quinta-feira, 14 de maio de 2015

LEMBRANÇAS AMARGAS

romance

                                                              Por Joaquim A. Rocha



        ...(continuação)...

- Você é uma anarquista, viveu sempre sem regras, sem lei e sem grei, e ainda por cima acredita em bruxos.
- Agora não quero saber de nada, mas nesse tempo tinha ilusões. Este daqui prometeu-me mundos e fundos e eu, toca de ceder! Nasceu-me a criança, um robusto rapaz, e ele pôs-se a andar para as Américas, para a Venezuela, ou lá como se chama. Nem viu o filho que nasceu. E olha que é a cara dele – tal e qual. Os meus pais, zangadíssimos, ficaram com ele. Agora eram dois. Eu não podia deixar de trabalhar – era disso que eu vivia. Mas a minha mãe também teve culpas: escreveu ao de Lisboa a pedir-lhe que me deixasse em paz, ele era de gente fina e nós não passávamos de gente pobre e analfabetos, sem nenhumas letras. Coitada, estava convencida de que ele me queria fazer outro trambolho e abandonar-me depois. Mas eu julgo que ele gostava mesmo de mim. Mas não podia casar comigo, os pais dele não consentiriam, só me desejava para amásia. Depois teve uma doença, a maldita tuberculose, e morreu solteiro. Que a sua alma descanse em paz, lá onde estiver.
- Nunca mais o viu?
- Nunca mais! Tinha a Susana quase dezoito anos quando ele morreu. Foi uma irmã dele, a mais nova, a menina Mafalda, que nos deu a notícia, ainda se deve encontrar por aí a carta.
- E a Susana, encontrou-se alguma vez com o pai?
- Não, mas foi porque ela não quis. Nunca a proibi de ir para Lisboa, para junto dele. Só que ela estava muito pegada aos avós, até lhes chamava pais, foram eles que a criaram. Só quando eles morreram é que ela foi para Lisboa. Nessa altura já o pai dela tinha morrido. Olha que se parece com eles, não é do nosso lado. Devia ter ido, estudavam-na e depois casava com um homem de posição, assim é pobre como Job, e só ficou com a 3.ª classe da instrução primária. Mas é o destino, é o que tem de ser.
- Coitada, também não teve muita sorte, aconteceu-lhe o mesmo que lhe aconteceu a si, só que desta vez saiu na rifa um marçano.    
- Sim, mas segundo ela afirma não casou com ele porque não quis, ele foi para o estrangeiro e mandou-a ir, só que ela já o tinha esquecido, já tinha outro namorado.
- As duas tiveram caminhos paralelos, só que ela casou e você não.
- Não casei porque não quis, homens nunca me faltaram para casar. Mas eu sou livre, não quero cangas nem peias. Canté! E criei-vos sozinha. E dei-vos a escola, que naquele tempo nem todos a tinham, mas a vós dei-vo-la. E um ofício. O teu irmão Olavo preferiu ir para Lisboa, para junto do outro irmão, o Ambrósio, para a terra grande, isto aqui não lhe servia, bem o quis meter na lavoura, mas fugiu-lhe a sete pés, olha que é uma vida saudável e tem-se sempre o pãozinho para a boca; ofício também não quis, meti-o de funileiro, mas achou que era sujo; é delicado, o rapaz. Que trabalhe em Lisboa, que lá vai ver o que é bom; os marçanos andam todo o dia com cabazes às costas, a subir escadas, carregados que nem bestas. É para saber o que custa, o pão não aparece na mesa, é preciso ganhá-lo, tem bom corpo. Tu, coitadinho, és um enfezado, saíste-me fraquinho, cinco réis de gente, mas arguto que nem um rato; se estivesses na cidade até podias estudar. Aqui, olha, tens o teu ofício, não é limpo, não, mas sempre ganhas alguma coisa para comer, que agora o tempo não está para luxos, nunca os tivemos, só quando estive com a minha madrinha, aí sim vestia bem e andava com a barriguinha cheia, mas aquilo também não podia durar a vida inteira, qualquer dia teria de acabar, era bom de mais para mim. «Quem pobre nasce, pobre morre», lá diz o ditado. (continua)...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

                          Por Joaquim A. Rocha



A NOSSA QUERIDA VILA DE MELGAÇO

   Agosto de 1990. Melgaço. Poucos dias de férias. O suficiente porém para rever amigos: os «ladrões» de fruta e os outros, os meninos bem comportados! O Armando “Piretes”, que já não via há vinte e tal anos, o Zé Araújo – sempre belicoso, com os seus famosos murros, mais portentosos que os terríveis pontapés de Charlie Brown. Também os filhos do senhor Augusto Igrejas: o “Pirata”, o Tónio, que foi meu colega no antigo Grémio da Lavoura (como passaram depressa estes trinta anos!).
     A nossa querida Vila de Melgaço em Agosto. Tão linda… e tão porquinha! Senhor Presidente da Câmara: então essa limpeza? As ruas em Agosto cheiram mal que tresandam. E a água? Existe sim, mas no rio. Não é longe da Vila, mas não dá jeito lá ir. Embelezar a avenida principal…tudo bem, mas a água! Ela é um bem fundamental e quem vai passar férias à sua terra não pode, nem deve, ficar dela privado, estar sujeito a carências primárias. Dizem-nos que para o ano teremos o precioso líquido em abundância. Promessas são fáceis de fazer, o seu cumprimento é, porém, mais difícil. É verdade que os anteriores presidentes da Câmara Municipal pouco fizeram nesse sentido; – infelizmente para todo o concelho nada, ou pouco fizeram, seja no que for! A desculpá-los, apenas a falta crónica de dinheiro; sem o vil metal não há obras. A imaginação por si só não chega. Contudo, o aprumo, a honestidade, o amor à terra natal, podem conseguir milagres. Os melgacenses têm que estar atentos ao que se vai passando e devem criticar tudo aquilo que está a ser mal feito. Não há verdadeiro progresso sem uma crítica saudável.
     Apesar de tudo trouxe, este ano, ótimas recordações do torrão natal. Em primeiro lugar o ter estado com os meus familiares e amigos. Em segundo lugar, o ter assistido à festa da cultura: o artesanato, o folclore, o desfile de carros alegóricos, as exposições de pintura... Penso que essa manifestação cultural deve prosseguir, cada ano com mais entusiasmo. De Melgaço trouxe igualmente, além das recordações, alguns livros: «O Mosteiro de Fiães», do senhor padre Doutor José Marques (livro extraordinário, sobre o qual me debruçarei com mais tempo e ciência oportunamente); «Heráldica Melgacense – Associativa, de Domínio e Eclesiástica», dos senhores Doutores Maria de Jesus Domingues e Armando Barreiros Malheiro da Silva (obra inserida nos cadernos da Câmara Municipal de Melgaço – é o 5.º a ser publicado). Iniciativa deveras louvável, visto que tenta recuperar tesouros culturais que, de outro modo, se perderiam para sempre ou seriam simplesmente ignorados. Em fotocópias consegui «Melgaço e as Invasões Francesas», do senhor Dr. Augusto César Esteves (era o único livro da sua obra que me faltava). O senhor padre Lourenço, há pouco tempo falecido, disse-me certa vez que tinha alguma bibliografia sobre Melgaço. Bom seria que alguém providenciasse no sentido de preservar esses livros e documentos, pois já são raros e para o concelho de Melgaço, para a sua história, têm imenso valor. Outro livro que adquiri com muito gosto foi «Poesia Popular», de Francisco Augusto Igrejas. Com alguns poemas datados, é certo, mas cheios de graça e humor. Ter-se-ia inspirado nos Cancioneiros Medievais, sobretudo nas cantigas de escárnio e maldizer? É verdade que a obscenidade aqui não tem lugar, apenas pinceladas de ironia. Além dos poemas de “maldizer” existem no livro poemas sérios. Por exemplo:

Conheço há muito tempo um velho jardineiro
Que tinha em seu jardim uma flor tão rara
De tão lindo matiz e de tal cheiro
Que no mundo jamais alguém sonhara.

Uma flor assim de tal graça e beleza
Devia ter contente o velho jardineiro
Mas coisa incompreensível um rito de tristeza
Subia-lhe amiúde ao rosto prazenteiro.

Tão mimosa, tão rara, tão gentil e bela,
Fugiu um dia a triste maravilha!
Essa flor tão linda… essa flor singela…
Que era do jardineiro a própria filha!...

O golpe foi cruel e tão certeiro
Que o bom do velhote ficou a acreditar
Que essa rosa fugaz do seu canteiro
A levou Deus para pôr nalgum altar.

Passaram muitos anos e ao sol-posto
Ainda o velho percorre o seu jardim
Parecendo-lhe da filha ver o rosto
Nos crisântemos, nas rosas e no jasmim…



Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 927, de 1/11/1990.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

OS NOVOS LUSÍADAS


                                                  Por Joaquim A. Rocha 




5

Não nos sintamos nação de terceira,
Muito inferiores às outras gentes,
Somos, como os demais, de primeira,
E por isso devemos estar contentes;
Não temos, ainda bem, alma guerreira,
E às guerras cruéis somos tementes;
Amamos a paz, como supremo bem,
E não desejamos mal a ninguém.  

6

Acordemos em nós toda a energia,
Há mil anos em todos acumulada;
Enchamos os pulmões de maresia,
Fora com a dolência envergonhada.
Que a noite dê lugar a novo dia,
Levando as trevas na vil enxurrada;
Acorda português! Acorda e diz
Se neste mundo alguém é mais feliz.

domingo, 10 de maio de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
               
                                                      Por joaquim A. Rocha

desenho de Rui Nunes

CRIMES – Em todos os tempos, e em todos os lugares do planeta, se cometeram e cometem crimes; alguns deles graves, outros menos. Nem todos os criminosos foram punidos. Estou a lembrar-me, por exemplo, do 33.º presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman, que mandou lançar bombas atómicas sobre duas cidades do Japão no ano de 1945, matando milhares e milhares de pessoas, entre elas crianças e inocentes. Em Melgaço têm surgido alguns crimes ao longo dos séculos, mas nem todos, devido sobretudo à inexistência de jornais, e à falta de conservação dos mesmos quando existem, ficaram registados para a posteridade. Pelo menos três deles são conhecidos: o de Castro Laboreiro, o de Vilar (Alvaredo), e o da Gave. Vou começar por este último:

     No lugar de Eiriz, freguesia da Gave, concelho de Melgaço, apareceu morto, a 24/12/1916, Justino Fernandes, natural do lugar de Lijó, freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção. Desconhecia-se o nome, ou nomes, do ou dos assassinos e o móbil do crime (*). A 11/1/1917, quinta-feira, o Dr. Vitoriano de Castro, natural de Paderne, a residir em Alvaredo, Melgaço, e o Dr. Figueiredo, de Monção, foram à Gave fazer a autópsia ao corpo. Fora assassinado a 23/12/1916. Tinha o crâneo destruído, fractura de um braço, e várias contusões pelo corpo, tudo produzido por fortes pancadas (ver Correio de Melgaço n.º 231, de 7/1/1917, e Correio de Melgaço n.º 232, de 14/1/1917). Mais tarde, e após muita investigação, descobriram-se os assassinos. Ei-los:    

DIAS, Bernardino. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural da freguesia de Riba de Mouro, residentes no lugar de Eiriz, Gave. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, gaviense; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, do lugar de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 16/4/1877 e foi batizado na igreja católica local nesse mesmo dia, mês e ano. Padrinhos: Bernardino Esteves Moreira e sua mulher, Maria Claudina Alves, ambos do lugar de Lijó, Riba de Mouro. // Casou na igreja da sua freguesia natal a 19/9/1910 com a sua conterrânea Carolina Ramos, de 24 anos de idade, filha de José Serafim Ramos e de Rosa Joaquina de Castro. // Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1169, de 4 de Agosto de 1917: «Terminou ontem o julgamento, em audiência geral, que se vinha prolongando desde segunda-feira, de Bernardino Dias, João Dias e Jeremias Dias, todos da freguesia da Gave, indigitados autores do crime de assassinato praticado em 23 de Dezembro do ano findo na pessoa de Justino Fernandes, da freguesia de Riba de Mouro, do concelho de Monção, no sítio de Barroca de Eiriz, da dita freguesia da Gave. A acusação particular era representada pelo Dr. António Francisco de Sousa Araújo e a defesa estava a cargo do Dr. António Augusto Durães, dois novos cheios de talento para quem, sem dúvida, está reservado um futuro brilhante na advocacia. O júri deu o crime como provado, considerando os réus Bernardino e João Dias como autores, e o réu Jeremias Dias como cúmplice, sendo em harmonia com este veredictum proferida sentença condenatória pelo meretíssimo juiz desta comarca. Tanto o digno agente do Ministério Público como o douto advogado dos réus apelaram para a Relação do Distrito da sentença proferida.» // Foram depois levados pela Guarda-Republicana para a cadeia da Relação do Porto. Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1171, de 18/8/1917: «Condenados da Gave – Porque rebentou há dias uma greve em Viana do Castelo, não pôde desta cidade sair a força da Guarda Republicana que a esta vila devia chegar na segunda-feira para acompanhar às cadeias da Relação do Porto os três indivíduos que ultimamente, no tribunal desta comarca, foram condenados como autores e cúmplices dum crime de homicídio, cometido na freguesia da Gave. // No Jornal de Melgaço n.º 1199, de 16/3/1918 lemos esta interessante prosa: «O crime da Gave. Propositadamente não nos temos referido ao célebre crime da Gave porque sendo o redator deste jornal advogado de acusação por forma alguma queríamos e queremos contribuir com os nossos escritos na formação e orientação da opinião pública sobre o caso. Julgamos assim ter praticado um acto em que todos devem ver a honestidade dos processos que temos por norma usar. Ultimamente, porém, com grande espanto e não sabendo por que artes, vimos que a imprensa – O Primeiro de Janeiro – na correspondência de Viana, se ocupou do caso, pretendendo apresentar os assassinos como inocentes condenados pelos depoimentos de testemunhas falsas e, avançando mais, ser autor do crime uma mulher, por nome Aurora Domingues. Certamente o correspondente de Viana, para o Janeiro, que nos informam ser um cavalheiro, digno da maior respeitabilidade e de uma honestidade a toda a prova, foi ludribiado. A mulher que se apresentou a reclamar a autoria do crime é amante dum dos assassinos, apesar de casada, com o marido ausente no Brasil, mulher sem pejo nem vergonha, que está a desempenhar um papel que lhe foi distribuído nesta ignóbil fita. Bastará apontar o facto de quando aqueles assassinos se achavam presos nas cadeias desta vila, ter-lhes oferecido um carneiro que com eles comeu nas grades destas. Pena foi que o hábil polícia não averiguasse este facto do domínio público. Mas há mais: remetida para juízo foi mandada em paz, ao fim de oito dias, não sendo pronunciada. Quanto às testemunhas, que de falsas se alcunham, são pessoas da maior consideração, com fortuna, que não se acham foragidas, como se diz, mas tranquilas em suas casas. Eis o que, bem contra nossa vontade, nos forçou a dizer o muito digno correspondente do Janeiro, a quem, de sua boa-fé, abusaram.» // No Jornal de Melgaço n.º 1200, de 23/3/1918, lê-se: «Na administração do concelho de Monção apareceu no dia 20 do corrente Aurora Domingues, a célebre mulher que se inculcou autora do crime de homicídio na pessoa de Justino Fernandes. Aí, na presença do administrador e na de mais de vinte pessoas, declarou que não fora ela quem cometera o crime, mas sim os indivíduos condenados, com um dos quais mantinha íntimas relações, e que se fizera na administração de Melgaço a declaração de que fora ela, foi isso devido às irmãs dos assassinos que a tal a induziram, prometendo-lhe 600$00. Mais declarou ter comido um cabrito com os criminosos quando se achavam presos nas cadeias desta Vila…» // E no Jornal de Melgaço n.º 1203, de 20/4/1918, pode-se ler: «O célebre crime da Gave. No Supremo Tribunal de Justiça acaba de ser negada revista no processo-crime de querela movido contra João, Jeremias e Bernardino Dias, os autores do assassinato na pessoa do infeliz Justino Domingues (ou Fernandes). Mais uma vez este Alto Tribunal fez justiça, não se deixando mover por tones grosseiros e miseráveis.» // O Jornal de Melgaço n.º 1204, de 27/4/1918, informa os seus leitores: «Diz-se que motivada por um comunicado inserto há dias no “Primeiro de Janeiro”, e que se referia ao célebre crime da Gave, foi suspenso o chefe da polícia de Viana, senhor Santos.» // Bernardino Dias faleceu na sua terra natal a 17 de Abril de 1956. // Com geração.      

DIAS, João. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural de Riba de Mouro, moradores na primeira, no lugar de Eiriz. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, de Eiriz, Gave; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 9/7/1873 e no dia seguinte foi batizado na igreja católica local pelo padre Manuel Joaquim Domingues Machado. Padrinhos: João Francisco Esteves, solteiro, do lugar de Eiriz, e Joaquina Rodrigues, solteira, criada de servir, do dito lugar de Lijó, todos rurais. // A 23/12/1916 cometeu um crime de morte, juntamente com os seus irmãos Bernardino Dias e Jeremias Dias, na pessoa de Justino Fernandes, natural de Riba de Mouro, pelo qual foram condenados.    

DIAS, Jeremias de Jesus. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural de Riba de Mouro, lavradores, residentes no lugar de Eiriz, Gave. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, de Eiriz; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 4/2/1890 e foi batizado na igreja católica local nesse mesmo dia, mês e ano. Madrinha: a sua irmã Claudina, solteira, camponesa, residente no lugar de Eiriz. // A 23/12/1916, juntamente com seus irmãos João e Bernardino, cometeu um crime de morte na pessoa de Justino Fernandes, natural de Riba de Mouro. O tribunal considerou-o apenas cúmplice dos irmãos, pelo que cumpriu pena menor. // Casou a 20/2/1930, no Posto do Registo Civil da Gavieira, Arcos de Valdevez, com Maria Domingues Celeiro. // Faleceu na sua freguesia de nascimento a 31/1/1969 (confirmar).      

               As irmãs dos criminosos:

DIAS, Claudina. Filha de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural da freguesia de Riba do Mouro, moradores no lugar de Eiriz. Nasceu na Gave a 8/2/1875 e no dia seguinte foi batizada na igreja católica local pelo presbítero Manuel Joaquim Domingues Machado. Padrinhos: Bernardino Esteves Moreira e Joaquina Rosa Rodrigues, ambos solteiros, residentes no lugar de Lijó, Riba de Mouro. // Casou a 15/7/1915, na Conservatória do Registo Civil de Melgaço, com Serafim Esteves. // Faleceu na sua terra natal a 20/7/1922.    

DIAS, Adelaide. Filha de Luís Manuel Dias e de Germana Maria Esteves. Nasceu na Gave a 21/8/1879.

DIAS, Maria de Jesus. Filha de Luís Manuel Dias e de Germana Maria Esteves. Nasceu na Gave a 21/12/1882.


     // (*) Desconheço o móbil do crime, mas deduzo que teria sido por causa de partilhas; não esquecer que a mãe dos autores do crime era da mesma freguesia da vítima e provavelmente teria herdado alguns bens por morte dos progenitores.  

sábado, 9 de maio de 2015

SONETOS

                                             Por Joaquim A. Rocha


ADÃO E EVA
  
No Éden morava a mordaz serpente
Esperando a suprema ocasião
Para expulsar dali Eva e Adão,
Seres de uma pureza comovente.

Por arte diabólica, convincente,
Cria na coitada a forte ilusão
De que ela, mulher, era a razão,
De haver mares, céus, e continente.

Eva come o fruto da macieira,
Fonte do bem e do terrível mal;
E nua viu-se pela vez primeira…

Adão, num impulso cego, mortal,
Alinha na temível trincadeira,
Sofrendo assim um castigo brutal.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O SONHADOR DOS MONTES DA AGUIEIRA

romance
                                                                Por José Alfredo Cerdeira



Prefácio


     A rosa e o cravo, e demais flores, nascem no jardim, e depois de cortadas vão alegrar a sala ou o gabinete do ser humano, que as frui quando verdejantes e as bota ao lixo logo que murchas. O romance, tal como as flores, também nasce num jardim, mas de outra espécie: naquele circula a seiva, neste circula a imaginação. Ao cheiro das flores dá-se o nome de perfume; ao do romance, fragrância. Os odores daquelas é levado ao cérebro pelas correntes de ar, isto é, vêm de fora; no romance, o odor, é conduzido ao cérebro por um circuito interno, cujo fio, de tão fino, se torna invisível e incolor.
     O romance do meu amigo José Cerdeira provocou em mim todas as sensações: o sonho, a ilusão, a incerteza, a arrogância, a humildade, a descrença e até a dor! Porque o sonhador está em todos nós: na criança, no adolescente, no adulto, no poeta e no materialista. Quem não se imaginou noutro planeta, onde o bem-estar, a justiça, a beleza, a camaradagem leal e franca, predominassem? Quem?! Quem não gostaria de ser rico, poderoso, ter tudo: palácios sumptuosos, tesouros, barcos de recreio, bons carros, criadagem, exércitos, tudo aquilo que nos torna alguém aos olhos dos outros? Aquilo que nos transforma em seres superiores, quase deuses do Olimpo. Um dia, já não sei quando, sonhei ser uma enorme águia, com gigantescas asas, com olhos que tudo viam, voando sem fim, por céus jamais trilhados; mas o maldito, que no início era belo, enveredou pelo trágico: sem forças, quase cego, tombei estrondosamente sobre montanhas e serras, cujas rochas, afiadas, perfuraram meu frágil corpo. Fora um sonho, e durara pouco tempo!   
      A personagem principal do romance, Morgado, sonhou e viu realizados alguns dos seus belos e extravagantes sonhos: falou com extra-terrestres, embora não lhes tenha visto o rosto, como não vimos nós os rostos dos antigos atores gregos quando pisaram o palco, viu as maravilhas da sua ciência e tecnologia, o seu avanço de milénios em relação aos terráqueos, extasiou-se com as jóias, paramentos, e os quadros dos antigos monges, escorraçados do seu convento pelos moiros no século X, tirou partido do tesouro por eles deixado, comandou exércitos de funcionários, criou inúmeras empresas, e com poucas habilitações literárias deu cartas no mundo da alta finança, casou com a moça mais bonita da sua freguesia e teve lindos filhos. E se não fossem os raios dos trovões terem-lhe interrompido outro dos seus homéricos devaneios, ter-se-ia guindado às esferas do poder político e económico universal, e certamente americanos, russos e chineses, ajoelhar-se-iam à sua passagem! Esse sonho não vingou, mas o aparente fracasso espevitou-o sobremaneira para voos mais realizáveis e frutíferos. A sua vida foi curta, é certo, mas a sua obra é copiosa! O tempo não se mede pela duração, dizia o filósofo, mas pela intensidade.
     A personagem feminina, Isabel, parece estar esquecida, mas não: a sua presença é constante, apesar do silêncio. É o anjo da guarda do rapaz, a sua retaguarda fortificada, a mãe dos seus filhos, enfim, o elo entre o passado e o futuro, a continuação. Apaga-se para ele brilhar; mas brilha quando ele se apaga!
     O autor deste romance está de parabéns: não só pelo livro, mas sobretudo pela sua excelente qualidade. Não é todos os dias que surge nos escaparates das livrarias um romance tão completo. Terá falhas certamente, mas também as têm qualquer outra obra de arte – nada é perfeito, de acordo com aquilo que nos ensinaram os nossos avoengos e mestres. A perfeição é desígnio dos deuses, dos entes supremos, que pairam em espaços inacessíveis ao simples mortal.                
    A fragilidade humana convive ali, no enredo, na trama romanesca, lado a lado com a vontade, com a força, com o querer. O autor soube magistralmente aproveitar as lendas antigas, as superstições, o ambiente mesquinho, e simultaneamente grandioso, da aldeia portuguesa, do caráter ambivalente do camponês. O mundo rural é caraterizado em toda a sua amplitude: o trabalho árduo e mal remunerado, a resignação, a inveja e a maledicência, a crendice e a religiosidade, a suspeita e o despeito, a honradez, tudo se misturando numa amálgama de contradições e coerências.
     Não se pode ler este livro e ficar indiferente – mexe connosco! Fere e rasga a nossa sensibilidade, retrata-nos na nossa essência mais profunda. A ganância, a luta por objetivos quase impossíveis de alcançar, a curiosidade, a morte, tudo está ali, tudo contém!     
                                                               

                                                                                                           Joaquim Rocha

quinta-feira, 7 de maio de 2015

CARTAS DE CASTRO LABOREIRO


4.ª - «Sr. Redactor: plenamente de acordo com a nota do “Correio” desde que fossem do domínio público as louváveis medidas da Autoridade Administrativa deste concelho; mas nós não tínhamos o menor conhecimento delas; e por a maioria do nosso povo ainda ser analfabeto – responsabilidade que só cabe aos governos, que tão descaroavelmente nos hão olhado e por o conteúdo de tais medidas não ser publicado – de forma a ser também do domínio de toda a gente, nas cláusulas indispensáveis, revoltou-nos ainda o procedimento da Guarda-Fiscal. No que respeita a cereais e legumes, não precisa a autoridade legislar para nós, por contrabandear. Pois, salvo que a Natureza venha amerciar-se deste pobre povo, para lhe permitir o cultivo do milho e do feijão (daquele podemos colher uma espiga animada como filhos de fidalgos; e deste, uma ou outra vagem, muito raquítica, muita imperfeita); logo, como fazê-los conduzir, ao nosso lar, para contrabandear? Não, senhor. Em cada castrejo há um “polícia” para contrabandos desta natureza, conquanto lhe falhe o instinto para tal. Odeia a dilação, mas tem necessidades que o forçam a ser o que tem de ser, para que aos filhos, que idolatra, lhes não falte o pão. Para quê, pois, essas medidas só para nós?! Não nos repugnam, desde que conheçamos como haver-nos, e somos respeitadores, em absoluto, das leis. Porém, bom seria que os olhos de lince das autoridades se voltassem para o rio Trancoso e o interrogassem, que ele, no seu murmurar doce e brando, lhes diria: “o contrabando de cereais e legumes é feito sobre as minhas águas, de Alcobaça à foz. Não são castrejos que o fazem, não. Esses, donde venho, precisam de tudo aquilo para seu consumo. Amaldiçoam-me por, em torrente impetuosa, não mergulhar os malditos açambarcadores e passadores. Olhai, ali perto, no planaltozinho que depois da Ponte Várzeas, contém a freguesia de Crespos, há depósitos de milho que não vão lá levar os castrejos. Olhai, olhai e deixai-os em paz. Crede que merecem uma lei de excepção, para transporte do necessário à vida”. Falou o Trancoso e calou-se… um castrejo.»   (1916).