EU E O
25 DE ABRIL
Já
algumas vezes me perguntaram: - onde estavas no 25 de Abril de 1974? A resposta
é sempre a mesma: - estava em Lisboa, no bairro da Mouraria. Era ainda um
jovem, trabalhava de dia e estudava à noite, como tantos outros. Naquele tempo
a maioria dos jovens não tinha acesso fácil ao ensino, pois as famílias eram
muito pobres e não tendo capacidade financeira os filhos tinham de começar a
trabalhar ainda na adolescência. Os que estudavam somente, não precisando de
trabalhar, eram filhos de gente remediada ou rica, uma minoria. Salazar e
Marcelo Caetano nada fizeram no sentido de melhorar as condições de vida dos
portugueses pobres. No sector rural, nas pescas, nas fábricas, o trabalhador
ganhava miseravelmente; a maioria dessa gente era analfabeta, tendo frequentado
apenas dois ou três anos do ensino dito primário, o que não chegava sequer para
ler uma carta, quanto mais escrevê-la!
Pois
é: por volta das três da manhã o senhor António, que vinha do Parque Mayer,
onde trabalhava como carpinteiro no teatro, acordou-me e disse: - está a
decorrer uma revolução. Eu estremunhado, perguntei-lhe: - mas o que se passa
concretamente? Diz-me: - os militares estão na rua, consta que querem derrubar
o governo. Levanto-me, vou à janela, e vejo passar uma data de GNRs, com as
armas prontas para o que desse e viesse. Afinal as coisas estavam feias. Se os
militares vencessem, as coisas no país iriam ser diferentes, pensava eu.
Acabaria a guerra colonial, haveria liberdade de expressão, provavelmente os
salários e ordenados melhorariam, a democracia seria possível. Mas também - pensava
eu -, se fosse o general Spínola a comandar esses militares, tudo ficaria
praticamente na mesma, pois esse homem tinha pretensões a ditador. A ideologia
dele, fascista e nazi, não nos deixava quaisquer dúvidas. Logo se veria.
Deitei-me novamente, mas não adormeci. O que se estava a passar era demasiadamente
importante para o sono se apoderar de mim. Por volta das sete horas levanto-me,
fui tomar o banho diário, e saio para a rua, pois o meu contrato com o senhorio
não incluía refeições: era somente o quarto e roupa lavada. Dirijo-me a uma pastelaria
e estava fechada. Assim aconteceu com outras – tudo encerrado. Viam-se tropas
por todo o lado. Ouviam-se vivas aos soldados, aos capitães, distribuíam-se
cravos vermelhos. O meu estômago pedia comida, mas teria de esperar. Fui até ao
Chiado. A rua onde a Pide tinha a sede estava apinhada de gente, gritando
impropérios contra os malvados agentes. Houve tiros e morreram pessoas – os
pides não estavam habituados a esse tratamento, toda a população os temia.
Surgem de repente os fuzileiros e invadem o edifício dessa terrível
organização. Alguns agentes escaparam-se, através de portas secretas, mas os
populares perseguem-nos. Eu, esfomeado, vou correndo as ruas à procura de um
Café ou restaurante, mas nada – ninguém queria arriscar. Nessa altura eu
trabalhava na Rua do Alecrim, perto da estátua de Eça de Queirós, no escritório
da SNAPA, uma empresa de pesca de arrasto. As colegas tinham bolachas e
deram-me algumas para eu matar a fome. Nesse dia ninguém trabalhou. Já pensava
no almoço, iria ser difícil encontrar na cidade algum restaurante aberto. O
chefe do escritório disse-nos que podíamos sair, pois não havia ambiente para
trabalhar. Fui até ao Largo do Carmo, aproveitaria para tratar de uns assuntos
na Escola Comercial Veiga Beirão, onde eu estudava à noite, mas ali havia tanta
multidão, civis e militares, que não me foi possível avançar. Estava lá o capitão
Salgueiro Maia, tentando convencer Marcelo Caetano a entregar-se, mas as coisas
ali não estavam a correr muito bem. Saio desse sítio e vou até ao Bairro Alto,
onde finalmente descubro uma tasca manhosa; comi uma simples refeição, que na
altura me pareceu a melhor do mundo. As pessoas do bairro pareciam alegres, mas
também preocupadas. O que iria sair dessa manifestação de força por parte dos
militares de baixa e média patente? Eram homens que já estavam fartos da
guerra; desde 1961 que combatiam em África sem quaisquer resultados positivos à
vista. As promoções eram lentas, os perigos na selva africana aumentavam
exponencialmente, havia, todos os dias, mortos e feridos. Os guerrilheiros de
Angola, Moçambique e Guiné estavam a ser apoiados por grandes potências mundiais,
as armas iam-lhes sendo entregues à medida das suas necessidades, a tropa
portuguesa já não podia resistir mais. Os cofres do Estado estavam cada vez
mais vazios, os jovens começavam a fugir para o estrangeiro, evitando dessa
maneira o serviço militar obrigatório.
Nos
dias seguintes as coisas começaram a melhorar; os estabelecimentos comerciais
abriram as portas, a televisão e os jornais iam-nos dizendo o que se
passava, falavam-nos de um novo regime, de socialismo democrático, de
bem-estar, de esperança, de muita liberdade. Enfim, o 25 de Abril trouxe-nos de
facto algumas coisas boas, mas muitas promessas ficaram por cumprir. Em lugar
do socialismo temos o capitalismo à americana, os salários e ordenados voltaram
a cair. Os impostos são mais do que muitos, compraram-se apartamentos mas
paga-se às Câmaras Municipais uma renda anual, chamada Imposto Municipal (IMI),
como se o apartamento não fosse nosso, mas sim das Câmaras! Apesar de tudo,
viva o 25 de Abril.
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