segunda-feira, 23 de março de 2015

QUADRAS AO DEUS DARÁ 


Neste trabalho mal feito,
que ora vos apresento,
o mal nele represento,
pois o bem, esse é perfeito.


Apresentação

     Confesso que quem me inspirou a fazer quadras foi António Aleixo (1889-1949), o grande poeta algarvio. Certa altura, na feira do livro, comprei «Este Livro Que Vos Deixo», da sua autoria. Fiquei entusiasmado. Quem havia de dizer que aquele homem simples, apenas com a terceira classe da instrução primária, era capaz de escrever versos tão profundos e de uma beleza inigualável. Comecei também eu a escrever umas quadras, a tentar imitá-lo. Umas melhores, outras menos conseguidas, outras medíocres, elas aí estão, à espera que alguém as leia. Não espero que me digam que gostaram. É difícil ouvir palavras favoráveis do leitor. Se gosta, cala; se detesta, reclama. E tem razão quando gasta o seu dinheiro na aquisição do livro. Caso contrário, o melhor é atirar com tudo para o lixo e esquecer. Eu, ao longo destes anos, também já li muito texto insipiente. Génios na literatura há poucos. Tivemos Camões na poesia, Eça e Camilo na prosa, Gil Vicente no teatro, etc., falando apenas de escritores portugueses. O dom de escrever nasce praticamente no berço: depois é só desenvolvê-lo. Se não se tiver jeito para esta ou aquela arte na infância, dificilmente o terá algum dia. A obra aparece praticando, experimentando. Se nunca se experimentar, jamais se conhecerão os nossos talentos. O estudo, o conhecimento do que foi feito até então, é fundamental para desenvolvermos as nossas capacidades criativas. Se pudermos publicar aquilo que vamos construindo, devemos fazê-lo; porque a crítica, sendo honesta e científica, ajuda imenso o criador.    
     Reconheço que este tipo de poesia se pode considerar de categoria inferior, se comparada com o soneto, a sextilha, o poema heroico, etc.; no entanto, essa comparação não deve ser feita de leve ânimo, porque a quadra está conotada de uma maneira geral com poetas analfabetos ou pouco mais; gente do campo, da fábrica, sem habilitações literárias para além da instrução básica; logo, não podem aspirar à criação de poemas com grande fôlego, com grandes exigências técnicas e saber universal. A quadra está intimamente ligada aos cantores de festas de aldeia, onde se ouvem as populares cantigas ao desafio, nas quais ressaltam as brejeirices que nos poemas considerados maiores não se admitiriam, embora haja exceções, por exemplo o Bocage com os seus poemas eróticos e malcriados.
     Há canções interessantes a partir de quadras populares. Estou a lembrar-me do extraordinário Zeca Afonso, de Vitorino, e de outros, que selecionaram algumas quadras e a partir delas fizeram a música, transformando assim aquelas modestas quadras em baladas inesquecíveis.
     Para mim escrever quadras, com versos de sete sílabas, é como descansar de trabalhos mais exigentes. Aparecem tão rapidamente que tenho que as registar logo a seguir, caso contrário corre-se o risco de jamais verem a luz do sol. 
                                                                                        Joaquim Rocha

domingo, 22 de março de 2015

CARTAS SOBRE CASTRO LABOREIRO

     No jornal «Correio de Melgaço» n.º 184, um dos seus correspondentes dá inicio a uma série de cartas. Como têm importância para a história de Castro Laboreiro, freguesia do concelho de Melgaço a partir dos finais de 1855, vou transcrevê-las. 


 1.ª - «Sr. Redactornão julgue que lhe vou falar dos palácios sumptuosos de Albandia (deve ser Alhambra) ou Granada, que os prosélitos de Mafoma erigiram no reino vizinho; nem (…) das casinhas colmadas (…) que nesta freguesia se aninham, desde os mais altos pendores das serras até aos mais recônditos pontos agasalhados dos vales. Não! Se o flagelo da neve e frio contínuos, que nos paraleliza com os noruegueses e russos, se o excesso de trabalho, que nos confunde com os negros africanos, se o aumento progressivo das contribuições, conjuntamente com a nossa posição topográfica, longe dos centros, que nos comunicariam descantes de sociabilidade e haustos de vida, nos não privassem de um certo número de regalias, que os nossos compatriotas e mesmo regionalistas fruem, vá; pois já estamos habituados à vida nómada, que nos legaram os antepassados com puras gemas de honra e nobilíssimos exemplos de trabalho; mas que, como em país conquistado, o fisco nos assoberbe com a maior rudeza e crueldade, nos espolie os direitos conquistados (…), abusando enfim (…) do poder a que não sabe dar restrição, nos amesquinhe e desrespeite, não podemos consentir; e eis a razão por que resolvemos tornar do domínio público factos (…) para que chamamos a atenção do Chefe da Guarda Fiscal neste concelho. – Além da proibição do trânsito de cereais, de lugar para lugar, abuso a que a Autoridade Administrativa já pôs termo (…) nós temos o registo civil dos vitelos! – Pariu-nos uma vaca? Vamos ao posto fiscal!!! Julgamos ser os únicos nesta parte da Terra… Porém, há mais, e muito sério: - sem dúvida, os povos da raia compram, no país vizinho – já pela sua grandeza, já porque não luta, por enquanto, abertamente com a crise da guerra, os animais de trabalho e criação, que submetem a direitos. Um chefe de posto semi-analfabeto e, mesmo, sem competência, assim o julgamos, lembrou-se de traçar um só caminho para todo o gado importado, sem se importar de que o importador é, hoje, um benemérito, mas sim de que, sem trabalho, podia, com os subordinados, fazer a colheita! É inadmissível o projecto (infelizmente com força de lei) do tal comandante de posto. E se não vejam: - as feiras espanholas, desde Milmanda a Vila Nova de Bande, desde Couço a Porqueiroz, Lobeira e Entrime, compreendem um semi-círculo de raia com 30 a 40 kms. Pois os compradores castrejos se comprarem em Milmanda, e em risco de perderem os bens comprados, terão de vir ao caminho do último ponto, percorrendo os 40 kms, por país estrangeiro (…) só para satisfazer o capricho estulto de um empregado sem competência, para estabelecer meios estratégicos de assalto. Não obsta esta irregularidade a que já diversas apreensões fossem feitas a habitantes desta freguesia, a nosso ver, indevidamente. Por isto, e porque é tempo de normalizar a nossa situação, pedimos ao Chefe da Guarda Fiscal, neste concelho, que nos oiça e ao povo desta freguesia, situada entre caprichosos monstros de mármore e granito, e, por si, com alta competência, veja da justiça que nos assiste… C.L., 26/1/1916.» 

sábado, 21 de março de 2015

O MOINHO


No cimo da alta e íngreme serra
Jaz um moinho triste e adormecido,
Rasgaram-se as velas, o teto está caído,
O velho que ali vive vale perra.

Triturou sem descanso nesta terra,
Morreu sem dor, apenas um gemido,
Lançado do seu peito carcomido,
Como soldado que tomba na guerra.

  O quadro faz lembrar a minha sina,
O meu não viver, o terrível fado;
Tal como o moinho, estou parado...

Tenho a força duma frágil bonina.
Rosto fraco, coração magoado,
Sou no mundo uma simples ruína.

Joaquim Rocha

sexta-feira, 20 de março de 2015

ANEDOTAS     

     As anedotas também fazem parte do nosso quotidiano. É preciso rir de vez em quando, desopilar, descontrair, para que a vida valha a pena. Bocage, com as suas anedotas, algumas delas bem picantes, fez rir muita gente. Os portugueses em geral sempre gostaram de se divertir, não somos gente sisuda.    


Entre dois camaradas. Diz um deles:
- Ouvi dizer que quem não vai a Santiago de Compostela em vida, vai depois de morto!
      Diz o outro:
- Se isso for verdade, eu prefiro ir depois de morrer.
- Porquê – interroga o primeiro?
- É que assim poupo o dinheiro da viagem.   
                                        15/12/2010

*
    
 Diz o rapaz sonhador à sua amiga:
- Um dia vou a Marte.
     Ela começa a correr, e vai-lhe dizendo:
- Nem penses! Entre nós só amizade. 

                                                                                                            5/2/2011

quinta-feira, 19 de março de 2015



JÁ DECORRERAM DOIS ANOS


        A morte é a coisa mais certa que os seres vivos têm, mas algumas mexem mais connosco do que outras. O Acácio era uma pessoa especial: bem-disposto, um humor refinado, mas educado, com uma anedota sempre na ponta da língua, que contava com prazer, contagiando o seu auditório, um coração de oiro. Jamais o ouvi dizer mal de quem quer que fosse. A sua terra, a sua família, os amigos, e a arte, a sua arte sublime, preenchiam-lhe na totalidade a vida. Do seu pai, Amadeu Maria Dias, herdara o espírito folgazão, mas inócuo, e o talento artístico; da sua mãe, Maria Fernandes da Silva, herdara a veia lutadora, a personalidade forte e aguerrida.
       Acácio Caetano Dias nasceu na freguesia de Prado, Melgaço, a 11/3/1935. Depois da 4.ª classe arranjou emprego no Grande Hotel do Peso, mais conhecido por “Hotel Figueiroa”. Graças a um hóspede, que viu nele o menino inteligente e perspicaz, dali seguiu para o Porto, para o colégio Almeida Garrett, onde trabalhou como ajudante de despenseiro e posteriormente como 2.º cozinheiro. Da cidade do Porto muda-se para Lisboa, conseguindo colocação numa oficina do Martim Moniz e passados uns dias nos Estaleiros da CUF, primeiro como apontador e mais tarde como caldeireiro de cobre.
         Casou a 18/9/1958, na igreja de Santiago, Lisboa, com Teresa da Conceição Vilares, companheira de todos os momentos bons e menos bons, senhora que o tratou com amor e carinho até ao seu último suspiro. Após o casamento, agora com novas responsabilidades, procura outro emprego, melhor remunerado. O Banco Nacional Ultramarino, agência de Cascais, admite-o em 1959 como apontador, passando depois a serralheiro. Trabalhou também na Biblioteca do Banco e no Museu, não como bibliotecário ou museologista, mas sim a elaborar um inventário de tudo aquilo que existia. A seguir foi colocado no Armazém de Móveis. Devido à sua habilidade nata, à sua brilhante sagacidade, todos o procuravam para resolver este ou aquele problema mecânico que ia surgindo. Depois de longos anos de responsável labor, aposentou-se por volta de 1995.
          Ao longo da sua existência foi aparecendo paulatinamente a sua obra de escultor, apresentando-se em diversas exposições, conquistando prémios, vendendo muitas peças, quer a portugueses quer a estrangeiros, ofertando outras a parentes e amigos, conservando algumas na sua casa da Parede, concelho de Cascais, onde tinha a sua oficina. Conviveu com os seus pares, que sempre o trataram com respeito e admiração, apesar da sua humilde origem. «Na arte somos todos iguais», dizia ele. Não frequentara escolas superiores, é certo, mas os seus conhecimentos adquirira-os ele na maior universidade que existe: a vida, o trabalho intenso, a observação atenta, a curiosidade insaciável. De que vale ter diplomas académicos se depois se adormece à sua sombra e nada se faz? O Acácio foi um autodidata no bom sentido da palavra; claro que a autodidaxia não está ao alcance de todos, pois exige disciplina, imensa vontade, e aquele dom que nasce com a pessoa, que alguns não aproveitam apenas por preguiça crónica. Outros bons exemplos, só falando de melgacenses, são Manuel Igrejas, que desde criança começou a revelar a sua apetência pela arte, criando ao longo dos anos uma obra admirável, e o saudoso, e tão esquecido, Óscar Marinho, cujas miniaturas em metal nos deslumbram, as quais deviam figurar num museu para todos nós as podermos apreciar.
           Em Melgaço há poucas obras artísticas do Acácio: somente, que eu saiba, a escultura o “Bombeiro”, em tamanho natural, à entrada do quartel dos Bombeiros Voluntários, que ali está, desafiando o tempo (*). Eu sempre esperei que a Câmara Municipal, através da Casa da Cultura, o convidasse para expor algumas das suas peças, mas isso nunca aconteceu. Ainda há dias, em Braga, um conterrâneo me dizia: «na nossa terra natal não se liga muito aos naturais, mas sim ao de fora», e deu-me uma lista de exemplos que me deixou a meditar sobre o assunto. Claro que ele se referia às autoridades administrativas. Eu respondi-lhe que provavelmente isso acontecerá em todos os concelhos do país, não deve ser exclusivo de Melgaço. Por outro lado, disse-lhe eu, os artistas não buscam a fama, apenas desejam que a sua obra seja admirada e sobretudo compreendida. Quantos indivíduos, continuei eu, estão à altura de criticar técnica e cientificamente as obras de arte no âmbito da escultura, pintura, desenho, literatura, cinema, fotografia, etc.? Certamente poucos. A maior parte dos seres humanos gosta mais de desporto e de música popular, entretenimentos menos exigentes do ponto de vista intelectual. Tudo bem, mas quanto a mim, devia-se diversificar os gostos, alterar alguns hábitos, mas isso já depende de cada um de nós. Há uma definição de cultura assaz curiosa: «A cultura é tudo aquilo que resta depois de esquecermos o que tínhamos aprendido antes.» Talvez seja assim, talvez não seja. O certo é que cada vez há mais oportunidades nesta área, e poucos as aproveitam.              
       O Acácio, que nunca foi um Hércules fisicamente, a partir de certa altura começou a ser visitado por doenças, que ele ia recebendo com cortesia, sem nunca dar parte de fraco. Submeteu-se a algumas cirurgias, a tratamentos mais ou menos dolorosos, ingeriu “toneladas” de medicamentos. Em Novembro de 2012 foi internado de urgência no hospital dos SAMS, em Lisboa, devido a problemas de coração, e com uma terrível pneumonia. Ligaram-no a uma máquina. Médicos e enfermeiros tudo fizeram para que o doente voltasse a ser o grande contador de histórias, o brincalhão que fora, o Acácio sorridente e feliz. A esposa, a filha Clementina, o genro, as netas, Inês e Rita, sempre que podiam estavam ali, a seu lado, esperando o milagre que não surgiu. A uma quinta-feira, 7/3/2013, a cruel parca veio buscá-lo; o seu corpo foi sepultado no cemitério de Trajouce, São Domingos de Rana. Lembrá-lo-emos sempre com saudade e consideração.       
      Nota: este texto foi publicado em «A Voz de Melgaço» alguns dias depois da sua morte
                                                                                                         
      (*) Posteriormente soube que o Acácio oferecera uma pequena escultura em metal da Inês Negra à Câmara Municipal de Melgaço, a qual, segundo me disseram se encontra no antigo quartel dos BVM. 


                                                                  Joaquim Rocha

quarta-feira, 18 de março de 2015

O NOSSO RIO MINHO




Com o dilúvio nasceste,
em os Cantábricos Montes;
e bebendo de mil fontes,
como serpente desceste.

Deram-te nome de rei,
Minos de Creta, chacal;
filho d’Europa imperial
e de Zeus, senhor da Lei.

Republicano e monárquico,
português e espanhol,
amando a lua e o sol,
disciplinado e anárquico.

Foste palco de tragédias,
viste morrer muita gente;
e, julgando-te indiferente,
sujaram-te as águas nédias.

Tanto corpo, tanto drama,
em teu leito se espojou;
e o desgosto imperou
como a aranha na trama.

Viste celtas e romanos,
suevos, godos e mouros;
brancos, morenos e louros,
uns feras, outros humanos.

Alimentaste gente esguia,
com teu peixe bom e raro;
o salmão, bonito e caro,
sável, truta e enguia.

Da lampreia já não falo
- quão famoso te tornou –
mas partiu, e mui chorou,
abraçadinha ao escalo.

Nas tuas margens singelas
(que deliciam olhares)
erigiram-te altares,
as moças feias e belas.

Tu lembras-te, rio Minho,
quando fomos companheiros,
os dois juntos, prazenteiros,
como pássaros no ninho?

Contavas-me teus segredos,
ternos amores felizes,
e as guerras meretrizes,
e os imensos degredos.

Dos cântabros e mafomas,
ástures, galaicos feitos,
bravas armas, fortes peitos,
fazendo tremer mil Romas.

Da Condessa Dona T’resa,
que recebeu o condado,
mas talvez por ser herdado
o perdeu sem mui destreza!

Do nosso Afonso Henriques,
que quis alongar Portugal
e, num milagre genial,
o conseguiu em Ourique.

Ó meu saudoso gigante,
meu corcel d’ asas aladas,
deixa, por águas passadas,
repousar minh’ alma errante.

Recorda o tempo remoto,
datas d’ outrora enfatiza;
mas ama sempre a Galiza,
e continua minhoto. 

terça-feira, 17 de março de 2015

«O BURACO da SERPE»


     Quando começamos a ler um conto, uma novela, ou um romance, não sabemos se vamos levar essa leitura até ao fim. Se logo no início se tornam enfadonhos, fastidiosos, o mais certo é colocá-los de novo numa das prateleiras da estante, esquecê-los. Felizmente, com o autor desta novela, isso não acontece: livro escrito por José Alfredo Cerdeira que nos venha parar às mãos não mais o largamos até à última página. Lê-se com sofreguidão, saboreámo-lo… (a prova disso é a 1.ª edição do romance «O Tomaz das Quingostas» que se esgotou em seis meses).
     A explicação para este fenómeno é simples: os temas escolhidos, o enredo, o conflito, tudo se apresenta em harmonia, como se estivéssemos a escutar uma sinfonia de Mozart. Não pense o leitor que ele vai em busca de assuntos rebuscados, acontecimentos grandiosos, de catástrofes universais. Não: tudo aqui é singular, transparente, coisas de que já ouvimos falar, de certo modo vivemos, de uma ou de outra maneira, tudo nos é familiar. A serra, os rios, as gentes e seus costumes, a honra, a vingança, o trabalho, a resignação, o sonho, tudo perpassa pela nossa vista e pela nossa mente como estivéssemos a assistir a um filme interminável e belo.     
     Estamos, sem dúvida, perante um genuíno contador de histórias, um exímio criador de ambientes psicológicos, de dramas e tragédias humanas, que nos levam a pensar em nós próprios, na luta constante, e eterna, pela perfeição. O ser humano, como tal, já existe na Terra há milhares de anos, mas desde o seu princípio que procura encontrar o verdadeiro caminho da felicidade, recorrendo por vezes, quase sempre, a forças exteriores, a divindades por ele mesmo inventadas, que depois destrói, com a mesmíssima facilidade com que as construíra! É um fazer e desfazer ininterrupto, um caminhar sem rumo, aos ziguezagues, tentando sair do labirinto em que se meteu, do abismo em que caiu. Religiões, filosofias, crenças, costumes, tudo faz parte de um todo fragmentado. Uns, talvez a minoria, procuram o bem, a beleza, quer exterior quer interior; e outros tentam desesperadamente o contrário – viver regaladamente à custa do trabalho alheio. Por todos os meios ao seu alcance, os menos dignos, os mais perversos e sujos, conseguem um bem-estar que não merecem, nem justificam perante a sociedade.
     Nesta novela há de tudo um pouco: o ódio, a inveja, a intriga, a posse indevida de bens, as heranças, a morte; mas também há o trabalho honesto, o amor, a fidelidade, o sacrifício, tudo conjugado num quadro serrano, onde a distância dos meios ditos civilizados torna praticamente impossível a igualdade de oportunidades e o consumo de alguns bens, condicionando assim a vida daquela gente. Ali não há luz pública nem água canalizada, não há estradas nem hospitais; apenas caminhos ruins, bestas de carga, curandeiros de má fama, conflitos latentes. O homem confunde-se com a serra, com o rigor do inverno e o sol abrasador do verão. As almas do «outro mundo» comem à mesa com os vivos e exigem, por vezes, o cumprimento de promessas impraticáveis, feitas em circunstâncias dolorosas.
     Ficamos admirados, nós, os leitores, perante aquele universo de homens e mulheres, isolados na serra brava, tentando sobreviver à adversidade, conseguindo arrancar a custo todo o alimento necessário para não perecerem. Porém, por outro lado, quase os invejamos, nós, que vivemos na cidade, cheia de carros e de cães, de ruídos, de poluição, de incomodidades, de pessoas de costas voltadas e de semblantes irritados.
     A solidão na cidade, apesar de haver tanta gente, é notória e ingénita! É uma contradição, mas também realidade. Os seres humanos são complexos e tornam a convivência difícil, quando tudo seria fácil se pusessem de lado a imodéstia, os preconceitos e a mesquinhez. Mas não: refugiam-se nos seus apartamentos, nos seus automóveis, nos seus pequenos mundos. A saída deste «buraco da serpe» não se vislumbra. O monstro está atento e confiante: o medo, a incerteza, a preguiça, retêm a vítima no seu «oásis», ou no seu «inferno», conforme a perspetiva.
     Voltar à natureza seria o ideal, mas julgo que já é demasiado tarde para dar tal passo, pois por este andar qualquer dia nem natureza existe! Tudo se tornará artificial, até o ar que respiramos e a água que bebemos. O ser humano é um eterno insatisfeito, não moldável, desobediente, anarquista. Dão-lhe o paraíso e escolhe o caos! Quando tudo parece estar a correr bem, logo se muda de rumo, em busca do desconhecido!         
     O «Buraco da Serpe» é uma novela cuja leitura atenta nos colocará imensas questões: de relacionamento entre pessoas, de propriedade, de justiça, ausência de classes sociais, de poder, de conhecimento e ignorância, de sobrevivência em meios hostis, onde as feras espreitam a todo o momento a futura presa; a falta de segurança provoca receios, e estes dão origem a crenças; a religião serve como lenitivo para as almas atormentadas, mas recorre-se às mezinhas quando o corpo sofre.   
     Mas não pense o leitor que a leitura desta novela nos provoca somente sofrimento e inquietação. Não: nós, a pouco e pouco, vamos sentindo o prazer penetrar em nossos sentidos, como se fizéssemos parte da narrativa, como se caminhássemos lado a lado com aquelas personagens viris, sólidas, mas ao mesmo tempo frágeis e sensíveis, capazes de altos feitos e simultaneamente de atos abomináveis. É a vida na sua máxima expressão, onde nada se esconde, tudo se mostra. Não estamos, com certeza, perante um mundo cem por cento selvagem, no interior da Amazónia, ou na África profunda, sem quaisquer regras, mas ali, na serra impiedosa, entre a Peneda e Castro Laboreiro, onde a lei é a do mais forte, do mais sagaz, onde o crime se aceita por razões de segurança, e o enlace matrimonial se impõe por via da continuidade.    

     Sublinho que o mais importante neste pequeno romance é a “estória” em si, a lenda; com a sua leitura, alimentar-se-á o espírito, voaremos através do espaço e do tempo.   
                                                                                Joaquim Rocha