segunda-feira, 7 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha

12.º Capítulo

 

A MASCOTE

 

    A tarde estava linda. Pelas ruas da cidade banhada pelo Tejo passeava imensa gente, olhando as montras, algumas com manequins expostos que pareciam mesmo pessoas! As roupas, o calçado, os livros, etc., estavam muito bem colocadas, tudo arranjadinho, atraente! Em tudo se notava a mão do artista, do mestre em decoração. Os saloios ficavam embasbacados com tanta beleza, com tanta arte. Apetecia comprar tudo!

     Henrique fora o primeiro a chegar ao Café. Sentou-se, como já era seu hábito, na esplanada e aguardou pacientemente a chegada de Cândido.

     Este não demorou muito. Tinha almoçado, como habitualmente, num daqueles restaurantes da Baixa lisboeta, quase todos geridos por minhotos ou galegos. Os preços eram acessíveis, o raio do ordenado é que não crescia, e por essa razão tudo parecia caro.

     Sentou-se à beira do amigo, sorriu, e disse:

 

- Deves estar ansioso por saber que tipo de mascote tinha a minha Companhia?!

- Estou mesmo. O que, ou quem era?!

- Chamava-se Mamadu. Era um rapaz de raça negra, com um metro e sessenta de altura, aproximadamente, magro, mas com boa aparência, com a pele acastanhada. Parece até que estou a vê-lo! Vinha da misteriosa mata, essa selva imensa e impenetrável, densa, inacessível, traiçoeira. Não teria mais do que quinze anos de idade; era filho da floresta africana e do deus Sacarabu «deus justo, terrível nas suas vinganças e ávido de sangue…» que o gerou numa noite de tormenta e lhe pede apenas que sobreviva; a partir de agora será também filho da tropa.

     «Fula amigo de branco» - dizia-nos ele no seu português criança. «Balanta inimigo, balanta quer independência, balanta quer dominar Guiné

     Isso talvez fosse verdadeiro. O homem balanta, de rosto altivo, arrogante, peito de atleta, não desejava o homem branco no sagrado solo guineense; queria ser senhor e não escravo – ele não se sentia, ao contrário de outras tribos, inferior ao europeu. Pensava: «Nenhuma raça é superior a outra, o homem é um ser universal, tem as mesmas capacidades. A sua vivência, os seus interesses, é que são diferentes uns dos outros

     Lamentava que os brancos tivessem ido para África como senhores e não como iguais. Agora era tarde: só através das armas poderiam os negros reapoderar-se das suas antigas heranças, dormir em paz com os seus espíritos avoengos.          

     Os fulas não pensavam assim. O europeu, segundo eles, trazia o progresso: as fábricas, as máquinas, a estrada, os carros, as armas de muitos tiros, e acima de tudo o dinheiro, que tudo comprava! Sabiam que o branco se dava bem com o negro desde que este o respeitasse, fosse humilde, trabalhador, obediente. Reconheciam-lhe superioridade em quase todos os domínios e não punham em causa a sua justa autoridade.

- Isso significava que os fulas e os balantas se odiavam? – pergunta Henrique, admirado, mastigando mais um tremoço.

- De certo modo, sim. Os balantas, porém, não estavam sós. Outras etnias, que antes se guerreavam entre si, uniam agora os seus esforços a fim de expulsar o intruso, o usurpador, que lhes tentava impor conceções e estilos de vida diferentes dos seus; costumes e crenças estranhas e nocivas – a aculturação forçada!

- E o miúdo? Que fazia?

- Mamadu estava radiante. A tropa dava-lhe comida, roupa e uma cama para ele dormir. Dera-lhe também uma arma para combater contra os balantas, essa tribo de homens fortes e orgulhosos que ele odiava. Os fulas eram inteligentes, mas não fortes; com a ajuda do homem branco, sob as suas ordens e orientação expulsariam do seu amado chão esses indivíduos indesejáveis.

- Então não era casual a sua colaboração com a tropa?!

- Os fulas possuíam o seu programa de ação, o seu plano. Todos veriam como eles seriam capazes de o pôr em prática!

     Mamadu tinha sonhos, estratégias, ambições. Na Companhia todos gostavam dele: aqueles dentes branquíssimos abriam-se prodigamente, num sorriso sem fim, às solicitações do soldado – era a mascote. Tudo correria bem daí para a frente: graças ao Mamadu!

- Vocês então acreditavam que ele lhes trazia sorte!

- Com certeza. Como o trevo de quatro folhas.

 

     Passou a acompanhar-nos em todas as operações. Sem aparente cansaço, sempre atento, um sorriso satisfeito bailando-lhe nos olhos brilhantes e enigmáticos, disparando com o à-vontade do hábil atirador profissional!

     Estava na guerra, estava ali para matar. Era a sua opção: matar, matar sempre, até ao último inimigo. Era um jovem formado na escola da guerra; a sua academia seria o próprio local das operações. A logística, balística, ou quaisquer outras ciências ou técnicas do âmbito, ou foro militar, a ele, nada lhe ensinariam, pois o instinto, o ódio, a determinação e a sagacidade superavam de longe essa carência.        

- Frequentara a escola?

- Suponho que não. Não me recordo se te informei que escolas, mesmo do ensino primário, só as havia em Bissau! No entanto, nunca ninguém soube se ele escrevia, lia e contava. Também de pouco lhe serviriam esses conhecimentos ali: manejar a arma com destreza, destruir sem compaixão, e sorrir, sorrir sempre, eram de longe dotes mais importantes, necessários, imprescindíveis... A guerra não se faz com poemas: faz-se com tiros, com raiva, com sangue, com morte.

     Mamadu não tinha nada de idiota, sabia isso. Ali, no inferno de Dante, não havia lugar para devaneios; as ideias deviam transformar-se em munições e os sonhos em palpáveis realidades. O jovem, que tinha somente quinze anos de idade, ou pouco mais, também sabia isso; adaptou-se à guerra, e esta jamais o desiludiu, o dececionou.  

- Até parece que o Cândido estava lá apenas como observador!

- De certo modo, sim; eu nunca tive espírito de guerreiro. Era civil fardado e não militar. Esses são diferentes de nós: no pensar, no agir, em tudo. Todos aqueles anos de lavagem ao cérebro, aboletados, moldam inexoravelmente o seu espírito. Mas vou dizer-te uma coisa: existia, sem dúvida, uma certa harmonia naqueles grupos heterogéneos: a tropa, os amigos da tropa, os inimigos da tropa e dos seus amigos! Lutava-se rijamente: uns, para manter o seu “status quo”; outros, para instituir o seu regime; e ainda aqueles que queriam preservar a tradição, os ancestrais costumes. Duas civilizações, várias culturas, diferentes e antagónicas, frente a frente, numa luta sem tréguas e sem fim à vista!

 

     O moço, talvez analfabeto, apercebia-se do conflito. Não sabia História, nem sequer Geografia; sabia, isso sim, que Alá significava o Deus e Maomé o seu profeta; que o Corão era o grande livro sagrado dos muçulmanos e que nele se ensinava: «dente por dente, olho por olho», ao contrário do cristianismo, que sugere que se dê a outra face a quem nos bate, mas na prática tanto uns como outros, se puderem, arrancam dentes e olhos aos seus inimigos.

- O rapaz acaba por ser uma figura exótica, uma espécie de extraterrestre, do seu ponto de vista…

- Talvez. Foi em Bolama que o vi pela primeira vez, naquela ilha bela e estranha, a ilha das noites serenas e dos amores adiados. Ao princípio imaginei que se tratava de um prisioneiro, mas não: era a mascote! Nunca soube como o encontraram ou como ele encontrou a Companhia. E logo naquela operação que faltei – a minha febre subira aos quarenta graus! E por causa daquelas feridas, a que dão o nome de impigem, na virilha, entre pernas, provocadas sem dúvida pelas lamas asquerosas das intermináveis bolanhas. Pensei morrer.

     Caramba! Como eu gostaria de ter assistido a tudo; não teria o mesmo encanto, o infinito mistério, mas saberia. E os meus camaradas apenas me informavam: «surgiu!»

     Durante muito tempo permaneceu na Companhia. Só a abandonou, desaparecendo misteriosamente, como surgira, como o vento depois da procela, quando a destacaram, no ano de mil novecentos e sessenta e sete, para Contuboel, uma zona mais pacífica.        

     Parecia alheio ao mundo que o rodeava: as cubatas incendiadas; os corpos desfeitos; as fugas rocambolescas; o medo e a morte, os feridos, tudo o deixavam indiferente. O rapazinho era feito de aço e de ação! E aquele sorriso de anjo guerreiro, apocalíptico, permanecia, teimoso, no seu fidíaco rosto. Sem desfalecer, sem jamais dar parte de fraco, continuava a sua justa luta.

- Andava fardado?

- Mais ou menos. Vestiu camuflado do exército luso e teve direito a G-3, a metralhadora que então se utilizava. Deixou de ter idade, de ter família, de ter chão. Estava onde estivesse a Companhia, pensava militarmente, pensava guerra, respirava e vivia tempestade!

     Teve direito a medalhas, qual atleta vitorioso nuns quaisquer jogos olímpicos, louvores mil; tornou-se herói nacional! Um exemplo a seguir. Os antigos escultores gregos teriam de ser ressuscitados para produzirem a sua estátua: a colossal e eterna estátua do pequeno grande Mamadu!

- Está a exagerar – farfalhou Henrique.

- Talvez… Medalhado, e já com a arca cheia de troféus, não parou – isto eram coisas de somenos. O seu objetivo pairava alto, residia na sua mente obcecada. A sua tribo… tinha-se esquecido dela! O filho da selva lutava em nome dos fulas, mas estes já não o reconheciam.

     Se tivesse olhado com atenção à sua volta verificaria que quase todas as etnias da Guiné-Bissau tinham esquecido as suas antigas rixas e, unidos, combatiam o colonizador. Não olhava! Estava fora do tempo e do espaço. Os chefes tribais compreenderam finalmente que o ódio cansa e que o seu inimigo nunca poderia ser o seu irmão de cor, de raça, de estirpe.

- O gaiato ficou, desse modo, isolado!

- Completamente sozinho. A sua guerra terminara no dia em que a maioria das etnias se abraçaram e decididas lutavam contra o regime opressor. Encontrava-se entre a espada e a parede. Passou a ser um alvo a abater!

- E o que é que ele fez?

- Quando toma consciência da situação desaparece: «Desapareceu o Mamadu» - comentavam com emotividade os meus camaradas. «Ninguém sabe para onde foi!» «Ele não era deste mundo» – disse-lhes eu por graça.

    «Mamadu reencarnava Farang, herói dos Sorcos», brincava o alferes Briosa, amante dos mitos e das lendas.

     «Farang?» - perguntaram todos a uma só voz.         

     «Querem saber quem foi essa importante personagem?»

     «Sim, meu alferes; conte» - pediram alguns soldados.

     [«Então…, ouçam atentamente:

    

     (…) Farang ficou triste. A partir daí lutou incansavelmente contra todos os génios e deuses contrários. Mandou construir uma guitarra e começou a tocar. Ouvindo a música, todos os peixes do rio vêm para a sua beira. É assim que agora pesca e dá alimento ao seu clã.»]

 

*

 

     «Que linda história, meu alferes. Estaríamos, se pudéssemos, um dia inteiro a ouvi-lo», apressa-se a comentar o “Almada”.

 

*

 

     Henrique, tudo escutava com redobrada atenção. Curioso, pergunta:

 

- E nunca mais viram a vossa mascote?!

- No término de 1967, quando entramos no Uíge para regressar a Portugal, um soldado gritou: «Olhem o Mamadu, é ele, olhem…! Está a dizer-nos adeus.» Não sei se alguém o viu além desse camarada, pode ter sido uma alucinação. Eu, só tendo olhos para o mar, não o vi, confesso, mas senti um arrepio pelo corpo todo, o seu forte abraço de despedida, a sua presença ausente!

 

continua...

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