sexta-feira, 22 de março de 2019

LINA - Filha de Pã 
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 

 

 
 
9.º Capítulo
 

 

     O leitor deve perguntar amiúde: que é feito da filha da Lina, a Lisete? Eu explico: a rapariga, ao contrário da mãe, fez a quarta classe da instrução primária – lia e escrevia muito bem. No desenho, era a melhor. Sabia um bocadinho de História de Portugal, Geografia, Ciências da Natureza, etc. Tinha uma caligrafia bonita, bons raciocínios; via-se perfeitamente que descendia de alguém com um cérebro desenvolvido, bem apetrechado intelectualmente. Não herdara o apelido do seu progenitor, mas herdara-lhe os genes. Depois da instrução primária não estudou mais. Naquele tempo «de vacas magras» era difícil ir mais longe: os liceus estavam nas cidades, longe do campo, e assim a maioria da população não tinha acesso a esses estabelecimentos de ensino. Porém, ela não se quedara por ali. Alguns professores emprestavam-lhe livros de autores portugueses: romances e novelas, sobretudo do século XIX – Almeida Garrett, Júlio Diniz, Camilo, Eça, e outros – que ela devorava com avidez. Ajudava a avó Clara nas lides da casa, na horta, no que podia. Um dia a avó chamou-a e perguntou-lhe:

 

- Queres ir trabalhar para um hotel das Termas? São quatro meses. Precisam de empregados e consta que pagam bem.

- Não me importava, avó. Daria para arranjar uns dinheirinhos e conhecer outras pessoas. Dizem que há hóspedes muito notáveis ali.

- Até ministros e pessoas importantes da Igreja e dos negócios se vêem por lá! Vêm às Termas tratar das suas mazelas, apregoa-se por todo o país que as nossas águas minerais são milagrosas, já curaram muita gente.

- E acompanha-me, avó? Não gostava de ir sozinha.

- Eu já estou muito velha para andar, mas vou fazer um esforço. Se eu não puder, vai um dos teus tios contigo. Tu mereces, tens saído uma jóia de neta.    

- Obrigada, avó; o ordenado que ganhar é todo para si.

- Tens de ficar com algum para ti, para ires fazendo o enxoval. Eu já não devo andar cá por muito mais tempo e tu tens de pensar no teu futuro. Até pode ser que arranjes um namorado nesse lugar, mas tem cuidado, vê que não seja malandro.

- Eu ainda sou muito nova para pensar nisso.

- Vais fazer dezassete anos. A tua mãe ainda não tinha essa idade quando tu nasceste.
    


     A rapariga ficava melancólica quando mencionavam o nome da sua progenitora. Crescera praticamente sem a conhecer. Quando lhe dava um beijo sentia-o gélido, distante, como de uma desconhecida. Nunca entendera essa atitude. Tinha-lhe contado que o pai, um senhor juiz, não desejava que ela nascesse; fora ela, Lina, que se impusera para que a sua menina viesse a este mundo. Então por que não a amava, como as outras mães amam os seus filhos? Sempre se portara bem, fora boa estudante, dedicada, trabalhadora, e como paga tinha aquele desapego, aquela indiferença, quase como se não fosse filha dela. A avó tentava explicar-lhe que Lina nunca fora igual às outras crianças, talvez tivesse a ver com aquela imensa trovoada quando a estava a botar cá para fora. O céu estava zangado, faiscava por todo o lado, os trovões faziam-se ouvir a distância, as rajadas de vento levavam tudo pelos ares. Ela amedrontara-se deveras: sentira medo, imenso medo, e talvez esse temor se tivesse transmitido à filha que acabara de nascer. Só Deus o sabia. «São segredos da divindade, Lisete

 

- Mas, avó, os médicos nunca disseram nada sobre isso? Nunca se pronunciaram sobre o estranho caso?

- Os médicos são como nós, seres humanos; sabem o que aprenderam nas Escolas, nas Universidades, mas aquilo que está acima do nosso alcance, aquilo que nos transcende, só Deus e os anjos sabem!

- Como eu gostaria de saber todas essas coisas, avó!

- Nós somos pequeninos perante Deus. O Senhor vê tudo lá de cima, observa tudo que se passa à nossa volta, controla o nosso viver, e nós obedecemos à sua grandeza e sabedoria. Foi assim que nos ensinou o senhor abade e eu assim o creio.

- Eu também acredito, avó, mas penso que não é bom sermos observados a todo o momento! Será que podemos fazer alguma coisa sem Deus nos estar a ver? Assim não possuímos nenhuma liberdade!

- Nem precisamos dela, minha netinha. Para que a queríamos? Para nos tornarmos violentos? Se tivéssemos mais liberdade do aquela que temos, cada qual faria o que lhe desse na real gana e ninguém se entenderia. É melhor assim. Deus, a Igreja e o nosso Governo zelam por nós, estamos em segurança.    



    
 Clara ouvira essa lengalenga na catequese, no seu tempo de menina, e durante anos a fio na missa. Decorara algumas passagens da Bíblia, sobretudo do Novo Testamento, e agora procurava transmitir à neta os seus conhecimentos e até as suas inquietações.

 

- Avó, quando vamos ao Hotel?

- Pode ser já amanhã. Temos de nos levantar bem cedo. Mas dorme à vontade que eu acordo-te.  

 

     Clara levantou-se, ainda não eram sete da manhã; foi ver do gado, pôs a panela ao lume para ferver água, tinha de preparar a levedura dos porcos, e depois foi chamar o pessoal da casa: os dois irmãos - Alfredo e Joaquim -, solteirões, e os dois filhos – Acácio e Tomás - e as noras. A sua irmã Engrácia casara e fora com o marido para o estrangeiro, mais concretamente para a Argentina. Havia anos que não visitava a família, nem sequer mandava uma lembrança ou uma simples carta! As que Clara lhe enviara ultimamente vinham devolvidas, devido à morada não estar correta! Acontecera qualquer coisa de grave, o quê provavelmente nunca o saberia!

     Tinha de se cumprir a rotina diária: dar de comer aos porcos, às galinhas, aos coelhos, ir ao monte baldio com as ovelhas, cabras, duas vacas e uma novilha, enfim, tratar dos animais. Antes, porém, tinham de mugir as vacas; o leite seria para as sopas, que bem necessitados andavam de novas energias. Depois tinham os campos, a horta, a vinha… No mundo rural não sobrava tempo para a malandrice, toda a gente trabalhava: só quando chovia muito é que havia uma pausa.     

     Chegaram ao Hotel por volta das nove horas. O gerente recebeu a avó e a neta com delicadeza, perguntou-lhes ao que iam, e depois de esclarecido perguntou-lhes:

 

- Já sabem qual é o salário de uma rapariga que inicia a sua atividade?

 

     Quem respondeu foi a mais velha – assim fora combinado:

 

- Os senhores é que dizem quanto a minha neta vai ganhar. Ela nunca trabalhou para patrões, tem estado sempre em minha casa. Eu ensinei-lhe tudo, mas claro, a nossa casinha é muito pequena comparada com o Hotel. Se lhe ensinarem ela aprende depressa; a minha netinha até foi boa aluna, tem uma quarta classe muito bem conseguida.

 

    O gerente olhou fixamente para a moça, não lhe foi indiferente a sua formosura, como era possível existir, em uma freguesia rural, uma beldade daquelas? «Um fenómeno, um autêntico fenómeno» - pensou. Um cabelo aloirado a cair-lhe pelas costas, um rosto angelical, uns olhos azuis lindíssimos! Uma pérola. Perfeita. Uma verdadeira obra de arte. Iria ser disputada.

 

- Bem, para começar vamos dar-lhe quatrocentos escudos por mês; depois vai sendo aumentada conforme as suas aptidões. Além disso há gorjetas.

 

     A rapariga olhou para a avó, radiante, era muito dinheiro para quem nunca tinha recebido um centavo sequer. A senhora Clara disse ao gerente:

 

- A minha neta é uma boa menina, tratem-na bem.

 

     Abraçou a jovem com carinho, como em uma despedida, sabia os riscos que iria correr. Tinha-lhe dito o que sabia sobre a vida e os homens, mostrara-lhe exemplos, sobretudo o da mãe, que tantos malefícios lhe trouxeram. Que mais podia dizer-lhe?   

 

- Adeus minha querida netinha; respeita os patrões, os teus superiores, os hóspedes, os colegas, toda a gente, para que também te respeitem. Foge das intrigas como o diabo foge da cruz. E quando puderes vai visitar-nos: és nova, tens boas pernas, em uma hora pões-te lá.

 

     A rapariga, abraçada à avó, chorava copiosamente. Era a primeira vez que estaria fora de casa, sem a proteção dos seus parentes próximos. O gerente, comovido, diz-lhe:

 

- Tu ficas bem aqui connosco. Todos te vão respeitar. Nada receies. A senhora Clara pode ir descansada. Quando quiser e puder, venha visitá-la; ela terá um dia de folga por semana. Não se preocupem.

 

     A senhora Clara partiu com o coração destroçado: perdera o marido, a filha, pois estando viva era como se não existisse para ela; da irmã, Engrácia, nada sabia, deixara de escrever! Agora não queria perder a neta. «Adeus» - disse baixinho. «Que Deus te proteja

 

     A mocita depressa se ambientou. Havia no Hotel raparigas da mesma idade, ou pouco mais velhas, alegres, folgazonas, portadoras de uma alegria contagiante, e o ambiente era o melhor. Claro que existiam também empregadas mais idosas, mais sabichonas, intrometidas e até alcoviteiras, a tentar empurrá-las para a desgraça: «os hóspedes pagam bem», mas as raparigas, honestas, com a sua franqueza, a sua natural espontaneidade, iam ultrapassando essas barreiras.

     Naquele ano o Hotel estava a abarrotar de hóspedes – nem um quarto sequer ficara vazio. As águas minerais tratavam várias doenças, sobretudo a diabetes, e por isso eram procuradas por pessoas de todo o país, quer da classe média, quer da classe superior, e até galegos e outros espanhóis para ali vinham.

     Um desses hóspedes, homem de meia-idade, alto, espadaúdo, de cabelo grisalho, com barbas bem aparadas, parecia um fidalgo dos tempos da monarquia. A sua esposa era linda, apesar de rondar já os cinquenta anos de idade. Bem vestida, cabelo bem arranjado, toda pintada, parecia uma figura daqueles quadros do século dezanove que repousam nas paredes dos museus. Tinha um sorriso bonito, simpático, o qual contrastava um pouco com a sua indumentária.   

     À Lisete, ironia do destino, fora-lhe destinada aquela zona do Hotel onde o casal tinha o quarto. Encontrarem-se era uma questão de tempo. A rapariga usava a farda de serviço, branca e vermelha, que lhe caía maravilhosamente sobre aquele corpo escultural. Todos se metiam com ela: «Hoje ainda estás mais bonita do que ontem! Como se consegue essa proeza?» Ela apenas sorria. A sua avó dissera-lhe uma vez: «Um sorriso vale mais do que mil palavras.» Tinha razão a senhora Clara: os homens esboçavam um sorriso também e jamais ousaram dizer-lhe algo menos correto ou grosseiro. Respeitavam-na como se fosse uma deusa, uma criatura divina. No Hotel havia médicos, advogados, escritores, pintores, até um bispo, e todos a admiravam como obra-prima da natureza. «Que orgulho não devem sentir os seus pais» - diziam eles à mesa.

   

     O tal senhor de cabelos grisalhos, Juiz Conselheiro, ouviu gabar tanto a mocita das limpezas que quis conhecê-la. Já vira muitas mulheres, umas mais bonitas, outras mais feias, mas era a primeira vez na sua vida que notara que todos os homens ali presentes, sem exceção, a idolatravam. «Nem as santas têm esse privilégio» - ousou pensar. Um dia, quando ia a sair do quarto, encontrou-se com ela no corredor. Olhou-a fixamente e estremeceu: era a sua irmã, quando era pequena! Não podia ser. Deus, ou o Diabo, não lhe podiam pregar essa partida. Viera para Melcarte a fim de se curar da diabetes e não para se encontrar com almas do outro mundo. Estava lívido. Olhou-a nos olhos e disse-lhe com firmeza:

 

- Que estás aqui a fazer? Nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance para te salvar; nós não temos culpa da tua morte. Que queres de nós?!

 

     A rapariga ouviu aquilo tudo e sentiu medo – estava perante um louco. Ia gritar, mas a voz embargou-se, sumiu-se por completo. Passado uns segundos, e vendo que ele não avançava, atreveu-se a dizer:

 

- O senhor está enganado; eu sou a Lisete, filha da senhora Lina e neta da senhora Clara. 

 

     O homem ficou ainda mais pálido, se possível: recuou no tempo dezoito anos, era ele juiz em Melcarte, solteiro; tinha uma empregada, rapariga de dezasseis anos, virgem, chamada Lina. Fizera-a sua amante e geraram um filho ou uma filha, ele nunca soubera. Estava ali, a dois passos, a lembrar-lhe que o crime – seja ele qual for –, será descoberto um dia. Tirou da carteira uma fotografia e mostrou-lha:

 

- Achas-te parecida com ela?

 

     Lisete olhou atentamente para a fotografia e ficou atónita. Disse:

 

- Essa sou eu! Tirou-me um retrato sem eu saber; vou dizer aos meus patrões.

- Olha melhor para ela – solicita. Repara na roupa. Alguma vez esse vestido te pertenceu?     

- Não, nunca tive essa roupa, mas é a minha cara, o meu corpo…

- É a minha irmã, quando era da tua idade. Eu, sou…

 

     As lágrimas corriam-lhe pelas faces, não o deixando continuar a conversa. Ela olhou para ele, para aqueles olhos iguais aos dela, aquela testa grande, escondendo um cérebro enorme, aquela boca perfeita, e gritou:

 

- O senhor é o meu pai! Meu pai!

 

     Logo a seguir desmaiou. Aos gritos acudiram os empregados, hóspedes, proprietários do Hotel, toda a gente. Deitaram-na em uma cama. Um dos hóspedes era médico e observou-a:

 

- Sofreu um choque muito grande, o seu coraçãozinho andou para aqui aos saltos. Temos de a transportar para o Hospital.

 

     O pai da Lisete, a chorar, pediu ao médico:

 

- Não ma deixe morrer, doutor; é minha filha!
 

    
Todos ficaram a olhar para ele, pensando que estava embriagado ou louco. A empregada de limpeza sua filha! Ele, um juiz conselheiro, pai de uma simples empregada de Hotel. Coitado!
// continua...

quarta-feira, 20 de março de 2019

OS NOVOS LUSÍADAS

                                                                  Por Joaquim A. Rocha





 
1.ª Parte
 
 
21
 

Gigantesco Brasil, terra ubérrima,

Donde mana toda a fertilidade;

Trepidante, mais doce do que acérrima,

 Terra da florescente cristandade.

Gente suave, mais do que aspérrima,

Melhorando com o tempo, a idade.

Ai quem me dera cantar-te em verso,

A ti, que és maior do que o universo.

 

22

 

Esqueçamos o alegre Brasil,

Percorramos cem terras, novos mundos,

Vamos à caça da pimenta e anil,

Doutros sonhos mais nobres e fecundos.

Comprar bugigangas por um ceitil,

Enfrentar aqueles rostos iracundos.

Mostrar-lhes que a nação portuguesa

É tenaz em guerra, meiga na justeza.

 

23

 

No tempo do rei Dom João terceiro,

Os lusos foram à Nova Guiné,

Queriam conhecer o mundo inteiro,

Imbuídos de garra e muita fé…

Buscavam a fama, algum dinheiro,

Pimenta, canela, o bom café.

Na mão transportavam a dura cruz

Os arautos do sonhador Jesus.

24


Atingiram as costas do Japão,

Conquistaram as ilhas Molucas…

Celebes, Sonda, são de Dom João,

As ondas do mar tornam-se eunucas.

Misturam realidade e ficção,

Como o evangelho de São Lucas.

Ai quem nos dera a nós lá estar

Para ver na praia o barco zarpar.

 

25

 

Cada viagem é uma aventura,

Cada naufrágio uma desgraça;

Navegam entre coragem… loucura,

Entre o grave-sério e a chalaça. 

Morrem de fome, sede, de secura,

Na conquista de Quíloa e Mombaça.

E para prolongar a imensa dor

Combatem por Cochim e Cananor. 
 
 
 

domingo, 17 de março de 2019

MELGAÇO: Padres, Monges e Frades
 
Por Joaquim A. Rocha




capela da Senhora da Pastoriza


COISAS DA HISTÓRIA

As Nossas Paróquias

 

     A origem das nossas paróquias remonta aos primeiros séculos do cristianismo. No século IV principiaram a germinar as primeiras paróquias, organizadas pela pregação evangélica, cuja ação evangelizadora se estendia até às povoações rurais. No concílio de Lugo, convocado no ano de 569, foram atribuídas ao arcebispado de Braga aproximadamente trinta paróquias. A invasão muçulmana veio no século VIII interromper esta organização católica e social, concentrando a vida da época dentro de curtos limites; o amor da independência e a crença religiosa, duas molas sobre as quais girava a sociedade constituída pelos sucessos de Pelágio, primeira [sede] da reconquista peninsular. As lutas então travadas pelos cristãos que haviam escapado à destruição do império gótico nas Espanhas fizeram dividir o solo reconquistado em pequenos senhorios, defendidos pelo castelo (ou casa forte) a par do qual era edificada uma igreja ou um mosteiro. A crença religiosa, não menos do que o amor da independência, influiu na organização das nossas paróquias, estendendo a sua ação desde a pequena igreja de Covadonga até à ampla igreja estilo renascença, edificada no último quartel do século XVIII. Algumas devem a sua origem à fundação de mosteiros, assim como as freguesias de Fiães e Paderne, deste concelho (*), enquanto outras trazem a sua origem de simples capelas ou oratórios. Estas capelas, ou oratórios, umas eram curatos de mosteiros, e pelo qual eram sujeitas ao clero regular; outras eram sujeitas às igrejas de primeira categoria, que recebiam os rendimentos, fazendo-se substituir por um cura, ou vigário, a quem davam uma parca remuneração. Nesta situação, encontramos, a partir do século XIII, uma grande parte das freguesias que hoje fazem parte do concelho de Melgaço; entre elas a freguesia de Alvaredo, Cousso, Cubalhão, Gave, Parada do Monte, Prado e Remoães, freguesias que no século XIII e seguintes viveram escravizadas, ou anexas, às igrejas de primeira categoria. Assim, Alvaredo, curato anual do mosteiro de São Fins, onde o cura, com o título de vigário, tinha para sua sustentação oito mil réis de côngrua e o pé d’altar, rendendo para os religiosos do mosteiro cento e vinte mil réis! Cousso, simples curato do mosteiro do Salvador de Paderne, com um cura anual, que recebia seis mil réis em dinheiro, pagos pelo prior do mosteiro, e dois mil réis da comenda de São Pedro de Riba do Mouro, por este lhe curar um lugar da sua freguesia, que hoje pertence à freguesia de Cousso. Cubalhão também era um curato do mesmo mosteiro, cujo cura anual tinha como sua remuneração as benesses da igreja, enquanto os religiosos tinham para si os dízimos. Gave, freguesia anexa a Riba de Mouro, tendo o cura como remuneração as benesses da igreja, e cinco mil réis em dinheiro, pagos pelo reitor de Riba do Mouro, ficando os dízimos para a comenda desta freguesia. Parada do Monte, também uma filial da igreja de Riba de Mouro, onde o cura, com o título de vigário, recebia cinco mil réis e o pé d’altar para sua sustentação, pagos pelo reitor de Riba de Mouro, ficando este com os restantes rendimentos. Prado e Remoães, duas freguesias também anexas ou subalternas à igreja de São Paio, onde os seus curas, com o título de vigários, tinham como remuneração do seu trabalho oito mil réis de côngrua e o pé d’altar. Quanto aos restantes rendimentos, eram divididos em quatro partes, sendo uma para o abade de São Paio, outra – chamada renda do castelo, ou da Casa de Bragança – ficando as duas restantes para a Mesa Arquiepiscopal. As freguesias assim constituídas viviam, se isto era viver, em um estado muito inferior; não só pela sujeição, como também pela parca remuneração, só conseguindo com curas, eclesiásticos menos ilustrados e menos competentes. Estas anexações foram suprimidas, a partir do século XVI, ficando como recordação àquelas igrejas que as dominaram, o direito de apresentação, surgindo uma nova esfera de luz para estas freguesias assim constituídas.» // Afonso. = Notícias de Melgaço n.º 855, de 25/04/1948, página 4. /// (*) Fiães e Paderne só passaram a ser freguesias de Melgaço depois de 1834.
 


igreja do convento das Carvalhiças (SMP) 

 

ABREU, António José (Padre). // Na década de quarenta do século XVIII assinou o requerimento que solicitava ao Ministro Provincial que enviasse para Melgaço alguns irmãos franciscanos, o que de facto aconteceu (Obras Completas de Augusto César Esteves, volume I, tomo II, página 380). // Morreu na Vila de Melgaço a 19/5/1759.


ABREU, Bernardo (Frei). // Filho de Leão José Gomes de Abreu e de Maria Pereira da Costa Araújo, e irmão de Tomaz José Gomes de Abreu. Nasceu na vila de Melgaço no século XVIII. // Professou na Ordem dos frades menores, no Convento de São Francisco, Porto, e passou a usar o nome de frei Bernardo de Nossa Senhora da Orada. // Morreu na Calçada, SMP, a 15/6/1824, de repente, e foi sepultado no convento das Carvalhiças.    
 

ABREU, Constantino Gomes (Padre). Filho de Manuel Esteves da Costa e de Isabel Gomes de Abreu (confirmar). // Residiu na Bouça de Chaviães. // Ingressou na Confraria das Almas da Vila de Melgaço a 5/11/1720. // Morreu na Vila de Melgaço a 2/7/1771 e jaz na igreja matriz de SMP. // Irmão do padre Francisco.
 
 
ABREU, Diogo Manuel Alves (Padre). Filho de Ângelo Alves de Abreu, do lugar da Nogueira, Chaviães, e de -----------------------. // Irmão de Miguel Caetano Álvares, casado com Antónia Maria de Araújo Azevedo Gomes, e tio do padre Francisco Manuel Álvares Azevedo. // Foi cura de Chaviães no século XVIII e XIX.      A 22/1/1819, na igreja de Chaviães, foi padrinho de Carlota Rosa da Conceição, nascida nesse dito dia, filha de António Joaquim de Sousa Gama e de Joana Maria Gomes de Abreu. // A 26/1/1842, na igreja de Chaviães, foi padrinho de José Maria, nascido em Chaviães a 14 daquele mês e ano, filho de Romão Fernandes e de Maria Josefa Ribeira, galegos, moradores em casa dele, padre Diogo Manuel, talvez como seus caseiros. // A 15/5/1852 vendeu a Manuel José Esteves (Melgaço), natural de Chaviães, a sua quinta de Eiró de Cima.   
 



ABREU, Domingos Gomes (Frei). Filho do alferes Domingos Gomes de Abreu e de Francisca Coelho da Rosa [Novais]. Nasceu na casa fronteira à Misericórdia a 21/1/1668. // Foi admitido na Confraria das Almas da Vila de Melgaço a 8/2/1692. // Armaram-no cavaleiro da Ordem de Cristo na igreja da Senhora da Conceição de Lisboa, a 31/12/1692, professando na mesma Ordem a 9/2/1693, no Convento de Tomar. Tinha de tença anual 30.000 réis. // Foi familiar do Santo Ofício e Feitor Geral das Alfândegas de Entre Douro e Minho. // Casou em Lapela, a 28/11/1700, com Isabel de Faria, natural de Monção. // Em 1701 foi-lhe concedida carta de armas, fidalguia e nobreza, com que aformoseou as Casas de Melgaço (fronteira à igreja da Santa Casa da Misericórdia) e de Lapela. // A 19/8/1705, por carta patente da regente Catarina de Bragança, foi nomeado Capitão das Ordenanças, cargo que exerceu até à data do falecimento. // Era provedor da SCMM em 1706. // Em consequência de um voto que fez aquando da Guerra de Sucessão de Espanha, na Galiza, onde fora preso e torturado como espião, edificou no Coto da Pedreira a capela da Pastoris, ou Pastoriza, cuja provisão lhe foi concedida em Melgaço a 6/6/1707 pelo arcebispo Dom Rodrigo Moura Teles, e a autorização para ocupar o sítio - que era público e baldio - despachada pelo senado municipal a 21/1/1713. A capela, porém, apenas ficaria concluída em 1727, pois só a 17 de Agosto desse ano é que o abade de Rouças, padre Manuel Cunha Lira, a benzeu e nela cantou a 1.ª missa. 

 

 

sexta-feira, 15 de março de 2019

SONETOS DO SOL E DA LUA
 
Por Joaquim A. Rocha




Capa Negra

 
 

Deslizava pela estreita rua,

Como movida pelo norte vento;

Na cabeça ondas de pensamento,

Eclipses da terra, do sol e lua.

 

Chamaram por ela… pára, amua,

Transforma-se em choro e lamento;

Assoa o nariz num lenço cinzento,

Fica frágil, como estátua nua.

 

Tento aproximar-me, protege-la,

Levá-la para um lugar seguro;

Para a ilha mais linda, mais bela…

 

Onde o ar seja respirável, puro.

Sem anjos, serafins, deuses, capela,

Sem tronos, sem medos, sem nenhum muro.



 
 

 

 

 

 

 


quarta-feira, 13 de março de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







AFOGAMENTOS
 

          A água é essencial à vida, mas por vezes esquece-se do seu papel e mata. Não o faz por vingança, ou por qualquer outro motivo, mas sim por passividade. Os oceanos, mares, rios, regatos, etc., não pedem a ninguém para ali acabarem seus dias; são os seres vivos que se servem da água como se fosse uma poderosa arma de extermínio. As grandes batalhas marítimas, a pirataria, os chamados descobrimentos, serviram-se dela para no seu seio sepultarem milhares e milhares de corpos. Segundo algumas religiões, o corpo desses infelizes vai para o inferno, a fim de servirem o senhor dos subterrâneos. A mitologia é rica neste tema. A morte sempre suscitou curiosidade aos humanos. Depois dela para onde se vai. Eu, por graça, digo: vão para o cemitério. É óbvio que aqueles que deixam obra de vulto serão lembrados pelos séculos fora; os outros serão esquecidos, apenas um simples papel no Arquivo Distrital prova que eles nasceram e morreram.      


// GAMA, Luís Manuel. Filho de Maria Joaquina de Sousa Gama, solteira, lavradora, residente na Charneca, e de Manuel Caetano Ferreira Domingues, viúvo. Neto paterno de Manuel Luís Domingues e de Vicência Rosa Ferreira; neto materno de Francisca de Puga. Nasceu em Alvaredo a 2/4/1863 e foi batizado na igreja a 12 desse mês e ano. Padrinhos: Luís Manuel Alves Sanches e Maria do Patrocínio Domingues de Freitas, casados, lavradores, de Bouças. // Morou no lugar do Maninho. // Morreu afogado no rio Minho, no sítio das Bouças, a 29/6/1893, no estado de solteiro, sem testamento, sem geração, e nesse dia foi sepultado na igreja paroquial. 

     // RAMOS, Gregório Ventura. Filho de António Joaquim Alves Ramos e de Ana Luísa Gomes Exposta, moradores no lugar de Soengas, freguesia de Chaviães. Neto paterno de Caetana Rosa, do dito lugar. Nasceu em Chaviães a 13/4/1852 e foi batizado na igreja pelo padre JLBC no dia seguinte. Padrinhos: o padre Gregório Ventura Gomes e sua irmã, Maria Rosa Gomes, solteira, do lugar da Igreja, Chaviães. // Lavrador. // Casou na igreja da sua freguesia natal a 2/6/1879 com Maria Joaquina Pinto, de vinte e dois anos de idade, solteira, sua conterrânea, moradora no lugar de Cotos, filha de José Narciso Pinto e de Teresa Joaquina Alves. Testemunhas: Manuel António Pinto e Cândida Maria Alves, solteiros, lavradores, chavianenses. // Morreu afogado no rio Minho, a 12/6/1899, entre as seis e sete horas da manhã, no sítio da pesqueira do Conle, limites da freguesia de Chaviães, «na ocasião de ir em um batel para redar uma outra pesqueira, chamada o “Brandeiro”»; morava no lugar dos Cotos; não fizera testamento, e depois de autopsiado o seu cadáver foi sepultado ao anoitecer do dia 18 desse mês e ano no adro da igreja. // Com geração.

     // DOMINGUES, Joaquina Rosa. Filha de Manuel António Domingues e de Rosa Maria de Castro, moradores no lugar de Carvalha Furada. Neta paterna de Diogo Manuel Domingues e de Maria de Castro, do dito lugar; neta materna de Manuel Caetano de Castro e de Maria Gertrudes Lourenço, de Barreiros. Nasceu em São Paio a 15/2/1846 e foi batizada a 19 desse mês e ano. Padrinhos: Joaquim Domingues e sua mulher, Antónia Maria de Castro, do lugar do Regueiro. // Camponesa. // Casou a 7/3/1883 com Manuel José Soares, de 38 anos de idade, solteiro, lavrador, filho de Francisco José Soares e de Maria Luísa Marques, moradores que foram no lugar de Cavaleiro Alvo. // Faleceu a 10/8/1901, às sete horas da tarde, no lugar de Cavaleiro Alvo, sem quaisquer sacramentos, devido a ter morte por afogamento, no estado de casada, sem testamento, com filhos, e foi sepultada no adro da igreja.