segunda-feira, 5 de outubro de 2015

AS MINHAS ANEDOTAS

Por Joaquim A. Rocha


      Certo dia o senhor António resolveu ir à praça comprar peixe. A senhora Maria, peixeira há muitos anos, dotada de um vozeirão infernal, ao vê-lo aproximar-se grita: «ó freguês, olhe para este carapau fresquinho; veio hoje mesmo do mar

   
  O senhor António, habituado a fazer compras, analisa cientificamente os olhos do carapau, completamente vidrados, e diz com ironia: «ó senhora peixeira, esse até parece que veio do mar morto


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UMA IDEIA GENIAL

     Ano 2016. Maria de Belém fora eleita presidente da República. A sua primeira viagem ao estrangeiro efetuou-se à Alemanha. A chanceler alemã fez uma grande festa em sua honra, com música e dança. A portuguesa dançou com diplomatas, com ministros… Às tantas surge no salão um funcionário da embaixada portuguesa; trazia uma mensagem urgente para a presidente do Estado português. Perguntou onde ela se encontrava, mas ninguém sabia – andava por ali a dançar, no meio daqueles gigantes. Diz um alemão ao mensageiro: «porque é que vocês não lhe põem um chip; assim saberiam sempre onde ela se encontrava!»

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       Nota: ambos os desenhos são da autoria de Luís Filipe Gonzaga Pinto Rodrigues, melgacense.   








    



sábado, 3 de outubro de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



MACRÓBIOS

     Mais uma vez dou a conhecer aos meus leitores um conjunto de criaturas idosas, as quais morreram com cem, ou mais anos de idade, praticamente numa altura em que pouco se recorria aos médicos e aos medicamentos. Os remédios caseiros, quase todos feitos a partir de plantas, eram a mezinha que ajudava a curar as pequenas doenças. As couves, as batatas, um pedaço de carne de porco, davam força, energia suficiente para o dia a dia. É certo que nem todas as pessoas da chamada aldeia duravam tanto tempo, mas mesmo assim esta longevidade espanta-nos.  

Cristóval

BARROS, Maria Alexandrina. Filha de Domingos José de Barros e de Maria Gonçalves. Nasceu na freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço, a 5/12/1884. // Faleceu na freguesia da Pena, concelho de Lisboa, a 23/6/1984, quase com cem anos de idade.

DOMINGUES, Maria Augusta. Filha de António Avelino Domingues, natural da freguesia de Fiães, e de Francisca Rosa Esteves, natural da freguesia de Cristóval. Nasceu nesta última freguesia, Cristoval, a 20/7/1907. // Casou a 22/10/1924 com Manuel José Pinheiro, natural de Fiães. // Faleceu na sua freguesia de nascimento a 13/11/2009, com cento e dois anos de idade.


GOMES, Estefânia Augusta. Filha de Manuel António Gomes e de Delfina de Sousa Viana. Neta paterna de Manuel António Gomes e de Rosa Alves; neta materna de António José de Sousa Viana e de Rosa Durães. Nasceu no lugar de São Gregório, Cristóval, a 21/3/1878 e foi batizada a 24 desse mês e ano. Madrinha: Maria de Sousa Viana, casada, residente em São Gregório, tia materna da neófita. // Casou com Vitorino José Esteves. // Foi benemérita das obras de Santa Rita, Rouças, e do Lar Pereira de Sousa. // Embarcou para o Brasil a 20/3/1950, ficando a morar em casa de familiares. // Finou-se em São Paulo, Brasil, a 24/6/1985, com 107 anos de idade. // Mãe de Virgínia Aurora Esteves, nascida em São Gregório em 1902, e de Vitorino Manuel Esteves, nascido em São Gregório em 1908. // Era irmã do padre Manuel Bento Gomes, falecido em 1947, o primeiro arcipreste do concelho de Melgaço.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

GENTES DE MELGAÇO
(biografias)

                                                                Por Joaquim A. Rocha

Freguesia de Paderne


         Dr.  Vitoriano ao centro, de bengala, com a família.

CASTRO, Vitoriano da Glória (Dr.) Filho de Lourenço José Ribeiro Codesso de Figueiredo e Castro e de Maria Joaquina Mendes. Neto paterno de Jerónimo José Codesso Soares de Figueiredo e Costa e de Margarida Clementina de Lima Azevedo de Sousa e Castro (ele da Casa da Portela de Paderne e ela da Casa da Cordeira, Rouças); neto materno de Ana Luísa Mendes, natural de Cevide, Cristóval. Nasceu na Portela de Paderne a 27/8/1860 e foi batizado a 6 de Setembro desse ano. // Fez exame da 4.ª classe em 1872, depois foi para o Liceu de Viana. Ingressou em 1890 na Universidade de Coimbra onde, em Julho de 1895, se formou em Medicina. Fixou a sua residência em Alvaredo antes de 1904 pelo facto de a esposa ter herdado a Quinta da Carvalheira (para iluminar a casa comprou a João Batista dos Reis, famoso latoeiro, o gasómetro a carbureto “Sem Rival”, inventado pelo dito João). // Casou a 21/9/1891 com Joaquina de Boa Memória, de 17 anos de idade, filha de Francisco José da Rocha e de Maria da Conceição Queirós, comerciantes e proprietários na Vila de Monção e em Penso. Em Outubro de 1897 ainda morava em Penso. // Pertenceu ao Partido Progressista no regime monárquico. Depois de 1910 aderiu à República, mas, aborrecido com esta, em 1916 já se dizia simpatizante da monarquia. // Logo que terminou o curso abriu consultório em Melgaço, na «Farmácia Nova», de Domingos Ferreira de Araújo, sendo nomeado pouco depois médico municipal, tendo a Câmara criado o 3.º partido médico. // É uma das figuras mais carismáticas do concelho. Tudo lhe acontecia! O Correio de Melgaço n.º 41, de 1913, traz uma notícia surpreendente: «Manuel Barrenhas, de Cousso, homem – ao que dizem – de alguns haveres, tem ido diversas vezes a casa do Dr. Vitoriano, em São Martinho [de Alvaredo], fazendo diabruras. A última, porém, foi de consequências más, dando ao nosso amigo médico não pequeno prejuízo, arrancando-lhe parte do arame que lhe cerca a propriedade, e inutilizando o tejadilho e respectivos varais do seu carro. Além destas proezas, outras o homem tem feito, sem que até hoje alguém a elas ponha cobro. A família do nosso digno amigo e vizinhança vive em sobressalto, pois que o doido tem ideias incendiárias. O Dr. Vitoriano já fez queixa à autoridade administrativa, que imediatamente deu as necessárias providências.» // Outra má notícia aparece-nos no Correio de Melgaço n.º 120, de 13/10/1914: «Quando no sábado último se dirigia a esta Vila o Dr. Vitoriano, guiando o seu carro e trazendo nele Henrique de Sousa, do Porto, João Batista Reis e o pequenito Lourenço, ao chegar próximo do Rio do Porto o cavalo não susteve o peso do carro e precipitou-se na propriedade de Manuel Pires, a uns três metros abaixo da estrada. O carro virou-se sobre os passageiros que, devido a uma latada, amorteceu o choque – nada mais sofreram do que o susto.» // Outro caso menos agradável para ele foi quando a Câmara Municipal abriu concurso para um médico do 2.º partido, oferecendo 400$00/ano. O Dr. Vitoriano era detentor do 1.º partido e recebia 300$00. Candidatou-se; os outros candidatos eram o Dr. Manuel Pinto Magalhães e Dr. Joaquim Pereira (Correio de Melgaço n.º 173, de 7/11/1915). Foi escolhido o Dr. Magalhães. Uma injustiça, segundo a opinião dos colaboradores do “Correio de Melgaço”. Vingança! – acusavam os seus correligionários. O lugar já estava destinado ao Dr. Magalhães, segundo os do Correio de Melgaço: «O que revolta e indigna é que o Dr. Vitoriano, credor de todas as deferências e com uma larga folha de serviços prestados durante vinte anos, fique a perceber menos 100$00/ano! Isso não pode ser! Contra isso protestamos ardentemente e gritaremos sempre: abaixo a iniquidade!» (Correio de Melgaço n.º 175, de 21/11/1915). «Ó céus! – porque não baixais à terra num momento dado e por intermédio de um planeta limpais dela esses homens, elevando-os para essas regiões onde não mais fossem vistos do povo?» (CM 176, de 28/11/1915). Os do “Jornal de Melgaço”, do partido político oposto, aplaudiam. Os vereadores argumentavam: «para ele concorrer teria que se demitir de médico municipal.» Logo contra argumentaram os do Correio de Melgaço: «onde está a lei que manda que o médico se demita do lugar que ocupa para concorrer a outro qualquer lugar, quer fora quer dentro do concelho?!» 

Dr. Vitoriano ainda jovem.

      Vendo bem as coisas, de facto existia alguma animosidade, tendo em conta que ele era o subdelegado de saúde – não devia ganhar menos do que o seu colega. Por esta e outras coisas, é que mais tarde passou a ser tudo controlado por Lisboa. Também o acusaram, aquando da epidemia da febre tifóide em Castro Laboreiro, iniciada em Agosto de 1913, de não ir lá com regularidade, e até de se fazer passar por doente para não ir. Lê-se no Correio de Melgaço n.º 92, de 22/3/1914: «O subdelegado de saúde de Melgaço nas suas visitas a Castro, desde que ali se encontra pessoal da Cruz Vermelha, tem sido por este delicada e atenciosamente recebido, acompanhando-o um dos seus enfermeiros na visita aos doentes, como pela mesma autoridade sanitária é confirmado, ao mesmo tempo que reconhece os bons serviços, admirável dedicação e comprovado zelo do referido pessoal…» Foi também publicado, no “Aurora do Lima”, um desmentido acerca de um suposto conflito entre ele e o pessoal da Cruz Vermelha destacado em Castro. Mas nem tudo era negativo. O Dr. Augusto César Esteves, na altura notário e advogado em Monção, num agradecimento por morte de seu pai, ocorrida em Setembro, escreveu a 3/11/1914: «… Aproveito também a ocasião para novamente patentear aos Ex.mos Dr.s Vitoriano Ribeiro de Figueiredo e Castro e Bernardo Salgueiro e Cunha, distintos facultativos, os sentimentos da minha eterna gratidão pela forma carinhosa e desvelada como trataram, durante a doença, meu saudoso pai, e pelos esforços que envidaram para debelar o mal que deste mundo dos vivos fez riscar mais um nome» (Correio de Melgaço n.º 123). Para se ficar com uma ideia dos seus ideais políticos, transcrevo uma entrevista que ele concedeu ao Correio de Melgaço n.º 221, de 22/10/1916, aquando da campanha para as eleições de 5 de Novembro:
     «Na árdua faina duma clínica enorme, fomos encontrar o ilustre médico municipal e subdelegado de saúde, Dr. Vitoriano, que a correr nos diz sobre a nossa pergunta acerca da lista do concelho e eleições próximas:
    - A lista do concelho, meu caro, é, como vê, formada pelos nomes mais em evidência e que melhor garantia nos dão de que Melgaço prosperará sob a sua administração. Não preciso de especializar para demonstrar a competência, honestidade e sensatez dos indivíduos que sobre si tomaram o honroso mas difícil encargo de gerir os negócios municipais. Custou ainda decidir alguns, mas perante o descalabro em que Melgaço andava, as dificuldades desaparecem, abateram-se as bandeiras partidárias e formou-se esse núcleo forte de homens decididos e enérgicos, dispostos a defender os interesses do povo, contra as arremetidas dos que só têm procurado aumentar os impostos, sugar o pobre até ao último ceitil.
     - Ora, isso há-de acabar.
     - Com o projecto do meu amigo Dr. Durães, de colectar em dois centavos as garrafas de água que são exportadas para o Porto, Lisboa, e mais partes, cria-se uma receita que deve orçar entre seis e sete contos por ano. Se essa receita não servir para outros planos grandiosos, que ele já apontou, servirá para melhorar as condições péssimas de vida em que se encontra a maior parte das freguesias do concelho. E supondo que a receita líquida é só de seis contos anuais verá que, no fim do triénio por que a vereação é eleita, somará a bonita quantia de dezoito contos, que distribuídos pelas dezoito freguesias dará um conto de réis para cada uma.
      - E os católicos? – (…) Não concorrem à urna com os senhores?
      - Em vista da constituição da lista, tendo a representá-los quatro sacerdotes dos mais dignos e considerados, julgo que nenhum católico, que seja crente sincero, deixará de votar connosco. Demais, a lista contrária não lhes dá nenhuma garantia de consideração, antes pelo contrário, segundo é voz geral e corrente, fazem parte dela indivíduos que estão metidos na seita maçónica, que como sabe é inimiga figadal da Igreja.
     - Contudo…
     - Sim, contudo talvez haja católicos, e quem sabe se até ministros da própria religião, que votarão contra nós, contra os seus colegas e a favor dos maçónicos. Mas com certeza esses católicos só o são de nome; e se o não forem o seu remorso será o maior castigo que podem ter. Os sacerdotes ficarão sempre com a mácula de se terem unido aos maçónicos, e os outros… mas não creio que haja um único católico – e muito menos um sacerdote – que vote contra a religião, que vote a favor da maçonaria. Seria um crime de lesa-religião, seria a maior baixeza, seria o maior vilipêndio
    Estavam representados três partidos nessa lista: Democrático (Afonso Costa), Evolucionista (António José de Almeida) e Católico (não republicanos): clero, nobreza e povo. Faltava a União Republicana (de Manuel Brito Camacho), por não ter expressão no concelho de Melgaço. À cabeça da lista estavam o padre Francisco Leandro Álvares de Magalhães, reitor de Alvaredo, e o advogado, Dr. António Augusto Durães. A lista contrária era chefiada pelo capitalista João Pires Teixeira. Por ironia do destino, e devido à agitação que pairava na capital, essas eleições foram adiadas sine die… // O Governador Civil, a 19/3/1918, visitou o concelho. Foi acompanhado pelo Dr. Vitoriano, Dr. Antonio Durães, e pelos partidários deste: Luís Vicente Rodrigues, José Barbosa Martins, padre Francisco Leandro e António Xavier de Castro, irmão do médico. «Como se vê, compareceram somente os chefes monárquicos e o antigo chefe democrático, que nesta qualidade tão falado foi; (…) lembramos que foram aqueles senhores que o acompanharam quem – aliados ao chefe democrático – puseram este concelho em estado de sítio.» Isto lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1200, de 23/3/1918. // E não havia de cair a 1.ª República! // Os seus adversários não lhe davam tréguas. No Jornal de Melgaço n.º 1226, de 15/11/1918, pode ler-se: «… informado o delegado de saúde do distrito de que em Castro grassava a epidemia (influenza pneumónica), envia um ofício para o subdelegado deste concelho, encarregando-o de mandar um médico para aquela freguesia; mas o ofício – não sei por que arte mágica – em vez de ser entregue ao Dr. Salvador (a substituir o Dr. Vitoriano por este estar doente) que exercia as funções de subdelegado, vai parar às mãos do Dr. Vitoriano que, por estar doente, e por isso arredado do serviço, nada devia subdelegar; a mania, porém, do mando faz que a sua doença desapareça, e imediatamente entra em exercício para mandar o Dr. Salvador para Castro Laboreiro…» - Mas o médico não vai! Escreveu o professor Dâmaso, que assinava “Grilo”: «Pobre doutor! Querem forçar S. Ex.ª a sofrer o duro inverno em Castro! Para aquela freguesia seria uma felicidade, mas a S. Ex.ª - que pode dizer-se afoitamente foi quem debelou a epidemia nesta Vila e freguesias limítrofes – seria justo dar como prémio um inverno [na serra?!] Maldito prémio! Altercam um pouco na Praça da República, o Dr. Vitoriano reentra em exercício como subdelegado, e quer então que o Dr. Salvador seja desterrado para [a montanha]; e como na actualidade o Dr. Vitoriano politicamente vale alguma coisa leva o caso para o Governo Civil, sendo dada ao Dr. Salvador ordem de marcha para Valença. Mas Sua Ex.ª lá foi para Valença e continuam dezassete freguesias deste concelho entregues, exclusivamente, ao Dr. Vitoriano, o que representa o regresso e alastramento da epidemia e daí a morte de centenas de pessoas…» (Jornal de Melgaço n.º 1226, de 15/11/1918). Mas não foi assim: para substituir o Dr. Salvador veio para Melgaço o Dr. Manuel Dias Moreira «que no ano passado tão bons serviços prestou a este município quando grassou por aqui a pneumónica» (Jornal de Melgaço n.º 1262, de 14/9/1919). Na Vila de Melgaço encontrava-se na altura um grupo de oito elementos da Cruz Vermelha, não havendo entre eles nenhum médico; no entanto fizeram o que estava ao seu alcance, dando luta sem tréguas à maldita epidemia. // No mesmo número daquele jornal (Jornal de Melgaço n.º 1226) ainda lemos: «Faleceu esta rapariga (Maria José) tendo-se-lhe talvez podido evitar a morte se o Dr. Vitoriano tivesse cumprido melhor os preceitos da caridade. É certo que este doutor (…) tem tido bastante que fazer; apesar disso, porém, estando Sua Senhoria na farmácia do compadre, onde a mãe da finada lhe pede por três vezes que vá ver sua filha que se encontrava com muita febre, a todos esses pedidos responde: - «não vou lá.» Mas o amor de mãe que – quando vê sua filha em perigo – em nenhuma coisa pensa que não seja procurar descobrir o meio de conseguir que o doutor vá ver sua filha, lá se lembra de pedir a um terceiro, e desta maneira consegue que o médico vá ver a agonizante. Vai, mas tanto valeu como nada, porque, mesmo sabendo do seu ofício, com tanta demora a doença lá foi caminhando, de sorte que [a moça] lá está no cemitério. Um abalizado [clínico], que nesta epidemia tem prestado a este concelho relevantes serviços, diz que está admiradíssimo da benignidade da moléstia nesta região. Diz mais quetratados os doentes convenientementepoderia morrer uma em cada cem pessoas atacadas. Não [podia] ser Maria José uma das noventa e nove? Mais caridade, pois, que nem todas as pessoas terão a feliz ideia de recorrer a uma terceira, e assim das cem pessoas atacadas irão noventa e nove para o cemitério, salvando-se apenas uma!» // Esta acusação é deveras grave, no entanto, e a ser verdade, até certo ponto compreende-se a atitude do médico. Provavelmente já tinha visto a paciente e chegado à triste conclusão de que nada havia a fazer. A maldita epidemia, talvez devido à guerra, atingiu forte o concelho de Melgaço – dias houve que muitos mortos iam para o cemitério embrulhados em lençóis, pois já não chegavam as urnas! Mesmo com a ajuda da Cruz Vermelha o Dr. Vitoriano não tinha mãos a medir; a sua força, a sua resistência, estavam a ressentir-se de tanto trabalho e sobretudo de tanto sofrimento. Criticar é fácil, mas é necessário estar no terreno, ver morrer crianças e adultos nos braços, sem nada poder remediar, pois os medicamentos também escasseavam. Por incrível que pareça, até o Dr. Manuel Pinto Magalhães, que exercia a sua actividade de médico em Melgaço, faleceu, devido à terrível febre, em 1918! Contudo, houve casos de sucesso, por exemplo a família de José Augusto Domingues “Cabanal”. // Uma carta de Penso, escrita por um tal “João do Cabo” e publicada no Jornal de Melgaço n.º 1229, de 6/12/1918, é aviltante! O ódio, um ódio cego e bruto, tenta perfurar, destruir, a imagem de um homem, que era – apenas – um ser humano como outro qualquer. Leia-se: [Na epidemia bronco-pneumónica «que grassava com uma intensidade assustadora» o Dr. Vitoriano lembrou-se do velho adágio – «vale mais burro vivo do que sábio morto» – fingindo-se doente e conservando-se em casa, com as fendas bem calafetadas, a caldos de galinha. Nem uma mulher parida, coitado! Não me admiraria muito que (…) se recusasse a prestar os seus serviços clínicos àqueles que não lêem pela sua cartilha de velho talassa; mas, aos que solicitamente o acompanham quando ele aspira ao mando, não me admira, somente espantei-me e até cheguei a proferir estas palavras: «é o homem mais ingrato e pulha que eu tenho conhecido.» Mas tudo isto estaria muito bem se esse filantropo de mísera fama pudesse assim proceder com este ou aquele indivíduo que mais ou menos simpatias lhe merecesse. O seu dever não é restrito e por consequência tem de estender-se a todos os que, com urgência, dos seus serviços carecem, demais a mais quando de lágrimas nos olhos se suplicam. Ora dar respostas como esta: «vale mais a vida dum médico do que a de vinte ou trinta doentes que morram sem a minha assistência.» É duro, é horripilante! E quantos morreriam mesmo com ela?!]
     Ter receio da morte é próprio do ser inteligente, não é sinónimo de cobardia. O médico arrisca a vida, mas não cegamente. Quando há uma epidemia, sem os meios adequados para a combater, não há médicos que nos valham. Os medicamentos, as condições higiénicas, etc., são fundamentais para debelar a doença. Numa terra do fim do mundo, sem transportes, sem estradas para as diversas freguesias, isoladas pela neve e pelo frio, como Castro Laboreiro, que havia de fazer o médico? O Dr. Vitoriano viu morrer o seu colega, Dr. Magalhães, a 19/10/1918, atacado pela febre pneumómica; era jovem, e viera para Melgaço havia pouco mais de um ano. Era generoso, entrava em todas as casas onde havia doentes com a epidemia, não se acautelou, e assim terminaram os seus dias numa cama do hospital, vítima da doença que tentara combater. O seu corpo foi levado para Felgueiras, em cujo cemitério jaz, em jazigo de família. Para o substituir veio o Dr. Manuel Dias Moreira, que continuou a luta contra essa febre maldita. O Dr. Vitoriano foi uma espécie de bode expiatório para todos os males que surgiram no concelho nessa época – os colaboradores do Jornal de Melgaço até o acusaram, a ele e ao irmão António Xavier, a quem deram a alcunha de “Furrica”, de «amancebias e escândalos públicos!» E puseram-no a ridículo, no dito jornal, quando publicaram a quadra, inspirada, segundo eles, num conselho do Xavier ao irmão: «Mano, querido mano,/escuta o que eu te digo:/mano, vai para um convento/não esperes pior castigo.» // Em sessão da Câmara Municipal de Melgaço de 6/3/1919 leu-se um seu requerimento, o qual teve a seguinte resposta: «sobre o requerimento apresentado pelo senhor Dr. Vitoriano da Glória Ribeiro de Figueiredo e Castro, concorrente ao 1.º lugar do 1.º partido deste município, foi deliberado, por proposta do vogal Nóvoas, ficar para se resolver na próxima sessão.» // Em 1920 a gente do Jornal de Melgaço voltou a incomodá-lo: «A enterite, que há já bastante tempo grassa neste concelho, em vez de decrescer tende infelizmente a alastrar, ouvindo-se diariamente dobrar a finados em várias freguesias. Visto o subdelegado de saúde parecer esquecer-se ou desconhecer a existência da epidemia, lembramos à digna autoridade administrativa e Câmara Municipal deste concelho a conveniência na requisição dum destacamento da Cruz Vermelha e dois médicos, por ser impossível aos dois facultativos municipais atender às necessidades de todos os doentes, visto a epidemia ter-se alastrado quase por todo o concelho» (Jornal de Melgaço n.º 1303, de 29/8/1920). // Por ter atingido o limite de idade foi aposentado em 1930. Pelo Presidente da República foi-lhe concedido o grau de oficial da Ordem de Benemerência, que recebeu das mãos do Governador do distrito, José Ornelas Monteiro, a 10/10/1948. // Faleceu na sua casa da Carvalheira a 6/8/1951. Em A Voz de Melgaço de 15/8/1951 o correspondente escreveu: «... – O seu funeral, que se realizou no dia oito, foi grande manifestação de pesar, e nele vimos a quase totalidade das pessoas de maior representação no nosso meio, bem como um grande número de autoridades civis e militares. O “féretro” foi acompanhado por três irmandades, duas da Vila e uma de Alvaredo, e para pegar às borlas foram constituídos seis turnos: - do 1.º faziam parte o Dr. Carlos Luís da Rocha e professor Manuel Pinho Gonçalves, respectivamente Presidente e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Dr. Sérgio Saavedra … e Herculano Arsénio Gomes Pinheiro, chefe da secretaria da Câmara; do 2.º o Dr. António Cândido Esteves, Tenentes Fernando José Lopes e Jacinto Freitas, e José Maria Pereira; do 3.º o agente da polícia Sousa, e Luís Abreu, presidente da Junta de Freguesia, Manuel da Rocha e Oceano Atlântico Ribeiro; o 4.º, Armando Solheiro, Carlos Ribeiro Lima e José Esteves, funcionários da Câmara Municipal de Melgaço, e António P. Lima, vogal do Conselho Municipal; do 5.º o Dr. Augusto Esteves, José Figueiroa, Dr. João Barros Durães e professor António Pinho Gonçalves; e do 6.º Mário Ranhada, Artur Teixeira, Dr. José Joaquim Abreu e Constantino Silva. A chave da urna foi conduzida por Valeriano G. Bessa... Após a missa e ofícios de corpo presente, foi a urna depositada em jazigo para esse fim por ele próprio mandado construir no cemitério de Alvaredo…» // E no Notícias de Melgaço n.º 989, de 12/8/1951, pode ler-se: «… quem há por aí que, tendo coração, não o faça reviver a seus olhos, não evoque aquele roble ainda há pouco bem esbelto e não recorde o caminheiro infatigável e constante, percorrendo todas as nossas freguesias, só para levar aos seus doentes, quase sempre gratuitamente, uma esperança, uma alegria, um pouco de conforto moral ou a mitigação das dores?» E ainda: «Magro, mas de construção física resistente, só uma vez a doença atirou com ele para o leito.» E mais à frente: «… no Homem havia a verdadeira vocação de médico e no clínico pulsava sempre um coração nobre, bondoso e humanitário.» // No livro “Padre Júlio Vaz apresenta Mário”, nas páginas 93-94, lê-se: «… abnegado, prestigioso e sempre lembrado médico que fez do seu munus um verdadeiro sacerdócio.» E a seguir: «Fosse onde fosse, fizesse o tempo que fizesse, nunca ninguém, rico ou pobre, remediado ou não, adoeceu que não tivesse à cabeceira a assistência pronta do Dr. Vitoriano. E caso notável: desapegado como era dos bens deste mundo, mormente dos necessitados, jamais recebeu pelos seus serviços clínicos tanto como um ceitil cortado ao meio.» // Como curiosidade sublinhe-se que teve como amigos e companheiros em Coimbra o Dr. Afonso Costa e o Dr. António José de Almeida, dois vultos gigantes da 1.ª República. // A sua viúva deixou este mundo a 19/2/1955: «a ilustre extinta era a bondade personificada», lê-se em A Voz de Melgaço de 1/3/1955. // Ainda em nossos dias há quem se lembre dele, sobretudo quando se deslocava na sua charrete, puxada por um garboso cavalo. Certo dia aconteceu-lhe mais um percalço. Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 463, de 24/9/1939: «Na passada sexta-feira, à tarde, quando do Peso vinha para esta Vila o Sr. Dr. Vitoriano no seu carro de cavalos, junto da Ponte da Cividade, uma pobre mulher, já de idade, que pela mão trazia uma cabra, teve a infelicidade de ser arrastada pelo animal que se assustou, caindo a pobre velha da ponte abaixo. Ferida, na cabeça, foi retirada do leito do regato por Manuel Cristina Pereira, agente da polícia internacional, e a seguir conduzida ao hospital da Misericórdia, desta Vila, onde foi internada.» // Apesar de ter sido um homem generoso e uma figura grandiosa, como homem político arranjou alguns inimigos! // Com geração.

                                              
 Dr. Vitoriano ao centro, medalhado.





terça-feira, 29 de setembro de 2015

OS MEUS SONETOS
Por Joaquim A. Rocha 




SONHANDO

 Vou a Meca, cavalgando no vento,
No meio daquela enorme multidão,
Muita fé, à procura de perdão,
Tendo, sem pecar, arrependimento.

Serei pisado no esmagamento,
Atropelado na vil confusão,
Ficarei caído no duro chão,
Mas sem estar lá, nem em pensamento.

Quedo-me por aqui, por esta terra,
Não irei a Fátima, a Santiago…
Descansarei o tempo que me resta.

 Já gastei energias noutra guerra,
Já caminhei ao lado dum rei mago,
Vi estrelas bailando em louca festa.

domingo, 27 de setembro de 2015

QUADRAS AO DEUS DARÁ

Por Joaquim A. Rocha


Não façais o mal, e o mal não existirá.

(desenho de Luís Filipe, melgacense)

18

És sonho que não sonhei,
Sonho jamais decifrado;
Um sonho que eu inventei
Para te ter a meu lado.

19

A morte não é pior que a vida,
Que esta é sempre sofrimento;
A morte é apenas a partida,
O adeus e o esquecimento.

20

Porque me invades tristeza,
Se de ti quero fugir;
Não tenho para ti mesa,
Nem cama aonde dormir.




sexta-feira, 25 de setembro de 2015

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha





ELEIÇÕES


Por quê, povo português,
que de saber não rebentas,
enjeitas luz outra vez,
 é a noite que sustentas?

Eu não sei por que sebentas
estudas, aprendes, lês;
eu só sei que representas
este país ao invés!

De que te sonhos te alimentas?
Não de pão, que não o vês!
Que histórias doces inventas
se em histórias não crês!

Até a dor atormentas,
porque a dita não se fez
pra ser feliz nas tormentas
pra ser lobo se ela é rês!

Deixa de ser masoquista:
diz ao cérebro que veja
a legião parasita
que te suga, canga e peja!



9/10/1980

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS

Por Augusto César Esteves


...(continuação)

     O Dr. António de Castro Sousa e Meneses, depois de uma estadia de mais de seis anos na Ilha Terceira, regressou à pátria e acolheu-se à terra natal, entretendo-se a feitorizar os bens da Casa e a conversar com os letrados e os amigos. Solteirão e amante da sua terra, não perdia oportunidade para realçar as belezas de Melgaço, nem para profligar os tratantes e os canalhas. Culto e lido, não era poeta, mas fazia versos. Escrevia-se com muitos colegas e com muitos dos licenciados frequentadores de Coimbra no seu tempo de estudante. // Andam na mão de poucos melgacenses a cópia de uma sua carta, a desfazer nos melgaçofobos e só nas mãos de alguns rapazes inconscientes e de moral relaxada, cedo caídos no monturo da lascívia e da obscenidade, a cópia de um soneto atribuído ao seu estro. A carta mostra o seu bairrismo, mas o soneto era bem dispensável, porque o frade reles, ordinário e torpe, que o provocou, nunca esteve em Melgaço, por ter nascido e vivido sempre no alcouce ([1]) da mãe que o gerou.
            O Dr. António de Castro, que faleceu no dia 10/2/1828, deixando testamento apenas com disposições temporais, era homem de honra e brio e tinha fervoroso culto pela pátria e pelo torrão natal; como queria ser livre num país livre, abraçou, e só por isso, a causa da revolta e deu-lhe desde sempre todo o seu entusiasmo. Ao entrar naquela Sala do Conselho atingiu logo o fim da convocação feita pelo seu amigo e ouvindo também as confidências do fidalgo galego, tomou parte activa na conferência e, vivamente impressionado, viu-a decorrer numa atmosfera quente de patriotismo e de elevação moral. Entre aqueles quatro homens não houve uma única discrepância; nem mesmo surgiu uma sombra fugaz a empanar o brilho da conversa ou o entusiasmo da causa. Como todos quatro eram excelsos patriotas, espíritos compreensivos e inteligentes, os dois fidalgos nascidos e criados em Melgaço assumiram desde a primeira hora a direcção do movimento. O espanhol já assentara com o cunhado sobre a actuação da sua gente e o Corregedor, como homem de fora parte, havia de emprestar-lhe apenas o prestígio do seu cargo e dar-lhe todo o calor de português. Norteados por estes princípios, o fidalgo espanhol saiu logo da casa do cunhado e foi buscar a sua gente espalhada algures pelas casas dos amigos e o Corregedor despediu-se em seguida para ir em demanda dos vereadores e preparar a sessão – e solene havia de ser, pelo assunto a versar, a sessão daquela memorável tarde.
            Ao transpor os humbrais daquela casa acolhedora o Juiz de Fora ia radiante e sorria; sorria prazenteiramente ao pensar no cabeçalho dos mandados e das cartas de sentença. No resto do seu triénio nunca mais os escrivães haviam de escarrapachar nos autos: - o Dr. Filipe Osório, etc., Corregedor com exercício de Juiz de Fora nesta Vila de Melgaço, etc. «pelo Imperador dos Franceses, rei de Itália, Protector da Confederação do Reno, ed-cétera.» Naquela manhãzinha de Junho, ao regressar a sua casa, o distinto magistrado foi deixando atrás de si uma onda de pasmo e de cochichos, porque pela primeira vez o iam vendo, a ele venerando Juiz de Fora, andar pelas ruas de Melgaço sem empunhar a vara branca da justiça. Tinha-lhe esquecido; tinha-a deixado ficar na casa do fidalgo Caetano José de Abreu Soares.
           Naquela sala continuaram a conversar os dois fidalgos naturais de Melgaço, debatendo a melhor forma de alcançarem a vitória do movimento, sem contudo lhe traçarem qualquer plano. Os criados foram os elementos de ligação e, graças aos seus serviços, não tardaram a chegar ali outras pessoas. Naquela casa compareceu e se inteirou do movimento o escrivão Tomás. Tomás José Gomes de Abreu, por seu pai Leão José Gomes de Abreu, depositário das sisas nesta Vila já em 1782 e falecido em 15/4/1829 – sexta-feira santa – a dormir o sono infindo debaixo dos lajedos da capela de Nossa Senhora do Amparo, anexa à Matriz, ia entroncar, por bastardia, em Frei Domingos Gomes de Abreu Coelho de Novaes, o melgacense que combatera e rezara. Devia seguir a carreira eclesiástica, como seu irmão Bernardo, que professou na Ordem de Frades Menores, no Convento de São Francisco, da cidade do Porto, tomando o nome de Frei Bernardo de Nossa Senhora da Orada, e faleceu na Calçada em 1824.
          Seus pais, em 22/12/1787, declararam ter autorizado o filho Tomás a tomar ordens menores até completar as de missa, por ser a profissão a gosto deles e a mais apetecida pelo moço e, em consequência, fizeram-lhe o património: uma casa no Rio do Porto, uma horta no Caneiro, um circundado nos Chãos e a Coutada da Travessa, em Rouças; mas ele abandonou pouco depois os estudos eclesiásticos e apareceu-nos mais tarde tabelião do público judicial e notas e casado com D. Constança Teresa de Araújo Lima, cujos pais moravam na Rua Direita, desfazendo apenas aquela escritura de património, quando o irmão saiu do Porto e passou a viver na diocese de Braga, facilitando assim ao seu velho pai estabelecer nova côngrua para a sustentação de Frei Bernardo, na modalidade exigida pelo prelado. // Convivendo com os progenitores na Calçada, na casa hoje derruída, de São Benedito, por morte deles e do irmão ficou senhor e possuidor da casa e de dois belos campos de rega e lima, faceados por caminhos a circundá-la; da «propriedade chamada Orada, cerrada e circundada sobre si que se compõe de terras de pão e vinho com uma nascente de água dentro que parte do nascente com terras de António de Abreu Magalhães e do poente com a feira do gado desta vila em preço e quantia de duzentos mil réis», uma pequena parte, afinal, do reguengo dado por D. Afonso Henriques ao D. Abade de Fiães, João e a seus frades no nono dia das Calendas da era de 1211, ou seja em 24/10/1173; dum cerrado nos Chãos; das Pedreiras de Baixo e de alguns outros rústicos e urbanos.
          Não era rico de bens ao luar; mas tinha a subsistência da família assegurada pelos magros rendimentos do lugar público de que era serventuário, e pelas ajudas do cunhado Francisco José Pereira, comerciante do Campo da Feira de Fora. Espírito religioso, frequentou as igrejas e fez-se inscrever irmão das várias confrarias. Em 6/11/1786 tomou o hábito da Ordem Terceira de São Francisco, aqui estabelecida desde Maio de 1746, pagando de entrada 120 réis e dois meses depois do levantamento melgacense contra os franceses, na festa de São Roque, feita no Convento de Nossa Senhora da Conceição, noticiava-se ao público que Tomás José Gomes de Abreu era o novo secretário da mesa daquela Ordem Terceira.
           A sua vida decorreu no meio das surpresas dos pleitos do tribunal, no constante cuidado de fazer e assegurar os contratos dos outros e na placidez da vida caseira educando o rancho de filhos, que Deus lhe deu, futuros herdeiros não daquele comerciante, mas de sua mulher D. Ana Maria de Araújo e, como tal e por má sorte, vítimas do Tomás das Quingostas, como convence o articulado pelo distinto e hábil causídico deles nuns autos cíveis de libelo móvel contra Maria Teresa de Castro, mãe e herdeira do famigerado melgacense:

      «P. Que no ano de mil e oitocentos e vinte e seis o A[utor] Francisco José Pereira, e sua mulher, ainda viva, Ana Maria de Araújo, temendo-se das guerrilhas que naquela época ameaçavam esta Vila, aonde chegaram a entrar por vezes, deram a guardar ao Reverendo Manuel José Esteves, do lugar da Cela, do concelho de Valadares, toda a mobília e trastes preciosos, que possuíam.
       P. - Que tendo, o dito Padre Manuel José Esteves os ditos trastes e mobília do A[utor] em sua casa Tomás Joaquim Codeço, filho da Ré, associado com uns facinorosos ladrões e destemidos, de propósito e caso pensado se foram na noite de 17 para 18 do mês de Fevereiro do ano de 1827 a casa do dito Padre Manuel José Esteves, e sem que este pudesse resistir a tanta força armada lhe roubou o dito Tomás toda a mobília e trastes constantes da relação junta, que requerem se leia às testemunhas; e para que o mesmo Tomás não acabasse de roubar o mais que ali existia pertencente aos A[utores] teve o mencionado Padre de dar ao mesmo Tomás em moeda corrente a quantia de 34$080 réis que o A[utor] desembolsou para indemnizar o Padre.
      P. - Que além disso a 12/5/1828 veio o dito Tomás a casa do A[utor] e o constrangeu a que lhe desse da sua loja as fazendas e dinheiro constante da mesma relação; tornando-lhe a pedir em 25/2/1836 cinco côvados de baeta que o A[utor] teve de comprar, e lha remeteu pelo mesmo portador que a veio pedir e buscar; importando tudo na quantia de 280$100 réis, preço em que os A[utores] o estimam, ou por aquilo que se liquidarem respeito a mobília e trastes.» // (continua)...




[1] Prostíbulo ou casa pública de prostituição.