quarta-feira, 8 de abril de 2015

QUEIJO DE CABRA


Vinhos e queijos portugueses - um guia muito prático (Verbo)

     No jornal «A Voz de Melgaço» do mês de Abril de 2015 surgiu uma notícia muito interessante: um casal jovem, ela melgacense, resolveu dedicar-se ao fabrico de queijo de cabra. Fiquei muito contente, pois Melgaço tem imensas potencialidades nessa área. Espero que tudo lhes corra bem, que seja um êxito absoluto, e que outros jovens empreendedores apareçam no concelho, a fim de explorar as matérias-primas que aí existem. 
     Esse queijo, sobretudo o curado, pode mais tarde ser vendido em Viana e Braga, onde existem cerca de três mil melgacenses.
     Dedico o poema que se segue ao jovem casal, desejando-lhe mil felicidades. 


Não é, não, nas altas serras,
Que se faz queijo de cabra;
É em Prado, baixas terras,
Distante da serra brava.

O rio ali tão pertinho,
Um campo de futebol…
Não longe, o alvarinho,
Aloirado pelo sol.

A Verónica Solheiro,
Tendo seu Marco juntinho,
Faz o queijo verdadeiro,
Orgulho do Alto Minho.

As cabrinhas dão o leite
Para o produto nascer;
Vai ser o nosso deleite,
O gosto de bem comer. 

Foi ideia genial,
Vinda dos anjos do céu;
Ai que sorte, Portugal,
Vais ter um novo pitéu.

Que bom é para Melgaço,
Concelho deste país;
Terra de vinho e bagaço,
Belo presunto e maís.

Agora vamos ter queijo,
De primeira qualidade;
Para matar o desejo
Aos da aldeia e cidade. 

Joaquim Rocha

terça-feira, 7 de abril de 2015




LEMBRANÇAS AMARGAS

romance

                                            Por Joaquim A. Rocha




I

O sol só brilha quando as nuvens se afastam


     Certo dia, não sei precisar quando, isso também pouca ou nenhuma importância terá para a história, eu e a minha mãe estávamos em casa a conversar, numa conversa íntima, da minha parte recheada de críticas abertas e subtis, duras lamentações, lembranças de outros tempos, e de súbito, quase num desafio, pergunto-lhe:
- Mamã, por que bebe tanto? Será que algum dia vai deixar de beber?
- Bebo, bebo e bebo! Já lá dizia a outra: «morra Marta, morra farta.» Ninguém manda em mim. Canté! Todos querem dar ordens. Na Matilde ninguém manda – ouviste? Mando todos para o raio que os parta. Gosto de vinho, confesso. E depois? Os outros não emborcam? Mais do que eu. A tua tia Bernardina não bebe vinho, mas come todas as tardes sopas de cavalo cansado – um litro! Bêbados, são todos uns borrachos, uma pandilha, escumalha.
- Oh, mamã! Todos os santos dias, isto. Já não posso mais. Que mal teria eu feito para suportar tamanho sofrimento, tamanha provação. E logo eu, que nem pai tive. Sabe ao menos quem é o meu pai?
- É um pulha qualquer, um lacaio, um rafeiro, um lambão. Nunca quis perfilhar-te, dizia que não tinha a certeza que eras filho dele. Ao teu irmão perfilhava. Malandro! Desse não duvidava - «esse é mesmo meu», dizia ele com ironia e desfaçatez.
- E é de certeza meu pai?
- É teu pai, é. Enquanto andei com ele, longos quatro anos, não tive outro homem. Respeitei-o, mas o patife não o merecia. Logo que veio da tropa arranjou uma namorada galega. Coitada! Comparada comigo não valia uma só sardinha moída. Fugiu com ela, o pelintra. Que lhe aproveite – homens não me faltam, nunca me faltaram, graças a Deus. Dou um pontapé numa pedra e logo saem debaixo dela meia dúzia. Canté! Olha eu a ser escrava dele – a alimentá-lo, o chulo. Homens são todos iguais – lixo! As mulheres trabalham como moiras, de sol a sol, para os sustentar. Que trabalhem, têm bom corpo. Patife; o que ele queria era dormir até lhe apetecer, chouriço na brasa, cacete fresquinho, do galego, que era o mais saboroso, feito com a melhor farinha, e vinho, muito vinho. Mas não lhe servia qualquer um – do bom, só do bom, sumo de uva. Bebia um quartilho num abrir e fechar de olhos. Filho da púcara, que não volte. Racho-lhe a cabeça.
- Nunca lhe pediu para casar com ele?
- Casar? No princípio sim, para conseguir o que queria, para levar a água ao seu moinho, mas isso alcançado… Ele não queria comprometer-se, porque depois teria de vergar o canastro para sustentar os filhos. Vadio. O que ele queria era chular as mulheres, emprenhá-las e pôr-se a léguas. Cobarde. Racho-lhe a cabeça ao meio se o volto a ver. Canté! Que apareça, que eu dou-lhe o arroz.
- Sabe onde ele está?
- Emigrou para a Galiza, para ir morar com a peixeira. Deve viver à custa dela, o cornudo. Mas ela não é de assoar, eu conheço-a. Até lhe bate, se for preciso. Chupista, só quer comer à custa das mulheres, das desgraçadas.
- Mas se os pais dele eram caseiros, trabalhavam campos e leiras, ele devia ajudá-los.
- O quê? Afastava-se da lavoura como o demónio da cruz. O pai bem lhe ralhava, ia atrás dele com um vergalho e estendia-lho pelas costas abaixo – cada coça! Quando o apanhava, é claro. O pulha corria que nem uma lebre. Ficava derreado e as marcas no lombo notavam-se durante dias. Vinha logo ter comigo para o tratar. Punha-lhe panos de linho embebidos em vinagre, uma pomadinha caseira… Bem o mereceu, o alma-danada, sem coração, que me calcou aos pés depois de tudo que fiz por ele. Bem parva que eu fui. Trabalho não era com sua excelência! Para sustentar os maus hábitos, que eram incontáveis, contrabandeava qualquer coisa: algum café, umas barras de sabão, pedras de isqueiro…, só o suficiente para arranjar uma nota para os mil vícios. Quando o regato ia cheio, no inverno, e porque a ponte tinha sido destruída pelos soldados do Franco, transportava às costas galegos que vinham a Portugal e não se queriam molhar. Certa vez, um deles, depois de lhe pagar, disse-lhe: «Homem, é a primeira vez que um burro português me leva às costas.» Nada lhe disse, mas passados uns tempos o tal galego apareceu-lhe de novo. No meio do regato atirou com ele à água. Vingou-se. Metia-se também na cerveja, um luxo, vê lá tu.  // (continua).

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A BARRA DE OIRO COM ASAS

Havia um certo sovina
que tinha uma barra d’oiro;
para ele era divina…
era todo o seu tesoiro!

Guardava-a tão bem guardada,
como a um filho a protegia,
 que nem cabeça coroada
no tempo da monarquia!

Mas certo dia inglório
a barra desapareceu!
Quem seria o patifório
que vilmente procedeu?

Toda a família envolvida
neste caso tão bicudo;
e a barra desaparecida
era a culpada de tudo!

«Quem roubou o meu tesouro
perguntava colérico o sovina.
«Se calhar foi o Zé-Touro»
insinuava a Ti Albertina.

O Zé-Touro, patifório,
era o que tudo roubava;
com suas mãos de finório
a “terra” alheia lavrava!

É chamado à Judiciária
mas tudo nega, o malvado.
«Não é esta a minha área,
eu jogo noutro relvado

Não se convence, o agente,
e fortes murros lhe dá.
«Diz-me cá, ó insolente,
onde é que o ouro está

«Sr. Agente, eu lhe garanto
que a barra d’oiro não bifei;
juro pelo António santo…
e quem a bifou não sei

E por mais murros que apanhe
não fala, o hábil bandido;
(o sovina que se amanhe),
pensa o agente, vencido.

O processo se arquivou,
junto a outros poeirentos;
«quem foi que o ouro roubou
pergunta-se aos quatro ventos.

«Tinha asas, essa barra,
e voou prò outro mundo?!»
A pergunta sempre esbarra
com o silêncio profundo.      

Mas o que é certo, irmão,
é que o sovina, coitado,
sofreu tal desilusão
que ficou meio chalado!

Ainda hoje nós o vemos
pelas ruas da cidade:
«pela alma de quem lá temos
dêem-me o oiro, por caridade

E agora, só por chalaça,
vou ao fundo da questão:
«o ouro só traz desgraça»…
passai-o prà minha mão!

domingo, 5 de abril de 2015

DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA




     O diretor de uma humilde revista pediu-me para eu escrever um texto a fim de ser publicado no dia internacional da criança. Hesitei. Porquê naquele dia se o ano tem 365 e todos eles devem ser dedicados à criança? As televisões, as rádios, as grandes revistas, os jornais, nesse dia falam até à exaustão dela. Sobre o assunto são exibidos filmes, peças de teatro, fantoches; fazem-se festivais, encontros. Tudo nesse dia, tudo no dia internacional da criança. Apesar das hesitações resolvi escrever, mas o quê?
     Falar da fome que milhares, ou milhões, delas passam diariamente, sobretudo na Ásia e na África? Disso, já tantos jornalistas falaram e escreveram. Filmaram-se campos de refugiados, bairros degradados, onde há falta de alimentos, de vestuário, de médicos e de enfermeiros. Para quê lembrar as desigualdades gritantes que existem entre as crianças de continentes diferentes, dos mesmos continentes, e até dos mesmos países. Sobre isso está tudo dito e filmado. Para quê isolar-se a criança do todo social e criar-lhe, artificialmente, e talvez de má-fé, com puros interesses comerciais, o seu dia? A fim de chamar a atenção para ela?! A atenção de quem? Dos chamados responsáveis políticos? E como poderiam resolver esse problema? A maioria dos Estados está com os cofres vazios, os políticos, quase todos, estão riquíssimos!
     A criança é o elo que liga uma geração a outra geração. Assim sendo, só o facto de a colocar em evidência destrói o sistema social e cria a ilusão de se ter atingido a solidariedade entre as classes que constituem este mesmo sistema. Criança, rica ou pobre, branca ou de outra cor, com ou sem perspetivas futuras, é posta no altar dos grandes de coração, e mediante discursos de uma beleza chorosa e circunstancial, e de fictícias prendas, cria-se-lhe a sensação de que ela, criança, não está mais desamparada, não precisa mais preocupar-se com o seu futuro, os adultos já lho asseguraram! Brinquem, sonhem, estudem, criem o vosso mundo fantástico! Nós, os “grandes”, somos os construtores e os pilares do vosso amanhã! Garantimo-vos, solenemente, que jamais sentireis na vossa carne o frio, a fome, as repressões, o labor sujo e mal remunerado, a miséria e a humilhação. Tereis habitação condigna, tereis escolas decentes e ensino gratuito, professores compreensivos e sabedores, tereis espaços livres… Enfim, tereis o paraíso!
    Quem pode prometer? Quem cumpre, se promete? Não, não vamos confundir. As crianças não são um problema específico. Elas não podem ser desinseridas do seu meio social e político. Há crianças e crianças! Não vamos misturar. Não queiramos ver o problema através de lentes côncavas ou convexas, as quais deturpam a realidade. A verdade é esta: existem classes sociais, logo existem crianças em qualquer destas classes. Estas classes não vivem da mesma maneira; nas crianças refletem-se essas diferenças. É certo que a criança, enquanto tal, não se apercebe imediatamente disso; pelo menos enquanto não penetra no outro “mundo”, no mundo da criança privilegiada. É ao entrar na escola que ela se vai aperceber, e de que maneira, e a partir daí… E a criança, filha da prostituta, do marginal, do assassino? Essa é rejeitada, pura e simplesmente, pela sociedade, por toda, não há espaço para ela. Não farão parte da sociedade porque os seus pais não aceitam cumprir as regras por ela impostas. E assim engrossarão a minisociedade marginal, ou subterrânea.
     Não, não vamos confundir. Não façamos «dias» do que quer que seja. A festa hipócrita que serve para burguês distrair e proletário sonhar, não serve objetivamente a ninguém, ou talvez sirva: o obscurantismo e o idealismo. Vejamos: aos Sequins de Ouro, ou de qualquer metal, quem vai? As crianças do bairro da lata? Os filhos de camponeses, ou mesmo de operários? Não! Vão apenas as crianças que aos quatro anos já sabem recitar poesia! Vão as crianças que aos sete anos se comportam no palco como verdadeiros profissionais! Não, não vão lá as crianças que em tenra idade já têm que ajudar os seus progenitores nas lides dos campos, ou noutros trabalhos pesados que as afasta da escola, fechando-lhes a porta da cultura, colocando-as, desta maneira, em nítida desvantagem em relação àquelas que irão frequentar escolas secundárias e superiores. Dir-nos-ão os espíritos conformados que pobres sempre os houve e que nem todos podem ser doutores. Dizem mais: que para trabalhar no campo ou na fábrica não é necessário ter frequentado a escola para além do ensino básico; chega-lhes ler e escrever qualquer coisinha, e contar o mísero salário que eles venham a receber!
     Nem tudo está perdido; o pessimismo é já meia derrota. A tendência, e neste caso a ciência prova-nos isso, é para se modificar a situação. Levará tempo; lutar-se-á duramente, mas o futuro será da criança, e será de todos. As mentalidades mudarão. A futura sociedade não admitirá no seu meio privilegiados; a criança não mais se envergonhará de ter nascido aqui ou ali. E todos os anos, todos os meses, e todos os dias, serão dela e serão nossos.
    
     Nota: este texto foi publicado a 14/10/1979. As coisas têm vindo a melhorar, mas por vezes fica-se com a sensação de que tudo regressa ao passado.                          


                                                                         Joaquim Rocha

sábado, 4 de abril de 2015

    
ANEDOTAS

     Jesus, na época 2009-2010, estava no Benfica como treinador de futebol. Durante alguns jogos as coisas não lhe correram bem: empates, uma ou outra derrota, enfim, o clube já estava a bastantes pontos do primeiro classificado, que era o Futebol Clube do Porto. Um dia, no supermercado, encontram-se dois sportinguistas. Um deles diz ao outro:
- Sabes, os da Luz estão a ficar descrentes!
- Não me digas, pá! São cá uns fanáticos. Mas haverá alguma razão para tal?
- Sim, há: deixaram de acreditar em Jesus!
                                                                                                                Dezembro de 2009 
*
     No Café, entre dois amigos. Pergunta um deles:
- Sabes uma coisa, António? Os portugueses estão menos religiosos e mais asseados.
     O Manuel, espantado, interroga:
- O que te leva a chegar a essa conclusão?!
- Repara: quase todos preferem “xau” adeus. 

                            28/1/2010

sexta-feira, 3 de abril de 2015

CARTAS DE CASTRO LABOREIRO 



2.ª - «Senhor Redactor: foi-nos tão grata a publicação generosa da nossa primeira carta, em que buscávamos defender este bom povo de tantos e tão perniciosos inimigos que (…) lhe rogamos paciência para nos ser mais uma vez arauto, forte e sonoro, das nossas infelicidades e reveses, para que o mundo saiba o quanto nesta terra, que adoramos, como mãe carinhosa, e outros acoimariam de madrasta, se sofre e se há calado. Hoje, estamos dispostos a fazer conhecidos os nossos males; e tanto, tanto, até que – aqueles a quem compete minorá-los – nos oiçam. Iremos longe, mas como é agora a época do pagamento das contribuições e vemos que faltam no rebanho muitas das ovelhas, perguntamos: Fulano? Sicrano? Beltrano? Foram pagar a décima. Não voltaram?! Fulano já está por lá há dois dias; sicrano… foi trasanteontem; e beltrano encontrámo-lo no Vila Verde (pensão), descoroçoado e triste, porque se lhe vai minguando o dinheiro e não sabe se lhe chegará, após as despesas, para pagar a contribuição! Ora isto é um horror. Lembramos, pois, ao Tesoureiro de Finanças um alvitre, a que Sua Ex.ª atenderá, pois, de viso, nas suas excursões cinegéticas, conhece as nossas circunstâncias. Para que nós, desprotegidos da sorte e, até, da natureza, para que estes homens e mulheres, que deixam os seus lares, para irem concorrer com o estipêndio lançado pelo Estado (…) possam voltar às suas casas, no mesmo dia, seria justo e equitativo que, como esta freguesia é muito populosa e a mais distante da sede do concelho, a que mais trabalha e a que menos tem, mesmo em consideração (salvo em tempo de eleições), se lhes marcassem dias próprios e, por lugares, conforme a população de cada um, e que nesses dias, sem consideração por alguém (isto é, sem privilegiar ninguém), os determinados fossem acender o lume à sua lareira, agasalhar os filhinhos e olhar pela vida!...Caminhos impraticáveis, clima frigidíssimo e sangrias duplas na bolsa magra – quase esquelética, não pode nem deve ser. Sua Ex.ª, que alia a uma bela alma os mais humanitários sentimentos, ouvirá o nosso justo apelo e remediará de futuro, com o que conquistará o nosso eterno reconhecimento. Creia-o, porque é sempre grato.» (Correio de Melgaço n.º 185, de 6/2/1916).   

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A MANTA


O pobre velho, amparado p’lo filho,
Caminhava rumo à feroz montanha;
Com passo de formiga, velha aranha,
Percorre, com temor, o gasto trilho.

Nos seus olhos bailava estranho brilho,
Seu peito ardia em incontida sanha;
E, de repente, os dentes arreganha,
Com violência destrói o espartilho.

Vira-se para quem a vida dera,
Como numa salomónica sentença:
- «Toma isto, vais um dia precisar.

Também acabará a primavera
Pra ti e para os teus.» E sem detença
A manta em duas partes vai rasgar.


     Este meu soneto tem por base uma lenda. Dizia-se que antigamente, num certo país, os filhos levavam os pais velhos para a montanha para ali morrerem. Ficavam embrulhados numa manta, a fim de suportarem o frio durante alguns dias. Este idoso deu ao filho metade da manta, pois receava que quando chegasse a vez dele subir à montanha não houvesse nenhuma para o aquecer nos derradeiros momentos da sua vida