segunda-feira, 19 de junho de 2017

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha





Um poeta é um criador de reinos

imaginários, sem originalidade.

O poema é a sua casa.

Através das janelas do poema

ele avista o mundo – não o seu!

E o que vê não lhe agrada.

A sua matéria-prima são os

impulsos primários e prima

pela ausência da vontade imposta.

O reino que cria, verdadeira terra

de ninguém, embora povoada,

serve-lhe de abrigo e de desculpa.

O poeta é sempre um ser culpado!

Não o reconhecer – é doloroso.

E bate com as palavras contra as

paredes graníticas do silêncio

absoluto – esmaga-as sem piedade!

Depois chora, ri e pragueja – pieguice!

Não, o mundo não é bem o seu lugar:

o poema… sim.

O poeta tem a noção da sua timidez,

da sua falta de jeito para o quotidiano.

Ele é um fugitivo, nunca um perseguido!

 

 
14/6/1982

sexta-feira, 16 de junho de 2017

 MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS
 
Por Augusto César Esteves




// continuação...

         D. Afonso III deu, efectivamente, a Melgaço foral semelhante a Monção e de presumir é terem-no recebido com agrado os seus habitantes. Estes, passado o entusiasmo de momento, feitas as contas provocadas pelo novo e mais gravoso foro a cobrar pelo fisco anualmente, graças à nova divisão das mesmas terras, arrependeram-se e não estiveram pelos ajustes, porque contas são contas e sempre é preciso pagá-las. Escreveram, por isso, as suas queixas e enviaram-nas ao monarca e este, magnanimamente, avocou as regalias concertadas, anulou o contrato feito e deixou a vigorar em Melgaço o velho foral de seu avô. Ele mesmo conta como os factos se passaram neste singelo documento de 9/2/1261:

«Carta de foro de Melgazo

      In Dei nomine. Alfonsus dei gracia Rex Portugalie vobis populatoribus de Melgatio salutem et gratiam. Scatis quod dictum est mihi que vos eratis gravati cum foro que ego de novo vobis dedi et ego volens vobis facere gratiam et mercedem unde ego una cum uxore meã Regina domna Beatrice illustris Regis Castelle et Legione filia e filia nostra infanta domna Blanca revoco predictum forum que vobis dedi et reduco vos ad illum statum in quo eratis antequam dedisem vobis ipsum forum et mando que quilibet vicinus recuperet et habeat totum suum heredamentum que ante habeat. Et do et concedo vobis illud forum que habuistis apud avo meo Rege domno Alfonso inclite memorie et que confirmavit vobis pater meus rex domnus Alfonsus bone memorie. Qui forum simile est foro de Burgo de Ripa avie. Et volo et mando que vos populetis ipsam villam et teneatis eam populatam inxtam continenciam ipsius fori. Cuius fori et confirmationis patris mei talis est tenor…»     

     Foi neste mesmo dia que o rei bolonhês confirmou o pacto feito antes com D. Sancho I sobre a conversão das rendas, foros e direitos reais em mil soldos leoneses. O mesmo documento o elucida depois de transcrever o foral dado por D. Afonso Henriques e para se ficar conhecendo senão a época, ao menos os termos daquele contrato feito entre os melgacenses e o rei povoador, gostosamente aqui se transcreve aquela confirmação:

     «Ego prenominatus Rex Alfonsus tercius qui vobis populatoribus de Melgatio concedo predictum forum, concedo vobis et ratum habeo illud pactum que voviscum fecit rex domnus Sancius frater meus que tale est videlicet que pro omnibus rendis et foris et directis meis supra dictis que habeo in ipsa villa de Melgatio detis mihi et omnibus successoribus meis quolibet anno mille solidos legionenses ad tercias anni videlicet unam terciam in die omnium sanctorum et aliam terciam in die paschatis et aliam terciam prima die juli et debetis tenere et guardare ipsum meum Castellum de Melgazo per vestras custas per vestras expensas et debetis mihi dare milite bonum et fidelem et naturalem de meo regno et filium de algo qui faciat mihi menagium de ipso Castello de Melgazo. Et si aliquis que moretur in ipso Cauto de Melgazo levaverit vinum in Barca, foras de ipso cauto debet inde mihi dare meum directum. Et nullus riquus homo debet intrare in villam Nec in castellum Nec in cautum de Melgazo contra voluntatem Concilii de Melgazo nisi ego mandavero illum intrare in ipsam villam vel in ipsum castellum vel in ipsum cautum pro addefendendum terram meam. In cuius rei testimonium dedi vobis populatoribus de Melgazo istam meam cartam de mej siglii munimine consignatam. Datum Vimarane viii die februarij Rege mandante. Era M.CC.LX VIIII D. Gonsalvus Garsie alferaz Curie conf. D. Egidius Martini maiordomus Curie conf. D. Martinus Alfonsi tenens Braganciam conf. D. Alfonsus Lupi tenens Sousam. D. Didacus Lupi tenens Lamecum conf. D. Andrea Fernandi tenens Ripam Minij conf. Martinus Egidii tenensTrasseram conf. Domnus Martinus archiepiscopus Bracarensis conf. D. Egeas episcopus Colimbriensis conf. D. Rodericus episcopus Egitanensis conf. D. Matheus episcopus Visensis conf. D. Petrus episcopus Lamecensis conf. D. Martinus episcopus Elborensis conf. D. Vicentius electus portugalensis conf. D. Iohannes de Aveyro (?) ts. D. Menendus Suerij de Merleo (Marelães?) ts. D. Iohanes Petre corrigia ts. Petrus Martinus quondam superindex ts. Petrus Martini petarino ts. Johannes Suerij coelo ts. Fernandus Fernandi cagomino ts. Rodericus Johannes magister scolarum tudensis ts. Johannes Suarij clericus domini regis ts. Johannes Fernandi vice cancellarius ts. Petrus Johannis repositarius maior ts. D. Stephanus Johannis cancellarius Curie conf. Dominicus Petri notarius curie facit      

     Eu não sei se nestes muros haverá pedra que não recorde uma página da História de Melgaço. Aqui está um juntoiro a falar dos tempos de Dom Dinis, dos monarcas, um dos maiores propulsionadores do progresso da nação, das testas coroadas, um dos mais ciosos dos seus direitos. Tão reivindicador dos mesmos foi, que três vezes forjou alçadas só para em Melgaço devassarem as honras novas, pois em cumprimento das suas ordens aqui estiveram em 4/8/1288 D. Pedro Martinho, prior (…) da Costa e companheiros «e que essa inquirição fizessem escrever por mão de Paio Esteves, tabelião de Guimarães, e eles fizeram essa inquirição assim como lhes foi mandado e entregaram-na, e minha Corte viu essa inquirição e examinou-a e houve Conselho sobre ela e julgou-a e o juízo que aí deu também por mim como por eles é escrito nos róis que são em a minha Chancelaria e aqueles que daí quiserem cartas de juízo venham por elas e minha Corte far-lhas-á dar… salvo os julgados que são estes: julgado de Melgaço, de Valadares, de Monção, da Pena da Rainha…»  

     Em 1301 cá veio João César:

     «Item, eu, João César, cheguei a Melgaço e lendo o rol da inquirição d’el-rei perante Gonçalo Anes, de Paderne, e Gonçalo Anes, de São Paio, juízes dessa Vila, e perante Pero Eanes e Rodrigo Anes, e Martim Peres, tabeliões dessa Vila, e perante muitos outros homens-bons… achei que em Doma que o mosteiro de Fiães sacaram três homens dos casais seus que faziam foro a el-rei e fizeram aí colheitas de grão da era de MCCXXX anos até aqui…»

     E em 1307:

     «e, no mês de Outubro quando eu, Aparício Gonçalves, vim por mandado de el-rei a além Doiro e aquém Doiro para inquirir as honras feitas novamente… primeiramente comecei em Melgaço e, visto o rol d’el-rei, da inquirição que fez o prior da Costa…», tudo achou bem, salvo Bergoti e «que todo Doma e a Granja que aí fez o mosteiro de Fiães, e todo Rouças eram devassos, salvo a quinta do forno telheiro…»

 // continua...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
Escritores Melgacenses

Dr. Ricardo Manuel Ferreira Gonçalves. Nasceu no lugar de Ferreiros, freguesia de Paderne, a 13/9/1957. Tirou o curso de filosofia, deu aulas no ensino secundário durante algum tempo, depois aderiu ao Partido Socialista e foi deputado na Assembleia da República até 2011, salvo erro. Na sua juventude escreveu um livro, ao qual deu o título de «Carneiros em Transumância – emigrantes clandestinos», editado pela Perspectivas & Realidades, com o patrocínio da Associação Cultural Inês Negra. Aborda o problema do “salto” para o estrangeiro, sobretudo para França, a miséria no mundo rural, etc. Embora o tema seja socialmente interessante, peca pela sua qualidade textual. Espera-se que numa segunda edição o texto seja mais cuidado, e se mude de título e de desenho, pois a palavra “carneiros”, em lugar de homens, ou pessoas, é demasiado forte, até agressiva, apesar de retratar uma certa realidade daquela época, anos sessenta do século XX. Manuel Igrejas, emigrante no Brasil, leu o livro e comentou: «O tema é aliciante, bem desenvolvido, (…) em narração envolvente e linguagem agradável e primorosa com termos das nossas aldeias… É realista, mas exagerado, muito pessoal no conceito ideológico. Esta intenção do autor… é desculpável, uma vez que na apresentação da sua pessoa se confessa militante socialista. Todavia, o rancor ao anterior regime … diminui um pouco o valor literário. Ele poderia contar a história sem marcar os conceitos políticos, apenas dá-los a entender subjectivamente. Como expõe abertamente o seu idealismo, dá-me o direito de dizer que não concordo totalmente com esses conceitos. No entanto, àparte o exposto, o livro é bom…. Um grande mérito, além do valor intrínseco, é provocar na consciência dos leitores, pessoas daquele tempo, uma análise, profunda meditação do sacrificado modus vivendi daquela época. Nalguns trechos tive de reler várias vezes para apreender o sentido devido a pontuação confusa. Isso será motivo para uma apurada revisão na próxima edição. O livro é interessantíssimo com passagens de bom humor subtil e inteligente e a segunda parte de terrível dramaticidade. Recomendo a sua leitura a toda a gente, especialmente aos melgacenses. Aqueles emigrantes que deram o “salto” nos anos 60 e 70 vão-se achar retratados. O livro focaliza muitas verdades, algumas bem terríveis que não deveriam ser ditas, porém, nem sempre devidas às circunstâncias a que se refere. O autor, na ânsia de expor seu ponto de vista ideológico, atribue todos os males ao regime a que era avesso. O livro foi escrito há onze anos e neste lapso de tempo muitas das assertivas assacadas contra o regime de então estão sendo vistas doutra maneira. Se aos 24 anos o Ricardo foi capaz de escrever uma obra destas, muito há a esperar de sua inteligência e amadurecimento...» (VM 972, de 15/10/1992).           

domingo, 11 de junho de 2017

LEMBRANÇAS AMARGAS
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha





XV

Em busca do pai perdi o meu rasto

 
     Mais uma vez eu e o meu irmão travávamos uma conversa animada e descontraída; recordávamos tempos passados, revivíamos os momentos mais marcantes da nossa infância. Se puderem venham ouvir esse interessante diálogo:
 

- Então o nosso pai foi para as bandas da Galiza e nunca mais nos veio ver?!

- Isso é o que a mamã diz: eu, concretamente não sei para onde raio ele foi. Quanto a visitar-nos, pode ser que tenha ido alguma vez a Cendre, que nos tenha visto de longe, que eu me lembre de ele ter vindo ter connosco isso não, eu era tão pequenino quando ele se foi embora que se o visse na rua não o reconhecia, provavelmente nunca mais se lembrou de nós, esqueceu-se que nós existíamos!

- Achas que ele tem mais filhos?

- A estrangeira era uma mulher nova, ele também, o mais certo é terem geração. Se a tiverem, se existir algum nosso irmão, eles nem sequer sabem da nossa existência, não lhes devem ter contado nada, para eles nós representamos apenas um episódio sem importância, um grão de areia no deserto, uma gota de água no imenso oceano, nem isso!

- Gostava de o conhecer, e aos irmãos de lá, não gostavas de falar com eles, dizer-lhes que somos filhos do mesmo pai, que podemos ser amigos?

- Eu não, não sou lírico como tu, a mim não me dizem nada, não os conheço, nem sequer sei se nasceram, o que é que ganhava com isso, o mais certo era virem-me pedir ajuda, podem ser uns pelintras, uns tesos, que se desenrasquem, eu também nunca lhes pedi nada, sabes como tenho mourejado, catorze e mais horas por dia, não venhas com essa, qual é o teu interesse em conhecê-los, se calhar davam-te alguma coisa, nem sonhes com isso, ninguém dá nada, o tipo se quisesse já nos tinha contactado, o malandro fez de conta que não foi nada com ele; andou metido com a tua mãe, fez-lhe dois fedelhos, e pôs-se a andar nas calmas, pisgou-se; também, com a idade dela, o que é que a tola esperava, casar?! Só se ele fosse parvo, um rapaz daquela idade ia ligar-se para sempre a uma mulher de trinta e tal anos de idade e mãe de vários filhos, só se fosse estúpido, burrinho de todo, eu teria feito o mesmo, quanto mais longe dela melhor.

- Não me digas que terias coragem, fígados, para deixar uma mulher com duas crianças, uma de meses e outra de três anos de idade, não acredito que fosses capaz disso, não acredito, mesmo que afirmes o contrário.     

- Bem, não sei, mas o mais certo era não me meter com ela, metia-me com uma da minha idade, ou mais nova, ao menos casava e pronto, não ficava com remorsos, meus queridos anjos, eram do meu sangue, até parece que não tem coração, deixarem dois putos tão pequenos, inocentes, que culpa têm as crianças dos erros, das fraquezas dos pais?

- Ela deveria, como mais velha, ter tido mais juízo, pelo menos não emprenhar, mas se isso tivesse acontecido não estaríamos nós aqui, e olha que eu gosto de viver, apesar de não ter pai e ter uma mãe como a nossa.

- Tivemos azar, lá isso, tivemos. Há gente que nasce num bercinho de ouro, nós nascemos na palha, na pocilga, na imundície, na pobreza total, absoluta, ninguém nasceu mais pobre do que nós, sem nada, nem ninguém, pigmeus do mundo, crescemos sozinhos, ao deus dará, aos empurrões da fortuna, mas olha que não estamos pior do que alguns que nasceram em ricas camas, cheios de tudo, bom conforto, boa comida, roupa à fartança, não estamos, não, mas graças ao nosso esforço, não nos podemos queixar muito, outros estão bem pior, e olha que podíamos ter saído bêbados, ladrões, do piorio que há, mas não, felizmente saímos honestos, trabalhadores, todos nos respeitam e admiram, e alguns até inveja nos terão!

- Parece que a divina providência nos amparou, nos quis compensar de toda aquela miséria, daqueles anos de fome, de frio, de doenças, de falta de carinho, olha que a falta de carinho foi o que mais me custou, uns braços de pai, de avós, de uma mãe carinhosa e sorridente, mas não, nem avós, nem pai, com uma mãe a cheirar a sardinhas e a vinho entornado, até parece que foi castigo de Deus por algum mal que nós tenhamos feito antes de nascer, olha que eu não me lembro de ter feito mal fosse a quem fosse.

- Nós não fomos os únicos desgraçados, infelizmente houve muitos outros, alguns até foram abandonados pelos progenitores, nem sequer sabem quem são, eu até preferia ser um desses, ao menos não sabia quem eram, teria a ilusão de pensar que eram pessoas fidalgas, ricas, bem instaladas na vida, mas que não quiseram assumir o escândalo, uma aventura de jovens.

- O nosso avô Gaspar foi exposto, coitado, julgo que nunca soube quem foram seus pais, é muito triste, eu prefiro saber, não tenho culpa que os meus pais sejam quem são, não escolhi nascer deles, mas prefiro saber, se calhar até o teu pai não é o mesmo que o meu, eu gostava que fosse, seríamos irmãos inteiros, mas ele disse que não tinha a certeza, provavelmente a tua mãe andava com outro, com a bebida, não sei.

- O avô, coitado, ficou viúvo tinha eu cinco anos de idade, mal me lembro dele, morreu passado dois anos da morte da avó, em 1949, os desgostos mataram-no, ainda não era muito velho, só tinha setenta e dois anos de idade, a segunda guerra mundial deu cabo dos países, tudo racionado, muita miséria, carência de tudo, até havia falta de açúcar para fabricar os rebuçados e roscas.

- Quando faleceu a avó tinha eu três aninhos de idade, não me recordo nada dela, a mamã diz que ela sofreu muito, coitada, a tratar dos filhos, a criá-los, para depois os ver morrer, caíram como tordos, um a um, somente dois lhe sobreviveram, olha que custa; a vida para os pobres é sempre difícil. E para cúmulo da desgraça, as doenças, as mortes, o sofrimento! Os ricos gozam a vida, têm tudo, as doenças não os matam, têm bons médicos, podem comprar os medicamentos, vão para os melhores hospitais, até depois da morte são diferentes de nós: acompanhados aos cemitérios pelas irmandades, bombeiros, bons jazigos de família, missas de corpo presente, responsos; nós somos apenas acompanhados pelos humildes e a seguir enterrados em campa rasa, e ao fim de cinco anos atiram com outro corpo para cima dos nossos ossos e mais ninguém se lembrará da nossa passagem por este vale de lágrimas. Outro dia o senhor padre Alberto recusou-se acompanhar o funeral do marido da senhora Albina, alegando que ele não ia à missa, que era maçónico e ateu – eu nem sei bem o que isso é!

- E depois dizem que são representantes de Deus na terra! O Senhor com certeza não teria procedido dessa forma, as pessoas não são obrigadas a ir à missa; se o defunto pertencesse a essas famílias abastadas certamente ele não teria agido assim.

- Eu não gostava de ser milionário, isso não, mas também não queria ser um pobretana, estou cansado de o ser, contentava-me em ser remediado, não me importava de ser padre, têm uma vida boa, não pagam renda de casa, recebem a côngrua, alguns ainda são professores no Colégio, e agora já não ia para o exército, mas mesmo que eu quisesse não podia sê-lo.

- Não podias?!

- Somente os filhos nascidos no casamento católico são admitidos no Seminário.

- Desconhecia isso. Pulhas! Cada dia gosto menos deles. Que culpa têm as crianças de nascerem fora do matrimónio? Até Jesus nasceu! O pai dele não era São José, são os próprios padres a afirmá-lo, mas sim Deus, ou Jeová, como lhe chamam no oriente.

- Os padres não são os culpados, não foram eles que fizeram essa absurda lei. Julgo que foram os cardeais, ou os bispos, a pedido do Papa, talvez para proteger a Igreja Católica dos malnascidos. Por outro lado, o que disseste acerca de Jesus, atenção, isso é diferente: Deus é Pai e Senhor de toda a Humanidade e de todas as criaturas que existem e que porventura venham a existir no universo, não se pode confundir a divindade, o Ser Supremo, com um humilde ser humano. Jesus veio ao nosso planeta enviado pelo seu pai para nos salvar, para nos livrar da tentação. Escolheu Maria e o seu lar porque achou que aí Jesus teria as condições ideais para crescer em harmonia e virtude. Não confundas as coisas. Nós somos apenas criaturas de Deus e seremos sempre aquilo que ele quiser que nós sejamos.

- A padralhada tem-te doutrinado bem!

- Vós na cidade tornais-vos blasfemos, incréus!    

sexta-feira, 9 de junho de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
 
ROUBOS


AZEVEDO, Laurinda. Filha de José Joaquim Rodrigues de Azevedo e de Maria Luísa Bernardes, artistas, moradores no lugar de Barro Grande. Neta paterna de António José Rodrigues de Azevedo e de Marcelina Rosa de Araújo; neta materna de Constantino Bernardes e de Maria José Gonçalves. Nasceu em Penso a 30/4/1903 e foi batizada na igreja a 6 de Maio desse ano. Padrinhos: Eduardo José de Magalhães, proprietário, da Casa do Crasto, e Maria Esteves, jornaleira, do lugar das Lages, solteiros, ambos de Penso. // A 25/7/1917 fez exame do 1.º grau e obteve a classificação de ótima; era aluna da professora Amélia Emília Curvo Semedo (JM 1168). // Em 1936 queixou-se à autoridade administrativa por lhe terem roubado de casa uma fieira, uma cruz, um travessão, uma aliança, pulseira, uma imagem da Senhora da Conceição, tudo em ouro, e 100$00 em dinheiro; foi presa, como suspeita, Maria, de 16 anos de idade, solteira, de Barro Grande, Penso, acabando por confessar que fora a autora do roubo, e seu pai, Laurentino Nóvoas, encobridor (Notícias de Melgaço n.º 324). // Casou a 14/2/1942 com Manuel Secundino Alves, natural de Valadares, Monção, de quem enviuvou a 30/9/1963. // Faleceu no lugar de Barro Grande, onde morava, a 4/10/1979, e foi sepultada no cemitério de Penso. // Lê-se na sua campa: «Estarás sempre nos nossos corações

                                     *
   Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 325, de 20/9/1936: «Há pouco tempo apareceu em Melgaço um indivíduo desconhecido que dava pelo nome de António e consertava relógios ao ar livre no Largo da Calçada. Um dia destes o tal indivíduo desapareceu desta vila levando todos os relógios que (…) lhe haviam confiado para consertar, pertencentes aos senhores António Joaquim Esteves, António Augusto Pires, Manuel da Garage, José Cerdeira, Manuel Pereira, Manuel Gonçalves, e a uma criada da antiga Pensão Vila Verde. O mesmo gatuno roubou uma toalha de felpo a Higina Cerdeira, em casa de quem esteve hospedado e a quem ficou a dever quarenta e cinco escudos de hospedagem. Este indivíduo, um dia antes de fugir, despachou na Central desta vila, com destino a Viana, uma mala com diversos objectos. Ignora-se o seu paradeiro 

terça-feira, 6 de junho de 2017

LINA - FILHA DE PÃ
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
(continuação)...
 
     Entrou porta dentro e dirigiu-se à cozinha, onde costumava estar a sua Lina. Queria dar-lhe a novidade: «já cá canta!» Porém, quem surgiu aos seus cansados olhos, para seu espanto, foi uma rapariguinha franzina, de olhar tímido, acanhada.

 - Que fazes aqui? – pergunta ele com alguma dureza.

- Estou a tratar da senhora Lina, que teve um bebé; está na cama.

- É verdade o que dizes?!  

      Antes que a mocita lhe respondesse saiu disparado da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Viu a sua amada deitada, a fingir que dormia, e a seu lado o berço do catraio. Deu dois passos em sua direcção e pergunta-lhe:


- Então, como correu? É rapaz ou rapariga?

- Correu tudo bem. Eu estou forte, amanhã já me levanto. Olha para o berço. Não vês a cor? Azul. É um rapaz, um latagão. O nosso Leandro vai ser um homenzarrão.

- Posso pegar-lhe? É tão bonito!

- Ainda é cedo; deixa-o dormir. A Joaninha logo já o lava e põe-mo aqui para eu lhe dar a mama. Ah! Já me esquecia: passaste? Já tens a carta?

- Passei com distinção! O dinheiro compra tudo. Agora preciso de adquirir o automóvel, para isso terei de ir ao Porto. Não te importas que vá abaixo, à loja?

- Vai homem, vai. A mocinha está a preparar a ceia.

- Não precisará de ajuda? Vê lá!

- Eu daqui oriento-a. Não te preocupes – disse-lhe, sorrindo para ele.


     O senhor Manuel desceu até ao estabelecimento. Estava feliz. Um dia em cheio. Tinha uma mulher jeitosa, um filho, logo um rapaz, a vida corria-lhe bem. Graças ao contrabando, tudo se vendia e comprava. As pesetas e os escudos iam entrando nos seus bolsos como as abelhas entravam nas colmeias e a chuva penetrava nas terras aráveis. Os galegos eram bons clientes, pagavam a tempo e horas. Aumentara o número de lojas, já tinha empregados, o negócio prosperava a olhos vistos, chegava para todos. «Dinheiro chama dinheiro», diziam os mais antigos, e tinham razão.      

 
     À impostora, tudo corria às mil maravilhas. A criança foi batizada na igreja de Castro da Serra, tendo por padrinhos um casal de castrejos, amigos do “pai” do menino, em casa dos quais se realizou uma grande festa. Até baile houve ao som de uma concertina.

     Costuma dizer-se que não há bela sem senão. Pois é: a tal prima do senhor Manuel não desistiu do caso. Estava em jogo muito dinheiro e bens. Investigou, mandou investigar, e por fim a pesquisa surtiu o efeito tão desejado: a criança não era da Lina. A astuta mulher comprara-a, como quem compra um peru ou um pato!

     Depois dessa descoberta, dirigiu-se à Guarda Nacional Republicana e contou tudo que sabia. Não era por interesse, disse-lhes, mas sim para desmascarar a intrujona, a libertina. Já fizera aquela patifaria ao pobre do Mário, arruinara uns quantos lares, e agora aquilo. Aquela sacaninha era o diabo em pessoa.

     A Guarda pôs-se em campo. Em primeiro lugar foi a Cartagães e deu ordem de prisão à mãe da criança. Nem sequer foi necessário levá-la presa – ao primeiro safanão confessou tudo:

 
- Senhores guardas, eu e o meu homem temos tantos filhos, passamos tanta fome, e aquele ao menos está bem, em casa de gente rica. Por favor: não lhe estraguem o seu futuro.

- Mas, senhora Umbelina – diz o cabo com comiseração – não vê que vender uma criança é crime grave? A senhora não se vai livrar de cumprir uma pena, embora leve, julgo eu, tendo em conta a sua extrema pobreza, mas não volte a fazer o mesmo. A Lina desta vez vai para a prisão durante algum tempo, a fim de pagar por todas as patifarias que tem feito.       

- Eu não tenho nenhuma queixa dela, tem-me ajudado muito. Que Deus a proteja.

- Está bem, está bem, apresente-se amanhã no posto; não falte, se não vimos buscá-la e é pior para si.
 
 
desenho de Manuel Igrejas
 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




25.ª - «Senhor Redactor: não cessa a indignação produzida pelos atentados repetidos, feitos pela Guarda Fiscal deste posto e dos circunvizinhos, contra o povo – respectivamente nas festas de São Bento e Santa Isabel. Nós, que já dissemos da nossa, por mal contida, só, por esta vez nos limitamos, a fim de, pelos seus superiores, lhes serem apuradas responsabilidades, a indicar-lhes o seguinte caminho: - para onde estavam escalonados em serviço os … soldados naqueles dias? Talvez, assim, já o chefe desta secção, já os sindicantes (pois uma sindicância urge e é infalível) conhecerão bem, talvez, a duplicidade dos crimes. – Falta de cumprimento ao dever e o resto de que já tratamos. Note-se: há muitos guardas casados em Castro Laboreiro e muitos descendentes destes que ombreiam connosco nesta campanha, que não é de perseguição, pois teríamos a menos ser perseguidor de alguém, mas só de moralidade. Nem um átomo, nos arredamos da verdade; e citaremos nomes, para evidenciar o que afirmamos. – Ousemos lembrar às autoridades que superintendem na escola, a necessidade absoluta de, durante o período de férias, olharem por tudo o que lhes respeita: mobília, utensílios escolares, material de ensino… E que não esqueçam a criação de mais, porque este povo definha por instrução, e tem direito a que lhe sejam fornecidos os meios de adquiri-la. // Que belo é agora isto! Contemplar duma elevação a vida castreja neste tempo… Ao desaparecimento do loiro das searas, que a foicinha já ceifou, sucede o amarelo claro dos tojais que emolduram os cumes das montanhas, como as seves das azinhagas, como os prados dos vales. Tudo trabalha, desde os alcantis das serranias, onde se destacam as camisas brancas dos lenhadores, até aos recôncavos dos vales, onde se nos mostram os dois sexos em contínuo e comum labutar. Porque, convençam-se os poucos que nos lêem, que o castrejo é trabalhador e ordeiro, como é cioso dos seus direitos. // Para férias retirou-se o nosso considerado amigo Matias Sousa Lobato, digno professor oficial. Cremos que fosse buscar alívio para um grave ataque artrítico que há muito o aflige… // Lemos com satisfação que, em diversas freguesias ribeirinhas, se deu, agora, pelo contrabando de milho para a Espanha. Ainda bem que, conquanto tarde, as nossas afirmações… Quem vem, não tarda. / Castro Laboreiro, 4/8/1916.»