terça-feira, 3 de novembro de 2015

QUADRAS AO DEUS DARÁ

Por Joaquim A. Rocha





Flor do meu culto jardim,
Dentre todas a mais formosa;
Conserva-te sempre assim,
Não és cravo, tu és rosa.

*

Estrela lá tão distante,
Por mim pressurosa chamas;
És fascínio, diamante,
Luz em meu peito derramas.

*

Se a fama bater à porta,
Não a quero aceitar;
Que importa a fama que importa,
Se minha paz vem roubar.


sábado, 31 de outubro de 2015

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha




UM ADEUS À GUARDA-FISCAL DE MELGAÇO


     Presumo que haja gente na nossa terra a ter motivos fortes para não gostar da Guarda-Fiscal; respeito esse sentimento. Eu gosto! Não só por ser afilhado de Agostinho Teixeira, 1.º cabo dessa guarda, recentemente falecido, como pelo apreço que sempre tive por essa corporação. A Guarda-Fiscal vai desaparecer como corpo autónomo, vai ser integrada na Guarda Nacional Republicana! Nós, melgacenses, nesta hora de despedida não poderíamos deixar de dizer adeus a esses homens abnegados que, durante tantos anos, percorreram «montes e vales» a fim de obrigarem os prevaricadores a cumprirem a lei das fronteiras. É provável que algumas vezes tenham fechado os olhos ao grande contrabandista, mas também o fizeram certamente ao pequeno; é quase certo que nem sempre foram isentos, mas ao longo de toda a sua existência merecem, sem favor, uma nota elevada. Melgaço vai ficar mais pobre com a sua ausência, embora a partir de agora as fronteiras passem a ser espaços de liberdade, através dos quais galegos e minhotos poderão manter um contacto mais assíduo e sem qualquer receio de serem olhados com desconfiança por parte daqueles a quem incumbia zelar pelos interesses das Finanças do Estado português. Algumas freguesias do concelho de Melgaço vão-se ressentir com a extinção da Guarda-Fiscal: quer pela segurança que davam às populações, quer pelo estatuto que imprimiam aos lugares aonde se instalavam. Cevide, por exemplo, quase desapareceu com a sua saída! São Gregório foi-se tornando cada vez mais importante graças à sua presença. Antes da guerra colonial, e por conseguinte antes dos jovens procurarem terras dessa Europa rica, o contrabando era uma das fontes de receita para muitas famílias melgacenses. À noite, os homens eram recrutados nos cafés e tabernas para transportarem às costas, monte abaixo, tabaco, sabão e pedras de isqueiro, bem assim como outros produtos, para uma embarcação que os aguardava junto ao rio Minho ou, então, atravessando o Trancoso, cujas águas nunca assustaram ninguém, a fim de irem entregar as mercadorias a determinada pessoa que na outra banda os esperava. De um lado a guarda-fiscal e do outro lado os carabineiros, tentavam suster essa azáfama noturna, mas tendo sempre em conta que dessa atividade dependia o pão nosso de cada dia de inúmeras pessoas, e o seu próprio emprego. Por outro lado, a guerra civil de Espanha (1936-1939) depauperara o país e a sua indústria estava, toda ela, ao serviço da guerra, pelo que precisavam de tudo que viesse do país irmão, mormente artigos que em Espanha não havia, ou existindo eram vendidos a preços proibitivos. Assim, através deste processo, os comerciantes compravam mais barato e não pagavam quaisquer direitos alfandegários. A fuga ao fisco é tão antiga como o próprio comércio! Seria ótimo que alguém se abalançasse a escrever a história do contrabando e contrabandistas em Melgaço nos últimos sessenta anos. Trata-se de um assunto interessante mas tabu, isto é, toda a gente tinha conhecimento desse negócio ilícito mas ninguém queria falar acerca dele! Com o desaparecimento de fronteiras controladas no seio da Comunidade Económica Europeia poder-se-á falar, sem qualquer espécie de medo, desse período rocambolesco e perigoso. Era eu pequeno e já ouvia contar algumas aventuras passadas com o lendário Artur Lascas, o Abílio Costa, o Armando Furão, e tantos, tantos outros, que preenchiam o nosso imaginário. Víamo-los fugir do senhor Zeca Carteiro e de outros guardas “mauzões”! O Artur a saltar muros de quinze metros de altura como se tratasse de um simples obstáculo sem importância; a atravessar o rio num pequeno barquinho, chamado batela, como se estivesse a bordo de um poderoso navio de guerra; a deitar-se na linha férrea galega esperando calmamente que o comboio, na sua lentidão carbónea, se dignasse passar. Tal como um super-homem, sobrevivia a todas as aventuras, ressurgindo cada vez mais forte e espetacular! Nós, os garotos de então, desejávamos um dia ser assim destemidos, ousados, vencedores. Mas a sombra negra também pairava por vezes sobre esse oásis de aventuras. A morte, por afogamento, de um jovem, filho do senhor Inocêncio Pereira (Caixa), morador nas Carvalhiças, aquando da travessia do rio Minho na pequena embarcação, morte misteriosa e jamais satisfatoriamente esclarecida, deixou toda a população estarrecida e desconfiada. Que se teria passado concretamente? O Fernando, como se chamava a vítima, nadava muito bem e tinha força suficiente e lucidez para resistir às correntes. Por outro lado, conhecia, como ninguém, o leito do rio: os sítios largos e mansos, e os estreitos, com impetuosas águas apressadas. Lembro-me de terem explicado na altura que a batela transportava carga a mais e por essa razão virou-se. O pequeno barco foi na corrente e os seus ocupantes tentaram atravessar o rio a nado. O moço, que teria na altura dezassete, dezoito anos de idade, não o conseguiu. Nunca se mencionou, que me lembre, a Guarda-Fiscal. É somente uma história do contrabando. Outras há. Esperemos que alguém as conte. A História de Melgaço não é apenas a tomada do castelo por D. João I e a incrível luta entre duas bravas mulheres: é, também, o dia-a-dia de uma comunidade que trabalha, que ama e sofre; é a luta pela vida, pela sobrevivência; é a emigração que tornou Melgaço materialmente rico e populacinalmente pobre; é a sua cultura, a sua índole lutadora e de fé inquebrantável.
     A Guarda-Fiscal, talvez por não ser uma força policial, tornou-se simpática às gentes do concelho, sabendo sempre misturar-se, sem beliscar suscetibilidades e costumes locais. Bem ao contrário: muitas vezes via-se o soldado sem farda, enxada na mão, trabalhando a sua horta, a sua courela, ajudando à vindima. Devemos louvar o progresso, a livre circulação de pessoas e bens, a abolição de fronteiras reais ou artificiais, porém, deixem-nos ter saudades do passado, daquilo que tivemos e já não temos. Somos melgacenses, somos europeus, mas somos também portugueses. E o português, como bem o frisou Teixeira de Pascoaes, é um saudosista, um amador do pretérito.



Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 977, de 1 e 15/1/1993.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha





TENDEIRO


Lá vou com a traquitana
pelas aldeias afora.
Vou cantando e vou vendendo,
vou petiscando e bebendo,
vou vendendo e fiando.
No regresso – ó espanto!
Fui vestido e vim de tanga!
Isto é uma vida fandanga…
Pra ser livre, não ter canga,
vende-se tudo ao desbarato;
com certa pompa e aparato,
ao mundo sujo, insensato…
Aos bichos desse outro mato,
de uma selva inda pequena,
toureando noutra arena,
touros mansos e ovelhas;
vacas magras e carneiros,
 bebendo copos inteiros,
vinho tinto e jeropiga;
apanhando a espiga,
a azeitona pequenina,
o espinafre e a nabiça,
e ao domingo… ir à missa!

Chiça!

domingo, 25 de outubro de 2015

MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS

Por Augusto César Esteves


D. João VI e sua mulher Carlota Joaquina

... (continuação)

     Não apurei a causalidade, mas o Tomás das Quingostas foi preso para as cadeias da Relação do Porto e essa prisão só podia ter sido efectuada depois de 1828. Saído «das cadeias do Porto em 1832 pela entrada do Senhor D. Pedro naquela cidade» e, na verdade todos os historiadores daquele período da luta fratricida confirmam terem as forças – desembarcadas em Pampelido –, à sua chegada ao Porto aberto as prisões e soltado os presos (indultando-os assim), veio o Tomás para São Paio, sem aguardar para a escápula a caricata aventura de Carlos Napier.
          Sua mãe tinha no lugar de Baratas uma casinha onde fora feito, dizia-se, o património do primo do seu filho, o Padre Manuel António Pereira Codesso, morador no lugar do Cruzeiro, mas comprada pelo seu marido era ainda solteiro. O Tomás, ao chegar à terra, fora-se logo com machadas e verrumas, cravos e martelos à referida casa e, à valentona, lhe cravara as portas, ficando até, alegou o padre, dentro fechadas umas suas sobrinhas. Com este acto de violência parece ter atemorizado muita gente e especialmente aquele clérigo, pois sempre ele se disse receoso de perder a vida às mãos do parente. Perde-se-lhe a pista no resto daquele ano, mas não repugna a suposição de ter gasto esses meses na formação de uma guerrilha ou a reorganizar a malta de facinorosos e atrevidos ladrões, acusada como já existente nos tempos anteriores à prisão. // Perto das Baratas vivia o cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, casado e com filhos, a prestar os seus serviços por aquelas redondezas em troca das avenças dos fregueses, quase todas em milho, e por isso havia bom passadio no seu lar. Ora em Janeiro de 1834, o Tomás das Quingostas exigiu do cirurgião quarenta e sete alqueires e meio de milho e em Julho do ano seguinte mais cinquenta alqueires e três quartos.
          Poucos dias antes desta última data a Prefeitura do Minho iniciara a caça ao homem, oficiando aos sub-inspectores de Melgaço e de Monção para lhe ser feita guerra de morte, com «a suspeita que sejam um fermento de guerrilha nutrindo relações com os facciosos do reino vizinho» e no princípio do último trimestre deste mesmo ano secundara a caça o Governo Civil de Viana, mas confessando, abertamente, haverem-se «tornado infrutíferas todas as medidas adoptadas para este fim, pelo auxílio que os mesmos povos dão a este chefe, fazendo-se por isso tão cúmplices como os referidos salteadores...»
          Tomás das Quingostas nem assim transferiu o seu quartel-general para outra região, mas os acontecimentos políticos desenrolados no país e sobretudo no distrito, dele distraíram as atenções dos diversos dirigentes da nação, durante o ano de 1836. À vontade portanto, o Tomás continuou, a campear, em Melgaço; e, em 7/5/1836, fez ao cirurgião Caldas a nova exigência de setenta e dois alqueires de milho e, como tantos não havia em casa, levou-lhe o rol das avenças e foi cobrar a maior parte do cereal à casa dos próprios fregueses.
          O Tomás das Quingostas foi então perseguido pela tropa e, desconfiando do cirurgião, considerando-o único espia dos seus actos, recebeu em Agosto como indemnização: um cavalo, levado das Baratas pelo seu companheiro bem conhecido pela alcunha «o Casal de Sante» e em Outubro um touro, tangido desde ali pelo João Ferreiro, de Barata. Dias antes perseguido outra vez pela tropa, fora ele encontrado no caminho de S. Bento do Cando, em 11 de Julho. Apanhada a guerrilha de surpresa, pôde ela, contudo, escapar-se das garras da força pública, mas deixou ficar no sítio vários objectos e um cavalo, que a tropa apreendeu. Este insucesso foi também imputado ao cirurgião e, para salvar a vida, remiu-o pagando uma segunda indemnização: 99$800 réis. Mas como a tal luta de morte não acabara ainda, nos primeiros dias de Fevereiro do ano seguinte o Comandante da 4.ª Divisão Militar, com o conhecimento e aplausos do Governo de Sua Majestade a Rainha, anunciou às autoridades locais que, brevemente, uma força militar sob o comando do Major de Caçadores 4, José de Figueiredo Frazão «vai ocupar esse concelho, o de Monção e Valadares, com o importante fim de conseguirem o extermínio ou dispersão da quadrilha de salteadores que tantos males têm causado aos seus infelizes habitantes, e de que é chefe o malvado Quingostas
          Poucos dias volvidos sobre este aviso, Paderne foi ocupado por trinta baionetas da Ordem - de propósito mandadas por autoridades superiores para efectuarem o extermínio da fera humana. Por este mesmo tempo, no monte de Montrigo, na própria freguesia de São Paio, casualmente vieram à fala Tomás Codeço e Manuel de Caldas e dessa conversa saiu o empréstimo de cinco libras em ouro, feito por aquele para este governar a sua vida. Em Março de 1838 «com muita violência e ameaças de vida» foram-lhe ainda exigidos mais sessenta alqueires de milho. Não contente com este canastro, segundo parece sempre aberto para fornecer de broa os guerrilheiros, em 26 de Agosto recebeu o Tomás das Quingostas cento e cinco mil réis por um cavalo, que lhe levara o Isidoro, alferes de voluntários e, em 17 de Outubro, uma clavina, entregue pelo Caldas na sua própria casa ao buscador Caetano Manuel Meleiro, da Granja.
          Como sempre, o Caldas de Real foi o bode expiatório: por aquele cavalo apreendido pelo alferes de voluntários tinha-lhe sido pedida a avultada indemnização de 207$800 réis e para tanto lhe não pagar «se valeu de alguns amigos que o compuseram pela quantia de cento e cinco mil réis e uma clavina de valor de cinco mil réis.» Roubado, perseguido, procurado de dia e de noite, o cirurgião Caldas resolveu sair de S. Paio e refugiou-se na vila, porque o Tomás era «homem destemido, ladrão e matador, que roubava de dia e de noite e quando se lhe não desse ou fizesse o que ele queria logo intimava à pena de vida e assim o executava» e «depois de indultado se fez mais temível cometendo mortes e vários roubos como foi na romaria da Senhora da Peneda em Setembro de 1838, Riba de Mouro, andando em todo monte temível, muito armado e com a comitiva da sua quadrilha que a todos ameaçavam e todos temiam pelas suas desordens».
          Mas se tudo isto assim se articulou no tribunal, nos mesmos autos se escreveu, que entre Tomás Codeço e cirurgião tinha havido toda a familiaridade e bom entendimento e, por vezes, dos dinheiros do Tomás se valeu o Caldas nas suas aflições e ainda hoje se pode ler num papel esta passagem: // (continua)...

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



Escritores melgacenses


3 - Padre Aníbal Bernardo Vasconcelos Mourão Rodrigues Passos. Nasceu na Vila de Melgaço a 23/12/1866. Foi sacerdote, diretor de jornal, diretor de um Colégio, e escritor. Além dos artigos de jornal e dos sermões, escreveu «A Tragédia de Lisboa e A Política Portuguesa», livro publicado em 1908 pela Empresa Literária e Tipográfica Editora; tem trezentas e vinte e duas páginas e trata do regicídio ocorrido em Lisboa nesse mesmo ano. Esta obra está à venda nos alfarrabistas, mas devido ao seu elevado preço não é fácil adquiri-la.




4 - Dr. Augusto César Esteves. Nasceu na Vila de Melgaço a 19/9/1889 e faleceu a 26/3/1964. Obras: «Melgaço e as Invasões Francesas». // «Organização Judicial de Melgaço» - edição do autor, ano de 1955. // «Santa Casa de Melgaço» - edição do autor, 1957. // «Melgaço, Sentinela do Alto Minho.» A 1.ª parte – 1.º volume (das origens ao liberalismo) foi publicada em 1957; a 2.ª parte – 1.º volume (Melgaço e as Lutas Civis, 1820-1910), foi editada em 1959; a 2.ª parte – 2.º volume (Melgaço e as lutas civis, 1820-1910), foi editada em 1960. // «O Meu Livro das Gerações Melgacenses», 1.º e 2.º volume; editado pelo arquiteto Luís de Magalhães Fernandes Pinto e Dr. Armando Barreiros Malheiro da Silva em 1989 e 1991. // «Obras Completas» volume I, tomo I e II (artigos de jornal; recolha e introdução de Armando Malheiro da Silva e Joaquim A. Rocha), edição póstuma, Câmara Municipal de Melgaço, 2002.       



terça-feira, 20 de outubro de 2015

LEMBRANÇAS AMARGAS
romance

Por Joaquim A. Rocha 






...(continuação)


IV

As recordações são como os venenos: matam, ou purificam!

         Neste momento encontro-me com o irmão a seguir a mim, não sei se já vos disse que eu sou o mais novo, conversando sobre a nossa meninice, sobre os nove e seis anos respetivamente que ambos vivemos em Cendre, numa casinha de pedra, junto ao regato que serve de fronteira entre Portugal e a Espanha, muito velhinha, apenas com uma divisória, cerca de vinte metros quadrados, por baixo o porco e as galinhas, mas que para nós simbolizava o ninho, a nossa cabana perdida na terra prometida, o cantinho da felicidade, e da ilusão perene. Se quiserem vão lá vê-la um dia, mas o melhor mesmo é escutar:

- Eu é que te safei da morte, a ti e à filha do meu padrinho Telmo. Estavam os dois na lareira, no quentinho, e de repente pegou-vos fogo na roupa, pediram socorro, fui logo a correr e levei-vos para a represa da água, foi por pouco, que grande susto vós apanhastes.
- Que idade tinha eu nessa altura?
- Três, ou quatro anos; eu tinha sete. A Mela deve ser da tua idade.
 - E estávamos os dois, duas criancinhas, sozinhos na lareira?  
- Eu tinha ficado convosco, mas apeteceu-me ir aos pássaros e deixei-vos sós, não me passava pela cabeça que se podiam queimar, mas também não andava por longe, de outra maneira não vos teria ouvido gritar.
- E os adultos, onde estavam?
- A mamã andava a vender peixe pelas aldeias, saía de manhã e só voltava à noite, às vezes, quase sempre, com uma grande torcida; os pais da Mela andavam na labuta dos campos, eram caseiros, não tinham descanso, só não trabalhavam aos domingos de manhã para poderem ir à missa, eu era o responsável por todos!
- Chegaste a conhecer o nosso pai?
- Não me lembro absolutamente nada dele, tinhas tu três meses, diz a mamã, quando ele se amigou ou casou com uma rapariga galega; nem nos chegou a perfilhar, é como se não tivéssemos pai, também não precisamos dele para nada, olha que nem sequer nos veio ver alguma vez, é como se não existíssemos para ele!
- Não gostavas de o conhecer?
- Eu? Para quê, só porque nos gerou? Quero lá saber dele, a mim não me é nada, nem o apelido dele nos deu!
- Está bem, não falemos mais dele. Conta-me coisas de quando éramos pequenos, quando estávamos em Cendre.
- Quando tu nasceste já eu tinha quase três anos de idade, para mim foi bom porque os dois irmãos mais velhos mal os conhecia, tinham sido criados com os avós maternos, e posteriormente foram para Lisboa, o Ambrósio depois da tropa embarcou para a Venezuela, para junto do pai, diziam que estava milionário, não sei. Quando tinhas dois anos caíste pelas escadas de pedra abaixo, vês aí essa cicatriz junto ao olho esquerdo? Foi o resultado dessa terrível queda. Levaram-te para o hospital da Vila, não sei quem te levou, devem ter sido os guardas-fiscais, no jeep; havia ali à beira da nossa casa um posto, o mais certo é terem sido eles, o teu padrinho era na altura soldado da guarda-fiscal ali. Nem sei como não morreste! Nós vivíamos por cima, na corte tínhamos um porco, a mamã vendia-o na feira logo que ele ficava grande, não o podíamos matar, porque não tínhamos condições para tal, além disso precisávamos do dinheiro, a casa era muito pequenina, só tinha uma divisão, eu e tu dormíamos com a mamã, por isso é que mamaste até aos quatro anos de idade. Um dia, estava eu a fazer o caldo, caiu-me um pedaço de telha no pote, tirei-a e comemos, não se podia ser esquisito. Quem nos ensinou a nadar, quando tu nasceste já eu nadava, foi o Dário, o filho do moleiro, no regato; na altura não sabia que nome tinha, só lhe chamávamos regato, agora dizem que se chama rio Trancoso, não sei. Tu sempre tiveste medo da água, assustavas-te, mas eu atirava-te para o meio do poço, era uma paródia, choravas, querias fugir, mas eu e o Dário não deixávamos, ele punha-te às cavalitas e tu davas aos braços e às pernas, foi assim que aprendeste. Aos sete anos tive de ir para a escola, ainda ficava quase a dois quilómetros de distância, tudo a subir, para baixo não custava nada, todos os santos ajudam, mas para cima via-me aflito, tinha de descansar pelo caminho, e eu, que naquele tempo tinha a asma, aquela doença que não me deixava respirar, fazia uma chiadeira horrível, a professora tinha muita pena de mim, no inverno era pior, chegava à escola todo molhado, descalço, e tinha de secar a roupinha no corpo, isso ainda me agravava a doença, acabei por desistir.
- Calçado nunca tivemos!
- O teu padrinho ainda te ofereceu umas alpercatas, depois foi transferido para a Vila e nunca mais te deu nada, eu é que nem isso, o meu padrinho era tão pelintra como nós, a mamã não ganhava quase nada e o que ganhava perdia-o pelo caminho, vinha sempre com uma grande borracheira, depois dizia que eram os espíritos malignos que lhe atiravam com o cesto, os espíritos era a vinhaça.
- Coitada, também sozinha, com dois filhos pequenos…
- Tu sempre a defendeste, mas olha que ela nunca teve cabeça, viveu ali tantos anos, junto à raia, era só passar o regato e já se estava na Espanha; nunca arranjou dinheiro do contrabando, muitos enriqueceram à custa dela, guardavam os sacos de café e outras coisas na nossa casa, nunca teve cabeça o raio da mulher.
- Era analfabeta.
- E os outros não o eram? Naquele tempo a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever, quem tivesse a quarta classe era um doutor, arranjava um emprego no Estado, embora não ganhassem muito, mas também não faziam quase nada e eram respeitados e temidos pelo povo rural. Olha o Getúlio, tinha uma loja de material para a construção e era analfabeto, nem sequer podia conduzir os carros por causa da carta, depois lá a conseguiu, nem sei como; e o Tendeiro, não tinha negócios?! Sem conhecer uma letra do tamanho de um camião! O que estragava a tua mãe era a bebida, não a deixava pensar, vivia com o cérebro atrofiado, afogado em álcool.
- Estivemos em Cendre até 1950; tinha eu seis anos, e tu, mais três.
- Já os nossos avós maternos, a Isaura e o Gaspar, tinham morrido: ela em 1947 e ele em 1949, pouco me lembro deles, tu se calhar nada.
- Moravam na Vila e nós em Cendre, a nove quilómetros de distância; provavelmente poucas vezes nos viram, nem nos deviam ter muito amor «longe da vista, longe do coração.»           

- Eles iam a Cendre algumas vezes, mas poucas. Parece que nos levavam comida e roupinha, eles também eram pobres e tinham muitos netos, os filhos da tia Marília, do tio Aurélio, e esses estavam junto deles, nós não. A tua mãe sempre lhes deu desgostos, coitados, não tiveram nenhuma sorte com esta filha. 
// (continua)...

sábado, 17 de outubro de 2015


OS NOVOS LUSÍADAS

Por Joaquim A. Rocha 




17

Tinha na minha mente castigar
Os sanguessugas desta linda pátria
Os vis parasitas, sempre a louvar,
A comer à lauta da teta mátria.
Mas as pernas dobram, falta o ar,
A longa energia foi pra a via láctea.
 Porém farei das tripas coração,
Para que não criem falsa ilusão.

18

Esquece, velho e digno Camões,
As nereidas e as lindas ninfas do Tejo.
Os grandes feitos, as vãs ilusões,
Que tudo isso eu hoje já não vejo.
Dos céus mandam-nos enormes tufões
  Pragas de mosquitos e percevejo.
E pra que eu possa cantar o país
Devo arrancar o mal pela raiz.