ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
EM VÉSPERAS DA PARTIDA
Naquela tarde de domingo, e devido
a terem chegado depois da hora habitual, os dois amigos não acharam nenhuma
mesa vazia no Café Suíça. Nem na esplanada, do lado da Praça da Figueira,
conseguiram arranjar um lugar. De mútuo acordo dirigiram-se ao Café Gelo, também
na Praça do Rossio. Poderiam, caso essa fosse a opção, ter ido ao Nicola, mas
esse estava sempre cheio. Depois de sentados, e aguardando a sua vez para serem
atendidos, Henrique, roído de curiosidade, tudo querendo saber, interroga:
- Os seus passos encaminharam-se para Melgaço,
suponho.
- Não, meu amigo. Na minha terra já não
tinha familiares chegados, apenas primos em terceiro grau. Fui para Lisboa,
para um lindo bairro chamado das Laranjeiras, pertinho do Jardim Zoológico,
para casa da minha irmã Ludovina; se tivesse ido ao Minho provavelmente
desertaria – não me agradava nada a ideia de ir combater para as matas dos
cafres. Medroso como eu era, amedrontado como andava, pessimista como poucos, não
me seria difícil passar a fronteira, dar às de vila-diogo.
O amigo ficou com algumas dúvidas
e pergunta, meio atarantado:
- Mas, se não possuía dinheiro, ia para
onde?!
Cândido,
apercebendo-se da contradição, responde:
- O drama era esse. O maldito metal. Sempre
a atrapalhar a minha vida. Enfim, sonhos! Durante esses dias pouco mais fiz do
que meditar. Ia de vez, em quando, até à janela, olhava o exterior como em uma
despedida definitiva. Uma manhã ouvi alguém a cantar. Parecia ser a voz da
sopeirinha, cujos patrões moravam ali defronte. Não me recordo nitidamente do
seu rosto, mas aquele som entrou em mim como um canto de sereia e apaziguou o
meu ânimo, acalmou a minha ira. Podia ser coincidência, mas até parece que a melodia
fora feita só para mim.
- Você é um romântico!
- Talvez seja. Sensibilizou-me tanto,
tanto, que peguei num papel e em uma caneta e escrevi os versos seguintes:
Rosa Maria
minha linda flor
eu a ti daria
todo o meu amor;
lindos olhos teus Maria
minha rosa em flor
eu por eles capaz seria
de matar, morrer, amor;
se ouvires dizer, Maria,
que uma bala me deu fim
reza sempre um padre nosso
em cada dia por mim;
vou partir para combater
em favor desta nação
vou à minha obrigação
desta pátria defender;
posso ter vida ou morrer
ter tristeza ou alegria
posso ainda voltar um dia
à minha terra natal;
não creias de mim o mal
se ouvires dizer, Maria;
eu um dia voltarei
à minha terra tão querida
cheio de força e de vida
e feliz ainda serei;
parto a cumprir uma lei
à qual fugir não posso
vou defender o que é nosso
o que é teu e da nação
e tu à noite, ao serão,
reza sempre um padre nosso;
posso muito tempo estar
sem te poder escrever
mas eu juro, podes crer,
que contigo hei de casar;
se uma bala me matar
ou tiver um outro fim
só por isso, só assim,
não cumpro o meu juramento;
tu reza sempre um momento
em cada dia por mim.
Henrique ouviu com algum assombro
estes versos. Comenta:
- Não lhe conhecia essa faceta, essa
veia poética. Ela adorou…
- Qual quê! A sopeira nunca leu este
ingénuo poema, o mais certo também era ela não saber ler, nem sequer soube da
minha presença naquele local. O nome que lhe atribuí podia ter sido outro
qualquer, simplesmente este soou-me bem ao ouvido e é ótimo para rimar.
- E depois, o que aconteceu? – interroga, enternecido, o nosso Henrique.
- Bem, vagueei pelas ruas da cidade de
Ulisses, olhar perdido e distante, coração amarfanhado, chocho e só. Podes
crer, meu caro amigo, que várias vezes me apeteceu escapulir, desaparecer do
mapa: mas iria para onde?! Logo a seguir seria preso, metido num barco ou num
avião e atirado na mesma para as matas africanas, desterrado – todos nós
tínhamos plena consciência disso. O regime não perdoava àqueles que o contrariassem.
Para evitar as fileiras do exército havia apenas duas maneiras: 1.ª - não
comparecer à inspeção militar e de imediato emigrar clandestinamente (se a sorte favorecesse o candidato a
emigrante este nunca vestiria a farda; se tivesse azar…); 2.ª - ter amigos
poderosos no sistema e através de um pedido sair livre da inspeção médica.
- E por amparo de mãe, por doença?
- Nessa época até os coxos e aqueles
que tinham falta de dedos nas mãos, desde que possuíssem o do gatilho, eram
considerados aptos! Somente os desprovidos de vista, os privados de pernas e
braços, os filhos únicos, cuja mãe fosse viúva e apresentasse uma declaração de
extrema pobreza, passada pela Repartição de Finanças e pela Junta de Freguesia,
alegando que ele era o seu exclusivo amparo, é que se livravam. De resto tudo
servia. Dou-te um exemplo: na minha Companhia havia um colega com a altura
aproximada de metro e meio – quase um pigmeu!
- Ouvi dizer que alguns indivíduos,
filhos de gente graúda, se safaram da tropa, pagando. Terá algum laivo de veracidade?
- De certo modo, já te respondi a essa
questão. Sabes, o vil metal compra quase tudo e a quase toda a gente! É de
admitir que alguns pais ricos, e influentes, tudo fizessem, tudo tentassem,
para livrar os seus rebentos da maldita e indesejável guerra colonial. Eu
dei-te o exemplo do ricaço, filho de proprietários de agências de viagens. Por
outro lado, há sempre alguém que aceita dinheiro em troca de favores. A
corrupção faz parte de qualquer sociedade. A honestidade, a moral, não é para
toda a gente – muitos aproveitam-se do lugar destacado que ocupam para
conseguirem obter rendimentos ilícitos. Há uma coisa que eu aprendi: a
ideologia, que nos obriga a ser coerentes, é posta de parte por alguns quando
lesa interesses materiais.
- Nem sempre o que se diz corresponde à
verdade – comenta Henrique, ainda na
verdura dos seus anos.
- A corrupção e a chantagem sempre
existiram, fazem parte da luta pela sobrevivência. Só se é perfeito quando tudo
se alcança, daí não haver ninguém nesse estado de pureza! Há santos nos altares
que foram refinados patifes; e alguns seres humanos morreram desonrados sendo
eles boas pessoas! Tudo faz parte de um percurso irregular, um caminhar aos
solavancos. Até o deus dos cristãos errou, segundo a bíblia: criou o universo,
criou o homem à sua semelhança, e o que aconteceu? Adão sentiu-se só e quis uma
companheira. Tiveram filhos: Abel e Caim, e, este último, mata, sem dó nem
piedade, o seu mano! E chamam a isso, perfeição?!
- O meu amigo Cândido é um filósofo. Eu
estou de acordo consigo em algumas coisas. A cunha, por exemplo: é uma
instituição nacional, todos a ela recorrem – uns para conseguir um bom emprego,
outros para subirem na carreira, outros até para obterem uma simples consulta
médica! Ninguém pode passar sem recorrer à maldita; além disso todas as sociedades
geram privilegiados. Os nossos pais ensinam-nos a ser corretos, bons cidadãos,
mas depois a vida não permite que a gente se sirva amiúde dessas virtudes! Se
nos comportamos sempre bem somos tidos por lorpas e todos nos enganam, porque
somos bonzinhos. É complexa a vida.
Cândido, depois de beber
calmamente a sua imperial, diz ao amigo:
- Caro Henrique, tu és muito jovem. Muita
coisa irás contemplar ainda neste mundo belo e diabólico, mas desde já te
aconselho: procura sempre o equilíbrio. O radicalismo não nos leva a lado
nenhum. Não embarques em fanatismos religiosos nem em ideologias baratas. A
vida é o somatório de muitos acontecimentos. Mas não falemos mais nessas
coisas, senão esgotamos o assunto e depois ficamos calados como mudos. Até breve.
continua...
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