LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
XV
Em busca do
pai perdi o meu rasto
Mais uma vez eu e o meu irmão travávamos
uma conversa animada e descontraída; recordávamos tempos passados, revivíamos
os momentos mais marcantes da nossa infância. Se puderem venham ouvir esse
interessante diálogo:
- Então o nosso pai foi
para as bandas da Galiza e nunca mais nos veio ver?!
- Isso é o que a mamã
diz: eu, concretamente não sei para onde raio ele foi. Quanto a visitar-nos,
pode ser que tenha ido alguma vez a Cendre, que nos tenha visto de longe, que
eu me lembre de ele ter vindo ter connosco isso não, eu era tão pequenino
quando ele se foi embora que se o visse na rua não o reconhecia, provavelmente
nunca mais se lembrou de nós, esqueceu-se que nós existíamos!
- Achas que ele tem
mais filhos?
- A estrangeira era uma
mulher nova, ele também, o mais certo é terem geração. Se a tiverem, se existir
algum nosso irmão, eles nem sequer sabem da nossa existência, não lhes devem
ter contado nada, para eles nós representamos apenas um episódio sem
importância, um grão de areia no deserto, uma gota de água no imenso oceano,
nem isso!
- Gostava de o
conhecer, e aos irmãos de lá, não gostavas de falar com eles, dizer-lhes que
somos filhos do mesmo pai, que podemos ser amigos?
- Eu não, não sou
lírico como tu, a mim não me dizem nada, não os conheço, nem sequer sei se
nasceram, o que é que ganhava com isso, o mais certo era virem-me pedir ajuda,
podem ser uns pelintras, uns tesos, que se desenrasquem, eu também nunca lhes
pedi nada, sabes como tenho mourejado, catorze e mais horas por dia, não venhas
com essa, qual é o teu interesse em conhecê-los, se calhar davam-te alguma
coisa, nem sonhes com isso, ninguém dá nada, o tipo se quisesse já nos tinha
contactado, o malandro fez de conta que não foi nada com ele; andou metido com
a tua mãe, fez-lhe dois fedelhos, e pôs-se a andar nas calmas, pisgou-se;
também, com a idade dela, o que é que a tola esperava, casar?! Só se ele fosse
parvo, um rapaz daquela idade ia ligar-se para sempre a uma mulher de trinta e
tal anos de idade e mãe de vários filhos, só se fosse estúpido, burrinho de
todo, eu teria feito o mesmo, quanto mais longe dela melhor.
- Não me digas que
terias coragem, fígados, para deixar uma mulher com duas crianças, uma de meses
e outra de três anos de idade, não acredito que fosses capaz disso, não
acredito, mesmo que afirmes o contrário.
- Bem, não sei, mas o
mais certo era não me meter com ela, metia-me com uma da minha idade, ou mais
nova, ao menos casava e pronto, não ficava com remorsos, meus queridos anjos,
eram do meu sangue, até parece que não tem coração, deixarem dois putos tão
pequenos, inocentes, que culpa têm as crianças dos erros, das fraquezas dos
pais?
- Ela deveria, como
mais velha, ter tido mais juízo, pelo menos não emprenhar, mas se isso tivesse
acontecido não estaríamos nós aqui, e olha que eu gosto de viver, apesar de não
ter pai e ter uma mãe como a nossa.
- Tivemos azar, lá
isso, tivemos. Há gente que nasce num bercinho de ouro, nós nascemos na palha,
na pocilga, na imundície, na pobreza total, absoluta, ninguém nasceu mais pobre
do que nós, sem nada, nem ninguém, pigmeus do mundo, crescemos sozinhos, ao deus
dará, aos empurrões da fortuna, mas olha que não estamos pior do que alguns que
nasceram em ricas camas, cheios de tudo, bom conforto, boa comida, roupa à
fartança, não estamos, não, mas graças ao nosso esforço, não nos podemos
queixar muito, outros estão bem pior, e olha que podíamos ter saído bêbados,
ladrões, do piorio que há, mas não, felizmente saímos honestos, trabalhadores,
todos nos respeitam e admiram, e alguns até inveja nos terão!
- Parece que a divina
providência nos amparou, nos quis compensar de toda aquela miséria, daqueles
anos de fome, de frio, de doenças, de falta de carinho, olha que a falta de
carinho foi o que mais me custou, uns braços de pai, de avós, de uma mãe carinhosa
e sorridente, mas não, nem avós, nem pai, com uma mãe a cheirar a sardinhas e a
vinho entornado, até parece que foi castigo de Deus por algum mal que nós
tenhamos feito antes de nascer, olha que eu não me lembro de ter feito mal
fosse a quem fosse.
- Nós não fomos os
únicos desgraçados, infelizmente houve muitos outros, alguns até foram
abandonados pelos progenitores, nem sequer sabem quem são, eu até preferia ser
um desses, ao menos não sabia quem eram, teria a ilusão de pensar que eram
pessoas fidalgas, ricas, bem instaladas na vida, mas que não quiseram assumir o
escândalo, uma aventura de jovens.
- O nosso avô Gaspar
foi exposto, coitado, julgo que nunca soube quem foram seus pais, é muito
triste, eu prefiro saber, não tenho culpa que os meus pais sejam quem são, não
escolhi nascer deles, mas prefiro saber, se calhar até o teu pai não é o mesmo
que o meu, eu gostava que fosse, seríamos irmãos inteiros, mas ele disse que
não tinha a certeza, provavelmente a tua mãe andava com outro, com a bebida,
não sei.
- O avô, coitado, ficou
viúvo tinha eu cinco anos de idade, mal me lembro dele, morreu passado dois
anos da morte da avó, em 1949, os desgostos mataram-no, ainda não era muito
velho, só tinha setenta e dois anos de idade, a segunda guerra mundial deu cabo
dos países, tudo racionado, muita miséria, carência de tudo, até havia falta de
açúcar para fabricar os rebuçados e roscas.
- Quando faleceu a avó
tinha eu três aninhos de idade, não me recordo nada dela, a mamã diz que ela
sofreu muito, coitada, a tratar dos filhos, a criá-los, para depois os ver
morrer, caíram como tordos, um a um, somente dois lhe sobreviveram, olha que
custa; a vida para os pobres é sempre difícil. E para cúmulo da desgraça, as
doenças, as mortes, o sofrimento! Os ricos gozam a vida, têm tudo, as doenças
não os matam, têm bons médicos, podem comprar os medicamentos, vão para os
melhores hospitais, até depois da morte são diferentes de nós: acompanhados aos
cemitérios pelas irmandades, bombeiros, bons jazigos de família, missas de
corpo presente, responsos; nós somos apenas acompanhados pelos humildes e a
seguir enterrados em campa rasa, e ao fim de cinco anos atiram com outro corpo
para cima dos nossos ossos e mais ninguém se lembrará da nossa passagem por
este vale de lágrimas. Outro dia o senhor padre Alberto recusou-se acompanhar o
funeral do marido da senhora Albina, alegando que ele não ia à missa, que era
maçónico e ateu – eu nem sei bem o que isso é!
- E depois dizem que
são representantes de Deus na terra! O Senhor com certeza não teria procedido
dessa forma, as pessoas não são obrigadas a ir à missa; se o defunto
pertencesse a essas famílias abastadas certamente ele não teria agido assim.
- Eu não gostava de ser
milionário, isso não, mas também não queria ser um pobretana, estou cansado de
o ser, contentava-me em ser remediado, não me importava de ser padre, têm uma
vida boa, não pagam renda de casa, recebem a côngrua, alguns ainda são professores
no Colégio, e agora já não ia para o exército, mas mesmo que eu quisesse não
podia sê-lo.
- Não podias?!
- Somente os filhos
nascidos no casamento católico são admitidos no Seminário.
- Desconhecia isso.
Pulhas! Cada dia gosto menos deles. Que culpa têm as crianças de nascerem fora
do matrimónio? Até Jesus nasceu! O pai dele não era São José, são os próprios
padres a afirmá-lo, mas sim Deus, ou Jeová, como lhe chamam no oriente.
- Os padres não são os
culpados, não foram eles que fizeram essa absurda lei. Julgo que foram os
cardeais, ou os bispos, a pedido do Papa, talvez para proteger a Igreja
Católica dos malnascidos. Por outro lado, o que disseste acerca de Jesus,
atenção, isso é diferente: Deus é Pai e Senhor de toda a Humanidade e de todas
as criaturas que existem e que porventura venham a existir no universo, não se
pode confundir a divindade, o Ser Supremo, com um humilde ser humano. Jesus
veio ao nosso planeta enviado pelo seu pai para nos salvar, para nos livrar da
tentação. Escolheu Maria e o seu lar porque achou que aí Jesus teria as
condições ideais para crescer em harmonia e virtude. Não confundas as coisas.
Nós somos apenas criaturas de Deus e seremos sempre aquilo que ele quiser que
nós sejamos.
- A padralhada tem-te
doutrinado bem!
- Vós na cidade tornais-vos
blasfemos, incréus!
XVI
No vício
chafurdam alma e corpo
Se eu tivesse um caráter violento poderia,
perante uma situação destas, tomar uma atitude agressiva. Mas não, lamento-me,
desfaço-me em lágrimas, imploro, interrogo-me: porquê este sofrimento?! Já sei
que muitos leitores opinarão que eu deveria ter deixado há muito a casa da
minha mãe, ir para a cidade, para o estrangeiro, sei lá. Eu tentei emigrar, mas
não consegui o dinheiro necessário, dez contos de réis, quantia astronómica
para o meu magro bolso; dentro de pouco tempo irei para a tropa, lá abrirei os
olhos, pelo menos assim o espero. Bem, mas isso é outra história. Ouçam esta
conversa e tirem dela as ilações convenientes:
- Olha que a neta da
Cidália, a Bera, bem te quer, canté, o meu filho, sou bêbada, isso sim, mas não
sou ladra, canté, se eu lhe dava o meu filho, canté, tens vergonha da tua mãe,
olha que as outras bebem-lhe bem, mas metem-se em casa, os coirões, passam por
senhoras, as putonas, que eu bem sei quem elas são, canté, se sei, badalhocas,
metem-nos em casa às escondidas, são dois garrafões todos os dias, até acordam
para beber, e eu é que sou a borracha, coirões, sem vergonha, que me chamem a
mim bêbada, eu é que sei, depois passam por senhoras, porcas, bebem mais do que
eu, sou borracha mas sou livre, não ponho os cornos ao meu marido, esses
coirões, metem-nos em casa, um há dias até pela capoeira entrou, e os cornudos
não sabem, eu é que lhas canto… A Georgina, quando tinha a pensão, até a filha
Eulália vendeu a um caixeiro-viajante, vê lá tu, uma rapariga com apenas quinze
anos de idade, meteu-a na cama com ele, um homem casado, depois ele foi
obrigado a dar aos pais dela vinte contos de réis, nesse tempo era uma pequena
fortuna. Que gente! Gastaram-no depressa, só luxos, e eu é que sou isto e
aquilo, eu nunca faria uma coisa dessas, minha rica filha.
- Só sabe dizer mal das
outras mulheres, se cuidasse da sua vida, se tivesse juízo, tino, se
respeitasse os seus filhos e a sociedade, mas não, cada dia que passa se
abandalha mais, afocinha na lama até não mais se poder levantar, só vive para a
vinhaça, eu não sei se vou aguentar esta vida por muito mais tempo, são quase
dez horas da noite, ainda não ceei, vou para a cama sem comer, fartinho de
trabalhar, das oito da manhã às oito da noite, jantei à pressa, tenho tanto
calçado para entregar, não sei o que vou fazer à minha vida, apetecia-me fugir
daqui, deixá-la entregue ao seu destino, já sei que passado algum tempo
davam-me a notícia da sua morte, é uma desgraçada e faz-me a mim desgraçado, os
meus irmãos foram-se embora, eu é que tenho de aguentar este maldito viver,
este martírio, este suplício sem fim.
- Borrachas, canté,
queriam o meu Candinho, eu dou-lhes o arroz, uma até quer que a tratem por
dona, canté, dona do que é dela, borracha, mas não sai à rua, emborracha-se em
casa, eu conheço-a bem, querem passar por gente fina, nasceram tão pobres como
eu.
*
- Já se sente melhor?
- Ontem foi de mais,
que carraspana, foi na casa da Adosinda, estive a ajudá-la a preparar o fumeiro
e depois pôs-me vinho à vontade, estava cheia de sede, comer não comi quase
nada. Eu sei que podia beber água, mas não gosto, faz-me criar rãs no estômago.
- Então ouça com
atenção: peço-lhe pela alma dos seus pais e dos seus irmãos, pelo que tiver de
mais sagrado, que não volte às aldeias, eu já ganho umas moedas, as
engraxadelas também vão dando uns patacos, as coisas estão a correr bem,
esfalfo-me, é certo, mas vale a pena, prometa-me que não vai mais para as
aldeias.
- Não posso dizer se
serei capaz de lá não ir, são muitos anos, conheço aquela gente toda, precisam
de mim para lhes cozinhar, para as vindimas, para as esfolhadas, para preparar
o fumeiro, para tudo, eu sou assim, tenho pena daquela gente, se eu não for
vêm-me buscar, olha se eu não aparecesse, amanhã já mandavam recado, eu vou ver
se lá vou menos vezes, se não bebo tanto, não sei se me controlarei, tu daqui a
três anos assentas praça, depois casas-te, a tua mulher já te fará o comer,
agora eu sempre aqui fechada, sentia-me prisioneira, infeliz, sei que tens
vergonha de mim, mas isto é superior às minhas forças, é o meu destino, cada
qual tem o seu, e não o podemos mudar.
- Como é que me vou
casar se fujo das raparigas, fiz dezassete anos de idade, sou um homenzinho,
tenho vergonha, não quero que elas se riam na minha cara, ainda há dias uma se
riu às gargalhadas quando você caiu ali na rua; não repara no pai dela, que é
um borracho igual ou pior do que você, basta beber um copo de vinho e já fica
bêbado, já não deve ter fígado, há quem diga que tem uma cirrose, anda sempre a
cair de bêbado, qualquer dia fica estendido no caminho, mas a filha riu-se à
gargalhada, senti imensa vergonha e raiva. É verdade que a Bera gosta de mim,
eu também simpatizo com ela, mas só tem catorze anos de idade, é uma menina,
você tem de se emendar, não pode continuar assim, que raio, faça isso por si e
pelos seus filhos, pela família; os meus irmãos nem vêm passar aqui as férias,
coitados, da última vez que cá vieram ficou-lhes de emenda, juraram para nunca
mais, ficaram com a alma penalizada. Eu que aguente, sou o mais novo, mas não
sou nenhum mártir para sofrer tanto, você tem de mudar os seus hábitos.
- «Burro velho não aprende línguas nem tem emenda.» Não é com esta
idade que vou alterar a minha maneira de viver, posso tentar, mas acabarei
sempre por cair no mesmo, a tentação é demasiado grande.
- Disseram-me que há um
medicamento na farmácia que acaba com esse vício, se quiser vou comprá-lo.
- Remédios da botica!
Toma-os tu. Ainda me matavam, canté, medicamentos nem morta, nunca os tomei,
não sou doente, o que tu queres é ver-me defunta.
- Que vantagens,
diga-me, teria eu, seu filho, com a sua morte?!
- Vias-te livre de mim,
da peçonha…
XVII
Entre dois
fogos beijei a sereia
Estas discussões entre mim e a minha mãe
deixam-me sempre desolado. Se pudessem acabar… Agora, aproveitando o facto de
ele estar de férias, vou contar ao meu irmão cenas de terror, acontecimentos
que me apavoraram, que me deixaram marcas para toda a vida. Ouçam:
- Tinha eu dez anos, tu
acabaras de partir para a capital do país. Sentado à mesa, pés descalços,
esmagando com os pés pedras gigantescas de sal, encontrava-se o tendeiro:
velho, bruxo e feiticeiro, capaz de quebrar nozes com uma só mão! Gritava como
um possesso, pedindo aos maus espíritos, em altos berros, que se afastassem
dele e daquela casa: «ide-vos, aqui não
sois bem-vindos, ide para as profundezas do inferno, de onde nunca devíeis ter
saído, ide para o mar coalhado, profundo, deixai esta casa e esta gente.»
Eu chorava baixinho, tremia de frio e de medo. A mamã, disforme, espumava pela
boca e de repente desatava aos gritos. Da sua garganta libertava-se uma voz
rouca, áspera, que dizia: «não quero sair
daqui, não quero.» Em seguida rebolava-se no chão da sala e as janelas
abriam-se de par em par, agitadas por um vento estranho e violento. As meias
portas batiam uma contra a outra com um estrondo medonho. Eu chorava, tinha
vontade de sair para a rua, mas não podia, mão poderosa e cruel retinha-me ali,
obrigava-me a assistir àquela dantesca cena. As cortinas da janela rasgaram-se
em pedacinhos e voavam como pequenas aves. Depois o silêncio. O bruxo ficou com
a cabeça deitada sobre a retangular mesa de pinho, cabelo desgrenhado, exausto,
e a mamã estendida desajeitadamente no soalho da sala, desfigurada, com as
pernas e parte da barriga à mostra. Desde que aquele homem-diabo tinha entrado
em nossa casa estas cenas de espiritismo e feitiçarias repetiam-se com pontual
regularidade. Falava constantemente no livro de São Cipriano, que eu nunca vi
nem li, antes de ser santo teve um pacto com o demónio, segundo consta, dizia que
o tal livro continha segredos de tesouros escondidos, contou-nos que tinha ido
uma vez ao monte de Santiago, aí estava, segundo ele dizia, enterrado um grande
tesouro, joias, moedas em ouro, que levariam muitos meses a contar! Foi com ele
uma mulher de corpo aberto, uma espírita, e um homem com uma enxada e uma
picareta para desenterrar o fabuloso tesouro (talvez, quem sabe, daquele tempo em que
sarracenos andaram pela Península Ibérica; aquando das investidas cristãs
enterravam as joias junto às árvores para mais tarde, quando tudo acalmasse, as
virem recuperar; por vezes alguns deles morriam e as preciosidades ficavam ali
a aguardar que alguém as descobrisse).
Esperaram
que o sino da torre batesse as doze badaladas da meia-noite e começaram a
escavar. De repente o céu ficou de várias cores, predominando a cor do enxofre
a arder, os raios desenhavam figuras geométricas esquisitas, as faíscas eram
tantas que pareciam capazes de incendiar todas as florestas do mundo. A mulher
gritava como uma doida, parecia ter no seu peito todos os espíritos malignos da
galáxia, espumava pela boca, os olhos saíam-lhe das órbitras, inchava como um sapo
quando lhe dão a fumar um cigarro. O homem da enxada desatou a fugir pelo
monte, todo borrado, o pânico apoderou-se dele, a mulher não aguenta a emoção e
tomba desfalecida, com aspeto de morta. O velho feiticeiro, sozinho no meio
daquele cenário sobrenatural, naquele palco de terror, capaz de arrasar os
nervos aos mais valentes, abandona o local, o tesouro, fugindo a sete pés! No
dia seguinte iria buscar o que ali deixara.
Levantou-se manhã cedo, dirigiu-se ao
sítio onde o presumível tesouro estaria escondido e ficou boquiaberto, pois
estava tudo como quando lá chegara no dia anterior. Nem enxada, nem picareta,
nem o buraco escavado, nem mulher, zero, absolutamente zero! Dava a impressão
de que ali nada tinha acontecido. Pensou que se enganara, percorreu aqueles
espaços circundantes, nadinha! Parecia um sonho. Resolveu ir ter com o homem da
enxada: «ó tio Hipólito, então aquilo de
ontem à noite assustou-o a valer.» O camponês olhou para o bruxo com temor,
espelhado naqueles olhos pequenos e manhosos, e disse-lhe: «não me fale nisso, senhor Acúrsio, olhe que
cheguei a casa em cinco minutos, e ainda era caminho para bem meia hora; voei
como as aves!» «Vossemecê borrou-se
todo, homem!» «Pudera! Aquilo
assustava o mais destemido, não me convide para outra, vá o senhor Acúrsio
sozinho, já está habituado a essas coisas da bruxaria.»
O feiticeiro dirigiu-se depois a casa da «médium»,
veio esta abrir-lhe a porta, olhando-o com azedume: «ó senhor Acúrsio, ia-ma arranjando bonita, por um triz não fui desta
para melhor, aquilo é dose excessiva para o meu corpo, fique sabendo que fui
transportada pelos ares até à minha porta. Fui, fui! Aquilo não está ao nosso
alcance, deixe lá o tesouro, está muitíssimo bem guardado, o São Cipriano fez
um bom trabalho, ninguém o tira dali, a não ser que ele assim o queira.» «Vossemecês são uns cobardes, aquilo que
viram é só fogo-de-vistas, é só para assustar, se não fugissem hoje estávamos
todos ricos, nem saberíamos o que fazer a tanta moeda de ouro.» «Está bem, está! O mais certo era estarmos
todos mortos, a caminho do cemitério, com espíritos daqueles jaez não se brinca.»
Contava também histórias de ciganos,
vendiam burros velhos por novos, davam aos porcos uma determinada erva, depois
de ingerida acabavam por morrer, e então eles depois iam desenterrá-los e
comiam-nos; os guardas prendiam-nos, mas eles terminavam sempre por se livrar
das acusações; certa vez, não tendo nenhuma espécie de alimento, comeram a sua
avó velha: «ai, mi abuela, mi abuela»,
gritava desesperada a pequenita Carmen, que adorava a sua avozinha. Histórias! Certa
altura, um cigano novo roubou qualquer coisa a um lavrador e este acusou-o; a Guarda
Nacional Republica prendeu-o, mas como era menor tiveram de chamar o pai dele.
Então este virou-se para o ciganito e pediu-lhe: «fala a verdade Zé-Nega, diz tudo que sabes a estes senhores.» O
rapaz, de imediato, replica: «meu pai,
ainda aquela porta vá e venha se eu não estou dizendo a verdade.» Os
guardas presentes, desconfiados, de pé atrás com a astúcia daqueles melros,
ainda contrapuseram: «mas você está a
pedir-lhe para ele negar!» «Nada
disso! É mesmo o nome do catraio.»
A mamã chafurdava na bebida, vinho e
bagaço; dizia-se possuída de espíritos de pessoas que tinham morrido. A noite
era para mim um calvário, aquela luz elétrica de 110 volts, cor amarelada, mal
alumiava a casa (depois do feiticeiro sair deixou de se pagar e foi cortada pela
empresa que a fornecia), as sombras dos móveis pareciam bailar a
dança macabra dos mortos! Saía da escola primária a meio da tarde, ia jogar a
bola com os colegas, à tardinha voltava para casa com o coração apertadinho, a
assobiar, tentando desesperadamente distrair o espírito. A ceia podia decorrer
sob o signo do terror, ou cenas de álcool, nunca decorria sob o signo da
concórdia. Certo dia, levanto-me, como habitualmente, manhã cedo, cantavam os
galos na capoeira, e vou caçar com as ratoeiras de madeira alguns pardais.
- Eu é que as deixei
ficar quando fui para Lisboa.
- É verdade, já o
esquecera. Tinha sido dia de feira na véspera e no chão ficavam sempre restos:
grãos-de-milho, grãos de centeio, etc. Armei as ratoeiras, e ao fim de uma hora
já apanhara onze pardais. Pedi à minha mãe que os cozinhasse para a ceia, onze
já davam uma boa arrozada, ela quando queria cozinhava divinalmente, ia ser um
verdadeiro petisco. Porém, eu não contava com a gulodice do velho bruxo; quando
regressei das minhas brincadeiras (nesse dia demorei mais do o costume, o jogo
tinha-se prolongado, teríamos de encontrar um vencedor, estava mesmo renhido)
uma incrível surpresa me esperava: a besta-fera tinha comido quase todos os
pardais, nem os ossos se aproveitavam! Fiquei, como calculas, irritadíssimo,
não quis cear nessa noite, tanto trabalho, tanto entusiasmo, para encher a
pança àquele labrego, àquele barrigudo guloso. Ainda bem que a mamã se zangou
com ele, ficámos mais mirrados de bens, mas mais livres, mais independentes,
sem bruxedos, pensava eu; no entanto, ela herdou essa perigosa arte,
continuando a queimar ervas nos cruzamentos, a esconjurar os espíritos malignos
com sal e estranhas rezas, a berrar e a espumar pela boca como cão rafeiro, a
levar-me àqueles terríveis e enfadonhos velórios. Afogava-se em vinho e em
bagaço, embirrava com toda a gente, espiava, através das cortinas já rotas e
sujas, a casa dos vizinhos, sobretudo a da que botava as cartas, a fim de
descobrir segredos de alcova que depois revelava com pormenores delirantes. As
suas amizades eram as pessoas rudes dos campos, as raparigas namoradeiras que
procuravam nela a alcoviteira, a recadeira barata e inócua, pois tudo o que ela
revelasse já ninguém acreditava, não tinham crédito as suas palavras, começou a
arranjar moças novas para o ricaço da terra, o Atílio, em troca recebia umas
sujas e magras moedas de níquel.
- E pensava eu que
tinhas ficado na melhor, caramba, sofreste para raio! Eu, apesar de ter
trabalhado que nem um mouro, não assisti, felizmente, a essas diabólicas cenas;
mas também te digo uma coisa: comigo eles não faziam farinha, acabava-lhes
depressa com essas histórias de espíritos e bruxarias, que fosse fazer
feitiçarias para a terra dele, caramba, ia ele, ia tudo, pela porta fora, ali
em casa é que eu não consentia que o bandido fizesse essas coisas.
- Isso dizes tu agora,
queria ver-te lá, no meio daquela gente desfigurada, eu nem reconhecia a mamã,
parecia outra, e então com aquela voz que não era a dela, era voz de homem mau,
roufenha, assustava qualquer um, ainda hoje tremo só de me lembrar, na altura
já nem sabia se era melhor estar em casa ou fora dela, a luz elétrica ia-se
abaixo de vez em quando, era fornecida pelos espanhóis, fraca e incerta, quando
se apagavam as lâmpadas só via fantasmas à minha volta, se ao menos tu
estivesses em casa, os dois sempre seria melhor.
- É preciso tê-los no
sítio, tu sempre foste um medricas, se tivesses ido, como eu fui, alta noite,
por esses montes fora, com treze anos de idade apenas, os lobos a uivar, eu
carregado com os alimentos para a semana, mijavas-te todo, pedias a todos os
santinhos que te socorressem; eu ia afoito, a cantarolar, como se nada fosse
comigo. Na maior parte das vezes levava por companhia o “Cabras”, mas semanas
houve que não quis, ou não pôde ir, não compareceu, disse-me mais tarde que
esteve doente, o que o tipo não queria era dar o corpo ao manifesto, que aquilo
era a doer. E então, quando caía neve, nem queiras saber, os pés enterravam-se,
mais de um metro de altura, os trabalhos tinham de ser interrompidos, não se
podiam plantar os pinheiros com a neve a cair, ficávamos completamente isolados
e impotentes.
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