sexta-feira, 2 de outubro de 2026

 LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha



IV

 

As recordações são como os venenos: matam, ou purificam!

 

         Neste momento encontro-me com o irmão a seguir a mim, não sei se já vos disse que eu sou o mais novo, conversando sobre a nossa meninice, sobre os nove e seis anos respetivamente que ambos vivemos em Cendre, numa casinha de pedra, junto ao regato que serve de fronteira entre Portugal e a Espanha, muito velhinha, apenas com uma divisória, cerca de vinte metros quadrados, por baixo o porco e as galinhas, mas que para nós simbolizava o ninho, a nossa cabana perdida na terra prometida, o cantinho da felicidade, e da ilusão perene. Se quiserem vão lá vê-la um dia, mas o melhor mesmo é escutar:

 

- Eu é que te safei da morte, a ti e à filha do meu padrinho Telmo. Estavam os dois na lareira, no quentinho, e de repente pegou-vos fogo na roupa, pediram socorro, fui logo a correr e levei-vos para a represa da água, foi por pouco, que grande susto vós apanhastes.

- Que idade tinha eu nessa altura?

- Três, ou quatro anos; eu tinha sete. A Mela deve ser da tua idade.

 - E estávamos os dois, duas criancinhas, sozinhos na lareira?  

- Eu tinha ficado convosco, mas apeteceu-me ir aos pássaros e deixei-vos sós, não me passava pela cabeça que se podiam queimar, mas também não andava por longe, de outra maneira não vos teria ouvido gritar.

- E os adultos, onde estavam?

- A mamã andava a vender peixe pelas aldeias, saía de manhã e só voltava à noite, às vezes, quase sempre, com uma grande torcida; os pais da Mela andavam na labuta dos campos, eram caseiros, não tinham descanso, só não trabalhavam aos domingos de manhã para poderem ir à missa, eu era o responsável por todos!

- Chegaste a conhecer o nosso pai?

- Não me lembro absolutamente nada dele, tinhas tu três meses, diz a mamã, quando ele se amigou ou casou com uma rapariga galega; nem nos chegou a perfilhar, é como se não tivéssemos pai, também não precisamos dele para nada, olha que nem sequer nos veio ver alguma vez, é como se não existíssemos para ele!

- Não gostavas de o conhecer?

- Eu? Para quê, só porque nos gerou? Quero lá saber dele, a mim não me é nada, nem o apelido dele nos deu!

- Está bem, não falemos mais dele. Conta-me coisas de quando éramos pequenos, quando estávamos em Cendre.

- Quando tu nasceste já eu tinha quase três anos de idade, para mim foi bom porque os dois irmãos mais velhos mal os conhecia, tinham sido criados com os avós maternos, e posteriormente foram para Lisboa, o Ambrósio depois da tropa embarcou para a Venezuela, para junto do pai, diziam que estava milionário, não sei. Quando tinhas dois anos caíste pelas escadas de pedra abaixo, vês aí essa cicatriz junto ao olho esquerdo? Foi o resultado dessa terrível queda. Levaram-te para o hospital da Vila, não sei quem te levou, devem ter sido os guardas-fiscais, no jeep; havia ali à beira da nossa casa um posto, o mais certo é terem sido eles, o teu padrinho era na altura soldado da guarda-fiscal ali. Nem sei como não morreste! Nós vivíamos por cima, na corte tínhamos um porco, a mamã vendia-o na feira logo que ele ficava grande, não o podíamos matar, porque não tínhamos condições para tal, além disso precisávamos do dinheiro, a casa era muito pequenina, só tinha uma divisão, eu e tu dormíamos com a mamã, por isso é que mamaste até aos quatro anos de idade. Um dia, estava eu a fazer o caldo, caiu-me um pedaço de telha no pote, tirei-a e comemos, não se podia ser esquisito. Quem nos ensinou a nadar, quando tu nasceste já eu nadava, foi o Dário, o filho do moleiro, no regato; na altura não sabia que nome tinha, só lhe chamávamos regato, agora dizem que se chama rio Trancoso, não sei. Tu sempre tiveste medo da água, assustavas-te, mas eu atirava-te para o meio do poço, era uma paródia, choravas, querias fugir, mas eu e o Dário não deixávamos, ele punha-te às cavalitas e tu davas aos braços e às pernas, foi assim que aprendeste. Aos sete anos tive de ir para a escola, ainda ficava quase a dois quilómetros de distância, tudo a subir, para baixo não custava nada, todos os santos ajudam, mas para cima via-me aflito, tinha de descansar pelo caminho, e eu, que naquele tempo tinha a asma, aquela doença que não me deixava respirar, fazia uma chiadeira horrível, a professora tinha muita pena de mim, no inverno era pior, chegava à escola todo molhado, descalço, e tinha de secar a roupinha no corpo, isso ainda me agravava a doença, acabei por desistir.

- Calçado nunca tivemos!

- O teu padrinho ainda te ofereceu umas alpercatas, depois foi transferido para a Vila e nunca mais te deu nada, eu é que nem isso, o meu padrinho era tão pelintra como nós, a mamã não ganhava quase nada e o que ganhava perdia-o pelo caminho, vinha sempre com uma grande borracheira, depois dizia que eram os espíritos malignos que lhe atiravam com o cesto, os espíritos era a vinhaça.

- Coitada, também sozinha, com dois filhos pequenos…

- Tu sempre a defendeste, mas olha que ela nunca teve cabeça, viveu ali tantos anos, junto à raia, era só passar o regato e já se estava na Espanha; nunca arranjou dinheiro do contrabando, muitos enriqueceram à custa dela, guardavam os sacos de café e outras coisas na nossa casa, nunca teve cabeça o raio da mulher.

- Era analfabeta.

- E os outros não o eram? Naquele tempo a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever, quem tivesse a quarta classe era um doutor, arranjava um emprego no Estado, embora não ganhassem muito, mas também não faziam quase nada e eram respeitados e temidos pelo povo rural. Olha o Getúlio, tinha uma loja de material para a construção e era analfabeto, nem sequer podia conduzir os carros por causa da carta, depois lá a conseguiu, nem sei como; e o Tendeiro, não tinha negócios?! Sem conhecer uma letra do tamanho de um camião! O que estragava a tua mãe era a bebida, não a deixava pensar, vivia com o cérebro atrofiado, afogado em álcool.

- Estivemos em Cendre até 1950; tinha eu seis anos, e tu, mais três.

- Já os nossos avós maternos, a Isaura e o Gaspar, tinham morrido: ela em 1947 e ele em 1949, pouco me lembro deles, tu se calhar nada.

- Moravam na Vila e nós em Cendre, a nove quilómetros de distância; provavelmente poucas vezes nos viram, nem nos deviam ter muito amor «longe da vista, longe do coração.»           

- Eles iam a Cendre algumas vezes, mas poucas. Parece que nos levavam comida e roupinha, eles também eram pobres e tinham muitos netos, os filhos da tia Marília, do tio Aurélio, e esses estavam junto deles, nós não. A tua mãe sempre lhes deu desgostos, coitados, não tiveram nenhuma sorte com esta filha.

  

V

 

O saber é a fonte de todos os padecimentos

  

      Estou na idade das perguntas, a curiosidade não me larga, quero saber o porquê das coisas, porque aconteceram assim, podiam ter sucedido de outro modo, enfim, o saber não ocupa lugar, diz o povo, e eu desejo ter esse conhecimento, o prazer mórbido do saber. A minha mãe pode ser uma verdadeira fonte de informações, e hoje encontra-se bem-disposta, palradora. Eis-me a perguntar:

 

- Mamã, por que é que os seus pais a deixaram ir para São Justo, para junto da sua madrinha? Na sua idade, oito anos, sempre seria melhor ter estado com eles, o carinho é muitas vezes mais importante do que a comida.

- Eu ressenti-me sempre dessa ausência, era como se não tivesse pais; ao teu avô era raríssimo ver, a tua avó ia-me visitar, mas poucas vezes, até parece que evitavam ver-me. Sofri muito com isso, em silêncio, e de que eu tinha muitas saudades era dos meus irmãos, quase nunca tinha o prazer de os ver. A minha madrinha gostava muito de mim, só era mais velha do que eu nove anos, o meu padrinho, irmão dela, foi estudar para Braga, só vinha a casa nas férias, com ele não tinha tanta confiança. Os pais dos meus padrinhos eram pessoas de muito respeito, ele passava o dia na Vila, no hospital da Misericórdia, e ela estava sempre em casa, a dar ordens às criadas e a verificar se tudo corria bem; tinham caseiros, colhiam pão e vinho, matavam todos os anos dois grandes porcos, tinham sempre a casa muito cheia, muito farta, mas ela não era mulher de se assoar, dizia sempre: «olhem para o pão como se olha para Deus», na altura não compreendia e quase não comia pão, eu que tanto gostava daquela broa com centeio, mas pensava que não se devia comer, pois também não se come o senhor Deus.

- Eles tratavam-na como criada?

- Sim e não. Eu tinha de trabalhar como as outras, não me mandaram à escola, diziam que não era preciso, pois filha de jornaleiro o que necessitava era de saber tratar da casa, casar e ter filhos, para isso é que tinha nascido. Estudos que os fizessem os da classe alta, esses tinham de governar o país e o povo, para que é que o Estado estaria a gastar dinheiro com os pobres, a abrir escolas em todas as aldeias portuguesas, como fizera o conde Ferreira, se depois iam trabalhar nos campos e nas fábricas, pescar por esses mares fora, servia de muito a escola. Assim eles pensavam e não me deram estudos. A minha madrinha sim, estudara, sabia piano, cantava maravilhosamente, fazia renda, que mãos! Depois arranjou um namorado endinheirado, trabalhava no Brasil, era filho de um fulano da nossa terra que tinha emigrado para lá há muitos anos, era muito rico, dizia-se, embora não fosse fidalgo como ela, mandara fazer ali na aldeia dele uma grande casa, parecia um palácio, andava sempre de cavalo, também tinha um carro, foi o primeiro automóvel que vi na vida, mas as estradas não prestavam, ele preferia o cavalo; bem vestido, fato branco, ele dizia «o meu terno», toda a gente tirava o chapéu quando ele passava. Tempos!

- Quando você foi para Lisboa, em 1926, a sua madrinha embarcou para o Brasil.

- Sim, casou e foi para lá; nunca mais a vi, nem sei se já morreu, oxalá que não, coitada, se tem filhos, parece que sim; o meu padrinho também se casou, era professor, foi viver para Braga ou Porto, não sei. Os pais deles morreram há pouco tempo, de velhos.

- Bem, você não me disse a razão por que saiu de casa, os seus pais não podiam sustentá-la?

- Não foi bem isso: onde comem quatro, comem cinco. O problema não estava na comida, mas sim naquilo que acontecera. Quando eu tinha seis anos de idade morreu o meu irmão, que não era filho do meu pai Gaspar, parece que era filho de um guarda da alfândega, por quem a minha mãe se apaixonara; nessa altura a minha mãe ainda era solteira e rapariga nova. Esse meu irmão, o Roberto, espetou um ferro em brasa nas partes, quando trabalhava na serralharia, e foi morrer ao Porto, no hospital de São João; os médicos tudo fizeram por ele, lancetaram-no e tudo, mas não conseguiram salvá-lo. Eu era muito pequenina, mas lembro-me que naquela casa nunca mais houve sossego, a tua avó ficou louquinha, coitada, não fazia mais nada se não chorar, andava sempre metida na igreja, a pedir a Deus pelo filho, mas ele já tinha partido, o meu pai começou a bater-lhe, ela não fazia o comer, não tratava das roupas, não tinha gosto pela vida, ia todos os dias ao cemitério chorar, chamar por ele, até chegaram a dizer que os largos portões do cemitério, feitos pelo meu avô materno, se abriram para ela entrar e carpir na campa, eu não estava lá, não vi, não sei quem viu, mas dizem que é verdade, que foi o espírito dele que os abriu, estas coisas acontecem. Não te estejas a rir que isto são coisas sérias, com isto não se brinca, até nos pode acontecer qualquer coisa – «para longe satanás».

- Fica-se com a impressão de que a avó gostava mais desse filho do que dos outros, nascidos do casamento do meu avô Gaspar! A você não ligou nenhuma, e tinha apenas seis anos. Além disso tinha a Marília com onze anos e o Vítor com oito, três crianças a necessitar do carinho da mãe, ela devia ter sido mais forte.

- Essas coisas não se explicam, ela gostou muito do antigo namorado «não há amor como o primeiro», lá diz o adágio, e era esse filho que lho recordava; depois de ele morrer nada existia, ficou como que perdida no mar agitado, ela já não queria saber de coisa nenhuma; era como se o mundo tivesse desabado, para ela acabou quando o meu querido irmão morreu; coitado, ele adorava-nos, era o mais velho, nascera em 1896, andava na música e tinha uma serralharia, vê lá com dezoito anos já era patrão, saía ao avô e ao tio, tinha um rapazinho com ele, um aprendiz, era muito bom, os colegas da banda gostavam muito dele, toda a gente dizia bem dele, era querido de todos, mas Deus quis chamá-lo para a sua beira e quando assim é não há nada a fazer, temos de lhe obedecer, ele é que manda, ele sabe o que faz.

- Se tivéssemos um excelente hospital, bons médicos e bons equipamentos, talvez não tivesse falecido então, hoje possivelmente ainda estaria vivo; mas não, o hospital é velho, do século passado, só tem dois médicos de clínica geral, nem um cirurgião, nem um especialista, a gente até pode morrer com uma dor de dentes, nem um dentista há, é o enfermeiro que trata disso, arranca os dentes como um qualquer veterinário, desgraçados daqueles que caem doentes.

- Não penses dessa maneira, meu filho, olha que Deus pode castigar-te. Ele é que sabe, o meu irmão foi chamado à sua divina presença, ele está bem, melhor do que nós, que sofremos, que penamos os pecados que todos os homens até agora cometeram, nós temos de expiar todos esses pecados, os que morrem novos são os escolhidos por Deus para irem para a sua beira, têm vida eterna, não padecem nada.

- Estou de acordo consigo, depois de exalarmos o último suspiro não se sofre mais, mas isso da vida eterna… pode terminar, tudo termina, e a eternidade também pode ter um fim; eu prefiro sofrer, mas vivo, apesar de não ter nada, coisa alguma, gosto de viver, mesmo aqui, na espelunca, mas aqui no planeta Terra.                         

 

 

 

 

 

 

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