domingo, 1 de julho de 2018

SONETOS DO SOL E DA LUA
 
Por Joaquim A. Rocha








Se nascemos do verbo, da palavra,

Quem criou isso que nos deu o ser?

Quem nos deu a morte, curto viver,

Quem tornou nossa pobre alma escrava?

 

Nascemos do barro, semente brava,

Não foi fácil nosso corpo erguer;

E logo a serpente nos faz sofrer,

Seu olhar a felicidade trava.

 

Onde mora o esquivo paraíso,

Se tudo se transforma em ruínas?

Não há entendimento, não há siso,

 

Não há mais heróis, santos, heroínas.

Perdeu-se tudo, até o alvo riso,

Deixa-se a honra pelas vis esquinas.





 


 












 






 





 






















































 














 
















 
















 


















 









 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 














quinta-feira, 28 de junho de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Sílvia Neto (?)  

                                                                   CRIMES

 

     Em todos os tempos, e em todos os lugares do planeta, se cometeram e cometem crimes; alguns deles graves, outros menos. Nem todos os criminosos foram punidos. Estou a lembrar-me, por exemplo, do presidente dos Estados Unidos da América, Truman, que mandou lançar bombas atómicas sobre duas cidades do Japão no ano de 1945, matando criminosamente milhares e milhares de pessoas. Será que o facto de estar em guerra justificava tal atitude? Em Melgaço têm surgido alguns crimes ao longo dos séculos, mas nem todos, devido sobretudo à inexistência de jornais, e à falta de conservação dos mesmos quando existem, ficaram registados para a posteridade. Pelo menos três deles são conhecidos: o de Castro Laboreiro, o de Vilar (Alvaredo), e o da Gave. // Eis os crimes cometidos, por ordem cronológica:

 

(1847) - SOARES, José António. // Morreu (segundo constava devido a uma pancada com uma sacha de crista que lhe enterraram na cabeça; dizia a vítima, antes de fechar os olhos, que fora um criado do José “Galo” e o próprio “Galo”). // Estava casado com Teresa Alves e moravam na freguesia da Vila, SMP. Foi sepultado na igreja matriz a 3/6/1847, com ofício de seis padres, por esmola. /// Comentário: estes crimes normalmente ficavam impunes, pois não havendo testemunhas era quase impossível provar que foi este, ou aquele, o criminoso.  


 
(1870) - GARCIA, Joaquina Rosa. Filha de João Garcia e de Maria Esteves, lavradores. Nasceu na freguesia de Penso por volta de 1808. // Lavradeira. // Faleceu a 27/9/1870, com 62 anos de idade, viúva de Manuel Caetano Rodrigues, e foi sepultada na igreja. // Escreveu o pároco: «encontrou-se assassinada em sua própria casa, no lugar das Lages, Penso.» E mais à frente: «declaro que a finada tinha recolhido em sua casa um rapaz natural da Galiza, não tinha dado terra certa em alguns dias que tinha estado nesta freguesia, procurando casa aonde se justasse para servir, sucedeu no dia 27 um filho da finada, por nome António José Rodrigues, e uma filha da mesma, Maria Teresa Rodrigues, saírem para a feira do dia vinte e sete, ficando a mãe destes com o criado em casa, e ao recolherem-se daquela acharam sua mãe morta, tendo desaparecido o criado, que levara um relógio, vestiu-se com calça, colete, jaqueta, camisa e chapéu, do filho da finada, deixando os andrajos com que andava vestido antes, e a camisa com sangue nos pulsos, aparecendo rasto de querer abrir uma caixa, com uma machada, martelo, cinzel, tudo da mesma casa, o que tudo indica ser o matador o mesmo criado, a quem o guarda do barco de Sela tirou o relógio que lhe quis vender, por o dito guarda suspeitar era furtado e o mandou para seu dono ao depois de inteirado do sucedido. Fiz esta declaração para constar.» MJEC.

desenhos de RANA
 

 





 
 

 

segunda-feira, 25 de junho de 2018


           ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

                                                                 Por Joaquim A. Rocha




a lua em quarto crescente



PERPLEXIDADES

 

     Não sei como descrever esta ocorrência. Tal como eu, muito melgacense deve ter colocado a si próprio a seguinte questão: - «Como é possível?» Pois bem, abriu mais uma agência bancária no nosso concelho. Uma terra sem indústria, comércio insignificante, agricultura pobre, construção civil incipiente… Vieram à procura dos tais quarenta milhões de contos de réis depositados? Dizem que não! Somente «contribuir para o desenvolvimento económico da região». Então que fizeram até agora os balcões dos outros bancos?

a lua vista do meu terraço

     Bancos são empresas capitalistas e estas visam acima de tudo o lucro. Como obtê-lo se em Melgaço predominam as operações passivas, isto é, depósitos remunerados, à ordem e a prazo, os quais excedem em larga escala os empréstimos, as operações ativas, praticamente inexistentes? A contabilidade é uma técnica, ou ciência exata, os números não enganam, a não ser que os manipulem. Será bom para Melgaço existirem todas estas representações de bancos – cerca de dez?! Vejamos: por um lado isso é bom, pois dá-nos uma certa credibilidade, um ar de milionários, e emprega alguns jovens conterrâneos; inversamente, isso significa que os bancos vêm aqui buscar as notas para depois as canalizarem para localidades mais desenvolvidas. Quando eu era miúdo não havia um único banco em Melgaço – o senhor Teixeira, não sei se legal ou ilegalmente, fazia os câmbios da moeda estrangeira. Com a emigração em massa, devida em parte à guerra colonial, e com as primeiras remessas dos emigrantes, começaram a aparecer as instituições de crédito. Em três décadas arrecadaram muitos milhões de contos em seus cofres! O concelho em si não melhorou significativamente, apesar dos rios de dinheiro enviado de França, Canadá, Alemanha, Luxemburgo, Suíça… Nasceram umas vivendas aqui e ali, mas todas elas feitas à custa do esforço do trabalhador, sacrificando as férias e o descanso tão merecido. É certo que os juros dos depósitos, devido à galopante inflação pós 25 de Abril, quase atingindo os 30%, ajudaram muito. Contudo, e quanto a mim, essas habitações deveriam ter sido construídas por verdadeiras empresas de construção civil, apoiadas pelas agências bancárias – ter-se-ia evitado tanto mamarracho e os bancos teriam justificado cabalmente a sua presença em Melgaço. Mas não! Encaminharam esses recursos para as cidades e a nossa terra continuou mergulhada, apesar de concelho rico, na mais profunda obscuridade empresarial.

     Nem tudo, porém, está perdido; o nosso pessimismo não deve ser contagiante. Se um banco quer honestamente trabalhar connosco, quer ajudar esta zona a sair do marasmo secular, então seja ele bem-vindo. Ao invés, se vem com o fito de propor «a melhor forma de rendibilizar as (…) poupanças», então é mais um e nada mudará. Desconheço completamente os planos desse banco; sei, isso sim, que estas empresas têm grandes capacidades financeiras e podem, sem ferir os seus próprios interesses, apoiar iniciativas locais, emprestando dinheiro a juros baixos. No caso concreto do nosso torrão natal poder-se-ia, por exemplo, ajudar à criação de uma pequena empresa de transportes que fizesse o percurso entre as freguesias do concelho. Existem viaturas, usadas pela Carris de Lisboa e por diversos Colégios, que transportam quarenta a cinquenta passageiros, utilizando como combustível o gasóleo. A Câmara Municipal evitaria, melhor, seria dispensada, desse modo, de ter carros seus para transporte de alunos. Criar-se-iam mais postos de trabalho e proporcionaria aos cidadãos um mais rápido contacto com a sede do concelho e entre eles, bem assim com as repartições públicas, e desenvolveria o comércio, e os habitantes das aldeias sairiam mais vezes do seu “buraco”. Podem pensar que esta ideia é absurda, mas não é. Muitos aldeões não saem do seu povoado devido em parte ao transporte – não tendo carro próprio, nem sabendo conduzir, por aí ficam. O não isolamento das populações passará sem dúvida por transportes diários e regulares através das freguesias; com paragens cobertas, com informação de horários, com trajetos desenhados e legíveis. Quando saí de Santa Maria da Porta, em Janeiro de 1965, não conhecia integralmente o nosso concelho; a Castro Laboreiro tinha ido uma vez; a Cubalhão e à Gave, nenhuma! Aqueles lugarejos, afastados da estrada, não conhecia. Na altura andava-se muito a pé, mas mesmo assim só se ia a lugares aonde houvesse festa, e não podia ser muito longe da vila – Prado, Chaviães, Rouças, Paderne... Morria muita alma por esse concelho fora sem nunca ter saído da sua aldeia, da terreola aonde tinha nascido! Dizia-se, não sei se com fundamento, que certas pessoas desses sítios fugiam para dentro de casa quando se aproximava alguém desconhecido – tinham vergonha! É provável que isso já tenha passado à história, sejam reminiscências de um pretérito que se quer morto e enterrado. 

a lua dos poetas
 
     Nos dias de feira apareciam umas pequenas caminhetas, mais vocacionadas para cargas, com bancos corridos, que conduziam até à vila algumas humanas criaturas misturadas com animais. Suponho que essa prática, nada higiénica, terá sido abolida.
 
     Presumo que alguns seres iluminados, sempre prontos a dar a sua douta e infalível opinião, comecem logo a argumentar que se correria um risco demasiado elevado, que as carreiras passam em quase todas as freguesias, que os táxis desempenham eficazmente esse papel de levar as pessoas a sua casa, seja ela longe ou perto. Não é, quanto a mim, a mesma coisa. As carreiras passam, não vão; o táxi surgiu mais para prestar serviços de urgência, individualizados. Além disso, o preço praticado é muito superior aos dos transportes de massas, ou coletivos. Enquanto uma viagem singular Vila-Fiães, por exemplo, ficaria em 200$00, num táxi essa mesma viagem poderá eventualmente custar 2.000$00, ou seja, dez vezes mais! A acrescer a esta vantagem (mais barato), ainda se fomentava o turismo interno, tão em voga em nossos dias. Vamos pensar nisso?

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1044, de 1/2/1996.



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VENDO PELO PREÇO DE 10 EUROS
(o custo do envio será pago pelo comprador)
joaquim.a.rocha@sapo.pt

sexta-feira, 22 de junho de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha








OS COBARDES TAMBÉM SE ABATEM
 

Tenho medo do cobarde,

que escreve e não assina:

oferecendo-lhe eu a face,

 pelas costas me assassina!

 

Tenho medo do cobarde,

 que cospe em nós seu veneno:

dá mentira por verdade,

 foi assim desde pequeno!

 

Atua de noite, em silêncio,

na sombra… na escuridão:

tem prà traição um compêndio

escrito por própria mão!

 

Tem medo da luz do sol,

 vive de cara encoberta:

seus olhos, são um farol

em busca de presa certa.

 

Logo que vê sua presa,

 isto é, a gente honesta,

ataca feroz, de surpresa:

como lobo, como besta.

 

E logo foge, o ladrão,

na sombra se refugia;

vai lavar a suja mão

do sangue que a tingia.

 

Meu pobre pseudo vate,

a quem musa não inspira:

posso apenas comparar-te

a Nero, tocando lira!

 

Vai-te de mim porco sujo,

 verdadeira alma penada;

vai prò mundo do sabujo,

não te negará a entrada!


um gato no telhado em busca de pardais
 A ILUSÃO DE SER POETA 


Julgas, moço, que és poeta;

pobre louco, que ilusão!

Eu não quero ser profeta,

mas não te iludas em vão.

 

Vai para o monte, qual asceta,

medita em calma solidão;

escreve prosa – nessa faceta

serás émulo d’Ortigão!

 

E vive – sobretudo vive.

A vida não é só reflexão;

sabes, o homem não sobrevive

quando apenas vive em comunhão

com o seu egocentrismo e revive

uma época que não é a sua.

 

Descobre o mundo, descobre a rua;

deixa a lua aos poetas.

Desce à terra e pisa forte o chão;

carrega a tua arma, dispara as tuas setas.

Não hesites: a farpa do Ramalho é tua.

Enterra-a fundo. Certa. No coração!

Posando para a fotografia
 
 

terça-feira, 19 de junho de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO
FREGUESIA DE CRISTÓVAL 


                                                                   Por Joaquim A. Rocha


5.º governo da 1.ª República

SALGADO, Daniel (ou Daniel José Rodrigues). Filho de Manuel Domingues Salgado e de Francisca Bernardes Rodrigues, moradores no lugar do Sobreiro, Cristóval. Neto paterno de José Bento Salgado e de Maria Inocência Ribeiro, do dito lugar; neto materno de Manuel Joaquim Rodrigues e de Maria Rosa Bernardes, do lugar do Outeiro, Paços. Nasceu a 20/8/1846 e foi batizado a 22 desse mês e ano. Padrinho: frei Manuel de Jesus Maria, do Outeiro, Paços (com procuração de Francisco José Rodrigues, tio materno do batizando, residente em Monção). // Em 1879 estava casado com Maria Elisa da Cunha, proprietária, natural de Moreira do Castelo, Celorico de Basto, distrito de Braga, filha de José António da Cunha Marinho, de Amarante, e de Margarida Alves de Mesquita Leite, de Celorico de Basto, negociantes. Nesse ano de 1879, a 26 de Julho, nasceu em Celorico de Basto o seu filho Rodrigo José Rodrigues, que viria a ser pessoa importante na 1.ª República: foi médico militar, governador de Macau, ministro do Interior em 1913-1914, no governo de Afonso Costa, o qual ajudou a elaborar um estudo profundo, juntamente com o Dr. Júlio de Matos e outros, sobre as prisões portuguesas; este filho de Daniel José casou a 18/3/1904 com Rita Margarida Machado, de 18 anos de idade, natural de São Francisco Xavier do Engenho Velho, Rio de Janeiro, Brasil; morreu em Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, a 18 ou 19/1/1963.
 
 
      Não tenho a certeza absoluta, mas suponho que Daniel Salgado, ou Daniel José Rodrigues, emigrou para o Brasil, onde conseguiu angariar alguma fortuna. // Deve ter sido ele que mandou construir a “Casa Branca” em Cristóval. // Casou (provavelmente em segundas núpcias) ainda no século XIX, com Antónia de Sylos, brasileira. // Foi com o seu dinheiro que se construiu a torre da igreja de Cristóval, inaugurada a 20/9/1903, o que deu ensejo a enorme banquete. // Em 1908 regressava de Lisboa à sua «Casa Branca», uma bela vivenda mandada construir na freguesia de Cristóval, acompanhado da família. Tinha um filho, António Daniel, nascido a 13 de Junho (de que ano?); nesse dia e no ano de 1912 festejou-se em sua casa o aniversário desse filho. Também era pai de Honório e de Rafael Daniel. // Os seus filhos, António Daniel e Rafael Daniel, em 1913 deslocaram-se a Coimbra a fim de contratarem técnicos que lhes fizessem a instalação elétrica na sua “Casa Branca”. // Em 1913 enviou ofício à Câmara Municipal de Melgaço a dizer que declinava a nomeação de vogal da Comissão de Assistência escolar do concelho; para o substituir nomearam José Joaquim Pereira da Costa, do lugar da Porta (ver Jornal de Melgaço n.º 717 e n.º 733, de 14/5/1908, Correio de Melgaço n.º 2, Correio de Melgaço n.º 46, de 20/4/1913, Correio de Melgaço n.º 61, de 10/8/1913, e Correio de Melgaço n.º 80, de 21/12/1913). // Morreu a --/--/1923 (**). 
 
 

     Embora não possuindo documentos que me permitam provar a autenticidade, julgo que é pai de António Daniel, de Carlos, de Honório Rodrigues, de Rafael Daniel Rodrigues (este senhor teve um filho, de seu nome Rafael Val Rodrigues, conhecido por “Felito da Casa Branca”, de quem o Manuel Igrejas, melgacense, emigrante no Brasil, fala em “A Voz de Melgaço” n.º 933, de 15/2/1991, dizendo que se voltaram a encontrar ao cabo de 20 anos; era seu compadre, padrinho da Deise Igrejas; residia em São Paulo; era casado com Sara e já tinha cinco netos, três da filha Maria e dois do filho Rafael; Rafael Val Rodrigues morreu nesse ano de 1991). // (ver A Voz de Melgaço n.º 950, de 1/11/1991, página 8; e A Voz de Melgaço n.º 1035, de 1/9/1995, página 14). /// (*) (ver Correio de Melgaço n.º 17, de 29/9/1912). /// (**) No Notícias de Melgaço n.º 42, de 21/1/1923, diz-se que morreu em Lisboa o proprietário da “Casa Branca”, de Cristóval, Melgaço.



Nota: se alguém estiver interessado em consultar os escritos deixados pelo Dr. Rodrigo José Rodrigues, ministro do interior em 1913-4, esses documentos encontram-se na Fundação Mário Soares.

            Agradeço à minha sobrinha Celeste, autora do blogue FLOR DE PANO,  toda a sua colaboração.
 
 
                                                                             *
 
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OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de Os Lusíadas, de Camões)
 
Preço   - 10 euros (a este preço acrescem os custos de envio pelos Correios); na cidade de Braga serão entregues pessoalmente. Os livros podem ser pedidos através do seguinte e-mail: joaquim.a.rocha@sapo.pt