terça-feira, 7 de junho de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Joaquim A. Rocha





cartas de um castrejo

17.ª - «Senhor Redactor: esta freguesia, ninguém pode negá-lo, é uma das mais agrestes do concelho e, talvez, de Portugal. Não tem recursos próprios, além do centeio e da batata, que à custa de supremos esforços se cultivam; e, como indústria, a criação de gado bovino e caprino. Isto que, bem dirigido, por uma educação sólida e adaptada ao meio, seria muito, continua no mesmo estado de cultivo e exploração de há cem anos! Ninguém duvida de que o nosso lavrador precisa saber do seu metier e abandonar o ronceirismo e velharias com que a terra cultivada há dezenas de anos se contentava, para a rodear de outros carinhos, a que o seu estado de civilizada lhe dá jus. A terra, à força de produzir, torna-se pobre, gasta-se, enfraquece, até à negação completa de certos produtos; efemina-se, enfim. Para tratá-la, pois, precisamos dispensar-lhe um certo número de carinhos, animá-la, conhecer-lhe as necessidades, para lhas satisfazer de pronto. E como fazê-lo, se desconhecemos os mais rudimentares princípios da agricultura – ciência que nos ensina a cultivar a terra, com menos trabalho e mais economia, e adquirindo maior soma de produtos? Com a energia que nos reservam as nossas débeis forças, havemos tratado, aqui, do problema educativo, na nossa freguesia. Ninguém nos ouve, a começar pela paróquia, que decerto nos não lê, em conjunto, mas da qual algum membro haverá saboreado a nossa prosa insípida, porém, de interesse; e, deste modo, só conhecemos um meio de ver concretizadas as nossas aspirações, para o que conto, mais uma vez, com a complacência da redacção do Correio de Melgaço – a bondade de enviar dois exemplares deste número aos Presidente do Ministério e Ministro da Instrução. Não duvidamos de que o leiam ou mandarão ler (…) Um jornal provinciano (…), talvez nunca visto, despertar-lhes-á a atenção e com ela o desejo de ouvirem e remediarem os altos brados rogativos, já feitos em corporações administrativas, vozes que clamaram no deserto. Seguros e confiados, diremos a Suas Ex.ªs: - Castro Laboreiro tem para cima de trezentas crianças em idade escolar, disseminadas por lugares distanciados de um a vinte quilómetros da escola oficial do sexo masculino (única); Castro Laboreiro tem setecentos fogos, ou mais, com muito adulto que deseja o pão do espírito, como o alimento do corpo; Castro Laboreiro, situado no extremo montezinho do concelho de Melgaço, sofre todas as inclemências de um clima siberiano, tem uma vida quase nómada, pois muda de habitação duas vezes por ano, forçado pelas circunstâncias, manda os seus filhos durante o inverno ganhar o pão que a terra (…) não produz, paga contribuições pesadíssimas, é uma freguesia infeliz e a que, parece, os poderes constituídos hão sempre lançado ao abandono; Castro Laboreiro tem homens válidos e cuja robustez ninguém porá em dúvida, braços cobertos, almas patriotas; mas… Castro Laboreiro não tem meios de se instruir, mas… Castro Laboreiro não pode agir, porque não tem escolas, nem esperanças em adquiri-las. Ouçam, pois, Suas Ex.as os brados de “um castrejo” que tem um verdadeiro culto pela sua terra, mandando que, nesta freguesia, sejam imediatamente distribuídas escolas (…) e terão, assim, o preito e homenagem que por tal razão merecem, conquanto só roguemos justiça. E se esta nos é feita, como apelamos, respiraremos mais à vontade, aspiraremos a longos haustos o ar rarefeito das nossas queridas montanhas, embalsamado pelas fragrâncias das flores da giesta, do tojo e dos urzais!... Não falha a esperança a um castrejo, se a redacção (…) mandar ao seu destino dois exemplares do próximo “Correio”. Suas Ex.ªs ouvir-nos-ão. Castro Laboreiro, 21/5/1916.»      

domingo, 5 de junho de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Joaquim A. Rocha 



CASA DO FECHO


     Foi construída no lugar do Fecho, freguesia de Rouças, concelho de Melgaço. Suponho que o primeiro casal a residir ali foi Lopo Azevedo Silva Coutinho de Castro [filho do alcaide-mor Lopo de Castro e de Joana Azevedo, esta filha do alcaide-mor de Sintra – (século XV)], e sua mulher, Isabel Soares, da Casa de Tangil, isto em princípios do século XVI. Mais tarde, Lopo de Castro, o Velho, filho do padre António de Castro (e de Isabel Soares Teixeira?), herdou a Casa do Fecho e casou com Leonor Veloso Bacelar Sousa Magalhães, filha de Gonçalo Esteves Lobato e de Guiomar Veloso Bacelar, do lugar do Paço, freguesia de Alvaredo, concelho de Valadares. Um filho deles, Lopo de Castro, o Moço, casado com Francisca Quevedo, capitão-mor, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço entre 1600 e 1619, etc., instituiu o Morgadio do Fecho, a 7/6/1601, o mais antigo, segundo parece, dos estabelecidos em Melgaço. // A pedra de armas, que fora laje sepulcral da capela de São João Batista da mesma Casa, deve ter sido trabalhada no primeiro quartel do século XVII, no tempo do capitão-mor Lopo de Castro, o Velho. // O seu último proprietário foi o Dr. Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, mais conhecido por conde de Azevedo. No Correio de Melgaço n.º 121, de 20/10/1914, diz-se que ele passou alguns dias na sua Casa do Fecho, a fim de assistir à vindima; finda aquela, partiu para a sua Casa do Hospital. // Em o Jornal de Melgaço n.º 1286, de 25/4/1920, pode ler-se: «Como este titular tem neste concelho alguns adeptos, julgamos conveniente dar-lhes a notícia de que, tendo sido julgado com outros seus companheiros do tempo da traulitânia, foi, como eles, condenado em quatro anos de prisão maior celular, seguidos de oito de degredo, ou na alternativa de quinze de degredo em possessão de 1.ª classe.» // Esse conde de Azevedo aderiu mais tarde ao regime corporativista; a 3/11/1934, em Viana do Castelo, assistiu à tomada de posse do novo Governador Civil, capitão Tomás Augusto Salgueiro Fragoso. // Faleceu a 20/9/1962. // Tinha um filho, de seu nome Pedro, que num dia de Fevereiro de 1930, a um domingo, conduzindo um automóvel da Valinha a Monção, teve um grave acidente, quando se desviou de um suíno, que se atravessara na estrada; morreu o motorista da família, que ia no banco de trás, e os outros – coronel Mousinho de Albuquerque (intendente geral da polícia), e o secretário deste, alferes Valério, além de Luís Ferreira, sofreram apenas ligeiros ferimentos. O dito Pedro apanhou apenas um grande susto! (Esta notícia, escrita pelo correspondente do Notícias de Melgaço no Peso, Sousa, tem a data de 28/2/1930, e foi publicada no Notícias de Melgaço n.º 52, de 2/3/1930). // Costuma dizer-se que um azar nunca vem só. Na noite de 17/2/1932, pelas vinte e uma horas, manifestou-se um incêndio nesta antiga casa solarenga, pertencente ainda ao dito conde, e habitada por rendeiros. Só meia hora depois é que os Bombeiros Voluntários de Melgaço tiveram conhecimento do sinistro; seguiram com grande dificuldade para o local, levando com eles as bombas de mão e as picotas, bem como outro material necessário, sob o comando do primeiro patrão, José de Brito. Logo depois compareceu o 1.º comandante, Herculano Pinheiro, estando já estabelecido o ataque com uma agulheta pelo alferes Domingues Peres… Ao cabo de duas horas principiou o rescaldo, que durou até à uma hora da madrugada! Aos bombeiros se deveu não ter sido destruído todo o prédio, por terem localizado o fogo e, com grande esforço, o terem extinguido. Alguns dos bombeiros procederam aos salvados, tendo retirado os gados das cortes, as pipas de vinho, mobílias e outros objetos, correndo sérios riscos. // O ataque foi feito pelo 1.º andar e pelo telhado para o que foi necessário a montagem de escadas. // Ficaram quase destruídos três compartimentos do prédio, calculando-se os prejuízos de oito a dez contos de réis! E se os bombeiros não tivessem chegado a tempo, nada escaparia, porque o fogo lavrou com tal intensidade que era impossível dominá-lo sem a sua intervenção. // As labaredas presenciavam-se de grandes distâncias, era um espectáculo dantesco, causando grande impressão. // No local estiveram para cima de quatrocentas pessoas e uma parte delas ajudou naquilo que pôde, sobretudo no abastecimento de água. O alferes Peres foi um verdadeiro herói, não se poupando a sacrifícios, não obstante estar encharcado e com alguns ferimentos. // O primeiro patrão, João Cândido da Rocha, ao combater o incêndio perdeu a carteira, que continha dinheiro e vários documentos… // A 26/1/1936, pelas doze horas, no tribunal judicial de Melgaço, procedeu-se à arrematação, em hasta pública, por metade do seu valor, dos seguintes bens, pertencentes ao dito conde: 1) Quinta do Fecho (casa de morada, capela, terra de cultivo, mato e arvoredo) sita na freguesia de Rouças. Ia à praça por 28.380$00. 2) (…) O dinheiro obtido seria para pagar a dívida à Caixa Geral de Depósitos, no valor de 469.054$04. Eram citados Estêvão Maria de Barbosa Carneiro Queiroz de Azevedo Bourbon e sua esposa, residentes em Viseu, a favor dos quais existia um registo provisório. // Arrematou a dita Casa e Quinta do Fecho um senhor de Castro Laboreiro, Manuel Alves (1904-1956). // Em 2016 morava lá ainda uma filha do comprador, professora Noémia, viúva. // A capela, pertencente à Casa, foi demolida pelos novos donos, mas a pedra de armas foi dali retirada e colocada na dita Casa. // (ver “Padre Júlio Apresenta Mário”, p.p. 118 a 120). 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



PROVÁVEL ORIGEM DO NOME MELGAÇO

        
        Não pretendo com este modesto trabalho exibir conhecimentos em Linguística, Etimologia, ou ciências afins, ou sequer colocar em causa investigações passadas de pessoas sérias, honestas, que tudo tentaram para descobrir a origem dos nomes da nossa pequena pátria. Eu quero apenas contribuir com o meu esforço para esclarecer alguns pormenores que escaparam a esses senhores, todos eles já falecidos. Certezas absolutas, quem as têm? Claro que, no meio desses estudos, surgiram algumas fantasias, por vezes vindas de gente de quem não se esperaria tal coisa, mas enfim, sem as ferramentas adequadas, que não possuíam, teremos que ser nós, gente do século XXI, com outros meios, outros recursos, a separar o trigo do joio. O caminho é sáfaro, ingrato; mas desistir era o pior que nos poderia acontecer. É necessário dar passos seguros, com a ajuda de todos: etimologistas, arqueólogos, etc., para que um dia não restem quaisquer dúvidas sobre o assunto.
     O concelho tem dezoito freguesias desde meados do século XIX, e dentro de cada uma delas existem muitos lugares, cada qual com o seu nome; conhecer a sua raiz não é fácil, sobretudo porque Melgaço está longe dos grandes centros e os cientistas diplomados quase esqueceram por completo a sua existência! Teremos de ser nós, gente que nasceu neste lindo torrão, a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que o passado histórico surja a nossos olhos limpo de poeiras, sem ambiguidades e mentiras. Eu sei que é mais fácil escrever quando nada, ou pouco, se sabe, pois inventam-se mil patranhas e fica tudo resolvido.
     A seguir vou transcrever, não sei se exaustivamente, todos os textos que até agora se escreveram sobre a etimologia do topónimo Melgaço, além de outros cujo tema lhe é próximo. Não são muitos, e o seu valor é desigual, mas serviram pelo menos para lembrar que este rincão foi visitado por gentes de outros continentes – Ásia e África – além de povos da velha Europa, que por aqui andaram, quer em guerra, quer em paz. Omito, propositadamente, os textos de Fernão Lopes, Alexandre Herculano, e de alguns outros, pois apenas se debruçam sobre a História, sobretudo militar. Leia-se então tudo aquilo que se disse, de uma forma mais ou menos sábia, sobre a origem remota da bela palavra Melgaço:
     «Quando, pois, os romanos conquistaram a península, Melgaço, a ocidente dos querquérnios e bem perto dos aobrigenses, não foi riscado do mapa da antiga Gallaecia e porque manteve a sua integridade, quando os conquistadores ajustaram a divisão administrativa das Hespanhas, criando a província Tarraconense, ficou uma das vinte e quatro civitates ou povos do convento jurídico de Braga. Simplesmente o nome deste povo, a palavra Melgaci, não esmalta as páginas do livro de Plínio, porque como ele próprio confessou, pareceu-lhe fastidiosa a enumeração total desses povos.
     Ora o chefe dos melgaceos, o celta Melgacus que os baptizou, baptizou também este querido torrão natal, porque escolheu o planalto, onde hoje assenta a Vila, para aí erguer o seu opidum, que lhe serviu, ao mesmo tempo, de centro de governo da sua civitas, de defesa e de habitação: uma fortaleza com duas ou três ordens de muralhas, à semelhança de Briteiros, Sabroso ou Santa Luzia, com casas redondas ou rectangulares para o chefe e servos, estábulos para gados, etc.
     Os romanos levaram anos a arrancar os melgaceos para a civilização e se até hoje não apareceram lápides ou outras memórias a provar terem arrasado ou conservado o opidum, deles ficou memória nas “villa”, propriedades rústicas cuja cultura ensinaram a fazer, disseminadas por estas redondezas, como Erada, Cavaleiros, Colanes, Prado, Cristóval…» (Melgaço e as Invasões Francesas – 1807-1814, por Augusto César Esteves, 1959, página 77).               

     O Dr. Augusto César Esteves (1889-1964), melgacense dos quatro costados, morreu convencido de que obtivera a resposta para as suas dúvidas quanto à origem do nome Melgaço. No entanto: [Já o Arqueólogo Português registou iguais fantasias, anticientíficas, de fisionomia popular, a respeito de Malha, em Torres Novas, Alenquer, Nagosa, etc. Vejamos o texto: «Vulgarmente, o povo designa como cidade certas ruínas e localidades antigas, revestindo-as até de lendas, por exemplo, cidade de Malha (Torres Novas), cidade de Alenquer, cidade de Nagosa (Tua), e, por antonomásia, Cidade (Melgaço), palavra que corresponde a castro.»] (Estudos de Língua Portuguesa – Arlindo de Sousa, Rio de Janeiro, 1956, página 10).

     Mas há mais: «Depois da época dos castros e das citânias andaram por aqui os romanos. Esta palavra Melgaço está ligada com isso; supõe-se que a sua origem seria o nome de um tal Melgaceus, romano ou nativo muito romanizado, cuja vida pode ser documentada por inscrições epigráficas aqui do Alto Minho.» (O Tempo e a Alma, de Hermano José Saraiva, página 12).

     Numa lápide que se encontra na Casa do Avelar pode ler-se: «ARQUIVS VIRIATI F C AGRIPIA H. S. EST MELGAECUS PELISTI MONVME(NTVM) C(OLLOC) AV(IT), ou seja: Arquius, Viriati f(ilius), c(enturia) Agripia, h(ic) s(itus) s(epultus) est. Melgaecus, Pelisti (filius), monume(ntum) co(lloc)av(it).» // Resumindo: um tal “Melgaecus” erigiu um monumento funerário a Arquius, filho de Viriato.

     Outra inscrição, esta de Málaga: «(Ca)malo Melg(aci) Fi(li)o Bracara A(v)gustano (S)acerdoti (Ro)mae Aug. Caesa(rum) Conventus (A)vgvst(anvs).» // Traduzido para português, dá mais ou menos isto: Câmalo, filho de Melgaci, sacerdote de Bracara Augusta…

     «Melgaço. Topónimo. Melgazo em 1173 (Documentos Medievais Portugueses, página 418), Melgacio em 1181 (Leges, página 422; ver também D.M.P., I, páginas 475 e 477), e em 1219 (D.M.P., I, página 477), Melgazo, novamente, em 1258 (Inquisitiones, página 330).»

          No “Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa”, da Editorial Confluência, volume II, página 974, lê-se: «Melgaço. Origem obscura; do latim *mellicaceus, de *mellicus, este de melle (mel)?, de melga, insecto? A hipótese de Leite de Vasconcelos (do antropónimo galaico Melgaecus) também oferece dificuldades (Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2).» 

      Vamos então consultar José Leite de Vasconcelos «Religiões da Lusitânia, volume III, página 152, nota 2»: [… é provável que (…) houvesse povoações indígenas, como se deduz dos nomes locais (de divindades e de pessoas) que aparecem nas inscrições da época romana, por exemplo Rego, Verora, Apilus, Arquius, Camalus, Melgaecus (talvez esta palavra contenha o radical de Melgaço, nome actual de uma Vila do Alto Minho;…)].

     Natália Correia, num posfácio que redigiu para o livro de Moisés Espírito Santo “Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa”, seguido de “Ensaio Sobre Toponímia Antiga”, na página 393 questiona-nos: «Que património mitológico nos chegara desse fundo semita dos cultos arcaicos antes de Moisés Espírito Santo lançar este desafio às entorpecidas convicções académicas da etnologia e da toponímia? A grande influência do templo de Melcart, o Hércules de Tiro venerado em Cádis nos cultos indígenas que, na Península, se desenvolveram no primeiro milénio antes da nossa era. Desse centro de irradiação religiosa do semitismo, cuja influência chega até à plena época imperial romana, seria réplica na faixa ocidental da Península um santuário de Hércules no Promontório Sacro, que Ephoros (Éforo, historiador grego: 390-334) refere como existindo no seu tempo.»       
      Batalha Gouveia, no jornal Actualidades, lembra: [Os cananeus, povo que os Hebreus guerrearam aquando da conquista da Terra Santa, dispunham da expressão Malaku para denominarem o «rei». Malaku é palavra formada pelos termos mal, «grande», e aku «santo». Daí o plural hebraico Malakim dado ao livro bíblico denominado Reis.]

    Platão, filósofo grego, na sua obra “Crátilo”, escrita há mais dois mil anos, alerta-nos para as dificuldades que vamos encontrar quando quisermos saber coisas de épocas remotas: «A grande antiguidade dos nomes e as profundas modificações que sofreram tornaram-nos indecifráveis.» 

     Maria Clara de Almeida Lucas, in “A Literatura Visionária na Idade Média Portuguesa”, página 31, escreveu: «Também na civilização celta o outro mundo se encontra sobre a Terra, frequentemente para o ocidente, e muitas vezes sob a forma de ilha dos bem-aventurados, o “país sob as ondas” ou o “país para lá das névoas” e toma vários nomes: Mag Mor (grande planície), Mag Mel (planície dos deleites), etc

     Maria Lamas, em “Mitologia Geral”, páginas 79 e 80: «Das escavações feitas em Rãs-Shambra depreende-se que à frente do panteão fenício estava El, criador de todas as coisas e pai dos deuses, que primitivamente teria sido assimilado ao céu e talvez também ao sol… Os cananeus foram o único povo semita que utilizou o apelativo il, el (deus), como nome próprio, para designar o seu grande deus. El, senhor de todas as divindades, usava o título de rei, era o “criador da criação” e também o sábio e o juiz por excelência.»        

     Na mesma obra, na página 82, lê-se: «No segundo período do panteão fenício, Mot e Aliyan foram assimilados a Eshmun-Adónis, se bem que os fenícios continuassem a fazer uma certa distinção entre o espírito da vegetação (Mot) e o da água subterrânea (Aliyan). Pode dizer-se que o conjunto Aliyan-Eshmun-Adónis sobreviveu no deus rio Adónis e em Melkart (o rei da cidade)…»

     Na página 85 da obra citada podemos ler: «Melek, Milk, Moloch e Milkom, nomes que aparecem no segundo período do panteão, significam o “deus”, senhor da cidade de Tiro, que está em relação com Biblos

     A mesma obra, nas páginas 96 e 97, informa: «Fosse qual fosse o seu nome e origem, todos os deuses e deusas da mitologia fenícia simbolizavam a fertilidade e a fecundidade, pelo que se pode dizer que o culto fenício foi sempre, em última análise, a natureza (…). Os santuários estavam situados no alto dos montes e colinas sagradas. Cada um tinha uma cela, um bétilo (pedra sagrada) e um recinto sagrado (haran), onde só podia penetrar o fiel em estado de pureza. Em frente da cela erguia-se, ao ar livre, o altar rudimentar onde eram colocadas as oferendas e queimados os holocaustos

     Luís de Figueiredo da Guerra também se pronunciou sobre o assunto. Eis a sua versão: «Melgaço. – Divergem as opiniões sobre a origem desta palavra. Sabemos de povoações portuguesas chamadas Melga, Melgas, Melgar, havendo também na Espanha um Melgazo. Todas evidentemente se filiam na raiz latina mel, mellis: mel da abelha; a significação do terminativo “aço” consigna abundância, correspondendo ao advérbio muito. Se melga já então indicasse uma variedade de mosquitos, teríamos em vez de lugar abundante em mel, sítio de mosquitos.» 




     Como já se observou através das leituras supra «cada cabeça cada sentença». Eu, após muitos anos de leituras, de meditação, encontrei um caminho, talvez uma vereda, que espero não seja um atalho para a asneira. E o que achei é deveras surpreendente: aquele povo pequenino, mas culto, civilizado, da Ásia Menor, com as suas cidades nas margens do Mar Mediterrâneo, que difundira o vidro e inventara a salga do peixe, com escrita, cujo alfabeto espalharam pela Europa, trouxe-nos uma prenda que se conserva até hoje – o nome Melgaço. Claro que estou a falar da Fenícia e dos fenícios. Eles estiveram na península ibérica, quer diretamente, como comerciantes, quer através dos cartagineses, seus descendentes, como guerreiros. Subiram os rios e, nas partes altas, erigiram santuários, a fim de adorarem os seus deuses. Melgaço deve, pois, derivar de Melcart (ou Melkart – o rei/deus da cidade). Os fenícios teriam entrado no Rio Minho pela sua foz, em Caminha, e avançaram no sentido da nascente, a fim de levarem os seus produtos às populações que habitavam nas margens do rio: lã tingida, cerâmicas, couros, perfumes, mas sobretudo o tecido de púrpura, que eles fabricavam, além de alguns objectos de luxo, só para os habitantes ricos. Aqui e ali, em lugares altos e provavelmente ermos, construiriam os altares e fariam sacrifícios aos seus deuses, para que estes lhes proporcionassem bons negócios.
     Existem poucos ensaios científicos sobre o povo fenício no território que é a partir do século XII Portugal. No entanto, é indesmentível que muitos topónimos portugueses têm origem fenícia. Em Espanha, ao contrário de nós, estudaram profundamente esse povo, e sabe-se que Málaga deriva do nome do deus Melcart. Quer isso significar, na minha modesta opinião, que os nomes Málaga e Melgaço têm a mesma fonte! Não é difícil, em termos etimológicos, fazer derivar de Melcart a palavra Melgaço, tendo em conta que a pronúncia trazida para a península pelas diversas gentes que para aqui vieram com os romanos alterava profundamente as palavras mais antigas, ficando por vezes irreconhecíveis passados alguns anos. Exemplos abundam. Vejamos: o “c” latino pronunciava-se sempre “k” e passou em muitos casos para o português como “g”: lacu(m) deu lago; jocu(m) deu jogo; ciconia(m) deu cegonha; etc. Trata-se do fenómeno designado sonorização.
     Analisemos então a palavra que nos interessa: Melcart. Pelo tal processo, passou a Melgart. Mais tarde o “r” cai, talvez por se ter tornado inútil – não se pronunciava. Como enfraqueceu, caiu, como acontece com tudo na vida, e as letras e as palavras não são uma exceção. Resta, por conseguinte, Melgat. O “t” latino, como se sabe, tornou-se “c” em português. Exemplo: palatium transformou-se em palácio; ratiociniu- transforma-se em raciocínio, etc. A palavra vai-se modificando. Temos então Melgac. Nessa altura dir-se-ia “Melgaç”. Posteriormente foi acrescentado, na língua escrita, um “o”, que na pronúncia se tornaria “u” – “Melgáçu” (o “o” nessa palavra é apenas convencional).
     No foral concedido ao concelho pelo primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, em 1183, ou logo a seguir, aparece-nos a palavra Melgacio; e noutro documento de 1261 ela surge escrita Melgatio. O “i” não se pronunciava, por isso foi abandonado, passando o “c” a ter a cedilha, a fim de pronunciado como “ss”. Esse foral foi escrito em latim tardio, isto é, num latim não clássico. A época de Júlio César, de Cícero e de Octávio Augusto já ia longe!
     No foral de 1258, “oferecido” ao termo por Afonso III, o topónimo vem escrito “Melgazo”, alternando com Melgaço. É óbvio que o “z” se pronunciava “ç”de outra maneira não se explicaria essa grafia num texto régio, e ainda por cima escrito em latim! Diz-nos Duarte Nunes de Leão: «… Mas, com o tempo, perdeu-se a própria pronunciação desta letra, que os antigos lhe davam, e damos-lha agora por uma maneira, que soa entre s e ç; a qual letra porque muitos vulgares a confundem com o s e às vezes com ç…» (“Ortografia e Origem da Língua Portuguesa”, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983, página 80).                    
     Corrobora a minha tese a seguinte frase de José Leite de Vasconcelos em “Religiões da Lusitânia”, volume I, página XXVI: «… muitos dos nossos nomes de lugares actuais provêm de nomes pré-romanos.» 
     E para terminar, lembro, apenas como curiosidade, que existe no Brasil uma cidade com este nome. Alguém me disse que foi um nosso conterrâneo que a fundou no século XIX, sendo-lhe até atribuído o título de Barão de Melgaço. Se é verdade, ou não, não sei. 

     Nota: este pequeno estudo foi publicado há uns anos no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Melgaço.  

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terça-feira, 31 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha




Macróbios


  Este tema da longevidade atrai-me desde a minha juventude. Ficava fascinado quando uma pessoa atingia os cem anos de idade. No século XX o normal era o ser humano morrer com pouco mais de sessenta anos. O trabalho duro, a fraca alimentação, a ausência de férias para um descanso merecido, etc., enfraquecia o organismo, e a partir dos cinquenta anos já a pessoa era considerada velha. Com a entrada de Portugal na CEE, com a circulação de dinheiro, com o abandono da agricultura e o acesso aos serviços, mais ou menos bem remunerados (bancários, empregados de Companhias de Seguros, etc.), permitiu às populações melhorar a sua vida, estudar os filhos, deslocar-se para a cidade, onde os cuidados médicos são mais abundantes e sofisticados. O consumo de medicamentos aumentou exponencialmente, a consulta médica tornou-se uma rotina. Morria-se por causa da próstata, da diabetes, da tuberculose, de uma simples infeção; hoje é raro alguém finar-se devido a estas doenças. Enfim, melhorou-se a qualidade de vida em alguns aspetos, mas perdeu-se em parte o contacto com a mãe natureza. Não se pode ter tudo.  
Hoje dou-vos a conhecer mais duas melgacenses que atingiram idades consideráveis. 

DOMINGUES, Zulmira da Conceição. Filha de António Domingues e de Rosa Rodrigues, lavradores, residentes no lugar de Cima, freguesia de Lamas de Mouro. Neta paterna de António Domingues e de Clara Domingues; neta materna de Manuel Joaquim Rodrigues e de Ana Alves. Nasceu em Lamas de Mouro, Melgaço, a 6/5/1906, e foi batizada na igreja paroquial a 9 desse mês e ano. Padrinhos: Manuel Joaquim Rodrigues, casado, e Maria Rodrigues, viúva, camponeses, moradores no lugar de Cima. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 7/10/1924 com António Joaquim Pereira. // Enviuvou a 25 de Fevereiro de 1931. // Faleceu na freguesia de São José e São Lázaro, concelho de Braga, a 14/12/2003, com 97 anos de idade.  


GONÇALVES, Joaquina. Filha de Manuel Gonçalves e de Maria de Pinho, lavradores, lamacenses. Nasceu em Lamas de Mouro, concelho de Melgaço, por volta de 1831. // Faleceu no lugar do Casal, freguesia de Paços, concelho de Melgaço, a 22/6/1938, com 107 anos de idade, no estado de solteira, e foi sepultada no cemitério dessa freguesia ribeirinha. // (ver Notícias de Melgaço n.º 403). // Mãe de Constança Gonçalves

domingo, 29 de maio de 2016

ENTRE MORTOS E FERIDOS

(dois anos de guerra na Guiné-Bissau) 

Por Joaquim A. Rocha

desenho de Rui Nunes


11.º Capítulo


BOLAMA

     Desta vez o reencontro entre os dois amigos demorou mais do que o previsto. O trabalho e os estudos não permitiam grandes folgas. Henrique, contudo, estava ansioso por ouvir o relato daquela aventura que foi a guerra colonial. Logo que lhes foi possível encontraram-se. Ainda Cândido não aquecera o lugar, já o outro lhe perguntava:

- Como se sentiu ao pisar terras africanas? Teve receio?
- Nessa ilha, de uma beleza paradisíaca, não havia quaisquer confrontos armados. No entanto, já aí se respirava uma atmosfera de guerra. Barcos chegavam e partiam com contingentes para o “mato”, para o barulho, como na altura se dizia. Os rostos desses jovens, mas já experientes beligerantes, denunciavam fadiga; porém nos seus olhos, apesar de tudo, ainda se vislumbrava uma chama de esperança. Lembro-me de ter perguntado a um marinheiro, com aspecto de patriarca – grisalho, longas patilhas, bigode farfalhudo e pêra pontiaguda – se a guerra iria ou não durar muito. Sorriu, com aquele sorriso de quem sabe muito da vida e dos homens, e sentenciou em tom solene: «Talvez os teus filhos e netos, se os vieres a ter, cá venham batê-las
     Na sua rudeza, o marujo experimentado, cheio de tarimba, falava como um oráculo! Este tipo de conflito, mais tarde pude verificar isso mesmo, não tem um tempo determinado para a sua duração: aguenta até a causa que lhe deu origem desaparecer. São deveras complexas estas lutas de libertação. Os grupos, ou o grupo, que combatem são geralmente apoiados por este ou aquele país, por este ou por aquele movimento internacional, pela própria população. Aparecem armas, surgem apoios em alimentos, fardas, instrução. Os generais afectos ao poder pensam que determinada zona está controlada; pode estar, mas logo surge outra zona, não muito longe daquela, com problemas insolúveis. E assim sucessivamente. 
    
     Henrique, desejando intervir, pergunta:

- Acha que era possível não haver mais guerras?!
- Possível, sim; e desejável também. Mas não é provável que isso venha a acontecer em breve, embora correspondesse ao anseio da maioria esmagadora da humanidade. Quanto a mim, todas as pugnas são alimentadas por homens com cérebros bélicos, e enquanto estes existirem elas existirão também.  

     Era uma resposta razoável, mas insuficiente, pensou o rapaz. Por isso, perguntou-lhe:

- Como se definiria ideologicamente?
- Referes-te ao tempo presente, é óbvio. Bem, eu considero-me ecléctico, isto é, aproveito tudo que de bom têm os outros, rejeitando, se puder, tudo aquilo que acho errado. Exemplificando: já me pediram para me inscrever num Partido Político. Eu perguntei-lhes: «Concordam com a existência de Forças Armadas?» A resposta já eu a sabia de antemão:
     «Sim, concordamos.» «Entãodisse-lhesnão posso filiar-me no vosso Partido.» Ficaram irritados comigo: «Mas isso é uma utopia, onde se viu um país sem Forças Armadas, sem defesa, à mercê de qualquer bando que aparecesse por aí…»
- Ficou sem argumentos… - disse o amigo, convencido, também ele, de que tudo não passava de um devaneio.
- Pelo contrário. Respondi-lhes: «está provado que as guerras são prejudiciais à humanidade; só meia dúzia de capitalistas e generais sem escrúpulos ganha com elas; se elas acabarem é um bem e não um mal
- Radicalismo puro. Acha o meu amigo que no caso de se extinguirem as Forças Armadas terminam as guerras?!
- Exactamente. Então não tens reparado que são sempre os militares e os donos das fábricas de armamento a pressionar os políticos para estes declararem os conflitos armados?
- Hitler, Mussolini… - recordou Henrique.
- Esses monstros, embora civis, tinham espírito militarista. Não te apercebeste por acaso que usavam sempre farda? E não eram quaisquer fardas – feitas de óptimo tecido e à medida dos seus deformados corpos. E julgas que os grandes industriais de armamento não estavam por detrás disso tudo?
- Salazar nunca vestiu uma farda, penso eu, e no entanto provocou a chamada guerra colonial! - ripostou o moço, na ânsia de alimentar a fogueira da polémica.
- Contrafeito. Foi obrigado a isso. Nunca se sentiu bem nesse papel. Se ele gostasse dessas coisas, teria entrado na Segunda Grande Guerra. Por outro lado, não queria cometer os mesmos erros que cometeram os republicanos na 1.ª República. Era um ditador, mas dentro de casa; não um guerreiro, no campo de batalha. As Forças Armadas no seu regime nunca brilharam; bem pelo contrário, muitas vezes foram por ele enxovalhadas! O único militar que respeitou, de certo modo, foi o marechal Carmona. Por gratidão. Devia-lhe favores. Não sabes por acaso que o almirante Américo Tomás foi um joguete nas suas mãos? E que o general Craveiro Lopes lhe virou as costas, já farto de obedecer?               
    
Henrique estava a ficar cansado de tanta verborreia. «Que diabo: isto não fazia parte da narrativa» – pensava ele.
     Cândido, óptimo observador, notou o aborrecimento do amigo e diz:

- Com toda essa conversa da treta ia-me esquecendo do essencial. Desculpa. Quanto ao marinheiro… Depois dele falar eu fiquei pensativo. Para quê ripostar se tinha ficado esclarecido? Teria, doravante, de arranjar calo, um pouco de coragem e paciência para suportar os tempos árduos que se avizinhavam.
     Os nossos camuflados verdes, do pouco uso, contrastavam com os amarelados, gastos, da tropa “velha”; a nossa pele, alva, parecia pertencer a bonecos de neve, comparada com a pele escura, queimada, dos que se encontravam em África, na Guiné, havia já algum tempo.    
     Ao contrário do que seria de esperar, os veteranos não riam do nosso aspecto, não riam dos maçaricos (assim chamados por a farda ainda manter a cor da pequena ave de nome maçarico verde); eles sabiam o que nos esperava e isso não podia de modo algum inspirar motivo para regozijo. Por outro lado, nós íamos substituir alguns deles, que assim poderiam regressar à sua amada terra, ao seu querido lar, abraçar filhos que possivelmente ainda não conheciam e esposas que deixaram banhadas em lágrimas!
     Nessa pequeníssima cidade, Bolama, quase terra de brancos nessa altura, havia um hotel, não sei de quantas estrelas. Nunca lá entrei. Por fora tinha bom aspecto. Enquanto houve guerra colonial esteve ao serviço das nossas Forças Armadas – era um pequeno quartel-general.
     Ali na zona estivemos algum tempo a exercitar o nosso instinto guerreador.
     Durante esse tempo, e a partir desse ponto, levámos a cabo algumas acções, com Companhias de Caçadores já bastante castigadas pela guerra. Iniciava-se, dessa maneira, a nossa odisseia e o nosso baptismo de fogo.
     Mas, para desanuviar um pouco o ambiente de guerra, vou-te contar um episódio engraçado no qual eu fui o principal actor. Certo dia o cozinheiro adoeceu e o seu ajudante ainda não chegara da metrópole – chegaria precisamente no dia seguinte. O comandante mandou reunir a Companhia e expôs o assunto: «hoje não temos jantar, o cozinheiro está de cama; se houver aí alguém que saiba cozinhar que o diga – não é preciso grande requinte, umas batatas com atum já serve.»   
     Todos ficaram calados. Eu, contudo, não podia ficar indiferente àquele silêncio. Lembrando-me que já cozinhara algumas vezes, mas para pouquíssimas pessoas, levantei a mão e disse: «eu faço o jantar.» Suponho que até bateram palmas! O pior foi depois. Quantos quilos de batatas eu ia colocar na panela? E a água – que quantidade? E o sal? Quanto ao atum era fácil, se fossem latas pequenas, mas se fossem grandes? Entrei em pânico.
     Bem: pôs-se o panelão ao lume, quase cheio de água, descascaram-se as batatas e puseram-se a ferver. Às tantas a água já deitava por fora, num borbulhar infernal. Para mexer aquilo, com a enorme colher de pau, era necessária a força de um gigante. Deitei alguma água fora e fui buscar o sal. Aqui é que o desastre se completou. Atirei-lhe com uns punhados lá para dentro, à sorte, ao calha, ultrapassaria o quilograma!  
     Quando as batatas já estavam cozidas chamei o pessoal e comecei a distribui-las. Um ajudante improvisado misturava o atum. Logo que começaram a comer desatam aos gritos: «isto é intragável, está salgado que nem uma pilha…»
     O tenente chegou esbaforido e disse: «Acalmem-se – comam apenas o atum com pão. Um dia não são dias.»
     As coisas serenaram, alguns até compreenderam a situação, mas a vergonha foi muita.          

     Henrique, que já estava calado havia algum tempo, riu-se com gosto, e depois interroga:

- E quanto ao clima? Dizem que era terrível!
- O clima da ex-colónia não podia ser pior. O ar, quente e húmido; as melgas existiam em tanta quantidade que se tornava inútil e frustrante combatê-las! Graças aos leves e transparentes mosquiteiros podíamos dormir umas horas, porque dormir durante esse período era de facto um verdadeiro privilégio, um luxo. Já sei que me vais perguntar: “os negros também eram atacados pelas temíveis melgas?” Respondo-te desde já: não, não eram, por mais incrível que isso pareça!
- E há alguma explicação para que tal facto acontecesse?! – pergunta o jovem, algo incrédulo, convencido talvez de que o amigo já confundia a realidade com a fábula.
- Ao princípio, embora esse “milagre” me tivesse chamado a atenção, não o entendia. Pensava que existiria uma espécie de pacto de boa vizinhança entre eles, ou então estávamos perante uma trégua, mais ou menos prolongada, depois de uma luta de séculos!
- Mas não era nada disso, suponho eu!
- Pudera! Mais tarde, bem mais tarde, soube tratar-se de um fenómeno natural. Os africanos negros possuem umas glândulas que exalam um odor especial, cheiro esse que consegue afastar da sua beira esses horripilantes bichinhos!

     Henrique estava maravilhado com essas explicações. Exterioriza:

- A natureza é, sem um grão de dúvida, quase perfeita!
- Vê lá tu: tão desprotegidos em termos de habitação e de vestuário, de assistência médica, os indígenas não teriam certamente quaisquer possibilidades de resistir àqueles “vampiros” ousados e nojentos.           
     Mas além desse cheiro característico, eles ainda se servem do fumo e do fogo para afastar potenciais perigos de feras e de outros inimigos naturais. A fogueira (espécie de fogo sagrado) acompanha-os praticamente toda a vida. Têm isso em comum com os povos primitivos e com os ciganos nómadas.
- Estiveram muito tempo em Bolama?
- Um mês, talvez mês e meio; já não me recordo exactamente. Daí, e após peripécias várias, entre elas a operação que levou ao hospital dezenas de camaradas...
- O que aconteceu? Foram atacados?
- Sim, mas pelas abelhas. Eu conto-te a impertinência das grandes produtoras de cera e mel, cujas armas, os ferrões, são tão temíveis como uma metralhadora: saímos de Bolama, ainda o sol não nascera, atravessando um pantanal imenso, e, afoitos, embrenhámo-nos na mata chamada de São João; às tantas, quase num golpe de magia, aparecem-nos milhares e milhares de abelhas, um enxame inteiro, sedentas de vingança, com o seu subtil ferrão em riste! Desordenadamente, fugimos, largámos as armas e munições, gritámos e até houve quem chorasse como autênticas crianças abandonadas. Os nossos camaradas radiotelegrafistas chamaram os helicópteros logo que isso lhes foi possível, e os mais atingidos foram evacuados para o hospital militar de Bissau.
- Dramático! – comenta Henrique.
- Não há, nem poderá jamais haver palavras que consigam descrever esta louca situação. Uma coisa é combater contra seres humanos armados, embora escondidos e conhecedores do terreno; outra coisa bem diferente é lutar contra ousados animais minúsculos, e aparentemente inofensivos, que apenas tentam defender desesperadamente as suas colmeias. Para nós, confesso, foi assaz humilhante. Até houve depois quem dissesse que tinha sido manobra do inimigo!
- O Cândido acredita nessa balela?
- Não acredito em tal: abelhas adestradas? A não ser que elas fossem nacionalistas, estivessem ao serviço da guerrilha!       
- Nunca se sabe! – riu-se com vontade o rapaz.
- Brinca, brinca; mas nós, desgraçados, é que sofremos na pele esse ataque. Nem a mascote nos valeu!
- O que era a vossa mascote? Um macaco?
    

     A resposta ficou no ar, pois o tempo escoou-se. Ambos se levantaram da mesa do Café e despediram-se amigavelmente.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

MAIS UMA VÍTIMA DO TABACO

Joaquim A. Rocha




LEITÃO, Pedro. Filho de Joaquim António Vieira Leitão e de Maria Manuela Ferreira de Araújo Leitão. Neto paterno de Joaquim dos Santos Leitão e de Eleusina Soledade das Dores Vieira; neto materno de José dos Santos Leitão e de Manuela Ferreira de Araújo (*). Nasceu em Lobito, Angola, a 16/12/1955. Veio para Braga com os pais ainda era criança. // Na sua juventude foi simpatizante do MRPP, movimento político dirigido pelo Dr. Arnaldo de Matos, que tinha como objetivo derrubar o regime corporativista de António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano, e substituí-lo por um regime socialista (socialismo científico). // Fez alguns estudos, curso liceal, no Liceu Sá de Miranda, Braga, e foi admitido a 1/7/1974 como jornalista no Correio de Minho, depois no “Jornal de Notícias” (também colaborou no “Público”, no “Crime”, e no Alto Minho, na revista SIM, entre outras publicações). // Devido a divergências que surgiram no Jornal de Notícias, obrigando os seus responsáveis a reestruturações internas, chegou a um acordo com a administração, afastando-se definitivamente, recebendo em troca uma indemnização. // Em 2004 funda o jornal “Fronteira Notícias”, que tratava vários temas relacionados com alguns concelhos do Alto Minho (entre eles o de Melgaço) e da Galiza. // Possuía uma cultura vasta, sobretudo na área das ciências humanas, e uma inteligência viva e atuante. A prová-lo está a qualidade do jornal «Fronteira Notícias» – quase sozinho, apenas com a ajuda técnica dos seus dois filhos, Sérgio e Pedro, e de meia dúzia de colaboradores, apresentava todos os meses ao público um jornal excelente, igual, ou talvez melhor, do que alguns jornais de âmbito nacional. // Faleceu, devido a doença, provocada pelo excesso de tabaco, a 28/3/2016. Era casado com Ana do Sameiro Gomes Ferreira, natural de Braga.

        Nota: colaborei alguns anos com Pedro Leitão, no jornal «Fronteira Notícias», e pude comprovar que ele era de facto um grande jornalista, sobretudo na área da investigação e da entrevista. Um dia fomos os dois entrevistar Rui Solheiro, então presidente da Câmara Municipal de Melgaço, entrevista essa que depois foi publicada no referido jornal. Eu tirei as fotografias. // Tantas vezes lhe disse: «amigo, deixe de fumar, você assim mata-se.» Nunca quis ouvir os nossos conselhos, o vício era maior do que a sua vontade! Chegava a fumar três maços por dia! Morreu aos sessenta anos de idade, com cancro. Enfim, quando não se tem juízo «o corpo é que paga


     /// (*) Esta senhora era filha de Domingos Ferreira de Araújo, transmontano, formado em Farmácia no Porto, com estabelecimento farmacêutico em Melgaço, e de Maria de Sousa Viana, natural do lugar de São Gregório, freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço. Ela, Manuela (ou Madalena), natural da vila de Melgaço, conheceu o seu marido quando ele foi para as Termas do Peso passar alguns dias.   

quarta-feira, 25 de maio de 2016

SONETOS

Por Joaquim A. Rocha



Por onde anda minha saudosa terra,
Há muitos séculos que não a vejo;
Fugiu de mim, do meu carente beijo,
Para sítio distante, agreste serra.

Toda a minha história em si encerra,
Aquele lugar que eu tanto desejo;
Tem um rio mais belo do que o Tejo,
 Por si a minha alma chora e berra.

Não vou ficar sentado à espera
Que ela venha até mim pela manhã;
Irei percorrer todo o universo, 

Transformado em nave, azul esfera,
Em estrela do céu, grande ou anã…
Trazê-la de novo para seu berço.