sábado, 19 de setembro de 2026

ESCRITORES MELGACENSES

Por Joaquim A. Rocha


continuação...

 

CORDEIRO, Ricardo (Silvestre). Filho de Ricardo Esteves Cordeiro, gerente da filial em Penso dos Grandes Armazéns Marcelino Ilídio Pereira & C.ª – Irmão -, com sede em Lisboa, e de Felismina, ou Felisménia, Gonçalves, proprietária, moradores no lugar de Paranhão. Neto paterno de João Esteves Cordeiro e de Rosa Lourenço; neto materno de José Gonçalves e de Rosa Maria Exposta. Nasceu em Penso a 16/11/1904 e foi batizado na igreja a 20 desse mês e ano. Padrinhos: António Manuel Fernandes e sua mulher, Maria Rosa Garcia, proprietários, moradores no lugar de Bairro Grande. // A 2/7/1914 fez exame do 1.º grau na escola Conde de Ferreira, Vila, obtendo um «ótimo» (Correio de Melgaço n.º 106, de 7/7/1914). // Foi novo para Lisboa, onde trabalhou como empregado de escritório nos referidos Armazéns (ver Notícias de Melgaço n.º 215, de 3/12/1933). // Colaborava regularmente nos jornais “Notícias de Melgaço” e “Terra Minhota”, este último de Monção. // Morreu tuberculoso, na capital do país, a 26/10/1935, com apenas 31 anos de idade (Notícias de Melgaço n.º 290, de 10/11/1935). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 3, de 3/3/1929: «O DESTINO CRUEL. O mês de julho tinha-se vestido de galas para começar a receber os filhos da terra, e também os forasteiros que nesta quadra ali vão descansar às vezes, de alguns anos de trabalhos. Pelos campos, e pelos montes, a verdura, em um matiz variado, deleitava-nos o olhar, em uma contemplação de êxtase. Toda aquela policromia de cores e tons esquisitos fazia nascer nos nossos corações – ainda nos mais insensíveis – ilusões que se arreigam ao espírito e que nos tornam a vida imaginária e linda. Os dias esplêndidos de verão, abundantes de sol, corriam velozes, numa atmosfera cor de esperança, muito deslumbrante a desaparecer no azul do infinito. Ao desabrochar desta apoteose variegada de tons e de deleites, olhando as belezas naturais da minha terra, principiavam a chegar alguns rapazes para férias. Por um dia de calmaria insuportável fui surpreendido com o abraço de um amigo, que veio a ser depois um companheiro de folguedos e inseparável nalgumas regiões para que fomos convidados. E como destas pequenas festas nascem sempre inclinações e simpatias particulares, o meu amigo confessou sentir o coração desassossegado, sintoma seguro de que distinguia uma menina xis que também não se mostrava indiferente. Organizaram-se passeios, que se realizaram, e o parzinho notava-se quase pela ingenuidade do conjunto, naqueles rápidos e breves divertimentos. Sucediam-se os dias maquinalmente naquela pressa enorme de nos fazerem velhos, sem que tivesse havido entre eles um desabafo que legalizasse a simpatia bem visível, que todos nós presenciávamos. Ele, pouco experiente em assuntos amorosos, começou a andar arredio, ao mesmo tempo que se lhe proporcionavam várias visitas a uma estância de águas, onde estavam a veraneio um grupo de gentis pequenas, chegadas da cidade. Se até aqui o seu sentir tinha sido calmo e quase comodista, sem notar nele estusiasmos, com o aparecimento destas meninas reparou em si e apercebeu ideias novas, com projetos a sorrirem-lhe. Era-lhe muito aprazível sempre que o acaso o levava a falar-lhes ou vê-las, e neste desenvolvimento de uma grande simpatia que já denotava, pensou em se mostrar interessado por uma, que a sua sensibilidade elegeu de entre todas. Ainda que muito dissimuladamente analisava ela este desenrolar e na aparência parecia não lhe passar desapercebido o que vinha vendo, reparando bem na distinção de que se via alvo. E porque o tempo não espera, chegou o dia delas deixarem a povoaçãozinha minhota, partindo em viagem de recreio para o sul do país. Ou por casualidade, ou já por um interesse justificado, tinha-se falado entre eles num encontro para o regresso definitivo à cidade e, como também estava de partida, no dia marcado vem encontra-las tomando um expresso que as conduziria à formosa Lisboa. O encontro deles, a fingir mera coincidência, foi sumamente agradável para ambos e muito especialmente para ele que no decorrer da viagem decerto viu firmar-se mais aquele nervosismo que o devia inquietar. De vez enquanto olha-se a um relógio que conta vertiginosamente os minutos e ao darem por eles a máquina silva, anunciando o fim da viagem. Despedem-se, entrecortando olhares de saudade e tristeza, naquela separação rápida. // Estávamos por setembro e na costa do sul decorriam com muito brilho (…) as festas de verão pelos parques e pelos casinos, sempre repletos de uma frequência cosmopolita. Como complemento da temporada calmosa, foram as recém-chegadas para ali compartilhar daqueles divertimentos, e o meu bom amigo impelido por uma força oculta que lhe fazia sonhos lindos a construir castelinhos no ar, procurava vê-la o mais amiúde possível, seguindo-a atentamente na impaciência de a olhar a todo o instante. Vinha depois o cair da noite precocemente, a afastá-los da vista e a juntá-los cada vez mais pelo pulsar dos corações. Ficava para trás mais um domingo, a pedir desde aquele momento e a orar ininterruptamente por outro, que os havia de colocar vis-à-vis matando saudades e animando desejos. E não foi poucas vezes que o meu interlocutor – ou seja, sempre – fugia para os Estoris logo que as sabia para lá a gozar as delícias daquele ambiente salutar e animador. Decorreram dias, uns sobre os outros; o verão foi desaparecendo, e as festas extinguindo-se (*) conforme a ordem dos programas que as ia riscando à medida das suas realizações. Agora, porque a costa do sul se despovoava, fugindo também para a sua casa as encantadoras pequenas de que me venho ocupando muito gostosamente. Esgotados os assuntos desportivos, os certames e os concursos, passa-se a desviar toda a atenção para o cinema e para o teatro, que agora facilita a continuação de a ver ainda a intervalos curtos, ao passo que isto vai sucedendo, ele pense em ir direito ao fim que já há muito tem em vista e – pode dizer-se – seguro de êxito, resolve escrever-lhe, dando a conhecer numa confissão plena o que há muito o inquietava. A carta desaparece das suas mãos trémulas e é recebida por ela que, orgulhosa, a lê atentamente. Dá a conhecer aos pais o que se passa e estes, depois dos conselhos protocolares, que são de uso, não se opõem. E então ela, logo de seguida, responde-lhe em palavras repousadas de sinceridade, aceitando a corte, manifestando-lhe o receio que sempre nos envaidece de a não enganar, tomando-lhe o tempo em vão. Parecia agora, pelo menos aparentemente, uma florescência ardente no namoro, denunciando um entusiasmo imenso que só se aquietaria quando um laço sagrado os unisse para sempre. Mas o aforismo não mente e não raras vezes “as aparências iludem”, e esta enganou a todos que os viam. Veio o natal, a festa íntima da família, e ela para o marcar em intimidade e consideração rasgada, para ela, oferece-lhe uma prenda, como que a aproximá-los, bem querendo-o. Ele sente-se desvanecido e sem perda de tempo retribui a seu modo, mas bem do fundo da alma e do íntimo do coração. Seguem-se uns cinco dias, monótonos em comentário e ao cabo ela repara numa caixa de papel e impensada e levianamente segura uma caneta nas mãos para lhe granjear censuras e iria ferir um coração inexperiente a estes golpes e por completo alheio, sem sequer sonhar no que se desenhava na sombra. A missiva intolerante fecha-se e – como papel a repugnar-lhe – é lançada no correio, que a há-de levar ao seu destino. // Ouvia-se por toda a Lisboa um ruído ensurdecedor e vário em toques e apitos, dando-nos a conhecer a passagem do ano. Comenta-se em família este facto ao tombar das doze badaladas do relógio que nos ouve e depois dos hurras e das saúdes procuramos o leito, cogitando agora a sós, connosco, num desejo fremente de uma felicidade interminável para nós e da realização rápida e segura dos nossos sonhos cor-de-rosa. Depois de um sono reparador, ao acordar, quase surpresos, deparamos com um dia lindo, a estimular o nosso sentir, e a impregnar-nos de uma alegria doida e indizível. E pelas onze horas – Praça Duque da Terceira, n.º 10 – chega às mãos dele a alvura de um envelope que encerrava os crepes daquele coração pequenino, porque não chegava, nem se repartia para mais ninguém senão para ela. Assaltou-o a surpresa que não previa, esfrega os olhos como a acordar de um pesadelo tremendo, e chega excitado ao fim daquela carta que lhe queimava os dedos. Lindo princípio de ano - grita todo o seu íntimo revoltado, a jurar vingança. Mas chama-se à realidade, procura acalmar-se, sossegar o espírito, que o vê confuso, analisando as coisas a frio, quando supõe ver ziguezagueando-lhe na frente em dísticos grandes e palpáveis, onde se lê: “consideram-se as ações conforme a pessoa que as pratica.” E então ele, pobre rapaz, que toda a imensidade não comportava senão perfume dela a evolar-se e a seduzi-lo. // Via-se onde ela não estava, naquela candidez pura de quem nunca amou ninguém, e está virgem de pensamentos confusos a torvarem-lhe a adoração, com que sempre a lembrava! Qualquer personagem amoroso que passasse na tela, ou no palco, mostrando-se bom, a seus olhos era ela quem ele via, tornando-o mais sensível. Mas porque nesta vida é preciso não ter acanhamentos e reunir um poucochinho de malicioso, ela principiou a subir no seu pedestal de vaidades e grandezas e, colocando-se lá em cima, divisa-o homem feito pigmeu, a desaparecer-lhe da vista, julgando não a compreender no seu diálogo. Concluiu que era uma vida artificial que estava levando, que a abafava e, sem olhar a diplomacias nem a meios inteligentes, corta cerce o fio que a prendia e já escaldava! // Procuro na minha mente a desculpa que a pudesse absolver deste gesto impensado e por mais que me esforce só choco com frases de crítica e de reprovação à sua leveza de pensar. É tão bonito: sermos corretos, leais e ponderados; qualidades reunidas a enobrecer uma alma. Mas já não se usa, é velho e pouco prático este raciocínio, e então não se procuram meios para se alcançarem fins. Foi desta maneira que forneceu uma linda ilusão, com a crueldade frisante e impassiva de um coração – que os poetas dizem frágil – mas inúmeras vezes empedernido e estéril.» // Lisboa, janeiro de 1929. Ricardo E. Cordeiro Junior.

    Lê-se no Noticias de Melgaço n.º 34, de 13/10/1929:

 

 

 /// (*) No texto do jornal está escrito «distinguindo-se».        

 

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- José Joaquim de Abreu (Dr.) Filho do Dr. José Joaquim de Abreu e de Augusta Maria de Araújo, proprietários, moradores no lugar de São Gregório, freguesia de Cristóval. Neto paterno de Miquelina Rosa de Abreu; neto materno de José Joaquim de Araújo e de Benedita Pires Pereira. Nasceu em Cristóval a 4/1/1906 e foi batizado na igreja a 12 desse mês e ano. Padrinhos: José Joaquim de Araújo, viúvo, negociante, e Matilde Gonçalves de Araújo, casada, proprietária, representada por António Augusto de Araújo, viúvo, proprietário. // A 26/7/1917 fez exame do 1.º grau e obteve a classificação de ótimo; era aluno do professor Abel Nogueira Dantas (JM 1169, de 4/8/1917). // Em julho ou agosto de 1918 fez exame do 2.º grau, ficando aprovado com distinção (JM 1220, de 24/8/1918). // Formou-se em Direito, na Universidade de Coimbra, em 1931. Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 120, de 9/8/1931: «Na Universidade de Coimbra, concluiu a sua formatura, em Direito, o nosso amigo e conterrâneo Sr. Dr. José Joaquim de Abreu Junior, filho do nosso também amigo e digno Conservador do Registo Civil desta comarca, Sr. Dr. José Joaquim de Abreu. Ao novo bacharel e a seu pai apresentamos os nossos sinceros parabéns. // Em 1933 abriu escritório de advogado na Rua da Calçada, Vila de Melgaço (Notícias de Melgaço n.º 182, de 5/2/1933). // Em 1936 foi nomeado Conservador do Registo Civil de Santa Cruz da Graciosa, Açores (Notícias de Melgaço n.º 303, de 1 de Março). Foi também Conservador dos Registos Civil e Predial em Melgaço; tomou posse na sala da audiência do tribunal judicial da comarca de Melgaço a 3/12/1938; essa posse foi-lhe dada pelo delegado do Procurador da República, Dr. Abel de Campos Carvalho. // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 1005, de 16/12/1951: «Comarca de Melgaço (Secretaria Judicial). Anúncio (1.ª publicação). Faz-se público que pelo Juízo de Direito da comarca de Melgaço correm éditos notificando o réu Manuel de Campos, cigano, sem residência conhecida, que se faz acompanhar por uma cigana alta, com dois filhos de tenra idade, para no prazo de 30 dias se apresentar neste tribunal a fim de assistir aos termos do processo de querela que lhe move o Ministério Público pelo crime de furto previsto pelo art.º 426, n.º 7, referido no art.º 421, ambos do Código Penal e punível pelo n.º 4 deste preceito por força do disposto no art.º 427, n.º 2, do mesmo diploma, pelo que se acha pronunciado provisoriamente com admissão de caução arbitrada em 20.000$00, com a cominação de que, não se apresentando naquele prazo, com início após a última publicação deste anúncio, o processo seguirá à sua revelia, e o réu pode ser preso por qualquer pessoa do povo e o deverá ser por qualquer autoridade. Mais se notifica o mesmo réu de que se acha aberta a instrução contraditória, que tem o prazo de cinco dias, findo o dos éditos, para apresentar na Secretaria deste tribunal articulação dos factos que pretenda provar, com a indicação dos respetivos elementos de prova, nos termos do art.º 36, § 2.º, do decreto n.º 35007 e de que lhe foi nomeado defensor oficioso o Ex.mo Dr. José Joaquim de Abreu, com domicílio nesta Vila. Melgaço, 12/12/1951. Verifiquei: o juiz de direito, Costa Fernandes. O chefe da secção, Arsénio Pinheiro    

     Foi promovido à 2.ª classe em 1957. // Casou a 29/7/1933 na Conservatória do Registo Civil de Melgaço e no dia seguinte na capela da Orada, com a professora do ensino básico, Duartina Rosa, de 27 anos de idade, na altura a lecionar na escola do ensino primário em Cubalhão, filha de José Bento Domingues e de Ana Maria Rodrigues, castrejos, donos da Quinta da Orada. // Dizem que «filho de peixe sabe nadar» e este não escapou à regra: mulherengo exibicionista, teve como concubina uma das filhas da “Maria das Adegas”, além de ter outras amantes ocasionais, espalhadas um pouco por todo o lado! // Gerou polémica com os padres Vaz, residentes em Braga, proprietários de “A Voz de Melgaço”, além de conflitos que manteve com cão e gato, nunca iniciados por ele, segundo a sua versão, expressa nos seus livros. Para alguns conterrâneos tornou-se uma ameaça, pois, devido à profissão que exercia, tinha direito ao uso de arma de fogo, da qual se serviu certa altura para ameaçar um candidato a namorado da sua amante, segundo me contaram. Publicou diversos artigos no jornal “República” e “Notícias de Melgaço”, em tom agressivo e irónico, que posteriormente compilou e editou: «Vil Perseguição a um Advogado por um delegado do Ministério Público» (1955). Neste livro descreve pormenorizadamente a perseguição que lhe moveu o delegado do Procurador da República, Dr. Octávio Manuel Soares Medeiros, entre 1951 e 1953. Quando este chegou a Melgaço, tornaram-se grandes amigos, mas essa amizade tinha pés de barro, por isso transformou-se em ódio feroz. O Dr. Abreu chegou a estar preso, foi enxovalhado, levou uma tareia de dois indivíduos, os quais receberam dinheiro de alguém para lhe baterem, enfim, um período péssimo na sua vida. Brigou com o cambista Artur Teixeira, este acompanhado pelos seus capangas; viu-se envolvido em um caso de assinatura falsa, cujo final não ficou devidamente esclarecido, etc. Publicou também «Denúncia Caluniosa» (1957); «Padres Incríveis» (1976), uma autêntica batalha contra os padres Vaz, de Fiães e Rouças; «Magistrados Indesejáveis» (1977). Este último livro é uma autêntica despedida deste mundo; desabafa, confessa a sua desilusão perante alguns seres humanos, conta-nos períodos menos bons da sua vida de advogado, etc. // Dizia-se republicano, mas alinhava em comezainas com os amigos do regime corporativista de Salazar e Marcelo, até com os agentes da PIDE! O “Notícias de Melgaço” n.º 556, de 14/9/1941, dá-nos conta da sua participação em uma homenagem ao chefe dessa polícia política do Peso – brindou e elogiou! // Apesar de tudo, há quem afirme que foi um bom advogado. // Recorda ele no seu livro “Magistrados Indesejáveis”, de 1977, página 165, os tempos de estudante: «Fui preso pela Pide, tendo passado dois dias num antro fedorento, a cadeia de Monção da época, de onde fui transferido para o Aljube do Porto, onde passei mais de dois meses. E estava absolutamente inocente, desconhecendo por completo os factos de que era acusado. Eram maus, de insegurança e crueldade, os tempos da década de trinta.» // Morreu na Vila de Melgaço a 17/12/1979. // Pai de Rui de Abreu (193-/197-).  

 

// continua...

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