quinta-feira, 24 de setembro de 2026

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha 



PREFÁCIO

 

 

     Não é de modo algum fácil fazer uma introdução a um livro de poemas de valor tão desigual: poder-se-ia dizer, não errando muito, sem poesia! Muitos deles, sei-o, nem sequer deveriam aqui figurar, pois correm o risco de serem ridicularizados por quem os ler. No entanto, não quero privilegiar qualquer deles, visto que todos são fruto da minha imaginação, do meu trabalho e, até certo ponto, refletem o meu sentir na ocasião em que os escrevi.

     Não me lembro bem quando comecei a rabiscar poemas, mas julgo que essa necessidade de escrever se verificou aquando da minha comissão em terras da Guiné-Bissau, como soldado. Longe da terra, da família, dos amigos, enfim de tudo aquilo que me era querido.

     Escrever foi o escape por onde saiu a raiva por me sentir impotente perante uma estrutura demoníaca que nos atirava para as matas africanas sem sequer ouvir as nossas vontades. Éramos lançados às feras sem quaisquer possibilidades de defesa. Pode-se hoje afirmar – sem grande margem de erro – que se fossem para a guerra colonial apenas os voluntários não teriam – os governantes – pessoal nem para encher um bote. Contudo, estiveram na guerra centenas de milhar de jovens! Contrariados, mas estiveram!

     A minha vida não começou a ter história somente com a minha inserção na tropa; poder-se-á dizer, sem exagero, que a sua história começa mesmo antes de eu ter nascido! Ninguém pode negar que a nossa vida é a continuação de outras, são elos de uma cadeia interminável. Os meus avós, que morreram quando eu era criança, tinham com certeza a sua história; porém, perdeu-se no tempo e na memória das gentes.

     Eu nasci em plena guerra mundial, num lugarejo junto a dois rios, e tudo era difícil nessa altura: os géneros de primeira necessidade não abundavam, embora houvesse a circular algum dinheiro – sem valor, claro. Dizia a minha mãe que fome nunca passámos. Matar a dita, para ela, era encher o estômago de pão grosseiro.

     O lugar era solitário, mas belo. Hoje em dia está praticamente deserto, vai desaparecer em breve.

     Não me considero poeta, se comparado com Camões, Antero, Bocage, e outros tais. Como atrás disse, comecei na tropa a fazer uns versitos; mas, claro, sem quaisquer conhecimentos técnicos e científicos sobre arte poética não podia produzir coisa que valesse. A saudade da terra, da família, dos amigos, até do meu antigo trabalho, inspiravam-me e assim vertia para o papel as palavras que, tímido, não tinha a coragem de dizer oralmente. Inculto como então era, dizia apenas banalidades. Os temas eram o amor (platónico), a saudade, a natureza, e pouco mais. Escrevi, durante a minha permanência na Guiné-Bissau, dezenas de cartas a raparigas da província, cujas moradas me tinham sido dadas por rapazes seus conterrâneos. Escrevi também a rapazes do meu concelho que se encontravam, tal como eu, a cumprir o serviço militar em África. Esta troca de correspondência foi muito importante para mim: por um lado não me sentia tão só; por outro lado, descobri que podia escrever um texto seguindo uma ideia lógica, um pensamento coerente. Eu era capaz de dizer quase corretamente o que pensava! Foi uma descoberta importante para mim, valiosa, fundamental.

     A poesia é para mim a possibilidade que o indivíduo tem de dizer aquilo que sente, sem hipocrisia, sem fingimentos, mas com arte. O poeta põe a nu o seu corpo, a sua alma, e confessa-se: não a um padre, não a um deus, mas a si próprio. Ao poeta pouco interessa os outros. Estes são mais símbolos da existência do que propriamente recetores da sua mensagem. Esta é enviada de dentro para dentro e só rasga o tecido por descuido ou vaidade do ser humano. Ninguém, desde que seja normal, gosta de aparecer sem roupa no meio da praça.

     Dizem que o poeta não é feliz. Há até quem afirme que só o infeliz pode ser poeta! A verdade é que há poetas nos dois lados da fronteira: uns cantam a alegria, o sol, a natureza viva, e outros, zangados consigo mesmos, só a tristeza, o horror, a agonia... Por vezes, o mesmo poeta, muda de posição, sofre uma metamorfose, e torna-se outro, como se fora duas pessoas totalmente diferentes.

     No meu poema “Ser Poeta” eu escrevo: «ser poeta é ser nada/é ser ninguém». Quer dizer: o poeta despoja-se do seu «eu», reencarna, ou assume, a vida de outrem; ignora a sua existência e realça a luta pelas vidas alheias. Será assim? Será que o poeta, como pessoa, se identifica com aquilo que escreve? / Se analisarmos a índole do poeta, tão complexa e tão simples ao mesmo tempo, verificamos que são insuficiências de vária ordem o que o leva a exprimir a sua dor ou o seu otimismo. Ninguém consegue falar, ou escrever, se não tiver algo, por pouco importante que seja, para comunicar aos outros. Se partirmos deste raciocínio chegamos à conclusão de que existe então no seu espírito um desequilíbrio qualquer, uma necessidade imparável de deitar para fora de si algo que o perturba. Ele procura compensar com palavras, sentidas, quantas vezes amarguradas, aquilo que a vida, por diversas razões, não lhe proporcionou ainda. A sua sensibilidade é afetada por acontecimentos que não controla: por fraqueza ou por integridade. O poeta, quanto a mim, é um ser íntegro, cheio de preconceitos, carregado de moral.

     Eu posso afirmar que na minha vida tudo tem sido insuficiência: de afeto, de conforto, de compreensão. A culpa pode ser repartida, equitativamente, pela sociedade e por mim próprio, que não tenho tido a coragem para suplantar a fraqueza que me envolve os músculos. Viver é fácil quando o indivíduo nasce num meio organizado e suficiente. É difícil quando as carências são mais do que as possibilidades de as diminuir. Há pessoas que gostariam de ser apenas matéria dentro da matéria, isto é, não terem nascido; porque no fundo, o que sofre é o que pensa e só pensa quem vive. E o que vive é espírito, embora feito a partir da matéria.

     A poesia escapa-se-me pelos dedos. Talvez por tão pouco perceber do assunto. É certo que li poetas como Camões, Antero, Pessoa, Aleixo, João de Deus, etc.; li, até, um tratado de poesia! Contudo, continuo a afirmar que sou um ignorante na arte de poetizar. E não penso que esteja a cair em alguma contradição. O facto de ter lido esses poetas e o tratado não me habilitam a escrever sobre tema tão volúvel. É certo que muita gente julga saber do assunto; eu não sei quase nada. Apesar desta ignorância toda eu escrevi poemas! Serão bons? Assim-assim? Maus? Os entendidos que o digam, se os lerem, o que sinceramente não espero. Todos eles se destinam à gaveta, ao bruto esquecimento. / Não tenho pretensões de vir a ser conhecido: nem como poeta, nem de qualquer outra forma. Sou demasiado bicho do mato para suportar popularidades. / Este pequeno livro, de qualidade duvidosa, tem apenas um único objetivo: deixar, não sei a quem, umas páginas escritas, lembrando-lhes que vivi e pensei. Dizer-lhes que é possível ser quase feliz, apesar das condições adversas, mesmo quando outros não conseguiram sê-lo. A felicidade, procurando-a, é passível de ser encontrada. É necessário saber quais os pontos de referência que devem guiar os nossos passos. Estradas dúbias, ou perigosas, também podem conduzir à felicidade. Deve-se evitar, no entanto, permanecer nelas. Toda a energia deve ser ali concentrada.

     A vida é energia e esta deve ser utilizada racionalmente. Desperdiçar é ir contra o próprio viver. Claro que se eu fizesse um código de vivência não se adaptaria a todos os seres vivos: o animal fisiológico cumpre regras; o animal espiritual, nem sempre.  É por essa razão que a existência do ser humano é colocada perante situações absurdas: a guerra, por exemplo! O ser humano lutando contra si próprio, contra os seus interesses comuns, contra o seu objetivo primeiro… que é sobreviver.

     Se os códigos não funcionam, é porque enfermam dos males da insuficiência: a espécie humana recusa-se a si mesma perante a natureza existencial. Ser pela vida é já querer estar. Destruir é negar a vida. Não falo do amor para connosco ou para com os outros. Que é isso? Algo abstrato e superficial se encarado levianamente.

     A vida deve assentar em princípios lógicos e concretos. Devemos viver com os outros mas não pelos outros, porque esses outros são a essência e esta deve ser respeitada, sob pena de estarmos a coartar um princípio fundamental: a liberdade de cada qual gerir a sua existência. Dentro do todo, as partes devem mover-se livremente.

     Os “outros” são a base sobre a qual erguemos o nosso “prédio” e nós somos igualmente a sua base. A guerra mina os alicerces da própria vida; corta e seca raízes de árvores que jamais darão fruto.

     E a poesia? Ia ficando esquecida! Quando leio um poema sinto que outros também tentaram dizer algo aos seus botões. O que os poetas viveram não deve servir de paradigma a ninguém. Não deve ser consentido que outros sigam os seus passos. Eles foram – e são – geralmente, elementos decadentes de uma subespécie que não pode evitar a sua continuidade. Eles foram – e são – células de um corpo que não se quer em putrefação.

     O poeta, embora decadente, tem o seu papel ativo no organismo social. É a partir dele que o “médico” diagnostica. Uma sociedade mede-se pelos seus poetas: muitos poetas, muitas células feridas. Ninguém é poeta sem causa.

     O sentimento, se não for controlado, é uma fraqueza. O ser humano deve agir pelo pensamento lógico e não pelo irracional. Eu procuro agir de acordo com a matéria viva, isto é, de acordo com a natureza e não contra ela. Não se pode nadar contra a corrente. É perigoso querer alterar o sentido da mesma. Quando se altera – seja o que for – deve-se medir as consequências.

     Não existe a certeza de nada em absoluto, que o digam os filósofos. O conceito de certeza é convencional, no entanto o ser humano não tem feito outra coisa, ao longo da sua existência, do que procurar certezas.

     Não descobriu ainda que é possível conviver com a dúvida permanente; mas, se isso descobrisse, ficava com essa certeza, o que não seria nada confortável. Então o que fazer? Viver na ignorância de que vive em dúvida ou em certeza?!

     O louco aprendeu uma coisa assaz importante: a sua sobrevivência passou a depender da sua loucura! A lucidez pertence ao seu passado. O seu mundo agora é o irreal, a fantasia.

     Eu cresci como uma planta silvestre, mas, ao invés dela, não aproveitei o sol que, afetuosamente, se oferecia. Sou um fruto sem flor, um fruto amargo. Cresci nos bosques humanos, encoberto pelas árvores mais altas.            

                               

                 O autor

  

1

 

MELGAÇO

 

 

Melgaço, praça-forte alevantada

para teu nobre reino defenderes.

Por el-rei João primeiro tomada,

por teus filhos eternamente amada,

tua seiva secularmente forjada

nos cheios peitos de tantos quereres.

 

De Portugal, Melgaço, és o primeiro

concelho da província do Minho;

com a Espanha confinas (és fronteiro),

da lusitana terra o verdadeiro

povo mui são, erguido, justiceiro,

és terra do pão e do verde vinho.

 

Teus lindos cachos de uvas, doirados,

tuas belas frutas, tão saborosas,

lendas de mil tesouros, encantados,

(diz-se, por gente moura enterrados),

quão pedaços de beleza ignorados,

águas minerais já tão famosas!

 

Vales e serras de cor verdejantes

na primavera e no quente verão!

Com seus formosos ribeiros, cantantes…

Descendo – mas, parando por instantes,

pra admirar as belezas deslumbrantes

que existem com vida em teu coração.

 

Montanhas, lá no alto, brancas de neve,

no outono… no longo e frio inverno!

Um clarão de esperança concebe

tua alma pura, que só a deuses concede

a sublime entrega. E assim precede

o nascer da vida, do sonho eterno.

  

Quando de ti, Melgaço, me afastei,

trouxe comigo a estreme saudade.

Lágrimas amargas, tristes, chorei.

Ainda choro, e sempre chorarei;

humildes versos te dedicarei,

não importa o lugar onde, ou a idade.

 

Quando teus filhos partem, também choras.

Gritas de desespero… adoeces!

Mas ouve: tu, em seu coração moras.

Não te lamentes, como as velhas noras,

não olhes no relógio da torre as horas,

porque assim, Melgaço, tu envelheces!

 

Tens, pra recordar, o exemplo de Inês

- a nossa Inês Negra, virago amada –

a que restituiu ao povo, outra vez

(no florido Abril, em Março talvez),

teu chão, genuinamente português,

o tirou das garras da Arrenegada.

 

Ergue-te! E caminha altivamente

pela senda do progresso e da virtude;

mostra ao mundo, mostra a toda a gente,

dá – a boa nova – urgentemente…

Diz-lhes: - «eu sou, do velho continente,

a força indómita da juventude…»

 

Não sou mais aquela velha esquecida,

carcomida pelo tempo, pela idade;

vestes novas, alegre, e tenra vida

  me deram aqueles, cuja guarida

sou. E eu, para sempre agradecida,

 dou-lhes amor, esperança, eternidade!»

 

(1.º prémio dos III Jogos Florais Melgaço 1991)

  

2

 

A NOSSA MENINA

 

A nossa menina é d’oiro,

é de prata, é de marfim;

é todo o nosso tesoiro…

é um encanto sem fim.

 

E quando vem para mim

parece mais uma abelha

volteando no jardim…

belos jardins de Marselha.

 

Se lhe chamo querubim

sorri, fica assaz contente;

é um anjo, serafim,

é o orgulho

 da gente.

  

3

 

ESTRANHA COISA

 

Há qualquer coisa, qualquer coisa,

que não está bem em mim!

É o espírito, frio,

frio de loisa,

é o olhar cru, olhar ruim!

 

Mas a terra nunca foi assim!

Era a frescura da hera,

o odor suave vindo do jardim;

o pastar manso da fera…

A terra era boa pra mim.

 

Então, porque há esta coisa,

 esta coisa estranha em mim?!

 

29/11/1980

 

4

 

Ó VÓS MINHA BEM-AMADA

 

Se vosso amor eu tenho,

meu amor tendes também;

e que ninguém diga, ninguém,

que vosso amor eu desdenho.

 

Eu sei porque me detenho

em vossos olhos formosos;

eu de outro mundo não venho,

são os vossos e já famosos.

 

Já os vi quase chorosos,

tão mortinhos por chorar;

estavam tristes, medrosos,

tão prestes a se entregar.

 

Meu amor não tens razão

pra mentir ou pra sofrer;

o amor nunca é um não,

é um eterno sempre querer.

 

E nesta fresca orvalhada,

em que refresco meu olhar,

eu vos quero encantar,

ó vós minha bem-amada.

 

1980

 

5

 

ADOLESCENTE

 

Quando eu era adolescente

altamente enamorado,

buscava no bosque encantado

uma certa luz reluzente

que na noite, de repente,

 brilhava, brilhava, brilhava…

nunca mais a luz se apagava!

Era a gata borralheira,

que logo pela vez primeira,

trapo estrela experimentava.

Casei com ela, e depois,

nasceram os antónios, joões,

as sofias e gabrielas;

agora já não sei qual delas

amo mais… e me reparto

em carinho, bofetões,

em meiguices, supetões,

à espera de outro parto.

Por este andar já não sei

se fiz certo ou errei

ter-me casado com ela.

O tempo, esse maroto,

que me viu, quando garoto,

apaixonado e atrevido

vê-me agora inibido,

perdido e amargurado,

solteiro, estando casado,

sozinho e acompanhado,

desejando fugir para longe,

deixar o mundo, qual monge,

dedicar-me à oração;

de gente, tornar-me cão

e de cão ave de rapina;

depois raposa ladina,

 árvore de porte distinto,

de branco tornar-me tinto,

 cor que não haja no mundo;

viver como vagabundo

na terra de meus avós,

percorrendo o infinito,

sem sair de ao pé de vós,

vestido de lenda e mito!

 

 

 

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