domingo, 11 de março de 2018

LINA, FILHA DE PÃ
romance
 
Por Joaquim A. Rocha
 

igreja de São Vicente - Braga
 

5.º Capítulo
 

      O tempo foi escorrendo, a vida em Melcarte era carregada de monotonia, eternidades de tédio, sempre igual, uma autêntica pasmaceira. O Doutor Juiz já estava saturadíssimo daquela terra obscura e dos seus desenxabidos habitantes. À amante começa a notar-se-lhe a gravidez. Já tratara da papelada para o casamento. Um determinado dia dirige-se à rapariga:

- Então, já disseste ao lambisqueiro que estás grávida?

     Ela estremeceu. A barriguinha crescera e ela não podia esconder por mais tempo o seu estado.

- Hoje mesmo vou dizer-lhe. Ele até já me falou em casamento, mesmo não sabendo! Senhor Doutor Juiz, vou pedir-lhe um grande favor: – empreste ao Mário o dinheiro para ele embarcar para o Brasil ou para a Argentina – ele depois manda-lho. Assim, eu ficava aqui, casada, e continuávamos a ser ternos amantes. Ninguém desconfiaria de nada. 

- A ideia até não é má! Tens bons raciocínios. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada: tu vias-te livre dele, e eu ficava à vontade contigo. Vou pensar nisso.

     O magistrado ficou a ruminar no assunto. Inteirou-se dos preços da viagem, uma bagatela, para ele nada significava; meteu mãos à obra. Mas primeiro tinha de os casar.

     A boda realizou-se a um domingo de manhã, na igreja matriz da Vila. O juiz entrara com as massas para a cerimónia. Não lhe saíra barata a brincadeira, mas fora melhor assim: a criança nascia dentro de um lar, embora humilde, e ele via-se livre de encrencas. Ficara bem visto no concelho: era amigo da empregada, estava ali no seu casamento, pagara as despesas, que mais ela queria? Agora era tempo de zarpar. A transferência já estava resolvida. Ia para Évora, no Alentejo, durante os próximos três anos, bem longe dali. Ela nunca saberia do seu paradeiro. Provavelmente jamais veria o bastardo, não saberia se era rapaz ou rapariga, mas que interessava? Mais tarde casaria com uma fidalga rica e teriam os seus próprios filhos – os autênticos. Dirigiu-se à empregada e diz-lhe:

- Estás muito bonita! O teu marido teve muita sorte.

     Ela enrubesceu, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Por que chorava? Acaso tinha quaisquer ilusões? Alguma vez o Senhor Doutor Juiz a tomaria por esposa? Nunca! Nunca!              

- Obrigada, Senhor Doutor. Hoje é um dia muito triste e ao mesmo tempo feliz para mim. O Mário é um bom rapaz e vai tratar bem da nossa criança. Não se preocupe.

- Sim, hoje é um dia especial para nós todos. Haja alegria. Não te arrependerás da decisão tomada.

     Depois do acto religioso, dirigiram-se todos para um restaurante de um hotel das Termas, onde lhes foi servido o almoço, bem regado com o vinho da região, um verdadeiro néctar, segundo os apreciadores.

     À tarde houve baile. O togado despediu-se de todos, desejando felicidades aos noivos. Lina ficou atordoada. Pressentia bem que o perdera para sempre. Provavelmente nunca mais dormiria com ele. Chorou amargamente. O noivo perguntou-lhe:

- Por que choras, meu amor?

     Ela, banhada em lágrimas, respondeu-lhe:

- É por estar tão feliz; não ligues. As mulheres choram, quando amam.

 O Doutor Juiz cumpriu a sua promessa: entregou algum dinheiro ao Mário, a fim de ele tentar ir para a América do Sul. O primeiro passo estava dado. A seguir o recém-casado teria de marcar uma inspecção médica – sem um atestado de boa saúde não poderia obter os papéis; e sem documentos não o deixavam embarcar. O problema era aquela sombra no pulmão direito. Devido a isso, as Repartições Públicas não permitiam que ele emigrasse. Diziam-lhe constantemente: «Cure-se primeiro; depois terá o passaporte.» Para se tratar clinicamente precisaria de muito dinheiro, de apoios. Onde os iria buscar? A Santa Casa da Misericórdia estava praticamente falida, com os seus cofres vazios, não o podia ajudar. As Instituições governamentais não estavam em condições de prestar qualquer tipo de auxílio. A quem recorrer? 

     Trabalhou no porto de Leixões, durante uns meses, na expectativa de partir clandestinamente num daqueles navios, mas o trabalho era duríssimo, demasiado pesado para as suas débeis forças, ainda por cima mal remunerado, e assim, desiludido, cabisbaixo, regressou à sua terra natal.

     A criança já vira a luz do dia. O parto decorrera na maternidade do Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Era uma menina. Foi batizada na igreja matriz da Vila, na maior das simplicidades. Puseram-lhe o nome de Lisete, por assim se chamar a irmã da caridade, a parteira que ajudara a trazê-la ao mundo. Os seus padrinhos foram a Senhora do Rosário e Santo António. Toda a gente ficava a olhar para ela, procurando semelhanças com o pai, mas de Mário nada tinha. As bisbilhoteiras comentavam:

- Aqui há marosca: a Lisete não se parece nada com o Mário! Será que é filha dele? Não será filha do Doutor Juiz? Com esse parece-se! – aventou a Isolina, cuja língua viperina era temida em toda a Vila e arrabaldes. 

- Não sejas má-língua, mulher! Olha que Nosso Senhor Jesus Cristo castiga-te – retorquiu a Palmira, aparentemente mais moderada do que a sua vizinha.

- E que me dizes tu, Palmira, a ter nascido antes do tempo? Nessa não acredito eu!

- Ó Isolina, achas mesmo que é filha do Senhor Juiz?!

- Não tenho bem a certeza mulher, mas do Mário não me parece ser – é tão diferente!

     Os comentários foram aumentando à medida que a menina crescia. A semelhança com o verdadeiro progenitor era espantosa. A cor do cabelo, a testa grande, aqueles olhos inteligentes e observadores. Não havia qualquer dúvida: a Lina ludibriara o ingénuo do “Brilhantina”.

- «Que coirão – exclamava a irmã do rapaz – e meti-os eu em casa. Não a quero mais aqui. Rua!»

     O Mário andava abatido, destroçado. Fartava-se de trabalhar para alimentar a catraia, que afinal de contas não era sua filha. A Lina agora era criada de servir em São Cristóvão, a dez quilómetros da Vila. A irmã dele já não queria a criança, dizia que não lhe era nada, não era sua sobrinha, que a levasse para outro lado. Ele estava desesperado, tinha os nervos num frangalho. Arranjou um quartinho, onde outrora existira uma oficina de barbeiro, e instalou-se lá como pôde. Alguns vizinhos tiveram pena dele e deram-lhe algumas roupas de cama, mantas velhas, uns cobertores descoloridos, mas que permitiriam aconchega-los, aquecê-los no inverno.

     Começou a andar no contrabando, na frota, como na altura chamavam ao comércio ilegal. Levavam certos produtos para a Galiza e lá traziam outros. Fora o irmão mais velho que o convidara:

- Ouve, Mário: tu andas para aí aos caídos, aos biscates, mas, se quiseres, o Abílio do Tojal dá-te trabalho, na frota. Claro que é perigoso: dum lado os guardas-fiscais; do outro, os carabineiros. É certo que muitos deles, ou todos, têm as mãos untadas, mas às vezes andam mal dispostos e disparam, sobretudo quando sabem que anda por perto o tenente. Nós temos de ter muita cautela. Por outro lado, começou há pouco tempo a guerra civil espanhola, e anda tudo em alvoroço – podemos levar um tiro em qualquer ocasião.

- E quando se faz o serviço: de dia ou à noite?

- É tudo feito à noite. Logo que escurece a gente mete-se a caminho do rio, com os sacos de café às costas, e depois é só atravessar o rio na batela; do outro lado estão uns quantos galegos que levam a mercadoria.

     O Mário estava com vinte e dois ou vinte e três anos de idade. Fora à inspecção militar na altura própria e ficara isento. Casado, com uma filha, que afinal não era dele, tinha de conseguir algum dinheiro, senão morria à fome.

- Está bem, aceito. Quando começo?

- Pode ser hoje mesmo. Vai cear logo connosco, assim já falamos melhor. Quanto à Lisete, leva-a lá para casa, a tua cunhada toma conta dela.

- Obrigado! Vou já tratar disso.

     E foi assim que o jovem foi ganhando uns dinheiritos para o dia-a-dia. Quando viu que já tinha umas magras economias, arrendou uma casinha e disse à mulher para vir novamente para a Vila, ele e a filha precisavam dela. Porém, a Lina já arranjara um novo amante. Ela nunca estivera apaixonada pelo marido, como já atrás ficou esclarecido; fora apenas um ardil para salvaguardar a reputação do juiz, e a sua própria, porém agora não necessitava mais de fingir. O juiz entretanto fora embora, e nunca mais dera sinal de si. Era de momento, na sua agitada vida, apenas uma recordação. Ficara a criança, que mais tarde seria, tal como a mãe, uma simples criada de servir, ou então casaria com um operário, ou com um camponês fardado. Nada mais poderia esperar da fortuna, ali naquele recanto do mundo, onde Salazar jurara nunca mais lá voltar, quando lá estivera em 1934. Na ponte de São Cristóvão, junto de alguns ministros, Governador Civil, e Presidente da Câmara Municipal de Melcarte, na altura o farmacêutico, Dr. João Magalhães, disse com algum desprezo e enfado: «Isto aqui é o fim do mundo! Está tudo velho, tudo a cair… Não me convidem para vir cá mais.» E de facto o ditador jamais retornou a Melcarte. Nos seus discursos dizia sempre: «De Valença a Timor…» Este concelho e o vizinho tinham desaparecido pura e simplesmente do mapa! E fez mais: a maioria dos professores do ensino primário passou a ser composta por regentes, apenas com a quarta classe do ensino primário!

quarta-feira, 7 de março de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha







O vento fala comigo

e eu não sei o que ele diz:

«trago novas de um amigo,

lamentos de uma infeliz
 

Açoita meu rosto pálido,

afaga meus brancos cabelos;

nivela meu olhar cálido,

 aviva e agita meus desvelos.

 
Traz-me à ideia a infância,

onde a pobreza reinava,

e, sem fé, nem esperança,

os tristes dias passava!

 
Vento! – Que novas são

as que trazes no teu bojo?

Diz-me, que meu coração

está já a pedir, de rojo!

 
Diz-me onde estão meus amigos,

Se vivem bem no outro mundo;

Se tem por lá inimigos,

Um novo amor profundo.

 
Diz-me que comidas comem,

Se são servidos por anjos;

Se em macias camas dormem,

Se têm asas como arcanjos.

 
Diz-me tudo o que lá se passa,

Tudo eu quero saber;

Diz-me se por lá há desgraça,

Se há ódio e malquerer.

 
Diz-me tudo, que eu não sei

O que por lá acontece;

Diz-me se há rainha ou rei,

Se a aranha ainda tece.

 
Diz-me tudo, tudo, tudo,

Neste tão longo e triste dia;

Eu, para te ouvir, fico mudo,

 Indiferente à maresia.

domingo, 4 de março de 2018

ENTRE MORTOS E FERIDOS
(dois anos de guerra na Guiné-Bissau)
 
romance histórico - Por Joaquim A. Rocha





// continuação...


- Pouco havia a fazer ali. Os “turras” deviam estar radiantes. Aquela acção tinha sido para eles um êxito completo, pleno: alguns mortos, muitos feridos por balas e estilhaços, o aquartelamento praticamente arrasado! Ao invés, as suas baixas, se as tiveram, deveriam ter sido ínfimas, a bem dizer, insignificantes. A conclusão lógica a tirar de tudo isto seria a de que esta pugna jamais poderia ser ganha de armas na mão. O inimigo não precisava de muita soldadesca: poucos, bem treinados, conhecedores do terreno, moralizados, chegavam e sobravam para um exército de cinquenta mil homens!

- Como iam longe as guerras clássicas – comenta Henrique, lembrando-se dos filmes que já vira acerca desse tema.

- Na mata eram impossíveis, impraticáveis. Por outro lado, a ciência militar, o espantoso avanço tecnológico, tornou obsoletas essas guerras. Agora, e sobretudo no futuro, com a ajuda do computador, da robótica, as coisas já serão diferentes. Por este andar, a sofisticação atingirá o seu auge dentro de poucas décadas. Prosseguindo:

     Depois de, nesse sombrio local, termos estado cerca de um dia, patrulhando a mata em redor, regressámos a Teixeira Pinto na madrugada do dia seguinte. Escusado será dizer que durante a noite ninguém conseguiu dormir. Horas longas, quase eternas. A vista doía de tanto sono e tanto esforço para não lhe ceder, mas o medo, esse sentimento que corrói a alma e nos torna pigmeus, pequeninos, era mais forte do que Morfeu.

     Silêncios profundos, de vez em quando interrompidos pelos ruídos de animais noctívagos, alimentavam ainda mais, se possível, a nossa ansiedade. Os mosquitos, desprotegidos como estávamos, banqueteavam-se à vontade, sem etiqueta, sem pedir licença, enchendo a pança, ao contrário de nós que tínhamos uma lazeira dos diabos e nada para rilhar, nem uma migalha de alimento, nem uma côdea de pão de milho sequer para enganar a fome!

- É o sofrimento na sua máxima expressão! – diz o moço, com uma expressão melancólica, comovido até às lágrimas.

- Bem o podes afirmar! Finalmente, a aurora, radiante, surgiu no horizonte; e novos odores, fragrâncias primaveris da floresta tropical, vieram desejar-nos os bons dias. Lembro-me de ter olhado, olhos semi-cerrados, para aquele amanhecer e monologar: “que linda é a África e como o ser humano a desrespeita, a conspurca!”                  

     Em Teixeira Pinto toda a gente se pelava por saber o que se passara. Nós, porém, fomos bastante lacónicos, parcos em pormenores; queríamos um banho, comer e dormir. Pedimos a todos os santinhos que não nos maçassem durante umas horas.

     Banho… nem pensar! Não havia água nas torneiras. Podíamos ir ao rio tomá-lo, mas estávamos demasiado fatigados para isso; por outro lado, corria-se alguns riscos – quem sabe se na outra margem uma arma mortífera nos espreitava?

- Também já era azar a mais! – comentou Henrique, resfolegando.

- Já estávamos habituados. Assim, comemos alguma coisa e em seguida fomos repousar o corpo e o espírito.

     Acordei sobressaltado. Sonhara com aqueles horrores, com corpos mutilados, com feras raivosas, da boca escorrendo-lhes sangue, a atacarem-nos traiçoeiramente. Para me distrair um pouco peguei em algumas cartas e li-as.

- Por falar nisso, e aproveitando a deixa: podia ler-me mais uma?

- Com certeza, terei todo o prazer nisso:

 
    Querido afilhado

 
            A continuação de boa saúde – esse é o meu desejo. Desculpe se há mais tempo não lhe respondi, sei que isso é imperdoável, mas a causa desse atraso é o seguinte: como queria que na próxima vez que escrevesse lhe mandasse a minha foto, estava à espera que viessem cedo de Lisboa, foram lá para revelar, mas até à data ainda não chegaram; portanto não se ponha a pensar coisas desnecessárias. Logo que elas cheguem mando-lhe uma, mas vai reparar que não sou nenhuma beleza dessas que aparecem nas revistas de modas.

         Então, afilhado, tem-se distraído alguma coisa? Aqui, nesta terra, é tudo muito bonito, mas só que no verão foge toda a gente para as praias e ao domingo é uma autêntica pasmaceira. Se calhar este ano também vou uns dias, estou a precisar muito, a minha pele é demasiado branquinha. Que me diz disso?

     No Minho litoral temos praias lindíssimas, com muito iodo, a água no entanto é um nadinha fria, quase gelada; anos há que é impossível tomar um bom banho! Conhece Ofir, Âncora ou Moledo? Segundo me disseram, em África existem muitas praias e boas, mas estão cheias de tubarões e de crocodilos – será verdade?! Não se arrisque.

         Por hoje nada mais, receba muitos abraços da madrinha muito amiga. E escreva-me depressa, sim?!...
                                                                                                         

                                                                                   Fernanda    

 

- Já lhe estava a pedir para a deixar ir à praia – brinca Henrique, folgazão. 

- Nem queiras saber como desabafei! Ora essa! Só me faltava esta; a falar-me de divertimento, de praias, a mim que nem sequer água tinha para tomar um duche! Achas isso agradável, decente?!

- Que quer o meu amigo? Que ela lhe contasse desgraças, lhe falasse dos inúmeros desastres que ocorriam por esse mundo fora, da fome que grassava em muitos países, das doenças sem cura?!

- Não queria isso, não; sofrimentos tinha-os eu à porta, não precisava dos alheios, mas considero uma afronta ter-me perguntado se me divertia. Onde raio ela imaginou que eu estava? No Casino do Estoril, na Feira Popular, nas praias algarvias?

- Bem, bem! Parece que tomava o assunto muito a peito…

- Nem sequer respondo a essa subtileza. Adiante:

     Quatro da manhã. O alferes Barrelas, esguio como uma árvore em crescimento, verdadeiro trinca espinhas, um dos mais irrequietos oficiais da Companhia, irrompe, em altos brados, pela nossa camarata e ordena: «A pé! Pensam que isto é um hotel de cinco estrelas? Ou julgam que estão em férias? Dentro de cinco minutos quero-os todos formados.»

     Com o corpo ainda dorido, com os olhos teimosamente fechados, vesti-me, peguei na metralhadora e juntamente com os outros apresento-me na parada. Não me apetecia mesmo nadinha ir a essa operação. Não conhecia exactamente o meu peso, mas sentia-me fraco, débil, tísico! Saí da minha terra com cerca de sessenta quilos; se agora pesasse cinquenta já me podia dar por satisfeito!

     Manifestei ao meu alferes o receio de estar doente e a resposta não se fez esperar: «Isto aqui não é para medricas: um homem é um homem.»

- E o Cândido que lhe respondeu?

- Não adiantaria argumentar; no regresso, se regressasse, iria falar com o médico e logo se veria. Devido àquela dor intensa no peito, temia estar tuberculoso. Tanta gente morrera já com essa terrífica doença!




     Antes de partirmos para a nova aventura pelas matas o capitão Fontelas falou-nos: «Esta acção de hoje é apenas de rotina, quase um passeio! Vamos nas viaturas até um determinado sítio e depois seguimos a pé. Levem, de qualquer modo, munições e rações de combate para dois dias. Dirijam-se agora ao refeitório e tomem o pequeno-almoço. Dentro de meia hora quero-os todos prontos para arrancar.»

     Mais nada! Quem éramos nós, filhos de deuses mirrados, de campónios sem eira nem beira, de operários de segunda, de trolhas analfabetos, para tomarmos conhecimento prévio da operação? Simples peças de uma máquina mais ou menos bem montada, limitávamo-nos a cumprir ordens, a obedecer cegamente. Eles sabiam o que convinha fazer: quando e como. A nossa cabeça, a nossa inteligência, os nossos neurónios, ali não tinham qualquer utilidade, eram lixo! Só a presença física, resistência, capacidade de persuadir pelo número, pela força bruta, se levavam em conta.

- Num regime autoritário queria certamente uma democracia militar! – ataca Henrique, com alguma ironia.

- É uma força de expressão – eu sei que não era possível. Continuando: entrámos nas camionetas e rolou-se cerca de uma hora na estrada Teixeira Pinto a Cacheu. Parámos. Os carros voltaram para trás e nós, depois de descermos, dirigimo-nos a pé ao posto de vigilância, Bachile, que se encontrava a uns cinquenta metros da estrada. Nesse posto permaneciam quinze homens, pertencentes a um batalhão mais antigo do que nós na Guiné, cujo comando estava em Teixeira Pinto como o nosso. Um desses homens, o cozinheiro, acabaria por morrer da maneira mais estúpida que se possa conceber. Como a sua especialidade o retinha entre muros, um dia, possivelmente bem bebido (o vinho que nós bebíamos era misturado com água para sobrar para eles), ofereceu-se para acompanhar os colegas numa operação.

     O comandante disse-lhe que não, ele era necessário no posto para confeccionar a comida aos seus camaradas, pois quando regressassem viriam esfomeados, não estava habituado àqueles caminhos, àqueles esforços, arrepender-se-ia se fosse.

- Resultou, a sugestão, o conselho?

- Qual quê! Nada o demoveu. Quis ir à viva força. «Só uma vez!» - implorou ele ao oficial.          

- Até parece que a velha loba esfaimada o chamava!

- Não voltou vivo, não! As balas de “Satã” trespassaram o seu voluntarioso coração e o seu corpo agigantado. «O destino: ninguém lhe pode escapar!» Epitáfio derradeiro sobre uma alma a caminho do além, da estrela mãe, ou da lousa fria.

- Soube, porventura, quais eram os objetivos dessa saída?

- Um dos objetivos principais da nossa ida seria, pelos vistos, rendê-los. Outro objetivo, fazer uma breve batida pelos arredores, a fim de verificar se os “turras” não andavam por perto.

     A zona resplandecia de beleza. Algumas habitações, embora modestas, indicavam-nos que ali não havia problemas de maior. O que mais me chamou a atenção foi a existência de uma árvore gigantesca que, sem quaisquer exageros, nem vinte homens juntos a conseguiriam abraçar. A sua sombra cobria uma vastíssima área.

- Sabe o seu nome?

- Infelizmente não tenho a certeza; não possuo quaisquer conhecimentos de botânica. Apenas distingo o carvalho, o castanheiro, pinheiro bravo e manso, eucalipto, e pouco mais: árvores que crescem no Alto Minho. No entanto, disseram-me tratar-se do poilão, ou poilão-forro; os seus frutos dão uma espécie de lã, chamada sumaúma, a qual utilizam para encher almofadas e colchões.

- Interessante – comenta Henrique.     

- A população residente começava o seu dia de trabalho pastando o gado, cultivando o arroz, colhendo a mancarra, ou amendoim, fabricando o óleo de palma. Não falavam a língua de Camões! Como noutro local te disse, a maioria dos habitantes da Guiné-Bissau não dominava a nossa língua no ano de 1966; a excepção ia para os negros que viviam na capital da província e para alguns chefes locais que a aprendiam, embora bastante mal, para assim poderem ser elos de ligação entre o seu povo e a administração portuguesa.

- Quer dizer que não havia escolas do ensino elementar espalhadas pelo mato! – surpreende-se o jovem.

- O governo português nunca se importou muito com isso; as escolas primárias – poucas – estavam localizadas nas vilas mais importantes e nas cidades. Escola secundária só havia uma na capital! Ensino superior nem o cheiro!

- E era assim que os lusos queriam conquistar a simpatia dos africanos! – espicaçou Henrique, admirado, e com alguma dificuldade em crer em tudo aquilo que escutava.

- Até posso estar errado, mas duvido que a população em geral soubesse que a Guiné pertencia a um país europeu, de seu nome Portugal. Para eles isso não fazia sentido; nós estávamos a ocupar militarmente o seu território. Ali tinham nascido, ali cresciam e morriam. Aquele era o seu chão e não viesse este ou aquele dizer-lhes o contrário. Língua, possuíam a sua, secular, e não precisavam de nenhuma outra. Não lhes fossem também dizer como se criava o gado, como se plantava o arroz nos terrenos alagadiços, como se fazia óleo, vinho de palma e aguardente.  Amavam a sua cultura, a sua religião, os seus mitos e tradições; a sua arte, as suas cerimónias fúnebres, seus rituais, e quiçá a cor da pele! Não, ali não era mesmo poiso de branco; este só na cidade, longe da selva, longe da natureza imaculada.
// continua...

quinta-feira, 1 de março de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha






CASA DO BARRAL

PINHEIRO, Inácio Sampaio. // Descendente de Leonor Pais Pinheiro e de Álvaro Domingues, moradores que foram no lugar da Rasa, São Paio de Melgaço. Nasceu no século XVIII. // Foi capitão de infantaria auxiliar e provedor da SCMM em 1768. // A 26/2/17— mandou lavrar ao tabelião Luís Manuel de Sousa uma escritura para vincular em morgado a Casa do Barral, com a validade de capela imposta em bens no valor de onze mil cruzados, cuja escritura não resultou. 
 

CASA DA BICA
 

     Pequena habitação para turismo rural, sita no lugar de Pias, freguesia da Gave, Melgaço. Proprietário: Agostinho Alves.

         CASA DE BRAGANÇA
 

     Afonso, filho ilegítimo do rei João I e de Inês Pires, casou em 1401 com Brites, filha única de Nunes Álvares Pereira e de Leonor de Alvim. O rei deu-lhes como dote o condado de Barcelos e mais tarde o título de Duques de Bragança. A Vila de Melgaço, com seus termos, pertenceu a esta ilustre Casa, que foi uma das mais ricas do país. O 8.º duque de Bragança, João IV, foi rei de Portugal de 1640 a 1656.         


CASA DO CAMPO

 
     Ficava no lugar de Barro (ou Bairro) Grande, freguesia de Penso, Melgaço, e no século XIX eram seus proprietários Domingos Alves e sua mulher, Maria Luísa Álvares de Magalhães.

CASA DA CORDEIRA

 
     Sita na freguesia de Rouças, concelho de Melgaço. / Nesta Casa nasceu provavelmente o pai do poeta António Feijó. / O seu vínculo de Morgadio foi criado a 19/6/1634 por João de Sousa e Castro (filho e herdeiro de Lopo de Castro, o Moço), e sua mulher, Catarina da Nóboa, fidalga galega. A Casa e Quinta da Cordeira, foi vendida a 27/3/1893 por Júlio Augusto de Castro Feijó, coronel de infantaria, viúvo, residente em Penafiel, a Manuel Pires e sua esposa, Maria Joaquina Cerdeira, do Rio do Porto, Melgaço, por 2.030$000 réis (o dito oficial também era dono do Morgado da Boavista, Rouças). // Os descendentes desta família venderam a Casa e Quinta, entre 1956 e 1958, a Abel Alves “Chimpa”, castrejo, a morar em Braga (ver “Padre Júlio Vaz Apresenta Mário”, p.p. 144 e 145).    


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VENDA DE LIVROS



DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, I                                             10 euros
DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO, II                                            10 euros
LINA, FILHA DE PÃ (romance)                                                              9 euros
OS MEUS SONETOS                                                                                 8 euros
OS NOVOS LUSÍADAS                                                                            10 euros
                                                                                                                                                                                                                                              

       A estes preços acrescentar-se-á os custos de envio através do correio, cerca de cinco euros para Portugal continental; o pagamento será efetuado através de transferência bancária. Os pedidos devem ser feitos através do seguinte email: joaquim.a.rocha@sapo.pt

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



obra de José Rodrigues



VERÕES MELGACENSES

 

      Como nesta altura do ano a maioria das pessoas já se encontra de férias, não seria de bom-tom escrever sobre assuntos pesadões, indigestos. Por isso, vou apenas abordar factos avulsos.

1.º - A estátua da Inês Negra. Quando em Abril passado estive em Melgaço deparei com a “heroína” a dar tareia rija na Arrenegada. Falei para os meus botões: isso não se faz, pois já passaram tantos séculos e a Inês já devia ter perdoado à outra, mas não! Agora vai esmurrá-la durante milénios! Imitando os turistas americanos e japoneses, puxei da maquineta e toca a tirar fotos: de frente, de costas, de perfil. Nada escapou! Não sendo crítico de arte, embora a aprecie, só me resta comentar: a estátua não me parece ser uma obra-prima, mas não está mal feita, isso não. O seu criador, José Rodrigues, é o mesmo senhor da Bienal de Cerveira. Aguardemos pelas críticas fundamentadas dos entendidos na matéria.
 
 
obra de Manuel Igrejas
 
2.º - A Casa da Cultura. Finalmente foi inaugurada. Aconteceu no dia 10 de Junho, dia importante para o nosso país. Ainda não a visitei; espero bem que corresponda às expectativas criadas e que justifique plenamente as verbas que aí se investiram. Sugiro ao seu responsável que peça à Biblioteca Nacional microfilme de todos os jornais que se publicram em Melgaço desde 1887. Sugiro também que microfilmem o foral de D. Manuel I, a fim dos estudiosos terem a ele acesso. Esta Casa pode e deve ter um papel importante na cultura local: exibindo filmes de qualidade, peças de teatro, exposições de arte, etc.; realizando conferências e promovendo debates sobre temas de interesse regional. Quanto à Biblioteca, ela deverá apoiar os estudantes e proporcionar bons momentos de leitura a todos aqueles que gostam de ler. Para isso é necessário comprar muitos e bons livros.  

3.º - Água canalizada. Faço votos para que a água não falte em casa dos consumidores. Seria uma pena! Para beber não a queremos – temos de consumir o nosso vinho verde; mas para os banhos, para as lavagens de louças e roupas, ela é insubstituível. Disseram-me, para meu espanto, que as canalizações domésticas não estavam, nem estão, a maior parte delas, adaptadas, preparadas para receberem a água que é captada no rio Minho. E o que acontece? Os canos não suportam a pressão; estão velhos e cansados – terão de ser substituídos.

4.º - Comércio. Vem aí o mês de grande consumo em Melgaço. Não sei, acreditem, se depois de tanto marasmo, tanta monotonia e tanta hibernação, o comerciante está apto a alimentar tanta gente que de repente surge, vinda de todo o lado. É que os atletas, antes das grandes provas, treinam-se arduamente. O comerciante melgacense não pode treinar. De Janeiro a Julho é uma pasmaceira; de Setembro a Dezembro uma piedosa agonia. Agosto sim, aparecemos nós aos milhares, autênticas piranhas esfomeadas, que tudo devoram e nada deixam! Os residentes queixam-se: os preços sobem, os bens alimentares escasseiam. Acaba o sossego, os dias da sonolência terminam. Tenham paciência: é só um mês por ano. E mesmo assim têm sorte; os emigrantes jovens já não levam aqueles carrões enormes, que roncavam dia e noite. Não! Agora vêm de avião até à cidade do Porto e depois alugam um carrinho económico, de baixo consumo. Os tempos já não estão para grandes gastos. Senhores comerciantes: dêem um jeitinho nessas montras; alguém me segredou que vai haver um concurso relacionado com esse tema. A mais bonita terá um prémio. 

obra de Acácio Dias

5.º - Limpeza das ruas. Ai que saudades do Camilo! Apesar de só ter um braço, as ruas da vila andavam mais ou menos asseadas. Os varredores de agora são técnicos de limpeza. Este estatuto permite-lhes ganhar mais e serem menos atentos. O grande lixo, levam-no; o pequeno, deixam-no ficar! Desse modo, a perisca, o maço vazio de cigarros, a casca do tremoço e do amendoim, ficam eternamente na rua. São técnicos! - Donas de casa: não permitam que a vossa rua seja uma esterqueira.

6.º - Festas da Cultura. Como em anos anteriores? Não! Este ano vão ser diferentes: feira medieval, desfile de carros alegóricos, discursos, jogos florais, atividade desportiva, conjuntos musicais, nada disso vai haver. Tudo se vai passar dentro da Casa da Cultura: filmes, teatro, vídeos sobre a história antiga e moderna de Melgaço… Um pouco também de arqueologia e linguística (os falares de antanho na região do Alto Minho). A Universidade Aberta está a pensar colaborar. E por que não a Universidade do Minho? Sonhei? Aguardem!

7.º - Piscinas. No plural. Não sei se já este ano os emigrantes terão o privilégio de se banharem nas águas tépidas e desinfetadas das piscinas municipais. A oposição designa-as por «elefante branco». Conhecem a história desse famoso elefante? Depois conto. Será que a oposição não gosta de tomar banho em piscinas!? Se fosse eu não punha lá os pés: nunca se sabe como reage um elefante!  

8.º - Alvarinhos. Também no plural. Um conselho, meus amigos, e sem pagarem um tostão por ele: se quiserem beber esse néctar gratuitamente vão à sala do Cinema, ali para os lados da Calçada, no dia do concurso. Há ali de tudo: bons e maus alvarinhos. Quem for esperto, eu não fui, só bebe dos premiados. Atenção, porém: o senhor Miguel costuma pôr umas garrafas no frigorífico. Peçam-lhe desse – o vinho alvarinho quente não presta.  

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1033, de 15/7/1995.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

QUADRAS AO DEUS DARÁ

        Por Joaquim A. Rocha






                                            Uma canção para Zeca Afonso

 
«Vão-se anéis, fiquem os dedos»,
                          Já diziam meus avós;
                   Mas não se vendem os medos,
                       Que vivem dentro de nós.



«Vão-se anéis, fiquem os dedos»,
                             Gritava o gabiru;
                       Eram apenas brinquedos
                             Escondidos no baú.  


  «Vão-se anéis, fiquem os dedos»,
                           Como diria Miró;
                  Mas não se compram segredos
                           Pisados na velha mó.


                  «Vão-se anéis, fiquem os dedos»,
                              Dizia o poeta pobre;
                          E com mil sorrisos ledos
                       Mostrava os anéis de cobre.