LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
IX
Os túneis
da alma também podem ser iluminados
Insaciável, vou adquirindo informação,
jogando os trunfos disponíveis, ansioso por saber o meu passado e o dos meus
maiores; não é uma curiosidade mórbida que me move, que me faz rodopiar sobre
um tempo que não é o meu mas que julgo também pertencer-me por sangue, pelos
laços que me ligam a essas pessoas. Vão ter mais uma oportunidade de escutar
uma conversa com o meu irmão Olavo, o meu irmão inteiro, como gosto de
sublinhar. Desta vez encontrámo-nos sentados num banco do jardim, perto do
coreto da Vila. Não façam qualquer ruído e escutem:
- Então tu, depois de
fazeres a quarta classe, foste para a cidade dos alfacinhas?
- Fiz a quarta-classe
em Julho de 1954, na escola primária Conde de Ferreira, situada bem ao cimo da
Praça da República, era meu professor o senhor Romano, iria completar treze
anos em Setembro, portanto ainda a acabei com doze anos de idade. Nessa altura
estava a nossa mãe amantizada com o velho, o tendeiro Acúrsio. O bruxo não
gostava nada de mim, fazia-me a vida negra, da cor do basalto, o que ele queria
era que saísse de casa, para se sentir mais à vontade com a velhota, tu não
estorvavas, eras um badameco, um medricas, um zé-ninguém, um choninhas, não
contavas absolutamente para nada; eu não, era teso, impunha-lhe respeito,
comigo não se metia, ai não, que o derretia, que o amassava de pancada,
rachava-o ao meio, ao filho da mãe, ao feiticeiro duma figa. Nas férias grandes
puseram-me a servir, em Cendrães, a tratar do gado e a cavar os campos, a puxar
a charrua, a mim, uma criança, e sem nunca ter trabalhado na agricultura; a tua
mãe colaborava com a besta, e aplaudia, tinha medo dele, mas também o que ela
queria era alguém que lhe desse vinho e que dormisse com ela, uma badalhoca,
uma cabra, andar com aquele velho porco, que nem sequer era da terra, era de
fora, da terra dos bandidos.
- A mamã não teve
culpa, coitada, estava farta de sofrer, precisava de alguém que olhasse por ela
e pelos dois filhos mais novos.
- Olhar?! Maltratar,
queres tu dizer. Contigo as coisas eram diferentes, eras um coitado, não podias
com um gato pelo rabo; ora eu tinha corpo, já fazia a barba com treze anos,
tinha cara de homem. Mal acabei a escola mandaram-me plantar pinheiros para a
floresta, a mais de vinte quilómetros da Vila; tinha de ir a pé, carregado com
batatas, feijão, toucinho, uma panela para cozinhar, alimentos para uma semana,
tinha de passar por aqueles montes, os lobos uivando, assustavam qualquer um,
depois de lá chegar tinha de trabalhar como um escravo, tínhamos de plantar
milhares de pinheiros, a comida era escassa, dormíamos no chão, em cima de
palha de centeio, aquilo não era vida para um rapaz de treze anos.
- Então resolveste ir
para Lisboa.
- Não foi fácil, pois
era necessário ter lá alguém que me arranjasse emprego, o Ambrósio estava
prestes a ir para a América do Sul e a Susana era criada doméstica, pouco me
poderiam valer, mesmo assim ainda ajudaram. Conheciam um indivíduo aqui da
Vila, o senhor Anastácio, que possuía estabelecimento de comércio na capital do
país, fui para lá, mas o ordenado era demasiado baixo, e fartava-me de
trabalhar, tinha de entregar os cabazes das compras aos fregueses, subir
centenas de escadas todos os dias, agora os prédios já têm elevador, naquele
tempo não tinham, carregado que nem uma mula, sem horários, coitado de mim, ia
rebentando.
- Foste promovido…
- Saiu de lá um
empregado de balcão e o senhor Anastácio deu-me esse lugar à experiência; fiz
tudo para agradar, agradei, a minha vida melhorou um bocadinho, mas olha que a
comida não prestava, e o pagamento era uma ninharia, uma miséria, não havia uma
hora de sair, trabalhava mais de doze horas por dia!
- Estavas a ser
explorado.
- Se estava! Bem o
podes dizer. O tipo enriquecia à nossa custa, todos se aproveitam dos pobres,
depois vão à igreja bater com a mão no peito, os filhos de uma macaca, é para
Deus lhes perdoar, mas não lhes perdoa, que ele é justo, está do lado dos
desprotegidos, dos sem rumo, mas olha que às vezes tenho dúvidas, há ricos que
nunca são castigados e fartam-se de fazer patifarias, de cometer pecados.
- Que sabemos nós
disso?! Estiveste em Lisboa até ires para a tropa.
- Que remédio; tinha
imensas saudades da terra, dos amigos, mas nessa cidade é que tinha o emprego,
não era grande coisa mas era melhor do que nada, aqui só se fosse trabalhar
para a estrada, abrir valas para os cabos telefónicos, ou outra vez para a floresta,
isso nunca mais, fartei-me de sofrer, só o cheiro daqueles homens imundos,
nunca tomavam banho, eu ainda ia ao rio tomar, mas eles nem isso, cheiravam mal
que tresandavam, uma imundície, não se aguentava, e ainda por cima se peidavam,
fartavam-se de comer feijão e depois mais parecia uma guerra de puns, e os
filhos da mãe riam, achavam graça àquilo! Eu sentia repugnância, metia a cabeça
debaixo da manta, mas o cheiro era demais; depois as pulgas, as gajas
mordiam-me todo, de manhã acordava cheio de picadelas, e os piolhos, às
centenas, era uma autêntica tragédia, pior ainda do que em nossa casa. Em
Lisboa havia mais limpeza, dois lençóis brancos na cama, uma caminha pequenina
só para mim, alugara um quarto na Baixa, numas águas-furtadas, baratucho, o pior
era quando chovia, o telhado estava uma desgraça, o prédio era do século
passado, se sofrera obras já devia ter sido há muitos anos, a dona era uma
macróbia e não tinha dinheiro para o mandar consertar, quando caísse, caía, mas
primeiro ainda havia de morrer ela.
- É engraçado, quando
eu e a mamã fomos a Lisboa visitar-vos em 1961 estavas tu prestes a entrar na
recruta.
- E lembras-te daquela
vez que penetrei na casa dos vizinhos da Susana?
- Já não me recordo
bem, conta.
- Ainda na rua, toquei
à campainha do terceiro andar quando devia ter tocado para o quarto; de cima abriram,
deviam ser seis horas da tarde, e fui subindo as escadas, que nunca mais
terminavam; logo que vi uma porta aberta entrei; sentei-me no banquinho que se
encontrava na cozinha e esperei tranquilamente como era hábito. Às tantas
começo a ver caras totalmente desconhecidas para mim. Então pensei: «olha que este não deve ser o apartamento
onde reside a tua irmã!» Sem me denunciar, ergo-me sorrateiramente, saio
porta fora, galgo mais uns degraus, e fui bater à porta do andar de cima –
reconheci de imediato a pessoa que me veio abrir a porta.
- Eras mesmo um labrego!
E tiveste sorte, pois aquelas pessoas na sua maioria eram hóspedes; se fosse
uma família mandavam-te prender, pensando que eras um ladrão!
- Normalmente os irmãos
mandam ir os outros para a cidade ou para o estrangeiro, mas tu a mim nunca me
disseste para ir trabalhar perto de ti!
- Ainda pensei nisso,
mas tu não tinhas corpo nem energia suficiente para aguentar aquela vida, borravas-te
todo, não aguentavas uma semana, ias-te logo abaixo das canetas; aquele
trabalho de carregar às costas cestos com quilos e quilos de mercadoria só para
gajos fortes, possantes como bois, por outro lado tu estavas a aprender um
ofício, embora não desse muito sempre ia dando para a comida, casa não pagavam
e o bruxo sempre ia desembolsando alguns escudos.
- Não sabes que a mamã
se zangou com o feiticeiro no ano seguinte à tua ida para Lisboa? Zangaram-se,
mas depois ele começou a rondar a porta, o que ele procurava sabia eu, era
velho, mas para isso não! A tua mãe pouco tempo lhe resistiu, fez logo as
pazes, mas aí intervim eu, apanhei os dois na cama, eles pensavam que eu só
aparecia à noite, que tinha ido ao rio, eu costumava ir todos os fins-de-semana
à pesca, era o meu desporto favorito, além do futebol, levava um livro para
ler, o que me fascinou mais foi o Don Quixote de la Mancha, fartava-me de rir,
é uma obra extraordinária, muito bem escrita. Sabes que eu até falava com as
águas que, lenta ou velozmente, corriam para o mar? Serviam-me de amigo e
confidente. Nesse domingo de verão à tarde, e como já havia tempo desconfiava
deles, não fui à pesca. Nesse dia resolvi andar ali por perto. A porta da casa
estava trancada, era para eu não entrar caso aparecesse de surpresa, mas eu
engendrei outro processo, outro método de entrar. Ágil como era, qual esquilo jovem,
entrei pela varanda, peguei na machada, aquela que levava para o monte para
cortar a lenha, e gritei-lhe: «saia
imediatamente dessa cama, seu velho porco, e ponha-se na rua, se o vejo cá
outra vez mato-o!» O filho da mãe viu que eu estava a falar a sério, a mamã
chorava, não era certamente de vergonha, que essa já a tinha perdido há muito
tempo, mas de raiva por ver que eu já estava crescidinho e jamais lhe aceitaria
estas jogadas sujas, enquanto esteve amigada com ele era uma coisa, agora ele
entrar na casa como se ela fosse uma prostituta, talvez pagando-lhe, isso não.
- E o bandido, como
reagiu?
- O patife meteu o rabo
entre as pernas, como fazem os cães cobardes, e nunca mais entrou na nossa
casa, grande besta, tinha-lhe uma raiva, um pó, que nem para a cara lhe podia
olhar.
- Pensava que te davas
bem com ele!
- O somítico, quando eu
fiz a quarta classe, em Julho de 1955, ofereceu-me um fato de macaco, de ganga,
de cor azul, daqueles que usam os mecânicos nas suas oficinas, e umas
alpercatas, para levar ao exame, parecia uma miniatura de operário, até os
outros alunos se riram de mim, que vergonha, valia mais ter ido com a minha
roupinha rasgada e o cinto e corda, era assim que eu sempre andava, e já
ninguém se ria de mim.
- Depois ficaste
sozinho com a mamã.
- Ficámos com alguma
tenda e fomos pelos lugares do concelho tentar vendê-la. Muito calcorreámos:
léguas e léguas de veredas, caminhos de cabras, por vezes tudo encharcado.
Claro que foi um autêntico fiasco: a mamã embebedava-se e perdia a conta aos
artigos que se vendiam, eu ia apontando, mas que queres, tinha pouco mais de
onze anos de idade, sem experiência de vendas, ela era uma analfabeta pura, o
velho é que sabia vender, até parece que nascera tendeiro o raio do homem.
Passado uns meses já não tínhamos tenda nem dinheiro para pagar aos
fornecedores, foi um autêntico caos, um desastre absoluto. A seguir fui
aprender o ofício de sapateiro, engraxava sapatos nos dias de feira e aos
domingos, dez tostões cada engraxadela, alguns ainda achavam caro! Ia ganhando
para a bucha, a mamã continuou a percorrer as aldeias, agora sem tenda,
conhecia muita gente, ajudava aqui e acolá, iam-lhe dando umas malgas, algum
milho, uns pedaços de broa, feijão, umas chouriças, coisas estavam muitas vezes
já a estragar-se, que eles receavam comer, nós éramos o caixote do lixo, a
cloaca; ela aproveitava tudo, eu não podia ingerir essas coisas, já tinha o
estômago estragado, fartava-me de vomitar. Lembras-te quando estive internado
no hospital?
- Lembro-me
perfeitamente, foi quando viemos para a Vila, tinha eu quase nove anos, tu
andavas muito enfezado, não comias nada, amarelinho, parecias tuberculoso, a
tua mãe foi pedir ao médico para te internar no hospital da Santa Casa da
Misericórdia, estiveste lá uns dias, depois fugiste, não sei porquê!
- Fugi porque não
gostava de lá estar; parecia-me uma prisão, tu cá fora a brincar e eu lá preso,
a comer sopa de galinha, sem sal, aquilo não prestava para nada, as enfermeiras
é que eram simpáticas, sobretudo a Maria do Céu, nunca a esquecerei, era o meu
anjo da guarda, tratava-me como se eu fosse o menino querido dela, tão bondosa,
eu pinchei as grades, pronto, não gostava de lá estar, nem da comida, dormia
junto com velhos, morreu lá um à minha beira, apanhei um susto dos demónios,
nem queiras saber, nunca tinha visto um homem morrer, tinha os olhos
esbugalhados, parecia um fantasma, muito branco e amarelo, meterem-me ali, com
aqueles idosos doentes, aquele cheiro a remédios, eu vomitava, até desejava
morrer, saltei aquele portão, aquelas setas de ferro apontadas ao céu, podia
ter ficado ali espetado, coitado de mim, mas eu também não me importava, o que
eu não queria era lá estar, queriam dar-me óleo de fígado de bacalhau, que
nojo, ainda vomitava mais, saía-me da garganta um líquido verde, viscoso,
aquilo vinha das tripas, porque eu não tinha no estômago nenhum alimento.
- Sofreste muito, eu na
altura ainda te batia, estou cheio de remorsos.
- Escusas de estar,
eras uma criança, só mais velho do que eu cerca de três anos, não compreendias
o meu tormento, pensavas que eu fazia tudo aquilo por maldade.
- Depois a mamã, quando
soube, andou à tua procura, tu não aparecias, ninguém sabia onde te meteras,
levaras sumiço! Até se pensava que tinhas ido para o rio, que te afogaras…
Pensaram-se imensas coisas. Eu, apesar de tudo, de seres refilão, de brigares com
todos, de seres um rebelde, apesar disso, gostava de ti, mas claro, andavas
atrás de mim, eu tinha os meus amigos, tu eras uma formiga à nossa beira, nós
íamos à fruta, eu não queria que nos acompanhasses, devias andar com os da tua
idade. Tu insistias e eu tinha que te bater, casquei-te bem, um dia até
desmaiaste! Fiquei com medo, o soco fora muito forte, mas passado pouco tempo
abriste os olhos, que alívio para mim.
- A mamã quis levar-te
outra vez para o hospital…
- Eu disse-lhe então
que preferia matar-me, preferia desaparecer para sempre, que me importava? Que
me batesse, que me arrastasse pelas ruas, eu fugiria sempre, iria para o monte,
para junto dos lobos, das feras, não queria estar na «cadeia», com aquela gente esquisita, a comer somente caldos de
galinha, a cheirar permanente aqueles químicos, a apanhar todos os dias aquelas
injeções assassinas.
- Ficaste em casa,
foste melhorando pouco a pouco.
- Naquelas idades ou se
melhora ou se morre; é verdade que nunca fiquei completamente bom, tive sempre
problemas na barriga, de vez em quando bichas pelo rabo, até pela boca, mas as
coisas evoluíram favoravelmente; graças a deus, e talvez àquele chã de ervas
amargas, que todos os dias tomava, comecei a comer melhor, a engordar um
nadinha. Lembro-me que até alfarrobas comi! Tinham vindo do Algarve para
alimentar os cavalos dos guardas-fiscais; apanhei-os de costas, saltei para
dentro da camioneta e tirei um punhado cheio – que grande barrigada! E eram
doces como o mel.
- Podias ter rebentado,
dizem que a alfarroba é muito indigesta. Depois a escola…
- Entrei para a
primeira classe aos sete anos, era tão pequenino, tão raquítico, um fuinha; o
professor nem queria acreditar que eu tivesse aquela idade, parecia um anão,
magrinho, lanudo, descalço, que calçado só aos treze ou catorze anos é que tive
umas sandálias que a mulher de um carabineiro me deu, estavam-me grandes, mas
era melhor do que nada, pelo menos não trazia os pés no chão, que olha: os meus
pés já pareciam de sola, eram mais duros do que as pedras, tu também passaste
por isso, sabes do que estou a falar, mas olha que mesmo com fome e sem
agasalho era dos melhores alunos, o professor Romano gostava muito de mim,
chamava-me o Candinho, tinha uma grande simpatia por mim, ai não!... Que eu
levava a escola a sério, sabia a tabuada de cor, não era como alguns,
desertavam, não gostavam das aulas, depois o professor batia-lhes, os pais iam
reclamar, acusavam, diziam que os filhos tinham as costas todas doridas das
canadas que o professor lhes dava, daquela cana-da-índia sempre encostada ao
quadro-negro, até parecia que nos olhava com ar zombeiro! Mas eles não
estudavam, os mandriões, só andavam na escola porque eram obrigados, nunca
estavam atentos ao que o mestre ensinava, depois não sabiam nada, nem a tabuada
dos dois! Um chegou a ir à cama por causa das canadas e reguadas que apanhou,
coitadito, mas o professor fazia aquilo para bem deles, pensava que batendo-lhes
eles se dedicariam mais aos estudos, mas não resultava, só alguns, poucos, é
que começaram a portar-se melhor, com receio de apanharem!
- Tu ainda chegaste a
estudar mais alguma coisita…
- Tinha eu dezassete
anos, apareceu aqui na Vila curso designado “Curso Elementar de Aprendizagem
Agrícola”, teria a duração de quatro anos, mas só fiz os dois primeiros, era
necessário haver um determinado número de alunos, todos do sexo masculino, as raparigas
não eram aceites, foi pena, porque os rapazes não gostavam de estudar,
preferiam o trabalho pesado da lavoura ou da construção civil, assim só davam o
corpo ao manifesto, não esforçavam o cérebro, e por essa razão acabou por falta
de estudantes, ao cabo de dois anos éramos somente três, eu ainda cheguei a ir
buscá-los a casa, mas eles, calaceiros, arranjavam quase sempre uma desculpa
infantil para não irem. O professor era o senhor Salomão, boa pessoa, viria a
morrer atropelado na cidade por um automóvel anos depois, gostava muito de dar
as aulas, aprendia-se bastante, eram matérias interessantes: português,
matemática, desenho profissional, ciências…; foi quando eu comecei a trabalhar
por conta própria, o meu patrão tinha ido para França – não ganhou nada com
isso, acabou por morrer estoirado, ele era trinca espinhas como eu, foi à
procura dos francos, mas o que ele encontrou foi a maldita morte. Coitado,
deixou dois filhos pequenos e a viúva, ele aqui até ganhava mais ou menos, mas
viu os outros irem e não resistiu, a ganância, queria enriquecer, mas olha que
eu nunca vi ninguém enriquecer com o trabalho, seja em França ou noutro país
qualquer, só se for com negócios, e por vezes sujos.
- Isso é verdade, eu
também nunca vi ninguém ficar rico a trabalhar, claro que os emigrantes juntam
algum dinheiro mas é à custa de muitas horas de trabalho, quase que não
descansam, e cuidam eles próprios da alimentação e da roupa, além disso vivem
em barracas de lata, nos chamados bidonvilles, porque se morassem numa casa
verdadeira já não amealhavam tanto, os carros que trazem são alugados ou
comprados em segunda ou terceira mão, porque os novos são muito caros, não são
para a sua bolsa, os usados é que são baratos, ouvi dizer que os franceses
mudam de carro como quem muda de camisa, ganham bem, podem comprar bons carros,
os portugueses comparados com eles são uns pelintras, uns pobretanas.
- Quando apareceu a
televisão já tu estavas em Lisboa quase há três anos. Nem fazes ideia o que foi
por aqui: as mulheres e os homens, velhos e novos, acorriam ao único Café com
aparelho de TV; o dono não tinha cadeiras e espaço para todos, alguns, muitos,
ficavam em pé, chegava a haver zaragatas; era obrigatório consumir, pelo menos
um café ou um leite com chocolate. Nos primeiros tempos era uma borga,
interrompiam constantemente os programas, havia um interlúdio, um gato de um
lado para o outro, as pessoas desesperavam, a tia Ernestina dizia alto e bom
som que preferia a rádio novela, pelo menos não havia interrupções nem gatos; é
verdade que ela deixava passar em claro o facto de se ouvir mal a rádio, era só
ruídos, pois a corrente elétrica espanhola não era suficientemente potente para
os aparelhos funcionarem bem.
- Em Lisboa também foi
uma paródia, um pandemónio, todos os Cafés rivalizavam entre si, compraram
aparelhos enormes, pareciam caixas, queriam atrair mais clientela, as ruas a
certas horas da noite permaneciam desérticas, toda a gente ficava horas
especada frente ao televisor. Um grande acontecimento, um fenómeno!
- Ainda me lembro dos
primeiros programas, com o Artur Agostinho, o Camilo de Oliveira, etc.; muito
nos ríamos com aquelas palhaçadas! Passados que foram os meses iniciais, voltou
tudo à normalidade. Além dos Cafés as pessoas começaram também a adquirir televisores,
o espantoso evento vulgarizou-se.
- Quem deve ter perdido
clientes foram os donos dos cinemas e outras casas de espetáculo.
- Sem dúvida. Aquelas
casas cheias: quintas à noite, sábados e domingos, tarde e noite, deixaram de
se verificar. O dono do Cine-Pelicano já dizia que por aquele andar mais tarde
ou mais cedo teria de encerrar as portas, os alugueres dos filmes eram elevados,
tinha de pagar aos guardas-republicanos e aos bombeiros, consumia muita
eletricidade, havia que pagar aos empregados, a receita já não cobria a
despesa.
- Tantos filmes lindos,
eu vi naquela Sala!
- Lembras-te dos filmes
de Charlot, do Cantinflas, do Bucha e Estica, do Fernandel, do Totó? E o
Costinha, Vasco Santana, o extraordinário António Silva?! Fizeram-me rir até às
lágrimas.
- Eu gostava mais dos
filmes de cow-boys e peles vermelhas, do Búfalo Bill, dos Três Mosqueteiros, e
também dos policiais.
- Também apreciava
esses, mas os meus preferidos eram os filmes bíblicos. Por exemplo «Moisés»,
«Dez Mandamentos», «Ben-Hur», etc. Um filme que nunca esqueci, e não me
importava de ver outra vez, foi «A mulher que viveu duas vezes»! Grande filme.
«A Senhora de Fátima e os Três Pastorinhos» teve aqui muito êxito; muitas
pessoas saíram do cinema a chorar, de tão comovidas.
- A mim vinham-me as
lágrimas aos olhos com os filmes de Joselito e de Marisol, que comoventes, e
que vozes, pareciam rouxinóis a cantar! Também gostava de «Robin dos Bosques».
O Errol Flynn fazia um papel extraordinário em «O Gavião dos Mares». O
«Corcunda de Lagardère» encheu-me as medidas. Tantos!
- Por causa dos filmes
de espadachins perdeu um olho o “Vesgo”.
- É verdade.
Brincávamos com espadas feitas de madeira e o “Zé Pirete” furou-lhe um
olho.
- Podia ter havido mais
incidentes. Lembras-te quando andávamos a atirar setas uns aos outros?
- Se lembro! Uma altura
o “Nesgas” fez um buraco na perna do “Pinchas” – o rapaz gritava como um doido.
- Velhos tempos! Apesar
da fome que rapámos, do frio, de toda aquela miséria, mesmo assim sinto
saudades desses anos, desses incríveis momentos que jamais voltarão, do meu
pião, do meu arco, do meu carro de madeira, de todos aqueles brinquedos que eu
tive.
- A tua vida quase dava
um romance!
- Dava, dava; mas logo
nas primeiras páginas os leitores desistiriam de o ler – quem gosta de chorar?!
X
A denúncia
virtuosa e a virtude enxovalhada
Eu desdobrava-me em consertos, a
confecionar o almoço (que no Minho chamam jantar). Nesta região há
quatro refeições por dia: almoço (entre as sete e oito da manhã); jantar (entre as doze e as treze horas);
merenda (a
meio da tarde); e a ceia (entre as oito e as nove horas da noite). A
maior parte dos dias também fazia a ceia, pois como já sabem a minha mãe
deslocava-se para as aldeias e no regresso, entre as nove e dez da noite,
quando não mais tarde, já trazia uma grande piela, mal se segurando nas pernas.
Por tudo isto, eu não dispunha de muito tempo livre para o namoro e por essa
razão a minha apalavrada começou a ver outros “filmes”, cenários mais vistosos,
perspetivas mais consoladoras. O meu grande amigo Rina apercebeu-se, raposa
como era, da tramoia, e corre à oficina a fim de me avisar. Escutem:
- Ó Cândido,
conheces-me, eu não quero ser intrometido, mexeriqueiro, mas olha que dizem
coisas por aí!
- Eh, pá, desembucha.
- A tua namorada anda a
pôr-tos, já a viram aos beijos com o filho da Teresa, cheira-lhe a «cacau»,
eles vêm de lá cheio dele, o tipo já está em França há uns anitos, por isso é
que pôde cá vir, pagou a taxa militar, até já se fala em casamento, tu põe-te a
pau senão ficas sem ela, agora que vais para a tropa, ela deixar-te assim! Eu
não vi nada, mas quem mo afirmou não costuma mentir, põe-te a pau, repito, eu
no teu lugar esclarecia isso com ela, ser tua namorada e andar no marmelanço
com outro é que não, comigo as raparigas não fazem farinha, que eu até lhes
rebento com a focinheira, elas a mim têm-me um temor que se pelam todas.
- Mas ouve lá, Rina:
ainda ontem estive com ela, não me disse nada, não abordou esse assunto, portou-se
como de costume, com naturalidade, isso deve ser mentira, aqui na nossa
patriazinha toda a gente mete o bedelho na vida dos outros; lá que o marmanjo
se interesse por ela, isso talvez, e até certo ponto compreende-se, ela é um
pedaço de mulher, não é por ser minha namorada, mas olha que deve ser a mais
bonita do concelho, põe os olhos em bico a qualquer um, eu sei que me têm
inveja, lá isso têm, mas eu não me importo, ela gosta de mim e respeita-me, já
deu provas disso, não acredito que me trocasse por ele, muito mais velho do que
ela; não acredito. Que falem, deixa-os falar, tu és meu amigo, somos como
irmãos, e sabes que eu não me importo com o que dizem, a boca é para falar, que
falem: «o cão ladra e a caravana passa!»
- Não sei, não há fumo
sem fogo, se fosse a ti precavia-me, as mulheres são capazes de tudo,
conheço-as bem, como as palmas das minhas mãos, já tive mais de seis namoradas;
as cabronas não eram de fiar, logo que outros lhes rondassem a porta, lhes
piscassem um olho, fizessem tilintar uma moeda no bolso, atiravam-se-lhes para
os braços, mas não se ficavam a rir, partia-lhes os dentes logo que tivesse
conhecimento disso, pelo menos não se ficavam a rir.
- Também há quem diga
que uma delas te pôs o corpinho de molho!
- Isso foi a Amália do
Regueiro, a malvada tinha uma força de dois homens, era virago, dei-lhe umas
bofetadas nas ventas, mas a gaja atirou-se a mim como uma gata, um tigre,
arranhou-me todo, mordeu-me o nariz, ia-mo cortando, deu-me um pontapé nos
tomates, ia-me aleijando, cabrona, que força ela tinha, tive de dar às de
vila-diogo, se não matava-me, quando a vejo ainda tremo, mas olha que essa é
tesa, ninguém lhe faz frente, depois vinguei-me nas outras, malhei que nem em
centeio, é como se estivesse a bater nela!
- E o irmão da
Filomena, parece que também te amaciou a pele!
- Oh! O João da
Queijas, esse, coitado, veio gabar-se para aqui que me batera! Eu dera uma
tareia na irmã, quis vingar-se; mas foi tudo mentira, quem levou das boas foi
ele, que eu, não é para me exibir, mas assapei-lhe bem, dei-lhe uma moia que
não esquecerá tão cedo, até foge de mim quando me vê, ainda outro dia fui a um
baile à aldeia dele, a Goibães, olha que não apareceu; eu, se ele aparecesse,
já estava preparado para lhe malhar outra vez, mas o tratante não é parvo, se
calhar avisaram-no, ele que aparecesse…
- Estas guerras entre
os da Vila e os da aldeia nunca acabam, já quando nós éramos pequenos, quando
eu vim para cá, ouvia falar nelas, os daqui gabavam-se que tinham dado grandes
tareias nos da aldeia, mas parece que não era bem assim, os outros jogavam bem
o pau, eram exímios com ele, não temiam os da Vila, chegavam-lhes bem, uma
coisa é um indivíduo ser gabarolas, outra coisa é a realidade, quando os paus
voam pelo ar não há costas que escapem, levam todos.
- Nós agora é que
estamos a ficar cobardolas, olha que os mais antigos, os da idade do meu pai,
esses tinham-nos no sítio, a esses ninguém fazia o ninho atrás da orelha,
pudera! Levavam poucas, nós encolhemo-nos, quando vamos às festas e bailes
estamos sempre com receio que caia bordoada, mas olha que naquele tempo eles é
que tomavam a iniciativa, não esperavam que os outros começassem, as pobres
mulheres desandavam, era uma gritaria dos diabos, eu ainda assisti a algumas
lutas, a minha mãe fazia um escabeche dos diabos, não queria que o meu velho
andasse à pancada, mas ele tinha de ajudar os outros, aquilo fazia lembrar os
mosqueteiros «um por todos, todos por um.»
- Nós agora somos mais
civilizados, já não usamos pau, por outro lado antigamente não havia GNR, agora
os guardas não consentem essas guerrilhas, e andam bem armados, caramba, até
podem num ápice matar um tipo. Outro dia, na festa de Santa Quitéria, não sei
se lá estavas, os guardas Silvino e Rómulo puseram-se aos tiros, um tipo
borra-se todo, uma bala daquelas leva um homem para o jardim das tabuletas num
segundo, eu pus-me detrás de uma árvore, apanhei cá um susto, nem é bom
lembrar.
- Eu chegara havia
minutos, andava à tua procura, os guardas trouxeram uns quantos presos para a
cadeia, parece que bateram neles que nem fossem animais, nunca mais vão querer
meter-se noutra, os gajos não são para brincadeiras, dão tareia da grossa,
hóstia, dão com a coronha da espingarda, até partem a cabeça a uma pobre
criatura de Deus.
- As festas assim ficam
mais calmas, já toda a gente pode andar à vontade, sem receio de apanhar uma
paulada, esse costume está fora de moda, nós queremos e desejamos é
divertirmo-nos, eu não gosto de confusões, de balbúrdias; os arruaceiros
estragavam a festa quando ela estava no auge, embebedavam-se e pronto, toma lá
porrete!
- Mas assim as festas
não prestam, perdem toda aquela beleza, o colorido, tornam-se festas para
mulheres e crianças, calmas, somente a música, primeiro a missa, a procissão,
toda a gentalha sabe o que se vai passar, não têm graça nenhuma!
- Há as cantigas ao
desafio, os ranchos folclóricos, as moçoilas a passear de um lado para o outro,
os namoricos, a banda de música… Sabes que a nossa banda é considerada uma das
melhores do Minho?
- Graças sobretudo ao
mestre Fernandes.
- Extraordinário
maestro! Mas dizia eu: na festa de Santa Maria levámos, eu e a minha velhota,
para merenda, um galo estufadinho no tacho, que bom, foi um petisco, passámos
um dia maravilhoso, eu gosto de paz, sempre fui pacífico.
- Também não tens
corpo, nem garra, se tivesses eras como os outros, quererias botar figura,
assim refugias-te debaixo das saias das mulheres, e elas abusam de ti!
- Sabes que isso não é
cem por cento verdade; há pessoas agressivas por natureza e outras que não o
são, eu pertenço a estas últimas, nasci assim e sinto-me bem comigo, com a
minha consciência.
- És muito diferente de
mim, eu gosto de movimento, de ação, de protagonismo.
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