ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
18.º
Capítulo
A CAMINHO DE CONTUBOEL
Alguns dias depois do último aperto de mão, os dois amigos voltam a reencontrar-se.
Henrique está cada vez mais familiarizado com a história de Cândido, começa a
compreender melhor aquilo que se passou na guerra colonial. Nunca lhe passara
pela cabeça que os soldados tivessem penado tanto. «De facto – pensava ele –,
não há nada como a paz.» Dirigindo-se ao amigo, saúda-o cordialmente:
- Boa tarde, Cândido. Então, vamos
continuar a história?
- De boa vontade; já está quase a
chegar ao fim. Tu já deves estar saturado de ouvi-la…
- Pelo contrário, estou entusiasmado;
até merecia ser publicada em romance.
- Quem sabe! Mas uma coisa é narrar-ta
assim, oralmente; outra coisa bem diferente é escrevê-la. Os verdadeiros
escritores já nascem com esse dom, têm apenas de desenvolver as técnicas
narrativas e adquirir um vocabulário rico e adequado à história que vão contar.
Camilo e Eça na prosa, e Camões e Antero na poesia, são raros, apenas aparecem
de quando, em vez. Eu, até hoje, somente escrevi umas cartas, uns pequenos
artigos e poemas para a Revista dos Serviços Sociais da minha Empresa, nada
mais! Terei um caminho imenso a percorrer para lá chegar.
- Nada se alcança sem sacrifícios e
persistência - filosofa o jovem.
- Isso é verdade. Mas continuemos: encontrávamo-nos
na colónia há cerca de catorze meses quando veio a ordem de Bissau para irmos
para Contuboel, pequena localidade a alguns quilómetros da cidade de Bafatá; esta
pequeníssima cidade situa-se junto ao rio Geba – o purgatório, depois do
inferno em chamas! Perto dessa simpática aldeia achava-se a fronteira com o
Senegal. Nessa altura era seu Presidente da República o poeta Léopold Sédar Senghor.
- Político e poeta – acrescenta Henrique.
- Nunca li nada dele, mas há quem diga
que escreve bem. Nessa região, a prática da guerra, se é lícito dizê-lo, tinha
um cariz diferente. A razão dessa diferença consistia sobretudo no facto de
nessa zona a mata ser menos densa, com mais espaços abertos, talvez com mais
população ligada ao homem branco, isto é, mais dependente materialmente do
negócio, do comércio em geral, em suma: uma população mais europeizada, e
também islamizada. Aqui até era mais fácil lidar com os africanos, pois alguns
deles falavam a nossa língua, o que não acontecia no norte. A Companhia seguiu
então para o seu novo destino e a mim enviaram-me para os adidos, unidade perto
do Hospital, a fim de ser submetido a tratamento e arrancar os dentes cariados.
- Finalmente! Deve ter sofrido muito.
- Se sofri. Só eu é que sei quanto. Não
me lembro quantos dias lá estive, presumo que uma semana. Dos adidos (quartel onde iam parar centenas de militares
de todas as Companhias que atuavam na Guiné-Bissau) saíam a toda a hora
viaturas para a capital, a estrada era asfaltada, não corríamos nenhuns riscos,
a não ser o que provinha das altas velocidades que os condutores, embriagados
pela emotividade, imprimiam às máquinas. Pelo que me disseram, e depois eu confirmei
isso mesmo, os desastres ocorriam nesse troço com alguma regularidade. Depois
daquela curta convivência com camaradas de todos os batalhões repartidos pela
ex-colónia, ouvindo relatos de duras batalhas e pequenos episódios do quotidiano,
e depois de ter feito tratamento ao estômago e me extraírem dois dentes, chegou
o dia da partida. Tinha de me juntar novamente à Companhia. De Bissau até perto
de Bafatá fui, ao longo do rio, em um barco da marinha. A lancha, a certa
altura, não pôde prosseguir porque a partir daí o rio tinha pouca profundidade
e apresentava-se demasiado estreito. Desembarcámos, eu e demais colegas de
outros regimentos, e dirigimo-nos para o quartel ali próximo. O nome desse belo
lugar, não o conservei na minha memória.
- Talvez tenha o nome do rio! – aventou Henrique.
- Não sei. É possível. Dali fui
transportado em jipe até Bafatá por uma estrada novinha em folha que, apesar de
ser de terra batida, poder-se-ia considerar uma das melhores da ex-província.
Pelo caminho avistámos alguns macacos, tão corpulentos que até pareciam
chimpanzés. Olharam para nós com alguma desconfiança e desataram a correr, aos
guinchos, pelo interior da floresta. Por graça, disse ao motorista: «E se lhes déssemos uns tiros?!» Parou o
jipe e, mais entusiasmado ainda do que eu, aquiesceu: «É para já, camarada!» Descemos e andámos uns bons metros, atirando,
atirando, sem acertar em nenhum. Fiquei satisfeito. Apesar de ter sido eu a
sugerir tal disparate, tal tolice, não gostaria de ver morrer um bicho que
nenhum mal nos fizera e que se encontrava a passear tranquilamente no seu habitat
natural. Regressámos ao jipe e seguimos caminho. Bafatá parecia estar em festa.
Gente movimentando-se, lojas escancaradas ao público, viaturas militares de um
lado para o outro. Enfim, via-se bem que não estávamos no mato. Cidade é
cidade, mesmo sendo, como esta, uma pequena urbe.
- Até parece que tinha terminado a malvada
guerra!
- Não, não acabara, infelizmente. No
entanto ali havia mais sossego. Os militares não pareciam tão acabrunhados como
no norte; riam-se, diziam chalaças acerca dos guerrilheiros, embora os
temessem, pois com frequência havia tremendas escaramuças, das quais resultavam
feridos e mortos. Constava que os homens de Amílcar Cabral…
- Viria a ser assassinado a 20 de
Janeiro de 1973 – lembra Henrique, com
alguma tristeza no seu semblante, pois simpatizava com ele.
- É verdade. Oxalá essa morte nunca
tivesse acontecido; mas isso já é outra história. Quando ele foi abatido já eu
tinha regressado da Guiné havia seis anos! Ia então dizer-te que os paigecês afixavam
avisos nos caminhos, ameaçando de morte a nossa gente; nunca li nenhum, mas
acredito que seja autêntica essa informação. Algumas vezes desloquei-me em
serviço a esta minúscula cidade, altura em que todos aproveitavam para visitar
as «pegas», como ironicamente as
designava o furriel Galhardo, o “escangalhado”,
como entre nós, praças, era conhecido, porque ao andar, e devido talvez à sua
coluna pouco direita, dava sempre a sensação de ir cair ora para um lado, ora
para outro!
Cândido levantou-se da cadeira e
tentou imitar o furriel, mas desajeitadamente. Henrique achou graça, e riu-se a
bom rir. Depois de um momento hilariante, continuou:
No princípio eu não sabia do que se tratava; pega, para mim, era uma ave
dos campos. Por que razão chamariam esse nome a estas mulheres de vida fácil?!
- Caríssimo Cândido: afinal a maldita
prostituição está espalhada por todos os continentes!
- Infelizmente é verdade; olha que a
tendência é para aumentar. E arrasta consigo outros malefícios… A droga, por
exemplo! A dicotomia entre pobres e ricos acentua-se dia a dia
assustadoramente. Em muitos países: de África, Ásia, América Latina, as
raparigas iniciam a sua prática aos doze, treze anos! É o fim das civilizações alicerçadas
na moral!
- Isso acontece sobretudo no chamado
terceiro mundo…
- No segundo, e até no primeiro! A
prostituição é uma praga que acompanha o ser humano ao longo dos séculos. E não
há uma explicação racional para este fenómeno. Como é que uma mulher vende o
seu corpo por dinheiro? E como é que um homem vai manter relações sexuais com
uma fulana que pertence por uns minutos a quem lhe paga?!
- E o risco que correm… as doenças,
devidas quase sempre por falta de higiene.
- E a dignidade, Henrique, a dignidade!
E acima de tudo as crianças que nascem desses atos impuros. Não foram
desejadas, ninguém as quer, nem a mãe nem a sociedade. Nascem com um estigma,
com a marca da maldição. Salvo raríssimas exceções, serão umas miseráveis, a
escumalha, a cloaca…
- E por sua vez trarão ao mundo outros
seres!
A noite aproximava-se
vertiginosamente, e os dois amigos tiveram de se despedir mais uma vez.
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