sábado, 3 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



VI

 

     A curiosidade é como uma doença: umas vezes cura-se, outras vezes não!

 

     Estou novamente com o meu irmão na cavaqueira, relembrando tempos passados, bons e maus momentos, quase sempre maus, pois quem vive no limite da pobreza, desamparados, carentes de comida, de roupa, e até de carinhos, não tem com certeza momentos bons para relembrar. Ponham então o ouvido à escuta:

 

- Por que é que viemos para a Vila? Não seria melhor para nós morar em Cendre?

- Tu és um idiota, não estás a compreender. A nossa família é da Vila, só nascemos em Cendre porque a tua mãe estava lá, fora para esse lugar tratar uma idosa, sogra de um soldado da guarda-fiscal. Os nossos avós maternos eram da Vila e foi na Vila que lhe nasceram todos os filhos, só que a tua mãe precisou procurar emprego e teve de arranjá-lo em Tronços, depois foi para São Bernardo, lá conheceu o Olavo Meliças, nosso pai, e por lá ficou, quando ele se pôs a mexer para a Galiza, com a tal galega, a tua mãe ficou desesperada, começou a beber, a emborrachar-se, e já nem dinheiro tinha para pagar a renda da casa; então o dono, o senhor Silva, às tantas disse-lhe para ficar de graça, não teve coragem de a pôr na rua com dois filhitos de tenra idade, teve bom coração, mas também a casa não valia dez réis, quem é que quereria ali habitar? Agora já nem telhado tem, só possuía uma divisão com pouco mais de vinte metros quadrados de área! Depois de tu nasceres ainda lá estivemos cerca de seis anos, depois fomos os três para a Vila, tínhamos direito a metade da casa, os avós já tinham morrido e a tua mãe era dona de metade. Ficámos nos baixos, em cima morava o tio Aurélio com a mulher, a Gertrudes, e a filharada, ele era barbeiro, mas as coisas não estavam a correr bem, estava-se a passar por uma grave crise e então resolveram ir para Lisboa, os dois filhos mais velhos, a Tânia e o Adolfo, já lá estavam. Acho que foram para os arredores, havia lá conterrâneos, julgo que os meteram em casa, claro que lhes pagavam parte da renda, mas assim já ficava mais barato a todos.

- Olha que eu passei maus bocados com eles!

- Passaste tu e eu. A mamã ia para as termas cozinhar, entre Junho e Setembro, e deixava-nos ficar com a tia, ela só nos dava caldo de farinha, os petiscos, se é que os havia, duvido, eram para os seus filhos, e se não comêssemos obrigava-nos a ficar de castigo na mesa, eu comia, que sempre tive bom estômago, tudo que vem à rede é peixe, mas tu vomitavas tudo, não conseguias ingerir aquela mixórdia, coitado de ti.

- E segundo parece a mamã não lhes ficava a dever nada, pagava-lhes e bem pago.

- Sim. Nessa ocasião ela ganhou algum juízo e trazia dinheiro e comida para casa; claro que a tia recebia parte, mas com tantos filhos… E que amizade eles nos tinham? Nunca tínhamos vivido juntos, éramos como que desconhecidos, só o sangue nos unia, mas não é suficiente, é preciso crescer juntos, eu gostava mais dos rapazes de Cendre do que deles, eram como nossos irmãos, estes não, se pudessem até nos batiam, que a mim não conseguiam, que eu sou forte desde criança, mas a ti, coitado, um “lingrinhas”, eras o bombo da festa, até eu te chegava às vezes! Mas tu também eras mauzinho, não obedecias a ninguém, eras um selvagem, um anarquista, um rebelde, andavas sempre a atirar pedras às pessoas, até parece que eram todos teus inimigos! Uma vez rachaste a cabeça ao filho do Nelo Santos, o guarda-fiscal, por vontade dele matava-te, tiveste sorte, que ele não era para brincadeiras, até se dizia que tinha abatido a tiro um contrabandista, quando ele ia a atravessar o rio com contrabando, disparou uma data de balas e atingiu-o mortalmente; olha que não se arrependeu, dizia que tinha sido em serviço, malandro, o desgraçado andava a ganhar a vida, olha que aos contrabandistas poderosos, àqueles que lhe pagavam bem, a esses não perseguia, deixava-os passar livremente.

- Os guardas também ganhavam mal, coitados.

- Defende-los porque o teu padrinho é guarda, mas olha que eles não eram boa rês, prejudicaram muita gente, sobretudo os mais pobres, que os outros sabiam defender-se, tinham rede montada, mas o coitado, aquele que só levava uma saca de café para Espanha, a esse, quando o apanhavam, não perdoavam. Deviam ser todos como a famosa «Ana Home», essa era tesa, até coça lhes dava, uma altura prendeu um carabineiro a uma árvore e tirou-lhe a espingarda, olha que lhe foram logo pedir para a devolver se não o desgraçado perdia o emprego, era uma mulher de armas, uma mulher de pelo na benta, dessas é que devia haver muitas.

- Eu não defendo ninguém, apenas faço um esforço para compreender aquela época, aquela gente, a sua maneira de viver, de agir. Dizias que os tios e os primos foram para Lisboa, então ficamos com a casa toda para nós?!

- Bem, ainda ficaram connosco duas primas: a Antónia e a Laura, que acabaram por se zangar com a tua mãe e irem morar, provisoriamente, com o Evaristo, um amigo chegado do tio Aurélio. Esse Evaristo, não sei porquê, por que cargas de água, veio cravar tábuas no rés-do-chão da casa, alegando que metade lhes pertencia, e que nós não a podíamos habitar na totalidade. A mamã reagiu de forma violenta, pegou numa machada e rebentou com as tábuas, eles também tinham lá estado sozinhos e a mamã não recebera nada, e jamais lhes exigiu fosse o que fosse; por outro lado, ainda não tinha havido partilhas, por isso ninguém sabia qual era a sua metade.

- Foram para tribunal?

- Não. Parece que o Evaristo meteu as pernas entre o rabo, como fazem os rafeiros, ou então recebeu instruções do tio, e as coisas ficaram por ali. As primas depois foram para Lisboa também e nós ficámos com a casa toda.

- Tu foste à escola…

- Em 1950 matriculei-me na primeira classe, passados quatro anos, em Julho de 1954, tinha a quarta feita.

- Eu matriculei-me no ano seguinte e acabei a quarta em 1955. E a asma, como é que te passou?

- A Santa Casa da Misericórdia de Melgaço enviava todos os anos para a praia de Âncora às suas custas crianças necessitadas e com dificuldades respiratórias; eu fui uma delas.

- E a praia fez-te bem.              

- Embora não acredite em milagres, o que aconteceu é de facto extraordinário – a partir desse ano nunca mais tive problemas de respiração!

- Foram os ares do mar e os banhos de sol.

     

VII

   

     O amor e uma cabana são coisas do passado.

  

     Aos meus ouvidos chegaram rumores, zunzuns, de que a Bera dava troco ao Artur, recém-chegado de França; claro que os ciúmes, esse sentimento mesquinho e incontrolável, feroz, logo se manifestaram. Porém, ela, de momento, dissipará todas as minhas dúvidas. Ai as mulheres! São capazes de todos os sacrifícios, de todos os atos nobres, mas também são autoras de grandes perfídias! Aproximem-se:

 

- Bera, ouvi dizer que o filho da Teresa, que veio agora da França, te anda a arrastar a asa, é verdade?

- Esteve a falar comigo, esteve; disse-me que se quer casar, se eu conhecia uma rapariga que o quisesse, sabes que eles só têm um mês de férias, depois têm de se ir embora, eu disse-lhe que raparigas não faltam, é só ele querer, mais nada.

- Vê lá! Eu dentro de uns meses, como sabes, vou para o exército e botarei lá uns bons três anos; se não morrer na guerra das colónias, casaremos quando regressar; não quero perder-te. Nunca tive outra namorada, tu também só me tiveste a mim; não casamos ainda porque combinamos fazê-lo só depois de eu vir da tropa.

- Não estejas já com ciúmes, achas que te trocava por outro? É bem verdade que os emigrantes trazem francos, disse-me que tenciona comprar um terreno e começar a fazer uma casita, já tem um bom carro, e algum dinheiro no banco…, mas o dinheiro não é tudo, não se pode casar com alguém só por via dele, eu nunca faria isso, mas é verdade que há aí raparigas que não se importam, num mês metem a papelada e casam, depois vão com eles para França, coitadas, nunca tinham andado de «cú tremido», num carrinho bonito, nem sequer tinham ainda entrado num. É verdade que eu também não, mas não sou como elas; eu a ti não te trocava por nada deste mundo; dei-te já provas disso, e para mais agora que vais para a tropa, eu ainda tenho vergonha nesta cara.  

- Confio plenamente em ti; não imagino sequer o que seria a minha vida sabendo-te nos braços de outro, não sei se suportaria a dor, olha que só de pensar nisso fico doente, eu não fui para a França porque não arranjei os dez contos que o passador me pediu, ninguém mos emprestou, se não teria ido, se as coisas tivessem corrido de feição já poderíamos ser marido e mulher, mas não podia ir roubar, que eu sou honesto, prefiro ir cumprir com a minha obrigação, pode ser que tudo corra bem, há rapazes que nem vão fazer a guerra, e a maior parte dos que vão regressam; caramba, nem todos morrem, valha-nos essa certeza, alguns vêm sem braços e sem pernas, mutilados, coitados, esses ficam com a sua vida arruinada, nunca mais podem voltar a ser o que eram; fala-se que na Alemanha põem pernas e braços artificiais, mas não é a mesma coisa, preferia morrer a andar a arrastar o corpo pelas ruas, que Deus me perdoe a blasfémia e a arrogância.

- É preciso ter fé em Jesus e na Virgem, e olha que essa guerra pode acabar de um momento para o outro; as nossas forças armadas são bem mais fortes do que os terroristas e acabam com eles depressa, se calhar já nem será necessário ires lá, quem sabe!

- Também não me quero iludir, mas tudo é possível; por outro lado, e segundo dizem, nem todos os gentios estão contra nós, o governo afirma que a maior parte dos africanos são nossos irmãos e estão do nosso lado, esses, coitados, não querem a independência, esses querem ser portugueses. Pergunta ali ao João preto, o criado do Doutor Morais, que é natural de Angola, se ele não quer ser português, diz-te de pronto que é português do coração, ele já nem sequer sabe falar a língua dos seus irmãos de África, a língua dos indígenas.

- Nós devíamos ter realizado o casamento antes de tu ires embora para a tropa, eu agora ficava aqui com a tua mãe, apesar de ela não gostar muito de mim, coitada, já está caduca, e vai ficar sozinha, claro que virei aqui de vez em quando, mas não é a mesma coisa, se tivéssemos casado era diferente, era a nora dela, agora já é tarde, e tu também sempre disseste que só casavas comigo depois do regresso, é uma ideia fixa, até parece que não confias em mim.

- Lá estás tu com essas coisas, sabes bem que gosto de ti, nem sequer me passa pela cabeça gostar de outra, és o meu oásis neste triste deserto; desejo casar contigo, mas pode-me acontecer alguma coisa má quando for para a guerra, e não te quero deixar viúva.

- Se tu morreres, viúva fico eu; mesmo não sendo casada, tua esposa legítima! Cruzes, canhoto! Nem é bom falar nisso, mas se acontecesse eu não me queria mais casar, o diabo seja surdo e mudo.           

    

                                                                                                                            VIII

 

         Recuar no tempo é como viver duas vezes

 

      Repararam como a Bera soube levar a água ao seu moinho? Pois é: anda a tramá-la, mas ainda é cedo para dar o golpe final, o chamado golpe de misericórdia. Com palavras amorosas, com beicinhos e ósculos repenicados, o beijo de Judas, a sublime traição, com engenho e manha, lá vai tecendo a subtil e pérfida teia. Eu continuo a interrogar a minha mãe, a perscrutar o passado, como se ele me pudesse trazer a felicidade ou pelo menos a utópica quimera; ainda não me apercebera que quanto mais recuasse no tempo, mais funestos e sórdidos acontecimentos descobria e desenterrava, mais chafurdava no lodo ancestral. Atentem nesta conversa:

 

- Mamã, uma coisa que eu ainda não compreendi muito bem foi o avô Gaspar escolher a avó Isaura sendo ela mãe solteira, mãe de três filhos, embora a Maria da Conceição e o Francisco lhe tivessem morrido ainda bebés.

- Não compreendeste, nem é fácil compreender, pois além de ser mãe solteira também era mais velha do que o teu avô sete anos. Acontece que o meu pai quando nasceu, teria dois ou três dias de vida, foi exposto na roda do concelho. A Casa da Roda era administrada pela Câmara Municipal; os pais que não desejassem criar os filhos, por esta ou aquela razão, sobretudo para evitar escândalos, colocavam-nos ali, onde existia uma rodeira que os recolhia, levava à igreja para serem batizados, e após a cerimónia eram entregues a uma ama-de-leite. O teu avô foi criado até aos sete anos pela Justina Melra, falecida antes de eu ter vindo a este mundo, até diziam que ela era a verdadeira mãe dele, não sei, pois na cédula de nascimento não tem o nome dos progenitores, é filho de pais desconhecidos. Ele nunca quis falar dessas coisas. Consta que seu pai era fidalgo. Naquela altura – eles casaram nos princípios deste século – era uma infâmia ter sido exposto, a sociedade não os aceitava, eles viviam aos trambolhões, aqui e ali, nunca passavam de criados de servir, de jornaleiros. As raparigas não os queriam para marido, porque depois era uma vergonha, um labéu, para os seus filhos, para toda a família; além disso, os pais delas também não deixam casá-las com os expostos.             

- Começo a compreender; o meu avô era um enjeitado.

- Infelizmente era; a tua avó já entrara na casa dos trinta e assim arriscou, começou a namorar com ele às escondidas e engravidou da Marília, nasceu em 1903, ficou sendo filha de pai incógnito, depois o padre andou à volta deles e dos pais dela, que mesmo assim não autorizavam o casamento, era uma família honrada, ele iria envergonhá-los. O sacerdote tanto porfiou que lá conseguiu o consentimento e a boda realizou-se em 1905, às cinco da manhã. Nesse dia a minha irmã ficou legitimada.

- A vida é de facto complexa e misteriosa; o meu avô, para além de ser um abandonado, era vadio, tinha grandes defeitos?

- Pelo contrário, era uma joia de pessoa, ele não tinha culpa de não saber quem eram seus pais, até se dizia que o pai tinha sido engenheiro; viera para cá na altura em que fizeram a estrada; esteve por aqui dois ou três anos, arranjando uma criada, a quem fez o favor de emprenhar. Se é verdade ou não, não sei. O certo é que o teu avô tinha bom aspeto, não parecia ser filho de camponês; era uma figura alta, cabelos loiros, olhos azuis, parecia até um fidalgote! Alugava os seus braços à jorna, um mourinho de trabalho; depois do matrimónio começou a fabricar rebuçados, que vendia nas festas do concelho, os quais lhe trouxeram alguma fama, toda a gente o conhecia, e ao seu açafate, era muito popular. A minha mãe ia a Espanha comprar pão, que depois vendia na Vila e aldeias próximas, era preciso ganhar a vida, que eles estudos não tinham, não podiam aspirar a grandes empregos. Ela também negociava em doces e roscas, lá iam arranjando um dinheirinho para sobreviverem, além de terem uma horta e uns campitos, que a minha mãe herdara.

- Depois da Marília nasceu o Vítor…

- Veio ao mundo em 1906. Meu querido irmão, acabaria por morrer doente em 1927, com apenas 21 anos de idade; a terrível tuberculose levou-o. Estava noivo, uma estampa de homem. Era empregado de balcão numa das melhores lojas da Vila, sempre de fato e gravata, não o consigo esquecer. A minha mãe sofreu imenso, era o segundo filho a morrer na flor da idade, o Roberto com dezoito anos e este com vinte e um!

- De facto, o azar tinha-lhes batido à porta.

- Dois anos depois morria-lhes a filha, a minha irmã Marília, com vinte e seis anos de idade incompletos. E com a mesma doença do irmão! Deixava duas criancinhas pequenas, um marido destroçado, uma família inconsolável.

- Em 1929 estava você aqui na terra com a Susana de meses…

- A tua irmã nascera em 1928, tinha poucos meses quando morreu a madrinha dela, a tua tia Marília. Foi um grande desgosto para todos, eles mortos, eu, mãe solteira, crianças como passarinhos, de boca aberta, o país de rastos, a miséria a rondar por perto. Agora vive-se melhor, apesar de tudo, naquele tempo…

- Começo a entender muita coisa; sabe, eu gostava de criticar, considerava-os a todos quase como criminosos por nos terem trazido a este vale de lágrimas, por nos terem deixado passar fome e frio, muitas necessidades, por termos sido filhos sem pai, mas afinal a vida é mesmo complexa, nada, nem ninguém, tem a culpa do que se passa, ninguém escolhe nascer aqui ou ali, nesta ou naquela família, nascemos onde nascemos e crescemos como crescemos, os ricos comportam-se como tal e os pobres, que são a maioria, vegetam e agacham-se porque nasceram sem nada, sem poder. Alguns, poucos, conseguem sair do lamaçal, engrossam o mundo dos que vivem bem, mas sabe-se lá à custa de quê, de que cedências, da sua honra e da própria honestidade.

         - Eu nasci em 1908 e só permaneci em casa dos meus pais até aos oito anos de idade. No solar dos meus padrinhos não passei mal, davam-me roupinha, embora usada, mas que queria mais? O que me custava imenso era estar fora de casa, longe dos meus irmãos, dos meus pais, dos meus amigos, das minhas inocentes brincadeiras e dos brinquedos que eu própria fabricara. Deixei de ser criança e passei a ser uma empregadinha doméstica: nem escola, nem brincadeiras, nem amigos, só casa, mais casa, sentia-me sufocada, e a igreja, a missa todos os domingos, aquelas mulheres sérias, aqueles homens empertigados, aquele ambiente de terror e mistério.

- Agora compreendo porque entre si e o seu irmão Aurélio, mais novo cerca de dois anos, nunca existiu um grande afeto, um grande amor de irmãos. 

- Deixaram-nos viver pouco tempo juntos; quando saí de casa tinha ele seis anos de idade, não deu para cimentar esse amor. Mesmo os irmãos necessitam de conviver, pelo menos até ao matrimónio, depois cada um segue o seu rumo, o seu destino, mas até esse momento devem permanecer unidos, como as árvores de um bosque, crescerem lado a lado, sugarem as alegrias e tristezas do lar. A mim não me deixaram partilhar esses doces momentos, atiraram-me para o lado de fora, talvez pensando que era melhor para mim, não foi, não, a minha vida teria sido diferente se tivesse ficado, quem sabe, casaria, daria à luz filhos do casamento, teria sido feliz, assim não fui nem vos deixei a vós sê-lo, não por culpa minha, não, quem me dera ter-vos dado mais e melhor, mas como o poderia eu ter feito?

- Não se culpe, mamã, eu agora compreendo. Fez o que pôde, não estava nas suas frágeis mãos fazer diferente ou opor-se, apesar de tudo foi uma grande mulher, outras fizeram bem pior, não conseguiram ter a sua dignidade, a sua enorme força de vontade, a sua simpatia para com todos. Errou, é certo, mas quem não erra? Na sua situação, cheia de filhos, mãe solteira, todos os homens a abusar de si, a cobiçá-la, a disputá-la fisicamente, como se fosse peça de caça, trofeu de caçador, nada mais, nem melhor, poderia ter feito. Não se culpe, nem seja juiz de si mesma; o tempo humano é curto demais face à eternidade. O seu irmão Aurélio também passou ao lado da felicidade pelos vistos.

- Quando eu voltei para casa grávida, em 1928, somente ele vivia em casa com os teus avós, pois o outro meu irmão nascido depois dele faleceu com apenas dias de idade. Era o menino querido. Vestia bem, embora com roupas modestas, ia aos bailes, as raparigas gostavam dele, trabalhava na arte de barbeiro. Não gostou nada que eu aparecesse, fez-me a vida negra; era uma desavergonhada, uma mulher sem juízo, vinha lançar o estigma (opróbrio, dizia ele) sobre toda a família; o melhor teria sido eu ficar por Lisboa, pelo menos ninguém saberia, o que diriam agora as raparigas da terra, irmão de mãe solteira, não bastava já o que acontecera ao pai, que vergonha, não iria mais aos bailes. Fez tudo para me escorraçar de casa! Quando a tua irmã nasceu eu disse aos teus avós para me arranjarem uns patrões onde servisse, eles que me ficassem temporariamente com a menina, não queria dar mais trabalho, despesas, e chatices. Arranjaram-me a casa de uma família de Tronços, professores do ensino primário, por sinal muito bons para mim.

- Em 1931 nasce o Alexandre!

- Muito eu resisti; os rapazes de Tronços e São Bernardo não me largavam, prometiam mundos e fundos, sabiam que eu já tinha uma filha, mas não se importavam, palavras, o que eles queriam sabia-o eu. Deixei-me ir na conversa, embeicei-me por um deles, e zás! Fiquei com mais um rebento.

- Como se chamava o pai do meu irmão?

- O nome dele era Antão, mas todos lhe chamavam o “Chateado”. Grande patifório, depois de eu ficar prenha deixou de me procurar, teve receio das responsabilidades, eu que criasse o bebé, que arcasse com todos os encargos e dissabores.           

- O Alexandre acabou por morrer.

- Felizmente para ele, morreu com poucos meses; os meus patrões, Deus os ampare no céu, foram seus padrinhos.

- Dois anos depois, outro!

- Eu já não me podia defender daqueles malandros, grandes pulhas, faziam apostas para ver qual deles primeiro me desgraçava; em Janeiro de 1933 nascia outro rapaz, o Ambrósio, filho do António Bonfim, de Tronços. Para não casar comigo escapou para a Venezuela, ai não, que o meu patrão, que tinha sido professor dele, obrigava-o a casar, mas o cobarde pôs-se a mexer, nunca mais voltou à terra de nascimento, o teu irmão foi ter com ele depois de ter cumprido o serviço militar, por lá está, não sei se bem se mal, pois é raro dar notícias. 

- Deve estar mais ou menos, mas olhe que a nós nem escreve, também nem o conheço, só o vi uma vez, quando ele partiu para as Américas no ano de 1955; veio aqui despedir-se, não sei se da terra que o viu nascer, se de nós. Mal me recordo dele, só me lembro que se deitava tarde, acordava-me, uma altura deitou o meu grilo fora, dizia que não o deixava dormir; fiquei com imensa pena, tanto esforço eu tivera para o apanhar; e aquela gaiola de cana, que trabalhão me dera construí-la! O grilo cantava tão bem, nunca tive outro tão cantador, ia buscar alface e erva do monte para lhe dar, jamais passou fome, mas o Ambrósio queria dormir e o grilo não o permitia, perdoo-lhe, mas nunca encontrei outro grilo igual, isso não. O Ambrósio provavelmente já nem de nós se lembra, tem lá duas irmãs, segundo dizem, filhas do pai e da mulher com quem ele casou. A 4 de Março de 1935, de acordo com a caderneta do Registo Civil, nasce-lhe a Rosália.

- Coitadita, não chegou a gozar a vida: viveu apenas um ano. Era tão linda, tão amorosa, um sorrisinho cativante, foi a terrível doença, ainda a levámos ao hospital, mas não havia nada a fazer, o médico não conseguiu salvá-la, tive um grande desgosto, só Deus sabe quanto eu sofri, não há ninguém que consiga descrever a minha dor, superior à força humana.

 - Quem foi o pai, desta vez?!

- O Rodolfo de Tronços, filho do dono da mercearia, era todo atiradiço, enganou uma data de raparigas, espero que não lhe façam o mesmo às filhas, não respeitava ninguém.

- Não me diga que ele a forçou?!

- Não, de maneira nenhuma, mas prometeu-me casamento, fartou-se de dizer mal do outro, e eu fui no engodo; desejava arrumar a minha vida, mas dava sempre com estes garotos, engravidavam-me e depois já não queriam nada comigo, até parece que eu tinha lepra.

- Seis anos depois nasceu o Olavo.

- Nessa altura já eu deixara Tronços, fui servir para Cendre, para casa de uma velhota, isto por volta de 1939. Ali perto trabalhavam como caseiros de uma quinta os pais do teu pai, o Agostinho Meliças e a sua mulher, Mariana. Só tinham um filho, o Olavo Augusto, que depois veio a ser o vosso pai. Eu não lhe ligava nenhuma, porque ele era uma criança à minha beira, tinha menos doze anos do que eu, nascera em 1920. Andava atrás de mim como o gato anda atrás da gata na época do cio, não me largava, dizia-me que a diferença de idades não interessava, que casava comigo, podíamos viver ali em Cendre, ele ganhava algum dinheiro no contrabando e eu trataria da casa.

- Mais uma vez caiu na esparrela!

- Dizem que gato escaldado até do frio tem medo, mas eu não aprendia, cabeça oca, pensava que devia haver no mundo alguém, um homem bom e sincero que gostasse verdadeiramente de mim, que não me enganaria, que me respeitaria como mulher, apesar de já ter tido quatro filhos de quatro homens diferentes; enganei-me mais uma vez, fiquei grávida do teu irmão; em Setembro de 1941 ele nasceu e eu continuava solteira como antes. Eu chorava, mas ele não se comovia. Arrendámos uma velha casa, muita pequeninha, perto do posto da Guarda-Fiscal, e passámos a viver ali, embora ele poucas vezes lá ficasse, dizia que tinha de dormir em casa dos pais, ajudá-los na lavoura, porque estavam a ficar velhos. Conversa, ele tinha era outra, uma da idade dele, eu já devia calcular.

- Passou então a haver cenas de ciúmes.

- Bueno, bueno! Quase todos os dias; o estroina aparecia, vinha encher a mula, andava sempre esfomeado, e depois dizia que tinha de ir aqui ou ali, só para não me ouvir. Eu enchia-me de esgaravatar: a vender peixe, a contrabandear, e ele não me ajudava nada, ao invés, vinha comer o suor do meu rosto.

- Acabou por ficar grávida de mim!

- Tu foste o último filho que eu tive, um meia-leca, e era para não teres nascido, ainda pensei em abortar, as vizinhas aconselharam-mo: «ó mulher, não sejas doida, mais um filho arruína-te, desgraça-te; o melhor será abortares, ali a Dolores tem mão para isso.» O teu pai já estava zangado comigo, a bem dizer já nem nos víamos, ele passava muito tempo com a namorada galega, ela já devia estar grávida também, até parece que o embruxou, ele nunca mais foi o mesmo para mim depois de a conhecer.

- Por que é que ele não perfilhou o vosso primeiro filho, o Olavo?

- Bem, nós estávamos a muita distância, quase a dez quilómetros da sede do concelho, onde se encontrava o Registo Civil, e ele era muito comodista, não queria lá ir, prometia sempre, nunca disse que não ia, mas quando chegava a altura, dava sempre uma desculpa, eu também não insistia muito porque toda a gente sabia que o teu irmão era filho dele.

- Quando eu nasci…

- Quando tu nasceste fui falar com ele e implorei-lhe que vos perfilhasse, não figurardes com nome de pai podia ter implicações no vosso futuro, mas ele fez uma cena dos diabos, disse-me que o primeiro ainda vá lá, podia ser filho dele, ora o segundo, nem pensar, sabia lá ele quem era o pai! Eu fiquei cega de raiva, o filho da púcara, que a mãe não o era, pois olha que enquanto andei com ele não tive outro homem, sacana, era um cachorro, o que ele queria era arranjar um pretexto, uma desculpa tola, para se separar, desvincular definitivamente de mim. Chamei-lhe todos os nomes, e ainda foram poucos, quis bater-me, mas eu gritei por socorro e logo veio gente defender-me; o teu padrinho, o Flávio Ferreira, ainda tentou dar-lhe umas arrochadas, mas eu não deixei, impedi-o, apesar de tudo ainda gostava dele!            

- Eu nunca o vi!

- Pois não, depois de tu nasceres, terias uns três meses de vida, ele foi-se embora para Espanha com a outra, nunca mais lhe pusemos os olhos em cima.

- E assim ficámos os dois, eu e o Olavo, como sendo filhos de pai incógnito!

- Infelizmente assim é; todos ficaram sendo de pais incógnitos, mas olha que eu não tive culpa, é o destino, eu nem queria nada com o teu pai, nem sei como isso aconteceu, eu era uma mulher só, já não era nova, queria tentar pelo menos constituir o meu lar, mas quem nasce malfadado tarde ou nunca encontrará uma migalha de felicidade; coitada de mim, nunca tive sorte com os homens, fizeram pouco de mim, aproveitaram-se da minha fragilidade, e o azar sempre me acompanhou na vida. Nasci pobre; e quem nasce pobre acabará quase sempre por morrer da mesma maneira. A minha única riqueza é a liberdade e os filhos. Sobretudo tu que és o mais novo e tens estado sempre ao meu lado, a aturar os meus infortúnios, as minhas infelicidades.

- Os dois meus irmãos mais velhos só são seus filhos de nome, deu-os à luz mas não os criou, não viveu com eles; o Olavo foi para Lisboa aos trezes anos de idade. Restei eu, mas você não me tem dado grandes alegrias, podia emendar-se.    

- É tarde para isso, demasiado tarde. Passei muita desgraça, sofri muito, nunca compreendi o mundo e as suas gentes, hoje sou um farrapo humano; não me peças impossíveis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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