segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SONETOS

Por Joaquim A. Rocha


ruínas do Cine-Pelicano



OUTROS TEMPOS


Ai, como eu lembro o Cine-Pelicano,
Aquele mundo de recordações;
Via todos os filmes, mil sessões,
Mês de Janeiro, Março, todo o ano!

Naquela noite levantou-se o pano,
As palmas romperam como tufões,
Era o teatro do Vasco, ilusões,
No palco Raul, Armando, Adriano...   

Sansão, Moisés, Ben-Hur, Dez Mandamentos,
Uma mulher que viveu duas vezes;
Shane, Marisol, melro Joselito…

Muita guerra, imensos sofrimentos,
O Cantinflas, Charlot rilhando freses,
Filmes de terror, um susto, um grito! 




sábado, 12 de dezembro de 2015

GENTES DE MELGAÇO
(micro-biografias)

Por Joaquim A. Rocha



ROUÇAS

FERNANDES, Ana. Filha de Manuel Maria Fernandes, natural de Desteriz (São Miguel), Galiza, e de Maria Teresa Gonçalves (Dias), natural de Rouças, Melgaço, rurais, moradores no lugar de Cavaleiros. Neta paterna de Rosa Fernandes, solteira, camponesa, de Desteriz; neta materna de Maria Antónia Fernandes, solteira, camponesa, roucense. Nasceu em Cavaleiros, Rouças, a 23/2/1873, e foi batizada na igreja católica local no dia seguinte. Padrinhos: Manuel José Cardoso e Maria José Cardoso, casados, lavradores, naturais de Rouças. // Por volta de 1890 foi viver com seus pais e irmãs para o lugar da Pigarra, Santa Maria da Porta, devido a terem aceitado ficarem como caseiros numa quinta desse lugar da Vila. // Faleceu na Vila de Melgaço a 5/4/1947. // Ficou conhecida por “Ana Home”; tinha fama de hermafrodita, por ser virago, mulher de pulso rijo. Conta-se que em certa ocasião, num monte da Galiza, desarmou um carabineiro que dia antes lhe tirara o contrabando, uns míseros gramas de tabaco e duas barras de sabão, e com a própria carabina lhe deu uma tremenda sova, deixando-o ficar ali estendido como um morto. Depois enviou a espingarda para o posto onde o ferrabrás estava afecto (*). O caso deu brado! E não foi só aquele que experimentou a “lenha” com que ela se aquecia, mas muitos outros homens pseudo valentes. Era tesa! Fazia todos os trabalhos normalmente atribuídos ao sexo masculino: podar, sulfatar, lavrar…, enfim, todos os trabalhos agrícolas. Segundo consta, fumava, vício que nessa altura em Portugal só os homens tinham. Em o “Notícias de Melgaço” n.º 1, de 6/3/1924, na secção DIZ-SE, alguém escreveu «que a Ana Home no domingo último, numa entrudada que neste dia se fez em Cristóval, vestiu-se com trajo masculino, caracterizando-se com pêra e bigode; que a certa altura do divertimento montou num cavalo como qualquer homem, fazendo algumas evoluções para afastar o povo, o qual a elogiou.» // Apesar dessa aparente agressividade, apaixonou-se e foi mãe solteira de dois filhos: de António Maria, conhecido por “Olharapo”, jornaleiro, que morreu na Vila de Melgaço, tuberculoso, a 27/3/1951; e de José, que depois da tropa ingressou na GNR, atingindo o posto de cabo. // Carlos Afonso escreveu acerca da valentona: «… embora não tendo “barba rija” tinha força e coragem para enfrentar quem a quisesse importunar. Poderia até equiparar-se à lendária Inês Negra, isto se os tempos fossem semelhantes e as oportunidades fossem as mesmas.» E mais à frente continua: «Eu conheci a “Ana Home”; … um irmão dela foi meu tio por afinidade. Mulher forte, de meia estatura, e de voz grave. Trajava roupa de tecido grosso, como antigamente se usava em Castro Laboreiro, e dizia-se que por lá viveu algum tempo. Creio ter sido, talvez, da segunda geração de uma família galega, de Desteriz, ali junto a São Gregório, que aí por volta de 1850 veio para Melgaço, trabalhar para a Quinta chamada de Santo Preto. Em Melgaço os descendentes dessa família tinham por alcunha “os noivos”… Andava sempre armada com um varapau da sua altura e, dizia-se, não sei se com alguma ou total verdade, que usava “faca na liga”. Creio que a alcunha… lhe foi dada por ter a voz grossa, ou mais pelo facto de ela fumar, tal como os homens. Uma mulher a fumar, há mais de 70 anos atrás, era mesmo coisa de outro mundo…» (A Voz de Melgaço n.º 1116, de 15/5/1999).

     /// (*) O seu sobrinho-neto, Augusto, nascido na Vila em 1925 e falecido em Golães, Paderne, em 2015, conheceu-a muito bem e diz que ela nunca bateu em nenhum carabineiro; atirou-lhe, isso sim, com sal para os olhos quando ele a queria levar presa para o posto por contrabando, pondo-se em fuga. Faz sentido; mas será que alguém presenciou a cena?           

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

QUADRAS AO DEUS DARÁ

Por Joaquim A. Rocha


o fim das burqas no Afeganistão

*

Entro na noite cansado,
Louco de tanto pensar;
O espírito torturado,
O sono a aguardar.

*

Penetro, como na terra o arado,
Rasgo fundo esse tecido sombrio;
E no corpo da noite, vate inspirado,
Tudo me esquece: sono e frio.

*

Nesta quadra festiva
Gasto todo o meu dinheiro;
Depois lá vou prà estiva
Trabalhar o ano inteiro.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



AS RUAS E OS NOMES


     Na minha última visita a Melgaço, ou seja, no natal de 1992, andei pelas ruas da vila e verifiquei que estas já têm placas com o nome. Tudo bem, se não fossem os erros cometidos por quem as mandou colocar. Em primeiro lugar falemos do Largo «Policano». Não encontrei, por mais que procurasse, nenhum bicho com esse nome! Conheço, isso sim, o pelicano, ave ciconiiforme, que aparecia nos bilhetes do Cine-Pelicano. Não sei a razão da escolha, mas esse era o emblema utilizado pelos proprietários dessa Empresa. O edifício, bastante danificado, ainda lá existe. A Câmara Municipal podia comprá-lo e abatê-lo; no seu lugar poderia ser erguida uma estátua a D. João I, ou mesmo ao fundador da nacionalidade, visto que esse prédio nada tem a ver com a traça das casas vizinhas que o circundam, pode mesmo considerar-se um intruso. Como a Câmara Municipal de Melgaço está tão interessada em preservar o património legado pelos nossos avós, aproveitava esta ocasião, que poderá ser única. Não quero com isto dizer que o cinema não seja necessário, bem precisava o concelho de uma verdadeira Casa de Espetáculos, no entanto, isso é assunto para outro artigo.
     Dizia eu que o Largo não é «Policano». Também não deverá ser Pelicano, mas sim Largo do Cine-Pelicano: o seu a seu dono.
     Rua Fonte da Vila. Penso que Rua da Fonte da Vila estaria melhor, pois a rua não é fonte da vila, eu nunca conheci uma que o fosse! Aproveito para lembrar aos senhores da Câmara Municipal que a referida fonte está tão escondida e tão pouco cuidada que até mete dó. No tempo das invasões francesas a pedra de armas foi coberta de argamassa; agora, está coberta de desprezo! Não basta colocá-la na capa de livro; é necessário dar-lhe um lugar de destaque no dia-a-dia da comunidade.
     Viela D. Pedro Pires. Assim se chamava o prior do convento de Longos vales, o qual financiou, ou ajudou a financiar, no tempo do nosso primeiro rei, a construção do castelo de Melgaço. Nesse tempo não existiam os bancos, e os Rothchilds só apareceriam no século XVIII, por isso os reis recorriam aos conventos ricos e poderosos (Fiães, Longos Vales, Alcobaça, etc.), dando como contrapartida territórios que os mesmos reis iam conquistando aos mouros. Embora monumento nacional, o convento encontra-se em estado deplorável.
     A Rua «Direita», por sinal bastante torta, é a rua principal da vila antiga; julgo que não é só por isso que ela tem esse nome, mas sim por ser nessa rua que se situavam os antigos Paços do Concelho, Tribunal e Cadeia. Direita, neste caso, significaria justiça; por conseguinte, a rua onde se exercia a justiça (direitos dos cidadãos). Tudo isto carece de mais investigação, mas o pouco tempo, e por vezes a dificuldade de acesso aos arquivos, torna essa mesma investigação quase impossível.
     Alameda Inês Negra. No meu tempo de rapaz tinha dois nomes: Avenida Salazar ou Avenida das Tílias. O atual presidente da Câmara quis homenagear a lendária “heroína” de Melgaço, e assim deu à avenida o seu nome. Apesar de não ser uma figura histórica, Fernão Lopes insere-a na sua «Crónica de D. João I», embora de uma forma assaz ambígua. Escreveu ele: «E em esse dia escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da vila e outra do arraial, e andaram ambas aos cabelos, e venceu a do arraial», sem sequer lhe mencionar o nome. Duarte Nunes de Leão, na sua «Crónica de D. João I», 3.ª parte, também não cita o nome das duas mulheres. Foi somente o Conde de Sabugosa, muitos séculos depois, inícios do século XX, que batizou a do arraial com o nome de Inês. Ela simboliza a bravura, o patriotismo, a fé na vitória. Por isso, e só por isso, merece essa honra.
     Rua do Carvalho. Provavelmente existiu aí, outrora, um carvalho de garboso porte e deram ao lugar esse nome. Não se justifica, quanto a mim, a sua perenidade.
     Não vi, por mais que procurasse, uma rua com o nome do grande historiador melgacense Dr. Augusto César Esteves (1889-1964). Não sei se o vereador que detém o pelouro da cultura se esqueceu, ou se houve de facto uma omissão voluntária. Seria muito, muito grave, se por uma razão ou por outra se ostracizassem todos aqueles que tornaram Melgaço mais conhecido (e estão a tornar, como é o caso do Cónego Doutor José Marques, entre outros), dedicando uma vida inteira à investigação, em arquivos desorganizados e poeirentos. É certo que esse erro pode ser corrigido, mas por favor: aprendam a distinguir o trigo do joio! Não sugiro que se dê a uma rua de Melgaço o nome do Tomás das Quingostas, ou quejandos; isso poderia querer dizer que se perdoavam os antigos crimes, que se fazia a apologia do banditismo, isso não! Mas, por favor, não se esqueçam dos emigrantes, dos escritores (Miguel Ângelo Barros Ferreira), dos poetas populares (Francisco Augusto Igrejas, José Serrano, e outros); dos artistas (Acácio Dias, Manuel Igrejas, Óscar Marinho, etc.); de Vasco de Almeida, que dinamizou o teatro na nossa terra. Outro nome a lembrar é o de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), da «nobre família dos Castros de Melgaço», que foi ministro da marinha e teve um papel importante na diplomacia portuguesa do século XVIII. Enfim, que as ruas apareçam com nomes de figuras conhecidas e merecedoras de tal distinção. Era aconselhável que, após o nome, se indicasse a data de nascimento e morte (no caso de já ter falecido), e outros elementos de identificação: político, escritor, artista, etc.


Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 983, de 15/4/1993.

domingo, 6 de dezembro de 2015

POEMAS DO VENTO

Por Joaquim A. Rocha





A LAMPREIADA

Há dias fui convidado,
por um amigo chegado,
para um arroz de lampreia;
o bicho era mirrado…
para o ver, só de candeia!

Para cúmulo da má sorte,
vinha impregnado de morte,
com o selo de Medeia;
denotava um travo forte,
prenúncio de diarreia.

Comi só duas rodelas,
imaginei-as morcelas,
da casa do lavrador;
e mesmo assim, as cadelas,
causaram-me imensa dor.

Jurei então, nunca mais,
enquanto houvesse mortais,
um convite aceitaria;
dêem lampreia a vestais,
aos ratos da confraria.

Eu vou comer só chirelos,
com batatas e com grelos,
cozidinhos à maneira;
outros “petiscos” nem vê-los,
já chegou a vez primeira.

Se quiserdes um conselho,
deste jovem um pouco velho,
fazei como eu vou fazer;
tende sempre bom artelho
para uma fuga empreender.


12/6/1997

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

MELGAÇO E AS INVASÕES FRANCESAS

Por Augusto César Esteves



... (continuação)

     «P. Que o A[utor], antes de falecer o filho da ré, Tomás Joaquim Codeço, foi por ele demandado e a[l]fim fizeram por intervenção de pessoas na presença das quais já mais o A. podia recear maus tratamentos e até nesse tempo o filho da Ré andava com a guia que lhe passou o Conde das Antas e tanto respeitava a lei que para haver o que o A[utor] Manuel  José de Caldas lhe devia, o chamou à Justiça e o fez citar para as acções competentes

          E antes do Tomás das Quingostas chamar ao juízo conciliatório o cirurgião Caldas, diligências se fizeram para tirar a corda da garganta deste devedor, como ressalta desta carta:
   
   «Quingostas, 19/4/1838

                        Ilustríssimo Senhor Juiz
  
         Desejo a sua saúde geralmente a tudo o quanto lhe pertence a [Senhoria?] e ofereço ao seu serviço, etc.

                        Ilustríssimo Senhor

        No dia de ontem findou o nosso contrato com o cirurgião e por isso rogo a Vossa Senhoria o favor de me não pedir mais por semelhante patife; e por isso antes quero que Vossa Senhoria fique com ele do que o tal maroto; para quem entende vai isto. Fico pronto para tudo o quanto lhe prestar.
                                           Sou seu venerador

                        Tomaz Joaquim Codeço ([1])

   P. S. - Os trinta mil réis que recebi, ficam à conta da obrigação que tenho dele

        E esta carta entende-se ligando-a com a tentativa de conciliação feita na Casa e Quinta da Cordeira em 9/6/1838 perante o cidadão Joaquim Tomás Correia Feijó, juiz de paz e órfãos no círculo das freguesias de S. Paio, Vila e anexas, diligência a que não compareceu Manuel José de Caldas. A morte levou Tomás das Quingostas sem lhe dar tempo para fechar as contas com os fornecedores da sua casa, nem com os credores; e como seu pai, José Codeço, já tinha falecido, herdou-lhe os bens a mãe, a quem todos eles foram pedir a liquidação dos débitos.
     Aceite a herança a título de inventário, foi no tribunal que se ajustaram as contas; tendo, os jurados, reduzido, ao justo valor, várias das verbas pedidas. Pequena quantia foi reclamada pelo credor D. Pedro Vasques de Puga, da Casa e Quinta da Moreira, na Galiza, e apenas 63$940 réis foi a soma exigida por António Luís Pereira, negociante, do lugar dos Moinhos, da freguesia de Paderne, proveniente de vários fornecimentos feitos ao Tomás das Quingostas, tais como maços de cigarros, caixas de fósforos, queijo, bacalhau, quinze quilos de açúcar, verbas de dinheiro emprestado, como 1$440 e 2$400 réis, um tinteiro e areeiro de louça, um par de luvas de troçal de seda preta e outro de seda azul, chumbo de caça, uma importância de fogo paga ao fogueteiro de Santa Cristina, 14$000 réis, a maior verba lida nesta conta.
           A vida do “Tomás das Quingostas” foi cortada pelas balas da tropa a 30/1/1839 na Quinta da Alota, em S. Paio, quando das Quingostas, enquadrado por elementos da Ordem, vinha preso para Melgaço. A sua morte foi um assassinato como tantos naqueles tempos, legal se o quiserem ver assim, mas um assassinato chocante e condenável em todos os tempos e em todos os lugares, quer fosse provocado pela tentativa de fugir aos captores, quer por inadvertidamente, como se diz também, ter pisado os calos ao soldado – o assassinato dum homem sem devassa nem pronúncia o envolveram nas malhas, sem qualquer julgamento lhe ser feito, sem nenhuma condenação ter sido pronunciada contra ele pelas justiças da terra.
           Vai passado mais de um século sobre essa data e por estas redondezas ainda hoje se ouve uma ou outra voz depreciativamente aludir à serra e aos tempos do “Tomás das Quingostas”. E enquanto uns, contando desvarios e violentas façanhas, o apresentam como vulgar quadrilheiro e o retratam como ladrão atrevido e assassino sem qualquer escrúpulo, outros, lembrando generosidades havidas com pobres lavradores, atiram para as costas dos comandados com todas as violências e mostram-no, a ele, caçador apaixonado e papa-léguas da montanha, homem de muitas e boas relações no meio, acarinhado pelos grandes e a tirar exclusivamente a ricos, unhas-de-fome, algumas dezenas de mil réis para ele mesmo os entregar, depois, a desgraçados cuja boca não trincava a broa precisa para mourejarem nos campos todo o santo dia e parte da noite.
            A sua vida está a pedir revisão e, se um dia se fizer, talvez desse processo póstumo saia ele de muitas e muitas culpas ilibado. E despojado, precisamente, daqueles actos mais degradantes atribuídos à sua vida, talvez ele surja aos olhos dos melgacenses, como os Marçães e os Brandões das Beiras, com a nova auréola de figura política marcante e talhada pelos moldes daqueles tempos da forca miguelista de 1828 a 1833 e do regabofe e anarquia liberal de 1834 e 1838, militando nas hostes miguelistas contra os constitucionais e, depois, setembrista da última hora, com a tal guia passada pelo Conde das Antas, contra os cartistas, aproveitando a sua sombra, como é natural e humano, para manter em respeito a um ou outro recalcitrante, a este ou àquele empata folhas da vitória da sua facção política.
           O imperativo da história e a honra da terra ficam agora impondo essa revisão e para a encetar e para iniciar, quiçá, a reabilitação da memória desse melgacense, como um acto de justiça às suas possíveis virtudes cívicas, de tantos documentos existentes sobre Tomás Joaquim Codesso, «comandante da guarda volante do Alto Minho» apenas um escolho para ser ponderado:

«Administração Geral de Viana
1.ª Repartição
2.ª Secção
N.º 303
Circular

   Ilustríssimo Senhor

         Tendo sido informado de viva voz pelo General Comandante da Divisão de Observações das Províncias do Norte, o Visconde das Antas, que ele a bem do Serviço Público havia concedido uma guia a Tomás das Quingostas, cumpre que Vossa Senhoria quando pelo mesmo lhe for apresentada a mencionada guia observe as disposições que ela contém.
                       
      Deus guarde a Vossa Senhoria, Viana 23/12/1837.                                                                                                                                                     
                                  
                 O Administrador Geral interino // J. R. Marreca

Ilustríssimo Senhor Administrador do concelho de Melgaço»

        O bando do Tomás das Quingostas lembra a fábula «O Lobo e o Cordeiro» e, como este, vai arcando com todas as culpas, da responsabilidade de outros, embora. Nenhum dos seus acusadores descobriu ainda as terras de Melgaço e as dos vizinhos concelhos trabalhadas pelos sectários da usurpação na falaz expectativa de qualquer vantagem alcançada pelos Carlistas, em alguma das muitas províncias fronteiriças de Espanha, trazer para Portugal a oportunidade apetecida para numa revolta contra o governo português comparsarem também; nenhum dos seus evocadores procurou desenvencilhar as consequências trazidas para Melgaço pelo cisma religioso de 1832-1842 começado no Porto e especialmente agudo em toda a diocese de Braga, onde chegaram a exercer simultaneamente autoridade, sem autoridade, dois Vigários Capitulares, ou apreendeu as lutas surdas e as travadas nos púlpitos, surpreendendo assim esse irrequietismo de Melgaço provocado pelos padres miguelistas na quadra do “Tomás das Quingostas”, pois «que no concelho de Monção apareceu um frade da Falperra, chamado Frei Sebastião, que dizia ter vindo de Roma, e ser portador de excomunhões do Santo Padre, para os eclesiásticos empregados pelo Governo Constitucional, o qual nomeou delegados para absolverem os que se lhe apresentassem, ordenando-lhes que não comunicassem com os não absolvidos, sendo um destes delegados o ex-abade de Rouças», o Padre Dinis Ferraz de Araújo, cujo múnus desde 1834 a 1844 exerceram sucessivamente os encomendados Padre Manuel da Conceição, Padre João da Rainha dos Anjos Cunha e Padre Agostinho Manuel Cardoso; nem tampouco nenhum dos seus detractores visionou todas estas terras do Alto Minho invadidas sucessivas vezes por guerrilhas espanholas e entre estas pelo bando de cento e cinquenta homens capitaneado pelo célebre Guillade, um dos apaixonados chefes do movimento carlista galego, que conseguiu entrar em Tui e em Vila Verde e foi morrer no ataque a Lugo, na conhecida Guerra de Los Siete Años.
        Talvez, desde hoje, no espírito do melgacense culto fique abalada a tradicional ferocidade atribuída nas seroadas dos aldeãos a Tomás Joaquim Codeço se, acaso, consegui humanizar esse vulto das lutas liberais melgacenses e, esbatido de muitas sombras, apresentá-lo na ribalta como um vulgar faccioso daqueles tempos; mas nos recantos das aldeias, ninguém se iluda, a sua vida há-de continuar a entreter as horas dos serões, longe da história e afastada da verdade, porque a lenda do Tomás das Quingostas está feita. // (continua)...

- Nota: do Dr. Augusto César Esteves ainda se encontra à venda a sua obra póstuma «AS MINHAS GERAÇÕES MELGACENSES», em dois volumes.


        ([1]) No assento de batismo recebera o nome de Tomás de Aquino; porém, no assento de óbito já o seu nome consta como sendo Tomás Joaquim!   

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha

forno comunitário

     
Curiosidades

     Maria Douteiro morou no lugar de Sá, freguesia de Paços, concelho de Melgaço. Em 1912 pediu para cozer duas broas de pão no forno caseiro do seu vizinho Manuel Maria Soares, guarda-fiscal; na tarde de sábado, ela e a esposa do guarda metem as broas no forno, auxiliadas por António Lopes, sem se esquecerem de marcar previamente as broas. Passadas três ou quatro horas retiram o pão do forno e qual não é o seu espanto ao verem o pão de uma delas completamente negro, por fora e por dentro! Apesar disso, podia comer-se, e até tinha um sabor agradável. O pão da sua vizinha estava normal! Diz-se no jornal: «explique a ciência, ou então os sábios da escritura, este segredo da natura. Em nossa redacção temos um pedaço do pão e da massa que lhe serviu de fermento» (ver Correio de Melgaço n.º 19, de 13/10/1912). No Correio de Melgaço n.º 20, de 20/10/1912, lê-se: «o interessante caso do enegrecimento do pão mereceu a atenção do engenheiro agrónomo deste distrito que, tendo recebido uma pequena amostra, requisitou maior quantidade para poder fazer a análise e assim descobrir, talvez, a causa do fenómeno. O fermento que também desejava não lhe foi fornecido por já não o haver.» E pode-se ler no Correio de Melgaço n.º 27, de 8/12/1912, o seguinte: «acerca do caso do enegrecimento do pão, caso sucedido a Maria do Outeiro, do lugar de Sá, a 5 de Outubro, comunica-nos o engenheiro agrónomo, senhor conde Bobone, que no laboratório químico-agrícola do Porto, onde foi feita a análise, não se pôde apurar nada; apenas se reconheceu que as cinzas 2.5 ficaram muito abaixo do limite máximo para pão de mistura, e que o pão, ao parti-lo, exala um cheiro um pouco pronunciado a vinho... Não haverá quem faça um pão amassado com um pouco de vinho, ou que ensaie todas as hipóteses verosímeis para ver se acontece a mesma coisa? Chama-lhe “um caso estranho a que não sabe atribuir causa” o agrónomo, senhor Pedro de C. P. Bravo, do Porto. Para estudá-lo S. Ex.ª pediu também amostras, mas estas já não se lhe puderam obter

     E assim acabou a novela do pão negro! Quanto a mim, o fenómeno é simples de explicar: a massa do pão tinha sede e em lugar de beber água bebeu vinho, por estar ali mais à mão.