LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
IV
As
recordações são como os venenos: matam, ou purificam!
Neste momento encontro-me com o irmão
a seguir a mim, não sei se já vos disse que eu sou o mais novo, conversando
sobre a nossa meninice, sobre os nove e seis anos respetivamente que ambos
vivemos em Cendre, numa casinha de pedra, junto ao regato que serve de
fronteira entre Portugal e a Espanha, muito velhinha, apenas com uma divisória,
cerca de vinte metros quadrados, por baixo o porco e as galinhas, mas que para
nós simbolizava o ninho, a nossa cabana perdida na terra prometida, o cantinho
da felicidade, e da ilusão perene. Se quiserem vão lá vê-la um dia, mas o
melhor mesmo é escutar:
- Eu é que te safei da
morte, a ti e à filha do meu padrinho Telmo. Estavam os dois na lareira, no
quentinho, e de repente pegou-vos fogo na roupa, pediram socorro, fui logo a
correr e levei-vos para a represa da água, foi por pouco, que grande susto vós apanhastes.
- Que idade tinha eu
nessa altura?
- Três, ou quatro anos;
eu tinha sete. A Mela deve ser da tua idade.
- E estávamos os dois, duas criancinhas,
sozinhos na lareira?
- Eu tinha ficado
convosco, mas apeteceu-me ir aos pássaros e deixei-vos sós, não me passava pela
cabeça que se podiam queimar, mas também não andava por longe, de outra maneira
não vos teria ouvido gritar.
- E os adultos, onde
estavam?
- A mamã andava a
vender peixe pelas aldeias, saía de manhã e só voltava à noite, às vezes, quase
sempre, com uma grande torcida; os pais da Mela andavam na labuta dos campos,
eram caseiros, não tinham descanso, só não trabalhavam aos domingos de manhã
para poderem ir à missa, eu era o responsável por todos!
- Chegaste a conhecer o
nosso pai?
- Não me lembro
absolutamente nada dele, tinhas tu três meses, diz a mamã, quando ele se amigou
ou casou com uma rapariga galega; nem nos chegou a perfilhar, é como se não
tivéssemos pai, também não precisamos dele para nada, olha que nem sequer nos
veio ver alguma vez, é como se não existíssemos para ele!
- Não gostavas de o
conhecer?
- Eu? Para quê, só
porque nos gerou? Quero lá saber dele, a mim não me é nada, nem o apelido dele nos
deu!
- Está bem, não falemos
mais dele. Conta-me coisas de quando éramos pequenos, quando estávamos em
Cendre.
- Quando tu nasceste já
eu tinha quase três anos de idade, para mim foi bom porque os dois irmãos mais
velhos mal os conhecia, tinham sido criados com os avós maternos, e
posteriormente foram para Lisboa, o Ambrósio depois da tropa embarcou para a
Venezuela, para junto do pai, diziam que estava milionário, não sei. Quando
tinhas dois anos caíste pelas escadas de pedra abaixo, vês aí essa cicatriz
junto ao olho esquerdo? Foi o resultado dessa terrível queda. Levaram-te para o
hospital da Vila, não sei quem te levou, devem ter sido os guardas-fiscais, no
jeep; havia ali à beira da nossa casa um posto, o mais certo é terem sido eles,
o teu padrinho era na altura soldado da guarda-fiscal ali. Nem sei como não
morreste! Nós vivíamos por cima, na corte tínhamos um porco, a mamã vendia-o na
feira logo que ele ficava grande, não o podíamos matar, porque não tínhamos
condições para tal, além disso precisávamos do dinheiro, a casa era muito
pequenina, só tinha uma divisão, eu e tu dormíamos com a mamã, por isso é que mamaste
até aos quatro anos de idade. Um dia, estava eu a fazer o caldo, caiu-me um
pedaço de telha no pote, tirei-a e comemos, não se podia ser esquisito. Quem
nos ensinou a nadar, quando tu nasceste já eu nadava, foi o Dário, o filho do
moleiro, no regato; na altura não sabia que nome tinha, só lhe chamávamos
regato, agora dizem que se chama rio Trancoso, não sei. Tu sempre tiveste medo
da água, assustavas-te, mas eu atirava-te para o meio do poço, era uma paródia,
choravas, querias fugir, mas eu e o Dário não deixávamos, ele punha-te às
cavalitas e tu davas aos braços e às pernas, foi assim que aprendeste. Aos sete
anos tive de ir para a escola, ainda ficava quase a dois quilómetros de
distância, tudo a subir, para baixo não custava nada, todos os santos ajudam,
mas para cima via-me aflito, tinha de descansar pelo caminho, e eu, que naquele
tempo tinha a asma, aquela doença que não me deixava respirar, fazia uma
chiadeira horrível, a professora tinha muita pena de mim, no inverno era pior,
chegava à escola todo molhado, descalço, e tinha de secar a roupinha no corpo,
isso ainda me agravava a doença, acabei por desistir.
- Calçado nunca
tivemos!
- O teu padrinho ainda
te ofereceu umas alpercatas, depois foi transferido para a Vila e nunca mais te
deu nada, eu é que nem isso, o meu padrinho era tão pelintra como nós, a mamã
não ganhava quase nada e o que ganhava perdia-o pelo caminho, vinha sempre com
uma grande borracheira, depois dizia que eram os espíritos malignos que lhe
atiravam com o cesto, os espíritos era a vinhaça.
- Coitada, também
sozinha, com dois filhos pequenos…
- Tu sempre a
defendeste, mas olha que ela nunca teve cabeça, viveu ali tantos anos, junto à
raia, era só passar o regato e já se estava na Espanha; nunca arranjou dinheiro
do contrabando, muitos enriqueceram à custa dela, guardavam os sacos de café e
outras coisas na nossa casa, nunca teve cabeça o raio da mulher.
- Era analfabeta.
- E os outros não o
eram? Naquele tempo a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever, quem
tivesse a quarta classe era um doutor, arranjava um emprego no Estado, embora
não ganhassem muito, mas também não faziam quase nada e eram respeitados e
temidos pelo povo rural. Olha o Getúlio, tinha uma loja de material para a
construção e era analfabeto, nem sequer podia conduzir os carros por causa da
carta, depois lá a conseguiu, nem sei como; e o Tendeiro, não tinha negócios?! Sem
conhecer uma letra do tamanho de um camião! O que estragava a tua mãe era a
bebida, não a deixava pensar, vivia com o cérebro atrofiado, afogado em álcool.
- Estivemos em Cendre
até 1950; tinha eu seis anos, e tu, mais três.
- Já os nossos avós
maternos, a Isaura e o Gaspar, tinham morrido: ela em 1947 e ele em 1949, pouco
me lembro deles, tu se calhar nada.
- Moravam na Vila e nós
em Cendre, a nove quilómetros de distância; provavelmente poucas vezes nos
viram, nem nos deviam ter muito amor «longe
da vista, longe do coração.»
- Eles iam a Cendre
algumas vezes, mas poucas. Parece que nos levavam comida e roupinha, eles
também eram pobres e tinham muitos netos, os filhos da tia Marília, do tio
Aurélio, e esses estavam junto deles, nós não. A tua mãe sempre lhes deu
desgostos, coitados, não tiveram nenhuma sorte com esta filha.
V
O saber é a
fonte de todos os padecimentos
Estou na idade das perguntas, a
curiosidade não me larga, quero saber o porquê das coisas, porque aconteceram
assim, podiam ter sucedido de outro modo, enfim, o saber não ocupa lugar, diz o
povo, e eu desejo ter esse conhecimento, o prazer mórbido do saber. A minha mãe
pode ser uma verdadeira fonte de informações, e hoje encontra-se bem-disposta,
palradora. Eis-me a perguntar:
- Mamã, por que é que
os seus pais a deixaram ir para São Justo, para junto da sua madrinha? Na sua
idade, oito anos, sempre seria melhor ter estado com eles, o carinho é muitas
vezes mais importante do que a comida.
- Eu ressenti-me sempre
dessa ausência, era como se não tivesse pais; ao teu avô era raríssimo ver, a
tua avó ia-me visitar, mas poucas vezes, até parece que evitavam ver-me. Sofri
muito com isso, em silêncio, e de que eu tinha muitas saudades era dos meus
irmãos, quase nunca tinha o prazer de os ver. A minha madrinha gostava muito de
mim, só era mais velha do que eu nove anos, o meu padrinho, irmão dela, foi
estudar para Braga, só vinha a casa nas férias, com ele não tinha tanta
confiança. Os pais dos meus padrinhos eram pessoas de muito respeito, ele
passava o dia na Vila, no hospital da Misericórdia, e ela estava sempre em
casa, a dar ordens às criadas e a verificar se tudo corria bem; tinham
caseiros, colhiam pão e vinho, matavam todos os anos dois grandes porcos, tinham
sempre a casa muito cheia, muito farta, mas ela não era mulher de se assoar,
dizia sempre: «olhem para o pão como se
olha para Deus», na altura não compreendia e quase não comia pão, eu que
tanto gostava daquela broa com centeio, mas pensava que não se devia comer,
pois também não se come o senhor Deus.
- Eles tratavam-na como
criada?
- Sim e não. Eu tinha
de trabalhar como as outras, não me mandaram à escola, diziam que não era
preciso, pois filha de jornaleiro o que necessitava era de saber tratar da
casa, casar e ter filhos, para isso é que tinha nascido. Estudos que os
fizessem os da classe alta, esses tinham de governar o país e o povo, para que
é que o Estado estaria a gastar dinheiro com os pobres, a abrir escolas em
todas as aldeias portuguesas, como fizera o conde Ferreira, se depois iam
trabalhar nos campos e nas fábricas, pescar por esses mares fora, servia de
muito a escola. Assim eles pensavam e não me deram estudos. A minha madrinha
sim, estudara, sabia piano, cantava maravilhosamente, fazia renda, que mãos!
Depois arranjou um namorado endinheirado, trabalhava no Brasil, era filho de um
fulano da nossa terra que tinha emigrado para lá há muitos anos, era muito
rico, dizia-se, embora não fosse fidalgo como ela, mandara fazer ali na aldeia
dele uma grande casa, parecia um palácio, andava sempre de cavalo, também tinha
um carro, foi o primeiro automóvel que vi na vida, mas as estradas não
prestavam, ele preferia o cavalo; bem vestido, fato branco, ele dizia «o meu terno», toda a gente tirava o
chapéu quando ele passava. Tempos!
- Quando você foi para
Lisboa, em 1926, a sua madrinha embarcou para o Brasil.
- Sim, casou e foi para
lá; nunca mais a vi, nem sei se já morreu, oxalá que não, coitada, se tem
filhos, parece que sim; o meu padrinho também se casou, era professor, foi
viver para Braga ou Porto, não sei. Os pais deles morreram há pouco tempo, de
velhos.
- Bem, você não me
disse a razão por que saiu de casa, os seus pais não podiam sustentá-la?
- Não foi bem isso:
onde comem quatro, comem cinco. O problema não estava na comida, mas sim
naquilo que acontecera. Quando eu tinha seis anos de idade morreu o meu irmão,
que não era filho do meu pai Gaspar, parece que era filho de um guarda da alfândega,
por quem a minha mãe se apaixonara; nessa altura a minha mãe ainda era solteira
e rapariga nova. Esse meu irmão, o Roberto, espetou um ferro em brasa nas
partes, quando trabalhava na serralharia, e foi morrer ao Porto, no hospital de
São João; os médicos tudo fizeram por ele, lancetaram-no e tudo, mas não
conseguiram salvá-lo. Eu era muito pequenina, mas lembro-me que naquela casa
nunca mais houve sossego, a tua avó ficou louquinha, coitada, não fazia mais
nada se não chorar, andava sempre metida na igreja, a pedir a Deus pelo filho,
mas ele já tinha partido, o meu pai começou a bater-lhe, ela não fazia o comer,
não tratava das roupas, não tinha gosto pela vida, ia todos os dias ao cemitério
chorar, chamar por ele, até chegaram a dizer que os largos portões do
cemitério, feitos pelo meu avô materno, se abriram para ela entrar e carpir na
campa, eu não estava lá, não vi, não sei quem viu, mas dizem que é verdade, que
foi o espírito dele que os abriu, estas coisas acontecem. Não te estejas a rir
que isto são coisas sérias, com isto não se brinca, até nos pode acontecer
qualquer coisa – «para longe satanás».
- Fica-se com a
impressão de que a avó gostava mais desse filho do que dos outros, nascidos do
casamento do meu avô Gaspar! A você não ligou nenhuma, e tinha apenas seis anos.
Além disso tinha a Marília com onze anos e o Vítor com oito, três crianças a
necessitar do carinho da mãe, ela devia ter sido mais forte.
- Essas coisas não se
explicam, ela gostou muito do antigo namorado «não há amor como o primeiro», lá diz o adágio, e era esse filho que
lho recordava; depois de ele morrer nada existia, ficou como que perdida no mar
agitado, ela já não queria saber de coisa nenhuma; era como se o mundo tivesse
desabado, para ela acabou quando o meu querido irmão morreu; coitado, ele
adorava-nos, era o mais velho, nascera em 1896, andava na música e tinha uma
serralharia, vê lá com dezoito anos já era patrão, saía ao avô e ao tio, tinha
um rapazinho com ele, um aprendiz, era muito bom, os colegas da banda gostavam
muito dele, toda a gente dizia bem dele, era querido de todos, mas Deus quis
chamá-lo para a sua beira e quando assim é não há nada a fazer, temos de lhe
obedecer, ele é que manda, ele sabe o que faz.
- Se tivéssemos um
excelente hospital, bons médicos e bons equipamentos, talvez não tivesse
falecido então, hoje possivelmente ainda estaria vivo; mas não, o hospital é
velho, do século passado, só tem dois médicos de clínica geral, nem um
cirurgião, nem um especialista, a gente até pode morrer com uma dor de dentes,
nem um dentista há, é o enfermeiro que trata disso, arranca os dentes como um
qualquer veterinário, desgraçados daqueles que caem doentes.
- Não penses dessa
maneira, meu filho, olha que Deus pode castigar-te. Ele é que sabe, o meu irmão
foi chamado à sua divina presença, ele está bem, melhor do que nós, que
sofremos, que penamos os pecados que todos os homens até agora cometeram, nós
temos de expiar todos esses pecados, os que morrem novos são os escolhidos por
Deus para irem para a sua beira, têm vida eterna, não padecem nada.
- Estou de acordo
consigo, depois de exalarmos o último suspiro não se sofre mais, mas isso da
vida eterna… pode terminar, tudo termina, e a eternidade também pode ter um
fim; eu prefiro sofrer, mas vivo, apesar de não ter nada, coisa alguma, gosto
de viver, mesmo aqui, na espelunca, mas aqui no planeta Terra.