ENTRE MORTOS E FERIDOS
romance histórico
Por Joaquim A. Rocha
5.º Capítulo
ACADEMIA MILITAR
O número de carros começava a
aumentar na cidade capital do país, a poluição crescia proporcionalmente, Lisboa alterava,
impavidamente, a sua fisionomia. Alguns estabelecimentos comerciais encerravam
mais cedo por causa dos assaltos, a noite começava a ser perigosa. Os dois amigos
encontram-se de novo e encetam longa conversa:
- O trabalho na Academia Militar não
matava ninguém, chegava a aborrecer-me de fazer tão pouco, e o comer não era
mau de todo.
- Seria sinal de que já se estava a
habituar ao rancho?
- Talvez não; a comida era de facto
melhor, embora não fosse boa. Os cozinheiros não eram militares.
- Sendo assim!...
- Na Academia trabalhava, como
empregado civil, o marido da minha irmã, de seu nome Rodolfo. Era rijo como um
touro bravo. Nunca vira ninguém com tanta força. Levantava um saco de cem
quilos de batata com a mesma facilidade com que eu levanto dez quilos! Viera da
província de Trás-os-Montes para Lisboa, com as mãos cheias de calos,
provocados pela enxada, cumprir o serviço militar, e por cá foi ficando depois
daquele concluído. Quando podia chamava-me e perguntava se eu queria comer
alguma coisa, visto que amiúde os seus chefes lhe pediam para ajudar na
cozinha. Raríssimas vezes aceitei – nunca fui comilão.
- Podia ter aproveitado.
- Pois podia! Dizia-me ele,
constantemente: «Dou aos outros, que não
me são nada, por que não hei de dar ao meu cunhado?!» Mas eu, não sei por quê,
não queria, não aceitava.
- Orgulho?
- Quem sabe… talvez. Há coisas que não
têm explicação, essa é uma delas. Eu julgo que era mais vergonha, embora uma
coisa e outra pudessem existir em mim. Sabes: é a personalidade de cada um de
nós. Somos todos diferentes, apesar de termos muitíssimas caraterísticas em comum.
Por outro lado, herdamos traços dos nossos antepassados – pais, avós…
- Por falar nisso, nunca me falou do
seu pai!
- É verdade, nunca te falei dele… mas
crê-me, nada há para dizer a esse respeito. Partiu, teria eu três meses de
vida. Emigrou para as Américas, segundo me contou a minha mãe. Deve ter
arranjado por lá outra mulher, rodeou-se de fedelhos, ou então morreu, mas não
de saudades certamente.
- Lamento.
- Nem sequer o conheci. A minha mãe
também pouco me falava dele. Ficou apenas uma fotografia, um pedaço de papel. O
tempo, tudo faz esquecer. Não se pode ter saudades daquilo que não se viveu, do
que não se amou.
Henrique compreendeu. Em Cândido existia
uma mágoa profunda, algo de inexplicável, uma ferida nunca fechada, talvez um
segredo. Não insistiria.
- Desviou-se do assunto! – lembrou Henrique.
- Pois desviei. Falava da Academia
Militar. Sabes que a condução em Lisboa jamais se tornou fácil para mim. Não me
sentia com competência bastante para guiar naquelas ruas movimentadas e com
aqueles polícias sinaleiros sempre a fazer sinais, pareciam autênticos robôs!
Questão de medo, de caráter: sei eu lá! Os jipes, tudo bem, mas as outras viaturas…
- Para se conduzir bem é necessário
concentração. A sua mente andava agitada. E agora já não tinha o instrutor ao
lado.
- Pois não. Era eu o máximo responsável
pela condução. Certo dia, na subida da Rua Joaquim António de Aguiar, a caminho
de Sintra, com vários cadetes dentro, um a meu lado e os restantes nos bancos
de trás, o motor deixou de funcionar. Acelera, não acelera, estava a ver que
não conseguia sair dali! Os carros, na minha retaguarda, começavam a buzinar
ininterruptamente, pessoas ansiosas, olhando para os relógios de pulso, enervando-me
ainda mais, se possível. «Com os diabos!»
- resmunguei entre dentes. «Sou um autêntico
zero à esquerda a conduzir, não sei como me vou livrar desta!»
O meu Cireneu, quem me socorreu
naquela aflição, foi um dos cadetes. Pede-me, com esmerada educação e ao mesmo
tempo com autoridade: «Você está muito
nervoso, passe para o meu lado, eu guio.»
Obedeci prontamente – queria sair
dali, ultrapassar aquela ridícula situação.
- Sentia-se humilhado! – comentou, com semblante triste, Henrique.
- Eu sentia-me mais frustrado. Não
gostava que traçassem o meu destino. A tropa não era nenhuma etapa da minha
vida – estava ali contrariado. Eu até poderia um dia aprender a conduzir,
comprar um carro, mas assim não – eu não nascera para escravo, para obedecer...
- E para mandar?! – atira Henrique, como um repto.
- Nem para isso, meu amigo. A minha
filosofia de vida resume-se a muito pouco: todos somos iguais, homens e
mulheres, e devemos viver em liberdade e responsabilidade; cada um de nós dá à
sociedade o melhor de si e recebe aquilo de que necessita. Para sermos felizes
não precisamos de muito. Todos devíamos ter direito à instrução, ao
conhecimento, e depois cada um escolhe, mediante as suas potencialidades, a sua
profissão.
- Há profissões melhores do que outras…
- Aparentemente é assim. Um mineiro
pode queixar-se de levar uma vida dura, pouco saudável; mas se ele gostar dessa
atividade, só quer uma coisa – boas condições de trabalho, além de ótima
remuneração, que lhe permita viver bem, sem sobressaltos. Os pescadores, por
exemplo, arriscam a vida no mar, mas vai dizer-lhes para abandonarem essa faina!
Não querem, gostam daquilo que fazem, sentem-se livres como as aves do céu e
também úteis à sociedade. Contudo, quanto a mim, devem ser bem pagos e dar-lhes
a oportunidade de se instruírem. Um barco pode estar bem equipado, ter uma
pequena biblioteca, música, etc. E por aí, fora. Todos os mesteres são dignos
desde que as pessoas que os desempenham o sejam.
- Até certo ponto estou de acordo, mas
isso é utópico.
- A utopia só o é enquanto não se torna
realidade. Não era utópico desejar a República? Pois em 5 de Outubro de 1910
uns quantos republicanos conseguiram-no! Não penses que foi fácil, muitos
obstáculos surgiram, mas por fim a vitória surgiu radiosa.
- Não durou muito! – contrapõe Henrique.
- É verdade, não durou muito, apenas
dezasseis anos. A igreja católica, apoiada pelos monárquicos, e também alguns
pseudorepublicanos, tudo fizeram para a derrubar. Paiva Couceiro, refugiado em
Espanha, invadiu o país pelo norte, mas saiu-lhe o tiro pela culatra. No entanto,
a minha história não é essa.
- Fiquei com curiosidade: no regresso
levou a viatura para a Academia?
- Sim, com alguma facilidade. Acalmei,
os cadetes fizeram por esquecer o triste episódio, e tudo correu bem. Nunca
ouviste dizer que «para baixo todos os
santos ajudam?!»
- Ainda bem, senão seria traumático
para si.
- Ainda procurei mudar de
especialidade. Argumentei que era baixo, mal chegava aos pedais, enfim, que não
queria continuar a conduzir.
- E eles?
- Esperei pela resposta. Nunca me foi
dada!
Com altos e baixos, asneiras e proezas, alguns reveses, os dias morriam
um a um; dias que ia abatendo no meu canhenho. O tempo, no seu rolar lento e
imperturbável, começava a ganhar volume. Dez, onze meses (contava desde Janeiro), é muita hora para
um soldado que anda na tropa por obrigação, como se estivesse no presídio.
Comecei a criar ilusões e a fazer perguntas, interrogações, a mim próprio: «Ter-se-iam esquecido de mim, porventura?! já
não irei para a guerra colonial?!»
- Porém…
- Pura ilusão! Sonho infantil!
Finalmente chegara o momento da terrível notícia, aquela que nos destroça, nos
fulmina. É como subir ao cadafalso, ao patíbulo, para nos separarem a cabeça do
resto do corpo! O amanuense avisou-me de que o 1.º sargento me esperava na Secretaria.
Era um homem aparentemente simpático, mas cruel. Nem sequer rodeou a questão.
Não queria perder tempo: «Arruma a
trouxa, foste mobilizado para a província da Guiné-Bissau; tiveste pouca sorte,
seria muito melhor Angola, ou mesmo Moçambique. Paciência, alguém teria de ir
para lá.»
- Teve azar… - lamentou sinceramente
Henrique.
- Já não faltava muito para completar
um ano de serviço militar. Tive, de facto, pouca sorte. Não me podia esquecer
de que representava um simples número, e os números jogam-se, não se esquecem!
- Como reagiu?
- Perdi completamente o apetite;
esperneei de raiva. A Guiné-Bissau apavorava qualquer um: o clima, a guerra, as
doenças, feriam, matavam, dizimavam, diziam os que de lá vinham! Um camarada de
caserna, fervoroso católico, aconselhou-me a fazer uma promessa à Senhora de
Fátima e aos dois pastorinhos que morreram logo a seguir a 1917, primos da
Lúcia. «Vais ver que te protegem»,
garantiu-me.
Eu, desiludido com tudo,
descrente, digo-lhe: «Não adianta, morre
quem tem de morrer!» Ele não ficou nada convencido com a minha precipitada
resposta: «Não é bem assim – olha que
conheço muitos que se salvaram oferecendo promessas aos santos da sua devoção.»
E mencionou uma caterva de santinhos, com os seus milagres.
Eu, que não estava interessado na
conversa, rematei: «Sopraram, para as
suas bandas, ventos benfazejos; do meu lado apanhei com os tufões!»
- Ele estava a tentar somente ajudá-lo,
não devia ter sido tão severo – reprova
Henrique.
- Hoje estou arrependido, mas na
ocasião, danado como estava, não refleti o suficiente e fui antipático com o
camarada. Há momentos na nossa vida em que a ajuda, ou pseudoajuda, dos outros
nos parece ofensiva. Eu fui mobilizado e logo para a pior frente de guerra.
- Se você não fosse iria outro…
- Isso é verdade, eles teriam de
preencher as vagas; mas logo eu, que não gostava minimamente da tropa, muito
menos da guerra. Quem a provocou que a combatesse; que fosse o Salazar e os
seus ministros, os secretários de Estado, e podiam levar com eles as suas
amantes…, a famelga completa.
- Não adianta protestar, manda quem
pode; sempre foi assim e assim continuará a ser.
- Talvez não: a inteligência e a
cultura do cidadão comum levá-lo-á a rejeitar a violência, é uma questão de
tempo. O cérebro evolui.
- Otimista! – ironiza Henrique, convencido de que as coisas não mudam do pé para a
mão. – As mudanças levam anos, ou séculos, a concretizarem-se – remata ele.
continua...
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