem deve ter perdido clientes foram os donos dos cinemas e outras casas de espetáculo.

- Sem dúvida. Aquelas casas cheias: quintas à noite, sábados e domingos, tarde e noite, deixaram de se verificar. O dono do Cine-Pelicano já dizia que por aquele andar mais tarde ou mais cedo teria de encerrar as portas, os alugueres dos filmes eram elevados, tinha de pagar aos guardas-republicanos e aos bombeiros, consumia muita eletricidade, havia que pagar aos empregados, a receita já não cobria a despesa.

- Tantos filmes lindos, eu vi naquela Sala!

- Lembras-te dos filmes de Charlot, do Cantinflas, do Bucha e Estica, do Fernandel, do Totó? E o Costinha, Vasco Santana, o extraordinário António Silva?! Fizeram-me rir até às lágrimas.

- Eu gostava mais dos filmes de cow-boys e peles vermelhas, do Búfalo Bill, dos Três Mosqueteiros, e também dos policiais.

- Também apreciava esses, mas os meus preferidos eram os filmes bíblicos. Por exemplo «Moisés», «Dez Mandamentos», «Ben-Hur», etc. Um filme que nunca esqueci, e não me importava de ver outra vez, foi «A mulher que viveu duas vezes»! Grande filme. «A Senhora de Fátima e os Três Pastorinhos» teve aqui muito êxito; muitas pessoas saíram do cinema a chorar, de tão comovidas.    

- A mim vinham-me as lágrimas aos olhos com os filmes de Joselito e de Marisol, que comoventes, e que vozes, pareciam rouxinóis a cantar! Também gostava de «Robin dos Bosques». O Errol Flynn fazia um papel extraordinário em «O Gavião dos Mares». O «Corcunda de Lagardère» encheu-me as medidas. Tantos! 

- Por causa dos filmes de espadachins perdeu um olho o “Vesgo”.

- É verdade. Brincávamos com espadas feitas de madeira e o “Zé Pirete” furou-lhe um olho. 

- Podia ter havido mais incidentes. Lembras-te quando andávamos a atirar setas uns aos outros?

- Se lembro! Uma altura o “Nesgas” fez um buraco na perna do “Pinchas” – o rapaz gritava como um doido.

- Velhos tempos! Apesar da fome que rapámos, do frio, de toda aquela miséria, mesmo assim sinto saudades desses anos, desses incríveis momentos que jamais voltarão, do meu pião, do meu arco, do meu carro de madeira, de todos aqueles brinquedos que eu tive.  

- A tua vida quase dava um romance!

- Dava, dava; mas logo nas primeiras páginas os leitores desistiriam de o ler – quem gosta de chorar?!

  

X

 

A denúncia virtuosa e a virtude enxovalhada

  

     Eu desdobrava-me em consertos, a confecionar o almoço (que no Minho chamam jantar). Nesta região há quatro refeições por dia: almoço (entre as sete e oito da manhã); jantar (entre as doze e as treze horas); merenda (a meio da tarde); e a ceia (entre as oito e as nove horas da noite). A maior parte dos dias também fazia a ceia, pois como já sabem a minha mãe deslocava-se para as aldeias e no regresso, entre as nove e dez da noite, quando não mais tarde, já trazia uma grande piela, mal se segurando nas pernas. Por tudo isto, eu não dispunha de muito tempo livre para o namoro e por essa razão a minha apalavrada começou a ver outros “filmes”, cenários mais vistosos, perspetivas mais consoladoras. O meu grande amigo Rina apercebeu-se, raposa como era, da tramoia, e corre à oficina a fim de me avisar. Escutem:

 

- Ó Cândido, conheces-me, eu não quero ser intrometido, mexeriqueiro, mas olha que dizem coisas por aí!

- Eh, pá, desembucha.

- A tua namorada anda a pôr-tos, já a viram aos beijos com o filho da Teresa, cheira-lhe a «cacau», eles vêm de lá cheio dele, o tipo já está em França há uns anitos, por isso é que pôde cá vir, pagou a taxa militar, até já se fala em casamento, tu põe-te a pau senão ficas sem ela, agora que vais para a tropa, ela deixar-te assim! Eu não vi nada, mas quem mo afirmou não costuma mentir, põe-te a pau, repito, eu no teu lugar esclarecia isso com ela, ser tua namorada e andar no marmelanço com outro é que não, comigo as raparigas não fazem farinha, que eu até lhes rebento com a focinheira, elas a mim têm-me um temor que se pelam todas.

- Mas ouve lá, Rina: ainda ontem estive com ela, não me disse nada, não abordou esse assunto, portou-se como de costume, com naturalidade, isso deve ser mentira, aqui na nossa patriazinha toda a gente mete o bedelho na vida dos outros; lá que o marmanjo se interesse por ela, isso talvez, e até certo ponto compreende-se, ela é um pedaço de mulher, não é por ser minha namorada, mas olha que deve ser a mais bonita do concelho, põe os olhos em bico a qualquer um, eu sei que me têm inveja, lá isso têm, mas eu não me importo, ela gosta de mim e respeita-me, já deu provas disso, não acredito que me trocasse por ele, muito mais velho do que ela; não acredito. Que falem, deixa-os falar, tu és meu amigo, somos como irmãos, e sabes que eu não me importo com o que dizem, a boca é para falar, que falem: «o cão ladra e a caravana passa!»

- Não sei, não há fumo sem fogo, se fosse a ti precavia-me, as mulheres são capazes de tudo, conheço-as bem, como as palmas das minhas mãos, já tive mais de seis namoradas; as cabronas não eram de fiar, logo que outros lhes rondassem a porta, lhes piscassem um olho, fizessem tilintar uma moeda no bolso, atiravam-se-lhes para os braços, mas não se ficavam a rir, partia-lhes os dentes logo que tivesse conhecimento disso, pelo menos não se ficavam a rir.    

- Também há quem diga que uma delas te pôs o corpinho de molho!

- Isso foi a Amália do Regueiro, a malvada tinha uma força de dois homens, era virago, dei-lhe umas bofetadas nas ventas, mas a gaja atirou-se a mim como uma gata, um tigre, arranhou-me todo, mordeu-me o nariz, ia-mo cortando, deu-me um pontapé nos tomates, ia-me aleijando, cabrona, que força ela tinha, tive de dar às de vila-diogo, se não matava-me, quando a vejo ainda tremo, mas olha que essa é tesa, ninguém lhe faz frente, depois vinguei-me nas outras, malhei que nem em centeio, é como se estivesse a bater nela! 

- E o irmão da Filomena, parece que também te amaciou a pele!

- Oh! O João da Queijas, esse, coitado, veio gabar-se para aqui que me batera! Eu dera uma tareia na irmã, quis vingar-se; mas foi tudo mentira, quem levou das boas foi ele, que eu, não é para me exibir, mas assapei-lhe bem, dei-lhe uma moia que não esquecerá tão cedo, até foge de mim quando me vê, ainda outro dia fui a um baile à aldeia dele, a Goibães, olha que não apareceu; eu, se ele aparecesse, já estava preparado para lhe malhar outra vez, mas o tratante não é parvo, se calhar avisaram-no, ele que aparecesse…

- Estas guerras entre os da Vila e os da aldeia nunca acabam, já quando nós éramos pequenos, quando eu vim para cá, ouvia falar nelas, os daqui gabavam-se que tinham dado grandes tareias nos da aldeia, mas parece que não era bem assim, os outros jogavam bem o pau, eram exímios com ele, não temiam os da Vila, chegavam-lhes bem, uma coisa é um indivíduo ser gabarolas, outra coisa é a realidade, quando os paus voam pelo ar não há costas que escapem, levam todos. 

- Nós agora é que estamos a ficar cobardolas, olha que os mais antigos, os da idade do meu pai, esses tinham-nos no sítio, a esses ninguém fazia o ninho atrás da orelha, pudera! Levavam poucas, nós encolhemo-nos, quando vamos às festas e bailes estamos sempre com receio que caia bordoada, mas olha que naquele tempo eles é que tomavam a iniciativa, não esperavam que os outros começassem, as pobres mulheres desandavam, era uma gritaria dos diabos, eu ainda assisti a algumas lutas, a minha mãe fazia um escabeche dos diabos, não queria que o meu velho andasse à pancada, mas ele tinha de ajudar os outros, aquilo fazia lembrar os mosqueteiros «um por todos, todos por um.»

- Nós agora somos mais civilizados, já não usamos pau, por outro lado antigamente não havia GNR, agora os guardas não consentem essas guerrilhas, e andam bem armados, caramba, até podem num ápice matar um tipo. Outro dia, na festa de Santa Quitéria, não sei se lá estavas, os guardas Silvino e Rómulo puseram-se aos tiros, um tipo borra-se todo, uma bala daquelas leva um homem para o jardim das tabuletas num segundo, eu pus-me detrás de uma árvore, apanhei cá um susto, nem é bom lembrar.

- Eu chegara havia minutos, andava à tua procura, os guardas trouxeram uns quantos presos para a cadeia, parece que bateram neles que nem fossem animais, nunca mais vão querer meter-se noutra, os gajos não são para brincadeiras, dão tareia da grossa, hóstia, dão com a coronha da espingarda, até partem a cabeça a uma pobre criatura de Deus.

- As festas assim ficam mais calmas, já toda a gente pode andar à vontade, sem receio de apanhar uma paulada, esse costume está fora de moda, nós queremos e desejamos é divertirmo-nos, eu não gosto de confusões, de balbúrdias; os arruaceiros estragavam a festa quando ela estava no auge, embebedavam-se e pronto, toma lá porrete!

- Mas assim as festas não prestam, perdem toda aquela beleza, o colorido, tornam-se festas para mulheres e crianças, calmas, somente a música, primeiro a missa, a procissão, toda a gentalha sabe o que se vai passar, não têm graça nenhuma!   

- Há as cantigas ao desafio, os ranchos folclóricos, as moçoilas a passear de um lado para o outro, os namoricos, a banda de música… Sabes que a nossa banda é considerada uma das melhores do Minho?

- Graças sobretudo ao mestre Fernandes.

- Extraordinário maestro! Mas dizia eu: na festa de Santa Maria levámos, eu e a minha velhota, para merenda, um galo estufadinho no tacho, que bom, foi um petisco, passámos um dia maravilhoso, eu gosto de paz, sempre fui pacífico. 

- Também não tens corpo, nem garra, se tivesses eras como os outros, quererias botar figura, assim refugias-te debaixo das saias das mulheres, e elas abusam de ti!

- Sabes que isso não é cem por cento verdade; há pessoas agressivas por natureza e outras que não o são, eu pertenço a estas últimas, nasci assim e sinto-me bem comigo, com a minha consciência.

- És muito diferente de mim, eu gosto de movimento, de ação, de protagonismo.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

sábado, 3 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



VI

 

     A curiosidade é como uma doença: umas vezes cura-se, outras vezes não!

 

     Estou novamente com o meu irmão na cavaqueira, relembrando tempos passados, bons e maus momentos, quase sempre maus, pois quem vive no limite da pobreza, desamparados, carentes de comida, de roupa, e até de carinhos, não tem com certeza momentos bons para relembrar. Ponham então o ouvido à escuta:

 

- Por que é que viemos para a Vila? Não seria melhor para nós morar em Cendre?

- Tu és um idiota, não estás a compreender. A nossa família é da Vila, só nascemos em Cendre porque a tua mãe estava lá, fora para esse lugar tratar uma idosa, sogra de um soldado da guarda-fiscal. Os nossos avós maternos eram da Vila e foi na Vila que lhe nasceram todos os filhos, só que a tua mãe precisou procurar emprego e teve de arranjá-lo em Tronços, depois foi para São Bernardo, lá conheceu o Olavo Meliças, nosso pai, e por lá ficou, quando ele se pôs a mexer para a Galiza, com a tal galega, a tua mãe ficou desesperada, começou a beber, a emborrachar-se, e já nem dinheiro tinha para pagar a renda da casa; então o dono, o senhor Silva, às tantas disse-lhe para ficar de graça, não teve coragem de a pôr na rua com dois filhitos de tenra idade, teve bom coração, mas também a casa não valia dez réis, quem é que quereria ali habitar? Agora já nem telhado tem, só possuía uma divisão com pouco mais de vinte metros quadrados de área! Depois de tu nasceres ainda lá estivemos cerca de seis anos, depois fomos os três para a Vila, tínhamos direito a metade da casa, os avós já tinham morrido e a tua mãe era dona de metade. Ficámos nos baixos, em cima morava o tio Aurélio com a mulher, a Gertrudes, e a filharada, ele era barbeiro, mas as coisas não estavam a correr bem, estava-se a passar por uma grave crise e então resolveram ir para Lisboa, os dois filhos mais velhos, a Tânia e o Adolfo, já lá estavam. Acho que foram para os arredores, havia lá conterrâneos, julgo que os meteram em casa, claro que lhes pagavam parte da renda, mas assim já ficava mais barato a todos.

- Olha que eu passei maus bocados com eles!

- Passaste tu e eu. A mamã ia para as termas cozinhar, entre Junho e Setembro, e deixava-nos ficar com a tia, ela só nos dava caldo de farinha, os petiscos, se é que os havia, duvido, eram para os seus filhos, e se não comêssemos obrigava-nos a ficar de castigo na mesa, eu comia, que sempre tive bom estômago, tudo que vem à rede é peixe, mas tu vomitavas tudo, não conseguias ingerir aquela mixórdia, coitado de ti.

- E segundo parece a mamã não lhes ficava a dever nada, pagava-lhes e bem pago.

- Sim. Nessa ocasião ela ganhou algum juízo e trazia dinheiro e comida para casa; claro que a tia recebia parte, mas com tantos filhos… E que amizade eles nos tinham? Nunca tínhamos vivido juntos, éramos como que desconhecidos, só o sangue nos unia, mas não é suficiente, é preciso crescer juntos, eu gostava mais dos rapazes de Cendre do que deles, eram como nossos irmãos, estes não, se pudessem até nos batiam, que a mim não conseguiam, que eu sou forte desde criança, mas a ti, coitado, um “lingrinhas”, eras o bombo da festa, até eu te chegava às vezes! Mas tu também eras mauzinho, não obedecias a ninguém, eras um selvagem, um anarquista, um rebelde, andavas sempre a atirar pedras às pessoas, até parece que eram todos teus inimigos! Uma vez rachaste a cabeça ao filho do Nelo Santos, o guarda-fiscal, por vontade dele matava-te, tiveste sorte, que ele não era para brincadeiras, até se dizia que tinha abatido a tiro um contrabandista, quando ele ia a atravessar o rio com contrabando, disparou uma data de balas e atingiu-o mortalmente; olha que não se arrependeu, dizia que tinha sido em serviço, malandro, o desgraçado andava a ganhar a vida, olha que aos contrabandistas poderosos, àqueles que lhe pagavam bem, a esses não perseguia, deixava-os passar livremente.

- Os guardas também ganhavam mal, coitados.

- Defende-los porque o teu padrinho é guarda, mas olha que eles não eram boa rês, prejudicaram muita gente, sobretudo os mais pobres, que os outros sabiam defender-se, tinham rede montada, mas o coitado, aquele que só levava uma saca de café para Espanha, a esse, quando o apanhavam, não perdoavam. Deviam ser todos como a famosa «Ana Home», essa era tesa, até coça lhes dava, uma altura prendeu um carabineiro a uma árvore e tirou-lhe a espingarda, olha que lhe foram logo pedir para a devolver se não o desgraçado perdia o emprego, era uma mulher de armas, uma mulher de pelo na benta, dessas é que devia haver muitas.

- Eu não defendo ninguém, apenas faço um esforço para compreender aquela época, aquela gente, a sua maneira de viver, de agir. Dizias que os tios e os primos foram para Lisboa, então ficamos com a casa toda para nós?!

- Bem, ainda ficaram connosco duas primas: a Antónia e a Laura, que acabaram por se zangar com a tua mãe e irem morar, provisoriamente, com o Evaristo, um amigo chegado do tio Aurélio. Esse Evaristo, não sei porquê, por que cargas de água, veio cravar tábuas no rés-do-chão da casa, alegando que metade lhes pertencia, e que nós não a podíamos habitar na totalidade. A mamã reagiu de forma violenta, pegou numa machada e rebentou com as tábuas, eles também tinham lá estado sozinhos e a mamã não recebera nada, e jamais lhes exigiu fosse o que fosse; por outro lado, ainda não tinha havido partilhas, por isso ninguém sabia qual era a sua metade.

- Foram para tribunal?

- Não. Parece que o Evaristo meteu as pernas entre o rabo, como fazem os rafeiros, ou então recebeu instruções do tio, e as coisas ficaram por ali. As primas depois foram para Lisboa também e nós ficámos com a casa toda.

- Tu foste à escola…

- Em 1950 matriculei-me na primeira classe, passados quatro anos, em Julho de 1954, tinha a quarta feita.

- Eu matriculei-me no ano seguinte e acabei a quarta em 1955. E a asma, como é que te passou?

- A Santa Casa da Misericórdia de Melgaço enviava todos os anos para a praia de Âncora às suas custas crianças necessitadas e com dificuldades respiratórias; eu fui uma delas.

- E a praia fez-te bem.              

- Embora não acredite em milagres, o que aconteceu é de facto extraordinário – a partir desse ano nunca mais tive problemas de respiração!

- Foram os ares do mar e os banhos de sol.

     

VII

   

     O amor e uma cabana são coisas do passado.

  

     Aos meus ouvidos chegaram rumores, zunzuns, de que a Bera dava troco ao Artur, recém-chegado de França; claro que os ciúmes, esse sentimento mesquinho e incontrolável, feroz, logo se manifestaram. Porém, ela, de momento, dissipará todas as minhas dúvidas. Ai as mulheres! São capazes de todos os sacrifícios, de todos os atos nobres, mas também são autoras de grandes perfídias! Aproximem-se:

 

- Bera, ouvi dizer que o filho da Teresa, que veio agora da França, te anda a arrastar a asa, é verdade?

- Esteve a falar comigo, esteve; disse-me que se quer casar, se eu conhecia uma rapariga que o quisesse, sabes que eles só têm um mês de férias, depois têm de se ir embora, eu disse-lhe que raparigas não faltam, é só ele querer, mais nada.

- Vê lá! Eu dentro de uns meses, como sabes, vou para o exército e botarei lá uns bons três anos; se não morrer na guerra das colónias, casaremos quando regressar; não quero perder-te. Nunca tive outra namorada, tu também só me tiveste a mim; não casamos ainda porque combinamos fazê-lo só depois de eu vir da tropa.

- Não estejas já com ciúmes, achas que te trocava por outro? É bem verdade que os emigrantes trazem francos, disse-me que tenciona comprar um terreno e começar a fazer uma casita, já tem um bom carro, e algum dinheiro no banco…, mas o dinheiro não é tudo, não se pode casar com alguém só por via dele, eu nunca faria isso, mas é verdade que há aí raparigas que não se importam, num mês metem a papelada e casam, depois vão com eles para França, coitadas, nunca tinham andado de «cú tremido», num carrinho bonito, nem sequer tinham ainda entrado num. É verdade que eu também não, mas não sou como elas; eu a ti não te trocava por nada deste mundo; dei-te já provas disso, e para mais agora que vais para a tropa, eu ainda tenho vergonha nesta cara.  

- Confio plenamente em ti; não imagino sequer o que seria a minha vida sabendo-te nos braços de outro, não sei se suportaria a dor, olha que só de pensar nisso fico doente, eu não fui para a França porque não arranjei os dez contos que o passador me pediu, ninguém mos emprestou, se não teria ido, se as coisas tivessem corrido de feição já poderíamos ser marido e mulher, mas não podia ir roubar, que eu sou honesto, prefiro ir cumprir com a minha obrigação, pode ser que tudo corra bem, há rapazes que nem vão fazer a guerra, e a maior parte dos que vão regressam; caramba, nem todos morrem, valha-nos essa certeza, alguns vêm sem braços e sem pernas, mutilados, coitados, esses ficam com a sua vida arruinada, nunca mais podem voltar a ser o que eram; fala-se que na Alemanha põem pernas e braços artificiais, mas não é a mesma coisa, preferia morrer a andar a arrastar o corpo pelas ruas, que Deus me perdoe a blasfémia e a arrogância.

- É preciso ter fé em Jesus e na Virgem, e olha que essa guerra pode acabar de um momento para o outro; as nossas forças armadas são bem mais fortes do que os terroristas e acabam com eles depressa, se calhar já nem será necessário ires lá, quem sabe!

- Também não me quero iludir, mas tudo é possível; por outro lado, e segundo dizem, nem todos os gentios estão contra nós, o governo afirma que a maior parte dos africanos são nossos irmãos e estão do nosso lado, esses, coitados, não querem a independência, esses querem ser portugueses. Pergunta ali ao João preto, o criado do Doutor Morais, que é natural de Angola, se ele não quer ser português, diz-te de pronto que é português do coração, ele já nem sequer sabe falar a língua dos seus irmãos de África, a língua dos indígenas.

- Nós devíamos ter realizado o casamento antes de tu ires embora para a tropa, eu agora ficava aqui com a tua mãe, apesar de ela não gostar muito de mim, coitada, já está caduca, e vai ficar sozinha, claro que virei aqui de vez em quando, mas não é a mesma coisa, se tivéssemos casado era diferente, era a nora dela, agora já é tarde, e tu também sempre disseste que só casavas comigo depois do regresso, é uma ideia fixa, até parece que não confias em mim.

- Lá estás tu com essas coisas, sabes bem que gosto de ti, nem sequer me passa pela cabeça gostar de outra, és o meu oásis neste triste deserto; desejo casar contigo, mas pode-me acontecer alguma coisa má quando for para a guerra, e não te quero deixar viúva.

- Se tu morreres, viúva fico eu; mesmo não sendo casada, tua esposa legítima! Cruzes, canhoto! Nem é bom falar nisso, mas se acontecesse eu não me queria mais casar, o diabo seja surdo e mudo.           

    

                                                                                                                            VIII

 

         Recuar no tempo é como viver duas vezes

 

      Repararam como a Bera soube levar a água ao seu moinho? Pois é: anda a tramá-la, mas ainda é cedo para dar o golpe final, o chamado golpe de misericórdia. Com palavras amorosas, com beicinhos e ósculos repenicados, o beijo de Judas, a sublime traição, com engenho e manha, lá vai tecendo a subtil e pérfida teia. Eu continuo a interrogar a minha mãe, a perscrutar o passado, como se ele me pudesse trazer a felicidade ou pelo menos a utópica quimera; ainda não me apercebera que quanto mais recuasse no tempo, mais funestos e sórdidos acontecimentos descobria e desenterrava, mais chafurdava no lodo ancestral. Atentem nesta conversa:

 

- Mamã, uma coisa que eu ainda não compreendi muito bem foi o avô Gaspar escolher a avó Isaura sendo ela mãe solteira, mãe de três filhos, embora a Maria da Conceição e o Francisco lhe tivessem morrido ainda bebés.

- Não compreendeste, nem é fácil compreender, pois além de ser mãe solteira também era mais velha do que o teu avô sete anos. Acontece que o meu pai quando nasceu, teria dois ou três dias de vida, foi exposto na roda do concelho. A Casa da Roda era administrada pela Câmara Municipal; os pais que não desejassem criar os filhos, por esta ou aquela razão, sobretudo para evitar escândalos, colocavam-nos ali, onde existia uma rodeira que os recolhia, levava à igreja para serem batizados, e após a cerimónia eram entregues a uma ama-de-leite. O teu avô foi criado até aos sete anos pela Justina Melra, falecida antes de eu ter vindo a este mundo, até diziam que ela era a verdadeira mãe dele, não sei, pois na cédula de nascimento não tem o nome dos progenitores, é filho de pais desconhecidos. Ele nunca quis falar dessas coisas. Consta que seu pai era fidalgo. Naquela altura – eles casaram nos princípios deste século – era uma infâmia ter sido exposto, a sociedade não os aceitava, eles viviam aos trambolhões, aqui e ali, nunca passavam de criados de servir, de jornaleiros. As raparigas não os queriam para marido, porque depois era uma vergonha, um labéu, para os seus filhos, para toda a família; além disso, os pais delas também não deixam casá-las com os expostos.             

- Começo a compreender; o meu avô era um enjeitado.

- Infelizmente era; a tua avó já entrara na casa dos trinta e assim arriscou, começou a namorar com ele às escondidas e engravidou da Marília, nasceu em 1903, ficou sendo filha de pai incógnito, depois o padre andou à volta deles e dos pais dela, que mesmo assim não autorizavam o casamento, era uma família honrada, ele iria envergonhá-los. O sacerdote tanto porfiou que lá conseguiu o consentimento e a boda realizou-se em 1905, às cinco da manhã. Nesse dia a minha irmã ficou legitimada.

- A vida é de facto complexa e misteriosa; o meu avô, para além de ser um abandonado, era vadio, tinha grandes defeitos?

- Pelo contrário, era uma joia de pessoa, ele não tinha culpa de não saber quem eram seus pais, até se dizia que o pai tinha sido engenheiro; viera para cá na altura em que fizeram a estrada; esteve por aqui dois ou três anos, arranjando uma criada, a quem fez o favor de emprenhar. Se é verdade ou não, não sei. O certo é que o teu avô tinha bom aspeto, não parecia ser filho de camponês; era uma figura alta, cabelos loiros, olhos azuis, parecia até um fidalgote! Alugava os seus braços à jorna, um mourinho de trabalho; depois do matrimónio começou a fabricar rebuçados, que vendia nas festas do concelho, os quais lhe trouxeram alguma fama, toda a gente o conhecia, e ao seu açafate, era muito popular. A minha mãe ia a Espanha comprar pão, que depois vendia na Vila e aldeias próximas, era preciso ganhar a vida, que eles estudos não tinham, não podiam aspirar a grandes empregos. Ela também negociava em doces e roscas, lá iam arranjando um dinheirinho para sobreviverem, além de terem uma horta e uns campitos, que a minha mãe herdara.

- Depois da Marília nasceu o Vítor…

- Veio ao mundo em 1906. Meu querido irmão, acabaria por morrer doente em 1927, com apenas 21 anos de idade; a terrível tuberculose levou-o. Estava noivo, uma estampa de homem. Era empregado de balcão numa das melhores lojas da Vila, sempre de fato e gravata, não o consigo esquecer. A minha mãe sofreu imenso, era o segundo filho a morrer na flor da idade, o Roberto com dezoito anos e este com vinte e um!

- De facto, o azar tinha-lhes batido à porta.

- Dois anos depois morria-lhes a filha, a minha irmã Marília, com vinte e seis anos de idade incompletos. E com a mesma doença do irmão! Deixava duas criancinhas pequenas, um marido destroçado, uma família inconsolável.

- Em 1929 estava você aqui na terra com a Susana de meses…

- A tua irmã nascera em 1928, tinha poucos meses quando morreu a madrinha dela, a tua tia Marília. Foi um grande desgosto para todos, eles mortos, eu, mãe solteira, crianças como passarinhos, de boca aberta, o país de rastos, a miséria a rondar por perto. Agora vive-se melhor, apesar de tudo, naquele tempo…

- Começo a entender muita coisa; sabe, eu gostava de criticar, considerava-os a todos quase como criminosos por nos terem trazido a este vale de lágrimas, por nos terem deixado passar fome e frio, muitas necessidades, por termos sido filhos sem pai, mas afinal a vida é mesmo complexa, nada, nem ninguém, tem a culpa do que se passa, ninguém escolhe nascer aqui ou ali, nesta ou naquela família, nascemos onde nascemos e crescemos como crescemos, os ricos comportam-se como tal e os pobres, que são a maioria, vegetam e agacham-se porque nasceram sem nada, sem poder. Alguns, poucos, conseguem sair do lamaçal, engrossam o mundo dos que vivem bem, mas sabe-se lá à custa de quê, de que cedências, da sua honra e da própria honestidade.

         - Eu nasci em 1908 e só permaneci em casa dos meus pais até aos oito anos de idade. No solar dos meus padrinhos não passei mal, davam-me roupinha, embora usada, mas que queria mais? O que me custava imenso era estar fora de casa, longe dos meus irmãos, dos meus pais, dos meus amigos, das minhas inocentes brincadeiras e dos brinquedos que eu própria fabricara. Deixei de ser criança e passei a ser uma empregadinha doméstica: nem escola, nem brincadeiras, nem amigos, só casa, mais casa, sentia-me sufocada, e a igreja, a missa todos os domingos, aquelas mulheres sérias, aqueles homens empertigados, aquele ambiente de terror e mistério.

- Agora compreendo porque entre si e o seu irmão Aurélio, mais novo cerca de dois anos, nunca existiu um grande afeto, um grande amor de irmãos. 

- Deixaram-nos viver pouco tempo juntos; quando saí de casa tinha ele seis anos de idade, não deu para cimentar esse amor. Mesmo os irmãos necessitam de conviver, pelo menos até ao matrimónio, depois cada um segue o seu rumo, o seu destino, mas até esse momento devem permanecer unidos, como as árvores de um bosque, crescerem lado a lado, sugarem as alegrias e tristezas do lar. A mim não me deixaram partilhar esses doces momentos, atiraram-me para o lado de fora, talvez pensando que era melhor para mim, não foi, não, a minha vida teria sido diferente se tivesse ficado, quem sabe, casaria, daria à luz filhos do casamento, teria sido feliz, assim não fui nem vos deixei a vós sê-lo, não por culpa minha, não, quem me dera ter-vos dado mais e melhor, mas como o poderia eu ter feito?

- Não se culpe, mamã, eu agora compreendo. Fez o que pôde, não estava nas suas frágeis mãos fazer diferente ou opor-se, apesar de tudo foi uma grande mulher, outras fizeram bem pior, não conseguiram ter a sua dignidade, a sua enorme força de vontade, a sua simpatia para com todos. Errou, é certo, mas quem não erra? Na sua situação, cheia de filhos, mãe solteira, todos os homens a abusar de si, a cobiçá-la, a disputá-la fisicamente, como se fosse peça de caça, trofeu de caçador, nada mais, nem melhor, poderia ter feito. Não se culpe, nem seja juiz de si mesma; o tempo humano é curto demais face à eternidade. O seu irmão Aurélio também passou ao lado da felicidade pelos vistos.

- Quando eu voltei para casa grávida, em 1928, somente ele vivia em casa com os teus avós, pois o outro meu irmão nascido depois dele faleceu com apenas dias de idade. Era o menino querido. Vestia bem, embora com roupas modestas, ia aos bailes, as raparigas gostavam dele, trabalhava na arte de barbeiro. Não gostou nada que eu aparecesse, fez-me a vida negra; era uma desavergonhada, uma mulher sem juízo, vinha lançar o estigma (opróbrio, dizia ele) sobre toda a família; o melhor teria sido eu ficar por Lisboa, pelo menos ninguém saberia, o que diriam agora as raparigas da terra, irmão de mãe solteira, não bastava já o que acontecera ao pai, que vergonha, não iria mais aos bailes. Fez tudo para me escorraçar de casa! Quando a tua irmã nasceu eu disse aos teus avós para me arranjarem uns patrões onde servisse, eles que me ficassem temporariamente com a menina, não queria dar mais trabalho, despesas, e chatices. Arranjaram-me a casa de uma família de Tronços, professores do ensino primário, por sinal muito bons para mim.

- Em 1931 nasce o Alexandre!

- Muito eu resisti; os rapazes de Tronços e São Bernardo não me largavam, prometiam mundos e fundos, sabiam que eu já tinha uma filha, mas não se importavam, palavras, o que eles queriam sabia-o eu. Deixei-me ir na conversa, embeicei-me por um deles, e zás! Fiquei com mais um rebento.

- Como se chamava o pai do meu irmão?

- O nome dele era Antão, mas todos lhe chamavam o “Chateado”. Grande patifório, depois de eu ficar prenha deixou de me procurar, teve receio das responsabilidades, eu que criasse o bebé, que arcasse com todos os encargos e dissabores.           

- O Alexandre acabou por morrer.

- Felizmente para ele, morreu com poucos meses; os meus patrões, Deus os ampare no céu, foram seus padrinhos.

- Dois anos depois, outro!

- Eu já não me podia defender daqueles malandros, grandes pulhas, faziam apostas para ver qual deles primeiro me desgraçava; em Janeiro de 1933 nascia outro rapaz, o Ambrósio, filho do António Bonfim, de Tronços. Para não casar comigo escapou para a Venezuela, ai não, que o meu patrão, que tinha sido professor dele, obrigava-o a casar, mas o cobarde pôs-se a mexer, nunca mais voltou à terra de nascimento, o teu irmão foi ter com ele depois de ter cumprido o serviço militar, por lá está, não sei se bem se mal, pois é raro dar notícias. 

- Deve estar mais ou menos, mas olhe que a nós nem escreve, também nem o conheço, só o vi uma vez, quando ele partiu para as Américas no ano de 1955; veio aqui despedir-se, não sei se da terra que o viu nascer, se de nós. Mal me recordo dele, só me lembro que se deitava tarde, acordava-me, uma altura deitou o meu grilo fora, dizia que não o deixava dormir; fiquei com imensa pena, tanto esforço eu tivera para o apanhar; e aquela gaiola de cana, que trabalhão me dera construí-la! O grilo cantava tão bem, nunca tive outro tão cantador, ia buscar alface e erva do monte para lhe dar, jamais passou fome, mas o Ambrósio queria dormir e o grilo não o permitia, perdoo-lhe, mas nunca encontrei outro grilo igual, isso não. O Ambrósio provavelmente já nem de nós se lembra, tem lá duas irmãs, segundo dizem, filhas do pai e da mulher com quem ele casou. A 4 de Março de 1935, de acordo com a caderneta do Registo Civil, nasce-lhe a Rosália.

- Coitadita, não chegou a gozar a vida: viveu apenas um ano. Era tão linda, tão amorosa, um sorrisinho cativante, foi a terrível doença, ainda a levámos ao hospital, mas não havia nada a fazer, o médico não conseguiu salvá-la, tive um grande desgosto, só Deus sabe quanto eu sofri, não há ninguém que consiga descrever a minha dor, superior à força humana.

 - Quem foi o pai, desta vez?!

- O Rodolfo de Tronços, filho do dono da mercearia, era todo atiradiço, enganou uma data de raparigas, espero que não lhe façam o mesmo às filhas, não respeitava ninguém.

- Não me diga que ele a forçou?!

- Não, de maneira nenhuma, mas prometeu-me casamento, fartou-se de dizer mal do outro, e eu fui no engodo; desejava arrumar a minha vida, mas dava sempre com estes garotos, engravidavam-me e depois já não queriam nada comigo, até parece que eu tinha lepra.

- Seis anos depois nasceu o Olavo.

- Nessa altura já eu deixara Tronços, fui servir para Cendre, para casa de uma velhota, isto por volta de 1939. Ali perto trabalhavam como caseiros de uma quinta os pais do teu pai, o Agostinho Meliças e a sua mulher, Mariana. Só tinham um filho, o Olavo Augusto, que depois veio a ser o vosso pai. Eu não lhe ligava nenhuma, porque ele era uma criança à minha beira, tinha menos doze anos do que eu, nascera em 1920. Andava atrás de mim como o gato anda atrás da gata na época do cio, não me largava, dizia-me que a diferença de idades não interessava, que casava comigo, podíamos viver ali em Cendre, ele ganhava algum dinheiro no contrabando e eu trataria da casa.

- Mais uma vez caiu na esparrela!

- Dizem que gato escaldado até do frio tem medo, mas eu não aprendia, cabeça oca, pensava que devia haver no mundo alguém, um homem bom e sincero que gostasse verdadeiramente de mim, que não me enganaria, que me respeitaria como mulher, apesar de já ter tido quatro filhos de quatro homens diferentes; enganei-me mais uma vez, fiquei grávida do teu irmão; em Setembro de 1941 ele nasceu e eu continuava solteira como antes. Eu chorava, mas ele não se comovia. Arrendámos uma velha casa, muita pequeninha, perto do posto da Guarda-Fiscal, e passámos a viver ali, embora ele poucas vezes lá ficasse, dizia que tinha de dormir em casa dos pais, ajudá-los na lavoura, porque estavam a ficar velhos. Conversa, ele tinha era outra, uma da idade dele, eu já devia calcular.

- Passou então a haver cenas de ciúmes.

- Bueno, bueno! Quase todos os dias; o estroina aparecia, vinha encher a mula, andava sempre esfomeado, e depois dizia que tinha de ir aqui ou ali, só para não me ouvir. Eu enchia-me de esgaravatar: a vender peixe, a contrabandear, e ele não me ajudava nada, ao invés, vinha comer o suor do meu rosto.

- Acabou por ficar grávida de mim!

- Tu foste o último filho que eu tive, um meia-leca, e era para não teres nascido, ainda pensei em abortar, as vizinhas aconselharam-mo: «ó mulher, não sejas doida, mais um filho arruína-te, desgraça-te; o melhor será abortares, ali a Dolores tem mão para isso.» O teu pai já estava zangado comigo, a bem dizer já nem nos víamos, ele passava muito tempo com a namorada galega, ela já devia estar grávida também, até parece que o embruxou, ele nunca mais foi o mesmo para mim depois de a conhecer.

- Por que é que ele não perfilhou o vosso primeiro filho, o Olavo?

- Bem, nós estávamos a muita distância, quase a dez quilómetros da sede do concelho, onde se encontrava o Registo Civil, e ele era muito comodista, não queria lá ir, prometia sempre, nunca disse que não ia, mas quando chegava a altura, dava sempre uma desculpa, eu também não insistia muito porque toda a gente sabia que o teu irmão era filho dele.

- Quando eu nasci…

- Quando tu nasceste fui falar com ele e implorei-lhe que vos perfilhasse, não figurardes com nome de pai podia ter implicações no vosso futuro, mas ele fez uma cena dos diabos, disse-me que o primeiro ainda vá lá, podia ser filho dele, ora o segundo, nem pensar, sabia lá ele quem era o pai! Eu fiquei cega de raiva, o filho da púcara, que a mãe não o era, pois olha que enquanto andei com ele não tive outro homem, sacana, era um cachorro, o que ele queria era arranjar um pretexto, uma desculpa tola, para se separar, desvincular definitivamente de mim. Chamei-lhe todos os nomes, e ainda foram poucos, quis bater-me, mas eu gritei por socorro e logo veio gente defender-me; o teu padrinho, o Flávio Ferreira, ainda tentou dar-lhe umas arrochadas, mas eu não deixei, impedi-o, apesar de tudo ainda gostava dele!            

- Eu nunca o vi!

- Pois não, depois de tu nasceres, terias uns três meses de vida, ele foi-se embora para Espanha com a outra, nunca mais lhe pusemos os olhos em cima.

- E assim ficámos os dois, eu e o Olavo, como sendo filhos de pai incógnito!

- Infelizmente assim é; todos ficaram sendo de pais incógnitos, mas olha que eu não tive culpa, é o destino, eu nem queria nada com o teu pai, nem sei como isso aconteceu, eu era uma mulher só, já não era nova, queria tentar pelo menos constituir o meu lar, mas quem nasce malfadado tarde ou nunca encontrará uma migalha de felicidade; coitada de mim, nunca tive sorte com os homens, fizeram pouco de mim, aproveitaram-se da minha fragilidade, e o azar sempre me acompanhou na vida. Nasci pobre; e quem nasce pobre acabará quase sempre por morrer da mesma maneira. A minha única riqueza é a liberdade e os filhos. Sobretudo tu que és o mais novo e tens estado sempre ao meu lado, a aturar os meus infortúnios, as minhas infelicidades.

- Os dois meus irmãos mais velhos só são seus filhos de nome, deu-os à luz mas não os criou, não viveu com eles; o Olavo foi para Lisboa aos trezes anos de idade. Restei eu, mas você não me tem dado grandes alegrias, podia emendar-se.    

- É tarde para isso, demasiado tarde. Passei muita desgraça, sofri muito, nunca compreendi o mundo e as suas gentes, hoje sou um farrapo humano; não me peças impossíveis.