quarta-feira, 15 de junho de 2016

LEMBRANÇAS AMARGAS
romance

Por Joaquim A. Rocha

croça: a gabardine dos pobres


IX

Os túneis da alma também podem ser iluminados


     Insaciável, vou adquirindo informação, jogando os trunfos disponíveis, ansioso por saber o meu passado e o dos meus maiores; não é uma curiosidade mórbida que me move, que me faz rodopiar sobre um tempo que não é o meu mas que julgo também pertencer-me por sangue, pelos laços que me ligam a essas pessoas. Vão ter mais uma oportunidade de escutar uma conversa com o meu irmão Olavo, o meu irmão inteiro, como gosto de sublinhar. Desta vez encontrámo-nos sentados num banco do jardim, perto do coreto da Vila. Não façam qualquer ruído e escutem:

- Então tu, depois de fazeres a quarta classe, foste para a cidade dos alfacinhas?
- Fiz a quarta-classe em Julho de 1954, na escola primária Conde de Ferreira, situada bem ao cimo da Praça da República, era meu professor o senhor Romano, iria completar treze anos em Setembro, portanto ainda a acabei com doze anos de idade. Nessa altura estava a nossa mãe amantizada com o velho, o tendeiro Acúrsio. O bruxo não gostava nada de mim, fazia-me a vida negra, da cor do basalto, o que ele queria era que saísse de casa, para se sentir mais à vontade com a velhota, tu não estorvavas, eras um badameco, um medricas, um zé-ninguém, um choninhas, não contavas absolutamente para nada; eu não, era teso, impunha-lhe respeito, comigo não se metia, ai não, que o derretia, que o amassava de pancada, rachava-o ao meio, ao filho da mãe, ao feiticeiro duma figa. Nas férias grandes puseram-me a servir, em Cendrães, a tratar do gado e a cavar os campos, a puxar a charrua, a mim, uma criança, e sem nunca ter trabalhado na agricultura; a tua mãe colaborava com a besta, e aplaudia, tinha medo dele, mas também o que ela queria era alguém que lhe desse vinho e que dormisse com ela, uma badalhoca, uma cabra, andar com aquele velho porco, que nem sequer era da terra, era de fora, da terra dos bandidos.
- A mamã não teve culpa, coitada, estava farta de sofrer, precisava de alguém que olhasse por ela e pelos dois filhos mais novos.
- Olhar?! Maltratar, queres tu dizer. Contigo as coisas eram diferentes, eras um coitado, não podias com um gato pelo rabo; ora eu tinha corpo, já fazia a barba com treze anos, tinha cara de homem. Mal acabei a escola mandaram-me plantar pinheiros para a floresta, a mais de vinte quilómetros da Vila; tinha de ir a pé, carregado com batatas, feijão, toucinho, uma panela para cozinhar, alimentos para uma semana, tinha de passar por aqueles montes, os lobos uivando, assustavam qualquer um, depois de lá chegar tinha de trabalhar como um escravo, tínhamos de plantar milhares de pinheiros, a comida era escassa, dormíamos no chão, em cima de palha de centeio, aquilo não era vida para um rapaz de treze anos. Os homens cheiravam mal, não tomavam banho, tudo era porco, imundo!
- Então resolveste ir para Lisboa.
- Não foi fácil, pois era necessário ter lá alguém que me arranjasse emprego, o Ambrósio estava prestes a ir para a América do Sul e a Susana era criada doméstica, pouco me poderiam valer, mesmo assim ainda ajudaram. Conheciam um indivíduo aqui da Vila, o senhor Anastácio, que possuía estabelecimento de comércio na capital do país, fui para lá, mas o ordenado era demasiado baixo, e fartava-me de trabalhar, tinha de entregar os cabazes das compras aos fregueses, subir centenas de escadas todos os dias, agora os prédios já têm elevador, naquele tempo não tinham, carregado que nem uma mula, sem horários, coitado de mim, cada dia mais fraco, ia toupando, rebentando pelas costuras.
- Foste promovido…
- Saiu de lá um empregado de balcão e o senhor Anastácio deu-me esse lugar à experiência; fiz tudo para agradar, agradei, a minha vida melhorou um bocadinho, mas olha que a comida não prestava, e o pagamento era uma ninharia, uma miséria, não havia uma hora de sair, trabalhava mais de doze horas por dia!
- Estavas a ser explorado.
- Se estava! Bem o podes dizer. O tipo enriquecia à nossa custa, todos se aproveitam dos pobres, depois vão à igreja bater com a mão no peito, os filhos de uma macaca, é para Deus lhes perdoar, mas não lhes perdoa, que ele é justo, está do lado dos desprotegidos, dos sem rumo, mas olha que às vezes tenho dúvidas, há ricos que nunca são castigados e fartam-se de fazer patifarias, de cometer pecados.
- Que sabemos nós disso?! Estiveste em Lisboa até ires para a tropa.
- Que remédio; tinha imensas saudades da terra, dos amigos, mas nessa cidade é que tinha o emprego, não era grande coisa mas era melhor do que nada, aqui só se fosse trabalhar para a estrada, abrir valas para os cabos telefónicos, ou outra vez para a floresta, isso nunca mais, fartei-me de sofrer, só o cheiro daqueles homens imundos, nunca tomavam banho, eu ainda ia ao rio tomar, mas eles nem isso, cheiravam mal que tresandavam, uma imundície, não se aguentava, e ainda por cima se peidavam, fartavam-se de comer feijão e depois mais parecia uma guerra de puns, e os filhos da mãe riam, achavam graça àquilo! Eu sentia repugnância, metia a cabeça debaixo da manta, mas o cheiro era demais; depois as pulgas, as gajas mordiam-me todo, de manhã acordava cheio de picadelas, e os piolhos, às centenas, era uma autêntica tragédia, pior ainda do que em nossa casa. Em Lisboa havia mais limpeza, dois lençóis brancos na cama, uma caminha pequenina só para mim, alugara um quarto na Baixa, numas águas-furtadas, baratucho, o pior era quando chovia, o telhado estava uma desgraça, o prédio era do século passado, se sofrera obras já devia ter sido há muitos anos, a dona era uma macróbia e não tinha dinheiro para o mandar consertar, quando caísse, caía, mas primeiro ainda havia de morrer ela.
- É engraçado, quando eu e a mamã fomos a Lisboa visitar-vos em 1961 estavas tu prestes a entrar na recruta. // (continua...)

segunda-feira, 13 de junho de 2016


OS MEUS SONETOS
e
POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A.Rocha


desenho de Rama


Chamaram-te Fernando no batismo,
Nado na capital, bela Lisboa;
 De apelido, és apenas Pessoa,
Foste pomba da paz, bravio sismo.

Estiveste sempre à beira do abismo,
Cai, não cai, como no mar a canoa;
Deste à luz heterónimos à toa,
Ao mundo lições de patriotismo.

Pudera eu dar-te um lindo poema,
A flor mais cheirosa do meu jardim,
Uma palavra virgem, cujo tema

Me magoasse fundo e só a mim.
Se gravasse na pele, tal emblema;
Fosse rijo e belo como marfim!

*

O poeta é um experimentador,
tudo experimenta na vida;
até quando experimenta a dor,
ele di-la consentida!


A Fernando Pessoa:

Olá amigo!
Hoje estou aqui para falar contigo.
Sabes: há relativamente pouco tempo
que te conheço. Ouvia falar de ti,
Vagamente, na escola.
Não te conhecia! Os teus poemas,
 no secundário, não eram dados
para análise. «São de difícil
interpretação, só para alunos do
superior», diziam.
Será que os professores, não te
conhecendo, não queriam arriscar?
De quem é a culpa?
Tu és um quebra-cabeças. De facto
quiseste ser muitos simultaneamente!
Um corpo tão franzino como o teu!
Com tantos outros dentro!
Quantos cérebros tinhas? «Tantos
quantos eu fui», responder-me-ias.
E todos complexos, na sua complexidade/
simplicidade. Um afirmava e logo
outro dos teus outros afirmava o
contrário do outro – o diabo!
Por que quiseste ser tantos?
Um bastava. Mas não! Quiseste ser tu,
mais o contrário de ti, mais o crítico
de ti e dos outros, e ainda o mestre!
E mais, muito mais! Quiseste ser tudo
e todos! E nós? Não pensaste em nós.
Nem sequer pensaste, tu que tanto
 pensaste, que nós também queríamos
um lugar ao sol ou à sombra. Uma
migalha apenas!
Sabes? Conseguiste baralhar-nos!
Hoje estudamos a tua obra, fragmento
a fragmento, e depois juntamos tudo
e voltamos a estudá-la! Depois,
tentamos saber aquilo que é teu, o
que é do outro dos teus outros, e
chegamos sempre à mesma conclusão:
tu, és tu, menos os outros tus, e
mais os outros tus.
Claro que estás a rir-te. Sempre te
 riste interiormente! Julgas-te
superior, eu sei. Talvez o sejas…
Que sabias coisas, sabias. Não está
isso em causa. Mas também tinhas
muita ronha nesse corpo! Tu não foste
um super Camões: foste um super gozão!
Brincaste sempre connosco. Não foste
somente um fingidor: foste um exímio
experimentador. O teu sentido do real
era irreal! Nunca acreditaste muito
na metafísica, porque estavas por
dentro dela. Aristóteles e Platão
nada te ensinaram a esse respeito.
Engendraste um mundo onde nem sequer
tu cabias! Recorreste às estrelas
e elas fecharam-te a porta na cara!
Daí nasceu o grande drama da tua
vida. O Rossio na Betesga!
Mas por que estou eu a falar de ti?
A gastar o meu papel e tinta, o
meu tempo, o meu latim?!
- De ti, cuja vida é uma incógnita?
Tu és uma obra, e a obra que tu és
ganhou a imortalidade. As nuvens
abriram para ela uma estrada de luz!

sábado, 11 de junho de 2016

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Por Joaquim A. Rocha



35

Pra produzir açúcar, engenhos mil,
De África levaram os escravos;
Gente da Europa foi para o Brasil
Em busca de ouro, rosas e cravos.
De todo o lado, jovem, ou senil,
Queria pertencer ao grupo dos nababos.
Por fim, a descoberta da borracha,
Criou mais fortunas e nova taxa.

36

Pelo sertão entraram garimpeiros,
Famintos de vis metais preciosos;
Malta sem trabalho, aventureiros,
Todos eles rudes, gananciosos.
Vendiam a alma por trinta dinheiros,
Terríveis mentes, olhos capciosos.
Ai que corja aquela, tão matreira,
Mais feroz do que a fera verdadeira!

37

E para que serviu tanto metal,
Tanto ódio, tanta cruel matança?
Riqueza sem controlo é letal,
Rói em todos nós a doce esperança.
O bem sucumbe perante o mal,
A justiça falece na balança.
E não há céu que tal obra suporte,
Por isso, por sentença dá a morte.

38

Esqueçamos o gigante Brasil,
Percorramos cem terras, novos mundos,
Vamos em busca da pimenta e anil,
Doutros sonhos mais nobres e fecundos.
Comprar bugiganga por um ceitil,
Enfrentar aqueles rostos iracundos.
Mostrar-lhes que a nação portuguesa
É dura em guerra, meiga na justeza. 


quinta-feira, 9 de junho de 2016

LINA  - Filha de Pã
(romance)

Por Joaquim A. Rocha 

desenho de Luís Filipe G. Pinto Rodrigues

// continuação (ver em 5/5/2016).

   O Mário partiu a correr, o tempo caminhava velozmente. Por volta das dez da noite tinha que estar no portão do Senhor Juiz, as namoradas não gostam de esperar. A horta ficava ali a dois passos. Colheu tudo o que a irmã lhe pedira e voltou para casa. Depois de comer uma boa tigela de caldo, com um bocado de toucinho, broa e chouriço lá dentro, saiu apressadamente. Desceu as escadas das muralhas antigas, foi pela avenida, ainda em construção, olhou para o portão, mas a moça ainda lá não estava. Via-se luz na cozinha. Devia estar a arrumar a louça. Logo a seguir a luz sumiu-se. Um vulto desceu as escadas da casa, falou com o cão, com certeza prevenindo-o da chegada de alguém estranho, e logo a seguir dirigiu-se para o exterior. O apaixonado desceu os cinco ou seis degraus que separavam a avenida do portão, e espera que ela o abra. Havia um luar quase apagado, sem brilho, a lua não estava nas suas noites. Ela abriu o metálico portão, o qual rangeu, lamuriento, e logo o viu:

- Ainda bem que vieste. O Senhor Doutor já se deitou. Agora só sai do quarto de manhã. Estamos à vontade.
- Tu sabes que eu gosto de ti há imenso tempo, mas sempre me rejeitaste, eu até já perdera a esperança de um dia vires a ser minha.
- Eu gosto muito de ti, mas como sou nova não estava interessada em namorar, foi só por isso.
- Ainda bem que mudaste de opinião, eu ia ficando doido por tua causa.
- O melhor é entrares; aqui pode alguém ver-nos, e depois já sabes, é um falatório dos diabos. O Senhor Doutor Juiz corria logo comigo.

     O “Brilhantina”, como era conhecido, entrou, mas receoso. Aquele cão assustava-o deveras. Está bem, ela acalmava-o, mas nunca fiando. Por outro lado, se o patrão dela se apercebe disparava sobre ele, pois os juízes andavam armados; tinha-lhe dito, isso mesmo, o empregado do tribunal. Estava a arriscar a vida, mas por a sua amada tudo valia a pena. Ela pegou-lhe na mão e levou-o para a garagem. Depois fechou a porta e diz-lhe com meiguice:

- Então aqui não estamos muito melhor?
- Eu desejei tanto este momento; estar a sós contigo, beijar-te, ter-te só para mim.

     Tremia como varas verdes. O coração ameaçava saltar do peito. Pensava que o que se estava a passar era um simples sonho, um devaneio; quando acordasse tudo se dissiparia. Ela, esperta como era, apercebeu-se da sua agitação, pega-lhe na mão direita e coloca-a nos seus seios. Esfrega-os e ele, pouco a pouco, vai aderindo. Põe-lhe a mão esquerda nas costas, encosta-a mais a ele, abana-a como se fosse peneira, e espreme-a como se fora esponja; procura a sua boca e beija-a com sofreguidão, entrando em êxtase. Ela baixa-se, estende-se numa manta que ali colocara durante o dia, sobe as saias e fecha lentamente os olhos.  

- Mas tem mil cuidados – diz-lhe; - eu estou pura, virgenzinha, nunca tive nada com homem nenhum; és tu o primeiro.
    
     Ele baixa apressadamente as calças, cheias de remendos, os quais reagem mal àqueles movimentos bruscos, como que pedindo mais calma, pois o tempo e as sucessivas lavagens no tanque público tinham causado algumas mossas; ajoelha-se e deita-se sobre aquele corpo aparentemente sedento de brincadeira. Passado um pouco resfolegava, parecia um animal no período do cio. Ela não sentia nenhum prazer. Aquele indivíduo metia-lhe asco, nojo! Só o suportava por causa da criança que transportava no seu ventre.

- Não tenhas pressa – solicitou-lhe ela. – Olha que o mundo não acaba hoje.
- Bem sei, mas é a primeira vez que eu faço estas coisas com uma rapariga. Fui algumas vezes à tia Rosela, mas aquilo não presta – está velha e cheira mal, ia vomitando.
- Metes-te com bandalhos! E ainda por cima pagaste. A partir de agora não precisas de procurar esse coiro, tens-me a mim.
    
      Ela brincou demoradamente com ele, fez-lhe cócegas, rebolaram pelo chão, riram-se com vontade. Diz o rapaz:

- Tu é que me surpreendeste: pareces magrinha, mas afinal és cheiinha, não se te notam os ossos.
- Alimento-me bem, não sou como tu, que passas lazeira!
- Ainda hei-de ser rico, vais ver. Quando puder vou para o Brasil.
- Só se fores abanar a árvore das patacas. E quem é que te manda ir?                    
- Isso… não sei; não conheço nenhum parente que esteja lá. Nem sequer amigos. Mas se Deus quiser tudo se consegue.  
- Tenho uma ideia. Se viermos a ser um do outro, marido e mulher, peço ao Senhor Doutor Juiz que te empreste o dinheiro para a viagem.
- Fazes isso?! Disseram-me que os barcos saem de Leixões, ali para os lados do Porto. Até lá, ia de camioneta e de comboio.

     Ela, saturada de tanta conversa, já com sono, as pálpebras fechando-se, diz-lhe:

- Bem: se não te apetece mais, vamos dormir. Eu tenho que me levantar cedo para fazer compras e o pequeno-almoço do Senhor Doutor.
- Deixa-te estar mais um bocadinho – mendigou o rapaz, numa voz quase sumida.
    
     Dali a pouco levantaram-se, ela levou-o até à saída e despediu-se dele com um beijo nos lábios. Subiu as escadinhas, abriu a porta e dirigiu-se ao seu quarto. Não estava em condições de se apresentar ao seu senhor – sentia-se suja, emporcalhada.
     Levantou-se por volta das sete horas. Dirigiu-se à padaria a fim de comprar pão acabado de sair do forno. Que cheirinho! Dava gosto. O Senhor Doutor adorava aquele pão, barrado com manteiga. E que prazer ela sentia em servi-lo, com uma boa chávena de leite de vaca, acabadinho de chegar, sobre o qual deitava meio decilitro de café, a fim de lhe tirar aquela cor branca e dar-lhe outro sabor.
     Era mesmo uma Vila rural: tudo cheio de hortas, de campos, de gado a pastar nos baldios próximos, e até suínos e galináceos se viam pelas ruas! Desde que houvesse dinheiro, nada faltava. O pior é que nem toda a gente ganhava o ordenado do juiz, a maioria do povo português, nesses anos trinta, passava imensas necessidades. Os produtos do campo eram vendidos ao desbarato, ainda por cima às vezes o temporal estragava tudo, o milho escasseava, o centeio era pouco, trigo não se dava naquele clima inóspito de inverno e escaldante no verão. A hortinha ia colmatando algumas falhas alimentares, mas era preciso comprar azeite, arroz, bacalhau, carne de vaca e de vitela, peixe fresco, etc. As conservas de atum e sardinha, compradas ali perto, na Galiza, a preços baixíssimos, iam completando algumas refeições. Para arranjar dinheiro vendiam-se os presuntos, lacões, um ou outro salpicão, mas também havia que dar ao médico, ao pároco…, por isso não se podia vender tudo. O regime político saído da Ditadura Militar era severo, controlava tudo, a produção, os preços, os salários, nada era deixado ao acaso. Ser pobre era um desígnio, quase uma fatalidade.

      A primeira República fora um autêntico desastre, diziam os adeptos do Corporativismo, tinha deixado o país na penúria, os cofres do Estado vazios. A nossa entrada na I Grande Guerra exaurira o Tesouro Nacional. Às tantas já não havia dinheiro nem para mandar cantar um cego! Os governos caíam como tordos! Sem dinheiro, não havia progresso. A fome alastrava por todo o país. As colónias ficaram esquecidas, ninguém lhes ligava! Os militares que saíram de Braga, chefiados pelo general Gomes da Costa, puseram cobro à bagunça. Acabou-se a República. Mas, pelos vistos, eles também não desejavam a monarquia. Chamaram um Professor Catedrático, que leccionava em Coimbra, e escrevia sobre matérias financeiras num jornal nacional, a fim de dirigir as Finanças do país. O que aconteceu toda a gente o sabe: pouco a pouco foi-se apoderando do poder e às tantas transforma-se no Chefe, no Senhor Supremo do Estado e da Nação. Criou um modelo político, inspirado na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, nem República nem Monarquia, um caldo, uma autêntica miscelânea, mistela repugnante, embora houvesse presidente da “República”, sempre um militar, mas praticamente sem quaisquer poderes, um presidente a bem dizer a fingir! // continua...

terça-feira, 7 de junho de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Joaquim A. Rocha





cartas de um castrejo

17.ª - «Senhor Redactor: esta freguesia, ninguém pode negá-lo, é uma das mais agrestes do concelho e, talvez, de Portugal. Não tem recursos próprios, além do centeio e da batata, que à custa de supremos esforços se cultivam; e, como indústria, a criação de gado bovino e caprino. Isto que, bem dirigido, por uma educação sólida e adaptada ao meio, seria muito, continua no mesmo estado de cultivo e exploração de há cem anos! Ninguém duvida de que o nosso lavrador precisa saber do seu metier e abandonar o ronceirismo e velharias com que a terra cultivada há dezenas de anos se contentava, para a rodear de outros carinhos, a que o seu estado de civilizada lhe dá jus. A terra, à força de produzir, torna-se pobre, gasta-se, enfraquece, até à negação completa de certos produtos; efemina-se, enfim. Para tratá-la, pois, precisamos dispensar-lhe um certo número de carinhos, animá-la, conhecer-lhe as necessidades, para lhas satisfazer de pronto. E como fazê-lo, se desconhecemos os mais rudimentares princípios da agricultura – ciência que nos ensina a cultivar a terra, com menos trabalho e mais economia, e adquirindo maior soma de produtos? Com a energia que nos reservam as nossas débeis forças, havemos tratado, aqui, do problema educativo, na nossa freguesia. Ninguém nos ouve, a começar pela paróquia, que decerto nos não lê, em conjunto, mas da qual algum membro haverá saboreado a nossa prosa insípida, porém, de interesse; e, deste modo, só conhecemos um meio de ver concretizadas as nossas aspirações, para o que conto, mais uma vez, com a complacência da redacção do Correio de Melgaço – a bondade de enviar dois exemplares deste número aos Presidente do Ministério e Ministro da Instrução. Não duvidamos de que o leiam ou mandarão ler (…) Um jornal provinciano (…), talvez nunca visto, despertar-lhes-á a atenção e com ela o desejo de ouvirem e remediarem os altos brados rogativos, já feitos em corporações administrativas, vozes que clamaram no deserto. Seguros e confiados, diremos a Suas Ex.ªs: - Castro Laboreiro tem para cima de trezentas crianças em idade escolar, disseminadas por lugares distanciados de um a vinte quilómetros da escola oficial do sexo masculino (única); Castro Laboreiro tem setecentos fogos, ou mais, com muito adulto que deseja o pão do espírito, como o alimento do corpo; Castro Laboreiro, situado no extremo montezinho do concelho de Melgaço, sofre todas as inclemências de um clima siberiano, tem uma vida quase nómada, pois muda de habitação duas vezes por ano, forçado pelas circunstâncias, manda os seus filhos durante o inverno ganhar o pão que a terra (…) não produz, paga contribuições pesadíssimas, é uma freguesia infeliz e a que, parece, os poderes constituídos hão sempre lançado ao abandono; Castro Laboreiro tem homens válidos e cuja robustez ninguém porá em dúvida, braços cobertos, almas patriotas; mas… Castro Laboreiro não tem meios de se instruir, mas… Castro Laboreiro não pode agir, porque não tem escolas, nem esperanças em adquiri-las. Ouçam, pois, Suas Ex.as os brados de “um castrejo” que tem um verdadeiro culto pela sua terra, mandando que, nesta freguesia, sejam imediatamente distribuídas escolas (…) e terão, assim, o preito e homenagem que por tal razão merecem, conquanto só roguemos justiça. E se esta nos é feita, como apelamos, respiraremos mais à vontade, aspiraremos a longos haustos o ar rarefeito das nossas queridas montanhas, embalsamado pelas fragrâncias das flores da giesta, do tojo e dos urzais!... Não falha a esperança a um castrejo, se a redacção (…) mandar ao seu destino dois exemplares do próximo “Correio”. Suas Ex.ªs ouvir-nos-ão. Castro Laboreiro, 21/5/1916.»      

domingo, 5 de junho de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Joaquim A. Rocha 



CASA DO FECHO


     Foi construída no lugar do Fecho, freguesia de Rouças, concelho de Melgaço. Suponho que o primeiro casal a residir ali foi Lopo Azevedo Silva Coutinho de Castro [filho do alcaide-mor Lopo de Castro e de Joana Azevedo, esta filha do alcaide-mor de Sintra – (século XV)], e sua mulher, Isabel Soares, da Casa de Tangil, isto em princípios do século XVI. Mais tarde, Lopo de Castro, o Velho, filho do padre António de Castro (e de Isabel Soares Teixeira?), herdou a Casa do Fecho e casou com Leonor Veloso Bacelar Sousa Magalhães, filha de Gonçalo Esteves Lobato e de Guiomar Veloso Bacelar, do lugar do Paço, freguesia de Alvaredo, concelho de Valadares. Um filho deles, Lopo de Castro, o Moço, casado com Francisca Quevedo, capitão-mor, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço entre 1600 e 1619, etc., instituiu o Morgadio do Fecho, a 7/6/1601, o mais antigo, segundo parece, dos estabelecidos em Melgaço. // A pedra de armas, que fora laje sepulcral da capela de São João Batista da mesma Casa, deve ter sido trabalhada no primeiro quartel do século XVII, no tempo do capitão-mor Lopo de Castro, o Velho. // O seu último proprietário foi o Dr. Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, mais conhecido por conde de Azevedo. No Correio de Melgaço n.º 121, de 20/10/1914, diz-se que ele passou alguns dias na sua Casa do Fecho, a fim de assistir à vindima; finda aquela, partiu para a sua Casa do Hospital. // Em o Jornal de Melgaço n.º 1286, de 25/4/1920, pode ler-se: «Como este titular tem neste concelho alguns adeptos, julgamos conveniente dar-lhes a notícia de que, tendo sido julgado com outros seus companheiros do tempo da traulitânia, foi, como eles, condenado em quatro anos de prisão maior celular, seguidos de oito de degredo, ou na alternativa de quinze de degredo em possessão de 1.ª classe.» // Esse conde de Azevedo aderiu mais tarde ao regime corporativista; a 3/11/1934, em Viana do Castelo, assistiu à tomada de posse do novo Governador Civil, capitão Tomás Augusto Salgueiro Fragoso. // Faleceu a 20/9/1962. // Tinha um filho, de seu nome Pedro, que num dia de Fevereiro de 1930, a um domingo, conduzindo um automóvel da Valinha a Monção, teve um grave acidente, quando se desviou de um suíno, que se atravessara na estrada; morreu o motorista da família, que ia no banco de trás, e os outros – coronel Mousinho de Albuquerque (intendente geral da polícia), e o secretário deste, alferes Valério, além de Luís Ferreira, sofreram apenas ligeiros ferimentos. O dito Pedro apanhou apenas um grande susto! (Esta notícia, escrita pelo correspondente do Notícias de Melgaço no Peso, Sousa, tem a data de 28/2/1930, e foi publicada no Notícias de Melgaço n.º 52, de 2/3/1930). // Costuma dizer-se que um azar nunca vem só. Na noite de 17/2/1932, pelas vinte e uma horas, manifestou-se um incêndio nesta antiga casa solarenga, pertencente ainda ao dito conde, e habitada por rendeiros. Só meia hora depois é que os Bombeiros Voluntários de Melgaço tiveram conhecimento do sinistro; seguiram com grande dificuldade para o local, levando com eles as bombas de mão e as picotas, bem como outro material necessário, sob o comando do primeiro patrão, José de Brito. Logo depois compareceu o 1.º comandante, Herculano Pinheiro, estando já estabelecido o ataque com uma agulheta pelo alferes Domingues Peres… Ao cabo de duas horas principiou o rescaldo, que durou até à uma hora da madrugada! Aos bombeiros se deveu não ter sido destruído todo o prédio, por terem localizado o fogo e, com grande esforço, o terem extinguido. Alguns dos bombeiros procederam aos salvados, tendo retirado os gados das cortes, as pipas de vinho, mobílias e outros objetos, correndo sérios riscos. // O ataque foi feito pelo 1.º andar e pelo telhado para o que foi necessário a montagem de escadas. // Ficaram quase destruídos três compartimentos do prédio, calculando-se os prejuízos de oito a dez contos de réis! E se os bombeiros não tivessem chegado a tempo, nada escaparia, porque o fogo lavrou com tal intensidade que era impossível dominá-lo sem a sua intervenção. // As labaredas presenciavam-se de grandes distâncias, era um espectáculo dantesco, causando grande impressão. // No local estiveram para cima de quatrocentas pessoas e uma parte delas ajudou naquilo que pôde, sobretudo no abastecimento de água. O alferes Peres foi um verdadeiro herói, não se poupando a sacrifícios, não obstante estar encharcado e com alguns ferimentos. // O primeiro patrão, João Cândido da Rocha, ao combater o incêndio perdeu a carteira, que continha dinheiro e vários documentos… // A 26/1/1936, pelas doze horas, no tribunal judicial de Melgaço, procedeu-se à arrematação, em hasta pública, por metade do seu valor, dos seguintes bens, pertencentes ao dito conde: 1) Quinta do Fecho (casa de morada, capela, terra de cultivo, mato e arvoredo) sita na freguesia de Rouças. Ia à praça por 28.380$00. 2) (…) O dinheiro obtido seria para pagar a dívida à Caixa Geral de Depósitos, no valor de 469.054$04. Eram citados Estêvão Maria de Barbosa Carneiro Queiroz de Azevedo Bourbon e sua esposa, residentes em Viseu, a favor dos quais existia um registo provisório. // Arrematou a dita Casa e Quinta do Fecho um senhor de Castro Laboreiro, Manuel Alves (1904-1956). // Em 2016 morava lá ainda uma filha do comprador, professora Noémia, viúva. // A capela, pertencente à Casa, foi demolida pelos novos donos, mas a pedra de armas foi dali retirada e colocada na dita Casa. // (ver “Padre Júlio Apresenta Mário”, p.p. 118 a 120). 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



PROVÁVEL ORIGEM DO NOME MELGAÇO

        
        Não pretendo com este modesto trabalho exibir conhecimentos em Linguística, Etimologia, ou ciências afins, ou sequer colocar em causa investigações passadas de pessoas sérias, honestas, que tudo tentaram para descobrir a origem dos nomes da nossa pequena pátria. Eu quero apenas contribuir com o meu esforço para esclarecer alguns pormenores que escaparam a esses senhores, todos eles já falecidos. Certezas absolutas, quem as têm? Claro que, no meio desses estudos, surgiram algumas fantasias, por vezes vindas de gente de quem não se esperaria tal coisa, mas enfim, sem as ferramentas adequadas, que não possuíam, teremos que ser nós, gente do século XXI, com outros meios, outros recursos, a separar o trigo do joio. O caminho é sáfaro, ingrato; mas desistir era o pior que nos poderia acontecer. É necessário dar passos seguros, com a ajuda de todos: etimologistas, arqueólogos, etc., para que um dia não restem quaisquer dúvidas sobre o assunto.
     O concelho tem dezoito freguesias desde meados do século XIX, e dentro de cada uma delas existem muitos lugares, cada qual com o seu nome; conhecer a sua raiz não é fácil, sobretudo porque Melgaço está longe dos grandes centros e os cientistas diplomados quase esqueceram por completo a sua existência! Teremos de ser nós, gente que nasceu neste lindo torrão, a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que o passado histórico surja a nossos olhos limpo de poeiras, sem ambiguidades e mentiras. Eu sei que é mais fácil escrever quando nada, ou pouco, se sabe, pois inventam-se mil patranhas e fica tudo resolvido.
     A seguir vou transcrever, não sei se exaustivamente, todos os textos que até agora se escreveram sobre a etimologia do topónimo Melgaço, além de outros cujo tema lhe é próximo. Não são muitos, e o seu valor é desigual, mas serviram pelo menos para lembrar que este rincão foi visitado por gentes de outros continentes – Ásia e África – além de povos da velha Europa, que por aqui andaram, quer em guerra, quer em paz. Omito, propositadamente, os textos de Fernão Lopes, Alexandre Herculano, e de alguns outros, pois apenas se debruçam sobre a História, sobretudo militar. Leia-se então tudo aquilo que se disse, de uma forma mais ou menos sábia, sobre a origem remota da bela palavra Melgaço:
     «Quando, pois, os romanos conquistaram a península, Melgaço, a ocidente dos querquérnios e bem perto dos aobrigenses, não foi riscado do mapa da antiga Gallaecia e porque manteve a sua integridade, quando os conquistadores ajustaram a divisão administrativa das Hespanhas, criando a província Tarraconense, ficou uma das vinte e quatro civitates ou povos do convento jurídico de Braga. Simplesmente o nome deste povo, a palavra Melgaci, não esmalta as páginas do livro de Plínio, porque como ele próprio confessou, pareceu-lhe fastidiosa a enumeração total desses povos.
     Ora o chefe dos melgaceos, o celta Melgacus que os baptizou, baptizou também este querido torrão natal, porque escolheu o planalto, onde hoje assenta a Vila, para aí erguer o seu opidum, que lhe serviu, ao mesmo tempo, de centro de governo da sua civitas, de defesa e de habitação: uma fortaleza com duas ou três ordens de muralhas, à semelhança de Briteiros, Sabroso ou Santa Luzia, com casas redondas ou rectangulares para o chefe e servos, estábulos para gados, etc.
     Os romanos levaram anos a arrancar os melgaceos para a civilização e se até hoje não apareceram lápides ou outras memórias a provar terem arrasado ou conservado o opidum, deles ficou memória nas “villa”, propriedades rústicas cuja cultura ensinaram a fazer, disseminadas por estas redondezas, como Erada, Cavaleiros, Colanes, Prado, Cristóval…» (Melgaço e as Invasões Francesas – 1807-1814, por Augusto César Esteves, 1959, página 77).               

     O Dr. Augusto César Esteves (1889-1964), melgacense dos quatro costados, morreu convencido de que obtivera a resposta para as suas dúvidas quanto à origem do nome Melgaço. No entanto: [Já o Arqueólogo Português registou iguais fantasias, anticientíficas, de fisionomia popular, a respeito de Malha, em Torres Novas, Alenquer, Nagosa, etc. Vejamos o texto: «Vulgarmente, o povo designa como cidade certas ruínas e localidades antigas, revestindo-as até de lendas, por exemplo, cidade de Malha (Torres Novas), cidade de Alenquer, cidade de Nagosa (Tua), e, por antonomásia, Cidade (Melgaço), palavra que corresponde a castro.»] (Estudos de Língua Portuguesa – Arlindo de Sousa, Rio de Janeiro, 1956, página 10).

     Mas há mais: «Depois da época dos castros e das citânias andaram por aqui os romanos. Esta palavra Melgaço está ligada com isso; supõe-se que a sua origem seria o nome de um tal Melgaceus, romano ou nativo muito romanizado, cuja vida pode ser documentada por inscrições epigráficas aqui do Alto Minho.» (O Tempo e a Alma, de Hermano José Saraiva, página 12).

     Numa lápide que se encontra na Casa do Avelar pode ler-se: «ARQUIVS VIRIATI F C AGRIPIA H. S. EST MELGAECUS PELISTI MONVME(NTVM) C(OLLOC) AV(IT), ou seja: Arquius, Viriati f(ilius), c(enturia) Agripia, h(ic) s(itus) s(epultus) est. Melgaecus, Pelisti (filius), monume(ntum) co(lloc)av(it).» // Resumindo: um tal “Melgaecus” erigiu um monumento funerário a Arquius, filho de Viriato.

     Outra inscrição, esta de Málaga: «(Ca)malo Melg(aci) Fi(li)o Bracara A(v)gustano (S)acerdoti (Ro)mae Aug. Caesa(rum) Conventus (A)vgvst(anvs).» // Traduzido para português, dá mais ou menos isto: Câmalo, filho de Melgaci, sacerdote de Bracara Augusta…

     «Melgaço. Topónimo. Melgazo em 1173 (Documentos Medievais Portugueses, página 418), Melgacio em 1181 (Leges, página 422; ver também D.M.P., I, páginas 475 e 477), e em 1219 (D.M.P., I, página 477), Melgazo, novamente, em 1258 (Inquisitiones, página 330).»

          No “Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa”, da Editorial Confluência, volume II, página 974, lê-se: «Melgaço. Origem obscura; do latim *mellicaceus, de *mellicus, este de melle (mel)?, de melga, insecto? A hipótese de Leite de Vasconcelos (do antropónimo galaico Melgaecus) também oferece dificuldades (Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2).» 

      Vamos então consultar José Leite de Vasconcelos «Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2»: [… é provável que (…) houvesse povoações indígenas, como se deduz dos nomes locais (de divindades e de pessoas) que aparecem nas inscrições da época romana, por exemplo Rego, Verora, Apilus, Arquius, Camalus, Melgaecus (talvez esta palavra contenha o radical de Melgaço, nome actual de uma Vila do Alto Minho;…)].

     Natália Correia, num posfácio que redigiu para o livro de Moisés Espírito Santo “Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa”, seguido de “Ensaio Sobre Toponímia Antiga”, na página 393 questiona-nos: «Que património mitológico nos chegara desse fundo semita dos cultos arcaicos antes de Moisés Espírito Santo lançar este desafio às entorpecidas convicções académicas da etnologia e da toponímia? A grande influência do templo de Melcart, o Hércules de Tiro venerado em Cádis nos cultos indígenas que, na Península, se desenvolveram no primeiro milénio antes da nossa era. Desse centro de irradiação religiosa do semitismo, cuja influência chega até à plena época imperial romana, seria réplica na faixa ocidental da Península um santuário de Hércules no Promontório Sacro, que Ephoros (Éforo, historiador grego: 390-334) refere como existindo no seu tempo.»       
      Batalha Gouveia, no jornal Actualidades, lembra: [Os cananeus, povo que os Hebreus guerrearam aquando da conquista da Terra Santa, dispunham da expressão Malaku para denominarem o «rei». Malaku é palavra formada pelos termos mal, «grande», e aku «santo». Daí o plural hebraico Malakim dado ao livro bíblico denominado Reis.]

    Platão, filósofo grego, na sua obra “Crátilo”, escrita há mais dois mil anos, alerta-nos para as dificuldades que vamos encontrar quando quisermos saber coisas de épocas remotas: «A grande antiguidade dos nomes e as profundas modificações que sofreram tornaram-nos indecifráveis.» 

     Maria Clara de Almeida Lucas, in “A Literatura Visionária na Idade Média Portuguesa”, página 31, escreveu: «Também na civilização celta o outro mundo se encontra sobre a Terra, frequentemente para o ocidente, e muitas vezes sob a forma de ilha dos bem-aventurados, o “país sob as ondas” ou o “país para lá das névoas” e toma vários nomes: Mag Mor (grande planície), Mag Mel (planície dos deleites), etc

     Maria Lamas, em “Mitologia Geral”, páginas 79 e 80: «Das escavações feitas em Rãs-Shambra depreende-se que à frente do panteão fenício estava El, criador de todas as coisas e pai dos deuses, que primitivamente teria sido assimilado ao céu e talvez também ao sol… Os cananeus foram o único povo semita que utilizou o apelativo il, el (deus), como nome próprio, para designar o seu grande deus. El, senhor de todas as divindades, usava o título de rei, era o “criador da criação” e também o sábio e o juiz por excelência.»        

     Na mesma obra, na página 82, lê-se: «No segundo período do panteão fenício, Mot e Aliyan foram assimilados a Eshmun-Adónis, se bem que os fenícios continuassem a fazer uma certa distinção entre o espírito da vegetação (Mot) e o da água subterrânea (Aliyan). Pode dizer-se que o conjunto Aliyan-Eshmun-Adónis sobreviveu no deus rio Adónis e em Melkart (o rei da cidade)…»

     Na página 85 da obra citada podemos ler: «Melek, Milk, Moloch e Milkom, nomes que aparecem no segundo período do panteão, significam o “deus”, senhor da cidade de Tiro, que está em relação com Biblos

     A mesma obra, nas páginas 96 e 97, informa: «Fosse qual fosse o seu nome e origem, todos os deuses e deusas da mitologia fenícia simbolizavam a fertilidade e a fecundidade, pelo que se pode dizer que o culto fenício foi sempre, em última análise, a natureza (…). Os santuários estavam situados no alto dos montes e colinas sagradas. Cada um tinha uma cela, um bétilo (pedra sagrada) e um recinto sagrado (haran), onde só podia penetrar o fiel em estado de pureza. Em frente da cela erguia-se, ao ar livre, o altar rudimentar onde eram colocadas as oferendas e queimados os holocaustos

     Luís de Figueiredo da Guerra também se pronunciou sobre o assunto. Eis a sua versão: «Melgaço. – Divergem as opiniões sobre a origem desta palavra. Sabemos de povoações portuguesas chamadas Melga, Melgas, Melgar, havendo também na Espanha um Melgazo. Todas evidentemente se filiam na raiz latina mel, mellis: mel da abelha; a significação do terminativo “aço” consigna abundância, correspondendo ao advérbio muito. Se melga já então indicasse uma variedade de mosquitos, teríamos em vez de lugar abundante em mel, sítio de mosquitos.» 




     Como já se observou através das leituras supra «cada cabeça cada sentença». Eu, após muitos anos de leituras, de meditação, encontrei um caminho, talvez uma vereda, que espero não seja um atalho para a asneira. E o que achei é deveras surpreendente: aquele povo pequenino, mas culto, civilizado, da Ásia Menor, com as suas cidades nas margens do Mar Mediterrâneo, que difundira o vidro e inventara a salga do peixe, com escrita, cujo alfabeto espalharam pela Europa, trouxe-nos uma prenda que se conserva até hoje – o nome Melgaço. Claro que estou a falar da Fenícia e dos fenícios. Eles estiveram na península ibérica, quer diretamente, como comerciantes, quer através dos cartagineses, seus descendentes, como guerreiros. Subiram os rios e, nas partes altas, erigiram santuários, a fim de adorarem os seus deuses. Melgaço deve, pois, derivar de Melcart (ou Melkart – o rei/deus da cidade). Os fenícios teriam entrado no Rio Minho pela sua foz, em Caminha, e avançaram no sentido da nascente, a fim de levarem os seus produtos às populações que habitavam nas margens do rio: lã tingida, cerâmicas, couros, perfumes, mas sobretudo o tecido de púrpura, que eles fabricavam, além de alguns objectos de luxo, só para os habitantes ricos. Aqui e ali, em lugares altos e provavelmente ermos, construiriam os altares e fariam sacrifícios aos seus deuses, para que estes lhes proporcionassem bons negócios.
     Existem poucos ensaios científicos sobre o povo fenício no território que é a partir do século XII Portugal. No entanto, é indesmentível que muitos topónimos portugueses têm origem fenícia. Em Espanha, ao contrário de nós, estudaram profundamente esse povo, e sabe-se que Málaga deriva do nome do deus Melcart. Quer isso significar, na minha modesta opinião, que os nomes Málaga e Melgaço têm a mesma fonte! Não é difícil, em termos etimológicos, fazer derivar de Melcart a palavra Melgaço, tendo em conta que a pronúncia trazida para a península pelas diversas gentes que para aqui vieram com os romanos alterava profundamente as palavras mais antigas, ficando por vezes irreconhecíveis passados alguns anos. Exemplos abundam. Vejamos: o “c” latino pronunciava-se sempre “k” e passou em muitos casos para o português como “g”: lacu(m) deu lago; jocu(m) deu jogo; ciconia(m) deu cegonha; etc. Trata-se do fenómeno designado sonorização.
     Analisemos então a palavra que nos interessa: Melcart. Pelo tal processo, passou a Melgart. Mais tarde o “r” cai, talvez por se ter tornado inútil – não se pronunciava. Como enfraqueceu, caiu, como acontece com tudo na vida, e as letras e as palavras não são uma exceção. Resta, por conseguinte, Melgat. O “t” latino, como se sabe, tornou-se “c” em português. Exemplo: palatium transformou-se em palácio; ratiociniu- transforma-se em raciocínio, etc. A palavra vai-se modificando. Temos então Melgac. Nessa altura dir-se-ia “Melgaç”. Posteriormente foi acrescentado, na língua escrita, um “o”, que na pronúncia se tornaria “u” – “Melgáçu” (o “o” nessa palavra é apenas convencional).
     No foral concedido ao concelho pelo primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, em 1183, ou logo a seguir, aparece-nos a palavra Melgacio; e noutro documento de 1261 ela surge escrita Melgatio. O “i” não se pronunciava, por isso foi abandonado, passando o “c” a ter a cedilha, a fim de pronunciado como “ss”. Esse foral foi escrito em latim tardio, isto é, num latim não clássico. A época de Júlio César, de Cícero e de Octávio Augusto já ia longe!
     No foral de 1258, “oferecido” ao termo por Afonso III, o topónimo vem escrito “Melgazo”, alternando com Melgaço. É óbvio que o “z” se pronunciava “ç”de outra maneira não se explicaria essa grafia num texto régio, e ainda por cima escrito em latim! Diz-nos Duarte Nunes de Leão: «… Mas, com o tempo, perdeu-se a própria pronunciação desta letra, que os antigos lhe davam, e damos-lha agora por uma maneira, que soa entre s e ç; a qual letra porque muitos vulgares a confundem com o s e às vezes com ç…» (“Ortografia e Origem da Língua Portuguesa”, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983, página 80).                    
     Corrobora a minha tese a seguinte frase de José Leite de Vasconcelos em “Religiões da Lusitânia”, volume I, página XXVI: «… muitos dos nossos nomes de lugares actuais provêm de nomes pré-romanos.» 
     E para terminar, lembro, apenas como curiosidade, que existe no Brasil uma cidade com este nome. Alguém me disse que foi um nosso conterrâneo que a fundou no século XIX, sendo-lhe até atribuído o título de Barão de Melgaço. Se é verdade, ou não, não sei. 

     Nota: este pequeno estudo foi publicado há uns anos no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço.  

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