domingo, 5 de março de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
canastro vazio
 
 
 
CELEIRO MUNICIPAL DE MELGAÇO

  

     A entrada de Portugal na guerra de 1914-1918 provocou no país uma grande agitação. Em outubro de 1910 tínhamos saído do regime monárquico, com o erário nas lonas, com um analfabetismo gigantesco, uma agricultura pobre e uma indústria quase inexistente. Apesar disso tudo, o governo português insistiu com a aliada Inglaterra para entrar no conflito armado. Um dos grandes argumentos colocados em cima da mesa consistia no facto de se correr o risco de perdermos as colónias, que - ao tempo - nada representavam para a economia nacional. Os jovens melgacenses foram atingidos gravemente por essa desastrosa decisão. Uns fugiram, outros foram apanhados como coelhos pelas forças armadas. Impreparados, lá foram lutar e morrer nos campos franceses. Alguns deles deixaram viúva e filhos menores. Devido a esse facto, começou a notar-se a falta de braços fortes para trabalhar a terra. O milho, que era a base da alimentação dos minhotos, começou a escassear. O pouco que havia era vendido para alimentar as tropas em combate. Assim, o governo local teve a ideia de criar um celeiro municipal. Em Fevereiro de 1918 estava em vias de formação. Em virtude do país ter entrado em guerra no ano anterior, ao lado dos ingleses e franceses, o milho estava a ser contrabandeado e era necessário que a Câmara Municipal interviesse, comprando-o por grosso a fim de depois o vender a um preço justo a quem dele necessitasse (ver Jornal de Melgaço n.º 1194, de 9/2/1918). // Ainda nesse dito mês de Fevereiro de 1918 os jornais melgacenses anunciam que vai entrar no celeiro a primeira remessa de milho; foi nomeado pela Comissão Administrativa o vogal Fernandes para vender e fiscalizar o dito cereal (JM 1195, de 16/2/1918). O dito celeiro afinal estava instalado num salão do hospital da Santa Casa da Misericórdia (JM 1196, de 23/2/1918). // Em Março de 1918 já tinha duzentos alqueires de trinta litros (JM 1199, de 16/3/1918). // No Jornal de Melgaço n.º 1216, de 27/7/1918, lê-se: «consta-nos que no celeiro municipal já não há milho. Não sabemos nada deste assunto, porque a Câmara actual propositadamente tem escondido o estado do celeiro do município.» // Enfim, as guerras trazem riqueza para meia dúzia de capitalistas, e a fome e pobreza para a maioria das populações.       

quinta-feira, 2 de março de 2017

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
Por Joaquim A. Rocha




// continuação...

     O jovem Henrique empolgava-se com a conversa. Não conhecia África, mas pelo que lera e ouvira dizer julgava-se apto a ter também a sua opinião. Comenta:

- O meu amigo esquece que Salazar nunca permitiria a fundação de um Partido político nas ex-colónias. Depois, quando chegou Marcelo Caetano ao poder, em 1968, já era demasiado tarde!

- Talvez tenhas razão. Não abordo mais esse polémico assunto. O nosso dever como soldados portugueses era combater o inimigo da pátria. Não nos encontrávamos na guerra para discutir política; o nosso humilde papel consistia em honrar a farda que trazíamos vestida e o nosso país. Obviamente que não se lutava nas colónias com a mesma garra que lutaram os primeiros portugueses contra os chamados mouros, ou depois, já no tempo de D. João I, contra os castelhanos. Ou até, no reinado de D. Maria I, contra as tropas de Napoleão Bonaparte. Contudo, alguns militares, graças à sua coragem, ou jovem loucura, ombrearam com esses ancestrais guerreiros. Proezas individuais surgiam aqui e ali, numa demonstração de brio e brava ousadia. Nasceram para serem heróis ou mártires!

- O Cândido gosta imenso de filosofar…

- Adoro discorrer sobre a História; mas estou a maçar-te com estas coisas… Desculpa!

- De maneira nenhuma! Estou fascinado. Continue, por favor.

*

- Noite em Cufar. O céu estava limpo e estrelado. Milhares e milhares de estrelas cintilavam, como que a tentar transmitir aos terrestres uma mensagem de paz e de amor. Encontrava-me de guarda num daqueles abrigos subterrâneos. Um pesado silêncio, pouco habitual, cobria todo o espaço à minha volta, dando-me a incómoda sensação de que algo estava para acontecer. Confesso-te, não sou dotado de qualquer tipo de premunição, no entanto…

- Algo se estava a passar de estranho. O que aconteceu? – solicita Henrique, com ansiedade.

- Passados que foram alguns longos minutos, uma estranha luz aparece no céu. «De que se trataria?» - interrogo-me. Avião não era de certeza – estes fazem um barulho enorme ao cruzarem os ares; os cometas, bólides do espaço, deslocam-se tão rapidamente que logo surgidos desaparecem da nossa vista! Talvez um helicóptero. Eureka! – até já nos tinham falado neles. Possuíam um motor silencioso e vinham pura e simplesmente observar, espiar-nos.

- Parece mentira – exclama Henrique.

- Mas é a pura verdade! Esses «grupelhos de tanga», como eram designados pela tropa portuguesa, possuíam meios aéreos, embora limitados a este tipo de máquina. O início! É provável que não fossem os naturais da Guiné-Bissau, mas sim os seus aliados, a pilotá-los. De qualquer modo, não estavam assim tão atrasados como a malta pensava ao princípio da contenda.   

- Como reagiu?! – indaga o jovem, cada vez mais curioso.

- Deixei-o aproximar-se e, mesmo sabendo que quaisquer balas disparadas não o atingiriam, desfechei um carregador inteiro da metralhadora na sua direção. Os outros soldados começaram também a abrir fogo logo que se aperceberam do que estava a acontecer. O helicóptero, que se encontrava a uma altitude razoável, deu uma volta e retirou-se. Um dos meus camaradas sentinela, furioso, gritou: «Filho duma cadela; se voltas, estoiro-te como a um sapo!»

- Claro que essa ameaça não passava de fanfarronice!...

- Obviamente. Onde estavam os mísseis para o derrubar? Na ocasião, somente o Super-Homem nos poderia valer, mas esse encontrava-se nos Estados Unidos da América.

- E não tinha pouco que fazer! – brinca Henrique.

- Mas continuando: uma grande e enigmática «operação» ganhava forma. Atuariam em conjunto, na mata do Cantanhez, três batalhões (cerca de dois mil homens), algumas Companhias isoladas, e a milícia de Catió, comandada pelo famosíssimo Pedro Bâkar.

- Esse nome não me é totalmente estranho…

- Esse pequeno homem, de cor negra, com a patente de alferes de milícias, tinha – segundo a voz corrente – a sua cabeça a prémio. O PAIGC temia-o, visto que ele, com o seu grupo de trinta homens, espingardas ao ombro, assemelhando-se a personagens de um filme de ficção científica, fazia mais estragos nas suas fileiras do que um batalhão do nosso exército!

- Caramba! Era um autêntico predador – explode Henrique, admirado com tanta ousadia e coragem.

- Conhecia, tão bem ou melhor do que eles, toda a região de Catió e sabia, por informes habilmente recolhidos, onde o inimigo tinha posições. O exército português cumulava-o de mimos e comentava-se à boca semi-cerrada que o governo subsidiava os estudos superiores de um filho seu.

- O Cândido conhecia-o?!

- Já o tinha visto noutra ocasião. A sua pele, de um negro luzidio, cobria um corpo apolíneo: magro, mas musculado. Os seus olhos davam logo a sensação de uma firmeza e vontade inigualáveis. Não parecia arrogante nem autoritário, porém as suas ordens eram prontamente acatadas e cumpridas.

- Um chefe!

- Um líder, como agora se diz. À sua volta parece que nos sentíamos mais seguros… O nosso comandante chamou-nos e disse-nos: «Hoje é um dia importante e especial para todos; vamos enfrentar uma força inimiga considerável, uma fortaleza quase inexpugnável e até agora invencível. Nada de receios. Connosco vão três batalhões e a milícia de Pedro Bâkar. Além disso teremos apoio aéreo e de artilharia pesada. A “acção” pode durar dois ou três dias, dependerá dos resultados obtidos. Vamos tentar cercar o inimigo, acossá-lo, desalojá-lo, abatê-lo, escorraçá-lo do Cantanhez. Peço-vos firmeza, coragem, brio; o soldado português é digno, valoroso, intrépido, e hoje mesmo porá à prova essas qualidades

- Belo discurso! Esse senhor podia ser deputado! 

- Também acho. Com ele na Assembleia ninguém dormia. Arrancamos. Junto ao cais de Catió estavam as lanchas blindadas à nossa espera. Do rio Combidjam passámos ao rio Cacine. Os marujos, cautelosos, sempre atentos, não tiravam os olhos das margens. A emboscada poderia surgir a todo o momento – nunca fiando!

- Até eu estou arrepiado! – diz Henrique, estremecendo ligeiramente.

- Desembarcámos por volta das duas horas da manhã. Enterrados na lama até à cintura lá fomos andando, andando, em fila indiana, agarrados uns aos outros para não nos perdermos. Milhares de aves pernaltas alimentavam-se regaladamente naquelas enormes extensões de lama, a que chamavam bolanhas, indiferentes à “tempestade” que se avizinhava. Pregaram-nos um grande susto: pareciam guerrilheiros a apontar as suas armas! Já tínhamos caminhado bastante quando a voz do colega que ia à minha frente me sussurra: «Ordem para parar, passa palavra.» Assim fiz, mas muito a contra-gosto, pois encontrava-me ainda no lamaçal e não era nada agradável aguardar ali naquele sítio infestado de mosquitos enormes, sedentos de sangue, e a entrar-me pelas narinas um cheiro nauseabundo a águas podres e fétidas.

- O que vocês sofreram!...
                                                  // continua...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação  de Os Lusíadas, de Camões)


Por Joaquim A. Rocha


desenho de Luís Filipe G. Pinto Rodrigues



60

 
Manuel Primeiro, «O Venturoso»,

Leva ao papa Leão rica embaixada,

De peito feito, muito orgulhoso,

Tudo prevê, não lhe escapa nada!

Oferece-lhe um presente luxuoso,

Uma cruz em ouro, toda esmaltada.

Em troca pede treze regalias:

Para os bispos, padres, e obras pias.  

 
61
 

O papa  recebe o embaixador

Com requintes de corte imperial.

- «Manuel», diz, «é um grande senhor,

Engrandece o nome de Portugal.

É uma honra, um grande favor,

Tê-lo como amigo, como igual.

Vais levar-lhe uma excelsa bula…

Que outras leis anteriores anula.

 
62


O português aceita, comovido,

O alto presente do senhor da igreja;

E num gesto de respeito atrevido

Sua branca e húmida mão beija.

O príncipe sorri, agradecido,

 Dá ao luso um licor de cereja.

E assim termina essa visita,

No desejo de que ela se repita.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

QUADRAS AO DEUS DARÁ
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes


A amizade e o amor

Já andaram de braço dado;

Veio a paixão, trouxe a dor,

Com a dor nasceu o fado.

*

Amizade é mais que amor,

E pelo tempo perdura;

Não causa ódio, nem dor,

É sentimento, ternura.

desenho de Rui Nunes

Amizade não tem preço,

Não se compra com dinheiro;

Tem-na o rico e o pobre,

Existe no mundo inteiro.

*

S’ amizade se comprasse,

Era somente dos ricos;

O pobre que odiasse…

Cambada de mafarricos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

PARABÉNS A VOCÊ




    Mais um melgacense que chega aos cem anos de idade. Como costumava dizer o Alfredo Lourenço do Paço: «é uma idade bonita». De facto, atingir os cem anos de vida não deve ser uma meta que a maioria dos humanos atinja. A longevidade cultiva-se, é possível e desejável, mesmo que algumas doenças menores surjam pelo caminho. A ciência médica, com a ajuda do próprio, consegue verdadeiras proezas. Segundo consta, está internada no lar de Paderne uma senhora com mais de cento e cinco anos de idade!   
                    
 
 
COLMEIRO, Amadeu Augusto (Serôdio). Filho de Vitorino Maria Colmeiro e de Rita Augusta Rodrigues, moradores na Vila de Melgaço. Nasceu em SMP a 24/2/1917. // A 10/7/1933 fez exame do 2.º grau, quarta classe, ficando aprovado (NM 203, de 6/8/1933). // Primeiro foi soqueiro e depois fotógrafo – usava uma máquina das antigas e andava pelas feiras e romarias a tirar retratos. // Casou a 18/1/1948 com Creminda Augusta, ou Carminda Rosa, filha de António Diniz Monteiro e de Maria dos Prazeres Soares. Moraram em Prado. // Antes de se casar gerou em Judite Amabélia Rodrigues, da Vila, um menino, Manuel José, levado para a Casa Pia de Lisboa, onde estudou, tornando-se professor do Ensino Secundário. // A esposa também lhe deu filhos.   

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
Forais melgacenses (continuação)



     Se algum de entre vós cometer homicídio, vizinhos que sois uns dos outros, compareça a justiça da vila com o vigário do rei à porta do homicida e peçam-lhe uma caução, a qual conseguida, então exigir-lhe-ão um fiador para o montante de cinco soldos. Apresentado o fiador no prazo de nove dias, restituam-lhe o penhor. Porém, se nos nove dias decorridos isso não acontecer, venham sobre ele os sobreditos (justiça da vila e representante do rei) e exijam-lhe pelo homicídio praticado cem soldos. Se o homicida não cumprir, o seu fiador pagará cinco soldos, e então o crime recairá sobre a sua casa e herança, e nenhuma punição lhe causem a não ser os seus inimigos (12). Se alguém matar outrem furtivamente e puser o cadáver à porta do seu vizinho, ficando sujeito a ser acusado e caluniado, este deverá dirigir-se à igreja e jurar a sua inocência, alcançando assim a imunidade e a salvação. Se alguém de fora da vila vier a esta e tenha com um seu morador inimizade, e não tiver previamente pedido fiança ao seu inimigo, desprezando a assembleia, o habitante da vila poderá atuar contra o estranho com a ajuda dos seus amigos, e se o ferir com gravidade ou mesmo o matar, não será responsabilizado perante o rei. Se os que foram chamados não quiserem ajudá-lo, serão penalizados em cinco soldos e responderão perante a assembleia.

     O vigário do rei deve morar na vila. Se alguém o ferir, ou matar, pague por ele cem soldos, como no caso de qualquer outro homem. Se alguém cometer o crime de rapto (de mulher honesta ou donzela) e a assembleia da vila se for queixar ao representante do rei, o raptor pague cem soldos. Se algum vizinho ferir outro, pague quinze soldos pela agressão, se o ferimento for na cabeça; se não for na cabeça, pague então sete soldos e meio. Todos aqueles que se envolverem em rixa, puxando pelos cabelos e maltratando-se: na vila, na assembleia, na igreja, apenas responderão perante as suas consciências, no caso de se quererem reconciliar; de contrário, se um deles não desejar fazer as pazes e levar a denúncia ao vigário do rei, o que os juízes decidirem seja cumprido: metade da multa será atribuída à vítima e a outra metade será para o meu representante. Aquele que injuriar outrem prestará a devida satisfação por meio da assembleia. Se posteriormente se negar a cumprir (o que na assembleia se decidiu) vá a autoridade à sua porta com duas testemunhas e exija-lhe caução; se a der, nesse dia deixar-se-á em paz. Depois, diariamente, voltarão a exigir-lhe o penhor, e sempre que o satisfaça, deixem-no ficar sossegado. Quando tiver sido espoliado a ponto de já nada lhe restar, tomam-lhe as portas da casa, em seguida as telhas, até dar fiador ou o dinheiro em que foi penhorado. E se não quiser cumprir, pague no primeiro dia cinco soldos ao vigário do rei, e da mesma maneira pague no segundo dia dois soldos. E no terceiro dia, o injuriado, a justiça da vila, e o representante do rei, então vão à sua porta e chamem-no: se não quiser vir, entrem na casa sem aviso e apoderem-se de tudo quanto for devido.

     Se alguém, por maldade, abater outro com espada, seja na aldeia, seja no campo, se existirem duas ou três testemunhas, pague, o acusado, sessenta soldos ao vigário do rei. Se o homicida for conhecido, e se for essa a decisão da assembleia, desde que não transporte espada, nada pague.

     Cada casa vossa seja coutada (avaliada), em seis mil soldos. Se alguém, sem motivo justo, a danificar, dê ao seu proprietário quinhentos soldos para o seu arranjo.

     Toda a pessoa que se queira tornar vosso vizinho, que venha morar para junto de vós, pague um soldo: seis denários para os juízes da vila e seis denários ao senhor da terra (13). Se algum indivíduo ousar infringir esta lei, embora não creio que isso venha a acontecer, seja amaldiçoado e excomungado até à eternidade, e fique privado da fé de Cristo (14) e do seu lugar no paraíso; e não ouça a voz do Senhor dizendo: - «Vinde, benditos!» - Mas ouça as palavras: - «Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!» … e outras coisas mais. Eu, rei Afonso de Portugal, com o príncipe Sancho, meu filho, e minhas filhas acima mencionadas, a vós, habitantes de Melgaço, esta carta-foral vos dou, e pela minha própria mão corroboro e confirmo esta escritura.

     Carta de venda e doação feita na era de 1219, e 12.º dia das calendas de Agosto (15). D. Velasco, mordomo-mor da Cúria – testemunha. Godinho, arcebispo de Braga – confirmante. Fernando, bispo do Porto – confirmante. Martinho, bispo de Coimbra – confirmante. Pelágio, eleito de Évora - confirmante. João, bispo de Viseu – confirmante. Godinho, bispo de Lamego - confirmante. D. Pedro Rodrigues – testemunha. D. Afonso Ermígio – testemunha. D. Pedro Afonso – testemunha. D. Soares Venegas – testemunha. D. Martinho Pais – testemunha. Pedro Salvador – testemunha. G. Fernandes - testemunha. Nuno Guterres – testemunha. Mestre Fernando – testemunha. Mestre Domingos – testemunha. Mem Gonçalves – testemunha. Rodrigo Henriques – testemunha. Julião, notário da Cúria. XXXXXX

 

Notas:

 

12 – Suponho que sejam os familiares da vítima.

 

13 – Provavelmente o senhor de Valadares: Suerio Arias ou Pelagio Suariz.

 

14 – Isto é: deixe de ser, pela comunidade, considerado cristão; nessa época implicava tornar-se praticamente um apólida, ou seja, um indivíduo sem pátria!

 

15 – 21 de Julho de 1181. A era de César estava adiantada trinta e oito anos em relação à nossa. Logo: 1219 – 38 = 1181. Quanto às calendas [(31+2)-12]=21. Penso que não vale a pena dizer mais nada. Só isto: os romanos não contavam o tempo como nós o contamos. Penso que o ano de 1181 pode estar correto quanto à redação do documento. No entanto, como o país se encontrava em guerra com os muçulmanos, não era fácil de um dia para o outro pô-lo em vigor. Por outro lado, existe o problema dos confirmantes, distantes uns dos outros. Leis que se faziam num ano só passados dois ou três é que chegavam aos seus destinatários! Por conseguinte, este foral deve ter chegado às mãos dos melgacenses a partir de 1183, pois só a partir desse ano é que alguns dos confirmantes obtiveram os cargos que ostentam no foral.

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1018, de 15/11/1994.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





FORAIS MELGACENSES

 
     Há muitos, muitos anos, passou-me pela cabeça aprender latim e traduzir os forais dados à nossa terra por Afonso I e Afonso III; o foral de Manuel I está escrito em português, embora para o leitor comum não seja fácil lê-lo sem se atualizar a sua grafia. Nunca cheguei, por razões alheias à minha vontade, a dominar a língua de Cícero; o que sei não é suficiente para meter ombros a tão árdua tarefa. Assim, tive de solicitar ajuda a dois eminentes latinistas: os padres Henrique Pinto Rema e António Pereira da Silva, que amavelmente traduziram para a nossa língua tão importantes documentos para a História de Melgaço. Também colaborei nessa tradução, pois conhecendo melhor do que eles o passado do nosso rincão aqui e ali detetei algumas falhas de pormenor que corrigi, espero, da melhor maneira. Por exemplo: no foral consta «ripa auie»; a tradução correta seria «riba de ave», não obstante a tradução é «Ribadávia»! Sabemos isso porque no foral do rei venturoso se diz: - «E deu-lhe outro foral segundo o de Rybadave…»   

 
     O padre Bernardo Pintor publicou em 1975 uma obra notável que intitulou «Melgaço Medieval»; nesse livro está traduzido o foral do século XII. No final o padre Pintor informa-nos: «Está escrito em latim deficiente e há dúvida na tradução de algumas expressões. Fiz o melhor que soube e pude.» A minha opinião é esta: o padre Bernardo traduziu bem o documento, simplesmente omitiu uma pequena frase e não foi feliz na tradução de uma ou outra palavra. Não desvaloriza de modo algum o seu trabalho. Não tenho quaisquer dúvidas que um dia há-de aparecer alguém a pôr defeitos nesta tradução de 1994. Se for para emendar erros, esse alguém seja benvindo.

     Espero que esta minha contribuição seja bem recebida e estimule os melgacenses a interessarem-se pela História do nosso tão esquecido concelho. Daqui faço um apelo ao Cónego Doutor José Marques para não esquecer a promessa que nos fez no seu livro «O Mosteiro de Fiães», página 21: «… Cartulário de Fiães, cuja edição programamos».

 

1.º Foral

      Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ámen. Eu, Afonso, rei de Portugal, com o príncipe Sancho, meu filho, e as minhas filhas infantas Teresa e Urraca, a vós, habitantes de Melgaço, faço carta e escritura da herdade que possuo na Terra de Valadares (1), no lugar designado Melgaço. Eu vo-la entrego com seus termos e lugares antigos, bem como a íntegra metade de Chaviães, por onde a puderdes achar ou reivindicar. Confio-vo-la com a responsabilidade de cuidardes do seu desenvolvimento e de nela morardes, de acordo com o modelo de foral que me solicitastes, ou seja, o do burgo de Ribadávia, pois o achastes bom. Entendam bem o que vos digo, pois eu quero ser justo convosco. É este o seu conteúdo:

     Cada um de vós pagará, a mim ou ao meu mandatário, pelas vossas casas, um soldo (2) todos os anos; os carniceiros pagarão dois soldos, igualmente uma vez por ano: metade depois das festas de natal do senhor, e a outra metade no terceiro dia depois da festa da Assunção de Santa Maria. Quando o vosso rei visitar a vossa vila entregar-lhe-eis seis denários (3) para a sua coleta, não mais; se ele aqui vier mais do que uma vez no mesmo ano, fica ao vosso critério oferecer-lhe o que bem entenderdes. Do pão e do vinho que produzirdes ou comprardes, bem assim como de todos os tecidos e animais que venderdes ou comprardes, de todas as transações realizadas entre vós, e das vossas moagens e fornadas, e da vossa almuinha (4), prestai somente contas a Deus (5). Aos comerciantes de fora que cheguem com as bestas carregadas de quaisquer produtos, cobrareis um soldo por cavalo ou macho. Entregareis ao vosso rei seis denários por égua, quatro denários por burro, e dois denários por peão (6). Se algum mercador chegar com fazendas, pode vender toda a carga por grosso, não a retalho, a não ser em dia de feira; e se proceder de outra maneira pagará trinta soldos aos juízes da vossa vila e ao meu representante (7). Por falso côvado (8) e falsificação de toda a medida de pão, vinho e sal, pagará, o falsificador, cinco soldos. Se aqui vier alguém que queira vender cavalo ou mula, os compradores pela transação devem pagar: por cavalo um soldo ao hospedeiro (9) e um soldo ao rei; por mula, pague três soldos ao hospedeiro e três soldos ao rei; por égua seis denários ao hospedeiro e seis ao rei; por asno pague três denários ao hospedeiro e três ao rei. Os moradores da vila nada pagarão nas compras e vendas, quer sejam efetuadas na feira quer fora dela, excepto: por manto de uma única cor, quatro denários; por saia de uma só cor, dois denários; por manto de pele de coelho (10), quatro denários; por manto listrado, dois denários; por saia listrada, um denário. E por capa galega, dois denários; por pele de cordeiro (11), dois denários; por pele de cabra, um denário; por pele de boi, quatro denários; por pele de vaca, dois denários. Os mercadores de fora, não moradores na vila, não terão quaisquer isenções. // continua...
 
 
Notas:
 
01 – Valadares foi terra importante na idade média, sede de concelho até ao século XIX (1855), altura em que se desmembrou a favor de Monção e de Melgaço.
 
02 – O soldo, moeda de prata, valia doze denários.
 
03 – Denário, ou dinheiro; antiga moeda de cobre.
 
04 – Casal, herdade, horta murada, propriedade suburbana.
 
05 – Isto é: à igreja, pagando os dízimos.
 
06 – Pessoa que vinha a pé.
 
07 – Pressupõe-se que seria 15 para cada parte.
 
08 – Antiga medida de comprimento que correspondia a 66 cm.
 
09 - «Hospiti» no texto. Levantam-se algumas dúvidas: quem é o hospedeiro, o vendedor? Quanto custava um cavalo nos anos 80 do século XII? Por mula pagavam três soldos e por cavalo somente um soldo?!
 
10 - «Coelio» no texto. O Dr. Augusto César Esteves traduziu por coelho; o padre Bernardo Pintor por manto célio, isto é, da cor do céu (azul). Eu consultei o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, e lá consta: «coelio em 1181», (Leges, página 422), referindo-se a coelho.   
 
11 – No texto lê-se: «pelle cordeira». É possível que abranja os três tipos de pele: ovelha, carneiro e cordeiro.