LEMBRANÇAS AMARGAS
Romance
Por Joaquim A. Rocha
XXXIV
Nem sempre
é princípio o fim
Escutem, se puderem, esta interessante e
comovedora conversa entre avô e neto:
- Avô, o senhor
provedor vai deixá-lo entrar para o asilo.
- Parece que estás
contente por isso!
- Contente e triste, ao
mesmo tempo; preferia não ter de ir à tropa, ficar aqui consigo e com a minha
mãe, apesar de ela ser como é.
- No meu tempo de jovem
a vida militar era boa para alguns: ficavam lá, faziam vida daquilo, sempre
tinham comida, roupa, uma cama para dormir e algum dinheiro.
- Ganhavam pouco…
- Quando fui às sortes,
em 1909, toda a gente ganhava pouco neste país, excetuando uns quantos; por
isso, ter um prato de comida, mesmo que não prestasse, já era bom.
- Quando ouço falar as
pessoas da sua idade fico com a ideia de que era melhor não terem nascido!
- Bem podes dizê-lo;
muitas vezes desejei morrer ao longo da minha triste vida. Não calculas, mas tu
também já passaste por isso, ter fome e não ter nada para comer, ter frio e não
ter roupa para vestir, ter febre e não termos ninguém que nos refresque a
testa.
- Pobre avô.
- Mesmo assim penso que
não foi mal ter nascido, ter visto e vivido tudo aquilo que vivi, ter comido o
pão que o diabo amassou. Depois da morte terei milhares de histórias para
contar àquelas almas que comigo estiverem, dessa maneira não nos aborreceremos
no além.
- Sabe que às vezes
penso nessa vida depois da morte? É uma sensação esquisita, estranha!
- Todos deviam pensar;
seriam mais compreensivos, e tolerantes, uns para com os outros.
- O senhor padre
Alberto disse na missa de domingo que os maus iriam todos arder no inferno; os
bons iam para o paraíso; e aqueles que não são bons nem maus aguardarão no
purgatório que deus ou o diabo os chamasse!
- Terão de esperar que
haja vaga, como eu esperei agora para entrar no asilo, no quartel.
- É curioso: mesmo
depois de morrer é preciso ir para a fila, aguardar a sua vez!
- Mas, uma vez no céu,
fica-se lá para sempre.
- Deve ser bom viver
lá.
- Para nós, os que aqui
neste planeta vivemos mal, qualquer coisa melhor do que isto será bom.
- Se eu soubesse onde
se encontra o seu filho…
- Quando entrei na
vossa casa disse-te que nunca tivera notícias dele; isso não é completamente
verdade. Há uns dez anos atrás recebi uma carta dele e da minha nora dizendo-me
que qualquer dia apareceriam por aí a fim de nos visitarem; até hoje ainda não
recebi essa visita!
- O avô respondeu à
carta?
- O senhor Antunes da
mercearia é que me fez o favor de responder; eu não sabia o que lhe falar, não
tenho escolaridade nenhuma.
- E a direção?
Lembra-se da direção?
- A carta perdeu-se,
deve ter ido parar à estrumeira, ou à fogueira; só me lembro que o lugar onde
moravam se chamava Porrinho.
- Porrinho é na Galiza,
já ouvi falar nesse nome.
- Seja onde for, eu não
podia lá ir; nem dinheiro tinha para comprar comida, quanto mais para passeios!
- Vou perguntar a
alguém, talvez ao senhor professor Romano, ele sabe tudo, se conhece essa
localidade galega. Se fosse perto daqui e as viagens não ficassem muito caras
dava lá um pulo; até pode ser que ele o venha buscar, nesse caso já não ia para
o asilo.
- És tão generoso, mas
olha que se ele se lembrasse do velho pai já cá tinha vindo buscar-me há muito,
com certeza que também vive com dificuldades, os espanhóis não estão melhor do
que nós, não penses.
- Ele pode julgar que o
avô ainda se encontra a trabalhar os campos, que a avó está viva, enfim, não
lhe passará pela cabeça que as coisas correm deste jeito.
- Podes tentar saber,
mas não tenho nenhumas esperanças.
XXXV
Nas
entranhas do animal coabitam o bem e o mal
Procuro colher informações sobre a
localidade onde presumivelmente se encontra o meu pai. Quero tentar
localizá-lo, a fim de lhe pedir que leve para a sua beira o meu avô Agostinho,
evitando desse modo a sua entrada no asilo. Será que o vou conseguir?
- Senhor professor,
onde fica o Porrinho?
- Na Galiza; ainda é um
bocado longe daqui.
- Muito longe?
- Sabes onde é Valença?
Já lá foste?
- Nunca lá fui, só a
Monção, mas passei lá de comboio, há três anos, quando fui a Lisboa visitar os
meus irmãos.
- Olha: o Porrinho fica
mais ou menos frente a Valença. Claro que ainda são uns bons quilómetros;
primeiro é necessário passar pela cidade de Tui.
- Fica caro lá ir.
- Mesmo assim deve ser
mais barato do que ir a Lisboa.
- As viagens para
Lisboa foram pagas pelos meus irmãos, eu e a minha mãe não tínhamos
dinheiro.
- Para que diabo queres
tu ir ao Porrinho?
- É que o meu avô
paterno vai ser internado no asilo e está triste por ir para lá, acha que é uma
espécie de prisão, um quartel militar.
- E o que é…
- Bem, no Porrinho
vive, segundo consta, o filho dele, o Olavo, que é o meu pai.
- E tu esperas encontrá-lo?
- Não sei, mas não
custa tentar.
- Não vai ser fácil,
mesmo que dês com essa terra. Não te vais pôr a bater a todas as portas, além
disso deve haver imensas aldeias espalhadas por esse concelho; não vês Castro
Branco, dista daqui da Vila cerca de trinta quilómetros.
- Então o que devo
fazer, senhor professor?
- O melhor seria
escrever-lhe primeiro, os Correios de lá tentariam entregar-lhe a carta, se
viesse devolvida logo se veria, talvez recorrendo à Guarda Civil, ao Alcaide,
quem sabe?
- É que já não tenho
muito tempo, em Janeiro vou para a vida militar.
- Pois é! E por falares
nisso quero desde já chamar-te a atenção para o seguinte: se fores apanhado nesta
situação, isto é, quase a ires para a tropa, as autoridades pensarão que tu
vais a fugir, prendem-te como desertor, é melhor não arriscares, quem te avisa
teu amigo é.
- Não tinha pensado
nisso, mas o meu avô…
- O velhote não fica
mal instalado no asilo, tem comida para comer, remédios, cama, roupinha lavada,
que mais quer? Olha que não falta quem para lá queira ir, ele julga-se superior
aos demais? E tens a certeza que o filho o quer em casa?
- Não é isso, senhor
professor; o problema dele é perder a liberdade que tem tido; meteram-lhe na
cabeça que no asilo é preciso cumprir horários para as refeições, para deitar,
para levantar, para tudo!
- A isso chama-se
regras, disciplina; tu também a vais ter a partir de Janeiro. E achas isso mal?
- Não; eu a bem dizer também
uso horários para tudo, mas não são os outros a impormos, se eu quiser posso
alterá-los.
- É certo, mas no asilo
tem de ser assim, se não cada internado fazia o que queria, era uma anarquia
total, impossível de controlar. Eu não fui à tropa, e tenho bastante desgosto
não ter sido apurado, mas pertenço à Legião, e ali há disciplina, se há!
- Eu tenho visto;
vestem e marcham como as forças militares.
- É praticamente a
mesma coisa, e temos armas de fogo. E a marchar? Já viste como nós marchamos
todos certinhos, dá gosto ver.
- E estendem a mão ao
chefe…
- Isso é um sinal de
obediência, de respeito pelo nosso superior, é como a dizer-lhe que pode contar
connosco em todas e quaisquer circunstâncias. Daremos a vida pela Pátria, pela
Nação, pelo Chefe.
- Eu não tenho jeito
para essas coisas, o que gostaria é que me deixassem ficar aqui quietinho, a
trabalhar no meu ofício; não nasci para vestir fardas.
- Quando voltares da
tropa já pensarás de outra maneira, vais ver; até o corpo te cresce!
- Estou é com medo da
guerra.
- Quem me dera a mim
poder ir, mas já não tenho idade para isso; olha que já me ofereci, é preciso
defender a nossa querida pátria, seja na metrópole, seja em Angola, Moçambique
ou Guiné. Já nos bastou termos perdido a Índia, esse maldito Nehru! Ainda bem
que já morreu. Não tenhas receio, vais ser um verdadeiro herói, o orgulho da
nossa terra. Quando regressarem, tu e os outros, nós aqui estaremos para vos
prestarmos homenagem.
- Quanto ao meu pai…
- Se ele estivesse
interessado em ver o velhote, ampará-lo na velhice, já cá tinha vindo;
desconfio bem que o esqueceu, olha que se fosse rico não lhe largava a porta,
são todos iguais.
- De qualquer maneira
vou tentar.
- Antes de ires é
melhor falares comigo; eu passo-te um salvo-conduto, a fim de poderes circular
sem ninguém te incomodar.
- Obrigado senhor
professor.
XXXVI
Não
busques, se não queres encontrar.
Eis-me na Galiza. Como veem, a minha
timidez, e a minha falta de dinheiro, não me impediram de aqui chegar. Lá diz o
ditado: «quem corre por gosto não cansa e
quem procura sempre alcança.» É de facto um passo importante na minha vida,
pois vou tentar conhecer o meu progenitor e os meus irmãos espanhóis, se os
houver. Querem assistir a tudo?
- Gostaria de saber se
mora aqui no Porrinho um senhor chamado Olavo Augusto Meliças; é português,
natural de Cendre.
- Não sei, é melhor
perguntar ali na venda, o senhor Manolo conhece toda a gente.
- Senhor Manolo, por
acaso conhece…
- O Meliças vive fora
da povoação, trabalha na quinta de Don José Hernandez.
- Como chego lá?
- Tens coche?
- Não, vim de
camioneta.
- Ainda é longe. A pé
levas duas ou três horas.
- O pior é que é quase
noite.
- O melhor que tens a
fazer é comer e dormir na pousada e de manhã cedo arrancas.
- Ele costuma aparecer
por aqui?
- Costumava. Merca tudo
na minha loja, pero agora manda aqui um filho.
- Que idade tem esse
rapaz?
- O Agostinho terá
dezasseis, dezassete anos. Até se parece um pouco contigo. É moreno como tu,
cabelos negros, até pareceis irmãos!
- O senhor Meliças tem
mais filhos, além desse?
- Mais um rapaz, Pepe,
e duas chicas: a Clara e a Josefa, por sinal mui guapas.
- Eu sou filho dele,
mas não é por isso que estou aqui, venho avisá-lo de que o pai está doente e
vai ser internado num asilo, ele tem estado na minha casa, mas agora vou para o
serviço militar.
- Bem me parecia que
havia aí parentesco, pero não sabia que ele deixara filhos em Portugal.
- Somos dois, o meu pai
viveu cinco anos com a minha mãe; depois casou com esta senhora galega.
- Com Mariquita. Não
sei se fez bem, que esta trata-o mui mal, segundo dizem.
- Quando viveu com a
minha mãe era muito novo, depois os pais meteram-lhe na cabeça que não devia
casar com ela; enfim, águas passadas.
- Vai-te então; a
pousada é logo ali na outra rua, tive muito gosto em conhecer-te.
- Obrigado pela
informação senhor Manolo, que Deus lhe pague.
*
- É aqui que mora o
senhor Olavo Meliças?
- E que lhe queres?!
- Eu venho da parte do
pai dele, o senhor Agostinho Meliças.
- Que se passa com
Agostinho?
- Bem, ele está doente…
- E como descobriste
onde moramos?
- Foi o próprio senhor
Agostinho que me disse, ele recebeu uma carta sua e do seu marido…
- Uma carta?
- Sim, de há dez anos,
vocês prometiam ir a Cendre visitá-lo.
- Já me tinha
esquecido. Vou chamá-lo. Olavo! Tens aqui um chico que te quer falar.
- Que me quer?
- Vem aqui
perguntar-lhe.
- Que me queres?
- É acerca de seu pai,
ele está doente, quase que não pode andar, e eu vou levá-lo para o asilo.
- Para o asilo?
- Sim, mas ele não quer
ir, diz que aquele lugar é como uma prisão, gostava mais de vir viver convosco.
- Agora que está velho
e doente é que quer vir para minha casa! E a minha mãe, como está?
- A sua mãe já morreu,
faz dois anos; sofreu muito por você não estar ao lado dela na hora da morte.
- Como sabes tudo isso?
- O senhor Agostinho
mora na minha casa, andava a mendigar pelas ruas.
- Na tua casa?!
- Sim, mas agora tenho
de ir para o serviço militar, a minha mãe não pode tomar conta dele, nós somos
pobres, e ela tem de sair de casa para ganhar o sustento.
- E metes em casa um
velho sem te ser nada?!
- Ele ainda é meu
parente.
- Teu parente?
- Sim, mas eu não venho
de tão longe para falar de mim, queria que me dissesse se o vai buscar.
- Papá, quem é este
rapaz?
- É da minha terra, de
Cendre, traz-me a notícia de que teu avô paterno está doente.
- E a avó?
- Morreu.
- Coitada! Nem sequer
cheguei a conhecê-la; que pena eu tenho dela.
- Nunca quiseram lá ir
visitá-la!
- Não diga isso, papá;
sabe bem que não tínhamos dinheiro para os transportes.
- Iam de comboio até à
Frieira, que fica barato, depois iam a pé, olha que eu palmilhei muita légua a
pé.
- Papá, este rapaz
parece-se com o Agostinho!
- Há muita gente
parecida. Como se chamam os teus pais?
- Eu não tenho pai!
- Não tens pai? Então
como nasceste?!
- Nasci duma mulher,
como nascem todas as crianças.
- E como se chama a tua
mãe, posso saber?
- A minha mãe não é
para aqui chamada; eu apenas quero saber se vai buscar o meu…
- O teu quê?
- O seu pai.
- Claro. Se o velho não
quer ir para o asilo trazemo-lo para aqui; uma malga de caldo haverá sempre. Tu
quedas em minha casa esta noite e de madrugada partimos.
- Posso ir também,
papá?
- É melhor não, as
terras têm de ser trabalhadas, além disso não temos duros em demasia. Quando te
der jeito prepara no quarto do Agostinho uma enxerga para o teu avô.
*
- Como te chamas?
- Chamo-me Cândido.
- Que fazes? És camponês?
- Não; tenho uma pequena oficina de sapateiro.
- Tua?
- Sim; o meu patrão
emigrou para França e então eu fiquei a trabalhar por conta própria.
- Ganhas bem?
- Nem por isso; vai
dando para o dia-a-dia, os clientes não podem pagar muito, não têm dinheiro. Portugal
é um país de gente pobre. E tu, como te chamas? És a Clara ou a Josefa?
- Sou a Clara, tenho
dezoito anos de idade, e trabalho nos campos, como vês.
- Podias ir para a
vila, ou para a cidade, aprendias uma profissão, costureira, por exemplo.
- A minha mãe não me
deixa sair daqui; diz que nas cidades as chicas se perdem!
- Umas sim, outras não.
E a tua irmã, a Josefa, onde está?
- Anda nas regas, ela e
o Agostinho; só regressam à noite.
- Tu és muito bonita,
Clara.
- Não me digas isso; eu
julgo-me feia, mais bonita do que eu é Josefa.
- Que idade tem ela?
- Vai fazer vinte anos;
já tem noivo, é um jovem carabineiro.
- Então quando se casar
vai para a cidade.
- Vai para Tui, uma
cidade mui bonita, por acaso.
- Tu qualquer dia
também arranjas noivo.
- Sou nova; daqui a uns
anos. E tu tens namorada?
- Tive; trocou-me por
outro, por um emigrante.
- Nunca faria essa
maldade ao meu namorado;
- Ela lá teve as suas
razões; sabes que ainda não fiz o serviço militar, vou andar por lá três anos,
terei – quase de certeza absoluta – de ir combater em África: Angola,
Moçambique ou Guiné, posso levar um tiro, morrer ou ficar ferido, quem sabe?
- Mesmo assim, se era
tua noiva, se gostava de ti, não deveria ter feito isso! Nós, as mulheres, não
somos todas iguais.
- Tens razão; quando se
gosta a sério não se pratica um ato dessa natureza.
- Não vais esquecê-la
tão cedo.
- Enquanto viver não a
esquecerei, a mágoa que sinto é muito grande.
- Coitado! Mesmo sem a
conhecer, já sinto por essa rapariga raiva. Olha: já vem ali Josefa e
Agostinho, vou-tos apresentar. Este aqui é um rapaz português, da terra do
nosso pai, seu nome é Cândido.
- Que veio aqui buscar?
- Veio avisar-nos de
que o avô Agostinho está doente, o pai vai amanhã buscá-lo. Não é parecido com
este?
- Muito semelhante.
Ponham-se à beira um do outro. Assim! Meu Deus, que semelhança! Até nos olhos!
- Isso não quer dizer
nada; há imensas pessoas parecidas.
- Venham cear. Tu, Clara,
trata da mesa.
- Está bem, mãe.
Cândido: vem comigo, ajudas-me.
- Com todo o gosto; já
estou habituado.
- Nunca mais nos vamos
a ver.
- Provavelmente não; só
se eu vier cá visitar o avô.
- O meu avô?
- Sim, quem havia de
ser?
- Como disseste o avô!
- Chamo-lhe assim
porque gosto dele e é velho.
- Ah!
- Tu nem sequer o
conheces, Clara.
- É verdade; há tantos
anos que ando a pedir ao papá para lá me levar e ele foi sempre adiando.
- Agora já o vais ter
aqui à tua beira.
- Que pena a avó ter
morrido. Como era ela?
- Eu não sei se a
conheci, não me lembro; saí de Cendre com seis anos de idade. O teu avô
mostrou-me uma fotografia dela quando era nova; não era nada feia, tu
pareces-te um pouco com ela.
- Achas?
- Muito parecida!
- Não sei porquê, mas
parece-me que já te conheço há muito tempo, que crescemos juntos, ao pé de ti
não me sinto inibida!
- Eu também me sinto
bem a teu lado; sou normalmente acanhado com as raparigas, mas contigo não!
- Meninos: vão-se
deitar que amanhã temos de partir cedo. Tu, Cândido, acompanha Dona Mariquita,
que ela te diz qual é o teu quarto.
- Então adeus a todos,
tive muito gosto em conhecê-los.
- Nós também; aparece
um dia por cá, serás sempre bem recebido.
- Obrigado, Agostinho.
Desejo-te felicidades Josefa, e a ti também Clara.
- Que Deus te proteja
se fores à guerra, eu vou rezar muito por ti.
- Nunca te esquecerei
Clara.
- Então rapariga, a
chorar? Parece que te estás a despedir de um irmão!
- Não sei o que se
passa, mãe; estou com tanta pena do Cândido se ir embora!
XXXVII
O regresso
às origens por ínvios processos
Perante esta comovente cena, os vossos
olhos encher-se-ão com certeza de muitas lágrimas: dois filhos, dois pais, um
avô e um neto, num abraço de encontro e de separação. A vida é feita de
encontros e desencontros, de alegria e de tristeza, de atos nobres e de atos
vis. Mas será melhor ver:
- Avô Agostinho, aqui
tem o seu filho.
- Meu querido Olavo,
que saudades; estava a ver que nunca mais te via.
- Que é isso, meu pai;
sabe como é a vida, muito trabalho, o tempo vai passando… Minha mãe morreu!
- Deixou-nos a pensar
em ti; mesmo com febre, a delirar, só falava no seu menino, que nunca mais o
veria, nunca mais o estreitaria nos braços, nem lhe cantaria cantigas de
embalar.
- Adorada mãe; e eu,
tão perto, não a vim ver, não lhe fechei os olhos na hora derradeira!
- Não sintas remorsos;
a vida dos pobres não permite sentimentos nobres, o mais certo era nem teres dinheiro
para as viagens.
- As pesetas sempre
foram escassas, fogem de mim como o diabo da cruz, isso é verdade, a vida em
Espanha não tem sido fácil, a guerra civil destruiu tudo, felizmente agora as
coisas estão a melhorar, nossos filhos já irão certamente beneficiar desse
progresso, mas para nós será sempre ruim, já é demasiado tarde. Você teve muita
sorte em vir para casa deste jovem, pelo que me disse ele gosta muito de si.
- Tem-me tratado tão
bem, e nós todos tanto mal lhe fizemos a ele, ao irmão, e a sua mãe.
- Nós?!
- Sim, nós; olha para
ele. Com quem se assemelha?
- Com o meu filho
Agostinho, mas porquê?
- Sabes como se chama a
mãe?
- Não, ele não me quis
revelar o seu nome.
- Matilde. Não te diz
nada esse nome?
- Matilde?
- Sim, a mulher a quem
fizeste dois filhos!
- O Cândido é…
- Sim, o jovem que tens
na tua frente é meu neto.
- E meu filho! Cândido,
perdoas-me?
- Somente Deus lhe
poderá perdoar todo o mal que nos fez; eu não posso, não possuo poderes para
tal. Leve seu pai para casa, trate-o bem, e Nosso Senhor levará isso em conta.
- E tua mãe, que é
feito dela?
- A minha mãe anda
pelas aldeias, ajudando aqui e ali, bebendo, bebendo sem parar, agora ela é um
autêntico farrapo humano.
- E sou eu o culpado! Jamais
imaginei que vos tivesse prejudicado tanto.
- É o destino; se não
fosse você teria sido outro. A minha mãe nunca teve juízo. O táxi já está à
vossa espera. Avô: espero ainda voltar a vê-lo, quando puder vou visitá-lo.
- Lá te espero, meu
bondoso neto; tu comigo já vais no coração, nunca te esquecerei.
- Despachem-se, que o
motorista está impaciente. Adeus, e pela minha parte estão ambos desculpados; o
tempo sarará todas as feridas.
- Adeus meu filho, a
Clara vai gostar de saber que tu és seu irmão, tanto chorou quanto
partiste!
- Dê-lhes por mim um
grande abraço e diga-lhes que quando me for possível os visitarei.
- Meu neto, dá por mim
um abraço a tua mãe, que desculpe todos os incómodos que lhe causei, eu vou
pedir ao Senhor por ela, pode ser que se emende.
- Adeus avô; faça por
viver muitos anos.
XXXVIII
Com
palavras também se constrói o futuro
Eu e o meu irmão continuámos a falar das
nossas vidas, dos nossos êxitos e dos nossos fracassos, do nosso futuro, dos
nossos segredos. Sejam, peço-vos por favor, um nadinha coscuvilheiros:
- Então tu, tropa
resolvida, vais ficar aqui na terra ou partes novamente para Lisboa?
- Nos primeiros tempos
fico por aqui, depois logo verei.
- Ficas a morar aqui em
casa?
- Só até arranjar
emprego; parece que o senhor Crespo, solicitador, precisa de um ajudante, vou
falar com ele.
- Tu aqui, e eu a
caminho da maldita farda; se ao menos tivesse a tua sorte.
- Bem podes chamar-lhe
sorte; a taluda! Mobilizado para Angola e um parvalhão dum camarada, vê lá tu –
só lhe paguei umas cervejas, quis ir no meu lugar! Parvalhão!
- Ainda o insultas!
- Então não achas que
foi parvo? Livrava-se da guerra e assim…
- Queria ser herói!
- Bom proveito, eu é
que me safei.
- Eu não me safo, o
azar tem-me acompanhado sempre.
- Deixa de ser
pessimista, na tua idade…
- Achas que tenho
razões para ser otimista, achas?
- Também não exageres.
- Sem pai, uma mãe
assim, aturar um bruxo durante dois anos, roubam-me a noiva (e dizia-se o Artur o
teu melhor amigo), não arranjo dinheiro para o passador, agora
vou a caminho da mafarrica, daqui a uns meses África, consideras ainda…
- Haverá de chegar o
teu dia de sorte, deixa de ser agoirento; «nem
sempre azar…»
- Isso dizes tu, mas
quando se nasce malfadado…
- Então tiveste aqui,
em casa, um idoso? Conta lá como foi isso?
- O velhote é teu avô
paterno.
- Meu avô?! Ah! Ah!
- Pai do teu pai.
Andava a pedinchar pelas portas e eu meti-o aqui em casa.
- E a mamã, como
reagiu?
- Ela não queria,
barafustou, mas depois lá a convenci; no fundo, no fundo, ela é boa pessoa, tem
bom coração.
- O vício…
- Não há nada a fazer.
O Carlos da farmácia disse-me que existe um medicamento bom para isso, mas que
para certas pessoas pode ser perigoso, até podem ficar doidas!
- Maluca, já ela é; mas
seja como for o melhor é não lho darmos, ficaríamos com remorsos para o resto
da vida caso as coisas não corressem bem.
- Não te contaram mais
nada?
- Não, qual é a
novidade?
- Falei com o teu pai.
- Com o meu pai?
- Teu e meu; veio aqui
buscar o avô Agostinho.
- Veio aqui a nossa
casa?!
- Fui à procura dele, o
velho não queria entrar para o asilo e então resolvi ir eu ao Porrinho…
- Bem me disseram que
ele morava para esses lados.
- E sabes que tens mais
quatro irmãos? Dois rapazes e duas raparigas.
- Galegos!
- Galegos, mas
bonzinhos. Simpatizaram comigo.
- E tu com eles;
está-se mesmo a ver.
- Estás com ciúmes; escusas
de ter; tu serás sempre o meu irmão preferido.
- E o tipo, pelos
vistos, levou o velhote.
- Eles trabalham nuns
terrenos de um abastado lavrador; ainda são uns bons quilómetros da vila de
Porrinho.
- Falaram em mim?
- Claro; disseram que
gostavam de te conhecer.
- Se quisessem…
- Isso são águas
passadas, e essas não movem moinhos; não nos podemos alimentar só de
recordações. Um dia vamos lá fazer-lhes uma visita.
- E a tua mãe?
Encontrou-se com ele?
- Não; a mamã andava
pelas aldeias, agora nunca para em casa.
- E quem cozinha para
ti?!
- Sou eu; cozo umas
batatas, faço um arroz, fritos uns ovos com chouriço, enfim, cá me vou
arranjando. Aos domingos ela fica em casa. Assim posso estar a engraxar sapatos
até perto da uma hora da tarde. Sempre ganho mais qualquer coisa.
- Então nesse caso
tenho de ir comer à pensão.
- Se quiseres eu também
cozinho para ti. Não sei fazer petiscos, mas mesmo assim talvez seja melhor do
que no restaurante.
- Agradeço-te, mas
prefiro comer na pensão; tu também podias lá comer, ajustava-se um preço.
- Quando regressar da
tropa. Faltam apenas uns dias para eu ir…
- Como o tempo passa!
Parece que foi ontem que enverguei a cinzenta e já passaram três anos!
- Vens tu, vou eu!
- Um garoto; eras uma
criança há três anos; nem barba tinhas na cara!
- Ainda hoje tenho
pouca.
- Eu, aos treze
anos…
- Qualquer dia arranjas
uma moça para te casares.
- Ouvi dizer que os
emigrantes as levam todas!
- É verdade; até
raparigas com quinze ou dezasseis anos lhes têm servido!
- Tão novas! E os seus
pais consentem?
- O que eles querem é
ver-se livres delas; é menos uma boca para alimentar, a lavoura cada vez é mais
ingrata.
- É por isso que eu lhe
fugi; a tua mãe bem queria que eu fosse cavador.
- Fizeste bem; ser
empregado de escritório é bem melhor.
- Não se ganha muito,
mas pelo menos anda-se limpo.
- Eu também já ia
ganhando uns dinheirinhos, deixei de engraxar nas feiras, aos domingos abro
aqui a porta, só de manhã, juntei cinco contos, bom jeito me vão dar. Se
precisares…
- Obrigado, não é
necessário; como era 1.º cabo radiotelegrafista tinha um ordenado mensal,
embora pequeno, não se comia mal no Entroncamento, por isso fui poupando.
- Em Lisboa não
conseguiste juntar nenhum!
- Na capital é chapa
ganha, chapa gasta; quanto mais se tem mais se esbanja.
XXXIX
O sismo só
precisa de um minuto para destruir o que se construiu em séculos
O problema da virgindade nos meios
pequenos era ainda gravíssimo nos anos sessenta do século XX. Muitos rapazes
“despacharam” as noivas para casa dos pais na noite do casamento! Queriam-nas
“puras”, honradas, pois de outro modo seriam apontados a dedo pelo “violador”, ou
por outros a quem ele tivesse revelado o segredo. Por outro lado, sentir-se-iam
a segunda escolha, o que para eles era deveras humilhante. As raparigas
poderiam já ter namorado com outros, mas teriam de estar intactas para o futuro
esposo, caso contrário corriam o risco de ficarem casadas sem marido. A Bera
tinha cometido esse crime e vai pagá-lo bem caro. Ouçam a notícia:
- Ó Cândido!
- Quem me chama?
- Sou eu, o Golias.
- Parece que vens
fugido à guarda!
- Eh, pá! Corri que nem
uma lebre para te vir dar a notícia.
- Que notícia?!
- Em primeira mão; olha
que ainda poucas pessoas sabem.
- Estás a aguçar-me a
curiosidade. Desembucha.
- É melhor ficares aí
sentado no banquinho.
- É coisa grave?
Aconteceu alguma coisa à minha velhota?
- Não, pá! Não tem nada
a ver com a tua mãe, trata-se de…
- Diz logo; estou a
ficar impaciente.
- Deixa-me tomar
fôlego; um acontecimento destes rouba o ar ao mais pintado.
- Então descansa um
pouco e parla, eu tenho mais o que fazer.
- Pois bem: a Bera está
cá!
- Cá? Aonde?
- Na nossa terra; foi
recambiada a pontapé!
- O que lhe aconteceu?
Conta lá isso por miúdos.
- Escusas de ficar com
essa cor; não morreu ninguém.
- O que aconteceu?
- Bem, segundo me
disseram a Bera não estava virgem, tu afinal tinhas provado a coisa, e nós a
chamar-te bobo, bem nos enganaste!
- Eu?! Nunca fiz nada
com ela, respeitei-a sempre, só uns beijos, uns abraços, umas carícias, nunca
passou disso. Não! Aí deve haver gato! Sabes bem que Deus escreve direito por
linhas tortas.
- Eh, pá! Garantiram-me
que foi por causa disso; ela já tinha pinado com outro e o Artur na noite do
casamento apercebeu-se. O tipo já devia estar de pé atrás, três anos a namorar
contigo…
- Então botou-a fora da
cama e mandou-a para a santa terrinha! Bonito!
- E consta que lhe deu
uma grande surra, o tipo não gostou nada de ser enganado; afinal de contas
vingaste-te bem, aplausos.
- Juro-te, Golias, pela
alma dos meus antepassados, por tudo que me é mais sagrado, que jamais passei
do beijo e do abraço; se isso tivesse acontecido já estava casado com ela. Há
aí um mal- entendido, algo que terá de ser esclarecido; a não ser…
- Que estás a pensar?
- Pode haver outro
metido no assunto. Será que ela?
- Com uma rapariga
assim – vistosa, sorridente, simpática para todos, tudo é possível. Não me
digas…
- O Atílio?
- Talvez. O fulano já
desvirgulou muita catraia; dá-lhes dinheiro para roupa, uns passeios de carro…
E quem lhas arranja…
- Não digas mais. E por
incrível que isso nos pareça nalguns casos os pais delas são coniventes!
- É voz corrente que
eles também recebem algum!
- São autênticas
bestas, uns bêbados perdidos, venderem assim as filhas!
- No caso da Bera…
- Se tu juras que não a
papaste, alguém foi.
- Caramba! E era eu que
ia ficar com ela! Não sei se teria coragem de fazer o que fez o Artur; o mais
certo era calar-me, guardar para mim esse segredo.
- Nem saberias provavelmente
distinguir se ela estava virgem ou não, nunca tiraste o virgo a nenhuma – olha
que não é fácil.
- Eu disso não percebo
nada! Ouvi dizer que elas sangram!
- É verdade. Algumas
até sujam os lençóis com sangue de galinha e o saloio pensa que lhe tirou os
três! No dia seguinte come a ave – não pode ser é de cabidela!
- Quer dizer que não
podemos confiar nas mulheres.
- Eu não quis dizer
isso, ainda há raparigas honestas, respeitadoras, a minha mãe, por exemplo, diz
que só dormiu com o meu pai; foi o primeiro namorado e o único. Mas estes casos
podem-se contar pelos dedos das mãos.
- Meu Deus! E o que vai
ser feito dessa rapariga agora?
- Tu voltas para ela,
casam-se, fazes-lhe meia dúzia de ranhosos, e daqui a uns anos ninguém mais
fala nisso.
- Achas que eu…
- Se não te conhecesse.
- Não; não me vou
rebaixar; eu ainda tenho uma réstia de dignidade, isso é incompatível com o meu
orgulho.
- Se não fores tu, será
outro; com aquele corpo e aquela cara não lhe faltarão pretendentes.
- Não sei, nesta
situação…
- Se tu não a quiseres
não tarda muito está casada ou amigada com outro emigrante, vai para o
estrangeiro e pronto.
- E daqui a uns anos
regressa a Portugal, um bruto carro, roupas espampanantes, dois ou três filhos
a falar francês… Ninguém ousará lembrar-lhe o passado.
- Vês como chegaste lá!
É assim a vida; se ela fosse um canastrão garanto-te que ninguém lhe olhava
para a cara.
- Se fosse feia também
o Artur não ma tinha roubado; e, pelo que me dizem agora, já outros andavam
também com o olho nela. Eu confiava tanto na Bera que nem me apercebia disso.
- Isso é verdade; havia
muitos rapazes de todo o concelho a cobiçá-la, tinham era medo da reação dela,
o Artur arriscou e venceu, não contava era que o tiro lhe saísse pela culatra.
Agora deixa passar uns dias, manda-lhe uns recadinhos pela tia, que é tua amiga
e cliente, umas lágrimas, o arrependimento sincero ou fingido, vai-te jurar
amor eterno, fidelidade, enfim, a reconciliação.
- Saíste-me um bom
malandro, Golias; mas bem no fundo és capaz de ter razão – se não for eu, será
outro. E eu já a conheço, continuo a gostar dela, claro que me sinto magoado «quem não se sente não é de boa gente»,
reza assim o ditado. Enfim, vou pensar. De qualquer modo, mais humilhado do que
tenho sido ao longo destes anos pela minha velhota e agora pela Bera já não
posso ser; toquei na lama, na caca que os outros expeliram. Sem pai, com uma
mãe bêbada, enteado de um bruxo aciganado, engraxador, ladrão de fruta,
aprendiz de tendeiro, vendedor de refrescos na feira, mercador de sonhos…
- E eu? E os outros?
Pensas que somos diferentes? Ao fim-e-ao-cabo somos todos iguais: chafurdamos
todos na mesma pocilga, pagamos na mesma moeda tributo ao amo e senhor, somos
filhos da miséria e da ignorância… Tu, apesar de te queixares, és mais
instruído do que nós, tens altos pensamentos, um grande crânio, nem pareces
desta terra e desta gente! A única vantagem que levo sobre ti é ter um físico
mais avantajado e uns pais dignos e bons.
- Não sei, Golias; às
vezes imagino-me noutra época, noutro país, a residir numa cidade onde todo o
indivíduo é alguém, sem fome, sem carências de espécie alguma, com liberdade
para dizer e escrever o que pensa, com pessoas sérias a ouvir-me com atenção,
sem ironia, sem aquele gozo que ofende, sem aquele sorriso de chacota que nos
atordoa e nos derruba.
- És um lírico, um
sonhador, um verdadeiro poeta. Daqui a cinquenta anos ainda te vou contemplar
nessa posição: a bater sola nesse seixo que trouxeste do rio, e meteres as mãos
nessas botas a cheirar a bosta de gado e a chulé, e a dizeres, com esse teu ar
passivo: «um dia vou mudar de vida!»
- Não sejas cruel,
Golias; permite que eu sonhe, afinal de contas todos nós acabamos por criar um
mundo aparte, no qual somente nós cabemos, um lugar paradisíaco, imaginado, mas
aberto a outrem. É o único privilégio que nos resta.
- Podias ter as portas
escancaradas desse lugar que eu nele não entraria; os meus pés sempre pisaram
chão firme, sei que se quiser melhorar a minha vida terei de sair desta fossa
maldita, dar o litro na terra alheia, não posso passar o resto da minha vida
como ajudante de eletricista, a carregar a escada de um lado para o outro,
depois sobe e desce, nem sequer imaginas o peso que a cabra tem, fios e mais
fios, para ganhar uns miseráveis dez escudos por dia.
- O torrão onde
nascemos, e onde um dia depositaremos os nossos velhos ossos, não tem culpa da
nossa miséria; eu amo estremecidamente este rincão e jamais o renegarei,
aconteça o que acontecer.
- Para mim, a minha
terra é aquela que me dá de comer, de vestir, que me possibilita criar na
abundância os meus filhos e a minha mulher, que me torne homem e não escravo; o
resto é conversa fiada, sonho de poetas como tu.
- Como somos
diferentes, Golias! Eu não defendo a exploração do homem pelo homem, nem
rubrico a doutrina da resignação, mas também não aceito a ganância, a luta pela
riqueza a qualquer preço; a passagem do ser humano por este pequeno planeta é
tão curta!
- É com pessoas como tu
que o mundo está como está: aceitam tudo, mau e bom, não se revoltam, não sabem
dizer não à pobreza.
- Mas, Golias: o que é
que eu posso fazer?!
- Lutar, lutar sempre.
Temos de tentar sair deste lamaçal, deste esterco de vida.
- Para ti a saída está
na emigração…
- É o primeiro passo. O
Atílio, e outros, daqui a pouco não terão quem lhes cultive as quintas; os
padrecas não terão quem os ouça nas igrejas; os carrascos não terão pescoços
para cortar.
- E os emigrantes serão
uma força…
- Terão dinheiro.
- O dinheiro produz o
poder.
- A igualdade.
- Poderão comprar
terras…
- Construir casa…
- Terão direito ao
voto…
- Elegerão os seus
representantes…
- Os seus filhos terão
acesso às escolas secundárias e superiores…
- Sim, às
universidades…
- Enfim, a revolução
sem sangue. E dizes tu que eu sonho!
- Eu falo de coisas
realizáveis.
- Golias: o emigrante é
apenas um trabalhador. Aqui ou em França, no Canadá ou na Argentina, nos
Estados Unidos da América, ou em outro país qualquer o trabalhador por conta de
outrem será sempre explorado. Os poderosos têm uma arma infalível quando o povo
trabalhador começa a dar sinais de ter alguma força financeira: atira-lhe para
cima com a inflação…
- O que é isso?
- Repara: tu tens vinte
contos de réis e com eles podes comprar uma casita. Passados uns meses, e com
uma inflação em flecha, os mesmos vinte contos não te darão para comprar um
casebre. Em meses retiram-te o poder de compra e tu terás de trabalhar mais e
mais para juntar novamente algum. É um ciclo vicioso.
- Quem te disse essas
coisas?
- Tudo isso está
escrito nos livros sobre economia.
- Tu lês de mais!
- Talvez. E para
reforçar a minha ideia digo-te outra coisa: quando os senhores desses países
não precisarem de mão-de-obra de fora, escorraçarão do seu solo todos os
estrangeiros, botá-los-ão no olho da rua.
- Sei de portugueses
que se naturalizaram.
- Meia dúzia. No
conjunto nada significa. E esses terão de fazer vida de francês ou de
americano, conforme o país onde estejam, não poderão morar em bairros de lata
ou casas arruinadas, não poderão vestir as roupas que os naturais deitam fora –
(sabes que
muitos conterrâneos nossos, emigrantes, vão buscar as roupas e o calçado aos
caixotes de lixo? Não sabes, pois não, pergunta-lhes quando vierem passar as
suas férias, eles te contarão toda a verdade); não poderão comprar
nos talhos as miudezas dos animais para com elas fazerem as suas magras
refeições, pelo que seriam logo criticados pelos naturais. Não te iludas,
Golias: quem vive exclusivamente do trabalho não medra nunca!
- És um pessimista, um
bota-abaixo. Eu penso ganhar muito dinheiro na França, ou no Canadá, quando
para lá for. Se não tivesse tomado a decisão de fazer a tropa já tinha nesta
altura uns contos de réis no banco; mas quando tiver o serviço militar cumprido
não estarei aqui nem dois meses, pisgo-me logo, é só tempo de tratar da
papelada. Porque, garanto-te, se todos fossem como tu não haveria progresso – o
mundo inteiro paralisava!
- Se todos agissem como
eu não haveria exploração, ganância, aquela ânsia de grandeza e poderio; não
reparaste como vivem os pássaros e os grilos, e outros animais, sempre em
harmonia. E as árvores? Por acaso reparaste que todos os anos, se o tempo e o
clima as ajudar, dão maçãs, peras, nozes… A ambição desmedida leva ao caos.
- Os humanos não se
comportam todos da mesma maneira.
- Daí os conflitos, as
guerras, o ódio e a inveja.
- Tu queres ser santo!
- Só quero ser o que
sou, nada mais.
XL
Na hora da despedida
até as pedras choram
A hora da partida é sempre tristonha,
chorosa. Eis-me a olhar para o céu, para as árvores, para a minha mesinha de
trabalho, para os meus amores. Será que um dia voltarei ao meu tão amado
rincão? E a Bera? Será que casarei mais tarde com ela? Talvez um dia o saibam.
Ouçam, por favor, e agora já para dar fim à minha história, este pungente
monólogo:
- Minha querida terra,
vou deixar-te; vou envergar a farda do exército português. Não penses, não, que
te abandono; nesta pequena mala de cartão levo o teu cheiro, o teu inebriante
perfume. Jamais deixarei de pensar em ti, de falar de ti; aqui estão as minhas
raízes, os meus sonhos, as minhas lágrimas; aqui nasceu o meu primeiro amor.
Parto quase feliz, pois não conheci eu o meu progenitor, o meu avô, os meus
irmãos espanhóis? Agora já posso dizer que tenho pai, apesar de no bilhete de
identidade constar o contrário - «filho
de pai incógnito.» Que importa: dentro do meu peito está gravado o seu
nome, o afeto inventado, do avô não, esse é seguro, ninguém mo tira, é real, do
pai… quem sabe, um dia, quando regressar da tropa, da guerra (duvido que possa voltar, quem me dera não ir),
ele possa partilhar comigo um pouco desse amor paternal, chamar-me filho (que sensação agradável: «meu filho»), nunca
ouvi esse doce canto: «meu filho!)
Não chores, minha adorada terra; e vós,
árvores e flores, ruas e avenida, pedras da calçada, aves dos campos, vós,
rouxinóis, que com o vosso estrénuo trinar suavizaram o meu viver, não choreis
também; vós, seixos do rio, que me entretínheis as horas de lazer; vós, enfim,
galos de crista vermelha, que com o vosso madrugador canto me servíeis de
relógio; e tu, minha querida oficina – foste confidente, minha amiga, minha
irmã, contigo passei alguns bons e maus momentos, alegrias e tristezas; minhas
formas, sovelas, escovas de macio pelo, martelos – que dizer-vos? Talvez nunca
mais vos acaricie, vos conte as minhas angústias e mágoas; e finalmente vós,
meus conterrâneos, meus irmãos na miséria, que poderei eu transmitir-vos?
Apenas uma promessa: jamais vos esquecerei.
A ti, Bera, anjo e demónio, desejo-te todo
o bem do mundo: a tua culpa é a culpa de nós todos; o teu erro é reflexo deste
tempo, desta frágil sociedade feudal, apodrecida; não sei se me esperarás, essa
incondicional confiança em ti esboroou-se; se me esperares, e se eu sobreviver
às balas mortíferas, juro que te farei esquecer o passado, terás em mim um
marido carinhoso, amante, fiel; procurarei dar-te todo o bem-estar, todo o
conforto a que aspiras e a que tens pleno direito; o mundo não será sempre ruim,
vais ver. Criaremos os nossos pequerruchos, dar-lhe-emos todo o carinho,
estudos, uma carreira – acredita em mim, tem esperança no devir.
E a vós, minha querida mamã, que poderei
eu dizer-vos? Entre nós interpôs-se uma enorme muralha; um fundo poço de águas
envenenadas isolou-nos para todo o sempre; separam-nos abismos profundos,
obstáculos incontornáveis, altas serras, universos e mais universos de
distância. Eu sei! Mas o amor entre filho e mãe, entre aquela que nos trouxe a
este mundo, nos pariu, nos deu a ver e sentir as tristezas e misérias que por
aqui existem, é maior, é mais alto, é mais forte e duradouro do que todos os
abismos, todas as montanhas e serras, todas as distâncias que existem ou se
possam imaginar. Não, mamã, apesar de tudo, apesar dos gigantescos erros, dos
vícios, da fragilidade e da incapacidade para modificar o estado das coisas,
apesar disso tudo, o amor vence, ultrapassa as invencíveis barreiras, galga
todas as nuvens letais.
FIM
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