ENTRE MORTOS E FERIDOS
Romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
4.º Capítulo
TREM-AUTO
Os dois amigos, numa conversa
amena, intercalada com olhares furtivos às moças que circulavam no passeio,
umas elegantes e outras menos, ainda não estávamos no tempo da obesidade,
bebendo umas “imperiais”, comendo uns amendoins ou tremoços, lá iam, paulatinamente,
queimando as etapas da narrativa. Ouçamo-los:
- O quartel de Lisboa, chamado Trem Auto, para onde me recambiaram de
Infantaria 6, estava instalado na Avenida de Berna, onde hoje existe, salvo
erro, uma Universidade. Nele faríamos o estágio durante algum tempo. Depois…
logo se veria! Não sei se por nos considerarem prontos ou profissionais (no bolso, novinha em folha, já repousava a
carta de condução militar), se por qualquer um outro motivo, o tratamento para com os
novíssimos condutores passou a ser bem diferente – para melhor. Nem queria
acreditar.
- Os lisboetas sabem receber bem – aproveitou a deixa Henrique, um alfacinha de
gema.
- É verdade. E tinham obrigação disso,
pois estávamos na capital do país. Mas escuta: eles tinham à nossa espera as
novas viaturas, as famosas «Berliets», carrões enormes (lá
dentro sentia-me uma formiguinha, um dos anões da Branca de Neve), a fim de nós as
experimentarmos. Providas de seis velocidades, bons amortecedores, arranque
perfeito, silenciosas… uma maravilha!
- Bastante sofisticadas para a época – observou o jovem, com alguma admiração.
- Efetivamente. Eu estava espantado com
tamanho avanço da tecnologia. Era mais fácil conduzir um carrão daqueles do que
uma viatura ligeira.
- E deixaram os exercícios físicos e
prática de tiro?
- Não completamente; continuamos, mas
menos tempo. Tiro, praticávamo-lo num descampado, no local onde agora se
encontra o Palácio da Justiça, na Rua Marquês de Fronteira, e também na Carregueira.
Em termos teóricos, caso fôssemos mobilizados, nós não iríamos para a guerra
como atiradores, mas sim como condutores auto; logo, as armas de fogo pouco
seriam utilizadas por estes especialistas, julgava a gente. No entanto… Mais
tarde dir-te-ei o que se passou na realidade.
Pelas manobras encetadas, pelo
cochichar da caserna, tudo nos levava a crer que o objetivo principal das
chefias militares era preparar-nos para a maldita guerra colonial. Aliás, em
Lisboa tomavam-se todas as decisões, por isso já estava tudo decidido a nosso
respeito.
- Do Trem Auto não tem grandes críticas
a fazer, pelos vistos.
- Bem, apesar de estar num quartel,
receber ordens, comer mal, embora melhor do que no Porto, não me posso queixar
muito. Uma boa notícia foi terem-nos aumentado o pré: passamos a ganhar 30$00
por mês, um escudo por dia! Andávamos nos carros de um lado para o outro,
conduzíamos «Berliets», Jipes, «Unimogs», etc. (quem mais conduzia era o monitor, um
verdadeiro apaixonado pela condução); corríamos a cidade de uma ponta à
outra; parávamos, antes de regressar ao pequeno quartel, para bebermos uma
cervejinha. Fazíamos uns serviços: guardas, faxinas, o normal, já estávamos habituados
a isso tudo.
- Rica vida! – ironizou Henrique.
- Não se pode dizer que fosse uma vida
insuportável. Por outro lado, como tinha irmãos em Lisboa e na Amadora, de vez,
em quando, visitava-os e lá comia e dormia. Mas vou contar-te uma historieta
que aconteceu comigo:
Certo dia, depois do jantar,
talvez fossem umas sete horas da tarde, no verão, como sabes, ainda é dia alto,
saindo como de costume com um camarada transmontano, o “Vila Real”, fomos abordados por duas estrangeiras, ainda novas, altas,
bonitas, elegantes, olhos azuis e cabelos loiros, ali para os lados do Parque
Eduardo VII. Pelo seu aspeto e sotaque pareciam nórdicas: suecas ou
norueguesas. Uma delas, toda-sorrisos, pergunta-nos qualquer coisa em inglês.
Com gestos teatrais, de duvidosa mímica, dei-lhe a entender que não sabíamos
falar essa língua. A outra, com um à-vontade surpreendente, insiste: «hablan espanhol?!» Armado em poliglota, respondo:
«Si, um poco.»
Eu lembrei-me das galegas, quando
atravessava o rio Minho para ir falar com elas, mas o galego e o espanhol (castelhano) são
diferentes, agora é que eu compreendia o que me tinham dito das línguas que se
falavam na Espanha: do catalão, do basco... De qualquer modo, a gente havia de se
entender. Então ela informa-nos que estavam no Hotel Ritz e que andavam por ali
a passear, a fim de conhecerem melhor Lisboa… e os muchachos lusos! Continua,
insinuando: «los chicos portugueses, nos agradam mucho!»)
O meu colega, impaciente, sugere:
«despacha as gajas, ou então vamos com
elas para o Hotel.» Encontrava-me em um dilema: tinha a perceção que elas
queriam mais do que conversar, andavam certamente à procura de novas e
empolgantes aventuras, mas eu, coitado de mim, não possuía nenhuma experiência
neste tipo de coisas, tímido e moralista, já me estava a apetecer fugir…
- Fugir?! – pergunta Henrique, horrorizado.
- Sim! Isso já me acontecera numa das
freguesias do meu concelho, teria eu uns dezoito anos de idade. A um domingo de
tarde, numa daquelas festas de aldeia, eu e um amigo, o Tónio, é agora
emigrante na França, “arranjamos”
duas moças bonitinhas, lavradeiras, e começamos a passear à volta da igreja,
como era hábito, pois o resto do espaço para a dita festa estava normalmente
ocupado pelos tendeiros, taberneiros, doceiras, etc. Eu e a cachopa separamo-nos
do outro casal e às tantas não tínhamos absolutamente nada para dizer um ao
outro. Beijá-la estava fora de questão, pois nesse tempo nem um olhar atrevido
seria permitido, quanto mais um beijo. Ela ainda me disse que tinha comido três
malgas de caldo ao almoço, com toucinho e broa, comia bem porque trabalhava muito,
levantava-se cedo para tratar do gado, tinha um pequeno rebanho, cabras e
ovelhas, eram caseiros, mas também possuíam uns campitos próprios. Eu ainda lhe
falei do último filme que tinha visto, com Mário Moreno, o Cantinflas, mas ela
nunca fora ao cinema, não lhe interessava essa conversa. Nem sequer Joselito e
Marisol lhe diziam alguma coisa! De que lhe havia de falar?! Disse-lhe então
que ia fazer uma necessidade, ali a um campo, e ainda hoje espera por mim!
- Isso não se faz a uma menina – reprova Henrique, quase zangado.
- Eu queria ver-te no meu lugar. O
nervosismo era tanto, que até suava!
- E quanto às suecas?
- Bem, eu permanecia indeciso, elas
certamente notaram. De repente, por artes mágicas, surge, pertíssimo de nós, um
táxi. Para ao nosso lado e o motorista pergunta-nos: «Querem levar as estrangeiras para Monsanto?»
Respondo-lhe, meio a rir, meio a
sério, inibido: «Nem dinheiro a gente tem
para mandar cantar um cego!»
O motorista, com cara de mafioso,
já acostumado a essas coisas, acusa-nos: «Saloios!
Não veem que elas é que pagam?!»
Exige, dono do mundo e arredores,
abruptamente: «Se não querem, deixem o
campo aberto para outros.»
De facto, e só agora me
apercebia, ali perto rondavam grupos de homens que nos olhavam com um certo
descaramento – alguma coisa se passava! A rapariga que falava espanhol solicita-nos:
«Vamos embora daqui.»
Fomos somente com elas até à
entrada do Hotel; antes de entrarem pediram-nos amavelmente que esperássemos –
já voltavam. Fiquei com a sensação que iam buscar dinheiro. Ainda não tinham
desaparecido por completo da nossa vista e já eu dizia ao meu colega: «Ó Vila Real, cavemos, antes que isto dê para
o torto!» Agradou-lhe a ideia. Respondeu-me: «Vamos, é comida boa demais para os nossos dentes!»
- E foram embora! É inacreditável!
- É verdade, fomos! Avenida da
Liberdade abaixo, até ao Rossio, vendo estátuas, montras, admirando as últimas
novidades da moda, piscando o olho e sorrindo aos manequins femininos, por
sinal muito bem concebidos – pareciam autênticos! Aquilo sim: regalava os
nossos olhos, não custava dinheiro, não provocava sarilhos, não corríamos
quaisquer perigos. Os prazeres viriam a seu tempo. Quando fôssemos livres e com
algum dinheiro no bolso pensaríamos nisso. Agora era época de hibernação.
- Não me digam que não gastavam um tostão?!
- Nós não éramos turistas; esses sim,
podiam gastá-lo, ganhavam bem; ora nós, a auferir qualquer coisa como trinta
escudos por mês… Olha, gastávamo-lo no bar do quartel, a comer umas sandes e a beber
cerveja. Quase que nem sequer para isso dava! Nos primeiros quatro meses de
tropa deram-me três ou quatro escudos por mês, e sobre esse astronómico
vencimento ainda incidiam descontos!
- Miseráveis, unhas-de-fome! E em
África, pagavam bem?
- Claro que comparado com o que vencíamos
em Portugal significava um aumento enorme: de trinta escudos passamos a receber
quinhentos e cinquenta, isto é, dezoito escudos por dia! Na minha humilde
oficina tirava entre mil e oitocentos a dois mil escudos todos os meses,
qualquer coisa como sessenta escudos diários. Trabalhava muitas horas, mas com
gosto, e não corria perigo de vida…
- Não querendo ser indiscreto, que
profissão tinha na sua terra?
- Era alfaiate, trabalhava por conta
própria.
- Não me diga!
- Sim, desde os dezassete anos. O meu
patrão emigrara para França, fora à caça dos francos, e eu abri uma modesta
oficina nos baixos da casa onde morava.
- Nunca mais voltou a exercer essa
arte?
- Não. Até porque eu nunca cheguei a
ser um verdadeiro artista, apenas fui um remendão; mestres eram considerados
aqueles que sabiam preparar moldes, escolher o pano, cortar o tecido, fazer
fatos por medida. Esses, sim! Eu nunca passei de aprendiz, nunca fui além da
calça. Uma altura atrevi-me a fazer um casaco e o resultado foi catastrófico:
uma manga mais curta do que outra; os chumaços ficaram uma miséria! Nunca mais
o tentei. O que me valeu foi que o pano tinha sido barato, comprara-o na feira,
o prejuízo não se verificou elevado. Depois da disponibilidade, isto é, depois
de deixar o exército, fiquei em Lisboa, continuei a estudar à noite, e o pouco
que sabia da antiga profissão já esqueci, quase que nem um botão sei pregar!
- Também não exagere. Mas voltando à
sua vida militar. Apesar de crítico acérrimo, de só dizer mal, julgo que não
era tão ruim assim: tinha roupa de graça, calçado, comida, alojamento… Aprendeu
a dirigir um carro, conheceu terras…
- Já vejo que estás a brincar. Só pode.
Essa expressão irónica nunca te abandona, mesmo quando estás a falar de
assuntos sérios?!
- Desculpe a ironia, mas não resisto.
Tudo isto me parece ter acontecido na Idade Média, no tempo de Carlos Magno… ou
até antes, no período em que os lusitanos, comandados por Viriato, resistiam
heroicamente aos legionários de Roma.
- Se essas comparações absurdas te
divertem e te libertam a bílis, tudo bem! Também eu estou de acordo que não se
deve dramatizar o que não é passível de dramatização: o que lá vai, lá vai, e
águas passadas não movem moinhos! Deixa continuar o meu relato:
Um dia entrou, para o Trem-Auto, um jovem de etnia cigana. Ninguém sabia
de que quartel vinha. Ficamos todos com inexcedível curiosidade. Era a primeira
vez que a gente via um cigano fardado. Em tudo se assemelhava a nós, mas aquela
pele avermelhada, a pronúncia, tornava-o diferente. Uma raridade! Perguntamos a
um sargento a razão daquela presença, sabíamos que os zíngaros não cumpriam o
serviço militar, muito menos agora, que estávamos em guerra. Disse-nos que
viera voluntariamente, queria ver como era a tropa, romper com a tradição étnica.
- Aceitaram-no bem, espero.
- Certamente; ninguém ali era racista.
Nascera em Portugal, tinha nacionalidade portuguesa… Quanto a mim até tinham
obrigação de cumprir o serviço militar, por quê o privilégio?! Por outro lado,
esse tempo da tropa podiam aproveitá-lo para estudar, para adquirir
conhecimentos técnicos, enfim, tornarem-se cidadãos como os outros.
- E depois?!
- Não vais acreditar! Nessa noite ficou
aquartelado, mas de manhã, logo após o pequeno-almoço, pôs-se a andar. Com a farda
no corpo!
- Foram logo atrás dele?
- Nem penses. O assunto ficou
encerrado, por ordem superior. E ninguém falou mais nisso.
Mas há outro caso também curioso:
um filho do proprietário de uma grande companhia de transportes, que possuía
uma, ou mais agências de viagens, era nosso camarada. Como não tinha estudos, apenas
a 4.ª classe da instrução primária, e não quis emigrar, teve de vestir a farda
de soldado raso. Acontece que entrava e saía da unidade militar com a maior displicência
e facilidade! Umas vezes fardado, outras vezes à paisana. Não comia no quartel,
não fazia serviços, nada! Nós estávamos de boca aberta!
- Que tropa fandanga! Assim até dava
gosto…
- Pudera! Rico e importante, fazia o
que queria. Mas espera: ao cabo de uns dias desapareceu, tal como o gitano.
Perguntando nós o que se tinha passado, fomos informados de que já passara à
disponibilidade – cumprira dois ou três meses! Provavelmente nem um tiro dera!
- Afinal, o rigor no tempo de Salazar é
um mito!
- Isto é só aquilo a que assisti. Não
fazemos sequer ideia do que se passou na realidade. A podridão alastra em
qualquer regime; onde houver humanos há corrupção, há vítimas e privilegiados. Quem
tinha dinheiro não permitia que os filhos fossem para a guerra – íamos nós, os
pobres, a tal carne para canhão. Daqueles que morreram e ficaram mutilados quantos
eram filhos de ricos?
- Nenhum! – afirmou Henrique, perentoriamente.
- Podes ter a certeza... Até podia
haver um caso isolado, a exceção à regra, um jovem família, fascista, que se
alistara por ideologia, para defender a “pátria sagrada”, ou empurrado pela
família, militarista, mas que eu saiba não.
*
Dois meses passam depressa quando
as coisas correm mais ou menos de feição. Certo dia chamam Cândido à Secretaria e o amanuense diz-lhe
que tinha sido destacado para a Academia Militar, na Rua Gomes Freire, Lisboa, a
fim de prestar serviços de condutor. Teria de levar os cadetes para os seus
exercícios em Sintra, e arredores, bem como para outros lados; seria, quando a
escala assim o determinasse, condutor dia, isto é, nesse dia estaria ao dispor
da Academia para ir aonde fosse necessário.
continua...
***
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