ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
14.º Capítulo
TERRA DA MORTE
A tarde na capital do país estava
cinzenta, ameaçava chuva e trovoada, e o Cândido sem vir. O que lhe acontecera?
Não era costume esperar tanto tempo por ele. De repente avista-o ao virar da esquina.
Vinha apressado. Sentou-se e pediu desculpa pelo atraso. Explicou o que lhe
tinha sucedido, nada de grave, coisas que acontecem.
O amigo deixou-o descansar um pouco e depois
perguntou-lhe:
- Fizeram o percurso de Catió a Cufar ainda
durante o dia?
- Sim, mas chegámos à noitinha. Fomos
recebidos em verdadeira apoteose. E justificava-se essa euforia: íamos
proporcionar a praças, sargentos e oficiais a sua colocação noutra zona menos
perigosa, ou talvez o regresso à Metrópole se a sua prestação de serviço estivesse
no fim.
- E as instalações, como eram?
- O quartel de Cufar, de quartel, a bem
dizer, nada tinha! Tratava-se de velhas ruínas de um edifício, outrora uma
fábrica de óleo de amendoim, rodeadas de arame farpado. A água para consumo e
higiene era extraída de um fundo poço, mas a sua cor, cheiro e gosto, deixavam
muito a desejar. Que saudades da água da minha terra: da Fonte da Vila, da Fonte
do Vido, fresca e leve, sem sabor, sem quaisquer cheiros, com ela faziam-se
refrescos divinais. Que saudades!
- Era mesmo o inferno!... – proclama Henrique, cheio de pena.
- Podes crê-lo. Camas… não havia!
Dormia-se em colchões de borracha, os quais tínhamos primeiro de encher com o
ar dos nossos pulmões: soprávamos, soprávamos, até ficarmos exaustos. Durante a
noite acordava-se alagado em suor. O mosquiteiro de nada servia, visto não
haver estrutura de suporte – as melgas assassinas tinham o seu alimento garantido.
Os víveres e demais material chegavam de helicóptero ou avioneta; por
transporte terrestre seria impossível – as perdas em vidas e bens seriam
elevadíssimas. Nessa zona vivia-se em beligerância permanente e feroz. Outra
coisa, porém, não se esperaria, pois olhando para o mapa vê-se que Cufar se
situa bem perto da República da Guiné, país que sem rebuço apoiava a guerrilha
anti portuguesa.
- Compreende-se: queriam a África para
os africanos negros – acrescenta
Henrique, até ali silencioso e atento.
- Eu hoje também aceito em parte essa
teoria, apesar de considerar que o planeta Terra é de todos, cada qual deve
residir onde bem lhe agrada, se não prejudicar, claro está, os outros. Porém,
nessa altura, quem sofria as consequências dessa ajuda éramos nós! Enfim! São
coisas para esquecer.
Na primeira noite que aí permaneci acordei deveras sobressaltado, meio
sonâmbulo, com o barulho ensurdecedor dos obuses e canhões que do improvisado
aquartelamento se disparavam para o interior da mata. Até dava a impressão de
que se estava a travar uma guerra contra os fantasmas da noite que habitavam a
floresta profunda!
Os holofotes, colocados estrategicamente, iluminavam todo o terreno à
volta, mas mesmo assim convinha prevenir.
- Mas, com tanta luz, davam ao inimigo
a vossa localização!
- Não se pode dizer que estivéssemos à
mercê do “infiel”, pois de dez em dez
metros existiam abrigos subterrâneos (não
como os atuais, cómodos e à prova de bombas atómicas), nos quais se
encontravam soldados bem armados e de ouvido à escuta.
- E como é que comunicavam entre si?
- Em lugar do tradicional «sentinela à alerta» e «alerta está» ouvia-se o matraquear
caraterístico das metralhadoras G-3!
Um episódio gravou-se para todo o
sempre na minha mente: a fuga de dois prisioneiros através do arame farpado!
Estávamos perante uma autêntica proeza, uma façanha inédita. Os tipos, apesar
da pele rasgada e sangrando com abundância, fugiam velozmente pelo meio do
capim em direção à mata. Pareciam lebres ou galgos! As balas das metralhadoras
logo que nos apercebemos da fuga, buscaram, sôfregas, os seus corpos.
- Atingiram-nos?
- Nunca soubemos se escaparam ou não –
quem se atreveria a transpor o arame para confirmar? Para lá da clareira era a
floresta, e aí espreitava de forma permanente o perigo.
De Cufar fazíamos regularmente incursões até à fronteira com a
Guiné-Konacri. Pelo caminho, armadilhas colocadas aqui e ali iam ferindo, ou
matando, alguns dos meus camaradas. Quando isso acontecia, improvisavam-se
macas com ramos verdes e chamava-se, pela rádio, o helicóptero para levar as
vítimas para o Hospital.
Os enfermeiros da Companhia, um cabo e dois soldados, por sinal muito
corajosos, à exceção do furriel, que era um medricas, e cujos conhecimentos de
enfermagem deixavam muito a desejar, raras vezes nos acompanhando, acudiam aos
feridos consoante as suas possibilidades. Os nossos adversários aproveitavam
esta situação algo confusa para iniciarem um ataque que, muitas vezes, durava
duas ou três horas!
- Eles conheciam, certamente, muito bem
o terreno – vocês não tinham hipóteses!
- Nenhumas! Numa dessas batidas, todos
caminhando em fila indiana, eu ia em quarto lugar. De repente deu-se uma forte
explosão. Fomos atirados em pirueta a metros de distância. Levanto-me, apalpo
todo o meu corpo, e verifico que felizmente não tinha sido atingido por
estilhaços. Os três da frente, entre os quais o alferes Bizarro, não tiveram a
mesma sorte. Os fragmentos das granadas inimigas, armadilhadas por hábeis mãos,
alojaram-se profundamente nos seus frágeis corpos. Apelou-se de imediato ao
helicóptero. O oficial, que integrara a Companhia quando já nós estávamos em
África havia dois meses, soubemo-lo mais tarde, teve de ir para Lisboa, pois o
seu estado inspirava cuidados.
- E quanto aos soldados?
- Um deles encontrei-o há pouco tempo,
num desses almoços anuais: anda numa cadeira de rodas! Era um latagão. Mete dó.
- O Estado dá-lhe alguma coisa de
jeito?
- Uma miséria, segundo ele nos disse.
Vai sobrevivendo! Bem, por hoje dou por terminada a narrativa, vem aí a noite,
temos de ir jantar, amanhã é mais um dia de trabalho e de estudo.
- Se nos saísse a taluda não
precisaríamos mais de trabalhar!...
- Essa só sai aos ricos, àqueles que
jogam forte; de quando, em vez, compro uma cautela, mas nem a terminação!
Dias
depois…
-
Caro amigo Henrique: como nem só de violência vive o homem, quero falar-te
novamente das madrinhas de guerra, e aproveito o ensejo, se mo permites, para
lembrar agradecido o bem que nos fizeram. O seu papel foi muito importante,
sobretudo no que diz respeito à suavização dos sacrifícios por nós suportados.
Quando chegávamos de uma «operação»
tínhamos à nossa espera as tão almejadas cartas, ou aerogramas, conhecidos
entre nós por «poupa selos», «papa-léguas», «bate-estradas», cuja agradável
leitura servia de bálsamo às tristezas e saudades dos familiares, da terra e
dos amigos.
- Como é que vocês obtinham as moradas?
– pergunta Henrique, intrigado.
- Fácil. Algumas raparigas eram da
nossa terra; logo, sabendo o seu nome completo, estava tudo resolvido. As que
não eram da nossa terra, conseguíamos a sua morada e nome através de soldados
seus conterrâneos.
- Havia trocas, então!
- Exatamente. Destarte, eu tive a felicidade
de me corresponder com madrinhas de Coimbra, do Porto, de Lisboa, do Minho, e
até de França! Ao todo foram sete, como no outro dia te contei.
- Eram uma espécie de namoradas?!
- Não as considerávamos tal, apesar de
alguns rapazes virem mais tarde a casar com a sua madrinha de guerra – penso
que se tratava de exceções. A nossa vida no ultramar era tão fugaz, tão
instável, que seria da nossa parte quase criminoso estar a fazer promessas e
juramentos a moças tão puras.
- Mas nem todos morriam, ou ficavam
feridos – concluiu Henrique.
- Tens toda a razão, a maioria
regressou a Portugal com o seu corpo inteiro; mas essas raparigas da província
não teriam, nessa época, quaisquer dificuldades em ficarem noivas de emigrantes,
e não deveríamos ser nós, egoisticamente, a evitá-lo, ou a adiar, tal casamento.
Para aqueles que regressavam sem
mazelas, a vida profissional só se equilibraria passados anos – raros voltavam
ao trabalho ingrato do campo ou ao labor sujo e por vezes mal remunerado da
oficina. Aspirava-se a outros espaços, normalmente a cidade, a outros horizontes.
- E o tal amor à terra de nascimento?!
- Nunca ouviste dizer: «santos da casa não fazem milagres?» A
nossa terra natal, quase sempre madrasta, já não nos cativava com caráter
permanente. A pobreza, aquela pobreza consentida e envergonhada, deixava de
fazer sentido. Tínhamos lutado em uma guerra, depois dela iríamos iniciar
outra: esta, mais pacífica, mais previsível, mas nem por isso menos
dificultosa! Além disso, com o pronto-a-vestir, as alfaiatarias tendem a
encerrar – é o progresso!
- Já que quis abordar esse assunto,
pedia-lhe que me lesse mais uma carta dessa sua madrinha.
- Terei todo o gosto. Ouve:
Querido afilhado
Recebi o seu aerograma, no qual vi
que estava de boa saúde; dou graças a Deus, pois é esse o meu desejo. Pelo que
me mandou dizer, quanto a ser jornalista, não me expliquei bem; nunca me passou
pela cabeça ser tal coisa. Que eu tivesse jeito está certo, pois como aqui na
minha terra é um meio pequeno a gente sabe tudo, e quando vou para casa conto
essas novidades, e lá dizem-me que podia ter essa prestigiada profissão.
Afilhado, a sua muito estimada madrinha
pede que lhe mande uma foto; já sei o seu nome, agora falta-me conhecê-lo.
Depois eu mando-lhe a minha, mas é quando tiver tempo para a tirar, pois sou um
pouco alérgica a tirar fotografias,
mas desde já o aviso que não sou nenhuma beldade, como as artistas de cinema.
Então o seu coração não o enganou quanto a
eu lhe escrever, mas também não se enganou ao pensar que sou muito sentimental;
há pessoas no emprego onde estou que me dizem que isso já passou de moda,
encolho os ombros e não me interessa o que dizem, gosto muito da solidão, pois
assim já a gente pensa à nossa vontade, mas também gosto de conviver com a
minha família e com os meus amigos.
Manda-me dizer que está no mato, por os
filmes que vejo, ou certos documentários, tenho verificado o que passam os
soldados. Isso aí é muito perigoso? Não se exponha muito aos perigos para eu cá
não estar em aflições, com receio que lhe aconteça alguma coisa de mal.
Agora vou-lhe dizer que quando me escrever
não me escreva pouco, quando recebo cartas gosto que elas sejam grandes.
Portanto, já sabe: quando me escrever quero ver os aerogramas bem recheados de
palavras e nada de muitos espaços vazios. Sou nova, mas você há de pensar que
eu gosto de mandar; é verdade, pois o meu mal às vezes é ser muito franca com
as pessoas e depois quem fica prejudicada sou eu.
Por hoje é tudo, receba muitos abraços
desta sua madrinha muito amiga.
Fernanda
- E então, o meu amigo, mandou-lhe a
fotografia…
- Sabes, as raparigas da Metrópole
pensavam, decerto, que havia ali à mão fotógrafos ou coisa que o valha. Muitas
vezes tínhamos de esperar um ror de tempo, pois era raro ver-se um estúdio fotográfico.
Só nas cidades, e não era em todas! Bissau tinha um pouco de tudo, mas estava
longe, inacessível.
- Mas existe muita fotografia desse
tempo…
- Isso em parte é verdade, mas porque
alguns militares, talvez os mais endinheirados e evoluídos, dispunham de uma
máquina; outros ganhavam uns escudos com essa atividade extra – possivelmente
já seriam amadores, ou profissionais, antes, não sei. O problema residia, sobretudo,
em fazer chegar os negativos à cidade e obter os rolos para tirar novas fotos.
*
A luta armada tem o condão de endurecer o espírito dos humanos. Os
mortos, os feridos, os desesperados, já quase não conseguiam comover-nos,
impressionar-nos, como no início da comissão. O que agora ocupava todo o nosso
cérebro era a ideia obsessiva da sobrevivência e do regresso. Os meses
passavam, embora lentamente, e mais um dia de vida significava mais uma vitória
individual. Ninguém falava em vencer a guerrilha, pois sabíamos, ou pensávamos,
por razões óbvias, que vencê-la seria praticamente impossível. Eles não precisavam
de muita gente no terreno; poucos, bem treinados, conhecedores da zona,
espalhavam o terror pela região.
- Estava a tornar-se um caso político…
- Penso que sim. Aliás, tenho a certeza
disso. Somente os membros do governo e os deputados, em Lisboa, capital do
decadente Império, poderiam, através de negociações, chegar a um acordo
razoável com os líderes do PAIGC. Porém, o governo português, chefiado pelo
ditador Salazar, não queria ouvir falar em tais coisas! A sua maneira de pensar
e de agir tinham ficado bem claras aquando da «Abrilada», em 1961, esboço abortado de golpe, encabeçado pelo
Ministro da Defesa, general Botelho Moniz, cujo objetivo seria encontrar uma
solução de tipo federativo para o Ultramar.
- Não queria estar na pele desse
general…
- Não sei o que lhe aconteceu. O “iluminado” de Santa Comba pensava que o
nosso exército, desde que bem apoiado e moralizado, com uma retaguarda eficaz,
levaria de vencida «esses grupos
terroristas» mal armados e insuficientemente preparados militarmente.
- O professor universitário beirão
subestimava o inimigo.
-
Penso que sim. Esses “grupos”
conheciam o terreno como ninguém, eram apoiados pelas populações, e alguns dos
seus homens tinham sido treinados por soviéticos e cubanos; além disso,
possuíam armamento desses países. Por outro lado, o exército português encontrava-se
a combater em Angola desde 1961, Guiné-Bissau (1963) e Moçambique (1964):
nada mais, nada menos, do que em três frentes simultaneamente!
- Era quase impossível manter essa
situação por muito mais tempo… assevera o interlocutor.
- Portugal, país pouco relevante e de
influência reduzida no contexto das nações, se o compararmos com as grandes e
poderosas potências, tão pouco e desarmoniosamente desenvolvido, não
conseguiria com certeza aguentar por muitos mais anos essa desgastante guerra,
quer em termos humanos (os jovens cada dia
escapavam em maior quantidade para o estrangeiro), quer em meios económicos
e financeiros, pese embora o facto de se dizer agora que nos cofres do Banco de
Portugal se guardavam toneladas e toneladas de ouro!
- Existia ainda a pressão
internacional…
– Sim, sim; o nosso país estava a ficar
isolado. Mais: tinha sido, no ano de 1961, humilhado pela União Indiana, de
Neru. Como esquecê-lo? Como fazer de conta que não acontecera?
- Uma coisa que nunca percebi foi o
facto dos colonos brancos não se terem organizado num Partido forte e pegado em
armas para defenderem as suas vilas e cidades, as suas propriedades, em suma…
- Nem eu, meu amigo, nem eu! Dependeram
sempre daqueles que iam da Metrópole, como eu e outros, que nada tínhamos a ver
com aquilo, a África para nós encontrava-se a uma distância de anos-luz, e nem
sequer cumpriam o serviço militar, e se o cumpriam ficavam normalmente em
sítios onde não havia tiros! Não se queriam comprometer? Esperavam, para
verificar para que lado os pratos da balança pendiam? O governo central não o
permitiu? O que é certo, é que na África do Sul brancos e negros convivem,
embora com algumas dificuldades, que só o tempo, e o exemplo, apagarão da
memória. Ao fim, e ao cabo, a cor da pele não pode, nem deve, ser um obstáculo
no relacionamento entre as pessoas.
- No meu fraco entender, essas
interrogações jamais terão resposta convincente…
- Havia muitos interesses em jogo.
Muitos brancos já não se consideravam portugueses!
O jovem Henrique empolgava-se com
a conversa. Não conhecia África, mas pelo que lera e ouvira dizer julgava-se
apto a ter também a sua opinião. Comenta:
- O meu amigo esquece que Salazar nunca
permitiria a fundação de um Partido político nas ex-colónias. Depois, quando
chegou Marcelo Caetano ao poder, em 1968, já era demasiado tarde!
- Talvez tenhas razão. Não abordo mais
esse polémico assunto. O nosso dever como soldados portugueses era combater o
inimigo da pátria. Não nos encontrávamos na guerra para discutir política; o
nosso humilde papel consistia em honrar a farda que trazíamos vestida e o nosso
país. Obviamente que não se lutava nas colónias com a mesma garra que lutaram
os primeiros portugueses contra os chamados mouros, ou depois, já no tempo de
D. João I, contra os castelhanos. Contudo, alguns militares, graças à sua
coragem, ou jovem loucura, ombrearam com esses ancestrais guerreiros. Proezas
individuais surgiam aqui e ali, numa demonstração de brio e brava ousadia. Nasceram
para serem heróis ou mártires!
- O Cândido gosta imenso de filosofar…
- Adoro discorrer sobre a História; mas
estou a maçar-te com estas coisas… Desculpa!
- De maneira nenhuma! Estou fascinado.
Continue, por favor.
*
- Noite em Cufar. O céu estava limpo e
estrelado. Milhares e milhares de estrelas cintilavam, como que a tentar
transmitir aos terrestres uma mensagem de paz e de amor. Encontrava-me de
guarda num daqueles abrigos subterrâneos. Um pesado silêncio, pouco habitual,
cobria todo o espaço em volta de mim, dando-me a incómoda sensação de que algo
estava para acontecer. Confesso-te, não sou dotado de qualquer tipo de
premunição, no entanto…
- Algo se estava a passar de estranho.
O que aconteceu? – solicita Henrique, com
ansiedade.
- Passados que foram alguns longos
minutos, uma estranha luz aparece no céu. «De
que se trataria?» - interrogo-me. Avião não era de certeza – estes fazem um
barulho enorme ao cruzarem os ares; os cometas, bólides do espaço, deslocam-se
tão rapidamente que logo surgidos desaparecem da nossa vista! Talvez um
helicóptero. Eureka! – até já nos tinham falado neles. Possuíam um motor
silencioso e vinham pura e simplesmente observar, espiar-nos.
- Parece mentira – exclama Henrique.
- Mas é a pura verdade! Esses «grupelhos de tanga», como eram
designados pela tropa portuguesa, possuíam meios aéreos, embora limitados a
este tipo de máquina. O início! É provável que não fossem os naturais da Guiné-Bissau,
mas sim os seus aliados, a pilotá-los. De qualquer modo, não estavam assim tão
atrasados como a malta pensava ao princípio da contenda.
- Como reagiu?! – indaga o jovem, cada vez mais curioso.
- Deixei-o aproximar-se e, mesmo
sabendo que quaisquer balas disparadas não o atingiriam, desfechei um carregador
inteiro da metralhadora na sua direção. Os outros soldados começaram também a
abrir fogo logo que se aperceberam do que estava a acontecer. O helicóptero,
que se encontrava a uma altitude razoável, deu uma volta e retirou-se. Um dos
meus camaradas sentinela, furioso, gritou: «Filho
de uma cadela; se voltas, estoiro-te como a um sapo!»
- Claro que essa ameaça não passava de
fanfarronice!...
- Obviamente. Onde estavam os mísseis
para o derrubar? Na ocasião, somente o Super-Homem nos poderia valer, mas esse
encontrava-se nos Estados Unidos da América.
- E não tinha pouco para fazer! – brinca Henrique.
- Mas continuando: uma grande e
enigmática «operação» ganhava forma.
Atuariam em conjunto, na mata do Cantanhez, três batalhões (cerca de dois mil homens), algumas
Companhias isoladas, e a milícia de Catió, comandada pelo famosíssimo Pedro
Bâkar.
- Esse nome não me é totalmente
estranho…
- Esse pequeno homem, de cor negra, com
a patente de alferes de milícias, tinha – segundo a voz corrente – a sua cabeça
a prémio. O PAIGC temia-o, visto que ele, com o seu grupo de trinta homens,
espingardas ao ombro, assemelhando-se a personagens de um filme de ficção
científica, fazia mais estragos nas suas fileiras do que um batalhão do nosso
exército!
- Caramba! Era um autêntico predador – explode Henrique, admirado com tanta ousadia
e coragem.
- Conhecia, tão bem ou melhor do que
eles, toda a região de Catió e sabia, por informes habilmente recolhidos, onde
o inimigo tinha posições. O exército português cumulava-o de mimos e
comentava-se à boca semicerrada que o governo subsidiava os estudos superiores
de um filho seu.
- O Cândido conhecia-o?!
- Já o tinha visto noutra ocasião. A
sua pele, de um negro luzidio, cobria um corpo apolíneo: magro, mas musculado.
Os seus olhos davam logo a sensação de uma firmeza e vontade inigualáveis. Não
parecia arrogante nem autoritário, porém as suas ordens eram prontamente acatadas
e cumpridas.
- Um chefe!
- Um líder, como agora se diz. À sua
volta parece que nos sentíamos mais seguros… O nosso comandante chamou-nos e
disse-nos: «Hoje é um dia importante e
especial para todos; vamos enfrentar uma força inimiga considerável, uma
fortaleza quase inexpugnável e até agora invencível. Nada de receios. Connosco
vão três batalhões e a milícia de Pedro Bâkar. Além disso teremos apoio aéreo e
de artilharia pesada. A “ação” pode durar dois ou três dias, dependerá dos
resultados obtidos. Vamos tentar cercar o inimigo, acossá-lo, desalojá-lo,
abatê-lo, escorraçá-lo do Cantanhez. Peço-vos firmeza, coragem, brio; o soldado
português é digno, valoroso, intrépido, e hoje mesmo porá à prova essas qualidades.»
- Belo discurso! Esse senhor podia ser
deputado!
- Também acho. Com ele na Assembleia
ninguém dormia. Arrancamos. Junto ao cais de Catió estavam as lanchas blindadas
à nossa espera. Do rio Combidjam passámos ao rio Cacine. Os marujos,
cautelosos, sempre atentos, não tiravam os olhos das margens. A emboscada
poderia surgir a todo o momento – nunca fiando!
- Até eu estou arrepiado! – diz Henrique, estremecendo ligeiramente.
- Desembarcámos por volta das duas
horas da manhã. Enterrados na lama até à cintura lá fomos andando, andando, em
fila indiana, agarrados uns aos outros para não nos perdermos. Milhares de aves
pernaltas alimentavam-se regaladamente naquelas enormes extensões de lama, a
que chamavam bolanhas, indiferentes à “tempestade”
que se avizinhava. Pregaram-nos um grande susto: pareciam guerrilheiros a
apontar as suas armas! Já tínhamos caminhado bastante quando a voz do colega que
ia à minha frente me sussurra: «Ordem
para parar, passa palavra.» Assim fiz, mas muito a contragosto, pois
encontrava-me ainda no lamaçal e não era nada agradável aguardar ali naquele
sítio infestado de mosquitos enormes, sedentos de sangue, e a entrar-me pelas
narinas um cheiro nauseabundo a águas podres e fétidas.
- O que vocês sofreram!...
- Em breve soubemos a razão dessa
ordem. Os canhões dos quartéis mais próximos começaram a canhonear sem descanso
a mata ali a dois passos. Pareceu-me que estavam a destruir o mundo e que a
abóbada celeste ruía e desabava sobre nós! O festival teve a duração aproximada
de uma hora.
- Ficou tudo de rastos!... – assevera o jovem ouvinte.
- Muitas árvores caíram, como corpos
sem vida, aumentando ainda mais o barulho ensurdecedor; as outras árvores
choravam baixinho, como que pedindo à mãe natureza proteção. Os incêndios
alastravam um pouco por toda a parte; o crepitar das chamas tornava tudo aquilo
num espetáculo dantesco, e um certo silêncio, conivente, aterrorizava-nos.
- Que cenário fantástico!... Até parece
irreal.
- Aquele aparente silêncio durou apenas
minutos. Foi breve! O som de aviões a jato fez-se ouvir quase de seguida. A
aviação militar colaborava freneticamente numa das maiores operações, senão a
maior, que até aí se levara a cabo na ex-província portuguesa.
Os ágeis aviões (chamávamos-lhes
“fiats”, porque possuíam motor dessa marca), apareciam e desapareciam a uma
velocidade jamais vista. Os seus canhões e metralhadoras de bordo disparavam
ainda mais rápido, se possível! Tudo com uma precisão milimétrica. Parecia incrível,
mesmo inacreditável, como não nos atingiam! Bastaria um pequeno erro e alguns
de nós seriam cortados como batatas para fritar!
Ao romper do dia os pilotos retiraram-se. Recebemos então ordens para
avançar. Andámos mais ou menos quinhentos metros e eis que o tiroteio começa.
- Como era possível, depois daquele
massacre?!
- Também eu me interrogo: como se podia
admitir, depois daquilo tudo, haver ainda turras vivos?! Eu a pensar que tinham
sido completamente dizimados. Mas, não, estavam ali à nossa espera, como gatos
que já viveram seis vidas e a última que lhes resta querem-na vender bem cara,
ou mesmo preservá-la.
De pé, de rastos, de qualquer maneira, fomos avançando, avançando…
Gritávamos como possessos a fim de afugentar o temor e porventura o inimigo.
Ouviam-se gritos lancinantes por todo o lado. Havia feridos, mortos,
desesperados. Era o caos, a loucura. Lembro-me de ter rebolado pelo chão à
procura de um abrigo: uma árvore amiga, uma trincheira, bagabaga, a fim de
proteger o meu corpo; o espírito estava destroçado!
Henrique estava comovido com o
relato do seu amigo. «As guerras são terríveis», pensava ele. E tudo se podia
resolver a bem, se houvesse diálogo. Mas não, é através da violência que o ser
humano tenta resolver e concertar tudo! Para desanuviar, pergunta ao antigo
combatente:
- Pronunciou uma palavra para mim
totalmente desconhecida. O que são bagabagas?!
- São termiteiras em forma de pirâmide ou
cogumelo, construídas pela térmita ou formiga-branca, que chegam a atingir
cerca de cinco metros de altura e cuja dureza faz lembrar o cimento.
- Daí vocês nelas se refugiarem… - conclui o jovem.
- Salvaram a vida a muitos soldados. As
balas e as granadas de bazuca não penetravam a sua couraça. Somente as granadas
de morteiro nos poderiam atingir, devido à sua trajetória. Mas continuando:
levanto-me com mil cuidados e começo a disparar em direção a vultos que se
movimentavam ali perto. Tão desesperado estava, e desenquadrado, que já não
sabia se eram meus companheiros ou meus adversários. Deixei de dar ao gatilho.
Uma voz amiga chama-me: «vem para este
lado, encontras-te entre fogo cruzado!»
- Que perigo! Teve imensa sorte. Podia
ter sido o seu fim.
- É verdade. A rastejar (afinal aqueles ensaios no CICA-1 e
Infantaria 6 tinham servido para alguma coisa) lá me encaminho para a sua
beira. Segreda-me: «os turras já fogem.»
Nunca fui muito ousado, não tenho vergonha de o confessar. Porém, no
meio da refrega, operava-se em mim uma verdadeira mudança, uma metamorfose
completa: parecia, e era, outro! Agia segundo as ordens superiores recebidas e
também de acordo com o meu instinto de sobrevivência. Não quero com isto dizer
que aqueles que foram atingidos ou morreram fossem taradinhos, ineptos, que
descurassem a sua auto defesa, que se deixassem atingir. Não! Quero dizer
apenas que mesmo em guerra nunca se deve perder o sentido prático da vida. A
cobardia, em um momento de desespero, pode transformar-se em um ato de coragem!
Rastejar nas matas da Guiné-Bissau, esconder o nosso corpo das mortíferas
balas, não pode ter o mesmo significado que ajoelhar ou ser subserviente a fim
de conseguir benesses de um patrão ou de alguém influente na sociedade.
- Existe uma fronteira ténue entre o
heroísmo e a cobardia. Quanto tempo permaneceram nesse local maldito?
- Não te querendo mentir, suponho que
estivemos no Cantanhez dois dias e duas noites. A mim, como é óbvio, pareceu-me
ter ali permanecido dois anos! Cheio de fome, de sede, de angústia, de cansaço,
de tudo; a resistência, física e moral, estava a chegar quase ao fim, ao seu
limite.
- E resultados? – quis saber Henrique.
- Segundo boatos que correram mais
tarde, as coisas parece que não tinham resultado tão bem como os planos
previamente elaborados o previam. Alguns mortos e muitos feridos do nosso lado;
o mesmo acontecendo do lado oposto, eis o balanço final da peleja. Quanto aos
custos financeiros da operação faço apenas uma leve ideia.
- Então não houve vencedor?!
- Nunca soube, e decerto jamais o
saberei, se fomos nós os vencedores ou os vencidos! Quanto a mim houve uma
espécie de empate mas, ao invés do que se passa no desporto, onde por vezes
esse resultado agrada às duas partes, na guerra real o empate não agrada a
ninguém. Os generais contendores só aceitam bem a vitória.
Penso que não valerá a pena estar a descrever-te em pormenor a batalha.
Aliás, os filmes, sobretudo sobre a guerra no Vietname (respeitando
as devidas proporções), com requintes tecnológicos, e efeitos especiais, dar-te-ão
as imagens que eu não seria capaz de te dar. Nesta conversa informal não posso,
nem terei capacidade e talento para te transmitir o ambiente psicológico, o
drama de jovens a quem não deixaram gozar a vida a que tinham direito, a
indignação versus resignação contida em nossos olhares. Ah! meu jovem amigo:
estúpida guerra que tanta juventude ceifou ingloriamente, e tantos males,
físicos e morais, causou!
- Como vocês sofreram! – diz Henrique, com voz plangente.
- É verdade. Na flor da idade, meu
amigo. Mas, para que não penses que quero calar tudo aquilo que vi e assisti,
dir-te-ei apenas que o combate do Cantanhez teve uma face dura, cruel, inumana.
Os piores instintos do homem vieram à tona. Não se encontravam ali humanos a
lutar, mas sim feras indomáveis, tigres rasgando as entranhas da presa capturada!
A raiva superou sempre a lucidez; o medo não conseguiu paralisar o dedo colado
ao gatilho; a fúria imperou sobre a prudência e o bom senso!
- A mocidade, sangue na guelra!...
- Sem dúvida. E também interesses de
vária ordem estavam em jogo. As grandes potências capitalistas estavam com o
olho em África. Há ali muita riqueza para ser explorada. Portugal não se
aproveitava, nem deixava os outros fazê-lo! Daí os movimentos de libertação
terem apoios impensados há alguns anos atrás. Mas continuando a narrativa:
Embora se ouvissem ainda tiros e gritos aqui e ali, retirámos, já ao
entardecer, não sem cautelas, e lentamente aproximámo-nos do rio, a fim de
embarcarmos. Mal avistámos os barcos da marinha o nosso estado de espírito
melhorou um pouco, o nosso coração deixou de bater tão apressadamente.
- Era quase como sair do inferno!
- A viagem de retorno, como deves
calcular, não teve alegria, mas sim abatimento, tristeza. Os nossos camaradas
evacuados para o hospital e o quase esgotamento não o consentiam. Queríamos
dormir, mas as embarcações, demasiado exíguas para tanta farda, não o
permitiam. Encostados uns aos outros, suportando a custo aquele cheiro desagradável
a catinga, a bodum, de corpos sem higiene, semicerrávamos os olhos e logo
imagens terríficas, assustadoras, surgiam na nossa mente algo perturbada. O
pânico apoderava-se de nós. Só espíritos muito fortes, sãos, conseguiriam
ultrapassar este mau momento. E não seria o único! Outras escaramuças,
acirradas pelejas, brigas mil, já se desenhavam no horizonte próximo.
- Nem é bom pensar nisso! – exclama Henrique, como se ele próprio fosse
viver aqueles momentos aflitivos.
- Como eu gostaria que os portugueses
de Quatrocentos não tivessem pisado o funesto solo africano. Agora estávamos
nós ali, naquele bosque letal, sofrendo as consequências, os efeitos e
infortúnios, desse ato aventureiro e irracional. Por que é que D. João I e os
reis seguintes não procuraram desenvolver o Portugal ibérico, deixando a quente
África aos africanos? Quiseram dar ao mundo “novos mundos” e aos filhos da
nação, a partir daí, deram atroz sofrimento e a terrível morte!
- Graças a essas aventuras, temos «Os Lusíadas», de Camões, e outras obras
importantes da literatura portuguesa – contrapõe
Henrique.
- É verdade. Eu adoro a obra de Luís
Vaz, mas apesar disso não sei se a “troca”
compensa. A vida e a felicidade são os bens mais preciosos que há. Ainda dizem
que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos! Eu diria: «De África só desgraça e carraça!»
Quantos portugueses morreram por causa das designadas possessões ultramarinas?
Terão conta, ao longo destes séculos? Acredita: os que mais defenderam a sua
manutenção não puseram, jamais, lá os seus macios pés, nem pegaram numa arma
para as defender. Limitaram-se a produzir verborreia sem sentido, discursos
ocos, como o seco limão!
- Mas a História é a História, e reis e
chefes de Estado ambiciosos e tolos sempre houve, há e haverá – sentenciou Henrique, depois de ter bebido
duas imperiais e uma caneca. Não era hábito, porém, naquele dia, precisava
de mais álcool, aquela batalha do Cantanhez mexera com ele, botara-o abaixo.
Mais
calmo, Cândido condescendeu:
- Talvez tenhas razão: hoje sabe-se que
os portugueses, e castelhanos, nada descobriram – esses lugares longínquos já
tinham sido descobertos há muito tempo! Contactar, seria o verbo correto. Os
portugueses contactaram esses povos, não os acharam. Os asiáticos estavam no
continente americano (peles vermelhas e
esquimós), e o continente africano, todo ele, era conhecido e habitado.
- Até há quem afirme que foi em África
que apareceram os primeiros seres humanos – lembra
Henrique, já a bocejar.
- É bem possível, mas nessa área do
conhecimento ainda há muito a investigar. Darwin não sugeria, no século passado,
que o Homem descende do macaco?! Mas olha que não sei: penso que o ser humano
veio de um planeta distante, aqui teve de descer por motivos que ora desconhecemos
e por aqui foi ficando. Como eram só machos, procriaram com macacas, e daí
alguns de nós parecermos símios! De outro modo não se compreenderia a diferença
existente entre nós e os restantes animais.
- Pensa que há assim uma tão acentuada
diferença?!
- Haver, há – salta à vista! Nós
falamos, lemos, escrevemos, fundamos cidades, museus, bibliotecas; criámos a
História e outras ciências; temos infinita curiosidade; vamos por esse espaço à
procura de outros seres… Enfim, somos mesmo diferentes. Mas com tudo isto já
perdi o fio à meada.
- Estava a dizer-me…
- Ah! Já sei: … e porque os meios de
transporte tornavam as viagens prenhes de inesperados perigos, onerosas e
demoradas, aí sim, os nautas lusos tiveram um papel de certa monta, de relevo,
na aproximação dos povos. Por outro lado, o intercâmbio de conhecimentos, de
ideias, de culturas, torna-se sempre vantajoso para ambas as partes. Porém, os
portugueses jamais deveriam passar disso. Comércio, amizade, deveria ter sido o
bastante, o suficiente. Ter-se-iam poupado vidas e haveres, e o nosso Portugal
teria crescido economicamente, como outros territórios se desenvolveram por
essa Europa fora. Nós, que fomos uma potência mundial, somos hoje um país pobre
e atrasado!
- Está a pôr em causa todo o pensamento
de uma época!... – observa Henrique,
preocupado.
- Sem dúvida, meu caro amigo. Porque
não? Relativamente à posse da terra, à escravatura (batem palmas ao infante D. Henrique), à conquista pelas armas, à
imposição de ideias, ideologias, religião, costumes, língua, cometeu-se, quanto
a mim, um erro crasso que nos custou, e está a custar, muito caro.
- Não aos poderosos, Cândido; nem aos
ambiciosos. E a Igreja Católica expandiu-se… - contra-ataca o jovem.
- Nos nossos dias já nada resta desse
antigo império…
- A língua portuguesa, essa ficou…
- À custa de muita seiva humana, muito
sofrimento, sangue derramado. Teria valido a pena? É certo que o poeta Fernando
Pessoa escreveu: «tudo vale a pena quando
a alma não é pequena…»
Seria a alma dos portugueses assim tão grande que um minúsculo rincão
não lhes bastava, só o mundo os satisfazia? Que me interessa a mim que se fale
português no Brasil? Que ganho eu com isso? Que ganha Portugal com isso? Vendemos-lhes
dicionários de língua portuguesa? Não! Vendemos-lhes livros dos nossos
escritores? Meia dúzia! Vendemos-lhes telenovelas? Pelo contrário, são eles que
nos invadem com as suas. Veem o nosso cinema? Duvido.
Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor,
têm como língua oficial o português, mas apenas uma ínfima percentagem o fala!
O nosso país ganhará com isso?
- Penso que sim – diz Henrique, num tom calmo, imparcial, para não magoar o amigo – mas
só o futuro o dirá.
- Amigo Henrique: se ganhássemos algo
com isso não estaríamos tão atrasados e não pediríamos tanto aos demais países
europeus. Que nos deu o Brasil a partir da sua independência? Que nos vai dar
Angola, São Tomé…? Nada! Os seus governos, à exceção do brasileiro, verdade
seja dita, estão constantemente a estender a mão a Portugal. A nós, que não
temos onde cair depois de mortos!
Aqui Henrique empertigou-se:
- O meu amigo é impiedoso! Essa ajuda,
ou solidariedade, melhor dito, cooperação, como a queira designar, é temporária,
só enquanto não se modernizam, não criam as suas próprias infraestruturas.
Depois pagarão com juros as suas dívidas. Esquece-se, porventura, que Angola
tem imensas riquezas: petróleo, diamantes, madeiras de grande qualidade, um
terreno agrícola extraordinário, pesca abundante… tudo! Moçambique, se for bem
administrado, também se tornará num dos países mais ricos de África.
Cândido, num tom mais moderado,
responde-lhe:
- Quando já não precisarem de nós,
viram-nos as costas. A língua inglesa espalha-se pelo planeta pela via erudita,
não pelas armas. Não deve haver nenhum estudante por esse mundo fora que não a
estude, tornando-se um potencial consumidor dos produtos ingleses e americanos.
Mas nós… Que temos nós para exportar? Só se for malandrice, a lusa manha! A
nossa indústria, e a nossa agricultura, são o que são. E depois de termos
perdido tudo, herdamos obrigações – morais e materiais – que perduram e
perdurarão por muitos e muitos séculos.
- A que se refere concretamente? – pergunta o jovem, algo perturbado.
- Refiro-me aos africanos das antigas
colónias. Muitos deles, milhares, depois da descolonização e independência,
refugiaram-se em Portugal e por aqui vão permanecendo, desenraizados. Em Lisboa
e arredores: Almada, Amadora, Odivelas, Sacavém, Loures, eu sei lá bem, e até
um pouco por todo o país, instalam-se em barracas e habitações degradadas,
desta maneira aumentando incomensuravelmente as dificuldades dos municípios em
termos de habitação e segurança, não falando já na estética. Vieram também gerar
inúmeros problemas sociais: são as escolas, os centros de saúde, os hospitais,
que veem em pouco tempo aumentar o número de utentes; são os empregos que
faltam; o crime que cresce dia a dia; são os seus costumes que chocam, colidem,
com os dos autóctones; o problema da língua, pois a maioria não falava, por
incrível que isso pareça, português, utilizando o crioulo. Por outro lado, as
mulheres africanas dão à luz um filho praticamente todos os anos e durante
vários anos. Isso significa que dentro de vinte ou trinta anos Portugal não
terá capacidade económica para assegurar a toda a população um nível de vida
adequado. E a Segurança Social? Aguentar-se-á com tanta despesa?
Será novamente a emigração, a
debandada para outros países mais ricos? Mas como, se as novas tecnologias
reduzem o número de operários? Será que a Alemanha, a França, a Suíça, precisam
de mão-de-obra portuguesa?! Qualquer dia nem o Canadá, ou os Estados Unidos,
necessitarão de operários estrangeiros.
Henrique (embora
reconhecendo algumas verdades no raciocínio de Cândido), não quer dar o braço a torcer, e replica:
- O meu amigo Cândido é um pessimista.
Traça e prevê um futuro apocalíptico, catastrófico, para Portugal. Não considera
que os portugueses poderão um dia emigrar para esses novos países africanos?
Eles vão precisar de mão-de-obra especializada, de tecnologia, de engenheiros e
arquitetos, de professores, de médicos, enfermeiros…
Cândido não se dá por vencido com
esse argumento:
- Só o amanhã o dirá, só o amanhã o
dirá… Mas não te esqueças de que outros países mais poderosos do que o nosso,
tais como a China e o Japão na Ásia, os Estados Unidos na América, a
Inglaterra, Alemanha e França na Europa, Rússia etc., com outros recursos, quer
científicos, quer tecnológicos, aguardam com extrema paciência, e perspicácia,
a oportunidade para entrarem com armas e bagagens nesses territórios africanos,
recentemente elevados a Estados.
- Haverá lugar para todos. O Cândido
revela uma pontinha de racismo!
- Não! Tudo depende do ponto de vista.
Racista? De modo algum. E penso que o povo português, de uma maneira geral,
também não o é. A prova disso consiste no facto de diariamente: nos transportes
públicos, nos centros comerciais, nos cinemas, em todo o lado, convivermos com
indivíduos de outras raças não os hostilizando. Além disso, o nosso Governo e a
nossa Assembleia da República nunca legislaram no sentido de expulsar
estrangeiros do solo pátrio, mesmo aqueles que o mereciam. Mais: já começa a
ser vulgar vermos rapazes negros a namorar com raparigas de raça branca, e
vice-versa. Olha que no continente africano é quase um fenómeno assistir-se a
isso. Crê-me: reconheço que era difícil a esta gente permanecer em Angola,
Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné e cabo Verde, depois da descolonização.
- Posso saber por quê?
- Por duas razões fundamentais: a
primeira porque muitos deles estavam demasiado ligados, de uma forma ou de
outra, ao regime salazarista para não virem a sofrer retaliações, represálias,
por parte dos Partidos que ascenderam ao poder; a segunda, porque os restantes,
não quiseram participar num conflito entre irmãos, ou seja, na guerra civil (casos de Angola e Moçambique). Quanto a
Cabo Verde, como sabes trata-se de um país muito pobre, sem grandes riquezas no
subsolo, sem chuvas normais, pouco desenvolvido. Quando conseguirem, com a
ajuda da tecnologia estrangeira, tornar a água do mar potável, então sim, esse
arquipélago poderá crescer economicamente. Enquanto aguardam essa ajuda terão de
viver quase exclusivamente da emigração, da pesca, do turismo, e pouco mais.
- O meu amigo Cândido omitiu o povo de
Timor. Também temos alguns timorenses em Portugal.
- Sim, ia-me esquecendo deles. De
qualquer modo, o seu número não é significativo e pelo que tenho observado logo
que lhes seja possível regressarão à sua pátria. Por outro lado, estão muito
próximo da Indonésia e da Austrália, pelo que a influência desses países
far-se-á notar de imediato, e eles, pouco a pouco, irão esquecendo Portugal.
*
Depois desta conversa fiada, amigo Henrique, quase me ia esquecendo do
ano de 1966 e da Guiné-Bissau. É nesse território e nesse tempo que devo
permanecer e não me obrigues, peço-te encarecidamente, a fugir à história que
prometi contar-te.
Pois bem: depois de umas horas de
barco, viatura e algum trajeto a pé, lá chegamos a Cufar, ao nosso famigerado “quartel”. Abraçamos comovidamente os
colegas que tinham ficado, tomámos uma banhoca sob os bidões previamente
esburacados para o efeito, comemos uma refeição quente e deitámo-nos. Logo que
acordei, li as cartas dos familiares e das madrinhas. Trouxe uma delas para
ler. Queres…?
- Estou em pulgas…
- Ouve então, por favor:
Querido afilhado
Recebi
a sua carta e peço desculpa de só agora lhe responder, mas como tenho muito
serviço, naturalmente que me compreende e perdoa. Neste momento não lhe posso
mandar a minha foto, pois é impossível; como estou empregada, quando saio do
emprego já os estúdios dos fotógrafos estão fechados, e por isso vai ter de
esperar. Aproveitarei um dia que saia mais cedo… Para a próxima carta mando-lha,
está bem?
Então como tem passado? Deus queira que
quando esta receba esteja de boa saúde, esse o meu ardente desejo; olhe que,
todas as noites, rezo por si e por todos os soldados que lutam aí. Daqui foram
muitos para a Guiné, Angola e Moçambique, felizmente não lhes aconteceu mal
nenhum, alguns já eram casados quando foram, desses ainda tinha mais pena,
porque já possuíam um lar e filhos, e não sabiam se voltariam ou não.
Neste bocadinho de espaço vou falar-lhe um
pouco do meu passatempo favorito: gosto imenso de colecionar fotos de artistas,
tanto nacionais como estrangeiros, sou
associada do clube de fãs do Conjunto Académico de João Paulo, já tenho imensas
fotografias deles. Para mim são os melhores. Já ouviu falar? Claro que já –
quem não ouviu? Também gosto de ouvir cantores estrangeiros e de ver cinema.
Por hoje é tudo. Receba muitos abraços da
madrinha muito amiga – e talvez a mais novinha!
Fernanda
- Ela desconfiava que o meu amigo
Cândido tinha outras madrinhas de guerra!
- Julgo que não. Ela estava a tentar tirar
nabos da púcara: queria saber se namorava, se me escrevia com outras… Faz parte
da psicologia feminina.
- Mas pensa que ela queria namorar
consigo?
- Não sejas impaciente; aguarda as
próximas cartas. Agora vou prosseguir, se me deres licença: ainda estivemos na
“terra da morte” mais uns dias.
Fizemos algumas incursões na selva, não com a envergadura da outra, houve
alguns recontros com a guerrilha, sem graves consequências, andámos novamente
muito perto da aldeia dos macacos, fomos uma ou outra vez a Catió, abatemos uma
serpente com vários metros de comprimento, corpulenta, que se tinha atravessado
no nosso carreiro, pregando-nos um enorme susto, pois nunca tínhamos visto nada
igual, nem no Jardim Zoológico, e corria a lenda de que estes répteis engoliam
pessoas! Finalmente apareceu uma Companhia para nos substituir. O nosso destino
seria o norte: as densas matas de Teixeira Pinto (Canxungo), Calequisse, Caió, Bula, Cacheu – uma vasta zona.
continua...
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