terça-feira, 13 de outubro de 2015

Havemos de ir a Viana

Entre sombras misteriosas,
em rompendo ao longe estrelas,
trocaremos nossas rosas,
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana,
como engana a fantasia,
havemos de ir a Viana,
ó meu amor de algum dia.

Ó meu amor de algum dia,
havemos de ir a Viana,
se o meu sangue não me engana,
havemos de ir a Viana.

Partamos de flor ao peito,
que o amor é como o vento;
quem para perde-lhe o jeito,
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana,
como engana a fantasia,
havemos de ir a Viana,
ó meu amor de algum dia.

Ó meu amor de algum dia,
havemos de ir a Viana,
se o meu sangue não me engana,
havemos de ir a Viana.

Ciganos, verdes ciganos,
deixai-me com esta crença;
os pecados têm cem anos,
os remorsos têm oitenta!


Pedro Homem de Melo



Caramuru 

     Quando eu andava por Viana do Castelo, nas minhas investigações no Arquivo Distrital, numa das praças principais da cidade vi uma estátua em bronze, representando um homem, alto, forte, e uma mulher jovem e bonita. Curioso como sou, li o que ali se escrevera, indaguei, colhi mais elementos sobre essas duas figuras enigmáticas. Vim a saber que se tratava de Diogo Álvares Correia, nascido em Viana por volta de 1475, o qual, ainda novo, embarcara para o Brasil, tendo o barco onde seguia naufragado já em terras brasileiras. Alguns dos que seguiam a bordo provavelmente morreram, mas ele não; salvou-se graças a uns índios. Gostaram tanto dele que acabou por casar com uma moça da tribo, a qual, anos depois, numa visita que ambos fizeram a França, paga por comerciantes de madeira, franceses, foi nesse país batizada na igreja católica e recebeu o nome de Catarina. Ele era conhecido entre os índios por “Caramuru”. Ajudou imenso os primeiros colonos e missionários, e até o rei de Portugal, D. João III, através de uma carta, lhe pediu essa colaboração. Faleceu em Tatuapara, Salvador, Baía, a 5 de Outubro de 1557, com 82 anos de idade. Segundo consta, deixou muitos filhos.     


domingo, 11 de outubro de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha




Cartas de um castrejo

10.ª - «Senhor Redactor: soa, ao longe, um clarim que tanto pode ser o da vitória como o da ruína, segundo o conto a seguir, e que prova que os homens ouvem conforme têm o coração e a inclinação. Um santo e um guerreiro ouviam o mesmo som. Aquele dizia: parece que oiço tocar a coros. Este respondia: será tumulto de guerra? Pois era o mesmo som e era a mesma distância – logo, ouviram “conforme tinham o coração e a inclinação”. Nós, que temos o máximo desejo de ver o equilíbrio económico desta querida terra, que nos foi berço e… quem sabe? nos será cobertura quando a morte nos paralise a energia, queríamos vê-la enfileirar na cruzada que encetou. “Um desconhecido”, no “Correio”, e que trata das mutuais bovinas – sociedades tendentes a indemnizar os sócios dos prejuízos a haver por morte ou desgraça do seu gado bovino. Leiam aqueles simples artiguelhos, onde transparece a boa vontade sã, à míngua de engenho, e verão os altos benefícios que uma freguesia como a nossa pode auferir da associação para garantia de gado bovino, por morte súbita ou outro acidente, quer sejam o santo ou o guerreiro, aquele toque deve soar-lhe ao ouvido, sem discrepância de ideais ou distâncias. Ouviram, meus queridos conterrâneos? // O digno encarregado do registo civil desta freguesia escreve-nos, com data de 30, p.p., justificando a sua abnegação, interesseira naquele lugar. Fala-nos da «falta de instrução» (isso conhecêmo-lo nós de mais e é um dos nossos mais graves males); diz-nos que a carência de selos produz, muitas vezes, demoras alheias à sua vontade; assevera-nos que a repartição é em sua casa e, por fim, que desempenha aquele lugar como castrejo amigo dos que lhe compartilham a sorte. Nem por um momento duvidamos das suas afirmativas e cremo-lo piamente. Se a sua carta de 30 chegara a horas já no número passado do “Correio” haveríamos pedido a publicação das suas razões, porém, permita-nos que lhe ponderemos: à distância do posto do Registo Civil, há lugares nesta freguesia de 5 a 10 kms – não é verdade? Pois vir do Ribeiro, por exemplo (lugar mais distante), ao posto e ter de continuar a Melgaço em busca de uma estampilha, para o registo ser lançado e o respectivo bilhete legal, isto é incrível e desumano…! Cinco léguas (25 km) para conseguir uma estampilha, por não a haver na repartição competente! Isso chega na Vila de Melgaço, onde o notário – para o mais pequeno reconhecimento nos manda, ali, à tesouraria, buscar uma estampilha, até de centavo! Mas as distâncias centuplicam-se e as ruas calçadas de Melgaço não se equiparam aos caminhos intransitáveis de Castro Laboreiro e, de mais a mais, vendo a cada passo um precipício! A neve que ainda enche as ravinas dos regatos caudalosos, os barrancos que buscam despenhar-se a cada momento, os buracos que nos convidam a esconder-nos nas suas guelas negras…, tudo isto deve lembrar ao bom amigo Rodrigues, ou melhor, ao Oficial do Registo Civil deste concelho. E mais: que este posto em Castro Laboreiro precisa ter: 1.º - casa própria para repartição, pois esta freguesia já foi um concelho e a sua população tem direito a muitas regalias que lhe são cerceadas. 2.º - selos, papel e instruções especiais, que são requeridas pelo meio em que vivemos e que em quadras do ano nos afasta da convivência universal. 3.º e último: a melhor boa vontade do encarregado, virtude que lhe não falta, sem dúvida, mas que é indispensável pôr à prova em todas as ocasiões e, muito mais, nas mais difíceis. Sabemos que não tem obrigação de ter selos, que não tem nem o mais ínfimo dever de emprestar casa para a repartição, etc., mas também sabemos que, com um pequenino esforço, pode ter selos; e casa já a dá, o esforço não falta e temos tudo regularizado. Não é verdade? E se alguma coisa faltar, agarre-se ao seu bispo, que é o nosso dilecto amigo Dr. José Joaquim Abreu (*), para este deixar o veículo e caminhar às mil maravilhas. Se nos queixarmos ambos, a ambos absolve e remedeia, aconselhando, pois sabe e não lhe falha a vontade de nos ser útil. // (…) // Mais uma proeza da Guarda-Fiscal desta freguesia é a partida pregada ao nosso bom amigo José Joaquim Alves (**), apreendendo-lhe – ilegal e inconcientemente – uma porção considerável de chocolate! Nós temos aconselhado à Guarda Fiscal, aqui onde, diga-se de passagem, uma ou outra vez aparecem empregados zelosos e cumpridores dos seus deveres, que não nos julgue país conquistado, para não nos incomodar seriamente. Nada. Julgam-se senhores absolutos e parece que refinam à medida que os aconselhamos – pelo que, aliás, lhes não levamos cheta! Vale-nos, porém, que o Chefe da Guarda Fiscal, neste concelho, alia a um carácter primoroso, uma rectidão inabalável, e fará entrar no cumprimento estrito do dever os que, não querendo ouvir-nos, falseiam a sua missão. Valeu, camaradinhas? E, se Deus me der forças, para o dia 9, irei expor a S. Ex.ª muitas coisinhas bonitas! // Castro Laboreiro, 6/4/1916.»                

(*) // Foi o primeiro Conservador da Conservatória do Registo Civil de Melgaço; era natural do lugar de São Gregório, freguesia de Cristóval.

(**) // Sócio de uma pequena fábrica de chocolate em Castro Laboreiro. Os guardas por vezes fechavam os olhos, mas as chefias exigiam-lhes serviço, por isso tinham que aplicar algumas multas.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

MELGACENSES NA GUERRA CIVIL DE ESPANHA


     Lê-se na Cronologia Enciclopédica do Mundo Moderno: «A vitória eleitoral da Frente Popular encabeçada por Manuel Azaña não foi bem aceite pelas forças conservadoras espanholas, sobretudo pelo exército. O general Francisco Franco, comandante militar no Marrocos espanhol, inicia a revolta. Durante três anos (1936-1939) republicanos e nacionalistas vão travar uma das mais violentas guerras civis da História. A União Soviética, o México e, sobretudo, voluntários de esquerda (leia-se democratas, defensores da democracia) provindos de todo o mundo apoiam as forças governamentais. A Alemanha (de Hitler), a Itália (de Mussolini), e Portugal (de Salazar), apoiam os rebeldes (de Franco). Quando os nacionalistas entram em Madrid em 1939 a Espanha era um país arrasado por uma guerra sem tréguas, em que morreram cerca de um milhão de espanhóis, e que fez partir centenas de milhares para o exílio.»            

    De Melgaço saíram alguns jovens a fim de entrarem na luta, uns ao lado das tropas de Franco e outros contra elas. Aqueles que estiveram ao lado do caudilho foram na sua maioria recrutados pelo Dr. João Durães, dono da farmácia, entre outros, ligados à legião portuguesa. Hoje vou falar de dois irmãos que se puseram ao lado dos republicanos. As razões que os levaram a entrar nessa maldita guerra civil eu as desconheço, mas suponho que seriam de ordem ideológica.  Eis os dois manos:


DOMINGUES, Abílio Augusto. Filho de José Roque Domingues, tamanqueiro, e de Maria Joaquina Dias, doméstica, naturais de São Paio, moradores no sítio do Regueiro da Ponte, Fiães. Neto paterno de Manuel Caetano Domingues e de Maria Joaquina Figueiredo; neto materno de Manuel Caetano Dias e de Rosa Emília Domingues. Nasceu em Fiães a 17/1/1906 e foi batizado na igreja católica local a 21 desse mês e ano. Padrinhos: Vitorino Domingues e Ludovina Domingues, solteiros, camponeses. // Casou na igreja católica de Desteriz, Padrenda, a 6/6/1929, com Emília, de 21 anos de idade, natural de Rouças, filha de Vitorino Dias e de Ana Cardoso. // Segundo me informou António Augusto de Melo, nascido em Cavaleiros, Rouças, em 1928, o Abílio Augusto (e também o seu irmão Manuel Albano, nascido em Fiães a 6/9/1910) lutou na guerra civil de Espanha contra as tropas de Franco; como foi derrotado, teve de fugir para França.  // Nada mais sei sobre ele. Não esquecer que logo a seguir à guerra civil de Espanha começou a segunda guerra mundial.   



    




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



O NOSSO RIO


     No livro de Geografia para a terceira e quarta classes, de 1950, pode ler-se: «o rio Minho nasce nos Montes Cantábricos, em Espanha, e tem a sua foz em Caminha. Passa pelas vilas de Melgaço, Monção e Valença, servindo de fronteira entre Portugal e Espanha desde Melgaço a Caminha. Pela margem esquerda tem como afluente o Coura
     Para os rapazes do meu tempo o rio foi um amigo, um confidente – a nossa Bracalândia. Nele nadávamos, pescávamos, atravessávamo-lo para irmos às festas que se realizavam nas aldeias galegas vizinhas. Foi talvez pelos inícios dos anos quarenta que o senhor Mário Trancoso teve de o atravessar rapidamente devido a uma briga entre galegos e portugueses. A frase «adiós Cresciente, nunca mais verás a Mário Tenente» ficou famosa. Foi sobre o seu leito que o senhor Alfredo Lourenço, por essa mesma altura, repousou da gorda refeição comida à borla e com direito a troco! A história é curta e vou contá-la sem grandes floreados. O senhor Alfredo foi, talvez num sábado à tarde, a uma dessas festas galegas com os seus amigos melgacenses. Depois de passearem, de dançarem, os seus estômagos começaram a exigir-lhes o respetivo alimento. O amigo Alfredo, líder do grupo, virou-se para os seus companheiros de farra e disse-lhes: «vamos comer à taberna do Pablo; quanto ao pagamento, não se preocupem, eu pago tudo!» Os amigos entreolharam-se, interrogando-se com o olhar. Não queriam crer que ele tivesse assim tanto dinheiro, e fosse tão magnânimo, para lhes pagar a ceia. No entanto, a fome era tanta que não dava para ficarem ali parados a especular sobre essa súbita riqueza onassiana. Correram para a conhecida tasca, comeram e beberam até ficarem satisfeitos. Agora é que iriam ser elas. E se o Alfredo, às vezes tão fanfarrão, não tivesse dinheiro? Diz um deles ao ouvido do que lhe estava mais próximo: «reza». O Alfredo, impávido e sereno, no seu jeito de grande senhor, grita para o dono da taberna: «Eh, Pablo! O meu troco?» O homem, não tendo braços, nem pernas, para atender a todos os clientes, responde-lhe: - «Quanto me deste, hombre?» O Alfredo, sem hesitar, arrisca: - «quinhentas pesetas». O taberneiro pergunta-lhe: - «E quanto pagas?». «Trezentas pesetas.» O galego dá-lhe de troco duzentas pesetas! Comeu, bebeu, ele e os amigos, e ainda meteu dinheiro ao bolso! Coisas do Alfredo. Há quem diga que o tal senhor, logo que soube da marosca, lhe chegou a roupa ao pêlo. Não acredito, mas é possível.
     Foi também por ter ido ao rio, sem autorização, que o Valdemar ouviu de sua mãe, a senhora Nunes, a seguinte admoestação: «Vai, vai, mas olha que se afogas levas uma tareia que recordarás para o resto da tua vida!» Felizmente, para ele e para todos nós, não lhe aconteceu nada de grave. O Joaquim Augusto de Magalhães Fernandes (Angola,1937-Vila de Melgaço,1977) ia tendo menos sorte. No Peso o rio tem correntes traiçoeiras e o Joaquim esteve quase, quase, a afogar-se. Salvaram-no in extremis. Outros, sucumbiram mesmo: por ousadia, por excesso de confiança, por ignorância ou azar, ou por qualquer outra coisa, deixando assim todo o nosso concelho de luto. O rio é um amigo, mas temos de respeitar a sua força, a sua magia, o seu abraço mortal.
     Um dia, há uns bons trinta anos atrás, assisti a um acontecimento inesperado. Estava no monte de Prado, a olhar embevecido essa paisagem deslumbrante e única, quando ouço tiros de espingarda. Um jovem corria pela margem espanhola e, de repente, atira-se ao rio para o atravessar. Este levava pouca água, mas as correntes aí são perigosas. Atrás dele corriam dois carabineiros, disparando para o ar. O rapaz, qual campeão de natação, atravessa o rio com uma rapidez incrível. Penetra no monte do senhor António “Lareiro”, perdendo-se, assim, de vista. Que teria feito para se expor desse modo às balas da autoridade? Contrabando? Roubo? Nunca o soube. Nesse tempo a curiosidade não era aconselhável – a ignorância protegia-nos! A notícia, muito deturpada, apareceu no jornal «Notícias de Melgaço». O informador, ou informadores, fantasiaram, tendo chegado ao ridículo de atribuírem nome ao rapaz! Isso só seria possível se o tivessem visto de perto, o que não aconteceu.
     Outra lembrança do rio tem a ver com os namoricos. As raparigas galegas, mais ousadas, menos tímidas, do que as portuguesas, deslocavam-se todos os domingos para a margem e nós, os que sabiam nadar (aqueles que não sabiam muito, era o meu caso, nadavam com a ajuda de uma boia) íamos ter com elas e conversávamos, num galego-português medievo, sobre assuntos diversos. Antes de ir para a tropa despedi-me delas e de seus olhos rolou uma esquiva lágrima. Para o rio escrevi o soneto:   


Lindo rio, quantas boas lembranças
Eu tenho de ti, meu bom rio Minho;
Trataste-me com amor, com carinho,
Embalaste ténues, vãs esp’ranças.

Naquelas nunca esquecidas andanças,
Subindo e descendo por mau caminho,
Sussurrei-te ao ouvido, tão baixinho!
Palavras doces, chorosas e mansas.

Sei que continuas à minha espera…
Aí, nesse lugar belo e deleitoso;
E eu aqui, nesta suja atmosfera!...

Lembrando ainda aquele antigo gozo,
Aquele fetiche feito quimera…
Quem roubou a esta alma seu esposo?


              

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 975, de 1/12/1992.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

AS MINHAS ANEDOTAS

Por Joaquim A. Rocha


      Certo dia o senhor António resolveu ir à praça comprar peixe. A senhora Maria, peixeira há muitos anos, dotada de um vozeirão infernal, ao vê-lo aproximar-se grita: «ó freguês, olhe para este carapau fresquinho; veio hoje mesmo do mar

   
  O senhor António, habituado a fazer compras, analisa cientificamente os olhos do carapau, completamente vidrados, e diz com ironia: «ó senhora peixeira, esse até parece que veio do mar morto


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UMA IDEIA GENIAL

     Ano 2016. Maria de Belém fora eleita presidente da República. A sua primeira viagem ao estrangeiro efetuou-se à Alemanha. A chanceler alemã fez uma grande festa em sua honra, com música e dança. A portuguesa dançou com diplomatas, com ministros… Às tantas surge no salão um funcionário da embaixada portuguesa; trazia uma mensagem urgente para a presidente do Estado português. Perguntou onde ela se encontrava, mas ninguém sabia – andava por ali a dançar, no meio daqueles gigantes. Diz um alemão ao mensageiro: «porque é que vocês não lhe põem um chip; assim saberiam sempre onde ela se encontrava!»

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       Nota: ambos os desenhos são da autoria de Luís Filipe Gonzaga Pinto Rodrigues, melgacense.   








    



sábado, 3 de outubro de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



MACRÓBIOS

     Mais uma vez dou a conhecer aos meus leitores um conjunto de criaturas idosas, as quais morreram com cem, ou mais anos de idade, praticamente numa altura em que pouco se recorria aos médicos e aos medicamentos. Os remédios caseiros, quase todos feitos a partir de plantas, eram a mezinha que ajudava a curar as pequenas doenças. As couves, as batatas, um pedaço de carne de porco, davam força, energia suficiente para o dia a dia. É certo que nem todas as pessoas da chamada aldeia duravam tanto tempo, mas mesmo assim esta longevidade espanta-nos.  

Cristóval

BARROS, Maria Alexandrina. Filha de Domingos José de Barros e de Maria Gonçalves. Nasceu na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço, a 5/12/1884. // Faleceu na freguesia da Pena, concelho de Lisboa, a 23/6/1984, quase com cem anos de idade.

DOMINGUES, Maria Augusta. Filha de António Avelino Domingues, natural da freguesia de Fiães, e de Francisca Rosa Esteves, natural da freguesia de Cristóval. Nasceu nesta última freguesia, Cristoval, a 20/7/1907. // Casou a 22/10/1924 com Manuel José Pinheiro, natural de Fiães. // Faleceu na sua freguesia de nascimento a 13/11/2009, com cento e dois anos de idade.


GOMES, Estefânia Augusta. Filha de Manuel António Gomes e de Delfina de Sousa Viana. Neta paterna de Manuel António Gomes e de Rosa Alves; neta materna de António José de Sousa Viana e de Rosa Durães. Nasceu no lugar de São Gregório, Cristóval, a 21/3/1878 e foi batizada a 24 desse mês e ano. Madrinha: Maria de Sousa Viana, casada, residente em São Gregório, tia materna da neófita. // Casou com Vitorino José Esteves. // Foi benemérita das obras de Santa Rita, Rouças, e do Lar Pereira de Sousa. // Embarcou para o Brasil a 20/3/1950, ficando a morar em casa de familiares. // Finou-se em São Paulo, Brasil, a 24/6/1985, com 107 anos de idade. // Mãe de Virgínia Aurora Esteves, nascida em São Gregório em 1902, e de Vitorino Manuel Esteves, nascido em São Gregório em 1908. // Era irmã do padre Manuel Bento Gomes, falecido em 1947, o primeiro arcipreste do concelho de Melgaço.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

GENTES DE MELGAÇO
(biografias)

                                                                Por Joaquim A. Rocha

Freguesia de Paderne


         Dr.  Vitoriano ao centro, de bengala, com a família.

CASTRO, Vitoriano da Glória (Dr.) Filho de Lourenço José Ribeiro Codesso de Figueiredo e Castro e de Maria Joaquina Mendes. Neto paterno de Jerónimo José Codesso Soares de Figueiredo e Costa e de Margarida Clementina de Lima Azevedo de Sousa e Castro (ele da Casa da Portela de Paderne e ela da Casa da Cordeira, Rouças); neto materno de Ana Luísa Mendes, natural de Cevide, Cristóval. Nasceu na Portela de Paderne a 27/8/1860 e foi batizado a 6 de Setembro desse ano. // Fez exame da 4.ª classe em 1872, depois foi para o Liceu de Viana. Ingressou em 1890 na Universidade de Coimbra onde, em Julho de 1895, se formou em Medicina. Fixou a sua residência em Alvaredo antes de 1904 pelo facto de a esposa ter herdado a Quinta da Carvalheira (para iluminar a casa comprou a João Batista dos Reis, famoso latoeiro, o gasómetro a carbureto “Sem Rival”, inventado pelo dito João). // Casou a 21/9/1891 com Joaquina de Boa Memória, de 17 anos de idade, filha de Francisco José da Rocha e de Maria da Conceição Queirós, comerciantes e proprietários na Vila de Monção e em Penso. Em Outubro de 1897 ainda morava em Penso. // Pertenceu ao Partido Progressista no regime monárquico. Depois de 1910 aderiu à República, mas, aborrecido com esta, em 1916 já se dizia simpatizante da monarquia. // Logo que terminou o curso abriu consultório em Melgaço, na «Farmácia Nova», de Domingos Ferreira de Araújo, sendo nomeado pouco depois médico municipal, tendo a Câmara criado o 3.º partido médico. // É uma das figuras mais carismáticas do concelho. Tudo lhe acontecia! O Correio de Melgaço n.º 41, de 1913, traz uma notícia surpreendente: «Manuel Barrenhas, de Cousso, homem – ao que dizem – de alguns haveres, tem ido diversas vezes a casa do Dr. Vitoriano, em São Martinho [de Alvaredo], fazendo diabruras. A última, porém, foi de consequências más, dando ao nosso amigo médico não pequeno prejuízo, arrancando-lhe parte do arame que lhe cerca a propriedade, e inutilizando o tejadilho e respectivos varais do seu carro. Além destas proezas, outras o homem tem feito, sem que até hoje alguém a elas ponha cobro. A família do nosso digno amigo e vizinhança vive em sobressalto, pois que o doido tem ideias incendiárias. O Dr. Vitoriano já fez queixa à autoridade administrativa, que imediatamente deu as necessárias providências.» // Outra má notícia aparece-nos no Correio de Melgaço n.º 120, de 13/10/1914: «Quando no sábado último se dirigia a esta Vila o Dr. Vitoriano, guiando o seu carro e trazendo nele Henrique de Sousa, do Porto, João Batista Reis e o pequenito Lourenço, ao chegar próximo do Rio do Porto o cavalo não susteve o peso do carro e precipitou-se na propriedade de Manuel Pires, a uns três metros abaixo da estrada. O carro virou-se sobre os passageiros que, devido a uma latada, amorteceu o choque – nada mais sofreram do que o susto.» // Outro caso menos agradável para ele foi quando a Câmara Municipal abriu concurso para um médico do 2.º partido, oferecendo 400$00/ano. O Dr. Vitoriano era detentor do 1.º partido e recebia 300$00. Candidatou-se; os outros candidatos eram o Dr. Manuel Pinto Magalhães e Dr. Joaquim Pereira (Correio de Melgaço n.º 173, de 7/11/1915). Foi escolhido o Dr. Magalhães. Uma injustiça, segundo a opinião dos colaboradores do “Correio de Melgaço”. Vingança! – acusavam os seus correligionários. O lugar já estava destinado ao Dr. Magalhães, segundo os do Correio de Melgaço: «O que revolta e indigna é que o Dr. Vitoriano, credor de todas as deferências e com uma larga folha de serviços prestados durante vinte anos, fique a perceber menos 100$00/ano! Isso não pode ser! Contra isso protestamos ardentemente e gritaremos sempre: abaixo a iniquidade!» (Correio de Melgaço n.º 175, de 21/11/1915). «Ó céus! – porque não baixais à terra num momento dado e por intermédio de um planeta limpais dela esses homens, elevando-os para essas regiões onde não mais fossem vistos do povo?» (CM 176, de 28/11/1915). Os do “Jornal de Melgaço”, do partido político oposto, aplaudiam. Os vereadores argumentavam: «para ele concorrer teria que se demitir de médico municipal.» Logo contra argumentaram os do Correio de Melgaço: «onde está a lei que manda que o médico se demita do lugar que ocupa para concorrer a outro qualquer lugar, quer fora quer dentro do concelho?!» 

Dr. Vitoriano ainda jovem.

      Vendo bem as coisas, de facto existia alguma animosidade, tendo em conta que ele era o subdelegado de saúde – não devia ganhar menos do que o seu colega. Por esta e outras coisas, é que mais tarde passou a ser tudo controlado por Lisboa. Também o acusaram, aquando da epidemia da febre tifóide em Castro Laboreiro, iniciada em Agosto de 1913, de não ir lá com regularidade, e até de se fazer passar por doente para não ir. Lê-se no Correio de Melgaço n.º 92, de 22/3/1914: «O subdelegado de saúde de Melgaço nas suas visitas a Castro, desde que ali se encontra pessoal da Cruz Vermelha, tem sido por este delicada e atenciosamente recebido, acompanhando-o um dos seus enfermeiros na visita aos doentes, como pela mesma autoridade sanitária é confirmado, ao mesmo tempo que reconhece os bons serviços, admirável dedicação e comprovado zelo do referido pessoal…» Foi também publicado, no “Aurora do Lima”, um desmentido acerca de um suposto conflito entre ele e o pessoal da Cruz Vermelha destacado em Castro. Mas nem tudo era negativo. O Dr. Augusto César Esteves, na altura notário e advogado em Monção, num agradecimento por morte de seu pai, ocorrida em Setembro, escreveu a 3/11/1914: «… Aproveito também a ocasião para novamente patentear aos Ex.mos Dr.s Vitoriano Ribeiro de Figueiredo e Castro e Bernardo Salgueiro e Cunha, distintos facultativos, os sentimentos da minha eterna gratidão pela forma carinhosa e desvelada como trataram, durante a doença, meu saudoso pai, e pelos esforços que envidaram para debelar o mal que deste mundo dos vivos fez riscar mais um nome» (Correio de Melgaço n.º 123). Para se ficar com uma ideia dos seus ideais políticos, transcrevo uma entrevista que ele concedeu ao Correio de Melgaço n.º 221, de 22/10/1916, aquando da campanha para as eleições de 5 de Novembro:
     «Na árdua faina duma clínica enorme, fomos encontrar o ilustre médico municipal e subdelegado de saúde, Dr. Vitoriano, que a correr nos diz sobre a nossa pergunta acerca da lista do concelho e eleições próximas:
    - A lista do concelho, meu caro, é, como vê, formada pelos nomes mais em evidência e que melhor garantia nos dão de que Melgaço prosperará sob a sua administração. Não preciso de especializar para demonstrar a competência, honestidade e sensatez dos indivíduos que sobre si tomaram o honroso mas difícil encargo de gerir os negócios municipais. Custou ainda decidir alguns, mas perante o descalabro em que Melgaço andava, as dificuldades desaparecem, abateram-se as bandeiras partidárias e formou-se esse núcleo forte de homens decididos e enérgicos, dispostos a defender os interesses do povo, contra as arremetidas dos que só têm procurado aumentar os impostos, sugar o pobre até ao último ceitil.
     - Ora, isso há-de acabar.
     - Com o projecto do meu amigo Dr. Durães, de colectar em dois centavos as garrafas de água que são exportadas para o Porto, Lisboa, e mais partes, cria-se uma receita que deve orçar entre seis e sete contos por ano. Se essa receita não servir para outros planos grandiosos, que ele já apontou, servirá para melhorar as condições péssimas de vida em que se encontra a maior parte das freguesias do concelho. E supondo que a receita líquida é só de seis contos anuais verá que, no fim do triénio por que a vereação é eleita, somará a bonita quantia de dezoito contos, que distribuídos pelas dezoito freguesias dará um conto de réis para cada uma.
      - E os católicos? – (…) Não concorrem à urna com os senhores?
      - Em vista da constituição da lista, tendo a representá-los quatro sacerdotes dos mais dignos e considerados, julgo que nenhum católico, que seja crente sincero, deixará de votar connosco. Demais, a lista contrária não lhes dá nenhuma garantia de consideração, antes pelo contrário, segundo é voz geral e corrente, fazem parte dela indivíduos que estão metidos na seita maçónica, que como sabe é inimiga figadal da Igreja.
     - Contudo…
     - Sim, contudo talvez haja católicos, e quem sabe se até ministros da própria religião, que votarão contra nós, contra os seus colegas e a favor dos maçónicos. Mas com certeza esses católicos só o são de nome; e se o não forem o seu remorso será o maior castigo que podem ter. Os sacerdotes ficarão sempre com a mácula de se terem unido aos maçónicos, e os outros… mas não creio que haja um único católico – e muito menos um sacerdote – que vote contra a religião, que vote a favor da maçonaria. Seria um crime de lesa-religião, seria a maior baixeza, seria o maior vilipêndio
    Estavam representados três partidos nessa lista: Democrático (Afonso Costa), Evolucionista (António José de Almeida) e Católico (não republicanos): clero, nobreza e povo. Faltava a União Republicana (de Manuel Brito Camacho), por não ter expressão no concelho de Melgaço. À cabeça da lista estavam o padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães, reitor de Alvaredo, e o advogado, Dr. António Augusto Durães. A lista contrária era chefiada pelo capitalista João Pires Teixeira. Por ironia do destino, e devido à agitação que pairava na capital, essas eleições foram adiadas sine die… // O Governador Civil, a 19/3/1918, visitou o concelho. Foi acompanhado pelo Dr. Vitoriano, Dr. Antonio Durães, e pelos partidários deste: Luís Vicente Rodrigues, José Barbosa Martins, padre Francisco Leandro e António Xavier de Castro, irmão do médico. «Como se vê, compareceram somente os chefes monárquicos e o antigo chefe democrático, que nesta qualidade tão falado foi; (…) lembramos que foram aqueles senhores que o acompanharam quem – aliados ao chefe democrático – puseram este concelho em estado de sítio.» Isto lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1200, de 23/3/1918. // E não havia de cair a 1.ª República! // Os seus adversários não lhe davam tréguas. No Jornal de Melgaço n.º 1226, de 15/11/1918, pode ler-se: «… informado o delegado de saúde do distrito de que em Castro grassava a epidemia (influenza pneumónica), envia um ofício para o subdelegado deste concelho, encarregando-o de mandar um médico para aquela freguesia; mas o ofício – não sei por que arte mágica – em vez de ser entregue ao Dr. Salvador (a substituir o Dr. Vitoriano por este estar doente) que exercia as funções de subdelegado, vai parar às mãos do Dr. Vitoriano que, por estar doente, e por isso arredado do serviço, nada devia subdelegar; a mania, porém, do mando faz que a sua doença desapareça, e imediatamente entra em exercício para mandar o Dr. Salvador para Castro Laboreiro…» - Mas o médico não vai! Escreveu o professor Dâmaso, que assinava “Grilo”: «Pobre doutor! Querem forçar S. Ex.ª a sofrer o duro inverno em Castro! Para aquela freguesia seria uma felicidade, mas a S. Ex.ª - que pode dizer-se afoitamente foi quem debelou a epidemia nesta Vila e freguesias limítrofes – seria justo dar como prémio um inverno [na serra?!] Maldito prémio! Altercam um pouco na Praça da República, o Dr. Vitoriano reentra em exercício como subdelegado, e quer então que o Dr. Salvador seja desterrado para [a montanha]; e como na actualidade o Dr. Vitoriano politicamente vale alguma coisa leva o caso para o Governo Civil, sendo dada ao Dr. Salvador ordem de marcha para Valença. Mas Sua Ex.ª lá foi para Valença e continuam dezassete freguesias deste concelho entregues, exclusivamente, ao Dr. Vitoriano, o que representa o regresso e alastramento da epidemia e daí a morte de centenas de pessoas…» (Jornal de Melgaço n.º 1226, de 15/11/1918). Mas não foi assim: para substituir o Dr. Salvador veio para Melgaço o Dr. Manuel Dias Moreira «que no ano passado tão bons serviços prestou a este município quando grassou por aqui a pneumónica» (Jornal de Melgaço n.º 1262, de 14/9/1919). Na Vila de Melgaço encontrava-se na altura um grupo de oito elementos da Cruz Vermelha, não havendo entre eles nenhum médico; no entanto fizeram o que estava ao seu alcance, dando luta sem tréguas à maldita epidemia. // No mesmo número daquele jornal (Jornal de Melgaço n.º 1226) ainda lemos: «Faleceu esta rapariga (Maria José) tendo-se-lhe talvez podido evitar a morte se o Dr. Vitoriano tivesse cumprido melhor os preceitos da caridade. É certo que este doutor (…) tem tido bastante que fazer; apesar disso, porém, estando Sua Senhoria na farmácia do compadre, onde a mãe da finada lhe pede por três vezes que vá ver sua filha que se encontrava com muita febre, a todos esses pedidos responde: - «não vou lá.» Mas o amor de mãe que – quando vê sua filha em perigo – em nenhuma coisa pensa que não seja procurar descobrir o meio de conseguir que o doutor vá ver sua filha, lá se lembra de pedir a um terceiro, e desta maneira consegue que o médico vá ver a agonizante. Vai, mas tanto valeu como nada, porque, mesmo sabendo do seu ofício, com tanta demora a doença lá foi caminhando, de sorte que [a moça] lá está no cemitério. Um abalizado [clínico], que nesta epidemia tem prestado a este concelho relevantes serviços, diz que está admiradíssimo da benignidade da moléstia nesta região. Diz mais quetratados os doentes convenientementepoderia morrer uma em cada cem pessoas atacadas. Não [podia] ser Maria José uma das noventa e nove? Mais caridade, pois, que nem todas as pessoas terão a feliz ideia de recorrer a uma terceira, e assim das cem pessoas atacadas irão noventa e nove para o cemitério, salvando-se apenas uma!» // Esta acusação é deveras grave, no entanto, e a ser verdade, até certo ponto compreende-se a atitude do médico. Provavelmente já tinha visto a paciente e chegado à triste conclusão de que nada havia a fazer. A maldita epidemia, talvez devido à guerra, atingiu forte o concelho de Melgaço – dias houve que muitos mortos iam para o cemitério embrulhados em lençóis, pois já não chegavam as urnas! Mesmo com a ajuda da Cruz Vermelha o Dr. Vitoriano não tinha mãos a medir; a sua força, a sua resistência, estavam a ressentir-se de tanto trabalho e sobretudo de tanto sofrimento. Criticar é fácil, mas é necessário estar no terreno, ver morrer crianças e adultos nos braços, sem nada poder remediar, pois os medicamentos também escasseavam. Por incrível que pareça, até o Dr. Manuel Pinto Magalhães, que exercia a sua actividade de médico em Melgaço, faleceu, devido à terrível febre, em 1918! Contudo, houve casos de sucesso, por exemplo a família de José Augusto Domingues “Cabanal”. // Uma carta de Penso, escrita por um tal “João do Cabo” e publicada no Jornal de Melgaço n.º 1229, de 6/12/1918, é aviltante! O ódio, um ódio cego e bruto, tenta perfurar, destruir, a imagem de um homem, que era – apenas – um ser humano como outro qualquer. Leia-se: [Na epidemia bronco-pneumónica «que grassava com uma intensidade assustadora» o Dr. Vitoriano lembrou-se do velho adágio – «vale mais burro vivo do que sábio morto» – fingindo-se doente e conservando-se em casa, com as fendas bem calafetadas, a caldos de galinha. Nem uma mulher parida, coitado! Não me admiraria muito que (…) se recusasse a prestar os seus serviços clínicos àqueles que não lêem pela sua cartilha de velho talassa; mas, aos que solicitamente o acompanham quando ele aspira ao mando, não me admira, somente espantei-me e até cheguei a proferir estas palavras: «é o homem mais ingrato e pulha que eu tenho conhecido.» Mas tudo isto estaria muito bem se esse filantropo de mísera fama pudesse assim proceder com este ou aquele indivíduo que mais ou menos simpatias lhe merecesse. O seu dever não é restrito e por consequência tem de estender-se a todos os que, com urgência, dos seus serviços carecem, demais a mais quando de lágrimas nos olhos se suplicam. Ora dar respostas como esta: «vale mais a vida dum médico do que a de vinte ou trinta doentes que morram sem a minha assistência.» É duro, é horripilante! E quantos morreriam mesmo com ela?!]
     Ter receio da morte é próprio do ser inteligente, não é sinónimo de cobardia. O médico arrisca a vida, mas não cegamente. Quando há uma epidemia, sem os meios adequados para a combater, não há médicos que nos valham. Os medicamentos, as condições higiénicas, etc., são fundamentais para debelar a doença. Numa terra do fim do mundo, sem transportes, sem estradas para as diversas freguesias, isoladas pela neve e pelo frio, como Castro Laboreiro, que havia de fazer o médico? O Dr. Vitoriano viu morrer o seu colega, Dr. Magalhães, a 19/10/1918, atacado pela febre pneumómica; era jovem, e viera para Melgaço havia pouco mais de um ano. Era generoso, entrava em todas as casas onde havia doentes com a epidemia, não se acautelou, e assim terminaram os seus dias numa cama do hospital, vítima da doença que tentara combater. O seu corpo foi levado para Felgueiras, em cujo cemitério jaz, em jazigo de família. Para o substituir veio o Dr. Manuel Dias Moreira, que continuou a luta contra essa febre maldita. O Dr. Vitoriano foi uma espécie de bode expiatório para todos os males que surgiram no concelho nessa época – os colaboradores do Jornal de Melgaço até o acusaram, a ele e ao irmão António Xavier, a quem deram a alcunha de “Furrica”, de «amancebias e escândalos públicos!» E puseram-no a ridículo, no dito jornal, quando publicaram a quadra, inspirada, segundo eles, num conselho do Xavier ao irmão: «Mano, querido mano,/escuta o que eu te digo:/mano, vai para um convento/não esperes pior castigo.» // Em sessão da Câmara Municipal de Melgaço de 6/3/1919 leu-se um seu requerimento, o qual teve a seguinte resposta: «sobre o requerimento apresentado pelo senhor Dr. Vitoriano da Glória Ribeiro de Figueiredo e Castro, concorrente ao 1.º lugar do 1.º partido deste município, foi deliberado, por proposta do vogal Nóvoas, ficar para se resolver na próxima sessão.» // Em 1920 a gente do Jornal de Melgaço voltou a incomodá-lo: «A enterite, que há já bastante tempo grassa neste concelho, em vez de decrescer tende infelizmente a alastrar, ouvindo-se diariamente dobrar a finados em várias freguesias. Visto o subdelegado de saúde parecer esquecer-se ou desconhecer a existência da epidemia, lembramos à digna autoridade administrativa e Câmara Municipal deste concelho a conveniência na requisição dum destacamento da Cruz Vermelha e dois médicos, por ser impossível aos dois facultativos municipais atender às necessidades de todos os doentes, visto a epidemia ter-se alastrado quase por todo o concelho» (Jornal de Melgaço n.º 1303, de 29/8/1920). // Por ter atingido o limite de idade foi aposentado em 1930. Pelo Presidente da República foi-lhe concedido o grau de oficial da Ordem de Benemerência, que recebeu das mãos do Governador do distrito, José Ornelas Monteiro, a 10/10/1948. // Faleceu na sua casa da Carvalheira a 6/8/1951. Em A Voz de Melgaço de 15/8/1951 o correspondente escreveu: «... – O seu funeral, que se realizou no dia oito, foi grande manifestação de pesar, e nele vimos a quase totalidade das pessoas de maior representação no nosso meio, bem como um grande número de autoridades civis e militares. O “féretro” foi acompanhado por três irmandades, duas da Vila e uma de Alvaredo, e para pegar às borlas foram constituídos seis turnos: - do 1.º faziam parte o Dr. Carlos Luís da Rocha e professor Manuel Pinho Gonçalves, respectivamente Presidente e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Dr. Sérgio Saavedra … e Herculano Arsénio Gomes Pinheiro, chefe da secretaria da Câmara; do 2.º o Dr. António Cândido Esteves, Tenentes Fernando José Lopes e Jacinto Freitas, e José Maria Pereira; do 3.º o agente da polícia Sousa, e Luís Abreu, presidente da Junta de Freguesia, Manuel da Rocha e Oceano Atlântico Ribeiro; o 4.º, Armando Solheiro, Carlos Ribeiro Lima e José Esteves, funcionários da Câmara Municipal de Melgaço, e António P. Lima, vogal do Conselho Municipal; do 5.º o Dr. Augusto Esteves, José Figueiroa, Dr. João Barros Durães e professor António Pinho Gonçalves; e do 6.º Mário Ranhada, Artur Teixeira, Dr. José Joaquim Abreu e Constantino Silva. A chave da urna foi conduzida por Valeriano G. Bessa... Após a missa e ofícios de corpo presente, foi a urna depositada em jazigo para esse fim por ele próprio mandado construir no cemitério de Alvaredo…» // E no Notícias de Melgaço n.º 989, de 12/8/1951, pode ler-se: «… quem há por aí que, tendo coração, não o faça reviver a seus olhos, não evoque aquele roble ainda há pouco bem esbelto e não recorde o caminheiro infatigável e constante, percorrendo todas as nossas freguesias, só para levar aos seus doentes, quase sempre gratuitamente, uma esperança, uma alegria, um pouco de conforto moral ou a mitigação das dores?» E ainda: «Magro, mas de construção física resistente, só uma vez a doença atirou com ele para o leito.» E mais à frente: «… no Homem havia a verdadeira vocação de médico e no clínico pulsava sempre um coração nobre, bondoso e humanitário.» // No livro “Padre Júlio Vaz apresenta Mário”, nas páginas 93-94, lê-se: «… abnegado, prestigioso e sempre lembrado médico que fez do seu munus um verdadeiro sacerdócio.» E a seguir: «Fosse onde fosse, fizesse o tempo que fizesse, nunca ninguém, rico ou pobre, remediado ou não, adoeceu que não tivesse à cabeceira a assistência pronta do Dr. Vitoriano. E caso notável: desapegado como era dos bens deste mundo, mormente dos necessitados, jamais recebeu pelos seus serviços clínicos tanto como um ceitil cortado ao meio.» // Como curiosidade sublinhe-se que teve como amigos e companheiros em Coimbra o Dr. Afonso Costa e o Dr. António José de Almeida, dois vultos gigantes da 1.ª República. // A sua viúva deixou este mundo a 19/2/1955: «a ilustre extinta era a bondade personificada», lê-se em A Voz de Melgaço de 1/3/1955. // Ainda em nossos dias há quem se lembre dele, sobretudo quando se deslocava na sua charrete, puxada por um garboso cavalo. Certo dia aconteceu-lhe mais um percalço. Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 463, de 24/9/1939: «Na passada sexta-feira, à tarde, quando do Peso vinha para esta Vila o Sr. Dr. Vitoriano no seu carro de cavalos, junto da Ponte da Cividade, uma pobre mulher, já de idade, que pela mão trazia uma cabra, teve a infelicidade de ser arrastada pelo animal que se assustou, caindo a pobre velha da ponte abaixo. Ferida, na cabeça, foi retirada do leito do regato por Manuel Cristina Pereira, agente da polícia internacional, e a seguir conduzida ao hospital da Misericórdia, desta Vila, onde foi internada.» // Apesar de ter sido um homem generoso e uma figura grandiosa, como homem político arranjou alguns inimigos! // Com geração.

                                              
 Dr. Vitoriano ao centro, medalhado.