quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


14.º Capítulo

 

TERRA DA MORTE

 

 

     A tarde na capital do país estava cinzenta, ameaçava chuva e trovoada, e o Cândido sem vir. O que lhe acontecera? Não era costume esperar tanto tempo por ele. De repente avista-o ao virar da esquina. Vinha apressado. Sentou-se e pediu desculpa pelo atraso. Explicou o que lhe tinha sucedido, nada de grave, coisas que acontecem.

   O amigo deixou-o descansar um pouco e depois perguntou-lhe:   

 

- Fizeram o percurso de Catió a Cufar ainda durante o dia? 

- Sim, mas chegámos à noitinha. Fomos recebidos em verdadeira apoteose. E justificava-se essa euforia: íamos proporcionar a praças, sargentos e oficiais a sua colocação noutra zona menos perigosa, ou talvez o regresso à Metrópole se a sua prestação de serviço estivesse no fim.

- E as instalações, como eram?

- O quartel de Cufar, de quartel, a bem dizer, nada tinha! Tratava-se de velhas ruínas de um edifício, outrora uma fábrica de óleo de amendoim, rodeadas de arame farpado. A água para consumo e higiene era extraída de um fundo poço, mas a sua cor, cheiro e gosto, deixavam muito a desejar. Que saudades da água da minha terra: da Fonte da Vila, da Fonte do Vido, fresca e leve, sem sabor, sem quaisquer cheiros, com ela faziam-se refrescos divinais. Que saudades!

- Era mesmo o inferno!... – proclama Henrique, cheio de pena.

- Podes crê-lo. Camas… não havia! Dormia-se em colchões de borracha, os quais tínhamos primeiro de encher com o ar dos nossos pulmões: soprávamos, soprávamos, até ficarmos exaustos. Durante a noite acordava-se alagado em suor. O mosquiteiro de nada servia, visto não haver estrutura de suporte – as melgas assassinas tinham o seu alimento garantido.

     Os víveres e demais material chegavam de helicóptero ou avioneta; por transporte terrestre seria impossível – as perdas em vidas e bens seriam elevadíssimas. Nessa zona vivia-se em beligerância permanente e feroz. Outra coisa, porém, não se esperaria, pois olhando para o mapa vê-se que Cufar se situa bem perto da República da Guiné, país que sem rebuço apoiava a guerrilha anti portuguesa.

- Compreende-se: queriam a África para os africanos negros – acrescenta Henrique, até ali silencioso e atento.

- Eu hoje também aceito em parte essa teoria, apesar de considerar que o planeta Terra é de todos, cada qual deve residir onde bem lhe agrada, se não prejudicar, claro está, os outros. Porém, nessa altura, quem sofria as consequências dessa ajuda éramos nós! Enfim! São coisas para esquecer.

     Na primeira noite que aí permaneci acordei deveras sobressaltado, meio sonâmbulo, com o barulho ensurdecedor dos obuses e canhões que do improvisado aquartelamento se disparavam para o interior da mata. Até dava a impressão de que se estava a travar uma guerra contra os fantasmas da noite que habitavam a floresta profunda!

     Os holofotes, colocados estrategicamente, iluminavam todo o terreno à volta, mas mesmo assim convinha prevenir.

- Mas, com tanta luz, davam ao inimigo a vossa localização!

- Não se pode dizer que estivéssemos à mercê do “infiel”, pois de dez em dez metros existiam abrigos subterrâneos (não como os atuais, cómodos e à prova de bombas atómicas), nos quais se encontravam soldados bem armados e de ouvido à escuta.

- E como é que comunicavam entre si?

- Em lugar do tradicional «sentinela à alerta» e «alerta está» ouvia-se o matraquear caraterístico das metralhadoras G-3!

     Um episódio gravou-se para todo o sempre na minha mente: a fuga de dois prisioneiros através do arame farpado! Estávamos perante uma autêntica proeza, uma façanha inédita. Os tipos, apesar da pele rasgada e sangrando com abundância, fugiam velozmente pelo meio do capim em direção à mata. Pareciam lebres ou galgos! As balas das metralhadoras logo que nos apercebemos da fuga, buscaram, sôfregas, os seus corpos.

- Atingiram-nos?

- Nunca soubemos se escaparam ou não – quem se atreveria a transpor o arame para confirmar? Para lá da clareira era a floresta, e aí espreitava de forma permanente o perigo.

     De Cufar fazíamos regularmente incursões até à fronteira com a Guiné-Konacri. Pelo caminho, armadilhas colocadas aqui e ali iam ferindo, ou matando, alguns dos meus camaradas. Quando isso acontecia, improvisavam-se macas com ramos verdes e chamava-se, pela rádio, o helicóptero para levar as vítimas para o Hospital.          

     Os enfermeiros da Companhia, um cabo e dois soldados, por sinal muito corajosos, à exceção do furriel, que era um medricas, e cujos conhecimentos de enfermagem deixavam muito a desejar, raras vezes nos acompanhando, acudiam aos feridos consoante as suas possibilidades. Os nossos adversários aproveitavam esta situação algo confusa para iniciarem um ataque que, muitas vezes, durava duas ou três horas!

- Eles conheciam, certamente, muito bem o terreno – vocês não tinham hipóteses!

- Nenhumas! Numa dessas batidas, todos caminhando em fila indiana, eu ia em quarto lugar. De repente deu-se uma forte explosão. Fomos atirados em pirueta a metros de distância. Levanto-me, apalpo todo o meu corpo, e verifico que felizmente não tinha sido atingido por estilhaços. Os três da frente, entre os quais o alferes Bizarro, não tiveram a mesma sorte. Os fragmentos das granadas inimigas, armadilhadas por hábeis mãos, alojaram-se profundamente nos seus frágeis corpos. Apelou-se de imediato ao helicóptero. O oficial, que integrara a Companhia quando já nós estávamos em África havia dois meses, soubemo-lo mais tarde, teve de ir para Lisboa, pois o seu estado inspirava cuidados.

- E quanto aos soldados?

- Um deles encontrei-o há pouco tempo, num desses almoços anuais: anda numa cadeira de rodas! Era um latagão. Mete dó.

- O Estado dá-lhe alguma coisa de jeito?

- Uma miséria, segundo ele nos disse. Vai sobrevivendo! Bem, por hoje dou por terminada a narrativa, vem aí a noite, temos de ir jantar, amanhã é mais um dia de trabalho e de estudo.

- Se nos saísse a taluda não precisaríamos mais de trabalhar!...

- Essa só sai aos ricos, àqueles que jogam forte; de quando, em vez, compro uma cautela, mas nem a terminação!

 

Dias depois

 

 - Caro amigo Henrique: como nem só de violência vive o homem, quero falar-te novamente das madrinhas de guerra, e aproveito o ensejo, se mo permites, para lembrar agradecido o bem que nos fizeram. O seu papel foi muito importante, sobretudo no que diz respeito à suavização dos sacrifícios por nós suportados. Quando chegávamos de uma «operação» tínhamos à nossa espera as tão almejadas cartas, ou aerogramas, conhecidos entre nós por «poupa selos», «papa-léguas», «bate-estradas», cuja agradável leitura servia de bálsamo às tristezas e saudades dos familiares, da terra e dos amigos.

- Como é que vocês obtinham as moradas? – pergunta Henrique, intrigado.

- Fácil. Algumas raparigas eram da nossa terra; logo, sabendo o seu nome completo, estava tudo resolvido. As que não eram da nossa terra, conseguíamos a sua morada e nome através de soldados seus conterrâneos.

- Havia trocas, então!

- Exatamente. Destarte, eu tive a felicidade de me corresponder com madrinhas de Coimbra, do Porto, de Lisboa, do Minho, e até de França! Ao todo foram sete, como no outro dia te contei.  

- Eram uma espécie de namoradas?!

- Não as considerávamos tal, apesar de alguns rapazes virem mais tarde a casar com a sua madrinha de guerra – penso que se tratava de exceções. A nossa vida no ultramar era tão fugaz, tão instável, que seria da nossa parte quase criminoso estar a fazer promessas e juramentos a moças tão puras.

- Mas nem todos morriam, ou ficavam feridos – concluiu Henrique.

- Tens toda a razão, a maioria regressou a Portugal com o seu corpo inteiro; mas essas raparigas da província não teriam, nessa época, quaisquer dificuldades em ficarem noivas de emigrantes, e não deveríamos ser nós, egoisticamente, a evitá-lo, ou a adiar, tal casamento.

     Para aqueles que regressavam sem mazelas, a vida profissional só se equilibraria passados anos – raros voltavam ao trabalho ingrato do campo ou ao labor sujo e por vezes mal remunerado da oficina. Aspirava-se a outros espaços, normalmente a cidade, a outros horizontes.   

- E o tal amor à terra de nascimento?!

- Nunca ouviste dizer: «santos da casa não fazem milagres?» A nossa terra natal, quase sempre madrasta, já não nos cativava com caráter permanente. A pobreza, aquela pobreza consentida e envergonhada, deixava de fazer sentido. Tínhamos lutado em uma guerra, depois dela iríamos iniciar outra: esta, mais pacífica, mais previsível, mas nem por isso menos dificultosa! Além disso, com o pronto-a-vestir, as alfaiatarias tendem a encerrar – é o progresso!

- Já que quis abordar esse assunto, pedia-lhe que me lesse mais uma carta dessa sua madrinha.

- Terei todo o gosto. Ouve:

 

Querido afilhado

 

     Recebi o seu aerograma, no qual vi que estava de boa saúde; dou graças a Deus, pois é esse o meu desejo. Pelo que me mandou dizer, quanto a ser jornalista, não me expliquei bem; nunca me passou pela cabeça ser tal coisa. Que eu tivesse jeito está certo, pois como aqui na minha terra é um meio pequeno a gente sabe tudo, e quando vou para casa conto essas novidades, e lá dizem-me que podia ter essa prestigiada profissão.

     Afilhado, a sua muito estimada madrinha pede que lhe mande uma foto; já sei o seu nome, agora falta-me conhecê-lo. Depois eu mando-lhe a minha, mas é quando tiver tempo para a tirar, pois sou um pouco alérgica a tirar fotografias, mas desde já o aviso que não sou nenhuma beldade, como as artistas de cinema.

     Então o seu coração não o enganou quanto a eu lhe escrever, mas também não se enganou ao pensar que sou muito sentimental; há pessoas no emprego onde estou que me dizem que isso já passou de moda, encolho os ombros e não me interessa o que dizem, gosto muito da solidão, pois assim já a gente pensa à nossa vontade, mas também gosto de conviver com a minha família e com os meus amigos.

     Manda-me dizer que está no mato, por os filmes que vejo, ou certos documentários, tenho verificado o que passam os soldados. Isso aí é muito perigoso? Não se exponha muito aos perigos para eu cá não estar em aflições, com receio que lhe aconteça alguma coisa de mal.

     Agora vou-lhe dizer que quando me escrever não me escreva pouco, quando recebo cartas gosto que elas sejam grandes. Portanto, já sabe: quando me escrever quero ver os aerogramas bem recheados de palavras e nada de muitos espaços vazios. Sou nova, mas você há de pensar que eu gosto de mandar; é verdade, pois o meu mal às vezes é ser muito franca com as pessoas e depois quem fica prejudicada sou eu.

     Por hoje é tudo, receba muitos abraços desta sua madrinha muito amiga.

                               

                                                    Fernanda

 

 

- E então, o meu amigo, mandou-lhe a fotografia…

- Sabes, as raparigas da Metrópole pensavam, decerto, que havia ali à mão fotógrafos ou coisa que o valha. Muitas vezes tínhamos de esperar um ror de tempo, pois era raro ver-se um estúdio fotográfico. Só nas cidades, e não era em todas! Bissau tinha um pouco de tudo, mas estava longe, inacessível.

- Mas existe muita fotografia desse tempo…

- Isso em parte é verdade, mas porque alguns militares, talvez os mais endinheirados e evoluídos, dispunham de uma máquina; outros ganhavam uns escudos com essa atividade extra – possivelmente já seriam amadores, ou profissionais, antes, não sei. O problema residia, sobretudo, em fazer chegar os negativos à cidade e obter os rolos para tirar novas fotos.         

 

*

      

     A luta armada tem o condão de endurecer o espírito dos humanos. Os mortos, os feridos, os desesperados, já quase não conseguiam comover-nos, impressionar-nos, como no início da comissão. O que agora ocupava todo o nosso cérebro era a ideia obsessiva da sobrevivência e do regresso. Os meses passavam, embora lentamente, e mais um dia de vida significava mais uma vitória individual. Ninguém falava em vencer a guerrilha, pois sabíamos, ou pensávamos, por razões óbvias, que vencê-la seria praticamente impossível. Eles não precisavam de muita gente no terreno; poucos, bem treinados, conhecedores da zona, espalhavam o terror pela região.

- Estava a tornar-se um caso político…

- Penso que sim. Aliás, tenho a certeza disso. Somente os membros do governo e os deputados, em Lisboa, capital do decadente Império, poderiam, através de negociações, chegar a um acordo razoável com os líderes do PAIGC. Porém, o governo português, chefiado pelo ditador Salazar, não queria ouvir falar em tais coisas! A sua maneira de pensar e de agir tinham ficado bem claras aquando da «Abrilada», em 1961, esboço abortado de golpe, encabeçado pelo Ministro da Defesa, general Botelho Moniz, cujo objetivo seria encontrar uma solução de tipo federativo para o Ultramar.

- Não queria estar na pele desse general…

- Não sei o que lhe aconteceu. O “iluminado” de Santa Comba pensava que o nosso exército, desde que bem apoiado e moralizado, com uma retaguarda eficaz, levaria de vencida «esses grupos terroristas» mal armados e insuficientemente preparados militarmente.

- O professor universitário beirão subestimava o inimigo.

 - Penso que sim. Esses “grupos” conheciam o terreno como ninguém, eram apoiados pelas populações, e alguns dos seus homens tinham sido treinados por soviéticos e cubanos; além disso, possuíam armamento desses países. Por outro lado, o exército português encontrava-se a combater em Angola desde 1961, Guiné-Bissau (1963) e Moçambique (1964): nada mais, nada menos, do que em três frentes simultaneamente!

- Era quase impossível manter essa situação por muito mais tempo… assevera o interlocutor.

- Portugal, país pouco relevante e de influência reduzida no contexto das nações, se o compararmos com as grandes e poderosas potências, tão pouco e desarmoniosamente desenvolvido, não conseguiria com certeza aguentar por muitos mais anos essa desgastante guerra, quer em termos humanos (os jovens cada dia escapavam em maior quantidade para o estrangeiro), quer em meios económicos e financeiros, pese embora o facto de se dizer agora que nos cofres do Banco de Portugal se guardavam toneladas e toneladas de ouro!     

- Existia ainda a pressão internacional…

– Sim, sim; o nosso país estava a ficar isolado. Mais: tinha sido, no ano de 1961, humilhado pela União Indiana, de Neru. Como esquecê-lo? Como fazer de conta que não acontecera?

- Uma coisa que nunca percebi foi o facto dos colonos brancos não se terem organizado num Partido forte e pegado em armas para defenderem as suas vilas e cidades, as suas propriedades, em suma…

- Nem eu, meu amigo, nem eu! Dependeram sempre daqueles que iam da Metrópole, como eu e outros, que nada tínhamos a ver com aquilo, a África para nós encontrava-se a uma distância de anos-luz, e nem sequer cumpriam o serviço militar, e se o cumpriam ficavam normalmente em sítios onde não havia tiros! Não se queriam comprometer? Esperavam, para verificar para que lado os pratos da balança pendiam? O governo central não o permitiu? O que é certo, é que na África do Sul brancos e negros convivem, embora com algumas dificuldades, que só o tempo, e o exemplo, apagarão da memória. Ao fim, e ao cabo, a cor da pele não pode, nem deve, ser um obstáculo no relacionamento entre as pessoas.  

- No meu fraco entender, essas interrogações jamais terão resposta convincente…

- Havia muitos interesses em jogo. Muitos brancos já não se consideravam portugueses!

    

     O jovem Henrique empolgava-se com a conversa. Não conhecia África, mas pelo que lera e ouvira dizer julgava-se apto a ter também a sua opinião. Comenta:

 

- O meu amigo esquece que Salazar nunca permitiria a fundação de um Partido político nas ex-colónias. Depois, quando chegou Marcelo Caetano ao poder, em 1968, já era demasiado tarde!

- Talvez tenhas razão. Não abordo mais esse polémico assunto. O nosso dever como soldados portugueses era combater o inimigo da pátria. Não nos encontrávamos na guerra para discutir política; o nosso humilde papel consistia em honrar a farda que trazíamos vestida e o nosso país. Obviamente que não se lutava nas colónias com a mesma garra que lutaram os primeiros portugueses contra os chamados mouros, ou depois, já no tempo de D. João I, contra os castelhanos. Contudo, alguns militares, graças à sua coragem, ou jovem loucura, ombrearam com esses ancestrais guerreiros. Proezas individuais surgiam aqui e ali, numa demonstração de brio e brava ousadia. Nasceram para serem heróis ou mártires!

- O Cândido gosta imenso de filosofar…

- Adoro discorrer sobre a História; mas estou a maçar-te com estas coisas… Desculpa!

- De maneira nenhuma! Estou fascinado. Continue, por favor.

 

*

 

- Noite em Cufar. O céu estava limpo e estrelado. Milhares e milhares de estrelas cintilavam, como que a tentar transmitir aos terrestres uma mensagem de paz e de amor. Encontrava-me de guarda num daqueles abrigos subterrâneos. Um pesado silêncio, pouco habitual, cobria todo o espaço em volta de mim, dando-me a incómoda sensação de que algo estava para acontecer. Confesso-te, não sou dotado de qualquer tipo de premunição, no entanto…

- Algo se estava a passar de estranho. O que aconteceu? – solicita Henrique, com ansiedade.

- Passados que foram alguns longos minutos, uma estranha luz aparece no céu. «De que se trataria?» - interrogo-me. Avião não era de certeza – estes fazem um barulho enorme ao cruzarem os ares; os cometas, bólides do espaço, deslocam-se tão rapidamente que logo surgidos desaparecem da nossa vista! Talvez um helicóptero. Eureka! – até já nos tinham falado neles. Possuíam um motor silencioso e vinham pura e simplesmente observar, espiar-nos.

- Parece mentira – exclama Henrique.

- Mas é a pura verdade! Esses «grupelhos de tanga», como eram designados pela tropa portuguesa, possuíam meios aéreos, embora limitados a este tipo de máquina. O início! É provável que não fossem os naturais da Guiné-Bissau, mas sim os seus aliados, a pilotá-los. De qualquer modo, não estavam assim tão atrasados como a malta pensava ao princípio da contenda.   

- Como reagiu?! – indaga o jovem, cada vez mais curioso.

- Deixei-o aproximar-se e, mesmo sabendo que quaisquer balas disparadas não o atingiriam, desfechei um carregador inteiro da metralhadora na sua direção. Os outros soldados começaram também a abrir fogo logo que se aperceberam do que estava a acontecer. O helicóptero, que se encontrava a uma altitude razoável, deu uma volta e retirou-se. Um dos meus camaradas sentinela, furioso, gritou: «Filho de uma cadela; se voltas, estoiro-te como a um sapo

- Claro que essa ameaça não passava de fanfarronice!...

- Obviamente. Onde estavam os mísseis para o derrubar? Na ocasião, somente o Super-Homem nos poderia valer, mas esse encontrava-se nos Estados Unidos da América.

- E não tinha pouco para fazer! – brinca Henrique.

- Mas continuando: uma grande e enigmática «operação» ganhava forma. Atuariam em conjunto, na mata do Cantanhez, três batalhões (cerca de dois mil homens), algumas Companhias isoladas, e a milícia de Catió, comandada pelo famosíssimo Pedro Bâkar.

- Esse nome não me é totalmente estranho…

- Esse pequeno homem, de cor negra, com a patente de alferes de milícias, tinha – segundo a voz corrente – a sua cabeça a prémio. O PAIGC temia-o, visto que ele, com o seu grupo de trinta homens, espingardas ao ombro, assemelhando-se a personagens de um filme de ficção científica, fazia mais estragos nas suas fileiras do que um batalhão do nosso exército!

- Caramba! Era um autêntico predador – explode Henrique, admirado com tanta ousadia e coragem.

- Conhecia, tão bem ou melhor do que eles, toda a região de Catió e sabia, por informes habilmente recolhidos, onde o inimigo tinha posições. O exército português cumulava-o de mimos e comentava-se à boca semicerrada que o governo subsidiava os estudos superiores de um filho seu.

- O Cândido conhecia-o?!

- Já o tinha visto noutra ocasião. A sua pele, de um negro luzidio, cobria um corpo apolíneo: magro, mas musculado. Os seus olhos davam logo a sensação de uma firmeza e vontade inigualáveis. Não parecia arrogante nem autoritário, porém as suas ordens eram prontamente acatadas e cumpridas.

- Um chefe!

- Um líder, como agora se diz. À sua volta parece que nos sentíamos mais seguros… O nosso comandante chamou-nos e disse-nos: «Hoje é um dia importante e especial para todos; vamos enfrentar uma força inimiga considerável, uma fortaleza quase inexpugnável e até agora invencível. Nada de receios. Connosco vão três batalhões e a milícia de Pedro Bâkar. Além disso teremos apoio aéreo e de artilharia pesada. A “ação” pode durar dois ou três dias, dependerá dos resultados obtidos. Vamos tentar cercar o inimigo, acossá-lo, desalojá-lo, abatê-lo, escorraçá-lo do Cantanhez. Peço-vos firmeza, coragem, brio; o soldado português é digno, valoroso, intrépido, e hoje mesmo porá à prova essas qualidades

- Belo discurso! Esse senhor podia ser deputado! 

- Também acho. Com ele na Assembleia ninguém dormia. Arrancamos. Junto ao cais de Catió estavam as lanchas blindadas à nossa espera. Do rio Combidjam passámos ao rio Cacine. Os marujos, cautelosos, sempre atentos, não tiravam os olhos das margens. A emboscada poderia surgir a todo o momento – nunca fiando!

- Até eu estou arrepiado! – diz Henrique, estremecendo ligeiramente.

- Desembarcámos por volta das duas horas da manhã. Enterrados na lama até à cintura lá fomos andando, andando, em fila indiana, agarrados uns aos outros para não nos perdermos. Milhares de aves pernaltas alimentavam-se regaladamente naquelas enormes extensões de lama, a que chamavam bolanhas, indiferentes à “tempestade” que se avizinhava. Pregaram-nos um grande susto: pareciam guerrilheiros a apontar as suas armas! Já tínhamos caminhado bastante quando a voz do colega que ia à minha frente me sussurra: «Ordem para parar, passa palavra.» Assim fiz, mas muito a contragosto, pois encontrava-me ainda no lamaçal e não era nada agradável aguardar ali naquele sítio infestado de mosquitos enormes, sedentos de sangue, e a entrar-me pelas narinas um cheiro nauseabundo a águas podres e fétidas.

- O que vocês sofreram!...

- Em breve soubemos a razão dessa ordem. Os canhões dos quartéis mais próximos começaram a canhonear sem descanso a mata ali a dois passos. Pareceu-me que estavam a destruir o mundo e que a abóbada celeste ruía e desabava sobre nós! O festival teve a duração aproximada de uma hora.

- Ficou tudo de rastos!... – assevera o jovem ouvinte.

- Muitas árvores caíram, como corpos sem vida, aumentando ainda mais o barulho ensurdecedor; as outras árvores choravam baixinho, como que pedindo à mãe natureza proteção. Os incêndios alastravam um pouco por toda a parte; o crepitar das chamas tornava tudo aquilo num espetáculo dantesco, e um certo silêncio, conivente, aterrorizava-nos.

- Que cenário fantástico!... Até parece irreal.

- Aquele aparente silêncio durou apenas minutos. Foi breve! O som de aviões a jato fez-se ouvir quase de seguida. A aviação militar colaborava freneticamente numa das maiores operações, senão a maior, que até aí se levara a cabo na ex-província portuguesa.

     Os ágeis aviões (chamávamos-lhes “fiats”, porque possuíam motor dessa marca), apareciam e desapareciam a uma velocidade jamais vista. Os seus canhões e metralhadoras de bordo disparavam ainda mais rápido, se possível! Tudo com uma precisão milimétrica. Parecia incrível, mesmo inacreditável, como não nos atingiam! Bastaria um pequeno erro e alguns de nós seriam cortados como batatas para fritar!

     Ao romper do dia os pilotos retiraram-se. Recebemos então ordens para avançar. Andámos mais ou menos quinhentos metros e eis que o tiroteio começa.

- Como era possível, depois daquele massacre?!

- Também eu me interrogo: como se podia admitir, depois daquilo tudo, haver ainda turras vivos?! Eu a pensar que tinham sido completamente dizimados. Mas, não, estavam ali à nossa espera, como gatos que já viveram seis vidas e a última que lhes resta querem-na vender bem cara, ou mesmo preservá-la.

     De pé, de rastos, de qualquer maneira, fomos avançando, avançando… Gritávamos como possessos a fim de afugentar o temor e porventura o inimigo. Ouviam-se gritos lancinantes por todo o lado. Havia feridos, mortos, desesperados. Era o caos, a loucura. Lembro-me de ter rebolado pelo chão à procura de um abrigo: uma árvore amiga, uma trincheira, bagabaga, a fim de proteger o meu corpo; o espírito estava destroçado!

 

     Henrique estava comovido com o relato do seu amigo. «As guerras são terríveis», pensava ele. E tudo se podia resolver a bem, se houvesse diálogo. Mas não, é através da violência que o ser humano tenta resolver e concertar tudo! Para desanuviar, pergunta ao antigo combatente:

 

- Pronunciou uma palavra para mim totalmente desconhecida. O que são bagabagas?!

 

- São termiteiras em forma de pirâmide ou cogumelo, construídas pela térmita ou formiga-branca, que chegam a atingir cerca de cinco metros de altura e cuja dureza faz lembrar o cimento.

- Daí vocês nelas se refugiarem… - conclui o jovem.

- Salvaram a vida a muitos soldados. As balas e as granadas de bazuca não penetravam a sua couraça. Somente as granadas de morteiro nos poderiam atingir, devido à sua trajetória. Mas continuando: levanto-me com mil cuidados e começo a disparar em direção a vultos que se movimentavam ali perto. Tão desesperado estava, e desenquadrado, que já não sabia se eram meus companheiros ou meus adversários. Deixei de dar ao gatilho. Uma voz amiga chama-me: «vem para este lado, encontras-te entre fogo cruzado

- Que perigo! Teve imensa sorte. Podia ter sido o seu fim.

- É verdade. A rastejar (afinal aqueles ensaios no CICA-1 e Infantaria 6 tinham servido para alguma coisa) lá me encaminho para a sua beira. Segreda-me: «os turras já fogem

     Nunca fui muito ousado, não tenho vergonha de o confessar. Porém, no meio da refrega, operava-se em mim uma verdadeira mudança, uma metamorfose completa: parecia, e era, outro! Agia segundo as ordens superiores recebidas e também de acordo com o meu instinto de sobrevivência. Não quero com isto dizer que aqueles que foram atingidos ou morreram fossem taradinhos, ineptos, que descurassem a sua auto defesa, que se deixassem atingir. Não! Quero dizer apenas que mesmo em guerra nunca se deve perder o sentido prático da vida. A cobardia, em um momento de desespero, pode transformar-se em um ato de coragem! Rastejar nas matas da Guiné-Bissau, esconder o nosso corpo das mortíferas balas, não pode ter o mesmo significado que ajoelhar ou ser subserviente a fim de conseguir benesses de um patrão ou de alguém influente na sociedade.

- Existe uma fronteira ténue entre o heroísmo e a cobardia. Quanto tempo permaneceram nesse local maldito?

- Não te querendo mentir, suponho que estivemos no Cantanhez dois dias e duas noites. A mim, como é óbvio, pareceu-me ter ali permanecido dois anos! Cheio de fome, de sede, de angústia, de cansaço, de tudo; a resistência, física e moral, estava a chegar quase ao fim, ao seu limite.

- E resultados? – quis saber Henrique.

- Segundo boatos que correram mais tarde, as coisas parece que não tinham resultado tão bem como os planos previamente elaborados o previam. Alguns mortos e muitos feridos do nosso lado; o mesmo acontecendo do lado oposto, eis o balanço final da peleja. Quanto aos custos financeiros da operação faço apenas uma leve ideia.        

- Então não houve vencedor?!

- Nunca soube, e decerto jamais o saberei, se fomos nós os vencedores ou os vencidos! Quanto a mim houve uma espécie de empate mas, ao invés do que se passa no desporto, onde por vezes esse resultado agrada às duas partes, na guerra real o empate não agrada a ninguém. Os generais contendores só aceitam bem a vitória.

     Penso que não valerá a pena estar a descrever-te em pormenor a batalha. Aliás, os filmes, sobretudo sobre a guerra no Vietname (respeitando as devidas proporções), com requintes tecnológicos, e efeitos especiais, dar-te-ão as imagens que eu não seria capaz de te dar. Nesta conversa informal não posso, nem terei capacidade e talento para te transmitir o ambiente psicológico, o drama de jovens a quem não deixaram gozar a vida a que tinham direito, a indignação versus resignação contida em nossos olhares. Ah! meu jovem amigo: estúpida guerra que tanta juventude ceifou ingloriamente, e tantos males, físicos e morais, causou!

- Como vocês sofreram! – diz Henrique, com voz plangente.

- É verdade. Na flor da idade, meu amigo. Mas, para que não penses que quero calar tudo aquilo que vi e assisti, dir-te-ei apenas que o combate do Cantanhez teve uma face dura, cruel, inumana. Os piores instintos do homem vieram à tona. Não se encontravam ali humanos a lutar, mas sim feras indomáveis, tigres rasgando as entranhas da presa capturada! A raiva superou sempre a lucidez; o medo não conseguiu paralisar o dedo colado ao gatilho; a fúria imperou sobre a prudência e o bom senso!

- A mocidade, sangue na guelra!...

- Sem dúvida. E também interesses de vária ordem estavam em jogo. As grandes potências capitalistas estavam com o olho em África. Há ali muita riqueza para ser explorada. Portugal não se aproveitava, nem deixava os outros fazê-lo! Daí os movimentos de libertação terem apoios impensados há alguns anos atrás. Mas continuando a narrativa:

     Embora se ouvissem ainda tiros e gritos aqui e ali, retirámos, já ao entardecer, não sem cautelas, e lentamente aproximámo-nos do rio, a fim de embarcarmos. Mal avistámos os barcos da marinha o nosso estado de espírito melhorou um pouco, o nosso coração deixou de bater tão apressadamente.

- Era quase como sair do inferno!

- A viagem de retorno, como deves calcular, não teve alegria, mas sim abatimento, tristeza. Os nossos camaradas evacuados para o hospital e o quase esgotamento não o consentiam. Queríamos dormir, mas as embarcações, demasiado exíguas para tanta farda, não o permitiam. Encostados uns aos outros, suportando a custo aquele cheiro desagradável a catinga, a bodum, de corpos sem higiene, semicerrávamos os olhos e logo imagens terríficas, assustadoras, surgiam na nossa mente algo perturbada. O pânico apoderava-se de nós. Só espíritos muito fortes, sãos, conseguiriam ultrapassar este mau momento. E não seria o único! Outras escaramuças, acirradas pelejas, brigas mil, já se desenhavam no horizonte próximo.

- Nem é bom pensar nisso! – exclama Henrique, como se ele próprio fosse viver aqueles momentos aflitivos.

- Como eu gostaria que os portugueses de Quatrocentos não tivessem pisado o funesto solo africano. Agora estávamos nós ali, naquele bosque letal, sofrendo as consequências, os efeitos e infortúnios, desse ato aventureiro e irracional. Por que é que D. João I e os reis seguintes não procuraram desenvolver o Portugal ibérico, deixando a quente África aos africanos? Quiseram dar ao mundo “novos mundos” e aos filhos da nação, a partir daí, deram atroz sofrimento e a terrível morte!

- Graças a essas aventuras, temos «Os Lusíadas», de Camões, e outras obras importantes da literatura portuguesa – contrapõe Henrique.

- É verdade. Eu adoro a obra de Luís Vaz, mas apesar disso não sei se a “troca” compensa. A vida e a felicidade são os bens mais preciosos que há. Ainda dizem que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos! Eu diria: «De África só desgraça e carraça!» Quantos portugueses morreram por causa das designadas possessões ultramarinas? Terão conta, ao longo destes séculos? Acredita: os que mais defenderam a sua manutenção não puseram, jamais, lá os seus macios pés, nem pegaram numa arma para as defender. Limitaram-se a produzir verborreia sem sentido, discursos ocos, como o seco limão!                            

- Mas a História é a História, e reis e chefes de Estado ambiciosos e tolos sempre houve, há e haverá – sentenciou Henrique, depois de ter bebido duas imperiais e uma caneca. Não era hábito, porém, naquele dia, precisava de mais álcool, aquela batalha do Cantanhez mexera com ele, botara-o abaixo.

 

     Mais calmo, Cândido condescendeu:

 

- Talvez tenhas razão: hoje sabe-se que os portugueses, e castelhanos, nada descobriram – esses lugares longínquos já tinham sido descobertos há muito tempo! Contactar, seria o verbo correto. Os portugueses contactaram esses povos, não os acharam. Os asiáticos estavam no continente americano (peles vermelhas e esquimós), e o continente africano, todo ele, era conhecido e habitado.

- Até há quem afirme que foi em África que apareceram os primeiros seres humanos – lembra Henrique, já a bocejar.

- É bem possível, mas nessa área do conhecimento ainda há muito a investigar. Darwin não sugeria, no século passado, que o Homem descende do macaco?! Mas olha que não sei: penso que o ser humano veio de um planeta distante, aqui teve de descer por motivos que ora desconhecemos e por aqui foi ficando. Como eram só machos, procriaram com macacas, e daí alguns de nós parecermos símios! De outro modo não se compreenderia a diferença existente entre nós e os restantes animais.

- Pensa que há assim uma tão acentuada diferença?!

- Haver, há – salta à vista! Nós falamos, lemos, escrevemos, fundamos cidades, museus, bibliotecas; criámos a História e outras ciências; temos infinita curiosidade; vamos por esse espaço à procura de outros seres… Enfim, somos mesmo diferentes. Mas com tudo isto já perdi o fio à meada.

- Estava a dizer-me…

- Ah! Já sei: … e porque os meios de transporte tornavam as viagens prenhes de inesperados perigos, onerosas e demoradas, aí sim, os nautas lusos tiveram um papel de certa monta, de relevo, na aproximação dos povos. Por outro lado, o intercâmbio de conhecimentos, de ideias, de culturas, torna-se sempre vantajoso para ambas as partes. Porém, os portugueses jamais deveriam passar disso. Comércio, amizade, deveria ter sido o bastante, o suficiente. Ter-se-iam poupado vidas e haveres, e o nosso Portugal teria crescido economicamente, como outros territórios se desenvolveram por essa Europa fora. Nós, que fomos uma potência mundial, somos hoje um país pobre e atrasado!

- Está a pôr em causa todo o pensamento de uma época!... – observa Henrique, preocupado.

- Sem dúvida, meu caro amigo. Porque não? Relativamente à posse da terra, à escravatura (batem palmas ao infante D. Henrique), à conquista pelas armas, à imposição de ideias, ideologias, religião, costumes, língua, cometeu-se, quanto a mim, um erro crasso que nos custou, e está a custar, muito caro.

- Não aos poderosos, Cândido; nem aos ambiciosos. E a Igreja Católica expandiu-se… - contra-ataca o jovem.

- Nos nossos dias já nada resta desse antigo império…

- A língua portuguesa, essa ficou…

- À custa de muita seiva humana, muito sofrimento, sangue derramado. Teria valido a pena? É certo que o poeta Fernando Pessoa escreveu: «tudo vale a pena quando a alma não é pequena…»

   Seria a alma dos portugueses assim tão grande que um minúsculo rincão não lhes bastava, só o mundo os satisfazia? Que me interessa a mim que se fale português no Brasil? Que ganho eu com isso? Que ganha Portugal com isso? Vendemos-lhes dicionários de língua portuguesa? Não! Vendemos-lhes livros dos nossos escritores? Meia dúzia! Vendemos-lhes telenovelas? Pelo contrário, são eles que nos invadem com as suas. Veem o nosso cinema? Duvido.

     Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, têm como língua oficial o português, mas apenas uma ínfima percentagem o fala! O nosso país ganhará com isso?                   

- Penso que sim – diz Henrique, num tom calmo, imparcial, para não magoar o amigo – mas só o futuro o dirá.

- Amigo Henrique: se ganhássemos algo com isso não estaríamos tão atrasados e não pediríamos tanto aos demais países europeus. Que nos deu o Brasil a partir da sua independência? Que nos vai dar Angola, São Tomé…? Nada! Os seus governos, à exceção do brasileiro, verdade seja dita, estão constantemente a estender a mão a Portugal. A nós, que não temos onde cair depois de mortos!

 

     Aqui Henrique empertigou-se:

 

- O meu amigo é impiedoso! Essa ajuda, ou solidariedade, melhor dito, cooperação, como a queira designar, é temporária, só enquanto não se modernizam, não criam as suas próprias infraestruturas. Depois pagarão com juros as suas dívidas. Esquece-se, porventura, que Angola tem imensas riquezas: petróleo, diamantes, madeiras de grande qualidade, um terreno agrícola extraordinário, pesca abundante… tudo! Moçambique, se for bem administrado, também se tornará num dos países mais ricos de África.

 

     Cândido, num tom mais moderado, responde-lhe:

 

- Quando já não precisarem de nós, viram-nos as costas. A língua inglesa espalha-se pelo planeta pela via erudita, não pelas armas. Não deve haver nenhum estudante por esse mundo fora que não a estude, tornando-se um potencial consumidor dos produtos ingleses e americanos. Mas nós… Que temos nós para exportar? Só se for malandrice, a lusa manha! A nossa indústria, e a nossa agricultura, são o que são. E depois de termos perdido tudo, herdamos obrigações – morais e materiais – que perduram e perdurarão por muitos e muitos séculos.

- A que se refere concretamente? – pergunta o jovem, algo perturbado.

- Refiro-me aos africanos das antigas colónias. Muitos deles, milhares, depois da descolonização e independência, refugiaram-se em Portugal e por aqui vão permanecendo, desenraizados. Em Lisboa e arredores: Almada, Amadora, Odivelas, Sacavém, Loures, eu sei lá bem, e até um pouco por todo o país, instalam-se em barracas e habitações degradadas, desta maneira aumentando incomensuravelmente as dificuldades dos municípios em termos de habitação e segurança, não falando já na estética. Vieram também gerar inúmeros problemas sociais: são as escolas, os centros de saúde, os hospitais, que veem em pouco tempo aumentar o número de utentes; são os empregos que faltam; o crime que cresce dia a dia; são os seus costumes que chocam, colidem, com os dos autóctones; o problema da língua, pois a maioria não falava, por incrível que isso pareça, português, utilizando o crioulo. Por outro lado, as mulheres africanas dão à luz um filho praticamente todos os anos e durante vários anos. Isso significa que dentro de vinte ou trinta anos Portugal não terá capacidade económica para assegurar a toda a população um nível de vida adequado. E a Segurança Social? Aguentar-se-á com tanta despesa?

     Será novamente a emigração, a debandada para outros países mais ricos? Mas como, se as novas tecnologias reduzem o número de operários? Será que a Alemanha, a França, a Suíça, precisam de mão-de-obra portuguesa?! Qualquer dia nem o Canadá, ou os Estados Unidos, necessitarão de operários estrangeiros.

 

      Henrique (embora reconhecendo algumas verdades no raciocínio de Cândido), não quer dar o braço a torcer, e replica:

 

- O meu amigo Cândido é um pessimista. Traça e prevê um futuro apocalíptico, catastrófico, para Portugal. Não considera que os portugueses poderão um dia emigrar para esses novos países africanos? Eles vão precisar de mão-de-obra especializada, de tecnologia, de engenheiros e arquitetos, de professores, de médicos, enfermeiros…

 

     Cândido não se dá por vencido com esse argumento:

 

- Só o amanhã o dirá, só o amanhã o dirá… Mas não te esqueças de que outros países mais poderosos do que o nosso, tais como a China e o Japão na Ásia, os Estados Unidos na América, a Inglaterra, Alemanha e França na Europa, Rússia etc., com outros recursos, quer científicos, quer tecnológicos, aguardam com extrema paciência, e perspicácia, a oportunidade para entrarem com armas e bagagens nesses territórios africanos, recentemente elevados a Estados.

- Haverá lugar para todos. O Cândido revela uma pontinha de racismo!

- Não! Tudo depende do ponto de vista. Racista? De modo algum. E penso que o povo português, de uma maneira geral, também não o é. A prova disso consiste no facto de diariamente: nos transportes públicos, nos centros comerciais, nos cinemas, em todo o lado, convivermos com indivíduos de outras raças não os hostilizando. Além disso, o nosso Governo e a nossa Assembleia da República nunca legislaram no sentido de expulsar estrangeiros do solo pátrio, mesmo aqueles que o mereciam. Mais: já começa a ser vulgar vermos rapazes negros a namorar com raparigas de raça branca, e vice-versa. Olha que no continente africano é quase um fenómeno assistir-se a isso. Crê-me: reconheço que era difícil a esta gente permanecer em Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné e cabo Verde, depois da descolonização.

- Posso saber por quê?

- Por duas razões fundamentais: a primeira porque muitos deles estavam demasiado ligados, de uma forma ou de outra, ao regime salazarista para não virem a sofrer retaliações, represálias, por parte dos Partidos que ascenderam ao poder; a segunda, porque os restantes, não quiseram participar num conflito entre irmãos, ou seja, na guerra civil (casos de Angola e Moçambique). Quanto a Cabo Verde, como sabes trata-se de um país muito pobre, sem grandes riquezas no subsolo, sem chuvas normais, pouco desenvolvido. Quando conseguirem, com a ajuda da tecnologia estrangeira, tornar a água do mar potável, então sim, esse arquipélago poderá crescer economicamente. Enquanto aguardam essa ajuda terão de viver quase exclusivamente da emigração, da pesca, do turismo, e pouco mais.

- O meu amigo Cândido omitiu o povo de Timor. Também temos alguns timorenses em Portugal.

- Sim, ia-me esquecendo deles. De qualquer modo, o seu número não é significativo e pelo que tenho observado logo que lhes seja possível regressarão à sua pátria. Por outro lado, estão muito próximo da Indonésia e da Austrália, pelo que a influência desses países far-se-á notar de imediato, e eles, pouco a pouco, irão esquecendo Portugal.           

 

*

 

     Depois desta conversa fiada, amigo Henrique, quase me ia esquecendo do ano de 1966 e da Guiné-Bissau. É nesse território e nesse tempo que devo permanecer e não me obrigues, peço-te encarecidamente, a fugir à história que prometi contar-te.

     Pois bem: depois de umas horas de barco, viatura e algum trajeto a pé, lá chegamos a Cufar, ao nosso famigerado “quartel”. Abraçamos comovidamente os colegas que tinham ficado, tomámos uma banhoca sob os bidões previamente esburacados para o efeito, comemos uma refeição quente e deitámo-nos. Logo que acordei, li as cartas dos familiares e das madrinhas. Trouxe uma delas para ler. Queres…?

- Estou em pulgas…

- Ouve então, por favor:  

    

Querido afilhado

 

      Recebi a sua carta e peço desculpa de só agora lhe responder, mas como tenho muito serviço, naturalmente que me compreende e perdoa. Neste momento não lhe posso mandar a minha foto, pois é impossível; como estou empregada, quando saio do emprego já os estúdios dos fotógrafos estão fechados, e por isso vai ter de esperar. Aproveitarei um dia que saia mais cedo… Para a próxima carta mando-lha, está bem?

     Então como tem passado? Deus queira que quando esta receba esteja de boa saúde, esse o meu ardente desejo; olhe que, todas as noites, rezo por si e por todos os soldados que lutam aí. Daqui foram muitos para a Guiné, Angola e Moçambique, felizmente não lhes aconteceu mal nenhum, alguns já eram casados quando foram, desses ainda tinha mais pena, porque já possuíam um lar e filhos, e não sabiam se voltariam ou não.

     Neste bocadinho de espaço vou falar-lhe um pouco do meu passatempo favorito: gosto imenso de colecionar fotos de artistas, tanto nacionais como estrangeiros, sou associada do clube de fãs do Conjunto Académico de João Paulo, já tenho imensas fotografias deles. Para mim são os melhores. Já ouviu falar? Claro que já – quem não ouviu? Também gosto de ouvir cantores estrangeiros e de ver cinema.

     Por hoje é tudo. Receba muitos abraços da madrinha muito amiga – e talvez a mais novinha!

                         Fernanda 

 

 

- Ela desconfiava que o meu amigo Cândido tinha outras madrinhas de guerra!

- Julgo que não. Ela estava a tentar tirar nabos da púcara: queria saber se namorava, se me escrevia com outras… Faz parte da psicologia feminina.

- Mas pensa que ela queria namorar consigo?

- Não sejas impaciente; aguarda as próximas cartas. Agora vou prosseguir, se me deres licença: ainda estivemos na “terra da morte” mais uns dias. Fizemos algumas incursões na selva, não com a envergadura da outra, houve alguns recontros com a guerrilha, sem graves consequências, andámos novamente muito perto da aldeia dos macacos, fomos uma ou outra vez a Catió, abatemos uma serpente com vários metros de comprimento, corpulenta, que se tinha atravessado no nosso carreiro, pregando-nos um enorme susto, pois nunca tínhamos visto nada igual, nem no Jardim Zoológico, e corria a lenda de que estes répteis engoliam pessoas! Finalmente apareceu uma Companhia para nos substituir. O nosso destino seria o norte: as densas matas de Teixeira Pinto (Canxungo), Calequisse, Caió, Bula, Cacheu – uma vasta zona.

                 

continua...

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