domingo, 15 de maio de 2016

MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS
Por Augusto César Esteves


continuação - ver em 12/4/2016...

         Era respeitado, mas nunca foi rico Belchior Rodrigues Torres. E as suas terrinhas, no último decénio da vida, eram tão poucas que não chegavam para pagar o capital e juros devidos à Misericórdia, uns parcos 405$000 réis, ao todo, falidos como estavam seus fiadores. Mas se algum dia lhe entrou a fome no lar, dele não fugiu a virtude e precisamente por isso e por ter sob o pátrio poder quatro filhas, todas donzelas e virtuosas, Lina, Josefa, Vitória e Maria Joaquina, a Mesa da Santa Casa, espontaneamente, perdoou-lhe cem mil réis, exigindo embora daqueles e de seus irmãos a segurança do resto da dívida com dinheiro e dentro de dois meses, como o fez consignar na acta de 20/3/1795. Desta crise safou-se; contudo, antes de morrer…, e as situações (sic), económica e financeira do filho António Xavier, foram já muito outras. À sua morte partilharam-se bens nas Carvalhiças e em São Paio, afora as casas da vila, uma delas na rua da Lágea.
       Era tal a situação económica e o seu aprumo na sociedade, que ambos lhe permitiram colocar bem os filhos. Um, José Joaquim, foi presbítero secular e outro, João Manuel, um dos boticários da terra e seu sucessor na escrivania dos órfãos, para cujo exercício o afiançou seu irmão doutor em 30/10/1833. // A filha, D. Joaquina, casou-a com o fidalgo da Quinta da Moreira, D. Pedro Vasques de Puga, Cavaleiro Mor da Real Mestrança e o mais velho, o Dr. Miguel Caetano, como advogado distinto, estava a criar a sua nobreza por via das letras. Mas se pelo lado paterno a nobreza era forjada diariamente pelo advogado, por sua mãe D. Gaspara Joaquina Podré, o Dr. Miguel Caetano estava aparentado com várias casas fidalgas da terra e podia gloriar-se de sentir girar nas veias dos pulsos o sangue herdado de bons servidores da pátria e de outras grandes figuras deste cantinho minhoto.
       O autor destas linhas, melgacense como ele e, como ele, bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra, no mesmo tribunal grilheta do cargo exercido pelo pai e pelo avô, presta agora sentido preito de homenagem às suas nobres virtudes de bondade e de patriotismo, relatando aqui, singelamente, feitos de seus antepassados maternos.
       O Padre Lorenzo Pereira de Araújo – no tempo dos Filipes muitos padres portugueses pastorearam ovelhas galegas e este foi um deles – abade de Santa Maria de Leirado, na Galiza, instituiu em 9/10/1641 em São Pedro da Torre, junto de Valença, uma capela a Nossa Senhora do Rosário e às Almas do Purgatório, com os bens que ali possuía. Duas missas em cada semana, uma às segundas-feiras pelas almas e a outra aos sábados a Nossa Senhora, Virgem Santíssima.
        O padre Lorenzo tinha uma irmã, D. Constança Rodrigues Pereira de Araújo, já casada com João Lopes Ribas. Um seu filho, João Lopes Ribas de Araújo casou com Sabina da Ribeira por volta de 1640 e uma sua neta, Isabel de nome, consorciou-se com Domingos Rodrigues de Araújo, escrivão dos armazéns e mantimentos da praça de Melgaço durante trinta anos, seis meses e um dia, contados desde 1/1/1665 até 1/7/1705, isto é, desde o princípio do ano da batalha de Montes Claros, na guerra da Restauração, no reinado de D. Afonso VI até quase ao final do reinado de D. Pedro II, em plena guerra da sucessão ao trono de Espanha. / No ciclo de ambas estas guerras, no termo de Melgaço aquartelaram-se, por vezes, muitas tropas. Nas épocas mais acesas das lutas houve trincheiras abertas e guarnecidas de soldados nos Montes de Prado e Remoães, desde Cevide, junto a São Gregório, até ao Porto dos Asnos ou dos Cavaleiros, lá para as terras de Lamas de Mouro. Mais a bem que a mal os lavradores do termo e dos vizinhos, e sobretudo de Paredes de Coura, forneciam aos serviços auxiliares da tropa a carne de porco e as galinhas vadias, criadas no decurso do ano, mais o trigo e o milho, o feijão e as couves, tudo quanto, afinal, arrancara do seio ubérrimo da terra minhota a família deixada livre dos lazeres da guerra pelos recrutamentos. Reuniam-se na vila todos estes abastecimentos e conforme as necessidades repartiam-se pelas tropas. // Numa destas épocas, dia a dia frei Domingos Gomes de Abreu apresentava ao Juiz de Fora, Licenciado Brás Rodrigues Pereira, as requisições de gentes para a condução dos mesmos ao Porto de Cavaleiros e a fazer os lançamentos nos livros mestres da escrita esteve sempre aquele Rodrigues de Araújo, mudasse muito embora o requisitante dos carregadores ou o juiz.
   Domingos era filho de João Rodrigues de Araújo e de sua mulher Isabel Gomes, moradores no Campo da Feira, que em 12/4/1615 compraram alguns bens sitos no Viso, freguesia de Chaviães, como o documentaram num livro de notas de Gonçalo Rodrigues de Araújo. Da sua numerosa prole, Mariana de Jesus casou com o capitão João de Araújo Azevedo, natural dos Bouços, de Prado, filho de Francisco Trancoso. Em 1703 viviam eles na quinta de Carvalho do Lobo, constituída por alguns campos de rega e lima e por montado.
   João de Araújo Azevedo desempenhou o cargo de capitão de Ordenanças desde os fins do reinado de D. Pedro II até 1/3/1715, já depois de ter findado a Guerra da Sucessão ao trono de Espanha. Era um bravo. Em 1706, logo no início da campanha, foi destacado para o Porto de Cavaleiros e aí, abertos troços de trincheiras sob a sua direcção e com o fim de impedir a invasão de Portugal pelos galegos, guarneceu o posto de Ramais, que deve ficar por ali. Numa madrugada, porém, o inimigo intentou assaltá-lo, empregando até peças de artilharia. Sob o seu comando, a custo embora, e com muito risco, foi o mesmo rechaçado, porque a sua companhia conseguiu ocupar debaixo de fogo o lugar de mor perigo, o posto mais vizinho da bateria atacante, mas nesta acção uma bala o feriu numa das pernas.
   Em mil setecentos e sete, comandando trezentos homens, acompanhou o próprio Comandante das Armas da Província, D. Sancho de Faro e Sousa que, com cavalaria e infantaria, invadiu a Galiza, saqueando alguns lugares. E como as forças inimigas se acolheram ao forte de Monte Redondo, o capitão as sitiou com uma força de cem homens da sua companhia e de forma tal se houve que os contrários logo se renderam. Na ânsia de os dominar fez-lhes uma investida e, levado pelo entusiasmo, foi o primeiro a saltar para dentro do reduto inimigo e embora a sua vida tivesse corrido sérios riscos, desta proeza trouxe ele consigo mais de cinquenta prisioneiros.

   Da acção, todavia, saiu com duas feridas na cabeça, mas coberto de glória e de tanto prestígio, que ao seu cuidado se confiou logo a guarnição de duas léguas da raia. Desinteressado como era, de qualquer destas campanhas a sua fazenda saiu sempre com grande detrimento. Foi do casamento de seu filho Francisco de Araújo Podré com D. Maria Rosa Puga Saavedra, da falada quinta da Moreira em Cecliños, que nasceu a mãe do Dr. Miguel Caetano. Por outro lado, no pequeno recanto da Barbosa, naquele ridente mirante sobranceiro à Calçada, vivia descuidada Paula de Abreu, moça solteira e galante. A lindar com o pequeno quintal de sua casa, para os lados do velho caminho da Vila, pela Orada, para Puente Barjas, frente a São Gregório, em declive e socalcada estendia-se a pequena Quinta de São Gião, já no tempo de D. Sancho II retiro forçado dos gafos do termo, como se induz deste documento extraído do Livro das Datas do Mosteiro de Fiães:   // continua...

quinta-feira, 12 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Concebido e organizado por Joaquim A. Rocha



escritores melgacenses


- SOARES, Aldomar Rodrigues (Mário de Prado). Filho de Emília dos Prazeres [Rodrigues], solteira, doméstica, do lugar do Cerdedo, Prado, e de Luís Cândido Soares, solteiro, lavrador, do lugar do Buraco, Prado, onde morava. Neto paterno de Florêncio Soares (Pata), lavrador, da Vila, e de Ludovina Rosa Alves, do lugar do Buraco, Prado, onde moravam; neto materno de Vitória da Purificação Fernandes, doméstica, de Prado. Bisneto pela parte paterna de Maria Teresa de Magalhães. Nasceu no lugar do Cerdedo, Prado, a 10/9/1913, tendo por parteira Joana Rosa Gomes, do lugar da Breia, e foi batizado a 3 de Outubro desse ano. Padrinhos: Abílio Augusto Domingues e Felicidade Pinheiro. Testemunhas do seu registo na Conservatória do Registo Civil de Melgaço: António da Silva Cintrão, casado, lavrador, Isidoro Artur do Paço, cocheiro, ambos moradores na Vila, e Manuel José Ferreira, solteiro, lavrador, de Sante, Paderne. (A declaração de nascimento foi feita pelos seus pais, os quais declararam reconhecê-lo como seu filho para todos os efeitos legais). Todos assinaram, à exceção da mãe do Aldomar, por não saber. // A 17/11/1918 foi admitido na Confraria das Almas de Prado. // Aprendeu as primeiras letras na escola do Pombal com o professor José Caetano Gomes, transitando em seguida para a escola da Vila, cuja professora era Ana Cândida Magalhães de Barros. Dali mudou-se para a escola de Rouças, tendo por professor Rodolfo Augusto Esteves, sendo por este proposto a exame em 1925. Frequentou também o ensino particular, recebendo aulas de Agostinho Fernandes de Barros. // Fez a 1.ª comunhão na igreja de SMP a 30/5/1922. // Entre 1925 e 1927 foi aprendiz de serralheiro na oficina de Manuel Pereira, mais conhecido por “Manuel dos Ovos”, que nesse ano de 1927 encerrou a oficina a fim de emigrar para o Brasil. // Aprendeu música com Mestre Morais em 1928 e 1929, tocando clarinete e depois saxofone. Fez parte do “Orfeão Melgacense.“ // Residiu sucessivamente nos lugares de Cerdedo, Ferreiros, e Buraco, da freguesia de Prado, e na freguesia da Vila: Carvalhiças, Galvão, Corujeiras, e de novo em Galvão, até Janeiro de 1930, data em que emigrou para a Galiza, onde residiu em Mandelos e Eira, lugares da freguesia de Cecrinhos; depois em Quintela, e finalmente em Berducido de Redondela. Emigrou para França a 8/8/1930, fixando-se em Toulouse, onde se encontrava seu pai, regressando a Portugal a 5/8/1935. // Assentou praça na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, a 3/3/1936, ficando com o n.º 90, tendo sido colocado na 1.ª Companhia (Transmissões), onde – a 22/5/1936 – fez exame do 1.º curso de habilitação das escolas regimentais. A 8/7/1937 fez exame do 2.º curso, e em 16 do mesmo mês e ano foi promovido a 2.º cabo; a 26/1/1938 foi promovido a 1.º cabo. A 15/6/1940 fez exame do 3.º curso, obtendo 12,5 valores. Passou à disponibilidade a 1/2/1941, sendo nessa data promovido a furriel miliciano. // Alistou-se na Polícia de Segurança Pública de Lisboa a 4/2/1941 (Notícias de Melgaço n.º 530). // Casou na 4.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa a 25/11/1943 com Aurora Augusta, também de Prado, filha de José Faustino e de Maria Francisca Domingues, ficando a residir na Rua Maestro António Taborda, 68-1.º; casaram na igreja de Prado a 28/2/1952, tendo sido celebrantes os padres Justino Domingues, pároco da Vila, e Firmino Augusto Gonçalves, pároco de Prado. // Adoeceu com meningite a 16/12/1946, do que lhe havia de resultar surdez total e paralisia do flanco direito. Foi tratado no hospital Curry Cabral, Rego, Lisboa. Lê-se no “Notícias de Melgaço n.º 815, de 27/4/1947: «do hospital Curry Cabral, onde sentia umas ligeiras melhoras, transitou para o Serviço II do hospital de Santo António dos Capuchos.» // Devido à doença, foi dispensado da PSP, a 7/7/1947, regressando a Melgaço a 18/7/1947, passando a residir sucessivamente em Galvão, freguesia da Vila, Serra e Rego, freguesia de Prado. // Entrou no hospital de Santo António do Porto a 19/4/1955, do qual regressou a 17 de Maio desse ano. // Faleceu na sua casa, em Prado, na noite de 6 para 7/9/1962. // A sua viúva finou-se a 23/6/1999, com 81 anos de idade, em Queluz, em casa da filha (A Voz de Melgaço n.º 1118). // Pai de dois filhos: Carlos Alberto, nascido em Lisboa em 1944, e Maria Luísa, nascida em Prado alguns anos depois. // Colaborara em “A Voz de Melgaço” desde o primeiro número, onde deixou escritos de grande interesse histórico; alguns desses artigos foram reunidos pelo padre Júlio Vaz, e editados em livro em 1996 com o título “Padre Júlio Vaz Apresenta Mário”. Também deixou alguns poemas, revelando-nos o seu sentir face às coisas que o atormentavam. Soube, como poucos, suportar a dor, a adversidade, transformando a desgraça em hino à capacidade de realização. Este homem, com a sua imensa vontade e talento, teria sido tudo, desde que as oportunidades surgissem; mas como nasceu pobre, e os poderosos a estes fecham sempre a porta, o “Mário” só furou até onde pôde, mesmo assim legou-nos mais, muito mais, do que lhe seria exigido. Outros, ricos e anafados, na hora da morte só deixam os cofres abarrotados de notas de banco. Ele deixou-nos a sua obra, embora incompleta e imperfeita, como todas as obras.           


segunda-feira, 9 de maio de 2016

LEMBRANÇAS AMARGAS

romance

Por Joaquim A. Rocha


// continuação (ver em 5/4/2016).

- Quem foi o pai, desta vez?!
- O Rodolfo de Tronços, filho do dono da mercearia, era todo atiradiço, enganou uma data de raparigas, espero que não lhe façam o mesmo às filhas, não respeitava ninguém.
- Não me diga que ele a forçou?!
- Não, de maneira nenhuma, mas prometeu-me casamento, fartou-se de dizer mal do outro, e eu fui no engodo; desejava arrumar a minha vida, mas dava sempre com estes garotos, engravidavam-me e depois já não queriam nada comigo, até parece que eu tinha lepra.
- Seis anos depois nasceu o Olavo.
- Nessa altura já eu deixara Tronços, fui servir para Cendre, para casa de uma velhota, isto por volta de 1939. Ali perto trabalhavam como caseiros de uma quinta os pais do teu pai, o Agostinho Meliças e a sua mulher, Mariana. Só tinham um filho, o Olavo Augusto, que depois veio a ser o vosso pai. Eu não lhe ligava nenhuma, porque ele era uma criança à minha beira, tinha menos doze anos do que eu, nascera em 1920. Andava atrás de mim como o gato anda atrás da gata na época do cio, não me largava, dizia-me que a diferença de idades não interessava, que casava comigo, podíamos viver ali em Cendre, ele ganhava algum dinheiro no contrabando e eu trataria da casa.
- Mais uma vez caiu na esparrela!
- Dizem que gato escaldado até do frio tem medo, mas eu não aprendia, cabeça oca, pensava que devia haver no mundo alguém, um homem bom e sincero que gostasse verdadeiramente de mim, que não me enganaria, que me respeitaria como mulher, apesar de já ter tido quatro filhos de quatro homens diferentes; enganei-me mais uma vez, fiquei grávida do teu irmão; em Setembro de 1941 ele nasceu e eu continuava solteira como antes. Eu chorava, mas ele não se comovia. Arrendámos uma velha casa, muita pequeninha, perto do posto da Guarda-Fiscal, e passámos a viver ali, embora ele poucas vezes lá ficasse, dizia que tinha de dormir em casa dos pais, ajudá-los na lavoura, porque estavam a ficar velhos. Conversa, ele tinha era outra, uma da idade dele, eu já devia calcular.
- Passou então a haver cenas de ciúmes.
- Bueno, bueno! Quase todos os dias; o estroina aparecia, vinha encher a mula, andava sempre esfomeado, e depois dizia que tinha de ir aqui ou ali, só para não me ouvir. Eu enchia-me de esgaravatar: a vender peixe, a contrabandear, e ele não me ajudava nada, ao invés, vinha comer o suor do meu rosto.
- Acabou por ficar grávida de mim!
- Tu foste o último filho que eu tive, um meia-leca, e era para não teres nascido, ainda pensei em abortar, as vizinhas aconselharam-mo: «ó mulher, não sejas doida, mais um filho arruína-te, desgraça-te; o melhor será abortares, ali a Dolores tem mão para isso.» O teu pai já estava zangado comigo, a bem dizer já nem nos víamos, ele passava muito tempo com a namorada galega, ela já devia estar grávida também, até parece que o embruxou, ele nunca mais foi o mesmo para mim depois de a conhecer.
- Por que é que ele não perfilhou o vosso primeiro filho, o Olavo?
- Bem, nós estávamos a muita distância, quase a dez quilómetros da sede do concelho, onde se encontrava o Registo Civil, e ele era muito comodista, não queria lá ir, prometia sempre, nunca disse que não ia, mas quando chegava a altura, dava sempre uma desculpa, eu também não insistia muito porque toda a gente sabia que o teu irmão era filho dele.
- Quando eu nasci…
- Quando tu nasceste fui falar com ele e implorei-lhe que vos perfilhasse, não figurardes com nome de pai podia ter implicações no vosso futuro, mas ele fez uma cena dos diabos, disse-me que o primeiro ainda vá lá, podia ser filho dele, ora o segundo, nem pensar, sabia lá ele quem era o pai! Eu fiquei cega de raiva, o filho da púcara, que a mãe não o era, pois olha que enquanto andei com ele não tive outro homem, sacana, era um cachorro, o que ele queria era arranjar um pretexto, uma desculpa tola, para se separar, desvincular definitivamente de mim. Chamei-lhe todos os nomes, e ainda foram poucos, quis bater-me, mas eu gritei por socorro e logo veio gente defender-me; o teu padrinho, o Flávio Ferreira, ainda tentou dar-lhe umas arrochadas, mas eu não deixei, impedi-o, apesar de tudo ainda gostava dele!            
- Eu nunca o vi!
- Pois não, depois de tu nasceres, terias uns três meses de vida, ele foi-se embora para Espanha com a outra, nunca mais lhe pusemos os olhos em cima.
- E assim ficámos os dois, eu e o Olavo, como sendo filhos de pai incógnito!
- Infelizmente assim é; todos ficaram sendo de pais incógnitos, mas olha que eu não tive culpa, é o destino, eu nem queria nada com o teu pai, nem sei como isso aconteceu, eu era uma mulher só, já não era nova, queria tentar pelo menos constituir o meu lar, mas quem nasce malfadado tarde ou nunca encontrará uma migalha de felicidade; coitada de mim, nunca tive sorte com os homens, fizeram pouco de mim, aproveitaram-se da minha fragilidade, e o azar sempre me acompanhou na vida. Nasci pobre; e quem nasce pobre acabará quase sempre por morrer da mesma maneira. A minha única riqueza é a liberdade e os filhos. Sobretudo tu que és o mais novo e tens estado sempre ao meu lado, a aturar os meus infortúnios, as minhas infelicidades.
- Os dois meus irmãos mais velhos só são seus filhos de nome, deu-os à luz mas não os criou, não viveu com eles; o Olavo foi para Lisboa aos trezes anos de idade. Restei eu, mas você não me tem dado grandes alegrias, podia emendar-se.    
- É tarde para isso, demasiado tarde. Passei muita desgraça, sofri muito, nunca compreendi o mundo e as suas gentes, hoje sou um farrapo humano; não me peças impossíveis. // continua...

sábado, 7 de maio de 2016

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de Os Lusíadas, de Camões)

Por Joaquim A. Rocha




31

A doença destruiu aquele povo,
Poucos sobreviveram à chacina.
Em nome de um deus e mundo novo
Mataram lacaios, rei, e a sabina;
Os que restaram foram para o covo,
Cumprindo penas, sua cruel sina.
E assim, privados da sua liberdade,
Transformam-se em noivos da saudade.

32

E para quê, senhores, tanto castigo…
Que mal fizera aquela pobre gente?
Naquele sítio não havia mendigo,
Nenhum ser maltratado ou indigente;
Todos tinham sopa e persigo,
Um sorriso nos lábios de contente.
Para quê destruir quase uma nação,
Tratá-la, como fatal maldição?

33

Mais tarde vieram os jesuítas,
No alforge a evangelização;
Gente fanática, vis parasitas,
Esmagando virtude, sã razão.
Por palavras, cem mil vezes reditas,
Impuseram nova superstição.
E pra que a coisa parecesse digna
Tornaram a fé dos outros maligna!

34

E assim se foi criando um país,
Dezenas de vilas, grandes cidades;
Mil capelas, a igreja matriz,
Grossas riquezas, imensas maldades.
Explorou-se com ganas o maís,
O café tornou-se rei das vaidades.
Muitas escolas, e até colégios,
Surgiram, e os muitos privilégios.   

// continua...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

LINA - Filha de Pã
romance

Por Joaquim A. Rocha



... continuação.

   O relógio do tempo inexoravelmente foi marcando os segundos, os minutos... O juiz andava radiante. A sua namorada morrera, como fora previsto, ficara completamente livre. Tinha agora a amante jovenzinha, satisfazia-lhe todos os desejos, todos os caprichos, era a sua escrava, só esperava que não engravidasse, aí é que as coisas fiariam mais fino. Um dia, à hora do almoço, a Lina dirige-se ao patrão/amante e diz-lhe:

- Meu amor, este mês não me veio o período, se calhar estou prenha.
- Santo Deus, isso não é nada bom. Estamos perante um mau agouro. Espera mais algum tempo, pode ser uma falha natural, a gente tem abusado um pouco nas relações, é melhor abstermo-nos durante uns dias.
- Eu adorava ter um filho seu. Com um pai assim, tão perfeito, tão inteligente, até dá gosto ter uma criança.
- Não vinha na melhor altura. Faço votos para que não estejas grávida. Se estiveres, tens de arranjar alguém que te faça o aborto. Eu dou-te o dinheiro.

     Ela olhou para o amante e começou a chorar. Lavada em lágrimas, diz-lhe com convicção:

- Não quero fazer nenhum aborto. O bebé há-de nascer. Nem que eu tenha de fugir para bem longe, para a serra, ou mesmo para o estrangeiro.

     Ele ficou furioso com essas palavras. Os seus olhos chisparam de raiva, tornando medonha a sua fisionomia.

- Tu estás doida, ou quê? Achas que eu permitiria que tivesses uma criança minha? Nunca! Ouviste? Nunca!

     Ela chorou copiosamente. Abraçou-se aos joelhos do seu senhor, pedindo-lhe que deixasse vir ao mundo, o fruto daquele gigantesco amor. Ela ficaria com a menina ou menino, não diria a ninguém que era dele.
     Ele ficou pensativo. Ela acabara de lhe dar a chave da solução, sem correr quaisquer riscos.

- Está bem, se estiveres grávida não abortarás. Confirma a gravidez.

     Passou mais um mês e nada de menstruação. Estava de facto grávida. Uma noite, ao jantar, ela diz-lhe, com algum receio:

- Não há dúvida nenhuma: estou de esperanças.

     Ele já tinha pensado em tudo. O seu plano não falharia.

- Tudo bem. A partir de agora vais cumprir escrupulosamente tudo aquilo que eu te ordenar para fazer. Em primeiro lugar aceitas o namoro daquele pelém que por aqui passa todos os dias para te ver.

     Ela rapidamente faz a lista dos seus pretendentes e diz:

- Mas esse é o mais feio de todos!
- O mais feio e o mais tolo. Trazes o palerma aqui para a garagem, tens relações com ele, e daqui a um mês dizes ao sonsinho que estás grávida. Como és menor, ele terá que casar contigo. Disso trato eu.

     Ela ficou pensativa. Ter que ir para a cama com aquele idiota, beijá-lo, suportar aquele cheiro da brilhantina… Se ainda fosse o Tónio, uma bonita figura de rapaz… Mas por aquela vida que ainda havia de nascer valia a pena sacrificar-se. O Senhor Doutor nunca admitiria ser pai da criança. E quem era ela para o enfrentar? A força estava do seu lado, nada havia a fazer. Podia ser que ele a conservasse como criada, que continuasse a ser seu amásio, aquele parvo não se aperceberia de nada, e mesmo que se apercebesse, que importava? Depois de uma certa hesitação, decidiu-se:     

- Está bem, eu aceito. Amanhã já o procuro, ele está doidinho por mim, não vai ser difícil trazê-lo para a garagem.
- Menina bonita, assim é que é falar.

     Tirara-lhe um peso enorme da consciência. Dali a uns meses punha-se a andar, nem sequer a avisava. Que ficasse ela, o pimpolho, o choninhas, toda aquela gente analfabeta e rural. Ele era um homem da cidade, um cavalheiro, pertencia a outro patamar social. Por outro lado, tinha imensas ambições: pretendia fazer um doutoramento, chegar ao Supremo Tribunal de Justiça, ter um nome prestigiado na ciência do Direito. Fora bom tê-la na cama, ensinara-lhe tudo que sabia sobre a arte do prazer, ela até lhe devia estar agradecida por esses ensinamentos. Ficara quase mestra na ciência do amor libertino.         
     No dia seguinte, tal como ficara planeado, a Lina foi fazer algumas compras às lojas do Terreiro e no regresso veio pela Rua Direita, pelo sítio onde costumava estar o Mário, o tal que estava perdido de amores por ela. Ele dirigiu-lhe a palavra, sabendo de antemão que não obteria qualquer resposta.

- Bom dia, Lina. Hoje estás muito bonita. Cada dia que passa gosto mais de ti.

     Olhava-a com ternura, com aqueles olhos quase saídos das órbitas, cabelo super penteado, os pêlos da face a começarem a aparecer.

- Tens que cortar essas cerdas da cara – observa ela, a brincar, a fim de iniciar conversa.

     Ele arregalou os olhos, não contava que ela lhe falasse. O que teria acontecido? Um milagre?

- Pois é, tenho que comprar lâminas; a barba começa a dar sinais de vida.  
- E podes deixar crescer o bigode, é capaz de assentar bem no teu rosto.
- Achas? Nesta carinha tão magra, esquelética!
- Tu até não és feio, precisas é de engordar um bocadinho.

     Começa a aparentar um certo nervosismo, olha-o nos olhos e diz-lhe:

- Logo à noite queres aparecer? O Senhor Doutor Juiz deita-se cedo, vai sempre, depois do jantar, ler um livro, e assim podemos conversar um pouco.
- E o cão? Olha que não é para brincadeiras!
- Eu sei, mas já me conhece bem; pessoa que esteja comigo ele não ladra.
- Então fica combinado: estarei no portão por volta das dez.  

     Despediram-se com um olhar meigo. Ele, logo que se afastou, deu pulos de contente. Nem sequer acreditava no que lhe estava a acontecer – parecia até um milagre. Namorar com a Lina era um sonho que já durava havia algum tempo, mas pensava que jamais se transformaria em realidade. Por ela tudo faria – até arranjar trabalho! Tinha que a merecer, não podia ser um zé-ninguém, estar a viver à custa dos irmãos. Os seus pais já tinham falecido, ficara órfão aos seis anos. Dirigiu-se a casa e, logo que entra, a irmã acusa-o:

- Então! O “fidalgo” ainda não arranjou emprego? Tem quem o sustente, não é? A boa vida é melhor do que o trabalho, pois claro.
    
     Correram-lhe duas lágrimas pela face. Todos os dias tinha que ouvir um sermão dos manos, mas ele não tinha culpa de nada. Não queria andar nas obras, trabalho duro e mal remunerado, mas também não podia arranjar emprego público, pois só conseguira fazer a terceira classe. Ainda tentara aprender o ofício de sapateiro, mas nada lhe pagavam, era de graça, e muito lhe exigiam. Aqueles patrões sempre zangados, autoritários, gostavam imenso de mandar, dar ordens a torto e a direito, mas não entregavam um tostão em troca. Ainda lhe diziam que devia estar agradecido, pois estavam a ensinar-lhe um ofício. Mas o que é que lhe ensinavam? A endireitar as tachas, a engraxar uns sapatos, a coser uns chanatos, a consertar umas botas cheias de porcaria, com cheiros nauseabundos, insuportáveis! Todo o serviço interessante e limpo fazia-o o mestre. Virou-se para a irmã e informou-a, em modos de pergunta:

- Sabes que os dois filhos mais velhos da senhora Teresa vão para o Brasil?
- Onde teriam arranjado o dinheiro para o barco? – perguntou ela.
- Parece que foi um tio que lhes mandou a carta de chamada e o dinheiro para as passagens. Quem me dera também ir.
- Tu?! Nós não temos parentes ricos no Brasil. Só se fosses a pé! Por outro lado, com o teu apetite pelo trabalho, corriam logo contigo. Ainda te levavam para a selva, para junto dos índios. Mas nem esses te queriam – só tens ossos! 
- Tu brincas, mas eu, se me apanho lá, até conseguia enriquecer. Juro-te! Não vês o senhor Chico da Calçada, veio rico de lá; já comprou uma linda vivenda e uma quinta. E o que era dantes? Um simples agricultor, os pais eram caseiros em Galvão de Riba.
- Mas há quem diga que trabalhou como um escravo, anos a fio. Tu és fidalgo, e calaceiro, não gostas de vergar a espinha. Também, com esse corpo de raquítico, logo quebravas as molas!
- Isso é o que tu dizes, eu sou forte, ainda to hei-de provar.

- Está bem, está bem, léria não te falta, mas isso não enche a barriga a ninguém. Olha, vai mas é à horta apanhar umas couves para o caldo verde. E traz também umas cebolas e tomate. E não demores. // ... continua...

terça-feira, 3 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



Cartas de um castrejo 

16.ª - «Senhor Redactor: não me consta (…) que a digna paróquia desta freguesia haja tomado qualquer resolução acerca do problema educativo a resolver e de cuja solução temos necessidade urgente. E estou surpreendido porque, desde garotito – quando desempenhava o pesado encargo de pinche (*) por essas Espanhas, no lucrativo mister de canteiro, em miniatura, vendo as sumptuosidades dos alcáceres de Alhambra e Granada, passeando ante os magníficos palácios das “Puertas del Sol” e “Plaza Mayor”, em Madrid, percorrendo Valência e Burgos, fazendo paragem em Barcelona – cidade que alia, às mais apuradas indústrias, uma tenacidade de “hierro” para as justas reivindicações; transpondo a fronteira (sem passaporte), e já meio pedreiro, tendo afrontado as inclemências do clima da Beira Alta, onde o calor insuportável das trincheiras me produziu umas maleitas levadas de Satanaz, percorri o Douro, fazendo pequenos suportes, nos inúmeros valados das encostas dos seus abruptos montes e, como o judeu errante, havendo visto grandezas e misérias, e percorrido uma boa parte da península, saltei ao lar com pouco dinheiro (e creiam que não era pródigo), muita saúde e um pouco de prática do mundo, deste mundo que os meus sessenta bem puxados me dizem ser um misto de infortúnios e venturas, um pandemonium de vícios, perfeições e misérias – o enorme páleo em que os milhares de biliões de viventes representam o seu papel: - desde o micro orgânico ao elefante e à baleia, desde o musgo dos rochedos ao carvalho secular, e… à sensitiva. Pois nada nos surpreendeu (…) mais que o não termos notícia do menor movimento em benefício da cruzada que advogamos: - a da instrução do nosso povo. Não repetimos as considerações já feitas aqui, antes lhas gritaremos ao ouvido, em ocasião oportuna. Mas, para quê?! De entre os membros da paróquia, ou seus mentores, alguns nos foram companheiros durante a vida de peregrinos (não disse bem, de homens que buscam onde ganhar o pão condignamente) e, logo, devem raciocinar como nós, devem pensar como nós, devem comungar connosco o amor sacrossanto que todo o bom filho deve à terra mãe, que lhe serviu de berço. O assunto magno da nossa vida social é a educação (…); pugnemos pois por ela, com toda a energia, com toda a boa vontade. Preparem a representação, enviem-na ao seu destino e, para a frente, que o parar é morrer. E creiam todos que é alta a responsabilidade que lhes impende sobre as consciências, se não agirem com toda a perseverança e fé. Creiam, também, que cá está ao lado, mas pronto para todos os sacrifícios… um castrejo (Correio de Melgaço n.º 200, de 21/5/1916).»


     // (*) Rapaz de recados; ajudante.    

domingo, 1 de maio de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

de Joaquim A. Rocha

desenho de Rui Nunes


  António Maria Guerreiro Ranhada, natural de Vilar de Mouros, Caminha, foi na sua juventude emigrante no Brasil. Devido a uma doença grave, regressou a Portugal a fim de se tratar. "Descobriu" as águas de Melgaço em finais do século XIX, que o curaram. Casou na freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, teve filhos, e aí morreu já com bastante idade. Com o pouco dinheiro que lhe restava comprou terreno e mandou construir um hotel, no início modesto, mas a pouco e pouco foi-o melhorando. Os clientes foram aparecendo, cada ano mais numerosos, alguns deles figuras importantes no panorama nacional, surgiram outros hotéis, mas o seu foi sempre uma referência.  
       
    Nos hotéis também se morre. Em 1898 faleceu aí um hóspede: «SOUSA, Francisco. Filho de Gregório Ferreira de Sousa, proprietário. Nasceu no sítio da Levada de Santa Luzia, Funchal, Ilha da Madeira, por volta de 1836. // Proprietário. // Faleceu a 17/6/1898, às três horas da tarde, no Hotel do Peso, freguesia de Paderne, Melgaço, apenas com o sacramento da extrema-unção, com 62 anos de idade, no estado de casado com Luciana Martins Ferreira de Sousa, sem testamento, com filhos, e foi «depositado» no cemitério público da vila de Melgaço.»

      No ano seguinte morre outro hóspede: [AZEVEDO, Tristão. Filho de Álvaro Rodrigues de Azevedo e de Maria Justina de Azevedo, proprietários. Nasceu por volta de 1855. // Era capitão de Infantaria n.º 25 quando faleceu a 10/10/1899, pelas nove horas da noite, no Hotel do Peso, Paderne, sem quaisquer sacramentos, por ter morrido repentinamente, com 44 anos de idade, no estado de casado com Helena de Azevedo, morador na Rua de São Bento, Lisboa, sem testamento, com filhos, e foi depositado na capela do cemitério público da vila de Melgaço «com a intenção de ser conduzido para o cemitério dos Prazeres da cidade de Lisboa]

     Outra morte: «SÁ, Mário Arantes de Seabra. Filho de Adriano da Costa Carvalho e Sá e de Rita Arantes de Seabra e Sá, proprietários. Nasceu em Miragaia, Porto, por volta de 1889. // Faleceu a 9/6/1903, pelas três horas da manhã, no Hotel da Quinta do Peso, sito na freguesia de Paderne, Melgaço, sem sacramentos, com apenas catorze anos de idade, e foi depositado na capela do cemitério da vila de Melgaço para posteriormente ser levado para o Porto.» 
    
     A causa da morte era quase sempre a mesma: a maldita diabetes. As águas de Melgaço ajudavam o doente a melhorar, até conseguia milagres, mas alguns já estavam numa fase avançada da doença, e assim as hipóteses de cura eram praticamente zero. 


     Como a maioria dos hóspedes era católica, o proprietário do Hotel Ranhada mandou construir em terreno próprio uma pequena capela; o professor Ribeiro da Silva dedicou-lhe uma das suas gazetilhas (ver Notícias de Melgaço n.º 371, de 10/10/1937).

   Em 1919 tinha imensos hóspedes (Jornal de Melgaço número 1260, de 31/8/1919). // Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 237, de 24/6/1934: «Pelo Conselho Nacional de Turismo foi atribuída a categoria de hotel de 3.ª classe ao antigo Hotel Ranhada, da estância termal do Peso, Melgaço.» 

     Em 1937 esteve ali hospedado o bispo de Meliapor, com o objetivo de fazer tratamento nas termas.