quarta-feira, 7 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XV

 

Em busca do pai perdi o meu rasto

 

 

     Mais uma vez eu e o meu irmão travávamos uma conversa animada e descontraída; recordávamos tempos passados, revivíamos os momentos mais marcantes da nossa infância. Se puderem venham ouvir esse interessante diálogo:

 

- Então o nosso pai foi para as bandas da Galiza e nunca mais nos veio ver?!

- Isso é o que a mamã diz: eu, concretamente não sei para onde raio ele foi. Quanto a visitar-nos, pode ser que tenha ido alguma vez a Cendre, que nos tenha visto de longe, que eu me lembre de ele ter vindo ter connosco isso não, eu era tão pequenino quando ele se foi embora que se o visse na rua não o reconhecia, provavelmente nunca mais se lembrou de nós, esqueceu-se que nós existíamos!

- Achas que ele tem mais filhos?

- A estrangeira era uma mulher nova, ele também, o mais certo é terem geração. Se a tiverem, se existir algum nosso irmão, eles nem sequer sabem da nossa existência, não lhes devem ter contado nada, para eles nós representamos apenas um episódio sem importância, um grão de areia no deserto, uma gota de água no imenso oceano, nem isso!

- Gostava de o conhecer, e aos irmãos de lá, não gostavas de falar com eles, dizer-lhes que somos filhos do mesmo pai, que podemos ser amigos?

- Eu não, não sou lírico como tu, a mim não me dizem nada, não os conheço, nem sequer sei se nasceram, o que é que ganhava com isso, o mais certo era virem-me pedir ajuda, podem ser uns pelintras, uns tesos, que se desenrasquem, eu também nunca lhes pedi nada, sabes como tenho mourejado, catorze e mais horas por dia, não venhas com essa, qual é o teu interesse em conhecê-los, se calhar davam-te alguma coisa, nem sonhes com isso, ninguém dá nada, o tipo se quisesse já nos tinha contactado, o malandro fez de conta que não foi nada com ele; andou metido com a tua mãe, fez-lhe dois fedelhos, e pôs-se a andar nas calmas, pisgou-se; também, com a idade dela, o que é que a tola esperava, casar?! Só se ele fosse parvo, um rapaz daquela idade ia ligar-se para sempre a uma mulher de trinta e tal anos de idade e mãe de vários filhos, só se fosse estúpido, burrinho de todo, eu teria feito o mesmo, quanto mais longe dela melhor.

- Não me digas que terias coragem, fígados, para deixar uma mulher com duas crianças, uma de meses e outra de três anos de idade, não acredito que fosses capaz disso, não acredito, mesmo que afirmes o contrário.     

- Bem, não sei, mas o mais certo era não me meter com ela, metia-me com uma da minha idade, ou mais nova, ao menos casava e pronto, não ficava com remorsos, meus queridos anjos, eram do meu sangue, até parece que não tem coração, deixarem dois putos tão pequenos, inocentes, que culpa têm as crianças dos erros, das fraquezas dos pais?

- Ela deveria, como mais velha, ter tido mais juízo, pelo menos não emprenhar, mas se isso tivesse acontecido não estaríamos nós aqui, e olha que eu gosto de viver, apesar de não ter pai e ter uma mãe como a nossa.

- Tivemos azar, lá isso, tivemos. Há gente que nasce num bercinho de ouro, nós nascemos na palha, na pocilga, na imundície, na pobreza total, absoluta, ninguém nasceu mais pobre do que nós, sem nada, nem ninguém, pigmeus do mundo, crescemos sozinhos, ao deus dará, aos empurrões da fortuna, mas olha que não estamos pior do que alguns que nasceram em ricas camas, cheios de tudo, bom conforto, boa comida, roupa à fartança, não estamos, não, mas graças ao nosso esforço, não nos podemos queixar muito, outros estão bem pior, e olha que podíamos ter saído bêbados, ladrões, do piorio que há, mas não, felizmente saímos honestos, trabalhadores, todos nos respeitam e admiram, e alguns até inveja nos terão!

- Parece que a divina providência nos amparou, nos quis compensar de toda aquela miséria, daqueles anos de fome, de frio, de doenças, de falta de carinho, olha que a falta de carinho foi o que mais me custou, uns braços de pai, de avós, de uma mãe carinhosa e sorridente, mas não, nem avós, nem pai, com uma mãe a cheirar a sardinhas e a vinho entornado, até parece que foi castigo de Deus por algum mal que nós tenhamos feito antes de nascer, olha que eu não me lembro de ter feito mal fosse a quem fosse.

- Nós não fomos os únicos desgraçados, infelizmente houve muitos outros, alguns até foram abandonados pelos progenitores, nem sequer sabem quem são, eu até preferia ser um desses, ao menos não sabia quem eram, teria a ilusão de pensar que eram pessoas fidalgas, ricas, bem instaladas na vida, mas que não quiseram assumir o escândalo, uma aventura de jovens.

- O nosso avô Gaspar foi exposto, coitado, julgo que nunca soube quem foram seus pais, é muito triste, eu prefiro saber, não tenho culpa que os meus pais sejam quem são, não escolhi nascer deles, mas prefiro saber, se calhar até o teu pai não é o mesmo que o meu, eu gostava que fosse, seríamos irmãos inteiros, mas ele disse que não tinha a certeza, provavelmente a tua mãe andava com outro, com a bebida, não sei.

- O avô, coitado, ficou viúvo tinha eu cinco anos de idade, mal me lembro dele, morreu passado dois anos da morte da avó, em 1949, os desgostos mataram-no, ainda não era muito velho, só tinha setenta e dois anos de idade, a segunda guerra mundial deu cabo dos países, tudo racionado, muita miséria, carência de tudo, até havia falta de açúcar para fabricar os rebuçados e roscas.

- Quando faleceu a avó tinha eu três aninhos de idade, não me recordo nada dela, a mamã diz que ela sofreu muito, coitada, a tratar dos filhos, a criá-los, para depois os ver morrer, caíram como tordos, um a um, somente dois lhe sobreviveram, olha que custa; a vida para os pobres é sempre difícil. E para cúmulo da desgraça, as doenças, as mortes, o sofrimento! Os ricos gozam a vida, têm tudo, as doenças não os matam, têm bons médicos, podem comprar os medicamentos, vão para os melhores hospitais, até depois da morte são diferentes de nós: acompanhados aos cemitérios pelas irmandades, bombeiros, bons jazigos de família, missas de corpo presente, responsos; nós somos apenas acompanhados pelos humildes e a seguir enterrados em campa rasa, e ao fim de cinco anos atiram com outro corpo para cima dos nossos ossos e mais ninguém se lembrará da nossa passagem por este vale de lágrimas. Outro dia o senhor padre Alberto recusou-se acompanhar o funeral do marido da senhora Albina, alegando que ele não ia à missa, que era maçónico e ateu – eu nem sei bem o que isso é!

- E depois dizem que são representantes de Deus na terra! O Senhor com certeza não teria procedido dessa forma, as pessoas não são obrigadas a ir à missa; se o defunto pertencesse a essas famílias abastadas certamente ele não teria agido assim.

- Eu não gostava de ser milionário, isso não, mas também não queria ser um pobretana, estou cansado de o ser, contentava-me em ser remediado, não me importava de ser padre, têm uma vida boa, não pagam renda de casa, recebem a côngrua, alguns ainda são professores no Colégio, e agora já não ia para o exército, mas mesmo que eu quisesse não podia sê-lo.

- Não podias?!

- Somente os filhos nascidos no casamento católico são admitidos no Seminário.

- Desconhecia isso. Pulhas! Cada dia gosto menos deles. Que culpa têm as crianças de nascerem fora do matrimónio? Até Jesus nasceu! O pai dele não era São José, são os próprios padres a afirmá-lo, mas sim Deus, ou Jeová, como lhe chamam no oriente.

- Os padres não são os culpados, não foram eles que fizeram essa absurda lei. Julgo que foram os cardeais, ou os bispos, a pedido do Papa, talvez para proteger a Igreja Católica dos malnascidos. Por outro lado, o que disseste acerca de Jesus, atenção, isso é diferente: Deus é Pai e Senhor de toda a Humanidade e de todas as criaturas que existem e que porventura venham a existir no universo, não se pode confundir a divindade, o Ser Supremo, com um humilde ser humano. Jesus veio ao nosso planeta enviado pelo seu pai para nos salvar, para nos livrar da tentação. Escolheu Maria e o seu lar porque achou que aí Jesus teria as condições ideais para crescer em harmonia e virtude. Não confundas as coisas. Nós somos apenas criaturas de Deus e seremos sempre aquilo que ele quiser que nós sejamos.

- A padralhada tem-te doutrinado bem!

- Vós na cidade tornais-vos blasfemos, incréus!    

  

XVI

 

No vício chafurdam alma e corpo

 

     Se eu tivesse um caráter violento poderia, perante uma situação destas, tomar uma atitude agressiva. Mas não, lamento-me, desfaço-me em lágrimas, imploro, interrogo-me: porquê este sofrimento?! Já sei que muitos leitores opinarão que eu deveria ter deixado há muito a casa da minha mãe, ir para a cidade, para o estrangeiro, sei lá. Eu tentei emigrar, mas não consegui o dinheiro necessário, dez contos de réis, quantia astronómica para o meu magro bolso; dentro de pouco tempo irei para a tropa, lá abrirei os olhos, pelo menos assim o espero. Bem, mas isso é outra história. Ouçam esta conversa e tirem dela as ilações convenientes:

 - Vem da aldeia a esta hora? E bêbeda como um cacho! Que lástima! A cambalear como um borracho! Qualquer dia fica pelo caminho, atolada em algum barranco, sem que ninguém saiba onde se encontra para a socorrer, maldita vida esta, que mal eu fiz para ter uma mãe assim, valia mais não ter nascido, ou então ter morrido quando vim a este mundo, não sofria tanto, pode crer, não passaria por tantas vergonhas, tantos vexames, para que quero eu esse vinho, esses chouriços, não quero nada disso, vai tudo para a retrete, para o entulho, para o lixo, eu não quero nada disso, borrachona, borrachona é o que você é, tanto lhe tenho pedido, deixe as aldeias, fique em casa, faça-me o comer, trate-me da roupa, eu ganho para os dois, não precisa de nada, dessas coisas, de levar essa vida desleixada, mata-me de vergonha, já não vou aos bailes, ao cinema só vou à noite, escondo-me, tenho vergonha, as raparigas não me querem, nem em mim reparam.

- Olha que a neta da Cidália, a Bera, bem te quer, canté, o meu filho, sou bêbada, isso sim, mas não sou ladra, canté, se eu lhe dava o meu filho, canté, tens vergonha da tua mãe, olha que as outras bebem-lhe bem, mas metem-se em casa, os coirões, passam por senhoras, as putonas, que eu bem sei quem elas são, canté, se sei, badalhocas, metem-nos em casa às escondidas, são dois garrafões todos os dias, até acordam para beber, e eu é que sou a borracha, coirões, sem vergonha, que me chamem a mim bêbada, eu é que sei, depois passam por senhoras, porcas, bebem mais do que eu, sou borracha mas sou livre, não ponho os cornos ao meu marido, esses coirões, metem-nos em casa, um há dias até pela capoeira entrou, e os cornudos não sabem, eu é que lhas canto… A Georgina, quando tinha a pensão, até a filha Eulália vendeu a um caixeiro-viajante, vê lá tu, uma rapariga com apenas quinze anos de idade, meteu-a na cama com ele, um homem casado, depois ele foi obrigado a dar aos pais dela vinte contos de réis, nesse tempo era uma pequena fortuna. Que gente! Gastaram-no depressa, só luxos, e eu é que sou isto e aquilo, eu nunca faria uma coisa dessas, minha rica filha.

- Só sabe dizer mal das outras mulheres, se cuidasse da sua vida, se tivesse juízo, tino, se respeitasse os seus filhos e a sociedade, mas não, cada dia que passa se abandalha mais, afocinha na lama até não mais se poder levantar, só vive para a vinhaça, eu não sei se vou aguentar esta vida por muito mais tempo, são quase dez horas da noite, ainda não ceei, vou para a cama sem comer, fartinho de trabalhar, das oito da manhã às oito da noite, jantei à pressa, tenho tanto calçado para entregar, não sei o que vou fazer à minha vida, apetecia-me fugir daqui, deixá-la entregue ao seu destino, já sei que passado algum tempo davam-me a notícia da sua morte, é uma desgraçada e faz-me a mim desgraçado, os meus irmãos foram-se embora, eu é que tenho de aguentar este maldito viver, este martírio, este suplício sem fim.

- Borrachas, canté, queriam o meu Candinho, eu dou-lhes o arroz, uma até quer que a tratem por dona, canté, dona do que é dela, borracha, mas não sai à rua, emborracha-se em casa, eu conheço-a bem, querem passar por gente fina, nasceram tão pobres como eu.

 

*

 

- Já se sente melhor?

- Ontem foi de mais, que carraspana, foi na casa da Adosinda, estive a ajudá-la a preparar o fumeiro e depois pôs-me vinho à vontade, estava cheia de sede, comer não comi quase nada. Eu sei que podia beber água, mas não gosto, faz-me criar rãs no estômago.

- Então ouça com atenção: peço-lhe pela alma dos seus pais e dos seus irmãos, pelo que tiver de mais sagrado, que não volte às aldeias, eu já ganho umas moedas, as engraxadelas também vão dando uns patacos, as coisas estão a correr bem, esfalfo-me, é certo, mas vale a pena, prometa-me que não vai mais para as aldeias.

- Não posso dizer se serei capaz de lá não ir, são muitos anos, conheço aquela gente toda, precisam de mim para lhes cozinhar, para as vindimas, para as esfolhadas, para preparar o fumeiro, para tudo, eu sou assim, tenho pena daquela gente, se eu não for vêm-me buscar, olha se eu não aparecesse, amanhã já mandavam recado, eu vou ver se lá vou menos vezes, se não bebo tanto, não sei se me controlarei, tu daqui a três anos assentas praça, depois casas-te, a tua mulher já te fará o comer, agora eu sempre aqui fechada, sentia-me prisioneira, infeliz, sei que tens vergonha de mim, mas isto é superior às minhas forças, é o meu destino, cada qual tem o seu, e não o podemos mudar.

- Como é que me vou casar se fujo das raparigas, fiz dezassete anos de idade, sou um homenzinho, tenho vergonha, não quero que elas se riam na minha cara, ainda há dias uma se riu às gargalhadas quando você caiu ali na rua; não repara no pai dela, que é um borracho igual ou pior do que você, basta beber um copo de vinho e já fica bêbado, já não deve ter fígado, há quem diga que tem uma cirrose, anda sempre a cair de bêbado, qualquer dia fica estendido no caminho, mas a filha riu-se à gargalhada, senti imensa vergonha e raiva. É verdade que a Bera gosta de mim, eu também simpatizo com ela, mas só tem catorze anos de idade, é uma menina, você tem de se emendar, não pode continuar assim, que raio, faça isso por si e pelos seus filhos, pela família; os meus irmãos nem vêm passar aqui as férias, coitados, da última vez que cá vieram ficou-lhes de emenda, juraram para nunca mais, ficaram com a alma penalizada. Eu que aguente, sou o mais novo, mas não sou nenhum mártir para sofrer tanto, você tem de mudar os seus hábitos.

- «Burro velho não aprende línguas nem tem emenda.» Não é com esta idade que vou alterar a minha maneira de viver, posso tentar, mas acabarei sempre por cair no mesmo, a tentação é demasiado grande.         

- Disseram-me que há um medicamento na farmácia que acaba com esse vício, se quiser vou comprá-lo.

- Remédios da botica! Toma-os tu. Ainda me matavam, canté, medicamentos nem morta, nunca os tomei, não sou doente, o que tu queres é ver-me defunta.

- Que vantagens, diga-me, teria eu, seu filho, com a sua morte?!

- Vias-te livre de mim, da peçonha…

     

XVII

 

Entre dois fogos beijei a sereia

 

     Estas discussões entre mim e a minha mãe deixam-me sempre desolado. Se pudessem acabar… Agora, aproveitando o facto de ele estar de férias, vou contar ao meu irmão cenas de terror, acontecimentos que me apavoraram, que me deixaram marcas para toda a vida. Ouçam:

 

- Tinha eu dez anos, tu acabaras de partir para a capital do país. Sentado à mesa, pés descalços, esmagando com os pés pedras gigantescas de sal, encontrava-se o tendeiro: velho, bruxo e feiticeiro, capaz de quebrar nozes com uma só mão! Gritava como um possesso, pedindo aos maus espíritos, em altos berros, que se afastassem dele e daquela casa: «ide-vos, aqui não sois bem-vindos, ide para as profundezas do inferno, de onde nunca devíeis ter saído, ide para o mar coalhado, profundo, deixai esta casa e esta gente.» Eu chorava baixinho, tremia de frio e de medo. A mamã, disforme, espumava pela boca e de repente desatava aos gritos. Da sua garganta libertava-se uma voz rouca, áspera, que dizia: «não quero sair daqui, não quero.» Em seguida rebolava-se no chão da sala e as janelas abriam-se de par em par, agitadas por um vento estranho e violento. As meias portas batiam uma contra a outra com um estrondo medonho. Eu chorava, tinha vontade de sair para a rua, mas não podia, mão poderosa e cruel retinha-me ali, obrigava-me a assistir àquela dantesca cena. As cortinas da janela rasgaram-se em pedacinhos e voavam como pequenas aves. Depois o silêncio. O bruxo ficou com a cabeça deitada sobre a retangular mesa de pinho, cabelo desgrenhado, exausto, e a mamã estendida desajeitadamente no soalho da sala, desfigurada, com as pernas e parte da barriga à mostra. Desde que aquele homem-diabo tinha entrado em nossa casa estas cenas de espiritismo e feitiçarias repetiam-se com pontual regularidade. Falava constantemente no livro de São Cipriano, que eu nunca vi nem li, antes de ser santo teve um pacto com o demónio, segundo consta, dizia que o tal livro continha segredos de tesouros escondidos, contou-nos que tinha ido uma vez ao monte de Santiago, aí estava, segundo ele dizia, enterrado um grande tesouro, joias, moedas em ouro, que levariam muitos meses a contar! Foi com ele uma mulher de corpo aberto, uma espírita, e um homem com uma enxada e uma picareta para desenterrar o fabuloso tesouro (talvez, quem sabe, daquele tempo em que sarracenos andaram pela Península Ibérica; aquando das investidas cristãs enterravam as joias junto às árvores para mais tarde, quando tudo acalmasse, as virem recuperar; por vezes alguns deles morriam e as preciosidades ficavam ali a aguardar que alguém as descobrisse).

     Esperaram que o sino da torre batesse as doze badaladas da meia-noite e começaram a escavar. De repente o céu ficou de várias cores, predominando a cor do enxofre a arder, os raios desenhavam figuras geométricas esquisitas, as faíscas eram tantas que pareciam capazes de incendiar todas as florestas do mundo. A mulher gritava como uma doida, parecia ter no seu peito todos os espíritos malignos da galáxia, espumava pela boca, os olhos saíam-lhe das órbitras, inchava como um sapo quando lhe dão a fumar um cigarro. O homem da enxada desatou a fugir pelo monte, todo borrado, o pânico apoderou-se dele, a mulher não aguenta a emoção e tomba desfalecida, com aspeto de morta. O velho feiticeiro, sozinho no meio daquele cenário sobrenatural, naquele palco de terror, capaz de arrasar os nervos aos mais valentes, abandona o local, o tesouro, fugindo a sete pés! No dia seguinte iria buscar o que ali deixara.

     Levantou-se manhã cedo, dirigiu-se ao sítio onde o presumível tesouro estaria escondido e ficou boquiaberto, pois estava tudo como quando lá chegara no dia anterior. Nem enxada, nem picareta, nem o buraco escavado, nem mulher, zero, absolutamente zero! Dava a impressão de que ali nada tinha acontecido. Pensou que se enganara, percorreu aqueles espaços circundantes, nadinha! Parecia um sonho. Resolveu ir ter com o homem da enxada: «ó tio Hipólito, então aquilo de ontem à noite assustou-o a valer.» O camponês olhou para o bruxo com temor, espelhado naqueles olhos pequenos e manhosos, e disse-lhe: «não me fale nisso, senhor Acúrsio, olhe que cheguei a casa em cinco minutos, e ainda era caminho para bem meia hora; voei como as aves!» «Vossemecê borrou-se todo, homem!» «Pudera! Aquilo assustava o mais destemido, não me convide para outra, vá o senhor Acúrsio sozinho, já está habituado a essas coisas da bruxaria.»

     O feiticeiro dirigiu-se depois a casa da «médium», veio esta abrir-lhe a porta, olhando-o com azedume: «ó senhor Acúrsio, ia-ma arranjando bonita, por um triz não fui desta para melhor, aquilo é dose excessiva para o meu corpo, fique sabendo que fui transportada pelos ares até à minha porta. Fui, fui! Aquilo não está ao nosso alcance, deixe lá o tesouro, está muitíssimo bem guardado, o São Cipriano fez um bom trabalho, ninguém o tira dali, a não ser que ele assim o queira.» «Vossemecês são uns cobardes, aquilo que viram é só fogo-de-vistas, é só para assustar, se não fugissem hoje estávamos todos ricos, nem saberíamos o que fazer a tanta moeda de ouro.» «Está bem, está! O mais certo era estarmos todos mortos, a caminho do cemitério, com espíritos daqueles jaez não se brinca.»

     Contava também histórias de ciganos, vendiam burros velhos por novos, davam aos porcos uma determinada erva, depois de ingerida acabavam por morrer, e então eles depois iam desenterrá-los e comiam-nos; os guardas prendiam-nos, mas eles terminavam sempre por se livrar das acusações; certa vez, não tendo nenhuma espécie de alimento, comeram a sua avó velha: «ai, mi abuela, mi abuela», gritava desesperada a pequenita Carmen, que adorava a sua avozinha. Histórias! Certa altura, um cigano novo roubou qualquer coisa a um lavrador e este acusou-o; a Guarda Nacional Republica prendeu-o, mas como era menor tiveram de chamar o pai dele. Então este virou-se para o ciganito e pediu-lhe: «fala a verdade Zé-Nega, diz tudo que sabes a estes senhores.» O rapaz, de imediato, replica: «meu pai, ainda aquela porta vá e venha se eu não estou dizendo a verdade.» Os guardas presentes, desconfiados, de pé atrás com a astúcia daqueles melros, ainda contrapuseram: «mas você está a pedir-lhe para ele negar!» «Nada disso! É mesmo o nome do catraio.»

     A mamã chafurdava na bebida, vinho e bagaço; dizia-se possuída de espíritos de pessoas que tinham morrido. A noite era para mim um calvário, aquela luz elétrica de 110 volts, cor amarelada, mal alumiava a casa (depois do feiticeiro sair deixou de se pagar e foi cortada pela empresa que a fornecia), as sombras dos móveis pareciam bailar a dança macabra dos mortos! Saía da escola primária a meio da tarde, ia jogar a bola com os colegas, à tardinha voltava para casa com o coração apertadinho, a assobiar, tentando desesperadamente distrair o espírito. A ceia podia decorrer sob o signo do terror, ou cenas de álcool, nunca decorria sob o signo da concórdia. Certo dia, levanto-me, como habitualmente, manhã cedo, cantavam os galos na capoeira, e vou caçar com as ratoeiras de madeira alguns pardais.

- Eu é que as deixei ficar quando fui para Lisboa.

- É verdade, já o esquecera. Tinha sido dia de feira na véspera e no chão ficavam sempre restos: grãos-de-milho, grãos de centeio, etc. Armei as ratoeiras, e ao fim de uma hora já apanhara onze pardais. Pedi à minha mãe que os cozinhasse para a ceia, onze já davam uma boa arrozada, ela quando queria cozinhava divinalmente, ia ser um verdadeiro petisco. Porém, eu não contava com a gulodice do velho bruxo; quando regressei das minhas brincadeiras (nesse dia demorei mais do o costume, o jogo tinha-se prolongado, teríamos de encontrar um vencedor, estava mesmo renhido) uma incrível surpresa me esperava: a besta-fera tinha comido quase todos os pardais, nem os ossos se aproveitavam! Fiquei, como calculas, irritadíssimo, não quis cear nessa noite, tanto trabalho, tanto entusiasmo, para encher a pança àquele labrego, àquele barrigudo guloso. Ainda bem que a mamã se zangou com ele, ficámos mais mirrados de bens, mas mais livres, mais independentes, sem bruxedos, pensava eu; no entanto, ela herdou essa perigosa arte, continuando a queimar ervas nos cruzamentos, a esconjurar os espíritos malignos com sal e estranhas rezas, a berrar e a espumar pela boca como cão rafeiro, a levar-me àqueles terríveis e enfadonhos velórios. Afogava-se em vinho e em bagaço, embirrava com toda a gente, espiava, através das cortinas já rotas e sujas, a casa dos vizinhos, sobretudo a da que botava as cartas, a fim de descobrir segredos de alcova que depois revelava com pormenores delirantes. As suas amizades eram as pessoas rudes dos campos, as raparigas namoradeiras que procuravam nela a alcoviteira, a recadeira barata e inócua, pois tudo o que ela revelasse já ninguém acreditava, não tinham crédito as suas palavras, começou a arranjar moças novas para o ricaço da terra, o Atílio, em troca recebia umas sujas e magras moedas de níquel.

- E pensava eu que tinhas ficado na melhor, caramba, sofreste para raio! Eu, apesar de ter trabalhado que nem um mouro, não assisti, felizmente, a essas diabólicas cenas; mas também te digo uma coisa: comigo eles não faziam farinha, acabava-lhes depressa com essas histórias de espíritos e bruxarias, que fosse fazer feitiçarias para a terra dele, caramba, ia ele, ia tudo, pela porta fora, ali em casa é que eu não consentia que o bandido fizesse essas coisas.

- Isso dizes tu agora, queria ver-te lá, no meio daquela gente desfigurada, eu nem reconhecia a mamã, parecia outra, e então com aquela voz que não era a dela, era voz de homem mau, roufenha, assustava qualquer um, ainda hoje tremo só de me lembrar, na altura já nem sabia se era melhor estar em casa ou fora dela, a luz elétrica ia-se abaixo de vez em quando, era fornecida pelos espanhóis, fraca e incerta, quando se apagavam as lâmpadas só via fantasmas à minha volta, se ao menos tu estivesses em casa, os dois sempre seria melhor.

- É preciso tê-los no sítio, tu sempre foste um medricas, se tivesses ido, como eu fui, alta noite, por esses montes fora, com treze anos de idade apenas, os lobos a uivar, eu carregado com os alimentos para a semana, mijavas-te todo, pedias a todos os santinhos que te socorressem; eu ia afoito, a cantarolar, como se nada fosse comigo. Na maior parte das vezes levava por companhia o “Cabras”, mas semanas houve que não quis, ou não pôde ir, não compareceu, disse-me mais tarde que esteve doente, o que o tipo não queria era dar o corpo ao manifesto, que aquilo era a doer. E então, quando caía neve, nem queiras saber, os pés enterravam-se, mais de um metro de altura, os trabalhos tinham de ser interrompidos, não se podiam plantar os pinheiros com a neve a cair, ficávamos completamente isolados e impotentes.             

                 

 

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