terça-feira, 29 de setembro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 


1.º capítulo


O sol só brilha quando as nuvens se afastam

 

 

 

     Certo dia, não sei precisar quando, isso também pouca ou nenhuma importância terá para a história, eu e a minha mãe estávamos em casa a conversar, numa conversa íntima, da minha parte recheada de críticas abertas e subtis, duras lamentações, lembranças de outros tempos, e de súbito, quase num desafio, pergunto-lhe:

- Mamã, por que bebe tanto? Será que algum dia vai deixar de beber?

- Bebo, bebo e bebo! Já lá dizia a outra: «morra Marta, morra farta.» Ninguém manda em mim. Canté! Todos querem dar ordens. Na Matilde ninguém manda – ouviste? Mando todos para o raio que os parta. Gosto de vinho, confesso. E depois? Os outros não emborcam? Mais do que eu. A tua tia Bernardina não bebe vinho, mas come todas as tardes sopas de cavalo cansado – um litro! Bêbados, são todos uns borrachos, uma pandilha, escumalha.

- Oh, mamã! Todos os santos dias, isto. Já não posso mais. Que mal teria eu feito para suportar tamanho sofrimento, tamanha provação. E logo eu, que nem pai tive. Sabe ao menos quem é o meu pai?

- É um pulha qualquer, um lacaio, um rafeiro, um lambão. Nunca quis perfilhar-te, dizia que não tinha a certeza que eras filho dele. Ao teu irmão perfilhava. Malandro! Desse não duvidava - «esse é mesmo meu», dizia ele com ironia e desfaçatez.

- E é de certeza meu pai?

- É teu pai, é. Enquanto andei com ele, longos quatro anos, não tive outro homem. Respeitei-o, mas o patife não o merecia. Logo que veio da tropa arranjou uma namorada galega. Coitada! Comparada comigo não valia uma só sardinha moída. Fugiu com ela, o pelintra. Que lhe aproveite – homens não me faltam, nunca me faltaram, graças a Deus. Dou um pontapé numa pedra e logo saem debaixo dela meia dúzia. Canté! Olha eu a ser escrava dele – a alimentá-lo, o chulo. Homens são todos iguais – lixo! As mulheres trabalham como moiras, de sol a sol, para os sustentar. Que trabalhem, têm bom corpo. Patife; o que ele queria era dormir até lhe apetecer, chouriço na brasa, cacete fresquinho, do galego, que era o mais saboroso, feito com a melhor farinha, e vinho, muito vinho. Mas não lhe servia qualquer um – do bom, só do bom, sumo de uva. Bebia um quartilho num abrir e fechar de olhos. Filho da púcara, que não volte. Racho-lhe a cabeça.

- Nunca lhe pediu para casar com ele?

- Casar? No princípio sim, para conseguir o que queria, para levar a água ao seu moinho, mas isso alcançado… Ele não queria comprometer-se, porque depois teria de vergar o canastro para sustentar os filhos. Vadio. O que ele queria era chular as mulheres, emprenhá-las e pôr-se a léguas. Cobarde. Racho-lhe a cabeça ao meio se o volto a ver. Canté! Que apareça, que eu dou-lhe o arroz.

- Sabe onde ele está?

- Emigrou para a Galiza, para ir morar com a peixeira. Deve viver à custa dela, o cornudo. Mas ela não é de assoar, eu conheço-a. Até lhe bate, se for preciso. Chupista, só quer comer à custa das mulheres, das desgraçadas.

- Mas se os pais dele eram caseiros, trabalhavam campos e leiras, ele devia ajudá-los.

- O quê? Afastava-se da lavoura como o demónio da cruz. O pai bem lhe ralhava, ia atrás dele com um vergalho e estendia-lho pelas costas abaixo – cada coça! Quando o apanhava, é claro. O pulha corria que nem uma lebre. Ficava derreado e as marcas no lombo notavam-se durante dias. Vinha logo ter comigo para o tratar. Punha-lhe panos de linho embebidos em vinagre, uma pomadinha caseira… Bem o mereceu, o alma-danada, sem coração, que me calcou aos pés depois de tudo que fiz por ele. Bem parva que eu fui. Trabalho não era com sua excelência! Para sustentar os maus hábitos, que eram incontáveis, contrabandeava qualquer coisa: algum café, umas barras de sabão, pedras de isqueiro…, só o suficiente para arranjar uma nota para os mil vícios. Quando o regato ia cheio, no inverno, e porque a ponte tinha sido destruída pelos soldados do Franco, transportava às costas galegos que vinham a Portugal e não se queriam molhar. Certa vez, um deles, depois de lhe pagar, disse-lhe: «Homem, é a primeira vez que um burro português me leva às costas.» Nada lhe disse, mas passados uns tempos o tal galego apareceu-lhe de novo. No meio do regato atirou com ele à água. Vingou-se. Metia-se também na cerveja, um luxo, vê lá tu. Nunca me deu um tostão, o filho da mãe. Quando nasceu o teu irmão bem precisei; foram os vizinhos que me valeram, que Deus lhes pague e os proteja para toda a eternidade. Nem um tostão! Fome, nunca passastes; pão e um caldo de toucinho e couves tiveram sempre; mas podiam, se o malandro ajudasse, comer melhor, e ter roupinha para vestir. Nus nunca andaram, isso não, mas já calçado nunca tiveram, mas até faz bem andar descalço, ficaram com os pés rijos, pele de elefante. Olha os filhos dos ricos: sempre calçados, desde que nascem, e têm os pés que se assemelha a manteiga, desfazem-se mal tocam em qualquer coisa; vocês não, os vossos são de ferro, até à bola podeis jogar descalços. Canté! Se eu trocava os vossos pés pelos deles. E de burrinhos não tendes nada; meti-vos na escola, dei-vos aos dois a quarta classe. Mais não podia, não sou rica, mas a quartinha dei-vo-la. Que eu fui criada como uma menina de bem, com roupinhas bonitas, com bonito calçado, com comidinha boa. Mas a vida, o bandido que me desonrou, que me fez a tua irmã e não casou comigo, ele dizia-me sempre que casava, que casava: «Matilde, sem ti não consigo viver»; mas o tempo passou e ele não me veio buscar. De casa dos pais dele escorraçaram-me, mas pronto, ele não teve culpa, quem me mandou ficar de barriga?! E para que fui para Lisboa, estava tão bem na casa da minha madrinha, mas ela ia para o Brasil, queria-me levar com ela, mas eu não quis: «para o Brasil, nem morta!» Uma terra tão distante, viajar pelos oceanos, eu que nunca tinha visto o mar, só o rio, era capaz de morrer pelo caminho, pensava eu. Fui para Lisboa servir, sempre estava no nosso país, onde se falava a nossa língua.

- Mas, mamã: no Brasil também se fala português, disse o senhor professor na escola.

- Isso é o que vós dizeis, eu sei lá. Tão longe, com gente estranha, terra dos índios, andam nus e atiram setas venenosas às pessoas brancas, depois comem-nas! Não, do meu país não saio.

- Com que idade foi para Lisboa?

- Tinha dezoito anos. Não é para me gabar, mas era uma rapariga bonita; baixinha, mas bonita. E sabia fazer de tudo: cozinhar, limpar uma casa, passar a ferro – tudo!                     

- Agora aqui em casa não faz nada, abandalhou-se, é uma desmazelada. Nem vassoura tem!

- Nem preciso! Perdi o gosto pela vida, qualquer dia morro, já não falta muito, até há quem diga que já viram o meu enterro! Naquele tempo, sim: era nova, alegre, cantava sempre «verde Minho, verde Minho/quem me dera t’abraçar/ai de mim, longe de ti/tão cansada de chorar.» Os meus patrões de Lisboa gostavam imenso de mim: «ó Matilde, que bem cantas.» Mas aquele alfacinha refinado começou a fazer-me olhinhos. Não resisti: «Matilde, se não quiseres ser minha, mato-me, dou um tiro no coração.» Tão bonito que ele era – sempre bem barbeado, cheirava a limpo. E falar! Falava como um doutor. Gostei mesmo dele. Os pais não gostaram que me tivesse feito aquilo – eu não passava de uma criada de servir, de uma rapariga da província. Queriam melhor para o filho, uma menina rica, de boas famílias. Que eu era de boas famílias, pessoas honestas, trabalhadeiras, mas humildes. Eles queriam uma nora de posição, como eles. Botaram-me fora: «vai para casa dos teus pais criar o bebé, quando estiver crescido voltas.» Está bem, está. O que eles desejavam era ver-me portas a fora, longe do Adalfredo, eu era um estorvo, um empecilho, ai se a prometida dele soubesse! Mas olha, criei a tua irmã, ou melhor, criaram-na os teus avós, que eu, coitada de mim, tive de trabalhar, ir servir novamente. Fui para uma freguesia aqui do concelho, e logo fiquei de barriga cheia outra vez. O que me valeu foi que a criança deixou este mundo com meses. Logo a seguir fiquei grávida de outro. O de Lisboa ainda me escreveu durante algum tempo, a pedir-me que não me casasse, que esperasse, ele gostava muito de mim, mas que queres, é o destino, o meu fadário. O bruxo do Coto da Mó tinha razão. Um dia, fazendo sair de um frasco, com uma diabólica forma, os diabretes, ou bolinhas saltitantes, da cor da cinza e húmidas, as quais, por incrível que pareça, não molhavam a mesa, e ora se transformando em dezenas ou centenas, ora se reunindo numa só, disse-me: «Matilde, o teu futuro não se apresenta risonho, existem inúmeros obstáculos no teu caminho; só a força de vontade, a persistência, os poderão vencer; só vejo sombras em teu redor, tens muita gente que te quer mal.» Eu nunca tive essa força de vontade, deixei-me levar pelo destino, pelo fado cruel.

- Você é uma anarquista, viveu sempre sem regras, sem lei e sem grei, e ainda por cima acredita em bruxos.

- Agora não quero saber de nada, mas nesse tempo tinha ilusões. Este daqui prometeu-me mundos e fundos e eu, toca de ceder! Nasceu-me a criança, um robusto rapaz, e ele pôs-se a andar para as Américas, para a Venezuela, ou lá como se chama. Nem viu o filho que nasceu. E olha que é a cara dele – tal e qual. Os meus pais, zangadíssimos, ficaram com ele. Agora eram dois. Eu não podia deixar de trabalhar – era disso que eu vivia. Mas a minha mãe também teve culpas: escreveu ao de Lisboa a pedir-lhe que me deixasse em paz, ele era de gente fina e nós não passávamos de gente pobre e analfabetos, sem nenhumas letras. Coitada, estava convencida de que ele me queria fazer outro trambolho e abandonar-me depois. Mas eu julgo que ele gostava mesmo de mim. Mas não podia casar comigo, os pais dele não consentiriam, só me desejava para amásia. Depois teve uma doença, a maldita tuberculose, e morreu solteiro. Que a sua alma descanse em paz, lá onde estiver.

- Nunca mais o viu?

- Nunca mais! Tinha a Susana quase dezoito anos quando ele morreu. Foi uma irmã dele, a mais nova, a menina Mafalda, que nos deu a notícia, ainda se deve encontrar por aí a carta.

- E a Susana, encontrou-se alguma vez com o pai?

- Não, mas foi porque ela não quis. Nunca a proibi de ir para Lisboa, para junto dele. Só que ela estava muito pegada aos avós, até lhes chamava pais, foram eles que a criaram. Só quando eles morreram é que ela foi para Lisboa. Nessa altura já o pai dela tinha morrido. Olha que se parece com eles, não é do nosso lado. Devia ter ido, estudavam-na e depois casava com um homem de posição, assim é pobre como Job, e só ficou com a 3.ª classe da instrução primária. Mas é o destino, é o que tem de ser.

- Coitada, também não teve muita sorte, aconteceu-lhe o mesmo que lhe aconteceu a si, só que desta vez saiu na rifa um marçano.    

- Sim, mas segundo ela afirma não casou com ele porque não quis, ele foi para o estrangeiro e mandou-a ir, só que ela já o tinha esquecido, já tinha outro namorado.

- As duas tiveram caminhos paralelos, só que ela casou e você não.

- Não casei porque não quis, homens nunca me faltaram para casar. Mas eu sou livre, não quero cangas nem peias. Canté! E criei-vos sozinha. E dei-vos a escola, que naquele tempo nem todos a tinham, mas a vós dei-vo-la. E um ofício. O teu irmão Olavo preferiu ir para Lisboa, para junto do outro irmão, o Ambrósio, para a terra grande, isto aqui não lhe servia, bem o quis meter na lavoura, mas fugiu-lhe a sete pés, olha que é uma vida saudável e tem-se sempre o pãozinho para a boca; ofício também não quis, meti-o de funileiro, mas achou que era sujo; é delicado, o rapaz. Que trabalhe em Lisboa, que lá vai ver o que é bom; os marçanos andam todo o dia com cabazes às costas, a subir escadas, carregados que nem bestas. É para saber o que custa, o pão não aparece na mesa, é preciso ganhá-lo, tem bom corpo. Tu, coitadinho, és um enfezado, saíste-me fraquinho, cinco réis de gente, mas arguto que nem um rato; se estivesses na cidade até podias estudar. Aqui, olha, tens o teu ofício, não é limpo, não, mas sempre ganhas alguma coisa para comer, que agora o tempo não está para luxos, nunca os tivemos, só quando estive com a minha madrinha, aí sim vestia bem e andava com a barriguinha cheia, mas aquilo também não podia durar a vida inteira, qualquer dia teria de acabar, era bom de mais para mim. «Quem pobre nasce, pobre morre», lá diz o ditado.

- Isso é verdade, salvo raras exceções. Mas uma coisa que eu nunca compreendi foi o facto de você ficar analfabeta; há mulheres da sua idade que sabem ler e escrever.

- Ai, ai, tu pensas que naquela altura era fácil as raparigas andarem na escola? Os pais humildes mandavam-nas trabalhar logo que elas tivessem sete ou oito anos. Servir. Mocinha de recados. Canté! Que julgas, que ficavam em casa, a comer, a gastar o pouco que havia? Tinham de ganhar para elas. Olha, eu ainda fui um ano, mas a minha mãe, coitada, era uma moira de trabalho, não podia ter-me em casa, sem fazer nada, sem ganhar para mim, além disso a senhora professora em lugar de nos ensinar mandava-nos à lenha. A tua avó foi falar com a minha madrinha, que era filha família, gente de posses, de um clínico, fidalgos, e pediu-lhe para me levar para sua casa. Claro que não era criada deles, mas era como se fosse. Aprendi a limpar o pó, a varrer a casa, a fazer as camas, a cozinhar, a passar a ferro, a cuidar do jardim, como uma criada. Mas davam-me roupinha, aquela que já não vestiam, a minha madrinha tinha umas mãos de fada, fazia-me vestidos lindíssimos, andava vestida como uma princesinha.

- Com trapos velhos!

- Farpela usada, mas em bom estado. Que pensas, que a minha madrinha deixava chegar a roupa a mau estado? Nem penses; logo que deixava de gostar de uma saia, de um vestido, de um casaco, arranjava-os para mim, que eu, claro, não tinha o corpo ela, era mais baixinha e magra.

- E enquanto permaneceu lá não teve nenhum pretendente?

- Aquilo era uma casa de muito respeito. A mãe da minha madrinha ia todos os dias à missa, comungava sempre, muito crente, muito temerosa a Deus. O pai dela era médico na Vila. Todos os dias, manhã cedo, lá ia na sua charrete até ao hospital da Misericórdia. Aquilo é que era um doutor! E olha que não cobrava um tostão aos necessitados, está bem que depois eles ofereciam-lhe coisas: umas lampreias, uns sáveis, trutas, salmão, umas febras de porco quando matavam, um presuntinho, perus, salpicões, tudo, até madeira de castanho, mas olha que ele não pedia nada a ninguém, nem queria aceitar, eles é que lhe rogavam para ele receber as coisas. Que homem! E curava muita gente, olha que até se dizia que fazia milagres – um santo! Quando foi da epidemia, quanta gente ele não curou; até veio a Cruz vermelha de Viana do Castelo para ajudar a combater essa maldita febre. Eu tinha seis anos de idade e escapei, graças a Deus.

- Por falta de condições as pessoas morriam novas, na flor da idade.  

- Nem todas, felizmente. A tia Ana, que tu ainda conheceste, morreu quase com cem anos. E bebia-lhe todos os dias meio quartilho de aguardente. Até a garrafa escorrichava!

- Era uma exceção; os meus tios morreram quase todos jovens.

- Foi a tísica. Não tinha cura; nem mesmo o xarope de agrião, o vinho de carne, e os caldos de cobra os curava! Coitados, eram muitos fraquinhos e não resistiram. Morreu muita gente com a peste. Alguns foram acabar os seus dias ao cemitério, não havia lugar para eles no hospital, e como iam morrer, tanto fazia! Coitados! Ficou muita casa sem ninguém, sem uma única alma. A minha prima, a Amélia, coitada, essa foi por mor do vinagre. Queria ficar magra, elegante, ia casar, e começou a beber-lhe: emagreceu tanto, tanto, que adoeceu. O médico disse que ela estava tuberculosa. Não durou seis meses. E tão linda que ela era. A mais bonita de nós todas. Que eu não era feia, mas à sua beira… O rapaz ia-se apagando com o desgosto, deixou de comer, queria-se arruinar. Valeu-lhe um tio brasileiro, pegou nele e meteu-o no barco para o Brasil, nunca mais se viu por aqui, certamente casou por lá. Mal de quem morre; aqueles que ficam depressa esquecem, eu é que nunca a esqueci, a minha prima, gostava muito dela, era como se fosse minha irmã. As daqui ficaram satisfeitas, invejosas, queriam-lhe o noivo, não prestam para nada, feiosas, ela sim, que eu não é para me gabar, nas feições até me assemelho com ela, mas claro, era mais engraçada, tinha outro corpo que eu não tenho, mas olha que os homens também andavam atrás de mim, até o Licas, vê lá, até ele andava de beicinho por mim, depois juntou-se com essa remelosa, deu-lhe um rancho de filhos, todos porcos, todos borrados, a badalhoca não os lava, é uma lástima, ai se fossem meus filhos.

- Eu sou seu filho e não me lembro de andar asseado. Até metia nojo!              

- Canalha; malandro! Tens muita queixa, olha que o tirava da boca para to dar, quantas vezes nem comia coisa de jeito, só falam, mas de barriga cheia, pão nunca te faltou, e chocolate, duas e três barras que trazia do lado de lá, esqueces-te que nasceste depois da guerra de Espanha, e que depois começou a outra guerra, a grande, tudo racionado, e o patife do teu pai deixou-me com dois filhos nos braços, o rufia, que os céus caiam sobre ele, tanto lhe dei, e ele a mim nada, encheu-me o ventre duas vezes, e se não fosse embora ficava com um rebanho, filho de lucifer, que os dias lhe sejam curtos, que sofra o que eu sofri por causa dele. Como é que eu tinha tempo de vos limpar se passava o dia a vender peixe, de porta em porta, para conseguir alguns patacos para vos sustentar? Por que é que ele não vos levou? Assim já teriam roupa e comida, mas ele não gostava do trabalho, foi melhor assim, não vos deixei morrer, canté! Pobre, mas os meus filhos nunca passaram fome, até tinham mais do que outros, os da Touça, por exemplo, esses, coitados, pareciam raquíticos, não tinham uma côdea para rilhar. Também, coitadita, ficou viúva e com filharada às costas, muito ela fez, trabalhava que nem um homem, no matadouro, a matar animais, depois trazia aquelas porcarias de lá, cheiravam mal que tresandavam, mas aquilo era para eles um petisco, não tinham mais nada, vós à beira deles fostes príncipes, nunca vos faltou nada.

- O meu irmão Olavo não diz nada disso, se não fossem os vizinhos tínhamos morrido à fome, o que nos valeu foi broa com toucinho e um caldo com couves e farinha, daquele de pôr a colher de pé. Até cebolas e tomate cru comíamos!

- Ingrato! O que ele é, é um ingrato, um mentiroso, um aldrabão; nunca vos faltei com nada, andava a vender peixe, chegava à noite a casa, mas nunca iam para a cama sem comer. E tu? Tu mamaste nas minhas tetas até aos quatro anos, quando eu chegava querias sempre a mama, tive de lhe botar pimenta, se não nunca a largavas. E olha que paguei sempre às vizinhas, não ficavam a perder comigo, dava-lhes bons quilos de carne que eu comprava ao marchante, que pensas tu, que te davam as coisas de graça? Coitados, devo-lhes muitos favores, mas paguei-lhes sempre.

- Mas o Olavo disse-me que você chegava tarde a casa, já eu estava a dormir, e vinha normalmente com os copos, com uma grande perua, metade das coisas ficavam pelo caminho; depois, quando eu cresci, isso aconteceu imensas vezes, raro era o dia em que você não carregasse uma borracheira das fortes!

- Isso foi por causa do teu pai, pelintra, esse desnaturado deixou-me, trocou-me por outra, e eu com o desgosto comecei a beber, olha que dantes não bebia vinho; bebia muita água da fonte, mas depois comecei a beber, mas olha que nunca desgracei a vida de ninguém, só a minha.

- E a nossa.

- Tendes muita queixa, não tendes pai, mas olha que também esses por aí não o têm, e não se queixam, até parece que têm o rei na barriga, e não têm a vossa educação, sois filhos duma borracha, mas não sois filhos duma ladra, que isso nunca fui, nunca roubei nada, Deus me livre, as minhas mãos nunca se pegaram a nada, trabalhei sempre, o nosso nome está limpinho, não é como essa da Ribeira, essa já foi apanhada a roubar na feira, a GNR prendeu-a e mandou-a para a cadeia, coitada, não tem juízo, envergonha-se a ela e aos seus parentes.

- Antes de ir para Lisboa acredito que não bebesse, mas quando veio despejar a Susana começou a enxofrar-lhe, para esquecer as mágoas e o namorado de Lisboa.

- Isso foi durante pouco tempo, depois comecei a ter juízo, deixei-me disso, só que mais tarde um malandro fez-me um filho, que viria a morrer com poucos meses, e eu voltei a cair no vício, mas recuperei. Só que os homens querem a desgraça das mulheres, depressa fiquei outra vez prenha, do pai do Ambrósio, convenceu-me, dizia-me que queria casar comigo, mentiroso, o que ele queria sei eu.

- Logo a seguir, outro!

- Malditos homens! Cambada! Não me largavam a saia, sabiam que estava indefesa, ninguém me respeitava. Esse era um patifório, pior ainda do que o teu pai, ameaçava-me de morte, batia-me como se eu fora uma cadela! Fez-me uma filha, que graças a deus morreu, e depois casou com outra, mesmo depois de casado ainda quis andar comigo, fugi-lhe sempre, mas só quando comecei a namorar com o teu pai é que ele me deixou de vez – teve medo!

- E os seus pais, não a aconselhavam?

- Cheios de penas andavam eles, a tua avó, antes de casar com o teu avô, mais novo sete anos do que ela, já tinha tido três filhos, coitada, padeceu muito, dois morreram-lhe com meses, com aquela maldita doença das crianças, o garrotilho, ou o sarampo, já não sei, poucas escapavam; o terceiro, o meu irmão Roberto, ainda viveu dezoito anos, pobrezinho, foi um ferro em brasa que espetou nas partes, era ferreiro, foi um grande desgosto para nós todos, olha que o teu avô gostava dele como se fosse seu filho, respeitou-o sempre, tratava-o como nos tratava a nós, meteu-o no padrinho e tio a aprender a arte, nunca se pensou que o levasse à sepultura. Também era músico da banda da terra. Teve um grande funeral, os colegas dele não puderam conter as lágrimas! Do teu avô nasceram… nem eu sei quantos, mas a maioria morreu criança, que naquele tempo havia muitas doenças, epidemias, as febres, que levava muita alma para o purgatório e para o céu. Deus sabe o que faz; se Ele os chama para a sua beira, é porque acha que é bom para eles.             

  

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