ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
9.º Capítulo
O EMBARQUE
Eram três horas da tarde. Henrique,
sentado na esplanada, espera o seu grande amigo Cândido. Sabe que a história
ainda está no princípio e a parte mais importante, passada em África, ainda
está por contar. Quer saber tudo em pormenor.
Os
ex-combatentes não publicaram, até essa altura, absolutamente nada sobre a
guerra colonial, uns por não saberem escrever, outros, quem sabe, por não
quererem falar de coisas tristes, de acontecimentos que os marcaram negativamente
para toda a vida. Era um privilégio ouvir da boca de um ex-soldado uma narração
completa sobre essa satânica guerra que tantos mortos e feridos provocara.
Por fim chega o nosso Cândido. O amigo,
depois de o cumprimentar efusivamente, dispara à queima-roupa:
- Ainda se lembra do dia da partida?
- Recordo-me tão bem! Como se todos os
cronómetros do planeta tivessem parado! Ali, naquele infausto dia, naquele
local. Vinte de Janeiro de 1966. Cais do Conde de Óbidos. Ainda era manhã cedo;
o barco estava à nossa espera… Chamava-se Uíge e era gigantesco, semelhante à
goela de um monstro que nos queria devorar. Esperava os “mártires da pátria”. Eu, que odiava toda e qualquer violência,
encontrava-me naquele sítio no papel de belígero para tomar parte ativa na
contenda! Para ir lutar contra indivíduos que defendiam a autonomia e a
independência das suas nações, tal como os portugueses o fizeram no tempo de D.
Afonso Henriques, Dom João I e Dom João IV.
Henrique, que bebia sofregamente
todas as palavras do amigo, interrompe-o a fim de lhe colocar a seguinte questão:
- E no princípio do século XIX, aquando
das Invasões Francesas, os portugueses não lutaram, também, pela sua independência?
Cândido meditou um pouco sobre o
assunto, não desejava dar uma resposta precipitada, a História era uma coisa
muito séria, merecia todo o respeito. Por fim disse:
- Sim, é verdade. Governava então a
França o célebre Napoleão Bonaparte, que andava às turras com a Inglaterra,
país nosso aliado desde o tempo de Fernando I. O imperador francês deu ordens a
Portugal para não permitir que os barcos ingleses entrassem em portos lusos,
mas o regente (futuro D. João VI), que se encontrava
no Brasil (a Corte deslocara-se para lá pouco
tempo antes das invasões francesas) não acatou tal ordem. Bonaparte manda
invadir por três vezes Portugal, mas com a ajuda dos ingleses lá nos livramos
de tal gente.
Henrique ouviu tudo com atenção,
mas não concordava com uma coisa:
- Há quem afirme que a ida da Corte
para o Brasil se justifica plenamente!
Cândido, democrata por excelência,
não contesta essa ideia:
- É polémica essa asserção; é certo que
a rainha D. Maria I estava muito débil, já não decidia nada, e o seu filho, futuro
rei, não era, segundo dizem, homem de grandes rasgos. Se têm ficado
prisioneiros dos franceses não seria bom para eles, nobreza, mas para o país
certamente seria melhor, pois os franceses teriam desenvolvido Portugal, ao
contrário dos reis portugueses que pouco ou nada fizeram. Na primeira metade do
século XIX não havia indústria, nem transportes, o comércio era insignificante,
o analfabetismo rondava os 90%.
Henrique, tudo escutava. Gostava
de História, sobretudo a de Portugal. Para alimentar a conversa, atirou com
mais uma acha para a fogueira:
- E as colónias? Tão ricas, e não
produziam nada?
Cândido, depois de ponderar a
resposta, afirma categoricamente:
- Há um lapso na História de Portugal
que carece de emenda: os portugueses do século XV não foram, em princípio,
conquistar ou descobrir terras, pois a que tinham chegava bem para a população
dessa altura, bastante reduzida, mas sim procurar, através dos oceanos, as
fontes, as origens, dos artigos necessários ao consumo da nobreza e da alta
burguesia, as famosas especiarias, a fim de deixarem, desse modo, de estar
dependentes dos mercados venezianos e de outros, que os compravam ao oriente e
os vendiam na Europa a preços exorbitantes. Além disso, iam alargando o mercado
para os nossos próprios produtos.
- E dilatar a fé… acrescenta Henrique.
- A fé? Por detrás dela há sempre
razões económicas e financeiras, não te esqueças. O infante Dom Henrique, Dom
João II, Dom Manuel I, tentaram conciliar ambas. Por outro lado, os mandões da
igreja católica eram quase todos nobres, filhos do rei ou do duque, enfim,
poderosos. Não te lembras que depois da morte de D. Sebastião foram buscar o
cardeal para ser rei?!
- É verdade. Havia uma grande ligação
entre a Igreja e o Estado. A 1.ª República acabou com essa promiscuidade, mas
Salazar voltou a pôr tudo como dantes.
- Amigo Rique: quando os portugueses
chegaram a África, à Ásia, à América, a todo o lado, essas regiões já estavam
habitadas, salvo as ilhas de Cabo Verde que, devido às suas condições
climatéricas e à sua pequena dimensão, não atraíam quem quer que fosse para aí
viver: ninguém as cobiçava.
E empolgado prossegue:
Em
quase todas as regiões contactadas pelos portugueses havia um mínimo de
organização: tinham um Estado, embora rudimentar e tribal (como esquecer Gungunhana, imperador dos vátuas? Os portugueses obrigaram
o desgraçado a colocar-se de joelhos e depois trouxeram-no para Portugal, tendo
morrido, já no século XX, nos Açores), formavam, ou constituíam, uma nação.
É certo que muitos se guerreavam entre si, alimentavam ódios milenários, mas o
que se vê hoje no mundo dito civilizado?
Henrique estava arrebatado com a conversa.
Como repto, lançou a pergunta:
- Pensa que esses povos se
identificaram com os portugueses?
Cândido parece ter ficado
desarmado perante aquela pergunta. No entanto, e senhor de um pensamento consistente,
respondeu:
- O que me perguntas é pertinente, mas
quanto a mim esses povos aceitaram bem os lusos como comerciantes e não como
dominadores. Resistiram quando os nossos quiseram ir além do que permitia a
hospitalidade. Meu caro amigo: lê, se ainda não o fizeste, o maravilhoso livro
de Fernão Mendes Pinto, com o título «Peregrinação».
Nele se descreve, com certa minúcia, o deambular dos nossos antepassados por
terras da Ásia, e como eles foram vistos por essas gentes de costumes e
mentalidades tão diferentes dos nossos.
Henrique respirou fundo. O tema da
conversa interessava-o imenso. Na escola não aprendera assim a História. Mas
quem teria razão?! Faz um reparo:
- Quanto a Fernão Mendes Pinto já li
alguns excertos do livro e na escola disseram-me que metade do que escreveu é
mentira. No entanto, vou tentar ler a obra completa e depois já falaremos dela.
- Nem tudo que ele escreveu,
corresponderá à verdade; contudo, ele participou em muitas aventuras, percorreu
muitas terras, conviveu com gente de outras latitudes e com culturas e
religiões diferentes da sua. Mas, com toda esta conversa, ia-me esquecendo de
te contar o que de facto aconteceu aquando do meu embarque para a Guiné-Bissau.
- Conte, conte por favor.
- Foi assim: antes do embarque, que
ocorreu mais ou menos ao meio-dia, houve um grande desfile e depois disso
ouviu-se um longo e fastidioso discurso, proferido por um oficial de alta
patente. Duvido que os familiares dos soldados, ou os próprios, prestassem
atenção àquilo (eu nem sequer sei de que ele
falava); o que ouviam (e eu ouvi)
era o bater forte de corações despedaçados; as lágrimas caindo estrepitosamente
no chão; os gritos de mães, esposas, irmãos. O distinto militar não discursava
para ninguém – representava o apagado papel de pobre declamador sem público!
As senhoritas do Movimento Nacional Feminino por lá andavam, como
abutres agoirando, pressagiando a desgraça, distribuindo sorrisos cínicos e de
circunstância e alguns maços de tabaco aos meus parceiros de armas, cujo vício
já carregavam, infelizmente, desde adolescentes!
Uma banda militar tocou o hino nacional: «heróis do mar…», e o barco a afastar-se, a afastar-se… Nossos
olhos, embaciados pelas lágrimas, procuravam sofregamente os rostos queridos
dos familiares e amigos, das namoradas… Nunca mais voltaríamos a vê-los, pensávamos!
Henrique estava profundamente emocionado.
O que ouvia não era uma pequena história romanceada. Aquilo acontecera! Ao seu
amigo e aos outros, a milhares de jovens portugueses. Após um prolongado
silêncio, por fim reagiu:
- O que importa é que o Cândido voltou,
e com saúde.
- Com saúde… nem por isso! Fiquei sem
alguns dentes, com problemas de estômago, com… Enfim! Não vale a pena falar
disso. Vou-te ler um soneto que escrevi recentemente sobre a partida, a que dei
o título A Caminho da Guerra.
Naquele triste vinte de Janeiro,
Com correntes fortes, amordaçado,
Cabisbaixo, o peito destroçado,
Parte sofrendo o fraco guerrilheiro.
Manhã fria, manhã de nevoeiro,
Desenha a silhueta do soldado:
Estatura média, adelgaçado,
Um andar pacato, olhar ordeiro.
Sobe, a chorar, os degraus do paquete,
Do bolso das calças um branco lenço
Agita num gesto de despedida;
Com a mão esquerda brande o barrete.
Depois, já no navio, perde o senso…
E cai sobre a intermitente vida!
continua...
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