terça-feira, 13 de outubro de 2026

LEMBRANÇAS AMARGAS

Romance

Por Joaquim A. Rocha 



XXXIV

 

Nem sempre é princípio o fim

 

     Escutem, se puderem, esta interessante e comovedora conversa entre avô e neto:

 

- Avô, o senhor provedor vai deixá-lo entrar para o asilo.

- Parece que estás contente por isso!

- Contente e triste, ao mesmo tempo; preferia não ter de ir à tropa, ficar aqui consigo e com a minha mãe, apesar de ela ser como é.

- No meu tempo de jovem a vida militar era boa para alguns: ficavam lá, faziam vida daquilo, sempre tinham comida, roupa, uma cama para dormir e algum dinheiro.

- Ganhavam pouco…

- Quando fui às sortes, em 1909, toda a gente ganhava pouco neste país, excetuando uns quantos; por isso, ter um prato de comida, mesmo que não prestasse, já era bom.  

- Quando ouço falar as pessoas da sua idade fico com a ideia de que era melhor não terem nascido!

- Bem podes dizê-lo; muitas vezes desejei morrer ao longo da minha triste vida. Não calculas, mas tu também já passaste por isso, ter fome e não ter nada para comer, ter frio e não ter roupa para vestir, ter febre e não termos ninguém que nos refresque a testa. 

- Pobre avô.

- Mesmo assim penso que não foi mal ter nascido, ter visto e vivido tudo aquilo que vivi, ter comido o pão que o diabo amassou. Depois da morte terei milhares de histórias para contar àquelas almas que comigo estiverem, dessa maneira não nos aborreceremos no além.

- Sabe que às vezes penso nessa vida depois da morte? É uma sensação esquisita, estranha!

- Todos deviam pensar; seriam mais compreensivos, e tolerantes, uns para com os outros.

- O senhor padre Alberto disse na missa de domingo que os maus iriam todos arder no inferno; os bons iam para o paraíso; e aqueles que não são bons nem maus aguardarão no purgatório que deus ou o diabo os chamasse!

- Terão de esperar que haja vaga, como eu esperei agora para entrar no asilo, no quartel.

- É curioso: mesmo depois de morrer é preciso ir para a fila, aguardar a sua vez!

- Mas, uma vez no céu, fica-se lá para sempre.

- Deve ser bom viver lá.

- Para nós, os que aqui neste planeta vivemos mal, qualquer coisa melhor do que isto será bom.

- Se eu soubesse onde se encontra o seu filho…

- Quando entrei na vossa casa disse-te que nunca tivera notícias dele; isso não é completamente verdade. Há uns dez anos atrás recebi uma carta dele e da minha nora dizendo-me que qualquer dia apareceriam por aí a fim de nos visitarem; até hoje ainda não recebi essa visita!

- O avô respondeu à carta?

- O senhor Antunes da mercearia é que me fez o favor de responder; eu não sabia o que lhe falar, não tenho escolaridade nenhuma.     

- E a direção? Lembra-se da direção?

- A carta perdeu-se, deve ter ido parar à estrumeira, ou à fogueira; só me lembro que o lugar onde moravam se chamava Porrinho.

- Porrinho é na Galiza, já ouvi falar nesse nome.

- Seja onde for, eu não podia lá ir; nem dinheiro tinha para comprar comida, quanto mais para passeios!

- Vou perguntar a alguém, talvez ao senhor professor Romano, ele sabe tudo, se conhece essa localidade galega. Se fosse perto daqui e as viagens não ficassem muito caras dava lá um pulo; até pode ser que ele o venha buscar, nesse caso já não ia para o asilo.

- És tão generoso, mas olha que se ele se lembrasse do velho pai já cá tinha vindo buscar-me há muito, com certeza que também vive com dificuldades, os espanhóis não estão melhor do que nós, não penses. 

- Ele pode julgar que o avô ainda se encontra a trabalhar os campos, que a avó está viva, enfim, não lhe passará pela cabeça que as coisas correm deste jeito.

- Podes tentar saber, mas não tenho nenhumas esperanças.


XXXV

 

Nas entranhas do animal coabitam o bem e o mal

 

     Procuro colher informações sobre a localidade onde presumivelmente se encontra o meu pai. Quero tentar localizá-lo, a fim de lhe pedir que leve para a sua beira o meu avô Agostinho, evitando desse modo a sua entrada no asilo. Será que o vou conseguir?

 

 

- Senhor professor, onde fica o Porrinho?

- Na Galiza; ainda é um bocado longe daqui.

- Muito longe?

- Sabes onde é Valença? Já lá foste?

- Nunca lá fui, só a Monção, mas passei lá de comboio, há três anos, quando fui a Lisboa visitar os meus irmãos.

- Olha: o Porrinho fica mais ou menos frente a Valença. Claro que ainda são uns bons quilómetros; primeiro é necessário passar pela cidade de Tui.

- Fica caro lá ir.

- Mesmo assim deve ser mais barato do que ir a Lisboa.

- As viagens para Lisboa foram pagas pelos meus irmãos, eu e a minha mãe não tínhamos dinheiro.  

- Para que diabo queres tu ir ao Porrinho?

- É que o meu avô paterno vai ser internado no asilo e está triste por ir para lá, acha que é uma espécie de prisão, um quartel militar.

- E o que é…

- Bem, no Porrinho vive, segundo consta, o filho dele, o Olavo, que é o meu pai.

- E tu esperas encontrá-lo?

- Não sei, mas não custa tentar.

- Não vai ser fácil, mesmo que dês com essa terra. Não te vais pôr a bater a todas as portas, além disso deve haver imensas aldeias espalhadas por esse concelho; não vês Castro Branco, dista daqui da Vila cerca de trinta quilómetros.

- Então o que devo fazer, senhor professor?

- O melhor seria escrever-lhe primeiro, os Correios de lá tentariam entregar-lhe a carta, se viesse devolvida logo se veria, talvez recorrendo à Guarda Civil, ao Alcaide, quem sabe?

- É que já não tenho muito tempo, em Janeiro vou para a vida militar.

- Pois é! E por falares nisso quero desde já chamar-te a atenção para o seguinte: se fores apanhado nesta situação, isto é, quase a ires para a tropa, as autoridades pensarão que tu vais a fugir, prendem-te como desertor, é melhor não arriscares, quem te avisa teu amigo é.    

- Não tinha pensado nisso, mas o meu avô…

- O velhote não fica mal instalado no asilo, tem comida para comer, remédios, cama, roupinha lavada, que mais quer? Olha que não falta quem para lá queira ir, ele julga-se superior aos demais? E tens a certeza que o filho o quer em casa?

- Não é isso, senhor professor; o problema dele é perder a liberdade que tem tido; meteram-lhe na cabeça que no asilo é preciso cumprir horários para as refeições, para deitar, para levantar, para tudo!

- A isso chama-se regras, disciplina; tu também a vais ter a partir de Janeiro. E achas isso mal?

- Não; eu a bem dizer também uso horários para tudo, mas não são os outros a impormos, se eu quiser posso alterá-los.

- É certo, mas no asilo tem de ser assim, se não cada internado fazia o que queria, era uma anarquia total, impossível de controlar. Eu não fui à tropa, e tenho bastante desgosto não ter sido apurado, mas pertenço à Legião, e ali há disciplina, se há!

- Eu tenho visto; vestem e marcham como as forças militares.

- É praticamente a mesma coisa, e temos armas de fogo. E a marchar? Já viste como nós marchamos todos certinhos, dá gosto ver.

- E estendem a mão ao chefe…

- Isso é um sinal de obediência, de respeito pelo nosso superior, é como a dizer-lhe que pode contar connosco em todas e quaisquer circunstâncias. Daremos a vida pela Pátria, pela Nação, pelo Chefe.

- Eu não tenho jeito para essas coisas, o que gostaria é que me deixassem ficar aqui quietinho, a trabalhar no meu ofício; não nasci para vestir fardas.

- Quando voltares da tropa já pensarás de outra maneira, vais ver; até o corpo te cresce!   

- Estou é com medo da guerra.

- Quem me dera a mim poder ir, mas já não tenho idade para isso; olha que já me ofereci, é preciso defender a nossa querida pátria, seja na metrópole, seja em Angola, Moçambique ou Guiné. Já nos bastou termos perdido a Índia, esse maldito Nehru! Ainda bem que já morreu. Não tenhas receio, vais ser um verdadeiro herói, o orgulho da nossa terra. Quando regressarem, tu e os outros, nós aqui estaremos para vos prestarmos homenagem.

- Quanto ao meu pai…

- Se ele estivesse interessado em ver o velhote, ampará-lo na velhice, já cá tinha vindo; desconfio bem que o esqueceu, olha que se fosse rico não lhe largava a porta, são todos iguais.

- De qualquer maneira vou tentar.

- Antes de ires é melhor falares comigo; eu passo-te um salvo-conduto, a fim de poderes circular sem ninguém te incomodar.

- Obrigado senhor professor.  

 

XXXVI

 

Não busques, se não queres encontrar.

 

 

     Eis-me na Galiza. Como veem, a minha timidez, e a minha falta de dinheiro, não me impediram de aqui chegar. Lá diz o ditado: «quem corre por gosto não cansa e quem procura sempre alcança.» É de facto um passo importante na minha vida, pois vou tentar conhecer o meu progenitor e os meus irmãos espanhóis, se os houver. Querem assistir a tudo?

 

- Gostaria de saber se mora aqui no Porrinho um senhor chamado Olavo Augusto Meliças; é português, natural de Cendre.

- Não sei, é melhor perguntar ali na venda, o senhor Manolo conhece toda a gente.

- Senhor Manolo, por acaso conhece…

- O Meliças vive fora da povoação, trabalha na quinta de Don José Hernandez.  

- Como chego lá?

- Tens coche?

- Não, vim de camioneta.

- Ainda é longe. A pé levas duas ou três horas.

- O pior é que é quase noite.

- O melhor que tens a fazer é comer e dormir na pousada e de manhã cedo arrancas.

- Ele costuma aparecer por aqui? 

- Costumava. Merca tudo na minha loja, pero agora manda aqui um filho.

- Que idade tem esse rapaz?

- O Agostinho terá dezasseis, dezassete anos. Até se parece um pouco contigo. É moreno como tu, cabelos negros, até pareceis irmãos!

- O senhor Meliças tem mais filhos, além desse?

- Mais um rapaz, Pepe, e duas chicas: a Clara e a Josefa, por sinal mui guapas.

- Eu sou filho dele, mas não é por isso que estou aqui, venho avisá-lo de que o pai está doente e vai ser internado num asilo, ele tem estado na minha casa, mas agora vou para o serviço militar.

- Bem me parecia que havia aí parentesco, pero não sabia que ele deixara filhos em Portugal.

- Somos dois, o meu pai viveu cinco anos com a minha mãe; depois casou com esta senhora galega.

- Com Mariquita. Não sei se fez bem, que esta trata-o mui mal, segundo dizem.

- Quando viveu com a minha mãe era muito novo, depois os pais meteram-lhe na cabeça que não devia casar com ela; enfim, águas passadas.

- Vai-te então; a pousada é logo ali na outra rua, tive muito gosto em conhecer-te.

- Obrigado pela informação senhor Manolo, que Deus lhe pague.

 

*

 

- É aqui que mora o senhor Olavo Meliças?

- E que lhe queres?!

- Eu venho da parte do pai dele, o senhor Agostinho Meliças.

- Que se passa com Agostinho?

- Bem, ele está doente…

- E como descobriste onde moramos?

- Foi o próprio senhor Agostinho que me disse, ele recebeu uma carta sua e do seu marido…

- Uma carta?

- Sim, de há dez anos, vocês prometiam ir a Cendre visitá-lo.

- Já me tinha esquecido. Vou chamá-lo. Olavo! Tens aqui um chico que te quer falar.

- Que me quer?

- Vem aqui perguntar-lhe.

- Que me queres?

- É acerca de seu pai, ele está doente, quase que não pode andar, e eu vou levá-lo para o asilo.

- Para o asilo?

- Sim, mas ele não quer ir, diz que aquele lugar é como uma prisão, gostava mais de vir viver convosco.

- Agora que está velho e doente é que quer vir para minha casa! E a minha mãe, como está?

- A sua mãe já morreu, faz dois anos; sofreu muito por você não estar ao lado dela na hora da morte.

- Como sabes tudo isso?

- O senhor Agostinho mora na minha casa, andava a mendigar pelas ruas.

- Na tua casa?!

- Sim, mas agora tenho de ir para o serviço militar, a minha mãe não pode tomar conta dele, nós somos pobres, e ela tem de sair de casa para ganhar o sustento.

- E metes em casa um velho sem te ser nada?!

- Ele ainda é meu parente.

- Teu parente?

- Sim, mas eu não venho de tão longe para falar de mim, queria que me dissesse se o vai buscar.

- Papá, quem é este rapaz?

- É da minha terra, de Cendre, traz-me a notícia de que teu avô paterno está doente.

- E a avó?

- Morreu.

- Coitada! Nem sequer cheguei a conhecê-la; que pena eu tenho dela.

- Nunca quiseram lá ir visitá-la!

- Não diga isso, papá; sabe bem que não tínhamos dinheiro para os transportes.

- Iam de comboio até à Frieira, que fica barato, depois iam a pé, olha que eu palmilhei muita légua a pé.

- Papá, este rapaz parece-se com o Agostinho!

- Há muita gente parecida. Como se chamam os teus pais?

- Eu não tenho pai!

- Não tens pai? Então como nasceste?!

- Nasci duma mulher, como nascem todas as crianças.

- E como se chama a tua mãe, posso saber?

- A minha mãe não é para aqui chamada; eu apenas quero saber se vai buscar o meu…

- O teu quê?

- O seu pai. 

- Claro. Se o velho não quer ir para o asilo trazemo-lo para aqui; uma malga de caldo haverá sempre. Tu quedas em minha casa esta noite e de madrugada partimos.

- Posso ir também, papá?

- É melhor não, as terras têm de ser trabalhadas, além disso não temos duros em demasia. Quando te der jeito prepara no quarto do Agostinho uma enxerga para o teu avô.   

 

*

 

- Como te chamas?

- Chamo-me Cândido.

- Que fazes? És camponês?

- Não; tenho uma pequena oficina de sapateiro.

- Tua?

- Sim; o meu patrão emigrou para França e então eu fiquei a trabalhar por conta própria.

- Ganhas bem?

- Nem por isso; vai dando para o dia-a-dia, os clientes não podem pagar muito, não têm dinheiro. Portugal é um país de gente pobre. E tu, como te chamas? És a Clara ou a Josefa?

- Sou a Clara, tenho dezoito anos de idade, e trabalho nos campos, como vês. 

- Podias ir para a vila, ou para a cidade, aprendias uma profissão, costureira, por exemplo.

- A minha mãe não me deixa sair daqui; diz que nas cidades as chicas se perdem!

- Umas sim, outras não. E a tua irmã, a Josefa, onde está?

- Anda nas regas, ela e o Agostinho; só regressam à noite.  

- Tu és muito bonita, Clara.

- Não me digas isso; eu julgo-me feia, mais bonita do que eu é Josefa.

- Que idade tem ela?

- Vai fazer vinte anos; já tem noivo, é um jovem carabineiro.

- Então quando se casar vai para a cidade.

- Vai para Tui, uma cidade mui bonita, por acaso.

- Tu qualquer dia também arranjas noivo.

- Sou nova; daqui a uns anos. E tu tens namorada?

- Tive; trocou-me por outro, por um emigrante.

- Nunca faria essa maldade ao meu namorado;

- Ela lá teve as suas razões; sabes que ainda não fiz o serviço militar, vou andar por lá três anos, terei – quase de certeza absoluta – de ir combater em África: Angola, Moçambique ou Guiné, posso levar um tiro, morrer ou ficar ferido, quem sabe?

- Mesmo assim, se era tua noiva, se gostava de ti, não deveria ter feito isso! Nós, as mulheres, não somos todas iguais.

- Tens razão; quando se gosta a sério não se pratica um ato dessa natureza.

- Não vais esquecê-la tão cedo.

- Enquanto viver não a esquecerei, a mágoa que sinto é muito grande.

- Coitado! Mesmo sem a conhecer, já sinto por essa rapariga raiva. Olha: já vem ali Josefa e Agostinho, vou-tos apresentar. Este aqui é um rapaz português, da terra do nosso pai, seu nome é Cândido.

- Que veio aqui buscar?

- Veio avisar-nos de que o avô Agostinho está doente, o pai vai amanhã buscá-lo. Não é parecido com este?

- Muito semelhante. Ponham-se à beira um do outro. Assim! Meu Deus, que semelhança! Até nos olhos!

- Isso não quer dizer nada; há imensas pessoas parecidas.

- Venham cear. Tu, Clara, trata da mesa.

- Está bem, mãe. Cândido: vem comigo, ajudas-me.

- Com todo o gosto; já estou habituado.

- Nunca mais nos vamos a ver.

- Provavelmente não; só se eu vier cá visitar o avô.          

- O meu avô?

- Sim, quem havia de ser?

- Como disseste o avô!

- Chamo-lhe assim porque gosto dele e é velho.

- Ah!

- Tu nem sequer o conheces, Clara.

- É verdade; há tantos anos que ando a pedir ao papá para lá me levar e ele foi sempre adiando.

- Agora já o vais ter aqui à tua beira.

- Que pena a avó ter morrido. Como era ela?

- Eu não sei se a conheci, não me lembro; saí de Cendre com seis anos de idade. O teu avô mostrou-me uma fotografia dela quando era nova; não era nada feia, tu pareces-te um pouco com ela.

- Achas?

- Muito parecida!

- Não sei porquê, mas parece-me que já te conheço há muito tempo, que crescemos juntos, ao pé de ti não me sinto inibida!

- Eu também me sinto bem a teu lado; sou normalmente acanhado com as raparigas, mas contigo não!

- Meninos: vão-se deitar que amanhã temos de partir cedo. Tu, Cândido, acompanha Dona Mariquita, que ela te diz qual é o teu quarto.

- Então adeus a todos, tive muito gosto em conhecê-los.

- Nós também; aparece um dia por cá, serás sempre bem recebido.

- Obrigado, Agostinho. Desejo-te felicidades Josefa, e a ti também Clara.

- Que Deus te proteja se fores à guerra, eu vou rezar muito por ti.

- Nunca te esquecerei Clara.

- Então rapariga, a chorar? Parece que te estás a despedir de um irmão!

- Não sei o que se passa, mãe; estou com tanta pena do Cândido se ir embora!   

 

XXXVII

 

O regresso às origens por ínvios processos

  

     Perante esta comovente cena, os vossos olhos encher-se-ão com certeza de muitas lágrimas: dois filhos, dois pais, um avô e um neto, num abraço de encontro e de separação. A vida é feita de encontros e desencontros, de alegria e de tristeza, de atos nobres e de atos vis. Mas será melhor ver:

 

 

- Avô Agostinho, aqui tem o seu filho.

- Meu querido Olavo, que saudades; estava a ver que nunca mais te via.

- Que é isso, meu pai; sabe como é a vida, muito trabalho, o tempo vai passando… Minha mãe morreu!

- Deixou-nos a pensar em ti; mesmo com febre, a delirar, só falava no seu menino, que nunca mais o veria, nunca mais o estreitaria nos braços, nem lhe cantaria cantigas de embalar.

- Adorada mãe; e eu, tão perto, não a vim ver, não lhe fechei os olhos na hora derradeira!

- Não sintas remorsos; a vida dos pobres não permite sentimentos nobres, o mais certo era nem teres dinheiro para as viagens.

- As pesetas sempre foram escassas, fogem de mim como o diabo da cruz, isso é verdade, a vida em Espanha não tem sido fácil, a guerra civil destruiu tudo, felizmente agora as coisas estão a melhorar, nossos filhos já irão certamente beneficiar desse progresso, mas para nós será sempre ruim, já é demasiado tarde. Você teve muita sorte em vir para casa deste jovem, pelo que me disse ele gosta muito de si.

- Tem-me tratado tão bem, e nós todos tanto mal lhe fizemos a ele, ao irmão, e a sua mãe.

- Nós?!

- Sim, nós; olha para ele. Com quem se assemelha?

- Com o meu filho Agostinho, mas porquê?

- Sabes como se chama a mãe?

- Não, ele não me quis revelar o seu nome.

- Matilde. Não te diz nada esse nome?

- Matilde?

- Sim, a mulher a quem fizeste dois filhos!

- O Cândido é…

- Sim, o jovem que tens na tua frente é meu neto.

- E meu filho! Cândido, perdoas-me?

- Somente Deus lhe poderá perdoar todo o mal que nos fez; eu não posso, não possuo poderes para tal. Leve seu pai para casa, trate-o bem, e Nosso Senhor levará isso em conta.

- E tua mãe, que é feito dela?

- A minha mãe anda pelas aldeias, ajudando aqui e ali, bebendo, bebendo sem parar, agora ela é um autêntico farrapo humano.

- E sou eu o culpado! Jamais imaginei que vos tivesse prejudicado tanto.

- É o destino; se não fosse você teria sido outro. A minha mãe nunca teve juízo. O táxi já está à vossa espera. Avô: espero ainda voltar a vê-lo, quando puder vou visitá-lo.

- Lá te espero, meu bondoso neto; tu comigo já vais no coração, nunca te esquecerei.

- Despachem-se, que o motorista está impaciente. Adeus, e pela minha parte estão ambos desculpados; o tempo sarará todas as feridas.

- Adeus meu filho, a Clara vai gostar de saber que tu és seu irmão, tanto chorou quanto partiste! 

- Dê-lhes por mim um grande abraço e diga-lhes que quando me for possível os visitarei.

- Meu neto, dá por mim um abraço a tua mãe, que desculpe todos os incómodos que lhe causei, eu vou pedir ao Senhor por ela, pode ser que se emende.

- Adeus avô; faça por viver muitos anos. 

    

XXXVIII

 

Com palavras também se constrói o futuro

  

     Eu e o meu irmão continuámos a falar das nossas vidas, dos nossos êxitos e dos nossos fracassos, do nosso futuro, dos nossos segredos. Sejam, peço-vos por favor, um nadinha coscuvilheiros:

 

- Então tu, tropa resolvida, vais ficar aqui na terra ou partes novamente para Lisboa?

- Nos primeiros tempos fico por aqui, depois logo verei.

- Ficas a morar aqui em casa?

- Só até arranjar emprego; parece que o senhor Crespo, solicitador, precisa de um ajudante, vou falar com ele.

- Tu aqui, e eu a caminho da maldita farda; se ao menos tivesse a tua sorte.

- Bem podes chamar-lhe sorte; a taluda! Mobilizado para Angola e um parvalhão dum camarada, vê lá tu – só lhe paguei umas cervejas, quis ir no meu lugar! Parvalhão!

- Ainda o insultas!

- Então não achas que foi parvo? Livrava-se da guerra e assim…

- Queria ser herói!

- Bom proveito, eu é que me safei.

- Eu não me safo, o azar tem-me acompanhado sempre.

- Deixa de ser pessimista, na tua idade…

- Achas que tenho razões para ser otimista, achas?

- Também não exageres.

- Sem pai, uma mãe assim, aturar um bruxo durante dois anos, roubam-me a noiva (e dizia-se o Artur o teu melhor amigo), não arranjo dinheiro para o passador, agora vou a caminho da mafarrica, daqui a uns meses África, consideras ainda…

- Haverá de chegar o teu dia de sorte, deixa de ser agoirento; «nem sempre azar…»

- Isso dizes tu, mas quando se nasce malfadado…

- Então tiveste aqui, em casa, um idoso? Conta lá como foi isso?

- O velhote é teu avô paterno.

- Meu avô?! Ah! Ah!

- Pai do teu pai. Andava a pedinchar pelas portas e eu meti-o aqui em casa.

- E a mamã, como reagiu?

- Ela não queria, barafustou, mas depois lá a convenci; no fundo, no fundo, ela é boa pessoa, tem bom coração.

- O vício…

- Não há nada a fazer. O Carlos da farmácia disse-me que existe um medicamento bom para isso, mas que para certas pessoas pode ser perigoso, até podem ficar doidas!

- Maluca, já ela é; mas seja como for o melhor é não lho darmos, ficaríamos com remorsos para o resto da vida caso as coisas não corressem bem.  

- Não te contaram mais nada?

- Não, qual é a novidade?

- Falei com o teu pai.

- Com o meu pai?

- Teu e meu; veio aqui buscar o avô Agostinho.

- Veio aqui a nossa casa?!

- Fui à procura dele, o velho não queria entrar para o asilo e então resolvi ir eu ao Porrinho…

- Bem me disseram que ele morava para esses lados.

- E sabes que tens mais quatro irmãos? Dois rapazes e duas raparigas.

- Galegos!

- Galegos, mas bonzinhos. Simpatizaram comigo.

- E tu com eles; está-se mesmo a ver.

- Estás com ciúmes; escusas de ter; tu serás sempre o meu irmão preferido.

- E o tipo, pelos vistos, levou o velhote.

- Eles trabalham nuns terrenos de um abastado lavrador; ainda são uns bons quilómetros da vila de Porrinho.

- Falaram em mim?

- Claro; disseram que gostavam de te conhecer.

- Se quisessem…

- Isso são águas passadas, e essas não movem moinhos; não nos podemos alimentar só de recordações. Um dia vamos lá fazer-lhes uma visita.

- E a tua mãe? Encontrou-se com ele?

- Não; a mamã andava pelas aldeias, agora nunca para em casa.

- E quem cozinha para ti?!

- Sou eu; cozo umas batatas, faço um arroz, fritos uns ovos com chouriço, enfim, cá me vou arranjando. Aos domingos ela fica em casa. Assim posso estar a engraxar sapatos até perto da uma hora da tarde. Sempre ganho mais qualquer coisa.

- Então nesse caso tenho de ir comer à pensão.

- Se quiseres eu também cozinho para ti. Não sei fazer petiscos, mas mesmo assim talvez seja melhor do que no restaurante.   

- Agradeço-te, mas prefiro comer na pensão; tu também podias lá comer, ajustava-se um preço.

- Quando regressar da tropa. Faltam apenas uns dias para eu ir…

- Como o tempo passa! Parece que foi ontem que enverguei a cinzenta e já passaram três anos!

- Vens tu, vou eu!

- Um garoto; eras uma criança há três anos; nem barba tinhas na cara!

- Ainda hoje tenho pouca.

- Eu, aos treze anos…  

- Qualquer dia arranjas uma moça para te casares.

- Ouvi dizer que os emigrantes as levam todas!

- É verdade; até raparigas com quinze ou dezasseis anos lhes têm servido!

- Tão novas! E os seus pais consentem?

- O que eles querem é ver-se livres delas; é menos uma boca para alimentar, a lavoura cada vez é mais ingrata.

- É por isso que eu lhe fugi; a tua mãe bem queria que eu fosse cavador.

- Fizeste bem; ser empregado de escritório é bem melhor.

- Não se ganha muito, mas pelo menos anda-se limpo.

- Eu também já ia ganhando uns dinheirinhos, deixei de engraxar nas feiras, aos domingos abro aqui a porta, só de manhã, juntei cinco contos, bom jeito me vão dar. Se precisares…

- Obrigado, não é necessário; como era 1.º cabo radiotelegrafista tinha um ordenado mensal, embora pequeno, não se comia mal no Entroncamento, por isso fui poupando.

- Em Lisboa não conseguiste juntar nenhum!

- Na capital é chapa ganha, chapa gasta; quanto mais se tem mais se esbanja.

     

XXXIX

 

O sismo só precisa de um minuto para destruir o que se construiu em séculos

  

     O problema da virgindade nos meios pequenos era ainda gravíssimo nos anos sessenta do século XX. Muitos rapazes “despacharam” as noivas para casa dos pais na noite do casamento! Queriam-nas “puras”, honradas, pois de outro modo seriam apontados a dedo pelo “violador”, ou por outros a quem ele tivesse revelado o segredo. Por outro lado, sentir-se-iam a segunda escolha, o que para eles era deveras humilhante. As raparigas poderiam já ter namorado com outros, mas teriam de estar intactas para o futuro esposo, caso contrário corriam o risco de ficarem casadas sem marido. A Bera tinha cometido esse crime e vai pagá-lo bem caro. Ouçam a notícia:

 

- Ó Cândido!

- Quem me chama?  

- Sou eu, o Golias.

- Parece que vens fugido à guarda!

- Eh, pá! Corri que nem uma lebre para te vir dar a notícia.

- Que notícia?!

- Em primeira mão; olha que ainda poucas pessoas sabem.

- Estás a aguçar-me a curiosidade. Desembucha.

- É melhor ficares aí sentado no banquinho.

- É coisa grave? Aconteceu alguma coisa à minha velhota?

- Não, pá! Não tem nada a ver com a tua mãe, trata-se de…

- Diz logo; estou a ficar impaciente.

- Deixa-me tomar fôlego; um acontecimento destes rouba o ar ao mais pintado.

- Então descansa um pouco e parla, eu tenho mais o que fazer.

- Pois bem: a Bera está cá!

- Cá? Aonde?

- Na nossa terra; foi recambiada a pontapé!

- O que lhe aconteceu? Conta lá isso por miúdos.

- Escusas de ficar com essa cor; não morreu ninguém.

- O que aconteceu?

- Bem, segundo me disseram a Bera não estava virgem, tu afinal tinhas provado a coisa, e nós a chamar-te bobo, bem nos enganaste!

- Eu?! Nunca fiz nada com ela, respeitei-a sempre, só uns beijos, uns abraços, umas carícias, nunca passou disso. Não! Aí deve haver gato! Sabes bem que Deus escreve direito por linhas tortas.

- Eh, pá! Garantiram-me que foi por causa disso; ela já tinha pinado com outro e o Artur na noite do casamento apercebeu-se. O tipo já devia estar de pé atrás, três anos a namorar contigo…

- Então botou-a fora da cama e mandou-a para a santa terrinha! Bonito!

- E consta que lhe deu uma grande surra, o tipo não gostou nada de ser enganado; afinal de contas vingaste-te bem, aplausos.

- Juro-te, Golias, pela alma dos meus antepassados, por tudo que me é mais sagrado, que jamais passei do beijo e do abraço; se isso tivesse acontecido já estava casado com ela. Há aí um mal- entendido, algo que terá de ser esclarecido; a não ser…

- Que estás a pensar?

- Pode haver outro metido no assunto. Será que ela?

- Com uma rapariga assim – vistosa, sorridente, simpática para todos, tudo é possível. Não me digas…

- O Atílio?

- Talvez. O fulano já desvirgulou muita catraia; dá-lhes dinheiro para roupa, uns passeios de carro… E quem lhas arranja…

- Não digas mais. E por incrível que isso nos pareça nalguns casos os pais delas são coniventes!

- É voz corrente que eles também recebem algum!

- São autênticas bestas, uns bêbados perdidos, venderem assim as filhas!

- No caso da Bera…

- Se tu juras que não a papaste, alguém foi.

- Caramba! E era eu que ia ficar com ela! Não sei se teria coragem de fazer o que fez o Artur; o mais certo era calar-me, guardar para mim esse segredo.

- Nem saberias provavelmente distinguir se ela estava virgem ou não, nunca tiraste o virgo a nenhuma – olha que não é fácil.

- Eu disso não percebo nada! Ouvi dizer que elas sangram!

- É verdade. Algumas até sujam os lençóis com sangue de galinha e o saloio pensa que lhe tirou os três! No dia seguinte come a ave – não pode ser é de cabidela!

- Quer dizer que não podemos confiar nas mulheres.

- Eu não quis dizer isso, ainda há raparigas honestas, respeitadoras, a minha mãe, por exemplo, diz que só dormiu com o meu pai; foi o primeiro namorado e o único. Mas estes casos podem-se contar pelos dedos das mãos.

- Meu Deus! E o que vai ser feito dessa rapariga agora?

- Tu voltas para ela, casam-se, fazes-lhe meia dúzia de ranhosos, e daqui a uns anos ninguém mais fala nisso.

- Achas que eu…

- Se não te conhecesse.

- Não; não me vou rebaixar; eu ainda tenho uma réstia de dignidade, isso é incompatível com o meu orgulho.

- Se não fores tu, será outro; com aquele corpo e aquela cara não lhe faltarão pretendentes.

- Não sei, nesta situação…

- Se tu não a quiseres não tarda muito está casada ou amigada com outro emigrante, vai para o estrangeiro e pronto.

- E daqui a uns anos regressa a Portugal, um bruto carro, roupas espampanantes, dois ou três filhos a falar francês… Ninguém ousará lembrar-lhe o passado.   

- Vês como chegaste lá! É assim a vida; se ela fosse um canastrão garanto-te que ninguém lhe olhava para a cara.

- Se fosse feia também o Artur não ma tinha roubado; e, pelo que me dizem agora, já outros andavam também com o olho nela. Eu confiava tanto na Bera que nem me apercebia disso.

- Isso é verdade; havia muitos rapazes de todo o concelho a cobiçá-la, tinham era medo da reação dela, o Artur arriscou e venceu, não contava era que o tiro lhe saísse pela culatra. Agora deixa passar uns dias, manda-lhe uns recadinhos pela tia, que é tua amiga e cliente, umas lágrimas, o arrependimento sincero ou fingido, vai-te jurar amor eterno, fidelidade, enfim, a reconciliação.

- Saíste-me um bom malandro, Golias; mas bem no fundo és capaz de ter razão – se não for eu, será outro. E eu já a conheço, continuo a gostar dela, claro que me sinto magoado «quem não se sente não é de boa gente», reza assim o ditado. Enfim, vou pensar. De qualquer modo, mais humilhado do que tenho sido ao longo destes anos pela minha velhota e agora pela Bera já não posso ser; toquei na lama, na caca que os outros expeliram. Sem pai, com uma mãe bêbada, enteado de um bruxo aciganado, engraxador, ladrão de fruta, aprendiz de tendeiro, vendedor de refrescos na feira, mercador de sonhos…

- E eu? E os outros? Pensas que somos diferentes? Ao fim-e-ao-cabo somos todos iguais: chafurdamos todos na mesma pocilga, pagamos na mesma moeda tributo ao amo e senhor, somos filhos da miséria e da ignorância… Tu, apesar de te queixares, és mais instruído do que nós, tens altos pensamentos, um grande crânio, nem pareces desta terra e desta gente! A única vantagem que levo sobre ti é ter um físico mais avantajado e uns pais dignos e bons.

- Não sei, Golias; às vezes imagino-me noutra época, noutro país, a residir numa cidade onde todo o indivíduo é alguém, sem fome, sem carências de espécie alguma, com liberdade para dizer e escrever o que pensa, com pessoas sérias a ouvir-me com atenção, sem ironia, sem aquele gozo que ofende, sem aquele sorriso de chacota que nos atordoa e nos derruba.

- És um lírico, um sonhador, um verdadeiro poeta. Daqui a cinquenta anos ainda te vou contemplar nessa posição: a bater sola nesse seixo que trouxeste do rio, e meteres as mãos nessas botas a cheirar a bosta de gado e a chulé, e a dizeres, com esse teu ar passivo: «um dia vou mudar de vida!»

- Não sejas cruel, Golias; permite que eu sonhe, afinal de contas todos nós acabamos por criar um mundo aparte, no qual somente nós cabemos, um lugar paradisíaco, imaginado, mas aberto a outrem. É o único privilégio que nos resta.  

- Podias ter as portas escancaradas desse lugar que eu nele não entraria; os meus pés sempre pisaram chão firme, sei que se quiser melhorar a minha vida terei de sair desta fossa maldita, dar o litro na terra alheia, não posso passar o resto da minha vida como ajudante de eletricista, a carregar a escada de um lado para o outro, depois sobe e desce, nem sequer imaginas o peso que a cabra tem, fios e mais fios, para ganhar uns miseráveis dez escudos por dia.    

- O torrão onde nascemos, e onde um dia depositaremos os nossos velhos ossos, não tem culpa da nossa miséria; eu amo estremecidamente este rincão e jamais o renegarei, aconteça o que acontecer.

- Para mim, a minha terra é aquela que me dá de comer, de vestir, que me possibilita criar na abundância os meus filhos e a minha mulher, que me torne homem e não escravo; o resto é conversa fiada, sonho de poetas como tu.

- Como somos diferentes, Golias! Eu não defendo a exploração do homem pelo homem, nem rubrico a doutrina da resignação, mas também não aceito a ganância, a luta pela riqueza a qualquer preço; a passagem do ser humano por este pequeno planeta é tão curta!

- É com pessoas como tu que o mundo está como está: aceitam tudo, mau e bom, não se revoltam, não sabem dizer não à pobreza.

- Mas, Golias: o que é que eu posso fazer?!

- Lutar, lutar sempre. Temos de tentar sair deste lamaçal, deste esterco de vida.

- Para ti a saída está na emigração…

- É o primeiro passo. O Atílio, e outros, daqui a pouco não terão quem lhes cultive as quintas; os padrecas não terão quem os ouça nas igrejas; os carrascos não terão pescoços para cortar.

- E os emigrantes serão uma força…

- Terão dinheiro.

- O dinheiro produz o poder.

- A igualdade.

- Poderão comprar terras…

- Construir casa…

- Terão direito ao voto…

- Elegerão os seus representantes…

- Os seus filhos terão acesso às escolas secundárias e superiores…

- Sim, às universidades…

- Enfim, a revolução sem sangue. E dizes tu que eu sonho!

- Eu falo de coisas realizáveis.

- Golias: o emigrante é apenas um trabalhador. Aqui ou em França, no Canadá ou na Argentina, nos Estados Unidos da América, ou em outro país qualquer o trabalhador por conta de outrem será sempre explorado. Os poderosos têm uma arma infalível quando o povo trabalhador começa a dar sinais de ter alguma força financeira: atira-lhe para cima com a inflação… 

- O que é isso?

- Repara: tu tens vinte contos de réis e com eles podes comprar uma casita. Passados uns meses, e com uma inflação em flecha, os mesmos vinte contos não te darão para comprar um casebre. Em meses retiram-te o poder de compra e tu terás de trabalhar mais e mais para juntar novamente algum. É um ciclo vicioso.   

- Quem te disse essas coisas?

- Tudo isso está escrito nos livros sobre economia.

- Tu lês de mais!

- Talvez. E para reforçar a minha ideia digo-te outra coisa: quando os senhores desses países não precisarem de mão-de-obra de fora, escorraçarão do seu solo todos os estrangeiros, botá-los-ão no olho da rua.

- Sei de portugueses que se naturalizaram.

- Meia dúzia. No conjunto nada significa. E esses terão de fazer vida de francês ou de americano, conforme o país onde estejam, não poderão morar em bairros de lata ou casas arruinadas, não poderão vestir as roupas que os naturais deitam fora – (sabes que muitos conterrâneos nossos, emigrantes, vão buscar as roupas e o calçado aos caixotes de lixo? Não sabes, pois não, pergunta-lhes quando vierem passar as suas férias, eles te contarão toda a verdade); não poderão comprar nos talhos as miudezas dos animais para com elas fazerem as suas magras refeições, pelo que seriam logo criticados pelos naturais. Não te iludas, Golias: quem vive exclusivamente do trabalho não medra nunca!

- És um pessimista, um bota-abaixo. Eu penso ganhar muito dinheiro na França, ou no Canadá, quando para lá for. Se não tivesse tomado a decisão de fazer a tropa já tinha nesta altura uns contos de réis no banco; mas quando tiver o serviço militar cumprido não estarei aqui nem dois meses, pisgo-me logo, é só tempo de tratar da papelada. Porque, garanto-te, se todos fossem como tu não haveria progresso – o mundo inteiro paralisava!

- Se todos agissem como eu não haveria exploração, ganância, aquela ânsia de grandeza e poderio; não reparaste como vivem os pássaros e os grilos, e outros animais, sempre em harmonia. E as árvores? Por acaso reparaste que todos os anos, se o tempo e o clima as ajudar, dão maçãs, peras, nozes… A ambição desmedida leva ao caos.   

- Os humanos não se comportam todos da mesma maneira.

- Daí os conflitos, as guerras, o ódio e a inveja.

- Tu queres ser santo!

- Só quero ser o que sou, nada mais.

       

 

XL

 

Na hora da despedida até as pedras choram

 

     A hora da partida é sempre tristonha, chorosa. Eis-me a olhar para o céu, para as árvores, para a minha mesinha de trabalho, para os meus amores. Será que um dia voltarei ao meu tão amado rincão? E a Bera? Será que casarei mais tarde com ela? Talvez um dia o saibam. Ouçam, por favor, e agora já para dar fim à minha história, este pungente monólogo:    

 

 

- Minha querida terra, vou deixar-te; vou envergar a farda do exército português. Não penses, não, que te abandono; nesta pequena mala de cartão levo o teu cheiro, o teu inebriante perfume. Jamais deixarei de pensar em ti, de falar de ti; aqui estão as minhas raízes, os meus sonhos, as minhas lágrimas; aqui nasceu o meu primeiro amor. Parto quase feliz, pois não conheci eu o meu progenitor, o meu avô, os meus irmãos espanhóis? Agora já posso dizer que tenho pai, apesar de no bilhete de identidade constar o contrário - «filho de pai incógnito.» Que importa: dentro do meu peito está gravado o seu nome, o afeto inventado, do avô não, esse é seguro, ninguém mo tira, é real, do pai… quem sabe, um dia, quando regressar da tropa, da guerra (duvido que possa voltar, quem me dera não ir), ele possa partilhar comigo um pouco desse amor paternal, chamar-me filho (que sensação agradável: «meu filho»), nunca ouvi esse doce canto: «meu filho!)

     Não chores, minha adorada terra; e vós, árvores e flores, ruas e avenida, pedras da calçada, aves dos campos, vós, rouxinóis, que com o vosso estrénuo trinar suavizaram o meu viver, não choreis também; vós, seixos do rio, que me entretínheis as horas de lazer; vós, enfim, galos de crista vermelha, que com o vosso madrugador canto me servíeis de relógio; e tu, minha querida oficina – foste confidente, minha amiga, minha irmã, contigo passei alguns bons e maus momentos, alegrias e tristezas; minhas formas, sovelas, escovas de macio pelo, martelos – que dizer-vos? Talvez nunca mais vos acaricie, vos conte as minhas angústias e mágoas; e finalmente vós, meus conterrâneos, meus irmãos na miséria, que poderei eu transmitir-vos? Apenas uma promessa: jamais vos esquecerei.

     A ti, Bera, anjo e demónio, desejo-te todo o bem do mundo: a tua culpa é a culpa de nós todos; o teu erro é reflexo deste tempo, desta frágil sociedade feudal, apodrecida; não sei se me esperarás, essa incondicional confiança em ti esboroou-se; se me esperares, e se eu sobreviver às balas mortíferas, juro que te farei esquecer o passado, terás em mim um marido carinhoso, amante, fiel; procurarei dar-te todo o bem-estar, todo o conforto a que aspiras e a que tens pleno direito; o mundo não será sempre ruim, vais ver. Criaremos os nossos pequerruchos, dar-lhe-emos todo o carinho, estudos, uma carreira – acredita em mim, tem esperança no devir.

     E a vós, minha querida mamã, que poderei eu dizer-vos? Entre nós interpôs-se uma enorme muralha; um fundo poço de águas envenenadas isolou-nos para todo o sempre; separam-nos abismos profundos, obstáculos incontornáveis, altas serras, universos e mais universos de distância. Eu sei! Mas o amor entre filho e mãe, entre aquela que nos trouxe a este mundo, nos pariu, nos deu a ver e sentir as tristezas e misérias que por aqui existem, é maior, é mais alto, é mais forte e duradouro do que todos os abismos, todas as montanhas e serras, todas as distâncias que existem ou se possam imaginar. Não, mamã, apesar de tudo, apesar dos gigantescos erros, dos vícios, da fragilidade e da incapacidade para modificar o estado das coisas, apesar disso tudo, o amor vence, ultrapassa as invencíveis barreiras, galga todas as nuvens letais.                 

  

FIM

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