sábado, 12 de novembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Concebido e organizado por Joaquim A. Rocha
 
 
 
cartas de um castrejo
 
21.ª - «Senhor Redactor: aproxima-se a festa da Rainha Santa, a incomparável Esposa que, como medianeira providencial, nunca deixou que o rei Lavrador terçasse armas com o filho ou com o irmão (segundo rezam os meus alfarrábios). (…). Pois nós já cá temos romeiros para a nossa festa de Santa Isabel; e, entre eles, um muito engraçado e muito para reparar. Fala com dificuldade mas lê e escreve a seu modo… Diz vir aqui, ora como governador, administrador, juiz, ou como mestre-escola. Lá na sua terra dizem-lhe que será eleito (ou foi) Presidente da República, que será presidente do ministério, enfim, as coisas mais mirabolantes que um cérebro já de si enfraquecido pode conceber como verdadeiras. Logo que percebemos o estado mental do homem, chegamos à conclusão de que havia sido enviado por alguém a fim de nos servir de mestre e aos nossos filhos por, decerto, em cartas consecutivas para o “Correio” havermos pugnado pela divulgação da instrução desta freguesia. Não, meninos, não. Nós temos como lema, neste vale de lágrimas, o culto do belo, inseparável do útil. Queremos, e obteremos, quando os negócios da instrução não andem à matroca, as escolas que idealizamos com o material de ensino indispensável. Teremos tudo. Mas o “Tato de Paradela” deixou-nos em brasa, porque ele, creia-o, apresenta-se bem e quase o podíamos, de começo, tomar a sério nas suas extravagantes aspirações. Tentamos colher-lhe a freguesia, mas… dissimulado, não a confessou. Será de Paradela de Soajo, de Penso, de Barbeita? Não sabemos. O que, porém, nós podemos afirmar é que o homenzinho tem mais juízo do que os que lhe meteram carochas na cabeça. Queremos escolas e não mentecaptos e… demais a mais… “tatos”. Castro Laboreiro, 28/6/1916.» 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO






CASA DA BARQUEIRA
 
     Sita em Alvaredo (*). // No século XVIII pertencia a Guiomar, filha do notário António Gomes de Abreu e de Jerónima Gomes de Magalhães, de Rouças, Melgaço, e a seu marido, Sebastião Esteves do Souto, emigrante no Brasil, da Várzea, Paderne (**). Mais tarde passou para as mãos de Boaventura Gomes de Abreu, por ter casado com Antónia Gomes Magalhães, filha dos acima citados. // Também pertenceu a Maria Gomes de Magalhães, casada com Joaquim José da Rocha Caldas, pais de Libório José de Magalhães (Alvaredo, +- 1793-Penso, 1868). // A 28/9/1935 morreu ali Maximiano Augusto de Magalhães, com 69 anos de idade, solteiro; apesar de o ser, deixara descendência na sede do concelho, onde trabalhara como amanuense da Câmara Municipal de Melgaço durante 47 anos. // Maria do Sameiro de Carvalho Marchand, natural de Chaviães, emigrante em França, no seu livro “À la Recherche de mes Racines” (em busca das minhas raízes), página 135, informa-nos que nesta Casa esteve refugiado Dom António Prior do Crato, pretendente ao trono de Portugal, derrotado pelo rei de Espanha, Filipe II, depois Filipe I, rei de Portugal...   
 
(*) A freguesia de Alvaredo só passou a fazer parte do concelho de Melgaço depois de Outubro de 1855.
 
(**) A freguesia de Paderne pertenceu ao concelho de Valadares até meados do século XIX; depois foi integrada no concelho de Melgaço.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Concebido e organizado por Joaquim A. Rocha





crimes

RODRIGUES, Cândido. Filho de João Rodrigues e de Florinda Rodrigues Torres. Nasceu em Penso a --/--/1913 (Correio de Melgaço n.º 49, de 11/5/1913). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 239, de 22/7/1934: «Ontem (6 de Julho) no lugar de Paradela, por uma questão de águas de rega de campos, Cândido Rodrigues, solteiro, lavrador, de 22 anos de idade, agrediu à sacholada Luís Manuel Dias, mais conhecido por Luís da Margarida, casado, lavrador, de 78 anos de idade. O regedor prendeu o Cândido, e o agredido recolheu a casa e está a ser tratado pelo Sr. Dr. Vitoriano Ribeiro.» // Também se lê no Notícias de Melgaço n.º 258, de 20/1/1935: «Em tribunal colectivo, presidido pelo Sr. Dr. José Luís de Almeida, meretíssimo juiz desta comarca, tendo como adjuntos os senhores Dr. António Vítor Gorjão Nogueira e Dr. Manuel Faria Sampaio, respectivamente meritíssimos juízes de Monção e Valença, delegado do Ministério Público, Sr. Dr. Júlio Horácio Camacho Lopes Cardoso, e escrivão, João Afonso, respondeu no dia onze Cândido Rodrigues, solteiro, lavrador, de 23 anos de idade, que no dia 6 de Julho agrediu à sacholada, por uma questão de águas de rega, (…) Luís Manuel Dias, casado, lavrador, de 75 anos de idade. A agressão deu-se numa propriedade da vítima, sita nos limites do lugar de Paradela, freguesia de Penso, onde ambos residiam. O Luís Dias, que era conhecido pelo “Luís da Margarida”, foi conduzido a casa após a agressão, de onde nunca mais saiu, falecendo passados catorze dias. Das trinta e cinco testemunhas de defesa e acusação foram ouvidas trinta e duas, entre elas o Sr. Dr. Vitoriano Ribeiro, médico assistente da vítima, e os senhores doutores António Cândido Esteves e Cândido Augusto da Rocha e Sá, peritos que procederam à autópsia. Não se tendo devidamente esclarecido se a morte tinha sido causada pelos traumatismos provenientes da agressão, não se tendo provado a intenção de matar, e tendo-se provado algumas atenuantes, o réu foi condenado a oito meses de prisão correcional, levando-se em conta o tempo de prisão já sofrida, 40 dias de multa a 2$00, 200$00 de indemnização à família da vítima, e 1.000$00 e acréscimos legais de imposto de justiça. A defesa foi feita pelo considerado e inteligente causídico Sr. Dr. António Augusto Durães     

domingo, 6 de novembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha


=========================================================================



Macróbios


FERNANDES, Maria da Glória. Filha de José Fernandes e de Delfina Alves, trabalhadores, padernenses, residentes no lugar de Estivadas. Neta paterna de Manuel Joaquim Fernandes e de Ana Rosa Flores; neta materna de Manuel Joaquim Alves e de Maria Benedita de Abreu. Nasceu na freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, a 17 de Março de 1911 e foi batizada na igreja católica a 20 desse mês e ano. Padrinhos: Luís Manuel Gonçalves, solteiro, rural, e Zulmira Lourenço, solteira, doméstica. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 23/3/1932 com Bento Manuel Domingues. // Enviuvou a 6/8/1985. // Faleceu em Paderne a 8 de Maio de 2008, com 97 anos de idade.

                                    *   

FERNANDES, Maria de Jesus. Filha de José Manuel Fernandes, soqueiro, e de Felicidade Esteves, doméstica, moradores no lugar de Sainde. Neta paterna de Francisco José Fernandes e de Maria Rosa de Castro; neta materna de José Luís Esteves e de Joaquina Rosa Afonso. Nasceu em Paderne a 21/4/1906 e no dia seguinte foi batizada na igreja católica. Padrinhos: Manuel José de Sousa, casado, rural, e Marcelina Rosa Esteves, casada, doméstica. // Em 2007 residia em Penso, em casa de uma sua filha, onde faleceu, a 29 de Outubro de 2007, com cento e um anos de idade.

 
                          Bento Gomes
 
 
Filho de Justino José Gomes, natural de São Paio, e de Constância da Conceição Afonso, natural de Paderne. Neto paterno de Manuel Joaquim Gomes (pintor do Barral) e de Teresa de Jesus Esteves; neto materno de Pedro Alonso, galego, e de Maria do Carmo Alves, natural de Paderne, Melgaço. Nasceu no lugar do Barral, freguesia de Paderne, a 4/3/1917. // Fez a primária e a admissão aos liceus no Colégio da Barronda, Prado, e na escola do mosteiro de Paderne, mas não continuou a estudar. // Aprendeu a profissão de pintor com seu pai e trabalhou na construção civil até aos 29 anos de idade: em Melgaço, Lisboa, e Torres Vedras. Depois emigra para o Brasil, onde trabalhou como vendedor numa casa de produtos para a alimentação. Passados dois anos, descontente com essa atividade, envereda novamente pela construção civil, chegando a mestre-de-obras, conseguindo o alvará até seis pavimentos. // Em 1959 regressa ao seu país e fixa-se em Melgaço, onde – na qualidade de empreiteiro – ajudou a erguer imensas casas no concelho, uma delas por encomenda de Amadeu Abílio Lopes, mais conhecido por "Bicho Fino", melgacense, mas comerciante no Brasil. Aguentou-se assim dezanove anos. // Abriu então, na sede do concelho, freguesia da vila, ou SMP, uma loja de materiais de construção nos baixos do prédio que ele mesmo construíra, e dedicou-se ao comércio, obtendo a representação da tinta CIN. // Adquiriu ainda, acima de Santo Cristo, freguesia de Rouças, uma propriedade rural, onde produzia vinho, fruta, e produtos hortícolas. // Foi membro da Assembleia Municipal durante um ano. // Casou com Amabélia Augusta Rodrigues. // Em 2015 continuava vivo e lúcido, o que é raro no ser humano, e morava na Vila. // Morreu em Outubro de 2016, com cerca de cem anos de idade. // Pai de Almezinda de Jesus Gomes (ver em Chaviães) e de Maria Felicidade Gomes.     

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico
 
Por Joaquim A. Rocha




13.º capítulo (continuação)


- Vou continuar a minha história: as lanchas da armada lusa, feitas de chapa anti bala, equipadas com metralhadoras potentíssimas, transportaram-nos até Catió, interessante vila perto do Cantanhez (mata densa e reconhecidamente perigosa, uma das bases do PAIGC: Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

     Em toda esta região habitavam as etnias designadas de balantas e nalus. Os primeiros distinguiam-se pela sua corpulência e cor negríssima, daí os seus dentes parecerem mais brancos do que na realidade eram. Diziam ser um dos povos mais evoluídos da Guiné.

     Saímos quase de noite, ao lusco-fusco, quando todos os gatos começam a ser pardos, a fim de não levantar suspeitas, e passadas algumas horas entrávamos no pequeno rio Combidjam.

     Os marinheiros, receosos, pediam-nos silêncio, para assim poderem escutar eventuais ruídos que das sinuosas margens surgissem.

- E foram atacados?

- Tudo correu bem, felizmente, até Catió, aonde chegámos já de madrugada. No cais éramos esperados pelos velhos e cansados camiões, que nos conduziram até ao quartel.            

     Essa vila de Catió revestia-se de uma beleza exótica e inesquecível. Se não fora sacrilégio, quase apetecia dizer: «Deixem-me ficar aqui para sempre!» Mulheres negras, com as suas roupas de cores garridas, pés completamente descalços, amplas coxas e largas ancas, sorriso nos grossos lábios, encontravam-se na berma da estrada oferecendo, a preços irrisórios, toda a casta de fruta da região: laranjas (mesmo quando já maduras continuam a ter a cor verde), banana, manga, caju, e tantas outras variedades! Muita dessa fruta, sobretudo manga, coco e banana, matou-me diversas vezes a fome durante esse período longo de carências.

- Até parece que se encontrava no paraíso! – diz Henrique, num tom jocoso.

- Se não fosse a guerra poder-se-ia afirmar isso; mas a verdade é que a maldita rondava por perto.

   As instalações militares ocupavam uma área extensa. Dentro, em forte rede e rodeada de arame farpado, situava-se a prisão para os “turras”. Pareciam animais acossados! Serviam de chacota e gáudio aos soldados mais rudes e mais atrevidos, aos brincalhões exibicionistas, ao pagode! Os insultos choviam em português das Beiras, do Alentejo, de Trás-os-Montes, do Alto e Baixo Minho, de todo o país!

- Aposto que não gostou de ver isso!

- O meu peito arfava. Não queria crer. Circo é circo; zoológico é zoológico! Não estávamos a tratar com palhaços, muito menos com feras, mas sim com pessoas que tinham sido presas por defender ideais diferentes.        

- Não me diga que interveio?!

- Vontade não me faltou. Um furor imenso invadiu minhas entranhas, todo eu tremia. Um oficial, alferes ou tenente, já não me recordo bem, notando a minha agitação, lembra-me num tom que não admitia réplica: «Na guerra as coisas passam-se assim! Somos inimigos. Pensas tu que os turras, se por azar um dia nos apanham, nos tratarão melhor?!»

- Não teve coragem, com certeza, de replicar.

- Disse-lhe, embora com respeito, olhos nos olhos: «Nunca estive preso, por isso não sei; sei, isso sim, que nós somos pessoas civilizadas, não vis carrascos. O cristianismo, que quase todos os portugueses professam, é tolerante, não repressivo.»

- E ele, como reagiu?

- Deu-me uma leve palmada nas costas, e foi-se embora. Sabia que não valia a pena continuar a conversa. Eram dois mundos que estavam em confronto: o mundo bélico e o outro, o da harmonia, da paz, da conciliação. Nós, a minoria, teríamos que ver, ouvir e calar. Lamentações, para quê? Os seus corações estavam granitizados, empedernidos, a lei da guerra imperava, a religião ali não tinha lugar – estava a mais, estorvava!

     Fomos encaminhados para o refeitório. A fome apertava e não resistimos a uma refeição quente. Depois do “repasto” pediram-nos que esperássemos. Breve chegaria uma Companhia experimentada para nos escoltar até Cufar.

- Iam finalmente entrar no território do lobo!

- Do lobo, da hiena, do chacal, da pantera, do crocodilo, eu sei lá!...

   De repente, alguém disse: «Já está atrasada!» E logo outra voz alvitrou: «Certamente surgiram problemas!»               

     Essa constatação tinha, infelizmente, fundamento. Quando a referida Companhia chegou, vinha exausta. Nos olhos dos nossos camaradas notava-se ainda o terror, o medo, por tudo aquilo que acabaram de passar. Informa um deles: «Sofremos dois mortos; vários feridos! Uma emboscada perfeita – não tínhamos para onde fugir! Podiam, se quisessem, matar-nos a todos.»

     A sua voz, num tom plangente, comoveu-nos até às lágrimas.

- O sítio não era para brincadeiras! – alvitra Henrique.

- Não era mesmo! Terra da morte, de sofrimento, Cufar aumentava assim a sua sinistra fama. Mas a vida resume-se a esta insignificância: uns partem, outros vão aguardando, mesmo sem terem disso consciência, a sua vez. Ninguém morre antes de nascer; e ninguém se livra da loba voraz, insaciável!

- Mas acabar assim!... – lamenta Henrique.

- Depois da morte ninguém sente nada, nem o zumbir do mosquito. Os sinistrados sim: sofriam horrivelmente; os seus gritos de dor ouviam-se a distância!     

- E incomodavam!...

- Ainda por cima o quartel não tinha na altura nenhum médico, apenas enfermeiros de segunda categoria! Os feridos foram evacuados para Bissau.

- E a sua Companhia, ficou em Catió?

- Esse era o nosso desejo, mas não aconteceu assim. Logo a seguir o tenente Fontelas, com a sua voz de trovão, gritou, tentando galvanizar-nos: «Preparar! E nada de medos; todos teremos de dar contas ao diabo um dia. O soldado português não teme o adversário: enfrenta-o, como os forcados enfrentam o touro na praça!»

     Morte e vida; vida e morte! A existência falaz, tirana, passageira. Discurso de monge ou de filósofo. Que nos interessava isso? O que nós queríamos, jovens de vinte e um anos, não se encontrava ali.

- E partiram!

- Que remédio. Nós e o resto da Companhia que sofrera a emboscada. Pelo caminho que leva a Cufar passámos pela aldeia dos macacos. São aos milhares e provocam um alarido tal que se repercute por uma vasta área, pelas entranhas da floresta.

- Sentiram receio…

- Metem respeito ao mais destemido. Todo o trajeto teria de ser feito a pé e de metralhadora em posição de tiro. Uns soldados virados para um lado, os outros virados para o lado oposto – não fosse o demo tecê-las!

     De vez em quando deixava-se de ouvir qualquer ruído e o silêncio, sepulcral, abatia-se sobre todo o território envolvente. O medo e a expectativa paralisavam os nossos movimentos! Os corpos deixam de ter peso e só a alma, essência do nada, existe. É de facto uma experiência quase sobrenatural, inatingível.

- Qual a distância de Catió a Cufar? – pergunta o jovem, a fim de desanuviar o ambiente.

- Não deve ultrapassar os dez quilómetros; mas naquelas circunstâncias, parecia-nos um longo caminho, interminável, imaterializado – por mais que caminhássemos nunca mais se chegava ao destino!

     Na frente seguia um pequeno carro de combate (a moderna cavalaria), pronto para o que desse e viesse.

- Funcionava como dissuasor...

- Os guerrilheiros temiam essas máquinas porque as suas metralhadoras varriam o terreno como as vassouras varrem o lixo!

    Passámos pelo local onde horas antes as duas forças antagónicas se tinham enfrentado. Notava-se nitidamente o capim pisado, ramos partidos, folhas espalhadas e restos de sangue. Um cheiro amargo envolvia todo aquele arvoredo. Uma sensação de raiva e de impotência invadia os nossos corpos, o sistema nervoso alterava-se, o cérebro por momentos nada controlava, jurava-se vingança.    

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha


escultura de José Rodrigues


A ARRENEGADA

 

     O seu nome nunca se soube, nem se poderá saber, pois «dos fracos não reza a história.» Lutou e perdeu, segundo Fernão Lopes e Duarte Nunes de Leão. A sua inimiga foi Inês Negra, figura lendária, que lhe bateu até à exaustão. Isto a 3/3/1388, na altura em que D. João I tentava levar de vencida os castelhanos que ocupavam (legalmente, segundo uns, e ilegalmente, segundo outros) o castelo e toda a Vila de Melgaço. / A 13/8/1995, inserida nas Festas da Cultura, foi exibida, ao ar livre, dentro das muralhas, uma peça de teatro «O Dia de Inês Negra», escrita por José Jorge Letria, encenada por José Martins e representada por Alexandra Diogo, Filomena Mouta, Maria José Miranda, Alexandre Passos, Alexandra Martins, Artur Mendonça, Francisco Costa, Luís Barroso, Manuel Geraz, Paulo Vieira e Porfírio Barbosa, todos os atores pertencentes ao Teatro do Noroeste. A representação agradou, mas o texto deixa muito a desejar. José Jorge Letria não conhecia Melgaço, nem a lenda de Inês Negra. Tentou assimilar tudo à pressa e os erros brotaram como ervas daninhas. Começou por chamar Tibães a Fiães (páginas 14 e 18); depois, o “Caminhante”, personagem da peça, fala de Fernão Lopes: «E o senhor Fernão Lopes, de que eu muito ouvi falar nas minhas andanças por Lisboa, há-de ter a pena afiada para contar para os vindouros como tudo se irá passar.» Mais umas quantas páginas e é o próprio rei a afirmar: «Fernão Lopes nada deixará escapar daquilo que nestas terras acaba de acontecer…» Incrível! Fernão Lopes, se vivia em 1388, ainda era uma criança. Nem sequer se deu ao trabalho de consultar uma enciclopédia a fim de saber a data aproximada de nascimento do cronista. À frente põe as duas personagens (Arrenegada e Inês) a discutir. Diz a 1.ª: «Eu não sabia que quem é negro também tem alma.» Responde a Inês: «Quem é negro tem ainda mais alma…» Das duas, uma: ou o autor considera que Inês era de cor negra, o que é absurdo, pois no século XIV os moiros (da Mauritânia), de pele escura, já não existiam em Portugal, muito menos em Melgaço, ou então é racista ao contrário, isto é, chama racistas aos brancos! A seguir, numa fala de Inês, esta afirma: «… sou de Melgaço…» Não leu a crónica de D. João I, de Fernão Lopes, e era tão pequenino o texto! O cronista diz que ela é do arraial, isto é, acompanhava o exército do rei, até podia ser do termo, mas da Vila nunca! Claro que se trata duma lenda e o autor da peça pode modificar o que quiser, mas há limites. Outro erro monumental é quando o “Caminhante” afirma: «… o renegado alcaide Vasco Gomes de Abreu foi afastado do seu posto…» Só um ignorante escreve isto. Nesse longínquo ano de 1388 era alcaide de Melgaço Álvaro Pais Sottomaior, o qual tomara partido por Castela, ou seja, pela filha do rei falecido, Fernando I de Portugal.



obra de Manuel Igrejas

     // Nota: quem estiver interessado nesta lenda pode, e deve, ler o livro do conde de Sabugosa, cujo título é «Neves de Antanho». Ainda se vai encontrando um ou outro exemplar nos alfarrabistas.                

domingo, 30 de outubro de 2016

GENTES DE MELGAÇO
(micro-biografias)


Por Joaquim A. Rocha


parte da quinta da Orada e Galiza


ABREU, José Joaquim (Dr.) Filho do Dr. José Joaquim de Abreu e de Augusta Maria de Araújo, proprietários, moradores no lugar de São Gregório, freguesia de Cristóval. Neto paterno de Miquelina Rosa de Abreu; neto materno de José Joaquim de Araújo e de Benedita Pires Pereira. Nasceu em Cristóval, Melgaço, a 4/1/1906, e foi batizado na igreja católica a 12 desse mês e ano. Padrinhos: José Joaquim de Araújo, viúvo, negociante, e Matilde Gonçalves de Araújo, casada, proprietária, representada por António Augusto de Araújo, viúvo, proprietário. // A 26/7/1917 fez exame do 1.º grau, terceira classe, e obteve a classificação de ótimo; era aluno do professor Abel Nogueira Dantas (Jornal de Melgaço n.º 1169, de 4/8/1917). // Em Julho ou Agosto de 1918 fez exame do 2.º grau, quarta classe, ficando aprovado com distinção (Jornal de Melgaço n.º 1220, de 24/8/1918). // Concluiu o curso de Direito, na Universidade de Coimbra, em 1931. // Em 1933 abriu escritório de advogado na Rua da Calçada, Vila de Melgaço (Notícias de Melgaço n.º 182, de 5/2/1933). // Em 1936 foi nomeado Conservador do Registo Civil de Santa Cruz da Graciosa, Açores (Notícias de Melgaço n.º 303, de 1 de Março). Foi também Conservador dos Registos Civil e Predial em Melgaço; tomou posse na sala da audiência do tribunal judicial da comarca de Melgaço a 3/12/1938; essa posse foi-lhe dada pelo delegado do Procurador da República, Dr. Abel de Campos Carvalho. // Foi promovido à 2.ª classe em 1957. // Casou a 29 de Julho de 1933 na Conservatória do Registo Civil de Melgaço e no dia seguinte na capela da Orada, com a professora do ensino básico, Duartina Rosa, de 27 anos de idade, na altura a lecionar na escola do ensino primário em Cubalhão, filha de José Bento Domingues e de Ana Maria Rodrigues, castrejos, donos da Quinta da Orada, sita na freguesia de Santa Maria da Porta. // Dizem que «filho de peixe sabe nadar» e este não escapou à regra: mulherengo exibicionista, teve como concubina uma das filhas da “Maria das Adegas”, além de ter outras amantes ocasionais, espalhadas um pouco por todo o lado! // Gerou polémica com os padres Vaz, residentes em Braga, proprietários de “A Voz de Melgaço”, além de conflitos que manteve com cão e gato. Para alguns conterrâneos tornou-se uma ameaça, pois, devido à profissão que exercia, tinha direito a usar arma de fogo, a qual usou certa altura para ameaçar um candidato a namorado da sua amante. Publicou diversos artigos no jornal “República” e “Notícias de Melgaço”, em tom bastante agressivo e assaz irónico, que posteriormente compilou e editou em livro: «Denúncia Caluniosa» (1957); «Padres Incríveis» (1976); e «Magistrados Indesejáveis» (1977). // Dizia-se republicano, mas alinhava em comezainas com os amigos do regime corporativista de Salazar e Marcelo, até com os agentes da PIDE! O “Notícias de Melgaço” n.º 556, de 14/9/1941, dá-nos conta da sua participação numa homenagem ao chefe dessa polícia política do Peso, Paderne, – brindou e elogiou! // Apesar de tudo, há quem afirme que foi um bom advogado, conhecedor das leis e competente. // Faleceu na Vila de Melgaço a 17/12/1979. // Pai de Rui de Abreu.