LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
XI
As formigas
também descansam
Voltemos atrás no tempo; as verduras da
idade ainda vestiam o meu cérebro, a realidade e a ficção ainda não tinham
fronteiras nítidas. Como tinha ouvido dizer que era costume antigo os
sapateiros não trabalharem às segundas-feiras, eis-me a fechar a porta da loja
e a ir banhar-me para o rio Minho. Porém, o meu patrão, que para fugir ao calor
excessivo que se fazia sentir também ele fora dar um mergulho nas águas
límpidas do rio, não gostou nada que eu por lá aparecesse. Venham vocês também
tomar um refrescante banho:
- Eu não te disse para
ficares no estaminé?
- Mas senhor Hilário,
você também veio, ontem engraxei sapatos até às três horas da tarde, estou
cansado, hoje é segunda, às segundas os sapateiros não costumam trabalhar, você
deixou-me lá sozinho, com este calor, e eu vim tomar banho ao rio, eu nem sabia
que você estava aqui, se soubesse não tinha vindo, juro-lhe.
- Então toma um banho
rápido e vai abrir a oficina, não quero a porta fechada, podem aparecer
clientes e depois veem tudo fechado, recebe o calçado que entregarem, que digam
para que é, tomas nota num papelinho, eu já vou para cima, não demoro muito,
isso de fechar as sapatarias às segundas é com os antigos, eu preciso de ganhar
dinheiro, não sou rico, aproveitar é enquanto somos novos, não é com vadiagem e
calaceirice que se ganha pilim, eu comecei a trabalhar com dez anos, nem a
quarta classe completei, só fiz a terceira, estudar era para os meninos, vós
agora sois uns fidalgos, vê lá tu, não trabalhar à segunda, eu trabalhei toda a
vida, sábados e domingos, que isto de não trabalhar é para milionários, que até
esses trabalham, às vezes mais do que nós, por isso é que eles têm rios de
dinheiro, olha o senhor Atílio se não trabalha: às seis da manhã lá vai para o
Porto buscar contrabando, é assim que ele se enche, que nós por muito que
trabalhemos nunca juntamos nada de nosso, vai-te embora, já te refrescaste.
- E se alguém quiser
levar calçado, eu não sei o preço do conserto, não mexo em dinheiro, o que devo
fazer?
- Não entregues calçado
a ninguém, dizes-lhes que esperem, eu não me demoro, se tiverem pressa que
voltem, fiado nem pensar, depois esquecem-se, já tenho alguns calotes, eu não
ando a trabalhar de graça, que a sola também a pago, ninguém me dá nada, era o
que faltava, que paguem, tu não entregas calçado a ninguém.
- Há um bocado
entreguei uns sapatos, vieram para botar meias solas, ao senhor Norberto da
Portela, insistiu tanto, disse que precisava deles, que se você lá estivesse
também lhos entregava, que confiasse nele, que no dia de feira vinha à Vila e
já lhe pagava, eu não pude fazer nada, tive de lhe entregar os sapatos, se não
lhos entregasse até me comia vivo!
- Não devias ter feito
isso, ai o filho da mãe, nunca mais me paga, agora vais lá e pedes-lhe o
dinheirinho, se não to der trazes os sapatos de volta, são trinta escudos, não
te esqueças, trinta escudos, vai a correr, tens boas pernas; ai o caloteiro,
valeu-se de tu estares sozinho, se eu estivesse lá não os levava, não, que eu
não ando a trabalhar para os outros, eu na minha oficina não fio, quem fia é a
roca, olha eu a fiar, tenho de pagar a renda, ninguém ma paga, e tenho de
comer, ninguém me dá nada, e vestir-me e calçar-me, tudo, eles querem é ver um
homem a pedir, vai num pé e vem noutro, ai de ti se não me trazes o dinheiro ou
os sapatos.
- É longe!
- Quero lá saber se é
longe ou perto, desaparece daqui, mexe-te.
XII
As
surpresas são o prazer do quotidiano
Mais ou menos duas horas depois,
extenuadíssimo, cheio de vergonha, com o coração amargurado, indeciso, eis que a
casa do espantado agricultor se mostra. Logo que ele me vê, pergunta-me:
- Tu por aqui,
Cândido?!
- Senhor Norberto,
desculpe, o meu patrão mandou-me receber o dinheiro das meias-solas, disse-me
para não sair de ao pé de si sem o dinheiro ou os sapatos.
- O teu patrão é um
filho de loba, um perro, diz-lhe isso mesmo, quem pensa ele que eu sou: um
ladrão, um vigarista, um trapaceiro? Eu sou um homem de boas contas, não devo
nada a ninguém, e se devo pagarei, agora não tenho dinheiro, gastei o que tinha
em adubos e sementes, não tenho um tostão em casa, mas também preciso dos
sapatos para ir à Vila, não posso ir de tamancos, é uma vergonha, as botas
estão a desfazer-se, maldita vida de lavrador, nem para botar meias-solas nuns
sapatos um homem tem dinheiro, no dia de feira já lhe pago, vou vender umas
cabeças de gado, já arranjo algum, diz-lhe que não lhe fico a dever, eu sou um
homem honrado, ele devia saber isso, ai o filho da mãe que o pariu, pensa que
eu não sou de contas, o cabrão veio de São Bernardo com uma mão à frente e a
outra atrás, ele pensa que eu não sei quem ele é, o miserável, filho de um juiz
de fora, ninguém gostava dele, pediu transferência logo que a amásia ficou de
barriga, se não fossem os outros dar-lhe alguma coisa tinha morrido de fome,
nem o pai o viu alguma vez, se calhar nunca soube quem era, o filho da mãe, má
rês, eu sei bem quem é o meu pai, tenho o nome na cédula, ele não.
- Mas, senhor Norberto,
ele ameaçou que me cascava se aparecesse na loja sem os sapatos ou o dinheiro,
o que é que eu posso fazer, se não levar os sapatos fujo, não terei coragem de
lhe aparecer de mãos vazias, quando se zanga é uma verdadeira fera, esfrangalha-me
todo! Por que é que o senhor não me dá os sapatos e vai lá amanhã buscá-los? Se
eu apareço de mãos a abanar, mata-me!
- Quem mata esse
bandido, esse anormal, sou eu, levo um estadulho e dou-lhe com ele pelo lombo
abaixo, parto-lhe os ossos todos do corpo, que ele bem merece, tu não tens
culpa, que ele é teu patrão, tu obedeces-lhe, não tens outro remédio, mas eu
não sou empregado dele, não lhe tenho medo, diz-lhe a ele isto, que ele quando
me vir até se caga todo, dou-lhe uma coça que vai ver, nem sabe de que terra é,
leva os sapatos, leva, que eu até já nem os quero, que os sirva à ceia, os
marinheiros da nau Catrineta também rilharam sola, que se empanturre com eles.
- Obrigado senhor
Norberto, que Deus lhe pague, já não sabia o que fazer à minha vida, mal de
quem obedece, o senhor, apesar de tudo, é livre, não tem quem mande em si.
- O meu patrão são os
campos, o gado, o tempo, a natureza em geral, os produtos que quero comprar e
não arranjo capital, as dívidas, a colheita, tudo, ninguém está bem nesta
terra, só os ricos, os da Câmara, mas esses não nos ajudam, ainda nos enterram,
se puderem, décimas e mais décimas, esses esbirros dos impostos não largam a
gente; não te iludas, rapaz, os pequenos agricultores não são senhores, são
escravos! E os de Lisboa não vêm cá! O mais certo é nem saberem que existimos.
Que eu gosto do Salazar, se não fosse ele ainda estaríamos pior, salvou o país
da bancarrota e endireitou Portugal, claro que nós os do campo nada
beneficiamos com tudo isso, mas pelo menos o país continua a ser dos
portugueses, olha que esteve em vias de ir parar às mãos dos comunistas, e dos
estrangeiros, isto disse-mo um senhor importante.
- Ó senhor Norberto, eu
não percebo nada dessas coisas, sou muito novo, o que eu queria era os sapatos
ou o dinheiro; para mim tanto me dá que sejam uns ou outros, o meu país é a
minha terra, nunca saí daqui.
- Tens razão, rapaz; na
tua idade isso não interessa. Quando fores mais crescido, quando tiveres de
tomar decisões, de escolher, poderá vir a interessar-te esse assunto, agora é
ainda muito cedo para saberes dessas coisas.
XIII
Por a porta da traição uma víbora deslizava
Regressemos a 1964. Encostados a uma
árvore de grande porte, frondosa, cuja sombra beneficiava uma vastíssima área,
bem perto de uma vetusta casa de granito, sem estilo definido, arredores da
sede do concelho, onde não há muito tempo conversava eu amenamente com a Bera,
encontram-se duas figuras: um homem e uma mulher. Ela parece triste, receosa,
pensativa, escavada, olhar distante, quase arrependida de ali estar. Ele,
afoito, atrevido, decidido a concretizar o seu objetivo. Aproximem-se, lenta e
sorrateiramente, a fim de ouvir o que eles dizem:
- Artur, não sei se
deva aceitar a tua proposta: ele é bom rapaz, gosta imenso de mim, não merece
que lhe faça essa desfeita, que lhe pregue essa partida.
- Não sejas parva,
Bera; não vês que o Cândido não passa de um pobre diabo, sem ambições, sem
quaisquer perspetivas de futuro, nunca te proporcionará bem-estar, enche-te a
casa de tinhosos e de miséria. Comigo será diferente: vais para França, até
podes trabalhar na casa de uma senhora francesa, olha que as criadas lá ganham
bons francos, eu também ganho bem, poderemos dar uma boa escola aos filhos,
vimos aqui passar as férias todos os anos, no mês de Agosto, ou de dois em dois
anos, entretanto construiremos aqui uma boa vivenda, teremos um bom carro, vais
ser uma verdadeira «madame».
- Mas, Artur, eu tenho
escrúpulos em lhe fazer isso; e também um estranho pressentimento, sou muito
supersticiosa; se ele já estivesse na tropa, longe daqui, mas não, só vai…
- Não te preocupes com
ele, a partir de hoje deixa-o por minha conta; não apareces aos encontros,
dás-lhe uma desculpa qualquer, que a tua mãe está doente e que tu tens de
tratar das refeições, qualquer coisa do género. Ah! Diz ao teu pai para tratar
da papelada, se puder já vai connosco, eu arranjo-lhe trabalho em uma fábrica.
- O que estamos a fazer
não é bonito, mas de facto a minha vida e a dos meus pais e irmãos melhorará
muito.
- Pensas tu que ele não
te faria o mesmo, aquele bacoco desenxabido? Nem hesitaria! Eu nem sei como tu
lhe olhaste para a cara, tão bonita como és, tão desenvolta…
- Não digas mal dele,
coitado, é um bonacho, vai ter um tremendo desgosto quando souber.
- Dás-lhe muita
importância; aquele tolo idiota, uma comida sem sal, nem sequer tem onde cair
morto. E com aquela mãe: sempre bêbeda e porca! E uma língua! Onde te ias
meter! Olha para mim, Bera: agradeço-te do fundo do coração que o esqueças,
vamos falar de nós, do nosso futuro, da nossa vida em comum.
- Será que me vou dar
bem em França?
- O que te vai custar
um pouco é aprenderes a língua francesa, mas ao fim de um ano já a falarás mais
ou menos, não é nada difícil, vais ver. Olha, logo já vou falar com o padre
Alberto para nos casar, se os papéis demorarem casamos por procuração e tu segues
depois para França com o teu pai.
- Tu não podes ficar
aqui mais algum tempo? Foi tudo tão rápido!
- Nem mais um dia;
temos um mês de férias e nada mais. Se chego lá depois do prazo tenho que
arranjar uma justificação médica, pois o mais certo é já não encontrar o posto
de trabalho disponível, os franceses são muito rigorosos e têm muita gente nas
listas para trabalhar: espanhóis, italianos, marroquinos, argelinos, até
gregos!
- Eu gostava de ir já
contigo, depois tenho de ir de comboio, deve ser uma viagem cansativa.
- Os comboios espanhóis
não valem nada, isso é verdade, ainda são piores do que os portugueses; os
franceses sim, são cómodos e rápidos, chegam a atingir noventa quilómetros por
hora!
- Tenho a alternativa
das camionetas, mas segundo dizem vão ali como sardinha na lata! E os do monte,
fazem uma barulheira infernal, que confusão!
XIV
Hesitei em
dizer-to: agora já sabes!
Dois homens, meus clientes e amigos,
sabiam da marosca; contudo, não se queriam comprometer, passar por abelhudos.
Vim a saber mais tarde que tiveram o seguinte diálogo:
- Não sei se o
avisaremos, a Bera anda a fisgá-la e o crédulo rapaz desconhece tudo, um dia
destes ela está casada, arranca para a França com o Artur da Teresa, e o pobre
desgraçado apanha um desgosto que nunca mais terá cara para aparecer a ninguém,
ele já é um pouco tímido, coitado, a mãe apanha cada borracheira, não ganha
juízo aquela pobre de Cristo, nem merece este filho, é um ótimo rapaz, e agora
isto, é demais, ainda por riba está quase a ir para o serviço militar, já está
apurado na inspeção médica.
- Eu acho que devíamos
avisá-lo, pelo menos ficava prevenido, olha que as mulheres são de se lhe tirar
o chapéu, aparece por aí um tipo com umas coroas e ela vai de se lhe entregar;
nem sequer respeitam os compromissos já assumidos, o que elas querem é a nota,
boa roupa, boa comida, pinturas, botar figura, mas olha que quando for para a França
ela vai ver, terá de trabalhar como uma escrava, limpar o esterco dos outros,
que as francesas não fazem nada, são as criadas que lhes fazem tudo, ela se
casasse com o Cândido seria pobre, mas era dona da casa dela, assim vai ser
criada de servir de uma estrangeira, o que ela pensa, que vai para lá passear?
- Ouvi dizer que o
Artur vai levar o sogro com ele, já andam a tratar disso, até parece que é tudo
um negócio, vende a catraia e consegue ir para França com o genro, ao que nós
chegamos, nunca esperei ver isto, olha que no meu tempo de rapaz havia mais
seriedade no casamento, agora aparecem por aqui no verão, arranjam rapariga e
casam, nem chega a haver namoro, o matrimónio assim nem é abençoado por Deus,
ouvi dizer que anda por aí um emigrante dos Arcos de Valdevez à procura de
noiva, diz que tem oitocentos contos de réis no Banco, quem mos dera, parece
que a Sofia do Bogas vai casar com ele, a mastronça, já andou com um e com
outro, a coisinha dela deve assemelhar-se a uma peneira rota, a um longo túnel,
e olha que ainda não tem sequer dezanove anos de idade, começou cedo a
galdéria. Os pais dela não vão com certeza perder esta oportunidade!
- O Cândido é um
ingénuo, um parvalhão, um lorpa; eu se fosse a ele desligava logo, nem lhe
olhava para a cara, que ela é um pedaço de mulher, lá isso é, boa que se farta,
o Artur teve olhinhos, olha se ele foi buscar outra, havia por aí ainda
raparigas solteiras e descomprometidas, agradou-se desta, pudera! Bonita e boa,
com um namorado pacífico. O Cândido bem lhe pode dizer adeus, se calhar nem
sequer molhou a sopa, que ele é um anjinho, devia estar à espera da noite do
casamento, ao menos tivesse aproveitado, mas o palerma pensava que ela não lhe
fazia esta patifaria, não conhece as mulheres, são capazes de tudo, só querem
luxo, andar de carrinho, dar nas vistas, causar inveja às outras, agora que
chupe no dedo, e que não se ponha a pau, não, que o Artur é um latagão e ainda
o estoira de pancada se ele lhe disser alguma coisa, coitado, não lhe queria
estar na pele, mas ele também não se vai meter com ele, quando souber é bem
capaz de se pôr a choramingar como uma donzela, coitadito, tão sensível.
- Lá diz o ditado: «o marido cornudo é o último a saber»,
ele ainda não era marido, mas era como se fosse, nós já o considerávamos como
tal, aos anos que eles se namoram, e a família, não viam outra coisa: «o nosso Candinho», só conversa. Agora já
estão ao lado do emigrante: «tão bom
rapaz, trabalhador, poupado…» Logo viraram o bico ao prego, oportunistas é
que eles são, não deviam pactuar com esta maldade, isso não se faz, não sei
qual é a opinião do padre Alberto, mas olha que ele não deve ter gostado desta
vil e feia ação, mas claro vai ter de os unir pelos laços do matrimónio.
- Ó Chico, o que os
padres querem é maçaroca, e olha que o Artur é bem capaz de lhe untar bem as
mãos, de lhe dar uma boa nota, das maiores, que ele tem pressa e não quer
perder a noiva, o sacerdote que lhe apresse o matrimónio, que ande depressa com
a papelada, um mês voa.
- Ó Tónio, cá na minha,
penso que o moço devia ser avisado, o rapaz vai ter um chelique quando souber.
- Que se cozam, depois
ainda dizem que a gente anda a intrometer-se na vida deles; olha, mulheres há
muitas, quando vier da tropa que arranje outra, o futuro a Deus pertence, eu
não me meto nisso, se quiseres avisá-lo avisa-o, mas não me impliques a mim
nesses imbróglios.
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