domingo, 3 de abril de 2016

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões) 

Por Joaquim A. Rocha


27

Índio não aceita ser submetido,
Esconde-se nas árvores, no mato;
Prefere andar no matagal fugido,
Como coelho selvagem, ou rato;
Até ser morto, gravemente f’rido,
Viver as sete vidas como o gato.
Do branco rejeita qualquer lição,
A cruz de Cristo, hóstia ou pão!

28

O europeu, mui astuto, esperto,
Atrai a si o indígena puro,
Diz-lhe que a fouce anda por perto,
Estar junto de si é mais seguro;
E o inocente, de peito aberto,
 Cérebro limpo, mas um pouco duro,
Aproxima-se do hábil gatuno
Vencendo o parvo por oportuno.

29

Tudo rouba, o cínico estrangeiro:
As terras, costumes, a liberdade;
Só não lhe rouba casas e dinheiro
Por eles estarem noutra Idade.
Apesar de ser tudo verdadeiro
Há quem diga que isto é falsidade.
É bom que a história se refaça
Para a gente se rir desta chalaça.

30

E ainda que digam que sou cruel,
Que transporto o mal no meu fraco peito,
Que tenho nos olhos peçonha e fel,
E que às crónicas perco o respeito…
Eu pergunto: quem destruiu Babel,
Quem desviou aos rios o seu leito?
Porventura Moisés era assaz mau
Por segurar nos braços grosso pau?

quinta-feira, 31 de março de 2016

LINA - FILHA DE PÃ
romance

Por Joaquim A. Rocha

desenho de Rui Nunes

4.º Capítulo


     Os meses foram fluindo. Lina já dominava todo o serviço, o magistrado contratara uma jornaleira, a Jesufina, para cuidar da horta, que agora estava um primor, «um brinquinho», como ele gostava de dizer. Tinha uma grande variedade hortícola. Quando as pessoas passeavam na Avenida olhavam para a horta do juiz e comentavam: «Que linda está! Aquelas couves, o tomate, os grelos, os pimentos verdes e vermelhos, as cebolas, até feijão verde tem!» Toda a gente admirava a horta do juiz.
    A Jesufina, aparentemente débil, esguia, mas rija como uma rocha milenar, nos seus quarenta e tal anos, tinha um orgulho tremendo naquela horta, tratava-a com esmero, com carinho, como se fora o filho que lhe morrera anos atrás, mas havia um senão: ganhara um medo colossal, danado, ao canzarrão. O bicho não simpatizava com ela e por isso, quando a via, ladrava-lhe sempre, mostrando-lhe uns dentes enormes e aguçados, prontos a morder, a estriçar aquele corpo. «Maldito cão» - resmungava ela.

**

     Lina tinha quase dezasseis anos. Os seus seios cresceram, as suas ancas já davam nas vistas. Os rapazes da Vila já andavam atrás dela, mas ouviam sempre a mesma resposta:

- Se se meterem comigo, ou me fizerem mal, digo ao Senhor Doutor Juiz.

     Eles temiam a autoridade. Julgavam que um juiz era uma espécie de rei em regime absolutista, um déspota – podia fazer tudo aquilo que quisesse: prendê-los, torturá-los, até matá-los! Afastavam-se dela, despeitados, dizendo-lhe:

- Pensas que és boa, que és importante, só por seres criada dum Senhor Doutor Juiz, mas há melhor do que tu. A nós não faltam raparigas. Adeus!
    
     Ela ficava absorta, afinal de contas era da mesma classe, gente pobre, que nunca teriam nada de sua legítima. Alguns até eram rapazes bonitos, empregados de balcão, aprendizes nas oficinas, e nos bailes sabiam dançar como ninguém. No entanto, ainda era nova para namorar, embora vontade não lhe faltasse, apetecia-lhe ser beijada, às escondidas, mas o patrão podia não querer que ela namoriscasse, até a podia despedir, e por outro lado ainda não esquecera os conselhos da mãe. Aquelas palavras sábias: «tem juízo, rapariga, não te deixes seduzir por um peralta, um malandreco da Vila», ainda não as esquecera.
     Nessa noite o juiz andava agitado. A namorada estava doente, tuberculosa, bebera demasiado vinagre para emagrecer, fizera dieta sem quaisquer regras, não aceitava ser gordinha, nédia, e agora fora internada num Sanatório, com poucas esperanças de melhoras. Já tinham tido contactos íntimos, embora irregulares, por causa dos mexericos, dos preconceitos seculares, mas agora ficara desarmado. Quando é que voltaria a vê-la? O mais certo era ela morrer. Teria que arranjar outra, mas como aquela não seria fácil. Filha de gente fidalga, rica, filha única, futura herdeira daqueles bens todos. Onde arranjaria outra igual? Faltava-lhe quase um ano para deixar Melcarte, depois iria para o centro ou sul do país, encontraria novas amizades, quem sabe, outros amores. Tinha 34 anos de idade, era saudável, boa figura, não faltariam pretendentes. Devia esperar pacientemente. Não lhe apetecia deitar-se. Foi até à sala, retirou um livro da estante, um romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, e começou a ler. Lina saiu da cozinha e foi-se despedir dele.

- Até amanhã, Senhor Doutor. Se precisar de alguma coisa é só pedir. Estou sempre às ordens.             

     Ele chamou-a, olhou para ela como antes nunca olhara, mirou-a dos pés à cabeça, e diz-lhe:

- Tenho andado tão ocupado que nem reparo em ti. Estás uma linda catraia. Deste um enorme pulo ultimamente.
- É bondade do Senhor Doutor. Eu não presto para nada. Sou pequenina e feia.
- Não te menosprezes. Chega-te mais para aqui.

     Pegou-lhe nas mãos, branquinhas, suaves, levou-as aos lábios, e pediu-lhe, com doçura:

- Senta-te aqui, nas minhas pernas; estou a precisar de carinhos. Tive um grande desgosto.

     Ela ficou muito corada, o sangue subiu-lhe ao cérebro, não sabia como reagir. Ele era o seu patrão e agora queria ser o seu amante. Que futuro seria o dela? Avançou um pouco, meteu-se entre aquelas pernas grandes, poderosas, e solicitou-lhe com meiguice:

- Não me magoe; eu nunca fui de ninguém, sou virgem.

     Ele estendeu os seus longos braços, abraçou-a com ternura, beijou-lhe os lábios, mexeu-lhe nos seios, rijos, redondinhos, com uns bicos entre o roxo e o vermelho, os chamados mamilos, quais cerejas em Maio, a explodirem de cor, depois levanta-se lentamente, pega nela como se fosse uma pluma e leva-a para a cama. Ela despiu-se, ficando completamente nua, e ele não resistiu àquele corpo intacto, pequeno mas bem torneado. Nem sequer pensou nas consequências. Cada coisa a seu tempo. Agora era um momento de gozo, de prazer infindo, de fantasias incomensuráveis. Estiveram entrelaçados quase toda a noite. Beijos mil, ternuras sem fim, palavras meigas.

- Meu amor: és a mais linda de todas as mulheres que já possuí. És um botãozinho de rosa!
- Ai Senhor Doutor: nunca imaginara que fosse tão bom. Serei sempre de vossemecê. Nunca hei-de querer outro homem na minha vida.

     E beijava-o ardentemente. Ardia em febre.

- Minha querida, jamais te deixarei. (E beijava-a com doçura, com meiguice, com paixão…)


     E depois de mil promessas, adormeceram profundamente. // continua...

terça-feira, 29 de março de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha


cartas de um castrejo

15.ª - «Senhor Redactor: (…) em quase nada havemos sido atendidos nas nossas justas reclamações. (…) Enquanto ao humilde castrejo der guarida nas colunas do “Correio de Melgaço” não desanimaremos. Combater, combater pelas regalias da nossa querida terra, a ver se um dia a vemos alçapremada ao lugar a que tem jus, é o nosso lema. Por isto e porque estamos certos de que a nossa paróquia – que conta entre os seus membros verdadeiras dedicações (pois cá os castrejos só por uma escorregadela é que vão à urna arrebanhados), não descuidará a nossa lembrança da última carta, preparando uma representação à Câmara Municipal de Melgaço, pedindo as escolas a que tem direito, segundo a lei vigente, apresentando com recomendação infalível os recenseamentos escolares. Não trepidem: no próximo domingo, se não pela semana, em sessão extraordinária, tratem com carinho do assunto magno da instrução na nossa terra, e terão as bênçãos dos coevos e dos vindouros. Não duvidamos de que os membros da nossa paróquia aproveitarão o nosso alvitre, porque temos a plena certeza de que os nossos queridos conterrâneos não escolheram para lugares de tão alta responsabilidade pessoas que lhes não mereçam absoluta confiança. E se não emendem-se, de hoje para sempre, conservando a sua independência na liberdade de votar e, muito especialmente, nas colectividades administrativas. Se não os conhecerem, não os elejam, ainda que lhes peça o paizinho. // Não nos consta que o mais pequenino remédio fosse aplicado à nossa enfermidade, produzida pelo chefe do posto fiscal, cá da freguesia. Ao castrejo foram-lhe aplicados direitos e multa, por transgressão, em que teve como Cireneu (*) o tal chefe de posto. (…) Nós não queremos que este fique sem pão para si e para os filhos, nós não lhe queremos, mesmo, mal nenhum; mas julgamos que, para haver igualdade na justiça, seria de extrema necessidade deslocar, ao menos, o chefe do posto, pagando com o deslocamento o que o castrejo, injustamente em parte, pagou em dinheirinho!.. Diz-lho, convicto… Castro Laboreiro, 12/5/1916.»

     /// (*) refere-se a Simão de Cirene, que ajudou Jesus a carregar o lenho, segundo a bíblia (novo testamento).

domingo, 27 de março de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha




CASA E QUINTA DA SERRA


     Esta é uma das casas mais importantes de Melgaço, não pela sua arquitetura mas sim pela sua história. Foi construída junto da pequena estrada que vai de Prado a Paderne. É casa de fidalgos e tem capela, em honra de São Caetano. Embora não esteja situada no centro do lugar da Serra, mas sim acima (Cima de Serra – ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, página 614), a sua quinta («um dos prazos da insigne Colegiada de Santo Estêvão de Valença») abrangia esse lugar da freguesia de Prado. A tal quinta da Serra foi adquirida no século XVI pelo casal Ana de Castro de Sousa e Magalhães (filha de Lopo de Castro de Azevedo, 1.º senhor da Casa e Quinta do Fecho, Rouças, e de Leonor Veloso Bacelar de Sousa e Magalhães, e neta de Fernão de Castro, alcaide-mor de Melgaço), e João da Lama Y Puga, fidalgo galego. O instituidor do vínculo de morgadio, iniciado a 3/2/1715, foi Pedro de Sousa Gama, capitão-mor das ordenanças, descendente daquele casal, casado em segundas núpcias com Maria Teresa de Sousa Salgado, nascido no século XVII e cuja morte se verificou a 13/6/1749. Escreveu Aldomar Rodrigues Soares, mais conhecido por “Mário de Prado”: «… o capitão-mor Pedro de Sousa Gama, quando mandou levantar aquele enorme casarão, que ainda hoje admiramos, lá tinha as suas razões…» (Padre Júlio Vaz Apresenta Mário, página 142). // Uma das figuras mais ilustres desta Casa foi o major Luís de Sousa Gama, governador da Praça de Melgaço entre 1839 e 1870, falecido em 1871, do qual fala longamente o Dr. Augusto César Esteves, no seu “Melgaço e as Invasões Francesas” e em «As Minhas Gerações Melgacenses». Um dos últimos representantes dessa Casa foi Herculano Arsénio Gomes Pinheiro (1898-1972), chefe da Secretaria Municipal de Melgaço. / No final do século XX a Casa e Quinta da Serra foi vendida à família Enes, da freguesia da Gave. (Consultar também “Padre Júlio Apresenta Mário”, p.p. 141/2).  

sexta-feira, 25 de março de 2016





O EMBARQUE

     Eram três horas da tarde. Henrique, sentado na esplanada, espera o seu grande amigo Cândido. Sabe que a história ainda está no princípio e a parte mais importante, passada em África, ainda está por contar. Quer saber tudo em pormenor.
     Os ex-combatentes não publicaram, até essa altura, absolutamente nada sobre a guerra colonial, uns por não saberem escrever, outros, quem sabe, por não quererem falar de coisas tristes, de acontecimentos que os marcaram negativamente para toda a vida. Era um privilégio ouvir da boca de um ex-soldado uma narração completa sobre essa satânica guerra que tantos mortos e feridos provocara.
     Por fim chega o nosso Cândido. O amigo, depois de o cumprimentar efusivamente, dispara à queima-roupa:

- Ainda se lembra do dia da partida?
- Recordo-me tão bem! Como se todos os cronómetros do planeta tivessem parado! Ali, naquele infausto dia, naquele local. Vinte de Janeiro de 1966. Cais do Conde de Óbidos. Manhã cedo. O barco estava à nossa espera… Chamava-se Uíge e era gigantesco, semelhante à goela de um monstro que nos queria devorar. Esperava os “mártires da pátria”.
      Eu, que odiava toda e qualquer violência, encontrava-me naquele sítio no papel de belígero para tomar parte activa na contenda! Para ir lutar contra indivíduos que defendiam a autonomia e a independência da sua nação, tal como os portugueses o fizeram no tempo de Dom Afonso Henriques, Dom João I e Dom João IV.

     Henrique, que bebia sofregamente todas as palavras do amigo, interrompe-o a fim de lhe colocar a seguinte questão:

- E no princípio do século XIX, aquando das Invasões Francesas, os portugueses não lutaram, também, pela sua independência?

     Cândido meditou um pouco sobre o assunto, não desejava dar uma resposta precipitada, a História era uma coisa muito séria, merecia todo o respeito. Por fim disse:

- Sim, é verdade. Governava então a França o célebre Napoleão Bonaparte, que andava às turras com a Inglaterra, país nosso aliado desde o tempo de Fernando I. O imperador francês deu ordens a Portugal para não permitir que os barcos ingleses entrassem em portos lusos, mas o regente (futuro D. João VI), que se encontrava no Brasil (a Corte deslocara-se para lá pouco tempo antes das invasões francesas) não acatou tal ordem. Bonaparte manda invadir por três vezes Portugal, mas com a ajuda dos ingleses lá nos livramos de tal gente.
         
     Henrique ouviu tudo com atenção, mas não concordava com uma coisa:

- Há quem afirme que a ida da Corte para o Brasil se justifica plenamente!

     Cândido, democrata por excelência, não contesta essa ideia:

- É polémica essa asserção; é certo que a rainha D. Maria I estava muito débil, já não decidia nada, e o seu filho, futuro rei, não era, segundo dizem, homem de grandes rasgos. Se têm ficado prisioneiros dos franceses não seria bom para eles, nobreza, mas para o país certamente seria melhor, pois os franceses teriam desenvolvido Portugal, ao contrário dos reis que nada fizeram. Na primeira metade do século XIX não havia indústria, nem transportes, o comércio era insignificante, o analfabetismo rondava os 90%.

     Henrique tudo escutava. Gostava de História, sobretudo a de Portugal. Para alimentar a conversa, atirou com mais uma acha para a fogueira:

- E as colónias? Tão ricas, e não produziam nada?
     Cândido, depois de ponderar a resposta, afirma categoricamente:

- Há um lapso na História de Portugal que carece de emenda: os portugueses do século XV não foram, em princípio, conquistar ou descobrir terras, pois a que tinham chegava bem para a população dessa altura, bastante reduzida, mas sim procurar, através dos oceanos, as fontes, as origens, dos artigos necessários ao consumo da nobreza e da alta burguesia, as famosas especiarias, a fim de deixarem, desse modo, de estar dependentes dos mercados venezianos e de outros, que os compravam ao oriente e os vendiam na Europa a preços exorbitantes. Além disso, iam alargando o mercado para os nossos próprios produtos.
- E dilatar a fé… acrescenta Henrique.
- A fé? Por detrás dela há sempre razões económicas, não te esqueças. O infante Dom Henrique, Dom João II, Dom Manuel I, tentaram conciliar ambas. Por outro lado, os mandões da igreja católica eram quase todos nobres, filhos do rei ou do duque, enfim, poderosos. Não te lembras que depois da morte de D. Sebastião foram buscar o cardeal para ser rei?!
- É verdade. Havia uma grande ligação entre a Igreja e o Estado. A 1.ª República acabou com essa promiscuidade, mas Salazar voltou a pôr tudo como dantes.
- Amigo Rique: quando os portugueses chegaram a África, à Ásia, à América, a todo o lado, essas regiões já estavam habitadas, salvo as ilhas de Cabo Verde que, devido às suas condições climatéricas e à sua pequena dimensão, não atraíam quem quer que fosse para aí viver: ninguém as cobiçava.

     E empolgado prossegue:

        Em quase todas as regiões contactadas pelos portugueses havia um mínimo de organização: tinham um Estado, embora rudimentar e tribal (como esquecer Gungunhana, imperador dos vátuas? Os portugueses obrigaram o desgraçado a colocar-se de joelhos e depois trouxeram-no para Portugal, tendo morrido, já no século XX, nos Açores), formavam, ou constituíam, uma nação. É certo que muitos se guerreavam entre si, alimentavam ódios milenários, mas o que se vê hoje no mundo dito civilizado?     

     Henrique estava arrebatado com a conversa. Como repto, lançou a pergunta:

- Não acha que esses povos se identificaram com os portugueses?

     Cândido parece ter ficado desarmado perante aquela pergunta. No entanto, e senhor de um pensamento consistente, respondeu:

- O que me perguntas é pertinente, mas quanto a mim esses povos aceitaram bem os lusos como comerciantes e não como dominadores. Resistiram quando os nossos quiseram ir além do que permitia a hospitalidade. Meu caro amigo: lê, se ainda não o fizeste, o maravilhoso livro de Fernão Mendes Pinto, com o título «Peregrinação». Nele se descreve, com certa minúcia, o deambular dos nossos antepassados por terras da Ásia, e como eles foram vistos por essas gentes de costumes e mentalidades tão diferentes dos nossos.  

     Henrique respirou fundo. O tema da conversa interessava-o imenso. Na escola não aprendera assim a História. Mas quem teria razão?! Faz um reparo:

- Quanto a Fernão Mendes Pinto já li alguns excertos do livro e na escola disseram-me que metade do que escreveu é mentira. No entanto, vou tentar ler a obra completa e depois já falaremos dela.
- Nem tudo que ele escreveu corresponderá à verdade; contudo, ele participou em muitas aventuras, percorreu muitas terras, conviveu com gente de outras latitudes e com culturas e religiões diferentes da sua. Mas com toda esta conversa ia-me esquecendo de te contar o que de facto aconteceu aquando do meu embarque para a Guiné-Bissau.
     Foi assim: antes do embarque, que ocorreu mais ou menos ao meio-dia, houve um grande desfile e depois disso ouviu-se um longo e fastidioso discurso, proferido por um oficial de alta patente. Duvido que os familiares dos soldados, ou os próprios, prestassem atenção àquilo (eu nem sequer sei de que falava); o que ouviam (e eu ouvi) era o bater forte de corações despedaçados; as lágrimas caindo estrepitosamente no chão; os gritos de mães, esposas, irmãos. O distinto militar não discursava para ninguém – representava o apagado papel de pobre declamador sem público!
     As senhoritas do Movimento Nacional Feminino por lá andavam, como abutres agoirando, pressagiando a desgraça, distribuindo sorrisos cínicos e de circunstância e alguns maços de tabaco aos meus parceiros de armas, cujo vício já carregavam, infelizmente, desde crianças!
     Uma banda militar tocou o hino nacional: «heróis do mar…», e o barco a afastar-se, a afastar-se… Nossos olhos, embaciados pelas lágrimas, procuravam sofregamente os rostos queridos dos familiares e amigos, das namoradas… Nunca mais voltaríamos a vê-los, pensávamos!

     Henrique estava profundamente emocionado. O que ouvia não era uma pequena história romanceada. Aquilo acontecera! Ao seu amigo e aos outros, a milhares de jovens portugueses. Após um prolongado silêncio, por fim reagiu:

- O que importa é que o Cândido voltou, e com saúde.
- Com saúde… nem por isso! Fiquei sem alguns dentes, com problemas de estômago, com… Enfim! Não vale a pena falar disso. Vou-te ler um soneto que escrevi recentemente sobre a partida, a que dei o título A Caminho da Guerra.
      
Naquele triste vinte de Janeiro,
Com correntes fortes, amordaçado,
Cabisbaixo, o peito destroçado,
Parte sofrendo o fraco guerrilheiro.

Manhã fria, manhã de nevoeiro,
Desenha a silhueta do soldado:
Estatura média, adelgaçado,
Um andar pacato, olhar ordeiro.

Sobe, a chorar, os degraus do paquete,
Do bolso das calças um branco lenço
Agita num gesto de despedida;

Com a mão esquerda brande o barrete.
Depois, já no navio, perde o senso…
E cai sobre a intermitente vida!

 

 

 






















quarta-feira, 23 de março de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO


MACRÓBIOS

    É difícil dizer quantos habitantes existem em Melgaço neste ano de 2016. Menos de dez mil pessoas a residir ali permanentemente tem de certeza. A maioria ultrapassa os sessenta e cinco anos de idade. Estes números impressionam, pois qualquer aprendiz de matemático chega à triste conclusão de que por este andar o concelho vai deixando paulatinamente de ter gente. No século vinte chegou a haver no nosso território melgacense mais de vinte mil criaturas! Algumas das freguesias já estão reduzidas a meia dúzia de moradores. As escolas do ensino primário, ou primeiro ciclo, encerram por falta de alunos, devido à ausência de nascimentos. A solução não está à vista. Como fixar casais jovens aqui se não houver empregos para eles? Contrariando todo este pessimismo existe o facto de as pessoas em Melgaço atingirem com alguma facilidade os cem anos de vida. Isso deve-se em parte a uma alimentação saudável, ares puros, águas não poluídas, a uma existência calma, longe do frenesi (ou frenesim) das cidades.    

 Eis alguns desses privilegiados:

Manuel Alves. Filho de José Alves, lavrador, e de Maria Pereira, doméstica. Nasceu na freguesia de Lamas de Mouro por volta de 1834. // Camponês. // Casou com Albina Domingues, de quem ficou viúvo. // Morou no lugar de Cima, Lamas de Mouro. // Faleceu nesse lugar a 11 de Julho de 1937, com cento e três anos de idade, e foi sepultado no cemitério da sua freguesia de nascimento (ver Notícias de Melgaço n.º 362). // Deixou bens. // Não fizera testamento. 

António Domingues. Filho de António Domingues e de Clara Domingues, moradores no lugar de Touça, Lamas de Mouro. Neto paterno de Manuel Domingues e de Maria Gregório; neto materno de António Domingues e de Maria José Afonso. Nasceu em Lamas de Mouro a 28/3/1873 e foi batizado na igreja católica local a 30 desse mês e ano. Padrinhos: António Domingues e Rosa Domingues. // Tinha 23 anos de idade, era solteiro, lavrador, morava no lugar de Cima, quando casou na igreja da sua freguesia, a 9/8/1896, com a sua parente no quarto grau de consanguinidade, Joaquina Rosa, de apenas dezassete anos de idade (o pai deu consentimento no acto do casamento), solteira, camponesa, filha de Manuel Joaquim Rodrigues e de Ana Joaquina Alves, do lugar de Cima, Lamas de Mouro. Testemunhas presentes: António José Alves, casado, lavrador, do lugar da Igreja, e António Joaquim Domingues, casado, lavrador, do lugar de Cima, ambos de Lamas de Mouro. // Faleceu na sua freguesia de nascimento a 14/2/1975 (confirmar), com cerca de 102 anos de idade!
     // Nota: deve ser o mesmo senhor que foi escolhido em Janeiro de 1918 para fazer parte da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Lamas de Mouro. Também foram nomeados: Joaquim Pereira, José Domingues, Joaquim Domingues Ferreiro e Manuel António Domingues. 


segunda-feira, 21 de março de 2016

SONETOS

Joaquim A. Rocha



A ninfa sedutora, branca estrela,
Sugerindo mais do que mostrando,
Seus avantajados peitos arfando,
Lembra-nos, no mar, a sereia bela.

Ninguém dava tostão furado por ela,
Nesse tempo do seu olhar nefando;
Tudo naquele palco vil ousando,
Só por milagre não deixou sequela.

Agora altiva, brava nos seduz,
  Olhos de deusa, a todos cativa;
Por onde passa deixa mansa luz...

Odor estranho lança ao ar a diva;
Seus cabelos no vento, sem capuz,
Lembram velas soltas na maré viva.