segunda-feira, 17 de agosto de 2026

OBRAS COMPLETAS DE JOAQUIM  ROCHA 

                                           

 

Edição de autor

 

 

Ficha técnica

 

Título: Escritos sobre Melgaço

 

Autor – Joaquim A..Rocha

 

Capa – Fotografia do Terreiro (Praça da República)

 

Fotografias – vários

 

Execução gráfica –

 

Tiragem –

 

Depósito legal –

 

ISBN –

 

Data de edição –

 

Correio eletrónico: joaquim.a.rocha@sapo.pt

Blogue: Melgaço, Minha Terra

 

Obras do autor

 

 

Obras a publicar

 

Poemas do Vento

Sonetos do Sol e da Lua

Quadras ao deus dará

Escritos Sobre Melgaço

Entre Mortos e Feridos (romance)

Lembranças Amargas (romance)

Gentes do Concelho de Melgaço (micro biografias)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

A Minha Vida em Imagens

A minha religião e outros escritos

Auto da Palina

Frágeis Elos (2.ª edição)

Melgaço: Padres, Frades e Monges 

Escritores e Investigadores de Melgaço (e Afins)

Conto (O Fim de Um Sonho)

Sob o Signo do Azar

Ferreira da Silva

 

Obras publicadas

 

Livros

 

Frágeis Elos (uma história familiar)

Dicionário Enciclopédico de Melgaço (I e II volumes)

Lina – Filha de Pã (romance)

Os Meus Sonetos e os do frade

Os Novos Lusíadas (…)

Melgacenses na I Grande Guerra (…)

(em parceria com o Dr. Valter Alves)

 

Separatas

 

A Origem de Algumas Famílias Melgacenses

A Febre Tifoide e os seus Protagonistas

Tomás das Quingostas (200 anos do seu nascimento)

A Provável Origem de Melgaço e Paderne

 

Prefácios nos livros de José A. Cerdeira e ACE:

 

Tomaz das Quingostas

O Buraco da Serpe

A Adversidade por Madrasta

O Sonhador dos Montes da Aguieira

Nas Páginas do Notícias de Melgaço

 

Colaborações

 

No Boletim dos Serviços Sociais da CGD

No Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço

No jornal A Voz de Melgaço

No jornal Fronteira Notícias

Artigo sobre o santuário da Peneda no livro «Lugares Sagrados de Portugal» I, editado pelo Círculo de Leitores em 2016.

 

                                           Prefácio

 (será publicado oportunamene)

   *  


PROVÁVEL ORIGEM DO NOME MELGAÇO

         

              Melgaço é a minha terra, aquela que me viu nascer e crescer, a única de quem gosto sem reservas. Por isso tudo eu farei para que o seu nome e a sua história sejam conhecidos. Não pretendo, podem crer, com este modesto trabalho, exibir conhecimentos em Mitologia, Linguística, Etimologia, ou ciências afins, nem sequer colocar em causa investigações feitas por pessoas sérias, honestas, que tudo tentaram para descobrir a origem dos nomes da nossa pequenina pátria. Eu quero apenas contribuir com o meu esforço para esclarecer alguns pormenores que escaparam a esses senhores, todos eles já falecidos. Certezas absolutas, quem as têm? Claro que, no meio desses estudos, surgiram algumas fantasias, por vezes vindas de gente de quem não se esperaria tal coisa, mas enfim, sem as ferramentas adequadas, que não possuíam, sem a devida especialização, teremos de ser nós, gente do século XXI, com outros meios, outros recursos, a separar o trigo do joio, a colmatar as falhas existentes. O caminho é sáfaro, ingratíssimo; mas desistir era o pior que nos poderia acontecer. É necessário dar passos seguros, com a ajuda de todos: etimologistas, arqueólogos, etc., para que um dia não restem quaisquer dúvidas sobre o assunto.

     O concelho é composto por dezoito (*) freguesias desde meados do século XIX (antes eram apenas oito), e dentro de cada uma delas existem muitos lugares, cada qual com o seu nome; conhecer a sua raiz não é fácil, sobretudo porque Melgaço está longe dos grandes centros e os cientistas diplomados quase esqueceram por completo a sua existência! Deveremos ser nós, os que nasceram neste lindo torrão minhoto, a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que o passado histórico surja aos olhos de todos limpo de poeiras, sem ambiguidades e mentiras. Eu sei que é mais fácil escrever quando nada ou pouco se sabe, pois inventam-se mil patranhas e fica tudo resolvido.

     A seguir vou transcrever, não exaustivamente, todos os textos que até agora se escreveram sobre a etimologia do topónimo Melgaço, além de outros cujo tema lhe é próximo. Não são muitos, e o seu valor é desigual, mas serviram pelo menos para lembrar que este rincão foi visitado por gentes de outros continentes – Ásia e África – além de povos da velha Europa, que por aqui andaram, quer em guerra, quer em paz. Omito, propositadamente, os textos de Fernão Lopes, Alexandre Herculano, e de alguns outros, pois apenas se debruçam sobre a História, sobretudo militar. Leia-se então tudo aquilo que se disse, de uma forma mais ou menos sábia, sobre a origem remota da bela palavra Melgaço:

        «Quando, pois, os romanos conquistaram a península (ibérica), Melgaço, a ocidente dos querquérnios e bem perto dos aobrigenses, não foi riscado do mapa da antiga Gallaecia e porque manteve a sua integridade, quando os conquistadores ajustaram a divisão administrativa das Hespanhas, criando a província Tarraconense, ficou uma das vinte e quatro civitates ou povos do Convento jurídico de Braga. Simplesmente o nome deste povo, a palavra Melgaci, não esmalta as páginas do livro de Plínio, porque como ele próprio confessou, pareceu-lhe fastidiosa a enumeração total desses povos.

     Ora o chefe dos melgaceos, o celta Melgacus que os baptizou, baptizou também este querido torrão natal, porque escolheu o planalto, onde hoje assenta a Vila, para aí erguer o seu opidum, que lhe serviu, ao mesmo tempo, de centro de governo da sua civitas, de defesa e de habitação: uma fortaleza com duas ou três ordens de muralhas, à semelhança de Briteiros, Sabroso ou Santa Luzia, com casas redondas ou rectangulares para o chefe e servos, estábulos para gados, etc.

     Os romanos levaram anos a arrancar os melgaceos para a civilização e se até hoje não apareceram lápides ou outras memórias a provar terem arrasado ou conservado o opidum, deles ficou memória nas “villa”, propriedades rústicas cuja cultura ensinaram a fazer, disseminadas por estas redondezas, como Erada, Cavaleiros, Colanes, Prado, Cristóval

 

     «Melgaço e as Invasões Francesas» – 1807-1814, por Augusto César Esteves, 1959, página 77).              

 

     O Dr. Augusto César Esteves (1889-1964), melgacense dos quatro costados, morreu convencido de que obtivera a resposta para as suas dúvidas quanto à origem do nome Melgaço. No entanto: [Já o Arqueólogo Português registou iguais fantasias, anti científicas, de fisionomia popular, a respeito de Malha, em Torres Novas, Alenquer, Nagosa, etc. Vejamos o texto: «Vulgarmente, o povo designa como cidade certas ruínas e localidades antigas, revestindo-as até de lendas, por exemplo, cidade de Malha (Torres Novas), cidade de Alenquer, cidade de Nagosa (Tua), e, por antonomásia, Cidade (Melgaço), palavra que corresponde a castro.»]

 

    «Estudos de Língua Portuguesa», de Arlindo de Sousa, Rio de Janeiro, 1956, p. 10.

 

     Mas há mais: «Depois da época dos castros e das citânias andaram por aqui os romanos. Esta palavra Melgaço está ligada com isso; supõe-se que a sua origem seria o nome de um tal Melgaceus, romano ou nativo muito romanizado, cuja vida pode ser documentada por inscrições epigráficas aqui do Alto Minho

    «O Tempo e a Alma», de Hermano José Saraiva, página 12.

 

     Em uma lápide que se encontra na «Casa do Avelar» pode ler-se: «ARQUIVS VIRIATI F C AGRIPIA H. S. EST MELGAECUS PELISTI MONVME(NTVM) C(OLLOC) AV(IT), ou seja: Arquius, Viriati f(ilius), c(enturia) Agripia, h(ic) s(itus) s(epultus) est. Melgaecus, Pelisti (filius), monume(ntum) co(lloc)av(it). Resumindo: um tal “Melgaecus” erigiu um monumento funerário a Arquius, filho de Viriato.

 

*

 

     Outra inscrição, esta de Málaga: «(Ca)malo Melg(aci) Fi(li)o Bracara A(v)gustano (S)acerdoti (Ro)mae Aug. Caesa(rum) Conventus (A)vgvst(anvs).» Traduzido para português, dá mais ou menos isto: Câmalo, filho de Melgaci, sacerdote de Bracara Augusta…

 

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     «Melgaço. Topónimo. Melgazo em 1173 (DMP - Documentos Medievais Portugueses, página 418), Melgacio em 1181 (Leges, página 422; ver também D.M.P., I, páginas 475 e 477), e em 1219 (D.M.P., I, página 477), Melgazo, novamente, em 1258 (Inquisitiones, página 330).»

 

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          No “Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa”, da Editorial Confluência, volume II, página 974, lê-se: «Melgaço. Origem obscura; do latim *mellicaceus, de *mellicus, este de melle (mel)?, de melga, insecto? A hipótese de Leite de Vasconcelos (do antropónimo galaico Melgaecus) também oferece dificuldades (Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2).» 

 

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      Vamos então consultar José Leite de Vasconcelos «Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2»: [… é provável que (…) houvesse povoações indígenas, como se deduz dos nomes locais (de divindades e de pessoas) que aparecem nas inscrições da época romana, por exemplo Rego, Verora, Apilus, Arquius, Camalus, Melgaecus (talvez esta palavra contenha o radical de Melgaço, nome actual de uma Vila do Alto Minho;…)].

 

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     Natália Correia, num posfácio que redigiu para o livro de Moisés Espírito Santo “Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa”, seguido de “Ensaio Sobre Toponímia Antiga”, na página 393 coloca a seguinte questão: «Que património mitológico nos chegara desse fundo semita dos cultos arcaicos antes de Moisés Espírito Santo lançar este desafio às entorpecidas convicções académicas da etnologia e da toponímia? A grande influência do templo de Melcart, o Hércules de Tiro venerado em Cádis nos cultos indígenas que, na Península, se desenvolveram no primeiro milénio antes da nossa era...

                                    

Melcarte – deus fenício

 

             Desse centro de irradiação religiosa do semitismo, cuja influência chega até à plena época imperial romana, seria réplica na faixa ocidental da Península um santuário de Hércules no Promontório Sacro, que Ephoros (historiador grego: 390-334) refere como existindo no seu tempo

                                                            

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     Batalha Gouveia, no jornal Actualidades, lembra: [Os cananeus, povo que os Hebreus guerrearam aquando da conquista da Terra Santa, dispunham da expressão Malaku para denominarem o «rei». Malaku é palavra formada pelos termos mal, «grande», e aku «santo». Daí o plural hebraico Malakim dado ao livro bíblico denominado Reis.]

 

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    Platão, filósofo grego, na sua obra “Crátilo”, escrita há mais dois mil anos, alerta-nos para as dificuldades que vamos encontrar quando quisermos saber coisas de épocas remotas: «A grande antiguidade dos nomes e as profundas modificações que sofreram tornaram-nos indecifráveis.» 

 

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       Maria Clara de Almeida Lucas, in “A Literatura Visionária na Idade Média Portuguesa”, página 31, escreveu: «Também na civilização celta o outro mundo se encontra sobre a Terra, frequentemente para o ocidente, e muitas vezes sob a forma de ilha dos bem-aventurados, o “país sob as ondas” ou o “país para lá das névoas” e toma vários nomes: Mag Mor (grande planície), Mag Mel (planície dos deleites), etc

 

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     Maria Lamas, em “Mitologia Geral”, páginas 79 e 80: «Das escavações feitas em Rãs-Shambra depreende-se que à frente do panteão fenício estava El, criador de todas as coisas e pai dos deuses, que primitivamente teria sido assimilado ao céu e talvez também ao sol… Os cananeus foram o único povo semita que utilizou o apelativo il, el (deus), como nome próprio, para designar o seu grande deus. El, senhor de todas as divindades, usava o título de rei, era o “criador da criação” e também o sábio e o juiz por excelência.»       

 

     Na mesma obra, na página 82, lê-se: «No segundo período do panteão fenício, Mot e Aliyan foram assimilados a Eshmun-Adónis, se bem que os fenícios continuassem a fazer uma certa distinção entre o espírito da vegetação (Mot) e o da água subterrânea (Aliyan). Pode dizer-se que o conjunto Aliyan-Eshmun-Adónis sobreviveu no deus rio Adónis e em Melkart (o rei da cidade)…»

 

     Na página 85 da obra citada podemos ler: «Melek, Milk, Moloch e Milkom, nomes que aparecem no segundo período do panteão, significam o “deus”, senhor da cidade de Tiro, que está em relação com Biblos

 

     A mesma obra, nas páginas 96 e 97, informa: «Fosse qual fosse o seu nome e origem, todos os deuses e deusas da mitologia fenícia simbolizavam a fertilidade e a fecundidade, pelo que se pode dizer que o culto fenício foi sempre, em última análise, a natureza (…). Os santuários estavam situados no alto dos montes e colinas sagradas. Cada um tinha uma cela, um bétilo (pedra sagrada) e um recinto sagrado (haran), onde só podia penetrar o fiel em estado de pureza. Em frente da cela erguia-se, ao ar livre, o altar rudimentar onde eram colocadas as oferendas e queimados os holocaustos

 

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     O Dr. Luís de Figueiredo da Guerra (1853-1931), natural de Viana do Castelo, juiz de Direito, também se pronunciou sobre o assunto. Eis a sua versão: «Melgaço. – Divergem as opiniões sobre a origem desta palavra. Sabemos de povoações portuguesas chamadas Melga, Melgas, Melgar, havendo também na Espanha um Melgazo. Todas evidentemente se filiam na raiz latina mel, mellis: mel da abelha; a significação do terminativo “aço” consigna abundância, correspondendo ao advérbio muito. Se melga já então indicasse uma variedade de mosquitos, teríamos em vez de lugar abundante em mel, sítio de mosquitos 

 

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     Como já se observou através das leituras supra «cada cabeça sua sentença». Eu, após muitos anos de leituras, de meditação, encontrei um caminho, talvez uma vereda, que espero não seja um atalho para a asneira. E o que achei é deveras surpreendente: aquele povo pequenino, mas culto, civilizado, da Ásia Menor, com as suas cidades nas margens do Mar Mediterrâneo, que difundira o vidro e inventara a salga do peixe, com escrita, cujo alfabeto espalharam pela Europa, trouxe-nos uma prenda que se conserva até hoje – o nome Melgaço. Claro que estou a falar da Fenícia e dos fenícios. Eles estiveram na península ibérica, quer diretamente, como comerciantes, quer através dos cartagineses, seus descendentes, como guerreiros. Subiram os rios e, nas partes altas, erigiram santuários, a fim de adorarem os seus deuses. Melgaço deve, pois, derivar de Melcart (ou Melkart – o rei/deus da cidade).

 

       Os fenícios teriam entrado no Rio Minho pela sua foz, em Caminha, e avançaram no sentido da nascente, a fim de levarem os seus produtos às populações que habitavam nas margens do rio: lã tingida, cerâmicas, couros, perfumes, mas sobretudo o tecido de púrpura, que eles fabricavam, além de alguns objetos de luxo, só para os habitantes ricos. Aqui e ali, em lugares altos e provavelmente ermos, construiriam os altares e fariam sacrifícios aos seus deuses, para que estes lhes proporcionassem bons negócios.

     Existem poucos ensaios científicos sobre o povo fenício no território que é, a partir do século XII, Portugal. No entanto, é indesmentível que muitos topónimos portugueses têm origem fenícia. Em Espanha, ao contrário de nós, estudou-se profundamente esse povo, e sabe-se que Málaga deriva do nome do deus Melcart. Quer isso significar, na minha modesta opinião, que os nomes Málaga e Melgaço têm a mesma fonte!

 

        Não é difícil, em termos etimológicos, fazer derivar de Melcart a palavra Melgaço, tendo em conta que a pronúncia trazida para a península pelas diversas gentes que para aqui vieram com os romanos alterava profundamente as palavras mais antigas, ficando por vezes irreconhecíveis passados alguns anos. Exemplos abundam. Vejamos: o “c” latino pronunciava-se sempre “k” e passou em muitos casos para o português como “g”: lacu(m) deu lago; jocu(m) deu jogo; ciconia(m) deu cegonha; etc. Trata-se do fenómeno designado sonorização.

     Analisemos então a palavra que nos interessa: Melcart. Pelo tal processo, passou a Melgart. Mais tarde o “r” cai, talvez por se ter tornado inútil – não se pronunciava. Como enfraqueceu, caiu, como acontece com tudo na vida, e as letras e as palavras não são uma exceção. Resta, por conseguinte, Melgat. O “t” latino, como se sabe, tornou-se “c” em português. Exemplo: palatium transformou-se em palácio; ratiociniu- transforma-se em raciocínio, montianu-, deu (segundo José Pedro Machado) monção, etc. A palavra vai-se modificando. Temos então Melgac. Nessa altura dir-se-ia “Melgaç”. Posteriormente foi acrescentado, na língua escrita, um “o”, que na pronúncia se tornaria “u” – “Melgáçu” (o “o” nessa palavra é apenas convencional).

     No foral concedido ao concelho pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, em 1183, ou logo a seguir, aparece-nos a palavra Melgacio; e noutro documento de 1261 ela surge escrita Melgatio. O “i” não se pronunciava, por isso foi abandonado, passando o “c” a ter a cedilha, a fim de pronunciado com “ss”. Esse foral foi escrito em latim tardio, isto é, num latim não clássico. O tempo de Júlio César, de Cícero e de Octávio Augusto já iam longe!

     No foral de 1258, “oferecido” ao termo por D. Afonso III, o topónimo vem escrito “Melgazo”, alternando com Melgaço. É óbvio que o “z” se pronunciava “ç”de outra maneira não se explicaria essa grafia em um texto régio, e ainda por cima escrito em latim!

      Diz-nos Duarte Nunes de Leão: «… Mas, com o tempo, perdeu-se a própria pronunciação desta letra, que os antigos lhe davam, e damos-lha agora por uma maneira, que soa entre s e ç; a qual letra porque muitos vulgares a confundem com o s e às vezes com ç…» (“Ortografia e Origem da Língua Portuguesa”, IN/CM, 1983, p. 80).                   

    

      Corrobora a minha tese a seguinte frase de José Leite de Vasconcelos em “Religiões da Lusitânia”, volume I, página XXVI: «… muitos dos nossos nomes de lugares actuais provêm de nomes pré-romanos 

    

       E para terminar, lembro, apenas como curiosidade, que existe no Brasil uma cidade com este nome. Alguém me disse que foi um nosso conterrâneo que a fundou no século XIX, sendo-lhe até atribuído o título de Barão de Melgaço. Se é verdade, ou não, não sei. 

 

     Artigo publicado no Boletim Cultural número 8, de 2009, editado pela Câmara Municipal de Melgaço.

 

 

 

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sábado, 15 de agosto de 2026

 ESCRITORES E INVESTIGADORES MELGACENSES (e afins)

Por Joaquim A. Rocha

(continuação).


- António de Santa Maria dos Anjos Melgaço (Frei). Nasceu no concelho de Melgaço a 17 de junho de 1718. Foi frade franciscano. Professou no Convento de São Francisco de Lisboa a 22 de janeiro de 1731. Fez os estudos de Filosofia e Teologia no Colégio de São Boaventura da Feira, em Coimbra, entre 1731 e 1737. Foi professor nos Estudos de Mafra (fundados por D. João V) nos anos de 1737 a 1752. Devia ser uma pessoa deveras inteligente e curiosa, pois o próprio rei o incita a prosseguir os estudos. Segue os conselhos do monarca, e em 1743 adquire um doutoramento em Teologia na Universidade de Coimbra, talvez o primeiro melgacense a conseguir tal feito. Como escritor, deixou várias obras, todas elas redigidas em latim. Uma delas tem por título «SCOTUS ACADEMICUS, seu Philosophia Peripatetica ad commodiorem regalis Academiae Mafrensis usum, juxta mentem venerabilis, subtilisque Magistri Joannis Duns Scoti.» (Tomo I, Lisboa, 1747). Por ter sido eleito provincial «da sua província», em 1751, viu-se obrigado a suspender por algum tempo a continuação da obra. O segundo volume estava em impressão apenas no ano de 1755, o qual se queimou aquando do grande terramoto. No Convento de São Francisco arderam também, nessa altura, outros escritos da sua autoria, que tinha prontos para publicação. Em 1759 publicou, completamente revisto, o tomo II do «SCOTUS ARISTOTELICUS». Os dois volumes debruçam-se sobre a «logica parva», ou seja, pequena lógica, e a «logica magna», que significa grande lógica, «e interessam para o conhecimento do movimento de ideias em Portugal no século XVIII e dos estudos na escola de Mafra». Faleceu em Vila do Conde a 14 de Agosto de 1780, com 62 anos de idade. // Quem desejar consultar a bibliografia pode fazê-lo em {Frei António do Sacramento, História Seráfica, sexta parte, manuscrito 703, da Torre do Tombo. / Memória da forma com que Dom João o Quinto mandou para Mafra religiosos para Lentes de Faculdade, manuscrito 801, folhas 682 e seguintes, do arquivo da casa Cadaval (Muge). / A. A. Andrade, A Orientação do Estudo da Filosofia dos Franciscanos, in Brotéria 43 (1946), páginas 43 a 45.} // (Verbo – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, páginas 648 e 649).   

 

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- Jerónimo José Andrade. Filho do Dr. Francisco Daniel Nogueira, médico do exército, e de Mariana Josefa Veloso de Campos de Andrade. Nasceu em Melgaço em 1750. // No Dicionário Histórico, Biográfico, etc., na página 511 lê-se: «escritor que se conhece somente pela sua obra, intitulada “Descrição do estado em que ficaram os negócios da capitania de Moçambique nos fins de novembro de 1789, com algumas observações e reflexões sobre as causas da decadência do comércio, e dos estabelecimentos portugueses na costa oriental da África”. Escrita no ano de 1790. Saiu no Investigador Portuguez, no ano de 1815, começando no n.º XLVI, e continuada nos seguintes até ao LIV, em que terminou.» // Na Wikipédia acrescentam-se mais alguns dados. Diz-se aí que tinha sido militar, e secretário do governo de Moçambique de 1783 a 1784; com a patente de brigadeiro, foi comandante das armas de Pará, Brasil, a 5/3/1803. Também fora nomeado governador da capitania de Santa Catarina, mas não assumiu o cargo. // Escreveu o general A. E. Mateus da Silva: {Em 1796, e então sargento maior do regimento de artilharia da marinha, JJNA foi autor do «Projecto de huma nova arma Portuguesa». Este manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional, carateriza-se por uma grande minuciosidade, e nele o seu autor descreve a construção de uma arma balística que designou “foguete incendiário”.}

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- Aníbal Bernardo Rodrigues Passos (Padre). Filho do Dr. Francisco Luís Rodrigues Passos, médico-cirúrgico, natural de Paços, Melgaço, e de Ludovina Rosa Monteiro de Vasconcelos Mourão, natural de Viana do Castelo, moradores na Vila de Melgaço. Neto paterno de Bento Isidoro Rodrigues e de Rosa Maria Salgado, de Paços; neto materno de Vitorino Monteiro Vasconcelos Mourão, de Vila Real, e de Albina Clara de Abreu Cunha Araújo, de Melgaço. Nasceu na Rua da Calçada, Vila de Melgaço, às sete horas da manhã de 23 de Dezembro de 1866 e foi batizado a 14/1/1867. Padrinhos: a sua avó materna e o padre Bernardo António Rodrigues Passos, seu tio paterno, pároco colado da freguesia de Arnoso, Famalicão, representado por seu procurador, Gaspar Eduardo Lopes da Fonseca, contador do Juízo de Direito. // Ordenou-se em 1890, ficando adido à corte do bispo de Meliapor como secretário particular até 1892, ano em que cantou missa nova. // Foi redator de “O Melgacense”, propriedade de José Cândido Gomes de Abreu; de “O Século”; e de “A Pátria”. // Colaborou nos jornais: “Jornal de Notícias”; “Jornal de Viagens”; “Zé Povinho”; “Revistas das Escolas”, etc. // Como escritor sobressai a sua “Tragédia de Lisboa – A Política Portuguesa”, obra com 322 páginas, escrita logo após o regicídio de 1/2/1908 (Jornal de Melgaço n.º 733). Cada brochura custava 600 réis (se fosse pelo correio 630 réis); encadernado, em capas especiais, vendia-se a 800 réis (pelo correio 850 réis). // Era também um distinto orador sagrado, sendo notável o sermão “A Cruz”, por ele composto e pregado em Matosinhos a 7/5/1899. // Reconhecendo o seu mérito, nomearam-no sócio ordinário da Sociedade de Geografia de Lisboa. // Em 1915 era diretor do Colégio da Beira Mar, em Leça de Palmeira, Matosinhos. // No governo de Sidónio Pais foi chefe de gabinete ministerial do Dr. Alfredo de Magalhães. // Parece que foi professor na Universidade de Lisboa. // Morreu no Campo Grande, Lisboa, a 8/1/1934; os seus restos mortais jazem no cemitério do Lumiar (Notícias de Melgaço n.º 219, de 14/1/1934). // Nota: consta que o padre Aníbal Bernardo teve, já sacerdote, uma aventura amorosa com uma jovem, talvez Afra de Castro Louzada, solteira, nascida na freguesia do Bomfim, Porto, por volta de 1873, surgindo dessa paixão um menino, a quem deram o nome de António Aníbal (Toi), o qual usou o apelido Rodrigues Passos; o moço estudou engenharia, concluindo o Curso. O Eng.º António Aníbal Rodrigues Passos (Toi) finou-se em Luanda, Angola, em 1975 (salvo erro), com cerca de 70 anos de idade. Fora criado por uma irmã do progenitor, talvez a Ludovina Augusta. Era anti-salazarista, tendo sido perseguido pelo regime corporativista. Trabalhou em Goa, Moçambique, em São Tomé e Príncipe, e finalmente em Angola, onde morreu solteiro. Era amante da leitura, deixando por sua morte uma riquíssima biblioteca. // (Estas valiosas informações foram-me fornecidas por João Carlos Magno de Castro, nascido na Vila de Melgaço em 1945, da Casa de Galvão, que conviveu com o dito engenheiro em Angola).                

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- Augusto César Esteves (Dr.) Filho de Francisco António Esteves, emigrante no Brasil e proprietário, natural de Chaviães, e de Belarmina Cândida Esteves, proprietária, natural da Vila. Neto paterno de Diogo Manuel Esteves e de Maria Rita Esteves, lavradores, chavianenses; neto materno de Manuel José Esteves “Melgaço” e de Maria Rita Alves, proprietários, moradores em Eiró, Rouças. Nasceu na Rua Nova de Melo, SMP, a 19/9/1889, na casa que seu pai comprara ao Dr. João Luís de Sousa Palhares, de Prado, e foi batizado a 3 de outubro desse ano. Padrinhos: José de Jesus Esteves, solteiro, proprietário, morador em SMP, e a avó materna do batizando, viúva. // Ficou órfão de mãe a 17/10/1889. // Aprendeu as primeiras letras com o padre João Nepomuceno Vaz, teve como professor de caligrafia o escrivão de Direito, Miguel Ângelo Barros Ferreira, frequentou em seguida, na cidade de Braga, o Colégio do Espírito Santo, e depois a Universidade em Coimbra. // Foi padrinho de Zoé Augusta Rodrigues, batizada na igreja de Rouças a 14/2/1898; não assinou, por não saber! A madrinha era a sua madrasta. // A 30/8/1904 foi padrinho de Manuel Augusto Esteves, nascido na Fonte da Vila a 28 de julho desse ano. // A 18/6/1912 fez direito internacional, 5.º ano, 19.ª cadeira; nesse mesmo ano fez exame da 18.ª cadeira, 5.º ano, medicina legal, obtendo 14 valores; em julho desse ano fez a 13.ª cadeira, direito colonial, 4.º ano, 14.ª cadeira, processo penal, 4.º ano, e 17.ª cadeira, prática extra-judicial, 5.º ano; nesse dito ano de 1912, no mês de Julho, concluiu o curso de Ciências Jurídicas, na já citada Universidade de Coimbra. // Nos primeiros dias de dezembro participou como ator não profissional, juntamente com o Dr. António Augusto Durães e Maker Pinto, na comédia designada “Anedota” (Correio de Melgaço n.º 27, de 8/12/1912). // Foi nomeado notário interino para a comarca de Monção, tomando posse perante o tribunal desse concelho a 10/12/1912, terça-feira; em 1914 passou a ser efetivo (Correio de Melgaço n.º 88, de 22/2/1914); ocupou esse cargo até 19/8/1915. // Ainda em 1912 foi autorizado superiormente a exercer a advocacia (Correio de Melgaço n.º 29, de 22/12/1912). // Fez a sua estreia como advogado no tribunal de Monção, defendendo Manuel Alves (o Fará), acusado de crimes de burla e roubo (Correio de Melgaço n.º 47, de 27/4/1913). // No concurso para notários, realizado em Lisboa nos inícios de 1914, obteve a classificação de 1 MB e 4 BB (Correio de Melgaço n.º 85, de 1/2/1914). // Tomou posse a uma segunda-feira, 2/3/1914, perante o juiz de direito, de notário efetivo em Monção (Correio de Melgaço n.º 90, de 8/3/1914). // Casou a 25/10/1914, na Conservatória do Registo Civil, e a 16 de Dezembro desse ano na igreja católica, com Esmeralda da Ascensão, de 24 anos de idade, filha de Justiniano António Esteves e de Lina Rosa Lourenço. Testemunhas: Justiniano António Esteves e Maria de Nazaré dos Santos Lima. // Em 1915 pediu a exoneração de notário na comarca de Monção, aceitando ser nomeado escrivão de Direito para a comarca de Melgaço. Fez as malas e veio para a terra natal, onde foi Secretário do Tribunal Judicial e Ajudante do Conservador do Registo Predial. // A 3/3/1919 tomou posse como presidente da Comissão Camarária, composta por sete elementos, desempenhando esse cargo até agosto desse ano. // A 4/8/1919 o seu moinho, denominado o “Grande”, foi pasto de chamas; desconfiava-se que foram mãos criminosas a incendiá-lo (JM 1258, de 17/8/1919). Em 1920 deu-se ali uma tentativa de assalto (JM1293, de 20/6/1920). // Foi presidente da Assembleia Geral do Grémio da Lavoura e administrador do concelho de Melgaço nos anos de 1922 e 1923. // A 11/1/1928 desempenhava as funções de tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, ascendendo à provedoria a 27/12/1942, lugar que deixou em 1945. // A 30/4/1936 tomou posse do lugar de chefe da Secretaria Judicial do Tribunal de Melgaço, aposentando-se na 1.ª classe em maio de 1958; antes exercera o cargo de chefe da 2.ª Secção do mesmo tribunal. // Pode, e deve ser, considerado o principal fundador dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, de cuja direção foi presidente durante vários anos. Em 1937, em reunião da Assembleia Geral, foi aprovada por unanimidade uma proposta do corpo ativo, elegendo-o seu comandante honorário «pelos relevantes serviços prestados à corporação desde a fundação desta tão útil e benemérita instituição» (NM 346). // Era republicano convicto, mas teve de calar e consentir muita coisa durante a ditadura corporativista, que infelizmente não viu desaparecer. // Polemicou com o padre Júlio Vaz e com o “Mário de Prado”, mas sempre com educação e respeito devidos. // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 851, de 14/3/1948, página 4: «O Sr. Dr. Augusto César Esteves é um fumador inveterado: abriu uma gaveta, tirou um maço de tabaco superior, fez um paivante, acendeu-o e principiou a fumar. (…) Um outro cigarro se enrola e começou a arder, subindo ao ar espirais de fumo.» // Em Julho de 1948 era presidente da Assembleia Geral dos BVM (NM 865, de 18/7/1948). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 974, de 22 de Abril de 1951: «Para o Porto, e a fim de se submeter a tratamento especializado, partiu no passado domingo o senhor Dr. Augusto César Esteves, muito digno chefe da Secretaria Judicial desta comarca. Têm sido inúmeras as pessoas que procuram informar-se do seu estado, o que não admira dadas as suas altas virtudes e qualidades de simpatia. Notícias de Melgaço, que mui honrosamente conta Sua Excelência no número dos seus amigos dedicados, deseja-lhe um rápido restabelecimento e um breve regresso para o meio dos seus amigos que tanto o apreciam 

     «Conforme notícia já publicada neste jornal encontra-se no Porto, por motivos de saúde, o Ex.mo Sr. Dr. Augusto César Esteves. Por informações recebidas, sabemos que este ilustre melgacense, e nosso querido amigo, foi operado no Hospital da Trindade, no passado dia 20, e que graças a Deus tudo correu à medida dos desejos, dos seus familiares e dos seus numerosos amigos. E, assim, dentro de breve tempo, teremos o prazer de o ver e abraçar de [novo]. “Notícias de Melgaço” (que reconhece a desinteressada amizade que deve a Sua Ex.ª), congratula-se pelas suas melhoras e faz sinceros votos para que seja muito breve o seu regresso  

     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 977, de 13/5/1951: «Vindo do Porto, já se encontra entre nós o Ex.º Sr. Dr. Augusto César Esteves, que – graças a Deus – se encontra em franca convalescença. “Notícias de Melgaço” apresenta ao seu querido amigo os sinceros cumprimentos de boas vindas

     Escreveu vários livros sobre Melgaço, que editou à sua custa. Postumamente (1989 e 1991) foi publicada a sua obra “As Minhas Gerações Melgacenses”, e ainda Obras Completas, Volume I, Tomo I e II (2002) com artigos por si publicados no Notícias de Melgaço ao longo de vários anos. Por razões que se desconhecem, a reedição das suas obras foi interrompida. // Os seus livros abriram sem quaisquer dúvidas as portas a outros investigadores, e vão tornar possível escrever-se uma história relativamente bem documentada sobre o concelho. // Possuía uma boa biblioteca, a qual foi vendida pelo filho, depois da sua morte, a um alfarrabista do Porto, por cinquenta contos de réis! // Augusto e Esmeralda faleceram na Vila: a esposa a 4/12/1956 e ele a 26/3/1964; o seu funeral realizou-se no dia seguinte, sexta-feira. // (ver JM 1057, de 29/10/1914, CM 124, de 10/11/1914, NM n.º 18 e NM 1413). // A Câmara Municipal de Melgaço, presidida por Rui Solheiro, deu em agosto de 2009, a uma rua da Vila, o seu nome.

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- António Augusto Durães (Dr.) Filho do Dr. António Joaquim Durães, natural de Paços, e de Beatriz Augusta Ribeiro Lima, proprietária, natural da Vila de Melgaço. Neto paterno de João Manuel Durães e de Francisca Caetana Pires, do lugar de Sá, freguesia de Paços, proprietários; neto materno de Carlos João Ribeiro [Lima] e de Ludovina Rosa dos Santos Lima, proprietários, da Vila. Nasceu no Campo da Feira de Fora às 13 horas de 24/7/1891, e foi batizado a 5 de Setembro desse ano. Padrinhos: os seus avós maternos. // Em 1908 concluiu os preparatórios num liceu do Porto (Jornal de Melgaço n.º 742). // A 18/7/1910, na Faculdade de Direito, fez ato das instituições de direito romano e de português. // A 20/6/1912 fez exame, com distinção, da 18.ª cadeira, medicina legal, e dias depois fez exame da 19.ª cadeira, direito internacional, 5.º ano; em Julho desse ano fez exame da 15.ª cadeira, 4.º ano, ficando distinto; também fez exame da 16.ª cadeira, 5.º ano, sendo aprovado com quinze valores (Correio de Melgaço n.º 8, de 28/7/1912), e direito colonial, 13.ª cadeira, 4.º ano (Correio de Melgaço n.º 10). // Formou-se em Ciências Jurídicas, na Universidade de Coimbra, a 13/8/1912. // A seguir abriu escritório em Melgaço, em cujo foro se estreou, a 12/11/1912, na defesa do padre José Joaquim Pinheiro, ex-pároco da Vila, conseguindo a sua absolvição; o padre fora acusado por Duarte de Magalhães de lhe ter recusado a comunhão na quaresma de 1902, praticando, por conseguinte, abuso de funções religiosas; o advogado de acusação era o Dr. Anselmo Ribeiro de Castro, advogado em Viana do Castelo. // Ainda nesse ano de 1912 foi nomeado subdelegado do Procurador da República em Melgaço (Correio de Melgaço n.º 30, de 29/12/1912), mas foi exonerado no ano seguinte (Correio de Melgaço n.º 59, de 27/7/1913). // Era um político ativo; aderira, depois de Outubro de 1910, ao Partido Republicano Português, e foi chefe, em Melgaço, do Partido Democrático, cujo presidente, ou secretário nacional, era o Dr. Afonso Costa. // Foi administrador do concelho de Melgaço, tomando posse a 24 de fevereiro de 1913, e esteve nesse cargo até maio do ano seguinte, interessando-se pelo prolongamento do caminho-de-ferro até Melgaço, mas os seus esforços foram em vão, devido em parte à falta de recursos financeiros por parte do Estado. Também lutou pela estrada para Castro Laboreiro, mas o dinheiro era escasso nessa altura. Quis para Melgaço a luz elétrica, água canalizada, etc., mas nada disso se tornou realidade durante a sua permanência no concelho. Foi ainda diretor do “Correio de Melgaço”, a partir do número 74, de 9/11/1913, mas devido a divergências com Hermenegildo José Solheiro, proprietário do jornal, afastou-se em 1915; o seu nome só aparece como diretor e editor até ao número 142, de 23/3/1915; a partir daí já figura como editor Adriano Augusto da Costa. // Suponho que em 1913 foi candidato a deputado pelo círculo de Melgaço (ver Correio de Melgaço n.º 57, de 13/7/1913). // A 28/11/1913, pelas 18 horas e 30 minutos, na Portela de Chaviães, quando vinha de moto de São Gregório para a Vila, foi de encontro a umas pedras que alguém, propositadamente, colocara na estrada; ficou ferido numa perna e num braço, e a motorizada ficou estragada (Correio de Melgaço n.º 77, de 30/11/1913). // Em sessão de 28/11/1913 o tribunal da Relação do Porto deu provimento ao agravo interposto por ele, Dr. Durães, do despacho do juiz de direito de Melgaço, que o inibia de advogar em polícia correcional de parte, com o fundamento de que ele era administrador do concelho (Correio de Melgaço n.º 77). // Em 1914 solicitou uma licença à Câmara Municipal para mandar fazer uns consertos no prédio que possuía na Rua Teófilo Braga, Vila, e para colocar umas pedras nessa rua, de maneira a não impedir o trânsito público, a qual lhe foi concedida (Correio de Melgaço n.º 97, de 26/4/1914). // Ainda em 1914 pediu a exoneração de administrador do concelho, pedido que foi aceite pelo Governador Civil do distrito (Correio de Melgaço n.º 98, de 3/5/1914). // Tudo lhe acontecia: pelas 23 horas de 2/5/1914, numa casa do lugar de Alcobaça, Lamas de Mouro, foi vítima de um acidente; estava encostado a uma varanda e esta cedeu, caindo sobre um pátio que se encontrava a quatro metros da varanda; foi socorrido por Jaime de Almeida, Macker Pinto, e por várias pessoas ali presentes. Felizmente o ferimento não era de grande gravidade; no dia seguinte regressou à Vila, onde foi analisado pelo Dr. Vitoriano (Correio de Melgaço n.º 99, de 10/5/1914). // A 7/9/1914, ele e mais três amigos, estiveram em perigo de vida em Vila Praia de Âncora, em virtude de se terem afastado da praia; foram socorridos pelos pescadores e banheiros, que os salvaram com imensa dificuldade (Correio de Melgaço n.º 115, de 8/9/1914). // Por despacho de 19/8/1915 foi nomeado notário interino da comarca de Monção, substituindo o Dr. Augusto César Esteves, que, a seu pedido, fora exonerado. Em Outubro ou Novembro desse ano foram-lhe concedidos trinta dias de licença (Correio de Melgaço n.º 174, de 14/11/1915). // Em 1916 foi-lhe oferecido de novo o cargo de administrador de Melgaço, mas recusou-o; aceitou, contudo, juntamente com o major reformado, Albino Pinto da Cunha, do Convento, Carvalhiças, o lugar de censor (Correio de Melgaço n.º 195, de 16/4/1916). Portugal entrara na I Guerra e a censura foi imposta aos meios de comunicação social. // Nesse ano de 1916 foi exonerado de notário interino em Monção (Correio de Melgaço n.º 199, de 14/5//1916). // Por causa de um artigo publicado no “Jornal de Melgaço” andou à tareia no dia 13/7/1916, quinta-feira, com o Dr. António Francisco de Sousa Araújo, no “Café Melgacense”; terminou com a intervenção de alguns amigos (Correio de Melgaço n.º 207, de 16/7/1916). // Foi advogado de defesa de “Amélia” Rodrigues, acusada de ofender a moral pública, a qual respondeu a 17/7/1916, ficando absolvida (Correio de Melgaço n.º 208, de 23/7/1916). // Casou na igreja de SMP em 1916 (o casamento civil decorrera na residência da noiva, Rua Mouzinho de Albuquerque, Valença, a 20/2/1916) com Maria Esménia, de dezoito anos de idade, de Santa Maria dos Anjos, Valença, filha de Francisco Antunes da Silva Guimarães, secretário de Finanças em São Tomé, e de Maria das Dores (ver Correio de Melgaço n.º 184, de 30/1/1916). // Em 1917 concorreu às eleições para a Câmara Municipal, em uma lista presidida pelo padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães. // Em Janeiro de 1919 tomou posse do lugar de notário na Vila de Caminha (JM 1234). Não sei quanto tempo ali permaneceu, pois o casal partiu para África, São Tomé, nos primeiros dias de Agosto desse ano de 1919, onde ele iria desempenhar o cargo de administrador de concelho (JM 1257, de 10/8/1919); dali embarca para Angola, onde ele esteve ao serviço do general Norton de Matos. // Em 1929 foi nomeado Governador de Benguela (NM 27, de 25/8/1929). // De vez, em quando, vinha à sua terra natal, mais a mulher, pois filhos não tiveram, trazendo com eles os empregados, fixando-se um deles, o Joaquim, em Melgaço, onde arranjou emprego e casou. // Passava, no Cine Pelicano, alguns filmes que trazia de África, películas que mostravam a vida quotidiana dos naturais de Angola. // Em Julho de 1934 esteve em Melgaço; vinha de Benguela, onde era advogado; as coisas não lhe deviam estar a correr muito bem, pois tencionava fixar residência em Viana do Castelo (NM 238, de 8/7/1934). Em Outubro desse ano já exercia advocacia nessa cidade (NM 248, de 14/10/1934). Não deve ter tido o êxito que esperava, pois voltou para África. // Antes da independência da ex-colónia o casal regressa a Melgaço, onde possuía uma boa casa na Rua do Rio do Porto e uma ótima Quinta. // Depois de Abril de 1974 foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Melgaço, até às eleições. Tomou posse a 4/11/1974. Foi a primeira Comissão Administrativa a tomar posse no distrito de Viana. Colaboraram com ele: o Engenheiro Artur José Rodrigues, professor do ensino liceal em Monção (vogal); Albertino Domingues, comerciante (vogal); António Fernandes, industrial (vogal); Manuel da Cruz Dias, ourives (vogal). Era então Governador do distrito o capitão-tenente Joaquim Teixeira (NM 1843, de 10/11/1974). // Quis criar, na sua Quinta da Pigarra, uma Escola Agrícola, mas o Ministério da Educação não se interessou pelo projeto; assim, ofereceu-a aos BVM e à SCMM. // Em maio de 1976 publicou um livro “ANGOLA E O GENERAL NORTON DE MATOS – Subsídios para a História e para uma Biografia.” // O casal faleceu na Vila de Melgaço: ela a 26/9/1974 e ele a 24/10/1976. // Na sede do concelho existe uma rua com o seu nome. (Ler a entrevista que ele concedeu ao Correio de Melgaço n.º 219, de 8/10/1916; nessa altura encabeçava a lista do concelho que disputava a liderança da Câmara Municipal de Melgaço, cujo presidente era João Pires Teixeira; ver também “A Voz de Melgaço” n.º 379, de 15 de Junho de 1967).


continua...