sábado, 7 de maio de 2016

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de Os Lusíadas, de Camões)

Por Joaquim A. Rocha




31

A doença destruiu aquele povo,
Poucos sobreviveram à chacina.
Em nome de um deus e mundo novo
Mataram lacaios, rei, e a sabina;
Os que restaram foram para o covo,
Cumprindo penas, sua cruel sina.
E assim, privados da sua liberdade,
Transformam-se em noivos da saudade.

32

E para quê, senhores, tanto castigo…
Que mal fizera aquela pobre gente?
Naquele sítio não havia mendigo,
Nenhum ser maltratado ou indigente;
Todos tinham sopa e persigo,
Um sorriso nos lábios de contente.
Para quê destruir quase uma nação,
Tratá-la, como fatal maldição?

33

Mais tarde vieram os jesuítas,
No alforge a evangelização;
Gente fanática, vis parasitas,
Esmagando virtude, sã razão.
Por palavras, cem mil vezes reditas,
Impuseram nova superstição.
E pra que a coisa parecesse digna
Tornaram a fé dos outros maligna!

34

E assim se foi criando um país,
Dezenas de vilas, grandes cidades;
Mil capelas, a igreja matriz,
Grossas riquezas, imensas maldades.
Explorou-se com ganas o maís,
O café tornou-se rei das vaidades.
Muitas escolas, e até colégios,
Surgiram, e os muitos privilégios.   

// continua...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

LINA - Filha de Pã
romance

Por Joaquim A. Rocha



... continuação.

   O relógio do tempo inexoravelmente foi marcando os segundos, os minutos... O juiz andava radiante. A sua namorada morrera, como fora previsto, ficara completamente livre. Tinha agora a amante jovenzinha, satisfazia-lhe todos os desejos, todos os caprichos, era a sua escrava, só esperava que não engravidasse, aí é que as coisas fiariam mais fino. Um dia, à hora do almoço, a Lina dirige-se ao patrão/amante e diz-lhe:

- Meu amor, este mês não me veio o período, se calhar estou prenha.
- Santo Deus, isso não é nada bom. Estamos perante um mau agouro. Espera mais algum tempo, pode ser uma falha natural, a gente tem abusado um pouco nas relações, é melhor abstermo-nos durante uns dias.
- Eu adorava ter um filho seu. Com um pai assim, tão perfeito, tão inteligente, até dá gosto ter uma criança.
- Não vinha na melhor altura. Faço votos para que não estejas grávida. Se estiveres, tens de arranjar alguém que te faça o aborto. Eu dou-te o dinheiro.

     Ela olhou para o amante e começou a chorar. Lavada em lágrimas, diz-lhe com convicção:

- Não quero fazer nenhum aborto. O bebé há-de nascer. Nem que eu tenha de fugir para bem longe, para a serra, ou mesmo para o estrangeiro.

     Ele ficou furioso com essas palavras. Os seus olhos chisparam de raiva, tornando medonha a sua fisionomia.

- Tu estás doida, ou quê? Achas que eu permitiria que tivesses uma criança minha? Nunca! Ouviste? Nunca!

     Ela chorou copiosamente. Abraçou-se aos joelhos do seu senhor, pedindo-lhe que deixasse vir ao mundo, o fruto daquele gigantesco amor. Ela ficaria com a menina ou menino, não diria a ninguém que era dele.
     Ele ficou pensativo. Ela acabara de lhe dar a chave da solução, sem correr quaisquer riscos.

- Está bem, se estiveres grávida não abortarás. Confirma a gravidez.

     Passou mais um mês e nada de menstruação. Estava de facto grávida. Uma noite, ao jantar, ela diz-lhe, com algum receio:

- Não há dúvida nenhuma: estou de esperanças.

     Ele já tinha pensado em tudo. O seu plano não falharia.

- Tudo bem. A partir de agora vais cumprir escrupulosamente tudo aquilo que eu te ordenar para fazer. Em primeiro lugar aceitas o namoro daquele pelém que por aqui passa todos os dias para te ver.

     Ela rapidamente faz a lista dos seus pretendentes e diz:

- Mas esse é o mais feio de todos!
- O mais feio e o mais tolo. Trazes o palerma aqui para a garagem, tens relações com ele, e daqui a um mês dizes ao sonsinho que estás grávida. Como és menor, ele terá que casar contigo. Disso trato eu.

     Ela ficou pensativa. Ter que ir para a cama com aquele idiota, beijá-lo, suportar aquele cheiro da brilhantina… Se ainda fosse o Tónio, uma bonita figura de rapaz… Mas por aquela vida que ainda havia de nascer valia a pena sacrificar-se. O Senhor Doutor nunca admitiria ser pai da criança. E quem era ela para o enfrentar? A força estava do seu lado, nada havia a fazer. Podia ser que ele a conservasse como criada, que continuasse a ser seu amásio, aquele parvo não se aperceberia de nada, e mesmo que se apercebesse, que importava? Depois de uma certa hesitação, decidiu-se:     

- Está bem, eu aceito. Amanhã já o procuro, ele está doidinho por mim, não vai ser difícil trazê-lo para a garagem.
- Menina bonita, assim é que é falar.

     Tirara-lhe um peso enorme da consciência. Dali a uns meses punha-se a andar, nem sequer a avisava. Que ficasse ela, o pimpolho, o choninhas, toda aquela gente analfabeta e rural. Ele era um homem da cidade, um cavalheiro, pertencia a outro patamar social. Por outro lado, tinha imensas ambições: pretendia fazer um doutoramento, chegar ao Supremo Tribunal de Justiça, ter um nome prestigiado na ciência do Direito. Fora bom tê-la na cama, ensinara-lhe tudo que sabia sobre a arte do prazer, ela até lhe devia estar agradecida por esses ensinamentos. Ficara quase mestra na ciência do amor libertino.         
     No dia seguinte, tal como ficara planeado, a Lina foi fazer algumas compras às lojas do Terreiro e no regresso veio pela Rua Direita, pelo sítio onde costumava estar o Mário, o tal que estava perdido de amores por ela. Ele dirigiu-lhe a palavra, sabendo de antemão que não obteria qualquer resposta.

- Bom dia, Lina. Hoje estás muito bonita. Cada dia que passa gosto mais de ti.

     Olhava-a com ternura, com aqueles olhos quase saídos das órbitas, cabelo super penteado, os pêlos da face a começarem a aparecer.

- Tens que cortar essas cerdas da cara – observa ela, a brincar, a fim de iniciar conversa.

     Ele arregalou os olhos, não contava que ela lhe falasse. O que teria acontecido? Um milagre?

- Pois é, tenho que comprar lâminas; a barba começa a dar sinais de vida.  
- E podes deixar crescer o bigode, é capaz de assentar bem no teu rosto.
- Achas? Nesta carinha tão magra, esquelética!
- Tu até não és feio, precisas é de engordar um bocadinho.

     Começa a aparentar um certo nervosismo, olha-o nos olhos e diz-lhe:

- Logo à noite queres aparecer? O Senhor Doutor Juiz deita-se cedo, vai sempre, depois do jantar, ler um livro, e assim podemos conversar um pouco.
- E o cão? Olha que não é para brincadeiras!
- Eu sei, mas já me conhece bem; pessoa que esteja comigo ele não ladra.
- Então fica combinado: estarei no portão por volta das dez.  

     Despediram-se com um olhar meigo. Ele, logo que se afastou, deu pulos de contente. Nem sequer acreditava no que lhe estava a acontecer – parecia até um milagre. Namorar com a Lina era um sonho que já durava havia algum tempo, mas pensava que jamais se transformaria em realidade. Por ela tudo faria – até arranjar trabalho! Tinha que a merecer, não podia ser um zé-ninguém, estar a viver à custa dos irmãos. Os seus pais já tinham falecido, ficara órfão aos seis anos. Dirigiu-se a casa e, logo que entra, a irmã acusa-o:

- Então! O “fidalgo” ainda não arranjou emprego? Tem quem o sustente, não é? A boa vida é melhor do que o trabalho, pois claro.
    
     Correram-lhe duas lágrimas pela face. Todos os dias tinha que ouvir um sermão dos manos, mas ele não tinha culpa de nada. Não queria andar nas obras, trabalho duro e mal remunerado, mas também não podia arranjar emprego público, pois só conseguira fazer a terceira classe. Ainda tentara aprender o ofício de sapateiro, mas nada lhe pagavam, era de graça, e muito lhe exigiam. Aqueles patrões sempre zangados, autoritários, gostavam imenso de mandar, dar ordens a torto e a direito, mas não entregavam um tostão em troca. Ainda lhe diziam que devia estar agradecido, pois estavam a ensinar-lhe um ofício. Mas o que é que lhe ensinavam? A endireitar as tachas, a engraxar uns sapatos, a coser uns chanatos, a consertar umas botas cheias de porcaria, com cheiros nauseabundos, insuportáveis! Todo o serviço interessante e limpo fazia-o o mestre. Virou-se para a irmã e informou-a, em modos de pergunta:

- Sabes que os dois filhos mais velhos da senhora Teresa vão para o Brasil?
- Onde teriam arranjado o dinheiro para o barco? – perguntou ela.
- Parece que foi um tio que lhes mandou a carta de chamada e o dinheiro para as passagens. Quem me dera também ir.
- Tu?! Nós não temos parentes ricos no Brasil. Só se fosses a pé! Por outro lado, com o teu apetite pelo trabalho, corriam logo contigo. Ainda te levavam para a selva, para junto dos índios. Mas nem esses te queriam – só tens ossos! 
- Tu brincas, mas eu, se me apanho lá, até conseguia enriquecer. Juro-te! Não vês o senhor Chico da Calçada, veio rico de lá; já comprou uma linda vivenda e uma quinta. E o que era dantes? Um simples agricultor, os pais eram caseiros em Galvão de Riba.
- Mas há quem diga que trabalhou como um escravo, anos a fio. Tu és fidalgo, e calaceiro, não gostas de vergar a espinha. Também, com esse corpo de raquítico, logo quebravas as molas!
- Isso é o que tu dizes, eu sou forte, ainda to hei-de provar.

- Está bem, está bem, léria não te falta, mas isso não enche a barriga a ninguém. Olha, vai mas é à horta apanhar umas couves para o caldo verde. E traz também umas cebolas e tomate. E não demores. // ... continua...

terça-feira, 3 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



Cartas de um castrejo 

16.ª - «Senhor Redactor: não me consta (…) que a digna paróquia desta freguesia haja tomado qualquer resolução acerca do problema educativo a resolver e de cuja solução temos necessidade urgente. E estou surpreendido porque, desde garotito – quando desempenhava o pesado encargo de pinche (*) por essas Espanhas, no lucrativo mister de canteiro, em miniatura, vendo as sumptuosidades dos alcáceres de Alhambra e Granada, passeando ante os magníficos palácios das “Puertas del Sol” e “Plaza Mayor”, em Madrid, percorrendo Valência e Burgos, fazendo paragem em Barcelona – cidade que alia, às mais apuradas indústrias, uma tenacidade de “hierro” para as justas reivindicações; transpondo a fronteira (sem passaporte), e já meio pedreiro, tendo afrontado as inclemências do clima da Beira Alta, onde o calor insuportável das trincheiras me produziu umas maleitas levadas de Satanaz, percorri o Douro, fazendo pequenos suportes, nos inúmeros valados das encostas dos seus abruptos montes e, como o judeu errante, havendo visto grandezas e misérias, e percorrido uma boa parte da península, saltei ao lar com pouco dinheiro (e creiam que não era pródigo), muita saúde e um pouco de prática do mundo, deste mundo que os meus sessenta bem puxados me dizem ser um misto de infortúnios e venturas, um pandemonium de vícios, perfeições e misérias – o enorme páleo em que os milhares de biliões de viventes representam o seu papel: - desde o micro orgânico ao elefante e à baleia, desde o musgo dos rochedos ao carvalho secular, e… à sensitiva. Pois nada nos surpreendeu (…) mais que o não termos notícia do menor movimento em benefício da cruzada que advogamos: - a da instrução do nosso povo. Não repetimos as considerações já feitas aqui, antes lhas gritaremos ao ouvido, em ocasião oportuna. Mas, para quê?! De entre os membros da paróquia, ou seus mentores, alguns nos foram companheiros durante a vida de peregrinos (não disse bem, de homens que buscam onde ganhar o pão condignamente) e, logo, devem raciocinar como nós, devem pensar como nós, devem comungar connosco o amor sacrossanto que todo o bom filho deve à terra mãe, que lhe serviu de berço. O assunto magno da nossa vida social é a educação (…); pugnemos pois por ela, com toda a energia, com toda a boa vontade. Preparem a representação, enviem-na ao seu destino e, para a frente, que o parar é morrer. E creiam todos que é alta a responsabilidade que lhes impende sobre as consciências, se não agirem com toda a perseverança e fé. Creiam, também, que cá está ao lado, mas pronto para todos os sacrifícios… um castrejo (Correio de Melgaço n.º 200, de 21/5/1916).»


     // (*) Rapaz de recados; ajudante.    

domingo, 1 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

de Joaquim A. Rocha

desenho de Rui Nunes


  António Maria Guerreiro Ranhada, natural de Vilar de Mouros, Caminha, foi na sua juventude emigrante no Brasil. Devido a uma doença grave, regressou a Portugal a fim de se tratar. "Descobriu" as águas de Melgaço em finais do século XIX, que o curaram. Casou na freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, teve filhos, e aí morreu já com bastante idade. Com o pouco dinheiro que lhe restava comprou terreno e mandou construir um hotel, no início modesto, mas a pouco e pouco foi-o melhorando. Os clientes foram aparecendo, cada ano mais numerosos, alguns deles figuras importantes no panorama nacional, surgiram outros hotéis, mas o seu foi sempre uma referência.  
       
    Nos hotéis também se morre. Em 1898 faleceu aí um hóspede: «SOUSA, Francisco. Filho de Gregório Ferreira de Sousa, proprietário. Nasceu no sítio da Levada de Santa Luzia, Funchal, Ilha da Madeira, por volta de 1836. // Proprietário. // Faleceu a 17/6/1898, às três horas da tarde, no Hotel do Peso, freguesia de Paderne, Melgaço, apenas com o sacramento da extrema-unção, com 62 anos de idade, no estado de casado com Luciana Martins Ferreira de Sousa, sem testamento, com filhos, e foi «depositado» no cemitério público da vila de Melgaço.»

      No ano seguinte morre outro hóspede: [AZEVEDO, Tristão. Filho de Álvaro Rodrigues de Azevedo e de Maria Justina de Azevedo, proprietários. Nasceu por volta de 1855. // Era capitão de Infantaria n.º 25 quando faleceu a 10/10/1899, pelas nove horas da noite, no Hotel do Peso, Paderne, sem quaisquer sacramentos, por ter morrido repentinamente, com 44 anos de idade, no estado de casado com Helena de Azevedo, morador na Rua de São Bento, Lisboa, sem testamento, com filhos, e foi depositado na capela do cemitério público da vila de Melgaço «com a intenção de ser conduzido para o cemitério dos Prazeres da cidade de Lisboa]

     Outra morte: «SÁ, Mário Arantes de Seabra. Filho de Adriano da Costa Carvalho e Sá e de Rita Arantes de Seabra e Sá, proprietários. Nasceu em Miragaia, Porto, por volta de 1889. // Faleceu a 9/6/1903, pelas três horas da manhã, no Hotel da Quinta do Peso, sito na freguesia de Paderne, Melgaço, sem sacramentos, com apenas catorze anos de idade, e foi depositado na capela do cemitério da vila de Melgaço para posteriormente ser levado para o Porto.» 
    
     A causa da morte era quase sempre a mesma: a maldita diabetes. As águas de Melgaço ajudavam o doente a melhorar, até conseguia milagres, mas alguns já estavam numa fase avançada da doença, e assim as hipóteses de cura eram praticamente zero. 


     Como a maioria dos hóspedes era católica, o proprietário do Hotel Ranhada mandou construir em terreno próprio uma pequena capela; o professor Ribeiro da Silva dedicou-lhe uma das suas gazetilhas (ver Notícias de Melgaço n.º 371, de 10/10/1937).

   Em 1919 tinha imensos hóspedes (Jornal de Melgaço número 1260, de 31/8/1919). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 237, de 24/6/1934: «Pelo Conselho Nacional de Turismo foi atribuída a categoria de hotel de 3.ª classe ao antigo Hotel Ranhada, da estância termal do Peso, Melgaço.» 

     Em 1937 esteve ali hospedado o bispo de Meliapor, com o objetivo de fazer tratamento nas termas.  

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

de Joaquim A. Rocha


CASA DE SOENGAS

     Sita na freguesia de Chaviães. A pedra de armas, encontrada numas escavações, é um brasão de forma indefinida, barbaramente trabalhado, que parece mostrar-nos um escudo cortado, sendo a segunda parte partida. / No século XVIII pertencia a Sebastião Gomes de Magalhães e à sua esposa, Jerónima Luísa de Araújo, que a herdara de seus pais, António Álvares do Souto e Maria dos Santos de Araújo. Uma filha do casal, Jerónima Luísa de Abreu Araújo de Magalhães, casou na igreja de Chaviães, a 26/8/1797, com António Jacinto de Araújo Azevedo, ficando ambos a viver, depois do casamento, nesta Casa. Aí lhe nasceram os filhos. // O Dr. Augusto César Esteves, melgacense, ao fazer a biografia de Baltazar Luís de Araújo Azevedo, nascido na Casa da Gaia, São Paio, a 27/7/1840, escreveu: «A rica casa de bens que foi a de Soengas começou a desmembrar-se na vida do avô deste fidalgo pela alienação da velha Quinta do Carvalho do Lobo; continuou o declínio no tempo do pai e de todo a deixaram perder os filhos do António Caetano (1798-1878). / Baltazar e seu irmão Joaquim venderam, a 6/8/1880, por quatro contos e quinhentos mil réis, ao “brasileiro” António Joaquim Afonso, então solteiro, quanto possuíam em Chaviães, ou seja, a Casa, a Quinta, e o mais por ali situado» (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, volume I, página 566). / O tio de Baltazar Luís, de seu nome José Vitório de Araújo Azevedo, também vendeu, ao dito comprador, por 200$000 réis, o seu quinhão.     


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quarta-feira, 27 de abril de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha


macróbios

DOMINGUES, Júlia da Assunção. Filha de Manuel António Domingues e de Rosa Pires. // Nasceu na freguesia de Lamas de Mouro, concelho de Melgaço, em 1914. // Casou com José Augusto Afonso, de quem ficou viúva. // Faleceu no lugar de Gramoinha, freguesia de Paderne, onde residia, a 11/4/2014, com cem anos de idade (ver A Voz de Melgaço n.º 1368, de 1/5/2014). // Foi sepultada no cemitério de Paderne.  

DOMINGUES, Maria. Filha de Manuel Domingues e de Joaquina Domingues, lavradores, residentes no lugar de Cima, freguesia de Lamas de Mouro. Neta paterna de Manuel Domingues e de Maria Domingues; neta materna de Domingos Domingues e de Isabel Esteves. Nasceu em Lamas de Mouro a 10/3/1906 e no dia seguinte foi batizada na igreja paroquial. Padrinhos: Manuel Domingues e sua esposa, Ana Afonso, camponeses, moradores no lugar da Touça, freguesia de Lamas de Mouro. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 19/7/1924 com José de Araújo. // Enviuvou a 24/11/1983. // Faleceu na freguesia de Rouças, concelho de Melgaço, a 6/2/2003, com cerca de 97 anos de idade.


DOMINGUES, Maria Teresa. Filha de Manuel Joaquim Domingues e de Maria Rosa Domingues, lavradores, residentes no lugar de Touça, freguesia de Lamas de Mouro. Neta paterna de António Joaquim Domingues e de Mariana Alves; neta materna de Domingos Domingues e de Isabel Esteves. Nasceu em Lamas de Mouro a 8/9/1897 e no dia seguinte foi batizada na igreja paroquial. Padrinhos: os seus avós paternos, lavradores, residentes no lugar de Cima. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 13/3/1922 com José Alves. // Enviuvou a 31/12/1970. // Faleceu na freguesia de São José e São Lázaro, concelho de Braga, a 5/1/1997, quase com cem anos de idade. // continua... 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ENTRE MORTOS E FERIDOS

(dois anos de guerra nas matas da Guiné-Bissau)

romance histórico - Por Joaquim A. Rocha

10.º capítulo

 A VIAGEM

  
     A parte da narrativa relacionada com a guerra vai agora começar. Viajantes forçados, transportados como animais de carga, acções de empresas falidas, ei-los a caminho das matas africanas. Cândido, como sempre, usando um discurso didáctico, esclarece:

- Meu caríssimo amigo: quem nunca viajou de barco há-de pensar certamente que é um prazer. Isso acontece somente quando se viaja em paquetes de luxo, com todas as comodidades, poucos passageiros e muitos serviçais, em águas calmas, com constantes idas a terra. Mas viajar num navio para quinhentas pessoas e lá dentro serem transportadas quase duas mil, sem quaisquer confortos…
- Estou a ver… E quanto tempo durou a viagem?
- Cerca de seis dias, e seis noites: uma vida! Seis dias de tortura: má disposição, enjoos, vómitos. Ao sairmos a barra, e mal penetramos no Atlântico, este, talvez por não gostar da nossa intromissão – ou relembrando épocas passadas – quis aniquilar-nos, provar que era o mais forte. Atirou com raiva incontida o navio ao ar e bateu-lhe rijo com ondas de muitos metros de altura!
- Assustou-se…
- Eu, que pela primeira vez navegava, não tendo em conta aquelas passagens na batela no rio Minho, poucos metros de largura e com águas calmíssimas, senti um horrendo calafrio: afinal o meu fim – pensei – estava mais próximo do que previra. Seria o mar, o imenso mar, e não a terra, o meu leito de morte! Uma sepultura marítima, como os marinheiros de outros tempos tiveram. E lembrei-me então de Ulisses, seus homens a serem engolidos pelas profundas águas, pelos deuses em fúria: «Enquanto olhávamos para Caribdes com receio da morte, Cila arrebatou-me da nau côncava seis companheiros, os melhores de braços e os mais valentes. Ao volver os olhos para a nau ligeira – e para os meus companheiros – só então percebi os pés e os braços dos que tinham sido arrebatados…»

     Henrique tudo ouvia, fascinado, mas comovidíssimo. «Como era possível, tudo aquilo, ter acontecido? As pessoas não são gado», pensava. Arriscou uma pergunta, cuja resposta já fora dada, mas que lhe escapara devido a uma pequena desatenção:

- E o navio, quantas pessoas levava?
- Meu caro amigo, aquele cruzeiro fora construído para transportar cerca de quinhentas almas, como mais atrás te disse; como o governo precisava urgentemente de colocar soldados em África, naquela viagem o Uíge transportava cerca de duas mil criaturas! Duas mil vidas flutuando ao sabor das ondas e do destino.
- Aposto que não iam lá dentro oficiais de alta patente…
- Acertaste em cheio. O oficial mais graduado a bordo era capitão. Os oficiais com patente superior eram transportados por via aérea: mais cómodo, mais seguro, mais rápido. Não queriam correr riscos, nem misturar-se com a ralé. Lusos, todos; mas uns mais do que outros! Como estava longe o tempo em que os generais acompanhavam as suas tropas: Júlio César, Aníbal, Carlos Magno, Napoleão… Nos tempos hodiernos refugiam-se em gabinetes atapetados e daí, através de sistemas modernos e sofisticados, complexos, transmitem as suas ordens, inventam as suas estratégias: puros jogos de computador!
- Não teme que esses comentários, esse seu modo de pensar, o comprometam? Nunca se sabe o dia de amanhã.
- Não estamos nós num país livre? A ditadura já acabou e espero que em minha vida a não volte a sentir. Sabes, Rique, que é quase impossível indivíduos com as minhas características sobreviverem num regime ditatorial – simplesmente sufocamos.    
- Calculo. Eu apenas lhe senti o efeito pela rama. De qualquer modo tenha cuidado. Comigo está à vontade, pode confiar cegamente, mas nem todos são seus amigos como eu – há muita maldade no mundo.
- A quem o dizes. Eu sou prudente, embora por vezes me exceda nas minhas apreciações; mas não posso com injustiças…
- Sugiro-lhe que continue a sua narrativa, embora goste de ouvir as suas divagações.
- Faço-te a vontade. Escuta, então: nos dois primeiros dias da viagem não consegui ingerir qualquer espécie de alimento – o meu delicado estômago não permitia; depois, lentamente, fui-me adaptando ao baloiçar ininterrupto, pendular, da embarcação. Outros camaradas não o conseguiram. Logo que chegámos perto de Bissau tiveram de ser conduzidos para o hospital militar (infelizmente não havia outro em todo o território, dando-nos de imediato a ideia do que era a província da Guiné, com o que poderíamos futuramente contar).   
- E durante o trajecto passou-se algo de importante, um episódio que mereça destaque?
- Talvez! A bordo ia um mercenário, isto é, um soldado voluntário que já tinha feito campanhas em Angola e Moçambique! Comparado connosco parecia um ancião, devia ter à volta de trinta anos de idade. Penso que ele iria mais pela aventura do que pelo dinheiro, visto que o exército português pagava muito mal aos seus soldados.
- A não ser que se tratasse de uma excepção ou de um agente da PIDE!

Olhando para a cara do amigo, incrédulo, diz-lhe:
- Admira-se? Olhe que é uma conclusão plausível; segundo me disseram, eles infiltravam-se em todo o lado, nada lhes escapando.
- É possível; mas ele contou-nos que tivera um grande desgosto de amor; a namorada trocou-o por um emigrante e foi com ele para França. Desejava a morte, pois a sua vida era um autêntico calvário, e por isso procurava-a nas matas africanas. Como não pertencia à minha Companhia só nos encontrámos no mato uma única vez e devido ao seu comportamento, pouco consentâneo com o momento que se estava a viver, logo fiquei com a impressão de que não regulava bem da cabeça.
- Mas o que é que ele fez para o impressionar assim tanto?!
- Bem! Andava alegre, descontraído, cantava, queria que fôssemos com ele à caça, afastando-nos do acampamento, correndo riscos inúteis, até parecia que se encontrava nas serras do continente!
- Devia estar mesmo doido. A cachopa deixou-o de rastos!
- Estava, de certeza! Vou-te contar outro episódio interessante: no navio, e pertencendo à minha Companhia, encontrava-se um fadista já com alguma fama, natural do Porto. Logo arranjaram uma guitarra e ele cantou uns fados. Cantava bem, mas parece que após o regresso se tornou alcoólico, ou qualquer coisa do género, devido a um tremendo desgosto de amor. Como simpatizou comigo, contou-me que namorara uma cantora, também no início de carreira, e que agora é famosa, mas quando ele foi para a Guiné já ela tinha outro. Não suportou a rejeição, é o diabo! As mulheres são volúveis e os homens sofrem as consequências.     
- Nem todas serão, mas eu acerca disso não me posso pronunciar, tenho pouca experiência, e a que possuo ainda não dá para tecer grandes considerações sobre tão melindroso assunto. Uma coisa é certa: ninguém deve casar com uma pessoa de quem não gosta.
- Tens razão. Eu ainda me mantenho solteiro, mas já namorei com algumas raparigas. Não é fácil entendermo-nos.
- Desembarcaram no porto de Bissau?
- Não, não desembarcámos aí, mas sim muito longe. Quem nos dera que isso tivesse acontecido. Lanchas da marinha, semelhantes a ferry-boat, esperavam a Companhia. Descemos do Uíge para as lanchas e depois seguimos rumo a Bolama, antiga capital da Guiné. Pelo caminho os marinheiros ofereceram-nos pão de trigo (casqueiro) com chouriço e um pouco de vinho tinto, que saboreamos com um certo prazer.