quinta-feira, 8 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XVIII

 

As vias sinuosas encaminham-nos para o cais

 

     Apercebi-me, embora tardiamente, que a minha jovem namorada mudara o seu comportamento para comigo. Várias pessoas já sabiam nessa altura que ela e o Artur iriam casar; eu, porém, tudo ignorava, e nem sequer queria acreditar nessa possibilidade. «Cândido, meu pobre amigo, tu eras, nessa altura, um triste poeta, um sonhador.» Sejam ousados e aproximem-se: 

 

- Bera, não sei o que se passa contigo, não tens aparecido, ias à minha oficina todos os dias, a tua tia também já não vai com tanta frequência, a tua prima Guida já não me fala como antes, o que está a acontecer?!

- Nada, é impressão tua, escusas de estar preocupado, tenho tido muitíssimo trabalho, agora tenho ido com a minha mãe vender, praticamente não me sobram tempos livres, só nos fins-de-semana, mas até neste domingo tive de trabalhar, desculpa não ter aparecido, temos muito tempo para estarmos juntos, uma vida inteira.

- Pareces-me diferente, fisionomia carregada, a tua alegria contagiante desapareceu, nota-se em ti imensa preocupação, passa-se alguma coisa ruim, anda lá, diz-me, conta-me tudo, confia em mim.

- Estás a imaginar coisas, sou a mesma, só que ando maçada, temos de sair cedo de casa, a minha mãe anda outra vez grávida, já não se esperava este filho, a vida complica-se, mais uma boca para comer, já sabes como é, só preocupações.

- Correm por aí uns rumores, eu não acredito, estava bem arranjado se ligasse a tudo que dizem, eu em ti confio, pudera! Não havia de confiar naquela que vai ser a mãe dos meus filhos, a companheira de muitos anos, até parecia mal.

- Deixa essa gente falar, não têm nada para fazer, se tivessem não lhes sobrava tempo para se meterem na vida dos outros, olha que a tua mãe também anda a dizer coisas de mim, mas essa, coitada, é com a pinga, se não fosse o vinho já não diria esses disparates, que ela a mim não pode apontar nada, devia-se olhar no espelho, mas eu não lhe ligo, que fale.

- Sabes o que estive a pensar? 

- O quê?!

- Quando voltar da tropa e tiver algum dinheiro abrimos uma sapataria maior e melhor, com venda de calçado novo, as que há no concelho não prestam, as pessoas começam a ter dinheiro da emigração e já podem comprar, que dizes?

- Acho boa ideia, mas para abrires uma sapataria dessas será preciso muito capital, isso vai levar anos.

- E não disseste tu, há pouco, que temos muitos anos à nossa frente?

- Não cries ilusões, só na tropa vais botar pelo menos três anos, como sabes há rapazes que botaram quatro, depois vens sem um único tostão, que na tropa gastam o que têm e o que não têm, pensas que aquilo é a França, lá sim, ganham muitos francos, aqui nem para comer se ganha.

- Eu sei que tu tens razão, mas deixa-me sonhar um pouco, somos tão novos, não nos podemos comportar e pensar como se tivéssemos cinquenta anos de idade, a vida dá muitas cambalhotas e o futuro a Deus pertence, pode ser que as coisas melhorem, a guerra colonial pode acabar de um momento para o outro, eu tenho esperança que sim, tu não sejas pessimista, enfrenta o devir com otimismo.

- O que eu vejo em casa é cada vez mais miséria, mais carências, o meu pai adoeceu, não foi trabalhar durante um mês, não ganhou nada durante esse período, a minha mãe trabalha como uma escrava, os meus irmãos são ainda pequenos, só comem, não ajudam nada, eu faço o que posso, até já pensei oferecer-me como criada de servir, mas as casas dos senhores têm todas empregadas, algumas são de fora, coitadas, na aldeia delas também passam necessidades, o que farei?! Não me agradava deixar a terra.

- Nem eu permitia isso, nem que casemos antes de eu partir, mas depois também ficarias com a minha mãe, sabes como ela é, todos os dias aquilo, aquela bandalhice, nem te irias sentir bem, vê se aguentas até eu regressar.

- Peço a Deus e à Virgem Maria que me ajudem, que iluminem o meu caminho, só um milagre poderá melhorar a minha vida.

- Hoje estás impossível, nem te reconheço.

- Achas que é caso para menos? Tenho de ir, porque amanhã levanto-me cedo e tenho de dormir algumas horas, até depois.  

- E vais assim, se um beijo ao menos?

- Hoje não estou com disposição para essas coisas, sinto-me cansada e triste, é melhor ires já embora.

- Está bem, está bem; hoje nem te reconheço. Até amanhã.

- Se Deus o quiser.


XIX

 

Privilégios de macho cavalgam sábias fêmeas

 

     O leitor vai ficar abismado com tudo aquilo que se vai passar a seguir. Perguntar-se-ão: «como é possível?» Pois é: eu também fazia das minhas. Claro que naquela época, talvez ainda hoje, havia dois pesos e duas medidas: a traição da mulher pesava mais na sociedade, era suscetível de uma condenação severa; ao contrário, era de bom-tom o homem dar a sua escapadela! Mas já chega de retórica, venham todos assistir à malandrice:

 

- Cândido: nem sei como haverei de começar. A tua mãe não te disse nada?

- Se é o que estou a pensar, disse; mas já sabes como ela é.   

- Bem, ela falou comigo, disse-me que não gostava nada que tu casasses com a Bera, é uma leviana, não te vai respeitar, eu tive aquele problema, mas pronto, isso aconteceu porque aquele manco do diabo pensa que tem de tirar o virgo a todas as filhas dos caseiros, enquanto não faz isso não descansa, eu tinha apenas dezasseis anos de idade, era uma pobre inocente, não tenho culpa nenhuma, ameaçou despedir os meus pais da quinta, olha que sou uma rapariga séria, respeitar-te-ei sempre, comigo podes contar para a vida e para a morte, estarei sempre ao teu lado.

- Estás a colocar-me numa situação difícil, melindrosa, eu não quero prometer-te nada, é certo e verdade que a Bera ultimamente anda esquisita, não aparece aos encontros marcados, farto-me de lhe mandar recados, não sei o que ela tem, se calhar já não me quer, eu dou em doido, porque gosto profundamente dela.

- Eu ouvi dizer que vai casar com o Artur, sempre foi uma vaidosa, não dá confiança a ninguém, pensa que é importante, coitada, tem tanto como eu.

- Agradeço-te que não fales da Bera na minha presença, isso não admito a quem quer que seja, se ela me trocar pelo Artur está no seu direito, mas garantiu-me que isso não passa de um boato e prometeu esperar o meu regresso da tropa, depois casamos e já calaremos as más-línguas.     

- Espera-lhe pela volta, mas se não queres falar nesse assunto não fales, eu gosto de ti e estou às tuas ordens, se quiseres já sabes onde me encontrar, no domingo à tarde é o melhor momento, porque o meu pai anda aí pelas tabernas e a minha mãe não sai de casa, os meus irmãos ainda são pequenos, não se aperceberão de nada.

- Está bem, no domingo à tarde apareço, faço sinal cá de cima da avenida, mas não quero que te vejam comigo, se a Bera sabe então é o bom e o bonito, rompe logo comigo.

 

*

 

- Cá estou eu, ninguém te viu?

- Não, hoje há futebol no monte de Santiago, veio cá jogar o Limiano, foi toda a gente para lá, o meu pai a estas horas já deve estar bem bebido, a minha mãe está na cozinha a fazer a ceia, nem aos domingos tem direito ao descanso.

- Vamos arranjar um cantinho, daqui vê-se a tua casa, vamos mais para além, ali deve servir, a erva está seca, não há urtigas, esperemos que ninguém nos veja.

- Tanto medo, eu é que devia estar com esse receio, sou uma rapariga solteira, nem sequer sou tua namorada, nem sei porque vim, só porque gosto muito de ti, se quiseres vou-me embora.

- Desculpa, sei que estás a arriscar bastante, mas compreende, sou o namorado da Bera, se ela sabe, mas olha agora estamos aqui os dois e vamos pensar só em nós, deita-te aqui, assim, estás mesmo bem, és muito atraente, só tenho tido olhos para ela, mas tu não lhe ficas atrás, que pernas bonitas, macias, parecem de veludo, que seios, rijos, que bem me sinto aqui à tua beira, que lábios, parece que nunca beijaram, e tens os olhos lindos, nunca tinha reparado neles, nem sequer me tinha apercebido da cor deles, são verdes, ia jurar que eram castanhos, quase todas as raparigas daqui têm os olhos castanhos, o cabelo, brilhante, mais louro do que castanho, que bem me sinto entre as tuas pernas, deixa-me estar assim muito tempo, sempre.

 

*

 

- Até te esqueceste das horas, é quase noite, temos de ir embora, se não depois não podemos passar o regato, ainda caímos, foi uma tarde maravilhosa, não será a última, vamos passar muitas tardes assim, juntos, não estejas com essa cara de aflito, ninguém saberá.

- Promete-me, Celina, promete-me solenemente, que nunca dirás a ninguém o que se passou aqui, se ela sabe estou desgraçado, então é que eu a perco para sempre.

- Estás a ser-lhe mais fiel do que ela te está a ser a ti, mas podes confiar em mim, da minha boca não sairá uma única palavra a este respeito, nem sequer à tua mãe eu direi.  

- Sobretudo à minha mãe, se lho disseres espalhará por todo o lado, só para prejudicar a rapariga, vai botar tudo a perder, não lhe contes nada.

- Também, quem é que acredita naquilo que a tua mãe diz?

- Nunca fiando. 

      

XX

 

Caminhando sereno lambia as chagas de mórbidos prazeres

 

 

     Recuemos no tempo. Eu, com apenas onze anos de idade, acompanhando os meus amigos, vou revelar-vos os meus sentimentos, ainda prenhe de preconceitos, de temores; é a minha aprendizagem sexual, a primeira viagem num mundo onde o sexo é quase tudo. Deitem um olhar curioso sobre o ato:

 

- Eh, pá! Vamos ao rio, já está à nossa espera o Viriato e o Rina, levamos uma botelha de vinho que eu tirei da adega do meu pai, o Rina leva uma chouriça, tu levas pão, e o Viriato leva o sim-senhor, já nos prometeu que nos deixa ir a todos, vai ser uma festa, é a nossa rapariga, a prenda por termos concluído a quarta classe. Ele a ti tem-te muito respeito, passaste com distinção, nós somos uns burros, mas também passámos.   

- Ó Joca, e se a mãe dele, ou a avó, sabem? Olha que não são de brincadeiras, a velha é tesa, dá-nos uma coça que nos mata.

- Ele não lhes diz nada: quem tem cú tem medo! Eu já brinquei com ele, mas aquilo foi à pressa, por cima das calças, até me deu um pum, o filho da mãe, mas agora vai ser a sério, sem roupa a cobrir, perto do rio, uns vigiam e os outros nicam; depois tomamos um banho e comemos regaladamente, está tudo combinado, ai senão o gajo leva umas hóstias, não lhas perdoo.

- Ó Joca, ele é nosso amigo, coitado, tem esse vício, mas que diabo; nós temos de o respeitar, senão ele depois fica rabeta, como o tio dele.

- Eu quero lá saber se quando for grande é como o tio dele, eu quero é…

- Vou convosco, mas fazei vós. Que nojo!

- Depois até vais pedir, ou eu não me chame Joca.

 

*

 

- Estava a ver que nunca mais chegavam, o Viriato já se queria ir embora, tem um medo da avó que estremece todo, lá o consegui convencer, mas não foi fácil.

- Chimpo-te duas hóstias que te ponho a dormir durante oito dias, o que é que me prometeste, não foi vir connosco? Então porque é que te queres ir embora?!

- Demoravam, se a minha avó sabe, mata-me.

- Queremos lá saber disso, não sejas medroso, ninguém vai dizer à velha, era o que faltava.

- Ficamos aqui: com areia, relvinha, árvores, sombra, é o local ideal. Ó Rina, toca a vigiar, e tu também Cândido; eu e o Viriato vamos ali para o escondidinho, se alguém se aproximar avisam.

 

*

 

- Ó Joca, isso ainda demora muito, olha que eu e o Cândido também somos filhos de Deus, despacha-te.

- Agora é que eu estou no melhor, esperem um bocadinho, não demora nada.

- Vais tu, Rina; eu não quero, tenho nojo, até pode aparecer alguém, já viste o que iriam dizer de nós?

- O raio do Joca nunca mais se despacha; daqui a pouco também eu não quero.   

 

*

 

     A homossexualidade tem séculos de existência e até o próprio filho de Noé, o salvador da humanidade, segundo a bíblia, a praticou. Os médicos afirmam ser uma doença; porém, os próprios dizem que não, é apenas a busca do prazer oculto! O certo, certo, é que ao longo do percurso humano sempre surge, nesta ou naquela localidade, nas classes elevadas ou mesmo no submundo, um indivíduo propenso a estes actos contra natura. Mas deixemo-nos de especulações e, sem pressas, calmamente, assistam ao piquenique na relva:

 

- Rica pinga, que pena não ter trazido outra garrafa, e que fabuloso chouriço, isto é que é vida, que tarde, temos de vir cá mais vezes, não estão de acordo? Aqui o Cândido é que não sabe o que perdeu, pergunta ao Viriato se não gostou, diz-lhe, diz-lhe se não gostaste.

- Provocaste-me um bocadinho de dor, até parece que estou aleijado, tens cá uma pistola!

- Um homem é um homem, para a próxima já não te dói, vais ver…

- Para a próxima o Cândido vai ser o primeiro, queres?

- Não, não quero; acho que os rapazes não deviam fazer isso. Deus fez o homem e fez a mulher, devemos respeitar a sua vontade.   

- Santinho; tens de te ir confessar ao padre, olha que isto é melhor do que a alternativa. Ah! Ah! Eu até não me importava nada de ter aqui uma gaja boa, mas convencê-las?! E olha que o Viriato não fica prenho, podes estar descansado. E agora, meus bons amigos, para terminar em beleza, um cigarrinho, roubei-os ao meu velho.

- Vinho e cigarros! Se ele vem a saber!

- Hoje já deve andar com uma borracheira nos cornos, a esta hora já está a dormir em alguma mesa e a urinar-se pelas calças abaixo, é o costume.

- Vamos embora; a minha mãe e a minha avó já devem andar à minha procura, não posso chegar tarde a casa. Estão fartas de me avisar: «se fores ao rio e te afogares, quando chegares a casa levas uma tunda que te ficará de emenda para o resto da vida!»

     

XXI

 

O homem não nasceu para o trabalho; foi a preguiça que o inventou para ele!

  

     Recuemos vários anos no tempo. No mundo rural os rapazes e raparigas seriam forçosamente camponeses; nas Vilas os jovens sem recursos, ou mesmo remediados, teriam de aprender uma arte – sapateiro, alfaiate, barbeiro, etc., ou arranjar emprego ao balcão da mercearia ou de outro qualquer estabelecimento comercial. Eu teria gostado de ser alfaiate, mas essa profissão era monopólio de duas ou três famílias – os mestres alfaiates só ensinavam os seus parentes próximos. Daí terem-me encaminhado para a profissão de sapateiro, que por ser pouco asseada ficava reservada aos mais humildes. Se querem ouvir a conversa, ouçam:

 

- Mamã, não há quase fazenda nenhuma, nem dinheiro para pagar à fornecedora, o que vamos fazer?

- Vais aprender um mester, acabou-se o negócio, a fornecedora de Braga que leve o que ainda resta, sobraram uns aventais e meia dúzia de lençóis, para a prisão não me leva, vamos lá ver se aquelas a quem vendi fiado me pagam, coitadas, o São Miguel este ano não foi grande coisa, o milho foi uma desgraça, não se aproveitou nem a metade, a chuva veio antes da época própria, se calhar não vai haver vinho, um ano ruim meu filho, um ano para esquecer.

- E nós é que pagamos as favas; se não tinham dinheiro por que é que compraram?!

- Que queres! Nunca soube dizer não; tenho pena dessa gente, são todos bons para mim, não me fazem mais porque não podem.

- Nós não podemos viver disso, precisamos de dinheiro para pagar a quem nos vende as mercadorias; vai ser uma vergonha, eu nem quero estar presente quando vier a senhora Angelina receber, até fujo.    

- Digo-lhe para não trazer mais nada, depois pago-lhe quando puder, que tenha paciência, os negócios não correram bem.

- Por sua culpa, eu bem a avisei, mas não, fiava, fiava, depois malga aqui, malga acolá, às tantas nem se sabe a quem vendemos.

- Tens tudo apontado.

- Tenho, tenho; mas muitas dizem que não devem nada, que já lhe pagaram, se não foi com dinheiro foi com géneros, nós é que não riscamos!

- Se calhar têm razão, esqueço-me muito. Vais para alfaiate, falo com o filho da senhora Carmezinda, leva-te para lá, eu cá me arranjo; a cozinhar nos pequenos restaurantes, nos casamentos, pelas aldeias, à fome é que não morremos. Olha que os teus irmãos nem um tostão mandam!

- Coitados, o mais certo é também não terem para eles, na cidade deve gastar-se tudo que se ganha, mercam tudo, até dizem que se compra a salsa! Nós aqui temos couves, batatas, cebolas, quase tudo, e a hortaliça até no-la dão.

- A mim dão-me muita coisa; é certo que também lhes trabalho de graça, faço as vindimas, as desfolhadas, cozinho, ajudo em tudo, até a lavar os defuntos, não fazem demais dar-me o que me dão.  

- Dizem que o filho da senhora Carmezinda nunca está na alfaiataria, é porque não precisa, se precisasse que remédio se não vergar a mola, anda ele e o filho do senhor Fernandes a vagabundear, na borga até às cinco e seis da manhã, não perdem um serão nem um baile, não sei se irei aprender alguma coisa com ele.

- Experimentas; se não der resultado vais para outro lado, eu ainda hoje vou falar com a mãe dele, se ela quiser fico a cozinhar na taberna dela nos dias de feira, que ela tem muitos fregueses do monte.

 

*

 

- Na segunda-feira já podes ir para a alfaiataria do Guilherme, tens é que passar pela taberna da mãe para ela te dar a chave; ele levanta-se sempre tarde, parece que se deita todos os dias quase de madrugada! Um verdadeiro estroina!

- Mas se ele não está na oficina o que é que eu vou lá fazer, quem me ensina?

- Ele aparece, mas não passa lá muito tempo, segundo me disse a mãe; tu experimentas, se vires que não aprendes peço para ires para outro patrão.

- Está bem; na segunda-feira lá estarei, mas tenho a impressão que aquilo não vai dar certo.

 

*

 

- Eu não lhe dizia? O senhor Guilherme nem lá pôs os pés; esperei, esperei, ali feito parvo e ele sem aparecer, as pessoas que moram ali perto até se riram de mim, disseram-me que é raro verem-no, por outro lado nem sequer lhe entregam trabalho, nunca dá conta dele, e consta até que não é grande alfaiate, tem uma fama terrível.

- Então vais para sapateiro; vou pedir ao Hilário, ele aceita-te, ainda é da família, um tio dele foi casado com a minha falecida irmã Marília, esse é trabalhador, e serviço não lhe falta, não podes é esperar que te dê alguma coisa, é um forreta, um unhas-de-fome.

- Preferia a arte de alfaiate, é mais asseada, mas os mestres não aceitam aprendizes, só se forem filhos ou sobrinhos, são todos da mesma família, paciência.

- A profissão de sapateiro também é boa, não se apanha sol nem chuva, é da maneira que começas a andar calçado com sapatos, esses tamancos estão a dar-te cabo dos pés e descalço já não podes andar, já estás a ficar crescidinho, tens doze anos de idade, e agora também saiu para aí uma lei a proibir a gente a andar descalça! Mas olha que calçado não nos o dão eles, canté!

- Eu até não me importava de andar descalço, só que os dedos dos pés andam sempre esmurrados, uma lástima…

- Por causa do jogo da bola! Sabes o que podes fazer para ganhar algum dinheirinho?

- O quê?

- Podes ir engraxar sapatos para o terreiro nos dias de feira e domingos de manhã, sempre ajudava.

- Acho boa ideia; vou arranjar uma caixinha e escovas; compro a pomada e tinta na loja do senhor Landeiro. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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