quarta-feira, 15 de abril de 2015

PADRES POLÍTICOS EM MELGAÇO

    Tal como há médicos escritores, padres e frades cantores, também houve e há em todo o lado sacerdotes políticos. Até os papas são chefes de Estado; um deles, de origem  polaca, salvo erro, gravou, há uns anos atrás, um disco! Quanto a mim, não é por aí que vem o mal ao mundo. E outra coisa: até à década de sessenta do século XX havia em Melgaço presbíteros a mais: cada freguesia tinha dois ou três. Depois, com a extraordinária emigração, foram rareando, e hoje, 2015, há um pároco para três freguesias!  

I

DOMINGUES, Manuel José (Padre). Filho de João Manuel Domingues e de Maria Rodrigues, ela de Várzea Travessa e ele de Covelo, onde moravam. Neto paterno de Manuel Luís Domingues e de Ana Afonso; neto materno de José Bernardo Rodrigues e de Maria Domingues. Nasceu em Castro Laboreiro a 29/1/1875 e foi batizado no dia seguinte. Padrinhos: José Domingues e sua mulher, Rosa Rodrigues. // Foi pároco de Lordelo, Cubalhão, Gondar (Cerveira), e de Remoães. Na Vila de Melgaço esteve de 25/6/1903 até finais de 1917 (*) Foi-lhe concedida a pensão eclesiástica anual de 300$000 réis (ver Correio de Melgaço n.º 85, de 1/2/1914, e Jornal de Melgaço n.º 1020, de 5/2/1914). // Em 1908 acompanhou José Leite de Vasconcelos a Castro Laboreiro, a fim do grande investigador tomar «algumas notas etnográficas e dialectológicas…» Iam montados em mulas, conduzidas por «duas robustas mocetonas». Seguiram por Fiães. // Nesse ano de 1908 foi vogal substituto da Comissão Administrativa Municipal de Melgaço. // Embora de ideologia monárquico-liberal, aderiu à república em 1910. // Era uma pessoa dinâmica: fundou a Associação Artística Melgacense «pela qual muito se bateu, e que outros não saberiam aguentar.» Fundou, com outros, um Externato, em que alguns alunos foram preparados para os exames dos primeiros anos do Curso Geral dos Liceus. // Em 1913, na festa da Ascenção de Jesus, realizada na Orada, SMP, provocou uma desordem (ver Correio de Melgaço n.º 48, de 4/5/1913). // Chegou a fazer parte da Comissão Camarária (Jornal de Melgaço n.º 1237, de 9/3/1919). // Lê-se no dito Jornal de Melgaço, n.º 1256, de 27/7/1919: «a expensas de alguns devotos, celebra missa na capela da Senhora da Orada, aos domingos e dias santificados, o nosso amigo reverendo abade Manuel José Domingues que, de Sua Excelentíssima Reverendíssima, novamente obteve ordem para celebrar.» // Por razões políticas (e talvez religiosas – veja-se o conflito com o padre Francisco António Gonçalves, pároco de Prado) deixou de exercer o sacerdócio e tornou-se aspirante de Finanças. No Notícias de Melgaço n.º 68, de 13/7/1930, lê-se: «para efeitos da redução do quadro do funcionalismo da Direcção Geral das Contribuições e Impostos foi transferido para o concelho de Monção (…) o padre Manuel José Domingues, aspirante de Finanças». // Foi publicado no Diário do Governo a sua aposentação voluntária (Notícias de Melgaço n.º 201, de 16/7/1933). // Os seus escritos no Notícias de Melgaço davam sempre que falar. Por exemplo: quando morre Maria Angélica Esteves. Ver também “Um general em Melgaço» (Notícias de Melgaço n.º 162, de 28/8/1932). // Faleceu na Orada, SMP, a 1/3/1952, realizando-se o funeral no dia 3 do dito mês e ano. // Era tio do professor (e antigo presidente da Câmara) Abílio Domingues, entre outros.

     /// (*) No Jornal de Melgaço n.º 1255, de 20/7/1919, página 2, diz-se que ele era, nessa altura, abade da Vila de Melgaço!   

terça-feira, 14 de abril de 2015

CONSERVATÓRIA DO REGISTO CIVIL DE MELGAÇO

      No tempo da monarquia, sobretudo a partir dos finais do século XVI, eram os padres católicos que faziam os registos de batismo, casamentos e óbitos. Tudo isso termina quando em Outubro de 1910 os republicanos se apoderam do poder do Estado e criam a Conservatória do Registo Civil. Levou uns largos meses a pôr tudo em ordem, a arrendar casa nos diversos concelhos do país para esse efeito, mas por fim as coisas começaram a melhorar. Os sacerdotes continuaram a registar os batismos, casamentos e óbitos, mas agora sem caráter oficial. O Estado já em 1911 possuía os seus próprios funcionários. O primeiro Conservador em Melgaço foi o Dr. José Joaquim de Abreu, natural de Cristóval.  
    A seguir podem ler dois assentos de óbito, um de 1905 e outro de 1906, trazidos aqui por duas razões: a primeira para mostrar como eles se faziam; a segunda, para verificarem a distração da pessoa que os redigiu, não levando em conta a idade do defunto.  


























segunda-feira, 13 de abril de 2015

MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS

                                                                        Por Augusto César Esteves

                                   Os Conjurados (continuação)

     Quando, em meados de Julho de 1666, D. Baltazar de Roxas Pantoja, Governador das Armas de Espanha, com os melhores soldados do exército de Flandres, passou junto a Lapela por uma ponte de barcas para ocupar o Entre-Douro e Minho, aquartelou as suas tropas em Cortes, entre Monção e aquele castelo.
          Quase no fim do mês, deixando para trás a freguesia de Moreira, foi acampar junto dum afluente do Vez, nos montes de Pereira, e depois em Aboim das Choças, donde foi natural Frei João de Nossa Senhora da Peneda, no século João António de Brito Pereira. E das Choças para Giela, junto à vila dos Arcos de Valdevez, e daqui para a terra do Guardião do Convento das Carvalhiças, encontrando sempre barrados pelo nosso exército os caminhos para Valença, Ponte de Lima ou Braga, acabou por, em meados de Outubro daquele ano, se aproximar do rio Minho e ocupar os montes de Lordelo, terras de Monção, donde ameaçava Melgaço. O conde de Prado, atento sempre aos menores movimentos de Pantoja, mandou logo segurar a nossa terra, enviando-lhe um comboio de munições e abastecimentos, que tendo sido atacado no caminho por forças do Governador das Armas de Espanha, foi completamente livre e posto a salvo pelo destacamento do nosso compatriota Matias de Sousa e Castro, fundador do vínculo do Pombal, depois de renhidas pelejas, das quais este saiu ferido numa das mãos. Pouco depois baixou do Lordelo à ribeira o grande exército espanhol e foi aquartelar-se, para passar o inverno, na freguesia de Barbeita, entre Monção e o forte levantado na foz do rio Mouro.
          O Governador das Armas espanholas, Pantoja, nos princípios de Novembro pensou em ocupar Melgaço e, por isso, mandou fazer o seu reconhecimento por uma forte unidade de exploração. A guarnição teve conhecimento disso e sob a direcção e comando de Diogo de Sousa e Castro, capitão-mor e senhor da Casa das Várzeas, preparou-lhe uma emboscada, saindo, gentilmente, a recebê-la a meio caminho.
          Incorporado nesta força foi Domingos Gomes de Abreu, sem divisas de oficial, e de tal forma foram apresentados os cumprimentos, tão amistoso foi o abraço trocado, que o Conde da Ericeira escreveu no tomo IV da História de Portugal Restaurado:

   «...porém, os exploradores foram tão mal hospedados da guarnição, que não voltaram a inquietá-la

          Destemido mas prudente, corajoso mas sereno, Domingos Gomes de Abreu tinha sido o homem escolhido pelo Governador da Praça para prender Ramon Vallasquez, havido como traidor à Coroa Portuguesa e, com risco da vida, no ano anterior de 1661, um pouco acima daquele forte levantado pelos espanhóis junto ao Mouro, em vão atravessou o rio a nado para fazer a referida captura. // Naquele falado ano de 1662 bateu-se também com o inimigo no lugar de Valadares e nuns paços vizinhos do rio de S. Lourenço. Nesta última façanha, ali pelas proximidades de Mourentão, atravessou outra vez o rio Minho e já na Galiza, perseguindo-o por entre penhascos até o render, aí prendeu o capitão João Esteves, outro traidor a Portugal. O seu brio, porém, andava ferido com as proezas de Ramon Vallasquez; e por isso, no ano seguinte (para o colher às mãos), fez-lhe uma emboscada junto daquele forte e sendo o primeiro a avistá-lo, sobre ele correu até ao rio Minho, em cujas águas Vallasquez afogou. Em seguida foi à Galiza, ao lugar de Padrenda, tomar língua de uma tropa de cavalos, conseguindo trazer consigo três soldados com montadas e armas e, depois, ao lugar de Queirão, a cujo saque assistiu e onde no ano de 1664 pelejou valentemente também.
          O avô fora assim. Combatera. O pai seguiu-lhe os passos, mas como bom discípulo, ultrapassou-o. Domingos Gomes de Abreu Coelho de Novais, nasceu em Melgaço, numa das duas casas sitas em frente da fachada da igreja da Misericórdia, em 21/1/1668, e seguiu a carreira militar, falecendo no posto de capitão de uma companhia de ordenanças, do terço do capitão-mor Pedro de Sousa Gama, fundador do Morgado da Serra. Com vinte e quatro anos, a 8/2/1692, foi admitido irmão da Confraria das Almas desta vila e com perto de trinta, devido aos serviços prestados a Sua Majestade pelo pai, recebeu o padrão do Hábito de Cristo, com 30$000 réis de tença, paga pela verba do pescado, salvo erro em Viana Foz do Lima. Fez-se armar cavaleiro desta Ordem a 31 de Dezembro do mesmo ano, na igreja de Nossa Senhora da Conceição em Lisboa, por Frei Gastão José da Câmara Coutinho, comendador da mesma Ordem, sendo testemunhas Frei Vicente Huette Soto Mayor e Frei Estevão Pereira Bacelar e professou no ano seguinte, a nove de Fevereiro, no Convento de Tomar, nas mãos de Frei Fernando de Moraes, superior do referido Convento, renunciando primeiro o ano e dia do seu noviciado e aprovação. Familiar do Santo Ofício, cujos privilégios especiais concedidos aos mais antigos ele chegou a gozar, por três anos exerceu o cargo de Feitor Geral das Alfândegas da Província de Entre Douro e Minho, tocantes aos portos secos, molhados e vedados.
          Em meados de Maio de 1701 já a sua carta de certidão de armas, fidalguia & nobreza estava registada num livro da Câmara de Melgaço; mas do seu conteúdo, hoje conhecido por outra fonte, extracto apenas esta passagem:

   «…a saber um escudo esquartelado posto ao balom ([1]); primeiro quartel as armas dos Abreu que são em campo vermelho cinco cotos de asas de águias de ouro postas em sautor; em o segundo as armas dos Coelho, que são: em campo de ouro um leão de púrpura, rompente, e armado de vermelho, faixado de três faixas enxaquetadas de ouro, e azul de uma orla de azul carregada de sete coelhos de prata, malhados de preto: em o terceiro as armas dos Novaes, que são em campo azul cinco novelos de prata postos em aspa: em o quarto as armas dos Gomes que são em campo de prata três cabeças de negro de sua cor com arrecadas de ouro na orelha, e nariz e um colar do mesmo no pescoço, elmo de prata aberto guarnecido de ouro, paquife dos metais, e cores das armas, por timbre um dos cotos das asas das armas dos Abreu, e por diferença meia brica de prata com um trifólio verde por lhe pertencer




[1]  Em francês Au balon — trata-se do escudo inclinado à esquerda.

domingo, 12 de abril de 2015

OS NOSSOS CONTERRÂNEOS

     Este texto foi publicado em «A Voz de Melgaço» n.º 1111, de 1/3/1999. Fiz-lhe agora algumas pequenas alterações, mas no essencial é o mesmo.



IGREJAS, Francisco Augusto. Filho de Francisco Augusto Igrejas (1880-1966) e de Deolinda Augusta Fernandes (1886-1963). Nasceu na Vila de Melgaço a 30 de Abril de 1916. Frequentou a escola como qualquer rapaz do seu tempo e no verão de 1929 fez exame do segundo grau, 4.ª classe, ficando distinto. Descendia, pelo lado do pai, de uma família de alfaiates e assim teve de aprender essa arte, que exerceu até aos vinte e três anos de idade. É precisamente com esta idade, a 10/4/1939, que casa com Dinora, filha de João Rodrigues Nabeiro e de Maria Joaquina Sacramento Lopes. O casal viria a ter seis filhos: Adolfo, Ventura, Augusto, António, José, e Rita. Após o casamento, mais concretamente a 1 de Julho de 1940, torna-se cartulário da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, lugar que ocupou durante 42 anos. Diplomara-se em 1959 como auxiliar de enfermagem, mas não exerceu oficialmente essa profissão, no entanto, eu lembro-me que na década de cinquenta era ele que dava injeções, tratava os feridos ligeiros, arrancava dentes, etc., e não se pode dizer que fosse um mau enfermeiro, apesar de não ter nessa altura as ferramentas sofisticadas que agora existem. Depois da revolução dos cravos passou a fazer parte do quadro dos funcionários do Centro de Saúde de Melgaço, com a categoria de 3.º oficial, tendo sido aposentado a 30/4/1986, com a categoria de 2.º oficial. Teve uma vida cheia e, embora nós não o saibamos, o mais certo é o “Gu”, como era conhecido, depois de ter sido pai e escrito um livro, também ter plantado uma árvore. O livro, «POESIA POPULAR», foi editado em 1989 pela Câmara Municipal, caderno n.º 6. O seu primeiro poema (gazetilha) apareceu, salvo erro, no Notícias de Melgaço n.º 905, de 17/7/1949. A sua mordacidade, o jocoso da situação, o pormenor burlesco, tudo ele capta com o seu sentido de humor sarcástico, mas simultaneamente ingénuo e bem-intencionado. O “Gu” agradece ao professor Ribeiro da Silva – um não melgacense que aqui viera carpir as suas mágoas – tê-lo iniciado nestas andanças da poesia. Claro que só poderá fazê-lo quem possua esse raro dom de transformar palavras rudes em macio tapete do dizer. Não se pode afirmar que estamos em presença de um grande poeta; mas alguns dos seus poemas são miniaturas de uma obra maior, que é toda a POESIA. No início receoso, depois afoito, lá foi avançando com as suas palavras brincadas, promovendo a sátira aos píncaros de uma magia inimaginável. Não foi maldizente, no sentido pejorativo do termo; ridicularizou, é certo, para melhorar, para tentar corrigir. E não lhe faltavam motivos, pois os autarcas lutavam com uma falta crónica de dinheiro para realizarem as obras públicas de sua responsabilidade, e por essa razão os remendos surgiam aqui e ali, como é apanágio do pobre que não tendo capital para comprar roupa nova vai remendando, remendando, até nada sobrar do antigo tecido, e os remendos aparecem então como obra nova! Os particulares também tinham as suas limitações, cometiam os seus erros, exibiam por vezes uma parolice indescritível, tudo matéria de saudável riso para um homem com olhos de águia e memória privilegiada. Uma das gazetilhas mais divertidas é sem dúvida alguma a das rolhas (páginas 88 e 89 do citado livro). Todos os comerciantes da Vila, salvo raras exceções, caíram no conto do vigário: compraram rolhas aos milhares, a fim de as venderem a uma suposta cliente, que horas antes as procurara afanosamente. Escreveu o poeta: «Quem precisar de uma rolha/prà garrafa ou garrafão/não precisa andar à solha/pois na Vila há um milhão!» Isto passou-se em 1965. A vaidade do jovem que levou a Melgaço um carro grande, mas velho e cansado, cuja subida a Castro Laboreiro não logrou, também deu a Francisco Augusto matéria para construir uma gazetilha mordaz, contundente, mas pedagógica. A novela radiofónica «Nunca é tarde para amar» proporcionou-lhe a oportunidade de escrever uma das gazetilhas mais irónicas e subtis: «Vem o vizinho Rogério/da vinha, de sulfatar;/mas se diz um impropério/responde a mulher a sério:/nunca é tarde para amar/e volta o pobre Rogério/cheio de fome, a cambar.» Esta estrofe resume um drama: o Rogério Lopes, de alcunha o “Cambado”, farto de trabalhar nos campos e na vinha, desde o nascer do sol, vinha almoçar, refeição do meio-dia, mas a sua esposa não lhe fizera o comer porque estivera a ouvir a novela na rádio! E o pobre homem pouco podia fazer, porque a sua Maria, obcecada pela trama do enredo, responde-lhe como um autómato: «nunca é tarde para amar!» E assim aconteceu em todo o bairro! Eu que, apesar de ser um moço, sofri na pele os efeitos nefastos dessa “doença” radiofónica, sei que tudo isso foi verdade, e que o Gu apenas exagera a excentricidade, realça a parte absurda, o nó que se desata de uma vida pacata e dirigida, comandada, de perto e à distância, pelo elemento masculino. Era como o despertar da mulher para o lazer, para o seu momento de relaxe, de «deixa andar»…, ele que se amanhe, se quer comer que o faça, ou então que espere! Foi o princípio da rutura, e ao nosso atento observador não escapou, como ao fotógrafo não escapa o esgar do aflito, ou o sorriso malicioso do namorado. Mas o Gu não escreveu somente gazetilhas: escreveu também letras para canções – para os bombeiros e cortejos de oferendas – e ainda alguns poemas de grave sentimento. Não dominou na perfeição a técnica poética, a arte de Horácio, não foi um Camões ou Antero, nem bebeu na fonte de Bocage, não pode figurar ao lado dos nossos maiores, mas ascendeu – por mérito próprio – à galeria dos poetas regionais, onde o seu humilde estro o guindou, e na qual permanecerá pelos tempos afora, enquanto houver humanos sensíveis e sonhadores do amanhã. Francisco Augusto Igrejas Junior deixou-nos a 15/3/1996. Ficou a sua recordação, a sua obra literária, a sua lição.                          

                                                                                                         Joaquim Rocha

sábado, 11 de abril de 2015





Há p’ra aí uma tal «raça»
Que leva o dia a mendigar;
Mas que gente, que desgraça,
Não querem é trabalhar.

Mas que horda sem vergonha,
Passam o dia a pedir;
No coração têm peçonha,
Têm ódio no seu sentir.

Pede a Dolores e a Zita,
Estendidas pelo chão;
É uma malta parasita,
Não sabe ganhar o pão.

Seus filhos não vão à escola,
Fogem de todo o saber;
Preferem a vil esmola,
Só gostam é do lazer.

É gente má e matreira,
Olha-nos com azedume;
Roubam a nossa carteira,
O cigarro e o lume.

Vendem uns panos na feira,
Sem nenhuma qualidade;
Seja no Minho ou na Beira,
 Na vila ou na cidade.

 Outrora andavam a pé,
Percorrendo mil caminhos;
Armavam sempre banzé,
Aquecidos pelos vinhos.

Roubavam porcos, galinhas,
Ovos, roupas e fumeiro;
Amedrontavam velhinhas,
Fugiam dos carabineiros.

Mentem com desfaçatez,
Brincam com a autoridade;
Se convém, é português,
E pertence à cristandade.

Fervem por tudo e por nada,
Andam sempre em zaragatas;
Têm sempre a faca afiada,
E garras como as gatas.

Têm a pele avermelhada,
Como o índio americano;
Uma língua só falada
Por esse povo asiano.

Cantam-lhe algumas canções,
Os cantores das galés;
Mas se há aproximações,
Fogem logo a sete pés.

Por que existe uma tal «raça»
Ninguém o sabe em verdade;
Talvez um deus, por chalaça,
A criasse por maldade.

Quem os criou realmente,
Ninguém o pode dizer;
Talvez Javé, descontente,
Os criasse sem saber.

sexta-feira, 10 de abril de 2015


ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)

romance
                                                 Por Joaquim A. Rocha



ADVERTÊNCIA


  A narrativa que a seguir vai ler, caro leitor, contou-ma um antigo combatente da guerra colonial, hoje um homem já com alguma idade. Entregou-me cerca de cinquenta folhas de papel manuscritas e disse-me: “Leia isso; pode ser que o inspirem a escrever um romance”.
Fez questão de que o seu nome de batismo não figurasse no livro e não quis também que o verdadeiro número do seu Batalhão e da sua Companhia fossem revelados, mas permitiu que o nome da sua terra de nascimento aparecesse destacado.
Os topónimos das localidades mencionadas são todos autênticos, como genuínas são as designações dos rios.
As datas poder-se-ão considerar corretas. Os dias de viagem – seis – e o nome do paquete – Uíge – são igualmente dados exatos.
Este texto não se reclama de histórico, no sentido estrito de ciência, visto que a ficção romanesca teve aqui também cabimento. Se quisesse ser imodesto dir-vos-ia que o comparo àquele outro, já famoso, de Fernão Mendes Pinto, onde a realidade, a fantasia e a ficção se misturam e não se sabe bem onde uma começa e as outras acabam. Pode ser lido como um livro de ação, de pura guerra, inspirado em factos emocionalmente vividos, mas também como o percurso de um humilde artesão que, obrigado a abandonar o seu mester, vai relacionar-se com outro tipo de indivíduos, embora patrícios, isto é, da mesma pátria, com uma língua comum, praticamente da mesma idade, e a pouco-e-pouco se apercebe que só através do relacionamento se poderá apreender as características que definem as diferenças de caráter de cada um deles. E isso tem a ver, sobretudo, com a maneira como foram criados, o meio que os rodeia, rural ou urbano, enfim todo um percurso de vivência ou mesmo o seu indeterminismo.
     Espero sinceramente que não seja uma frustração para o leitor a leitura desta singular e despretensiosa obra literária.
     Quero também sublinhar que ela não foi escrita contra ninguém em particular; é, assim o espero, mais uma acha para a fogueira da luta contra todos os conflitos e a injustiça.
     O seu objetivo principal será dar a conhecer a toda a gente que o deseje, sobretudo aos mais novos, as aventuras e desventuras de um soldado, em especial aquelas que viveu no continente africano, durante cerca de dois anos, aquando do conflito armado entre as forças de libertação e o exército português, na então província lusa da Guiné.
     Segundo as obras da especialidade, esta palavra «Guiné» deriva da povoação Gená, Genua, Ghenea, Djenné, Jenné, Jani ou Geni, fundada cerca de 1.040  da era cristã, nas margens do Níger, grande centro comercial, antes de ser abafada pela prosperidade de Tombuctu.
     Este território foi descoberto, ou melhor, conquistado pelas armas, ocupado, uns anos antes do infante Dom Henrique morrer, ou seja, em 1446, por Nuno Tristão, acabando este por ser abatido pelos indígenas. Os felupes, tribo guineense, foram contactados por Álvaro Fernandes, também em 1446, ano em que por lá andavam Diogo Gomes e Cadamosto, no reinado, portanto, de Afonso V (1438-1481). No ano anterior, ou seja, em 1445, já Dinis Dias tinha atingido toda a costa da Guiné até ao Cabo Verde.      
     O nosso bem conhecido cronista do reino, Gomes Eanes de Zurara, que substituiu nessas funções a Fernão Lopes, servindo-se de relatos individuais, escreveu a «Crónica da Guiné», obra fundamental para o estudo dessa ex-colónia portuguesa.
     «O objectivo da obra é dar o conhecimento da conquista da Guiné enquanto facto realizado pelo infante e feito criador da atlantização e novo destino de Portugal…» (Luís Filipe Barreto, in Gomes Eanes de Zurara e o problema da Crónica da Guiné, STVDIA n.º 47, página 320).
A Guiné Portuguesa foi uma das nossas colónias onde mais duramente se combateu desde o início da sua descoberta. Pode dizer-se que só há 30 anos foi inteiramente submetida ao nosso domínio efectivo. A pacificação foi levada a cabo pelo então capitão Teixeira Pinto.”
Também ali (na Guiné) se procede a grandes obras públicas: estradas, hospitais, escolas, serviços de esgoto e abastecimento de água e outras obras de higienização, bairros de habitações para indígenas e europeus, etc.”
A nossa província da Guiné, cuja extensão não ultrapassa a do Alentejo, é uma das mais prósperas sob o ponto de vista agrícola. A terra é fértil e copiosamente regada. Produz principalmente amendoim, para o fabrico de óleos, e arroz. Possui ainda excelente madeira para carpintaria e marcenaria.”
Tudo isso se pode ler no jornal “Noticias de Melgaço” número 763, de 20/01/1946, escrito por um ferrenho adepto do regime corporativista, que, provavelmente, nunca pôs os pés nesse território africano.     

     A área da Guiné-Bissau ronda os 36.000 km2 e a sua população não ultrapassaria (1998) um milhão de habitantes. O clima é tropical húmido, muito propício a doenças, das quais talvez as mais conhecidas, e que causam anualmente mais vítimas mortais, sejam o paludismo, varíola, lepra e febre-amarela.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

AQUELA CASA



   
     Aquela casa: velha, seca, fria, distante... Isolada na serra desdentada, como rocha ali nascida! As suas telhas, outrora olhando a paisagem  com sobranceria, dormem, agora, naquele chão lamacento. Algumas, as mais resistentes, ainda restam; porém, mutiladas, como soldados após a grande guerra.
     Aquela casa! Da sua chaminé, agora lúgubre, moribunda, tinham saído carradas de fumo, lembrando uma fábrica a laborar vinte e quatro horas por dia.
     Aquela casa! Vazia, despida daquele conforto humano que a caraterizava, lembra o túmulo do viandante que pereceu na sua vitalícia viagem e foi sepultado ali, na montanha!
     Junto à sua campa irreal, humilde, improvisada, pequeno morro de terra, vê-se uma estranha cruz de metal, tombada, cheia de ferrugem, e uma grosseira tábua de madeira, onde se lê com dificuldade: «Aqui jaz um desconhecido

     Na parede dessa casa, ora abandonada, vou escrever: «Aqui jaz a minha casa