domingo, 30 de agosto de 2026

 ENTRE MORTOS E FERIDOS

Romance histórico

Por Joaquim A. Rocha


6.º Capítulo

 

SANTA MARGARIDA

 

  

     Naquela tarde calma, serena, nem sequer uma folha das árvores do Rossio bulia. O calor começava a apertar, convidando as pessoas a ingerir mais líquidos. Toda a gente procurava uma sombra, a fim de fugir à torreira do sol. Na mesa do Café Suíça, onde já tanta gente se sentara antes, os dois amigos cavaqueiam animadamente. Dizia Cândido:

 

- Da Academia Militar parti, ai de mim, triste e cabisbaixo, mais infeliz do que uma viúva, para Santa Margarida, freguesia do concelho de Constância, distrito de Santarém. Nome de santa e de flor, nome lindíssimo, mas sem nenhuma santidade, além da capela inaugurada em 1959, e com cheiro a pólvora e a gasolina, não a capela, claro está, essa cheirava a incenso, unidade bem conhecida nos círculos castrenses, por ser palco de manobras militares.

     Estávamos em Novembro. O outono, nesse ano de 1965, mostrava-se mais agressivo do que em anos anteriores, segundo a meteorologia e informações de militares que ali já estavam desde 1964. A chuva e o frio, coniventes, de uma cumplicidade demoníaca, davam as mãos na sua luta sem tréguas contra o desgraçado do magala que não possuía meios suficientes para deles se defender. Ainda, por cima, os treinos eram longos, fastidiosos, e pouco ortodoxos: simulavam-se ambientes de guerra; saíamos à noite nas viaturas, luzes apagadas, pelos montes da região.

     Não havia estradas, mas sim caminhos de cabras, íngremes, e até regatos sinuosos tínhamos de atravessar! Numa terrível noite, mais negra do que o breu, tombei o meu «Unimog», viatura mais feia do que um dinossauro carnívoro. Não houve feridos graves, pois a velocidade a que íamos não o justificaria, contudo não pudemos tirá-lo do buraco onde caiu. Somente no dia imediato, pela madrugada, o guindaste arrancou aquele monstro pré-histórico da ridícula posição em que ficara.

- E foi castigado? – perguntou Henrique, com dó do amigo.

- Querias maior castigo do que ir para a Guiné-Bissau? Para uma luta armada? Eu, que só usara a fisga para caçar pássaros, e mesmo assim sem qualquer pontaria, rindo-se eles de mim, sobretudo os pardais e os melros, velozes, desconfiados – não conseguindo apanhar nenhum.

- Bons tempos! – comenta Henrique, sonhando tempos que não vivera.

- Em parte, sim; brincava, trabalhava, andava na escola, mas havia muitas carências…

- A riqueza em Portugal esteve sempre muito mal distribuída – lembra Henrique, com pesar.

- É verdade. Desde Afonso Henriques que isso acontece no nosso país. Poucos têm muito, e muitos pouco ou nada têm! Mas continuando: o campo de treinos de Santa Margarida lembrava, nessa ocasião, o verdadeiro inferno. Escassa comida, e mal confecionada, hostilidade, atmosfera psicológica pesada. O medo pairava à nossa volta, anunciando o próximo futuro: violento e incerto. A guerra, esse mostrengo de sete cabeças, esperava-nos ansiosamente.

     Santa Margarida: fome e frio, ódio e desprezo. Antro de duros, estéril, árida. Aí não havia lugar para a ternura. Os soldados, mesmo querendo sair nas suas curtíssimas folgas, não tinham para onde, embora os mandões dissessem que existia perto um barracão no qual se exibiam uns filmes – nunca lá fui. Provavelmente seriam fitas de propaganda corporativista, onde se destacariam as caras sinistras dos governantes: Salazar, Tomás e companhia.         

- Parece que esses rostos o marcaram!

- Bem podes crer. Ainda hoje sinto náuseas quando vejo aquelas caretas horríveis, cujos olhos espalham ódio e vingança.

- Mas não houve nenhuma personagem simpática durante aqueles anos todos?!

- Quanto a mim, a figura mais simpática do regime saído da ditadura militar de Maio de 1926 talvez tenha sido Duarte Pacheco, que morreu em 1943, ainda eu não nascera, com apenas quarenta e quatro anos de idade. Era um homem de iniciativas, dinâmico, com personalidade vincada. Não obedecia cegamente ao «Chefe» e talvez daí a sua morte prematura.

- Está a insinuar que foi assassinado?!

- Quem sabe…; há mortes e mortes! Mas voltando a Santa Margarida: era, nessa altura, um lugar ermo e sombrio. Matagais e mais matagais; fardas e mais fardas; manobras e mais manobras! Mas, mesmo que houvesse zonas de divertimento ou lazer, o cansaço não convidava ao passeio, nem as moedas tilintavam em nossos vazios bolsos. O pouco que havia era para enganar a fome.

- Custa a acreditar naquilo que estou a ouvir!

- Tudo isso é a pura verdade. Corpos mal alimentados, exercícios que se prolongavam pela noite dentro, obrigavam-nos a esquecer o exterior, o outro “mundo” – nós tínhamos sido selecionados pelo tenebroso deus Marte: deveríamos tudo fazer para merecermos essa distinção.

- Todos sofremos ao longo da vida… - filosofa Henrique – mas...

- Uns mais, outros menos. Muitas pessoas minhas conterrâneas, alguns anos mais tarde, contaram-me que muito padeceram e aguentaram em França, na Alemanha, no Canadá, e noutros países, a esgalhar dez e doze horas por dia, nas obras de construção civil, nos caminhos-de-ferro, aeroportos e autoestradas, nas minas, nos vários trabalhos pesados, que lembravam os tempos da escravatura, e até antes já tinham padecido, quando tiveram de ir a “salto” para lá chegarem. Eu, a esses, falei-lhes assim: «Acredito sinceramente que tenham passado maus momentos, isso não está sequer em causa; mas o vosso sofrimento estava impregnado de esperança, visionavam o futuro e iam enchendo o peteiro. Nós, não! O nosso futuro durava apenas um minuto, uma hora, quando muito um dia! Esfumava-se! Vós sofrestes para ganhar a vida; o nosso padecimento servia para merecermos, segundo a ideologia dominante – militarista /corporativista – a morte com “honra”. Talvez tenhais sido escravos, mas de seres humanos, de capitalistas; nós fomos escravos robots de uma poderosa máquina, de um pensamento ignominioso, de um sistema cruel e ultrapassado! Os vossos músculos tiveram de enrijecer para poderdes assim construir; os nossos tornaram-se fortes para poderem desse modo melhor destruir! Além disso, vocês podiam voltar para Portugal, para junto da família, ou mudar de trabalho, caso não aguentassem o esforço, ou bem assim por um outro motivo qualquer; nós só regressaríamos no fim da comissão. Se viéssemos antes era mau sinal: tínhamos sido gravemente feridos ou então estávamos mortos, dentro de um caixão de chumbo

- Discurso inflamado, mas realista. Permita-me, contudo, que discorde de si num pormenor – solicita o amigo.

- À vontade. Entre nós não há cerimónias. Diz tudo o que te vai na alma.

- É o seguinte: quando diz que os emigrantes podiam voltar a qualquer momento não é cem por cento verdade. Por um lado, tinham de cumprir os contratos que assinavam com a entidade patronal; por outro lado, a maioria deles, se regressasse a Portugal, teria de cumprir o serviço militar!

- Tens razão. Reconheço que me falhou esse pormenor; no entanto, penso que estavam numa situação mais vantajosa do que a minha. Por outro lado, desde que pagassem uma determinada taxa, ficavam livres para virem a Portugal. Isso posso eu garantir, pois sei de casos desses: um rapaz da minha idade emigrou para França a salto em 1963 e em 1966, estando eu na Guiné-Bissau, a combater em pleno mato, estava ele a casar-se na igreja matriz da terra natal! A notícia está publicada no jornal concelhio. Ainda existe outro pormenor interessante: a idade. Um homem mais velho, caso quisesse voltar para Portugal poderia faze-lo sem sofrer quaisquer consequências.

     Mas continuando: em Santa Margarida encontrava-se também um primo meu, mais velho um ano, já tinha quase todo o tempo militar cumprido. Escapara da malvada guerra! E nem sei como!

- Nem todos iam…

- Sim, isso é verdade. Mas hoje penso que foi por pedido, ou “cunha”. O pai dele, meu tio, trabalhava no Secretariado Nacional de Informação e Propaganda, órgão muito influente no regime salazarista. Já livrara outro filho mais velho.

- E por que não o safou a si?!

- Quando o meu tio saiu da terra onde nascera era eu uma criança, fora residir primeiro para Loures, depois para Lisboa, mal nos conhecíamos. Nem sequer me passou pela cabeça pedir-lhe tal coisa, além disso acho que ele não podia abusar, conseguir esses privilégios para os seus descendentes já era ótimo.

- Fez mal; podia ter dado certo.

- Nessa altura eu era muito tímido, um bicho do mato, não ousaria fazer-lhe um tal pedido. Além disso, quando eu era pequeno disseram-me que o nosso destino já está traçado no berço. Por outro lado, sabendo ele que eu estava na tropa, por que não tomou a iniciativa?

- Não se lembrou – insinua Henrique, ironicamente.

- Ou não quis lembrar-se. Sobrinhos não são filhos, e não digo isto com azedume.

- Mas são do mesmo sangue, pertencem à mesma estirpe.

- Segundo a bíblia, o livro sagrado dos cristãos e dos judeus, somos todos descendentes de Adão!

- E se nós acreditarmos nos cientistas, a nossa espécie descende do macaco!

- Talvez Adão fosse macaco! Mas, sejamos filhos de uns ou de outros, o certo é que os seres humanos estão constantemente a esquecer a origem comum e matam-se com a mesma facilidade e frieza com que se abate um boi no talho. São autênticos magarefes!

- Concordo consigo. E esse tal primo, foi-lhe ao menos prestável?

- Bem, ele era apenas soldado como eu, condutor de tanques. Uma ou outra vez ainda me procurou e juntos comemos toucinho com pão de milho e centeio. Manjar frugal, mas gerador de algumas calorias. Ficamo-nos a conhecer melhor, ganhamos amizade. Mais tarde encontrei-o, já libertos da canga tropeira. Tinha estudado alguma coisa, o equivalente ao segundo ano do liceu, salvo erro, mais por necessidade do que por prazer, e depois ingressou num banco como tesoureiro. Foi colocado na província do Minho. Bom rapaz.

- Quanto tempo esteve em Santa Margarida?

- Deixei para trás, após vinte turbulentos dias, sem qualquer laivo de saudade, meio desfalecido, esse ninho de víboras, covil de chacais, esse malvado, infernal, aquartelamento, antecâmara da morte e do aviltamento.


continua...

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