ENTRE MORTOS E FERIDOS
13.º Capítulo
A CAMINHO DE CUFAR
Mais um domingo lisboeta. As lindas ruas
da Baixa… sempre a abarrotar de gente! Começava a notar-se turistas estrangeiros
e imigrantes africanos por tudo que era sítio. Políticas de imigração não
existiam; entrava quem queria neste pequeno e periférico país. Depois da descolonização
vieram de África centenas de milhar de pessoas: novas, velhas, saudáveis e
doentes; honestas e nem por isso.
Os dois amigos reencontraram-se, como já
era hábito, no Café Suíça; mas agora já era difícil arranjar um lugar, pois as
mesas estavam quase sempre ocupadas. Esperaram um pouco e lá conseguiram
sentar-se. Henrique perguntou:
- Depois de Bolama foram para onde?
- Encaminhamo-nos para Cufar (que numa das línguas locais significa morrer,
terra onde se morre).
Três dias antes de partirmos
escrevi a uma cantora do norte, a tal namorada do fadista, na altura já muito
em voga, de seu nome Mariana, a pedir-lhe que fosse minha madrinha de guerra. O
Luís Augusto, assim ele se chamava, deu-me a morada e eu não hesitei – se ela não
respondesse o que perderia eu? O fadista queria era ler as cartas dela, pelos
vistos estavam indiferentes.
- E ela respondeu?
- Nem pensar! Silêncio absoluto.
Responder a um soldado? Se eu fosse oficial! Escrevi também a duas raparigas do
Minho, de origem modesta.
- Essas responderam.
- Sim, essas aceitaram o meu pedido.
Queres que te leia as cartas?
- Adoraria.
- Como tive sete madrinhas de guerra,
somente te vou ler as cartas de uma delas, apesar de serem todas interessantes.
- Sete?! Nada mal: uma para cada dia da
semana! Gostaria que as lesse todas, mas já que não quer…
- Não se trata de querer ou não querer,
simplesmente seria enfadonho para ti. E tens sorte eu trazer uma dessas cartas,
pois com as mudanças de quarto não sei como ainda as conservo! Eis a primeira:
Senhor:
Recebi o seu aerograma e realmente fiquei surpreendida e para mais
sendo de uma pessoa para mim desconhecida. Ainda gostava de saber quem foi esse
meu conterrâneo conhecido que lhe deu o meu nome e morada, mas já calculo quem
seja e da minha parte diga-lhe que mando os meus parabéns; eu não me importo
ser madrinha de guerra do senhor, mas desde
já lhe digo que sou ainda muito nova, pois tenho somente dezoito anos. Se isso
não lhe causa nenhum impedimento, eu pela minha parte aceito.
Diz o senhor que é de Monção, realmente é
uma terra muito linda, já lá fui algumas vezes, mas é pura coincidência, tenho
também uma pessoa na família que foi madrinha de um rapaz dos seus sítios, que
estava em Moçambique, mas felizmente já voltou para cá são e salvo.
E é tudo, não tenho mais nada para lhe
dizer, mas há de ver que daqui para o futuro as cartas que lhe escrever não vão
ser curtas, pois a mim parece-me que se fosse jornalista havia de ter sempre
qualquer coisa para pôr nos jornais, quem sabe, ainda pode ser que o venha a
ser, ainda sou nova e o mundo dá tantas voltas…
Receba cumprimentos sinceros da que já
pode considerar madrinha de guerra.
- Sim, é verdade. No entanto…
- Aconteceu depois alguma coisa
desagradável?!
- Se não te importas, continuo a
contar-te a minha modesta odisseia. Mais tarde digo-te o que se passou com esta
madrinha. Não levas a mal?
- De modo algum! Preciso controlar a
minha mórbida curiosidade.
*
- Vou continuar a minha história: as
lanchas da armada lusa, feitas de chapa anti bala, equipadas com metralhadoras
potentíssimas, transportaram-nos até Catió, interessante vila perto do Cantanhez
(mata densa e reconhecidamente perigosa,
uma das bases do PAIGC: Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo
Verde).
Em toda esta região habitavam as etnias designadas de balantas e nalus.
Os primeiros distinguiam-se pela sua corpulência e cor negríssima, daí os seus
dentes parecerem mais brancos do que na realidade eram. Diziam ser um dos povos
mais evoluídos da Guiné.
Saímos quase de noite, ao lusco-fusco, quando todos os gatos começam a
ser pardos, a fim de não levantar suspeitas, e passadas algumas horas
entrávamos no pequeno rio Combidjam.
Os marinheiros, receosos, pediam-nos silêncio, para assim poderem
escutar eventuais ruídos que das sinuosas margens surgissem.
- E foram atacados?
- Tudo correu bem, felizmente, até
Catió, aonde chegámos já de madrugada. No cais éramos esperados pelos velhos e
cansados camiões, que nos conduziram até ao quartel.
Essa vila de Catió revestia-se de uma beleza exótica e inesquecível. Se
não fora sacrilégio, quase apetecia dizer: «Deixem-me
ficar aqui para sempre!» Mulheres negras, com as suas roupas de cores
garridas, pés completamente descalços, amplas coxas e largas ancas, sorriso nos
grossos lábios, encontravam-se na berma da estrada oferecendo, a preços
irrisórios, toda a casta de fruta da região: laranjas (mesmo quando já maduras continuam a ter a cor verde), banana,
manga, caju, e tantas outras variedades! Muita dessa fruta, sobretudo manga,
coco e banana, matou-me diversas vezes a fome durante esse período longo de
carências.
- Até parece que se encontrava no
paraíso! – diz Henrique, num tom jocoso.
- Se não fosse a guerra poder-se-ia
afirmar isso; mas a verdade é que a maldita rondava por perto. As instalações
militares ocupavam uma área extensa. Dentro, em forte rede e rodeada de arame
farpado, situava-se a prisão para os “turras”.
Pareciam animais acossados! Serviam de chacota e gáudio aos soldados mais rudes
e mais atrevidos, aos brincalhões exibicionistas, ao pagode! Os insultos
choviam em português das Beiras, do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Alto e
Baixo Minho, de todo o país!
- Aposto que não gostou de ver isso!
- O meu peito arfava. Não queria crer.
Circo é circo; zoológico é zoológico! Não estávamos a tratar com palhaços,
muito menos com feras, mas sim com pessoas que tinham sido presas por defender
ideais diferentes.
- Não me diga que interveio?!
- Vontade não me faltou. Um furor
imenso invadiu minhas entranhas, todo eu tremia. Um oficial, alferes ou
tenente, já não me recordo bem, notando a minha agitação, lembra-me em um tom
que não admitia réplica: «Na guerra as
coisas passam-se assim! Somos inimigos. Pensas tu que os turras, se por azar um
dia nos apanham, nos tratarão melhor?!»
- Não teve coragem, com certeza, de
replicar.
- Disse-lhe, embora com respeito, olhos
nos olhos: «Nunca estive preso, por isso
não sei; sei, isso sim, que nós somos pessoas civilizadas, não vis carrascos. O
cristianismo, que quase todos os portugueses professam, é tolerante, não
repressivo.»
- E ele, como reagiu?
- Deu-me uma leve palmada nas costas, e
foi-se embora. Sabia que não valia a pena continuar a conversa. Eram dois
mundos que estavam em confronto: o mundo bélico e o outro, o da harmonia, da
paz, da conciliação. Nós, a minoria, teríamos de ver, ouvir e calar.
Lamentações, para quê? Os seus corações eram feitos de granito, empedernidos, a
lei da guerra imperava, a religião ali não tinha lugar – estava a mais, estorvava!
Fomos encaminhados para o refeitório. A fome apertava e não resistimos a uma
refeição quente. Depois do “repasto”
pediram-nos que esperássemos. Breve chegaria uma Companhia experimentada para
nos escoltar até Cufar.
- Iam finalmente entrar no território
do lobo!
- Do lobo, da hiena, do tigre, do
chacal, da pantera, do crocodilo, do tubarão, eu sei lá!... De repente, alguém
disse: «Já está atrasada!» E logo
outra voz alvitrou: «Certamente surgiram
problemas!»
Essa constatação tinha, infelizmente, fundamento. Quando a referida
Companhia chegou, vinha exausta. Nos olhos dos nossos camaradas notava-se ainda
o terror, o medo incontrolável, devido a tudo aquilo que acabaram de passar.
Informa um deles: «Sofremos dois mortos;
vários feridos! Uma emboscada perfeita: não tínhamos para onde fugir! Podiam,
se quisessem, matar-nos a todos.» A sua voz, em um tom plangente,
comoveu-nos até às lágrimas.
- O sítio não era para brincadeiras! – alvitra Henrique.
- Não era mesmo! Terra da morte, de
sofrimento, Cufar aumentava assim a sua sinistra fama. Mas a vida resume-se a
esta insignificância: uns partem, outros vão aguardando, mesmo sem terem
consciência disso, a sua vez. Segundo a ciência, ninguém morre antes de nascer;
e ninguém se livra da loba voraz, insaciável!
- Mas acabar assim!... – lamenta Henrique.
- Depois da morte ninguém sente nada,
nem o zumbir do mosquito. Os sinistrados sim: sofriam horrivelmente; os seus
gritos de dor ouviam-se a distância!
- E incomodavam!...
- Ainda, por cima, o quartel não tinha
na altura nenhum médico, apenas enfermeiros de segunda categoria, formados já
na tropa! Os feridos foram evacuados para Bissau.
- E a sua Companhia, ficou em Catió?
- Esse era o nosso desejo, mas não
aconteceu assim. Logo a seguir o tenente Fontelas, com a sua voz de trovão,
gritou, tentando galvanizar-nos: «Preparar!
E nada de medos; todos teremos de dar contas ao diabo um dia. O soldado
português não teme o adversário: enfrenta-o, como os forcados enfrentam o touro
na praça!»
Morte e vida; vida e morte! A existência falaz, tirana, passageira.
Discurso de monge ou de filósofo. Que nos interessava isso? O que nós queríamos,
jovens de vinte e um anos, não se encontrava ali.
- E partiram!
- Que remédio. Nós e o resto da
Companhia que sofrera a emboscada. Pelo caminho que leva a Cufar passámos pela
aldeia dos macacos. São aos milhares e provocam um alarido tal que se repercute
por uma vasta área, pelas entranhas da floresta.
- Sentiram receio…
- Metem respeito ao mais destemido.
Todo o trajeto teria de ser feito a pé e de metralhadora em posição de tiro. Uns
soldados, virados para um lado; os restantes virados para o lado oposto – não
fosse o demo tecê-las! De vez, em quando, deixava-se de ouvir qualquer ruído e
o silêncio, sepulcral, abatia-se sobre todo o território envolvente. O medo e a
expectativa paralisavam os nossos movimentos! Os corpos deixam de ter peso e só
a alma, essência do nada, existe. É de facto uma experiência quase sobrenatural,
inatingível.
- Qual a distância de Catió a Cufar? – pergunta o jovem, a fim de desanuviar o
ambiente.
- Não deve ultrapassar os dez
quilómetros; mas naquelas circunstâncias, parecia-nos um longo caminho, interminável,
imaterializado – por mais que caminhássemos nunca mais se chegava ao destino!
Na frente seguia um pequeno carro de combate (a moderna cavalaria); pronto para o que desse, e viesse.
- Funcionava como dissuasor...
- Os guerrilheiros temiam essas
máquinas porque as suas metralhadoras varriam o terreno como as vassouras varrem
o lixo!
Passámos pelo local onde horas antes as duas forças antagónicas se tinham enfrentado. Notava-se nitidamente o capim pisado, ramos partidos, folhas espalhadas e restos de sangue. Um cheiro amargo envolvia todo aquele arvoredo. Uma sensação de raiva e de impotência invadia os nossos corpos, o sistema nervoso alterava-se, o cérebro por momentos nada controlava, jurava-se vingança.
continua...
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