DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
Por Joaquim A. Rocha
escritores melgacenses
Martinho de Melo e Castro. Embora
conste que nasceu em Lisboa, monsenhor Almeida Silvano, na sua obra «As Águas de Melgaço», diz que ele nasceu
em Melgaço (ver Padre
Júlio Apresenta Mário, página 146). Como não tenho em meu poder fotocópia do seu
assento de batismo, nem sequer do seu assento de óbito, limito-me a transcrever
o texto seguinte, inserido no Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico,
Heráldico, Corográfico, Numismático e Artísco. João Romano Torres, Editor.
Lisboa, 1903: {«Estadista e grande diplomata. Nasceu em Lisboa a 11/11/1716 e
faleceu a 24/3/1795. Era filho de Francisco de Melo e Castro, descendente da
família dos Castro de Melgaço, tronco das casas dos condes de Resende e das
Galveias. Destinando-se à vida eclesiástica, cursou filosofia na Universidade
de Évora, pertencente à Companhia de Jesus, e obteve – ainda muito novo – o
grau de bacharel, distinguindo-se por se mostrar um fervoroso apologista da
filosofia peripatética, defendida pelos jesuítas contra os adversários, entre
os quais tinham o mais importante lugar os congregados do Oratório. Passou
depois a estudar Direito Pontifício, na Universidade de Coimbra, em que recebeu
também o grau de bacharel, e por influência da família foi provido – ainda em
curta idade – num canonicato da Sé Patriarcal. Mas a sua inteligência e vocação
o chamavam a outra carreira, porque a eclesiástica nada lhe sorria. Favorecido
pela proteção e amizade de el-rei D. José, encetou a carreira diplomática, indo
em 1751 representar Portugal como enviado junto aos estados gerais das
Províncias Unidas, sendo pouco depois, em 1754, transferido para a corte de
Londres, onde o rei Jorge II o tratou com a maior distinção. Sucedendo em
Lisboa o grande terramoto do primeiro de Novembro de 1755, calamidade que
excitou a compaixão dos ingleses, Jorge II resolveu acudir com avultada
quantia, sob o pretexto de que Portugal ficaria colocado em sérios apuros
financeiros com tão lamentável desgraça. O ilustre diplomata, para não ser desagradável
ao soberano inglês, aceitou o donativo, e converteu-o a favor da sua terra,
comprando com ele um parque de artilharia que mandou a el-rei D. José. Por
ocasião da guerra entre Espanha e Portugal, Martinho de Melo e Castro alcançou
pelo trato em que vivia com os principais membros do governo e com os chefes da
oposição, que segundo as letras dos tratados fossem mandados socorros de tropas
ao nosso país, apesar da malevolência de lorde Tyrawley, que tendo sido pouco
antes mandado a Portugal, informou o seu governo de que seria inútil qualquer
auxílio porque Portugal decerto não poderia resistir a três meses de campanha.
Foi ainda por intervenção de Martinho de Melo e Castro que se estipularam os
contratos com que vieram servir no nosso exército muitos oficiais dos que então
andavam a soldo de estrangeiros, e - segundo as próprias palavras do marquês de
Pombal - o nosso enviado executou habilíssima e zelosissimamente todas as
instruções durante a guerra de 1762. No ano de 1763 foi mandado a Paris para
tomar parte no congresso em que se negociou a paz entre Portugal, França, Inglaterra
e Espanha, e pretendendo o duque de Choiseul, então ministro dos estrangeiros
de Luís XV, manter a preeminência da
sua nação na assinatura do tratado, com tais razões sustentou o nosso representante
o direito de Portugal, que logrou afinal sair quanto possível airoso dessas
pendências diplomáticas. Diz-se que apenas terminou o congresso, el-rei D. José
mostrara desejos de aproveitar o superior talento e o valioso critério de Martinho
de Melo e Castro para tomar parte no ministério, mas que o marquês de Pombal
conseguira demorar a entrada do distinto diplomata, alegando a grande falta que
fazia na corte de Londres um homem de tanta habilidade e competência, e Martinho
de Melo e Castro voltara para aquela missão diplomática, onde se conservou até
1770, ano em que regressou ao reino, entrando então no ministério para dirigir
a repartição do ultramar, lugar que ficara vago pela morte de Francisco Xavier
de Mendonça, irmão do marquês de Pombal. Martinho de Melo e Castro era tido em
alto conceito no paço, e era indicado pela opinião pública como um dos
infalíveis sucessores do marquês de Pombal, se o rei viesse a falecer, ou se
por qualquer circunstância o primeiro-ministro se demitisse do elevado cargo que
exercia. Martinho de Melo, apenas entrou na gerência dos negócios, não poupava
as censuras e sátiras ao sistema de governo seguido em Portugal e começou a
disputar a primazia e a minar a influência do marquês de Pombal, mas este em
breve o fez moderar e recolher ao silêncio, valendo talvez a Martinho de Melo e
Castro a sua incontestável habilidade própria e a amizade de el-rei D. José,
para que o primeiro-ministro o não obrigasse a seguir o caminho do desterro,
para onde já enviara três dos seus colegas no ministério. Contudo, Martinho de Melo
e Castro, embora se julgasse superior à justa medida dos seus merecimentos, era
cuidadosamente aplicado aos negócios da sua secretaria, e sobre os mais graves
temas da administração e reforma das colónias, escrevia memórias e projetos que
eram justamente apreciados pelo exato conhecimento dos assuntos e pela madureza
dos alvitres. Quando faleceu el-rei D. José e se desencadearam todos os ódios
contra o marquês de Pombal, aproveitou a ocasião para se vingar, sugerindo a
ideia de que se instaurasse processo contra o poderoso ministro, ideia que foi
logo aceite. Foi ele quem se encarregou de anunciar ao marquês de Pombal que
estava demitido dos altos cargos que exercia. No reinado de Dona Maria I
continuou fazendo parte do ministério, e foi então que empreendeu notáveis
reformas, organizando o quadro dos oficiais da armada, melhorando os estudos,
aumentando o número de vasos da esquadra, mandando construir o dique no
arsenal, alargando extraordinariamente a Cordoaria, e reorganizando o arsenal,
podendo quase dizer-se que a todos os ramos de serviço naval levou a sua
inteligência e ousada iniciativa. Escreveu: «Memória sobre o projeto da companhia da Índia». São muito
interessantes os documentos seguintes, parte impressos, parte manuscritos, que
servem para o estudo da história do Brasil, e dão uma ideia da importância dos
serviços prestados por Martinho de Melo e Castro; «Memória sobre o melhoramento dos domínios de sua majestade no Brasil»;
«Instruções de … a Luís de Vasconcelos e Sousa
acerca do governo do Brasil»; com a data de 27/1/1779, e saíram na revista
do Instituto Histórico, tomo xxv, de 1862, página 479. Escreveu diversos
avisos, em diferentes datas, dirigidos ao Brasil, que vêm mencionados no volume
XVII do Dicionário Bibliográfico, páginas 6 e 7. Escreveu também várias
memórias sobre o comércio da Ásia, o plano de uma companhia para o negócio de Cabo
Verde, etc.}
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