POEMAS DO VENTO
Por Joaquim A. Rocha
PREFÁCIO
Não é de
modo algum fácil fazer uma introdução a um livro de poemas de valor tão
desigual: poder-se-ia dizer, não errando muito, sem poesia! Muitos deles,
sei-o, nem sequer deveriam aqui figurar, pois correm o risco de serem
ridicularizados por quem os ler. No entanto, não quero privilegiar qualquer
deles, visto que todos são fruto da minha imaginação, do meu trabalho e, até
certo ponto, refletem o meu sentir na ocasião em que os escrevi.
Não me lembro bem quando comecei a rabiscar
poemas, mas julgo que essa necessidade de escrever se verificou aquando da
minha comissão em terras da Guiné-Bissau, como soldado. Longe da terra, da família,
dos amigos, enfim de tudo aquilo que me era querido.
Escrever foi o escape por onde saiu a
raiva por me sentir impotente perante uma estrutura demoníaca que nos atirava
para as matas africanas sem sequer ouvir as nossas vontades. Éramos lançados às
feras sem quaisquer possibilidades de defesa. Pode-se hoje afirmar – sem grande
margem de erro – que se fossem para a guerra colonial apenas os voluntários não
teriam – os governantes – pessoal nem para encher um bote. Contudo, estiveram
na guerra centenas de milhar de jovens! Contrariados, mas estiveram!
A minha vida não começou a ter história
somente com a minha inserção na tropa; poder-se-á dizer, sem exagero, que a sua
história começa mesmo antes de eu ter nascido! Ninguém pode negar que a nossa
vida é a continuação de outras, são elos de uma cadeia interminável. Os meus
avós, que morreram quando eu era criança, tinham com certeza a sua história;
porém, perdeu-se no tempo e na memória das gentes.
Eu nasci em plena guerra mundial, num
lugarejo junto a dois rios, e tudo era difícil nessa altura: os géneros de
primeira necessidade não abundavam, embora houvesse a circular algum dinheiro –
sem valor, claro. Dizia a minha mãe que fome nunca passámos. Matar a dita, para
ela, era encher o estômago de pão grosseiro.
O lugar era solitário, mas belo. Hoje em
dia está praticamente deserto, vai desaparecer em breve.
Não me considero poeta, se comparado com
Camões, Antero, Bocage, e outros tais. Como atrás disse, comecei na tropa a
fazer uns versitos; mas, claro, sem quaisquer conhecimentos técnicos e científicos
sobre arte poética não podia produzir coisa que valesse. A saudade da terra, da
família, dos amigos, até do meu antigo trabalho, inspiravam-me e assim vertia
para o papel as palavras que, tímido, não tinha a coragem de dizer oralmente.
Inculto como então era, dizia apenas banalidades. Os temas eram o amor (platónico),
a saudade, a natureza, e pouco mais. Escrevi, durante a minha permanência na
Guiné-Bissau, dezenas de cartas a raparigas da província, cujas moradas me
tinham sido dadas por rapazes seus conterrâneos. Escrevi também a rapazes do
meu concelho que se encontravam, tal como eu, a cumprir o serviço militar em
África. Esta troca de correspondência foi muito importante para mim: por um
lado não me sentia tão só; por outro lado, descobri que podia escrever um texto
seguindo uma ideia lógica, um pensamento coerente. Eu era capaz de dizer quase
corretamente o que pensava! Foi uma descoberta importante para mim, valiosa,
fundamental.
A poesia é
para mim a possibilidade que o indivíduo tem de dizer aquilo que sente, sem
hipocrisia, sem fingimentos, mas com arte. O poeta põe a nu o seu corpo, a sua
alma, e confessa-se: não a um padre, não a um deus, mas a si próprio. Ao poeta
pouco interessa os outros. Estes são mais símbolos da existência do que
propriamente recetores da sua mensagem. Esta é enviada de dentro para dentro e
só rasga o tecido por descuido ou vaidade do ser humano. Ninguém, desde que
seja normal, gosta de aparecer sem roupa no meio da praça.
Dizem que o poeta não
é feliz. Há até quem afirme que só o infeliz pode ser poeta! A verdade é que há
poetas nos dois lados da fronteira: uns cantam a alegria, o sol, a natureza
viva, e outros, zangados consigo mesmos, só a tristeza, o horror, a agonia...
Por vezes, o mesmo poeta, muda de posição, sofre uma metamorfose, e torna-se
outro, como se fora duas pessoas totalmente diferentes.
No meu poema “Ser
Poeta” eu escrevo: «ser poeta é ser
nada/é ser ninguém». Quer dizer: o poeta despoja-se do seu «eu», reencarna,
ou assume, a vida de outrem; ignora a sua existência e realça a luta pelas
vidas alheias. Será assim? Será que o poeta, como pessoa, se identifica com
aquilo que escreve? / Se analisarmos a índole do poeta, tão complexa e tão
simples ao mesmo tempo, verificamos que são insuficiências de vária ordem o que
o leva a exprimir a sua dor ou o seu otimismo. Ninguém consegue falar, ou
escrever, se não tiver algo, por pouco importante que seja, para comunicar aos
outros. Se partirmos deste raciocínio chegamos à conclusão de que existe então
no seu espírito um desequilíbrio qualquer, uma necessidade imparável de deitar
para fora de si algo que o perturba. Ele procura compensar com palavras,
sentidas, quantas vezes amarguradas, aquilo que a vida, por diversas razões, não
lhe proporcionou ainda. A sua sensibilidade é afetada por acontecimentos que
não controla: por fraqueza ou por integridade. O poeta, quanto a mim, é um ser
íntegro, cheio de preconceitos, carregado de moral.
Eu posso afirmar que na minha vida tudo
tem sido insuficiência: de afeto, de conforto, de compreensão. A culpa pode ser
repartida, equitativamente, pela sociedade e por mim próprio, que não tenho
tido a coragem para suplantar a fraqueza que me envolve os músculos. Viver é
fácil quando o indivíduo nasce num meio organizado e suficiente. É difícil
quando as carências são mais do que as possibilidades de as diminuir. Há pessoas
que gostariam de ser apenas matéria dentro da matéria, isto é, não terem nascido;
porque no fundo, o que sofre é o que pensa e só pensa quem vive. E o que vive é
espírito, embora feito a partir da matéria.
A poesia escapa-se-me pelos dedos. Talvez
por tão pouco perceber do assunto. É certo que li poetas como Camões, Antero,
Pessoa, Aleixo, João de Deus, etc.; li, até, um tratado de poesia! Contudo,
continuo a afirmar que sou um ignorante na arte de poetizar. E não penso que
esteja a cair em alguma contradição. O facto de ter lido esses poetas e o
tratado não me habilitam a escrever sobre tema tão volúvel. É certo que muita
gente julga saber do assunto; eu não sei quase nada. Apesar desta ignorância
toda eu escrevi poemas! Serão bons? Assim-assim? Maus? Os entendidos que o
digam, se os lerem, o que sinceramente não espero. Todos eles se destinam à
gaveta, ao bruto esquecimento. / Não tenho pretensões de vir a ser conhecido:
nem como poeta, nem de qualquer outra forma. Sou demasiado bicho do mato para
suportar popularidades. / Este pequeno livro, de qualidade duvidosa, tem apenas
um único objetivo: deixar, não sei a quem, umas páginas escritas,
lembrando-lhes que vivi e pensei. Dizer-lhes que é possível ser quase feliz,
apesar das condições adversas, mesmo quando outros não conseguiram sê-lo. A
felicidade, procurando-a, é passível de ser encontrada. É necessário saber
quais os pontos de referência que devem guiar os nossos passos. Estradas
dúbias, ou perigosas, também podem conduzir à felicidade. Deve-se evitar, no
entanto, permanecer nelas. Toda a energia deve ser ali concentrada.
A vida é energia e esta deve ser utilizada
racionalmente. Desperdiçar é ir contra o próprio viver. Claro que se eu fizesse
um código de vivência não se adaptaria a todos os seres vivos: o animal
fisiológico cumpre regras; o animal espiritual, nem sempre. É por essa razão que a existência do ser
humano é colocada perante situações absurdas: a guerra, por exemplo! O ser humano
lutando contra si próprio, contra os seus interesses comuns, contra o seu
objetivo primeiro… que é sobreviver.
Se os códigos não funcionam, é porque
enfermam dos males da insuficiência: a espécie humana recusa-se a si mesma
perante a natureza existencial. Ser pela vida é já querer estar. Destruir é
negar a vida. Não falo do amor para connosco ou para com os outros. Que é isso?
Algo abstrato e superficial se encarado levianamente.
A vida deve assentar em princípios lógicos
e concretos. Devemos viver com os outros mas não pelos outros, porque esses
outros são a essência e esta deve ser respeitada, sob pena de estarmos a
coartar um princípio fundamental: a liberdade de cada qual gerir a sua existência.
Dentro do todo, as partes devem mover-se livremente.
Os “outros” são a base sobre a qual
erguemos o nosso “prédio” e nós somos igualmente a sua base. A guerra mina os
alicerces da própria vida; corta e seca raízes de árvores que jamais darão
fruto.
E a poesia? Ia ficando esquecida! Quando
leio um poema sinto que outros também tentaram dizer algo aos seus botões. O
que os poetas viveram não deve servir de paradigma a ninguém. Não deve ser
consentido que outros sigam os seus passos. Eles foram – e são – geralmente,
elementos decadentes de uma subespécie que não pode evitar a sua continuidade.
Eles foram – e são – células de um corpo que não se quer em putrefação.
O poeta, embora decadente, tem o seu papel
ativo no organismo social. É a partir dele que o “médico” diagnostica. Uma
sociedade mede-se pelos seus poetas: muitos poetas, muitas células feridas.
Ninguém é poeta sem causa.
O sentimento, se não for controlado, é uma
fraqueza. O ser humano deve agir pelo pensamento lógico e não pelo irracional.
Eu procuro agir de acordo com a matéria viva, isto é, de acordo com a natureza
e não contra ela. Não se pode nadar contra a corrente. É perigoso querer
alterar o sentido da mesma. Quando se altera – seja o que for – deve-se medir
as consequências.
Não existe a certeza de nada em absoluto,
que o digam os filósofos. O conceito de certeza é convencional, no entanto o
ser humano não tem feito outra coisa, ao longo da sua existência, do que
procurar certezas.
Não descobriu ainda que é possível
conviver com a dúvida permanente; mas, se isso descobrisse, ficava com essa
certeza, o que não seria nada confortável. Então o que fazer? Viver na
ignorância de que vive em dúvida ou em certeza?!
O louco aprendeu uma coisa assaz
importante: a sua sobrevivência passou a depender da sua loucura! A lucidez
pertence ao seu passado. O seu mundo agora é o irreal, a fantasia.
Eu cresci como uma planta silvestre, mas, ao invés dela, não aproveitei o sol que, afetuosamente, se oferecia. Sou um fruto sem flor, um fruto amargo. Cresci nos bosques humanos, encoberto pelas árvores mais altas.
O
autor
1
MELGAÇO
Melgaço, praça-forte alevantada
para teu nobre reino defenderes.
Por el-rei João primeiro tomada,
por teus filhos eternamente amada,
tua seiva secularmente forjada
nos cheios peitos de tantos quereres.
De Portugal, Melgaço, és o primeiro
concelho da província do Minho;
com a Espanha confinas (és
fronteiro),
da lusitana terra o verdadeiro
povo mui são, erguido, justiceiro,
és terra do pão e do verde vinho.
Teus lindos cachos de uvas, doirados,
tuas belas frutas, tão saborosas,
lendas de mil tesouros, encantados,
(diz-se, por gente moura enterrados),
quão pedaços de beleza ignorados,
águas minerais já tão famosas!
Vales e serras de cor verdejantes
na primavera e no quente verão!
Com seus formosos ribeiros, cantantes…
Descendo – mas, parando por instantes,
pra admirar as belezas deslumbrantes
que existem com vida em teu coração.
Montanhas, lá no alto, brancas de neve,
no outono… no longo e frio inverno!
Um clarão de esperança concebe
tua alma pura, que só a deuses concede
a sublime entrega. E assim precede
o nascer da vida, do sonho eterno.
Quando de ti, Melgaço, me afastei,
trouxe comigo a estreme saudade.
Lágrimas amargas, tristes, chorei.
Ainda choro, e sempre chorarei;
humildes versos te dedicarei,
não importa o lugar onde, ou a idade.
Quando teus filhos partem, também choras.
Gritas de desespero… adoeces!
Mas ouve: tu, em seu coração moras.
Não te lamentes, como as velhas noras,
não olhes no relógio da torre as horas,
porque assim, Melgaço, tu envelheces!
Tens, pra recordar, o exemplo de Inês
- a nossa Inês Negra, virago amada –
a que restituiu ao povo, outra vez
(no florido Abril, em Março talvez),
teu chão, genuinamente português,
o tirou das garras da Arrenegada.
Ergue-te! E caminha altivamente
pela senda do progresso e da virtude;
mostra ao mundo, mostra a toda a gente,
dá – a boa nova – urgentemente…
Diz-lhes: - «eu sou,
do velho continente,
a força indómita da juventude…»
Não sou mais aquela velha esquecida,
carcomida pelo tempo, pela idade;
vestes novas, alegre, e tenra vida
me deram aqueles, cuja guarida
sou. E eu, para sempre agradecida,
dou-lhes amor, esperança,
eternidade!»
(1.º prémio dos III Jogos Florais
Melgaço 1991)
2
A NOSSA MENINA
A nossa menina é d’oiro,
é de prata, é de marfim;
é todo o nosso tesoiro…
é um encanto sem fim.
E quando vem para mim
parece mais uma abelha
volteando no jardim…
belos jardins de Marselha.
Se lhe chamo querubim
sorri, fica assaz contente;
é um anjo, serafim,
é o orgulho
da gente.
3
ESTRANHA COISA
Há qualquer coisa, qualquer coisa,
que não está bem em mim!
É o espírito, frio,
frio de loisa,
é o olhar cru, olhar ruim!
Mas a terra nunca foi assim!
Era a frescura da hera,
o odor suave vindo do jardim;
o pastar manso da fera…
A terra era boa pra mim.
Então, porque há esta coisa,
esta coisa estranha
em mim?!
29/11/1980
4
Ó VÓS MINHA BEM-AMADA
Se vosso amor eu tenho,
meu amor tendes também;
e que ninguém diga, ninguém,
que vosso amor eu desdenho.
Eu sei porque me detenho
em vossos olhos formosos;
eu de outro mundo não venho,
são os vossos e já famosos.
Já os vi quase chorosos,
tão mortinhos por chorar;
estavam tristes, medrosos,
tão prestes a se entregar.
Meu amor não tens razão
pra mentir ou pra sofrer;
o amor nunca é um não,
é um eterno sempre querer.
E nesta fresca orvalhada,
em que refresco meu olhar,
eu vos quero encantar,
ó vós minha bem-amada.
1980
5
ADOLESCENTE
Quando eu era adolescente
altamente enamorado,
buscava no bosque encantado
uma certa luz reluzente
que na noite, de repente,
brilhava, brilhava,
brilhava…
nunca mais a luz se apagava!
Era a gata borralheira,
que logo pela vez primeira,
trapo estrela experimentava.
Casei com ela, e depois,
nasceram os antónios, joões,
as sofias e gabrielas;
agora já não sei qual delas
amo mais… e me reparto
em carinho, bofetões,
em meiguices, supetões,
à espera de outro parto.
Por este andar já não sei
se fiz certo ou errei
ter-me casado com ela.
O tempo, esse maroto,
que me viu, quando garoto,
apaixonado e atrevido
vê-me agora inibido,
perdido e amargurado,
solteiro, estando casado,
sozinho e acompanhado,
desejando fugir para longe,
deixar o mundo, qual monge,
dedicar-me à oração;
de gente, tornar-me cão
e de cão ave de rapina;
depois raposa ladina,
árvore de porte
distinto,
de branco tornar-me tinto,
cor que não haja no
mundo;
viver como vagabundo
na terra de meus avós,
percorrendo o infinito,
sem sair de ao pé de vós,
vestido de lenda e mito!
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