segunda-feira, 5 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XI

 

 

As formigas também descansam

 

 

     Voltemos atrás no tempo; as verduras da idade ainda vestiam o meu cérebro, a realidade e a ficção ainda não tinham fronteiras nítidas. Como tinha ouvido dizer que era costume antigo os sapateiros não trabalharem às segundas-feiras, eis-me a fechar a porta da loja e a ir banhar-me para o rio Minho. Porém, o meu patrão, que para fugir ao calor excessivo que se fazia sentir também ele fora dar um mergulho nas águas límpidas do rio, não gostou nada que eu por lá aparecesse. Venham vocês também tomar um refrescante banho:

 

- Eu não te disse para ficares no estaminé?

- Mas senhor Hilário, você também veio, ontem engraxei sapatos até às três horas da tarde, estou cansado, hoje é segunda, às segundas os sapateiros não costumam trabalhar, você deixou-me lá sozinho, com este calor, e eu vim tomar banho ao rio, eu nem sabia que você estava aqui, se soubesse não tinha vindo, juro-lhe.

- Então toma um banho rápido e vai abrir a oficina, não quero a porta fechada, podem aparecer clientes e depois veem tudo fechado, recebe o calçado que entregarem, que digam para que é, tomas nota num papelinho, eu já vou para cima, não demoro muito, isso de fechar as sapatarias às segundas é com os antigos, eu preciso de ganhar dinheiro, não sou rico, aproveitar é enquanto somos novos, não é com vadiagem e calaceirice que se ganha pilim, eu comecei a trabalhar com dez anos, nem a quarta classe completei, só fiz a terceira, estudar era para os meninos, vós agora sois uns fidalgos, vê lá tu, não trabalhar à segunda, eu trabalhei toda a vida, sábados e domingos, que isto de não trabalhar é para milionários, que até esses trabalham, às vezes mais do que nós, por isso é que eles têm rios de dinheiro, olha o senhor Atílio se não trabalha: às seis da manhã lá vai para o Porto buscar contrabando, é assim que ele se enche, que nós por muito que trabalhemos nunca juntamos nada de nosso, vai-te embora, já te refrescaste.

- E se alguém quiser levar calçado, eu não sei o preço do conserto, não mexo em dinheiro, o que devo fazer?

- Não entregues calçado a ninguém, dizes-lhes que esperem, eu não me demoro, se tiverem pressa que voltem, fiado nem pensar, depois esquecem-se, já tenho alguns calotes, eu não ando a trabalhar de graça, que a sola também a pago, ninguém me dá nada, era o que faltava, que paguem, tu não entregas calçado a ninguém.

- Há um bocado entreguei uns sapatos, vieram para botar meias solas, ao senhor Norberto da Portela, insistiu tanto, disse que precisava deles, que se você lá estivesse também lhos entregava, que confiasse nele, que no dia de feira vinha à Vila e já lhe pagava, eu não pude fazer nada, tive de lhe entregar os sapatos, se não lhos entregasse até me comia vivo!

- Não devias ter feito isso, ai o filho da mãe, nunca mais me paga, agora vais lá e pedes-lhe o dinheirinho, se não to der trazes os sapatos de volta, são trinta escudos, não te esqueças, trinta escudos, vai a correr, tens boas pernas; ai o caloteiro, valeu-se de tu estares sozinho, se eu estivesse lá não os levava, não, que eu não ando a trabalhar para os outros, eu na minha oficina não fio, quem fia é a roca, olha eu a fiar, tenho de pagar a renda, ninguém ma paga, e tenho de comer, ninguém me dá nada, e vestir-me e calçar-me, tudo, eles querem é ver um homem a pedir, vai num pé e vem noutro, ai de ti se não me trazes o dinheiro ou os sapatos.

- É longe!

- Quero lá saber se é longe ou perto, desaparece daqui, mexe-te.        

   

XII

 

As surpresas são o prazer do quotidiano

  

     Mais ou menos duas horas depois, extenuadíssimo, cheio de vergonha, com o coração amargurado, indeciso, eis que a casa do espantado agricultor se mostra. Logo que ele me vê, pergunta-me:

 

- Tu por aqui, Cândido?!  

- Senhor Norberto, desculpe, o meu patrão mandou-me receber o dinheiro das meias-solas, disse-me para não sair de ao pé de si sem o dinheiro ou os sapatos.

- O teu patrão é um filho de loba, um perro, diz-lhe isso mesmo, quem pensa ele que eu sou: um ladrão, um vigarista, um trapaceiro? Eu sou um homem de boas contas, não devo nada a ninguém, e se devo pagarei, agora não tenho dinheiro, gastei o que tinha em adubos e sementes, não tenho um tostão em casa, mas também preciso dos sapatos para ir à Vila, não posso ir de tamancos, é uma vergonha, as botas estão a desfazer-se, maldita vida de lavrador, nem para botar meias-solas nuns sapatos um homem tem dinheiro, no dia de feira já lhe pago, vou vender umas cabeças de gado, já arranjo algum, diz-lhe que não lhe fico a dever, eu sou um homem honrado, ele devia saber isso, ai o filho da mãe que o pariu, pensa que eu não sou de contas, o cabrão veio de São Bernardo com uma mão à frente e a outra atrás, ele pensa que eu não sei quem ele é, o miserável, filho de um juiz de fora, ninguém gostava dele, pediu transferência logo que a amásia ficou de barriga, se não fossem os outros dar-lhe alguma coisa tinha morrido de fome, nem o pai o viu alguma vez, se calhar nunca soube quem era, o filho da mãe, má rês, eu sei bem quem é o meu pai, tenho o nome na cédula, ele não.

- Mas, senhor Norberto, ele ameaçou que me cascava se aparecesse na loja sem os sapatos ou o dinheiro, o que é que eu posso fazer, se não levar os sapatos fujo, não terei coragem de lhe aparecer de mãos vazias, quando se zanga é uma verdadeira fera, esfrangalha-me todo! Por que é que o senhor não me dá os sapatos e vai lá amanhã buscá-los? Se eu apareço de mãos a abanar, mata-me!

- Quem mata esse bandido, esse anormal, sou eu, levo um estadulho e dou-lhe com ele pelo lombo abaixo, parto-lhe os ossos todos do corpo, que ele bem merece, tu não tens culpa, que ele é teu patrão, tu obedeces-lhe, não tens outro remédio, mas eu não sou empregado dele, não lhe tenho medo, diz-lhe a ele isto, que ele quando me vir até se caga todo, dou-lhe uma coça que vai ver, nem sabe de que terra é, leva os sapatos, leva, que eu até já nem os quero, que os sirva à ceia, os marinheiros da nau Catrineta também rilharam sola, que se empanturre com eles.

- Obrigado senhor Norberto, que Deus lhe pague, já não sabia o que fazer à minha vida, mal de quem obedece, o senhor, apesar de tudo, é livre, não tem quem mande em si.

- O meu patrão são os campos, o gado, o tempo, a natureza em geral, os produtos que quero comprar e não arranjo capital, as dívidas, a colheita, tudo, ninguém está bem nesta terra, só os ricos, os da Câmara, mas esses não nos ajudam, ainda nos enterram, se puderem, décimas e mais décimas, esses esbirros dos impostos não largam a gente; não te iludas, rapaz, os pequenos agricultores não são senhores, são escravos! E os de Lisboa não vêm cá! O mais certo é nem saberem que existimos. Que eu gosto do Salazar, se não fosse ele ainda estaríamos pior, salvou o país da bancarrota e endireitou Portugal, claro que nós os do campo nada beneficiamos com tudo isso, mas pelo menos o país continua a ser dos portugueses, olha que esteve em vias de ir parar às mãos dos comunistas, e dos estrangeiros, isto disse-mo um senhor importante.          

- Ó senhor Norberto, eu não percebo nada dessas coisas, sou muito novo, o que eu queria era os sapatos ou o dinheiro; para mim tanto me dá que sejam uns ou outros, o meu país é a minha terra, nunca saí daqui.

- Tens razão, rapaz; na tua idade isso não interessa. Quando fores mais crescido, quando tiveres de tomar decisões, de escolher, poderá vir a interessar-te esse assunto, agora é ainda muito cedo para saberes dessas coisas.     

   

XIII

 

Por a porta da traição uma víbora deslizava

 

     Regressemos a 1964. Encostados a uma árvore de grande porte, frondosa, cuja sombra beneficiava uma vastíssima área, bem perto de uma vetusta casa de granito, sem estilo definido, arredores da sede do concelho, onde não há muito tempo conversava eu amenamente com a Bera, encontram-se duas figuras: um homem e uma mulher. Ela parece triste, receosa, pensativa, escavada, olhar distante, quase arrependida de ali estar. Ele, afoito, atrevido, decidido a concretizar o seu objetivo. Aproximem-se, lenta e sorrateiramente, a fim de ouvir o que eles dizem:

 

- Artur, não sei se deva aceitar a tua proposta: ele é bom rapaz, gosta imenso de mim, não merece que lhe faça essa desfeita, que lhe pregue essa partida.

- Não sejas parva, Bera; não vês que o Cândido não passa de um pobre diabo, sem ambições, sem quaisquer perspetivas de futuro, nunca te proporcionará bem-estar, enche-te a casa de tinhosos e de miséria. Comigo será diferente: vais para França, até podes trabalhar na casa de uma senhora francesa, olha que as criadas lá ganham bons francos, eu também ganho bem, poderemos dar uma boa escola aos filhos, vimos aqui passar as férias todos os anos, no mês de Agosto, ou de dois em dois anos, entretanto construiremos aqui uma boa vivenda, teremos um bom carro, vais ser uma verdadeira «madame».

- Mas, Artur, eu tenho escrúpulos em lhe fazer isso; e também um estranho pressentimento, sou muito supersticiosa; se ele já estivesse na tropa, longe daqui, mas não, só vai…

- Não te preocupes com ele, a partir de hoje deixa-o por minha conta; não apareces aos encontros, dás-lhe uma desculpa qualquer, que a tua mãe está doente e que tu tens de tratar das refeições, qualquer coisa do género. Ah! Diz ao teu pai para tratar da papelada, se puder já vai connosco, eu arranjo-lhe trabalho em uma fábrica.

- O que estamos a fazer não é bonito, mas de facto a minha vida e a dos meus pais e irmãos melhorará muito.

- Pensas tu que ele não te faria o mesmo, aquele bacoco desenxabido? Nem hesitaria! Eu nem sei como tu lhe olhaste para a cara, tão bonita como és, tão desenvolta…

- Não digas mal dele, coitado, é um bonacho, vai ter um tremendo desgosto quando souber.

- Dás-lhe muita importância; aquele tolo idiota, uma comida sem sal, nem sequer tem onde cair morto. E com aquela mãe: sempre bêbeda e porca! E uma língua! Onde te ias meter! Olha para mim, Bera: agradeço-te do fundo do coração que o esqueças, vamos falar de nós, do nosso futuro, da nossa vida em comum.

- Será que me vou dar bem em França?

- O que te vai custar um pouco é aprenderes a língua francesa, mas ao fim de um ano já a falarás mais ou menos, não é nada difícil, vais ver. Olha, logo já vou falar com o padre Alberto para nos casar, se os papéis demorarem casamos por procuração e tu segues depois para França com o teu pai.

- Tu não podes ficar aqui mais algum tempo? Foi tudo tão rápido!

- Nem mais um dia; temos um mês de férias e nada mais. Se chego lá depois do prazo tenho que arranjar uma justificação médica, pois o mais certo é já não encontrar o posto de trabalho disponível, os franceses são muito rigorosos e têm muita gente nas listas para trabalhar: espanhóis, italianos, marroquinos, argelinos, até gregos!

- Eu gostava de ir já contigo, depois tenho de ir de comboio, deve ser uma viagem cansativa.

- Os comboios espanhóis não valem nada, isso é verdade, ainda são piores do que os portugueses; os franceses sim, são cómodos e rápidos, chegam a atingir noventa quilómetros por hora!

- Tenho a alternativa das camionetas, mas segundo dizem vão ali como sardinha na lata! E os do monte, fazem uma barulheira infernal, que confusão!          

  

XIV

 

Hesitei em dizer-to: agora já sabes!

 

 

     Dois homens, meus clientes e amigos, sabiam da marosca; contudo, não se queriam comprometer, passar por abelhudos. Vim a saber mais tarde que tiveram o seguinte diálogo:

 

- Não sei se o avisaremos, a Bera anda a fisgá-la e o crédulo rapaz desconhece tudo, um dia destes ela está casada, arranca para a França com o Artur da Teresa, e o pobre desgraçado apanha um desgosto que nunca mais terá cara para aparecer a ninguém, ele já é um pouco tímido, coitado, a mãe apanha cada borracheira, não ganha juízo aquela pobre de Cristo, nem merece este filho, é um ótimo rapaz, e agora isto, é demais, ainda por riba está quase a ir para o serviço militar, já está apurado na inspeção médica.

- Eu acho que devíamos avisá-lo, pelo menos ficava prevenido, olha que as mulheres são de se lhe tirar o chapéu, aparece por aí um tipo com umas coroas e ela vai de se lhe entregar; nem sequer respeitam os compromissos já assumidos, o que elas querem é a nota, boa roupa, boa comida, pinturas, botar figura, mas olha que quando for para a França ela vai ver, terá de trabalhar como uma escrava, limpar o esterco dos outros, que as francesas não fazem nada, são as criadas que lhes fazem tudo, ela se casasse com o Cândido seria pobre, mas era dona da casa dela, assim vai ser criada de servir de uma estrangeira, o que ela pensa, que vai para lá passear?

- Ouvi dizer que o Artur vai levar o sogro com ele, já andam a tratar disso, até parece que é tudo um negócio, vende a catraia e consegue ir para França com o genro, ao que nós chegamos, nunca esperei ver isto, olha que no meu tempo de rapaz havia mais seriedade no casamento, agora aparecem por aqui no verão, arranjam rapariga e casam, nem chega a haver namoro, o matrimónio assim nem é abençoado por Deus, ouvi dizer que anda por aí um emigrante dos Arcos de Valdevez à procura de noiva, diz que tem oitocentos contos de réis no Banco, quem mos dera, parece que a Sofia do Bogas vai casar com ele, a mastronça, já andou com um e com outro, a coisinha dela deve assemelhar-se a uma peneira rota, a um longo túnel, e olha que ainda não tem sequer dezanove anos de idade, começou cedo a galdéria. Os pais dela não vão com certeza perder esta oportunidade!

- O Cândido é um ingénuo, um parvalhão, um lorpa; eu se fosse a ele desligava logo, nem lhe olhava para a cara, que ela é um pedaço de mulher, lá isso é, boa que se farta, o Artur teve olhinhos, olha se ele foi buscar outra, havia por aí ainda raparigas solteiras e descomprometidas, agradou-se desta, pudera! Bonita e boa, com um namorado pacífico. O Cândido bem lhe pode dizer adeus, se calhar nem sequer molhou a sopa, que ele é um anjinho, devia estar à espera da noite do casamento, ao menos tivesse aproveitado, mas o palerma pensava que ela não lhe fazia esta patifaria, não conhece as mulheres, são capazes de tudo, só querem luxo, andar de carrinho, dar nas vistas, causar inveja às outras, agora que chupe no dedo, e que não se ponha a pau, não, que o Artur é um latagão e ainda o estoira de pancada se ele lhe disser alguma coisa, coitado, não lhe queria estar na pele, mas ele também não se vai meter com ele, quando souber é bem capaz de se pôr a choramingar como uma donzela, coitadito, tão sensível.

- Lá diz o ditado: «o marido cornudo é o último a saber», ele ainda não era marido, mas era como se fosse, nós já o considerávamos como tal, aos anos que eles se namoram, e a família, não viam outra coisa: «o nosso Candinho», só conversa. Agora já estão ao lado do emigrante: «tão bom rapaz, trabalhador, poupado…» Logo viraram o bico ao prego, oportunistas é que eles são, não deviam pactuar com esta maldade, isso não se faz, não sei qual é a opinião do padre Alberto, mas olha que ele não deve ter gostado desta vil e feia ação, mas claro vai ter de os unir pelos laços do matrimónio.                    

- Ó Chico, o que os padres querem é maçaroca, e olha que o Artur é bem capaz de lhe untar bem as mãos, de lhe dar uma boa nota, das maiores, que ele tem pressa e não quer perder a noiva, o sacerdote que lhe apresse o matrimónio, que ande depressa com a papelada, um mês voa.

- Ó Tónio, cá na minha, penso que o moço devia ser avisado, o rapaz vai ter um chelique quando souber.

- Que se cozam, depois ainda dizem que a gente anda a intrometer-se na vida deles; olha, mulheres há muitas, quando vier da tropa que arranje outra, o futuro a Deus pertence, eu não me meto nisso, se quiseres avisá-lo avisa-o, mas não me impliques a mim nesses imbróglios.    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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