ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
Por Joaquim A. Rocha
// continuação de 19/06/2021.
OS NOSSOS MORTOS
É sempre doloroso falar daqueles que
partiram, mas as notícias que têm sido dadas nos jornais da terra acerca dos
que morrem são por norma curtas, demasiado sucintas para aqueles que, como eu,
gostam de saber mais alguma coisa sobre essas pessoas, nossos conterrâneos. Não
se trata apenas de curiosidade, de mera estatística, mas também de sentimento.
Nós, os que saímos de Melgaço, nunca esquecemos o nosso berço, nem as suas
gentes. Sentimos a sua falta, a sua cumplicidade, por vezes até o seu mau feitio!
// Em A Voz de Melgaço de Outubro findo falou-se de Amadeu Abílio Lopes, mais
conhecido por “Bicho Fino”, alcunha que a sua própria mãe lhe pôs, por pensar
que era esperto, vivaço. Diz-se aí que morreu em Abril de 2013, com 99 anos de
idade. Acontece que ele nasceu no lugar de Cortinhal, Chaviães, a 13/3/1913,
pelo que se a minha máquina de calcular não me trai ele faleceu com cem anos feitos e não com 99 anos.
Outra coisa que se diz no jornal é que «cedeu
a sua parte como accionista, mais de 70%, à Câmara Municipal.» Se a memória
não me falha, eu li na altura (1997) que eram 68,8%. A diferença não é significativa, mas «o seu a seu dono». // Amadeu Abílio
Lopes era filho de Vitorino José Lopes, soldado da Guarda-Fiscal, e de Maria
Rosa Cortes, lavradeira. Em 1927, com treze ou catorze anos de idade, no
segundo ano da ditadura dos militares, emigrou para o Brasil, onde teve de trabalhar
muito, e no “duro”, apesar da sua tenra idade. Depois de adulto entrou no mundo
dos negócios, foi dono de uma ou mais padarias, conseguindo juntar algum cabedal.
// Casou em 1942 com Ulysseia Pires, natural do Rio de Janeiro, a qual não lhe
deu filhos. Nunca se esqueceu da sua freguesia de nascimento, mandando ali
construir uma vivenda, que batizou de “Lar da Saudade”, onde passava férias
quando vinha a Portugal. // Também se diz em A Voz de Melgaço que ele foi «um benfeitor» da Câmara Municipal de Melgaço.
Quanto eu sei a doação não se traduziu, nos primeiros anos, num benefício para
a Câmara, mas sim numa despesa, a juntar a outras. Na altura que o senhor
Amadeu, juntamente com outros sócios, criou a sociedade anónima, tentava-se em
Melgaço erguer uma Adega Cooperativa, a qual não foi avante por diversas
razões, uma delas por falta de apoio financeiro. Há muita gente no concelho, e
fora dele, que poderá falar nesse assunto melhor do que eu. // É certo que ele
deu, ao longo da sua vida, algum dinheiro à Santa Casa da Misericórdia de Melgaço
e aos Bombeiros Voluntários de Melgaço, sobretudo à sua banda de música;
ninguém poderá negar isso, pois está registado na imprensa local. No entanto,
ninguém pense que a entrega gratuita das ações da empresa “Quintas de Melgaço –
Agricultura e Turismo, SA” ao município foi um gesto altruísta, fundado no seu
grande amor por Melgaço. Há quem afirme que teria feito bem melhor se as
tivesse vendido por um preço justo a pequenos e médios produtores. Que vocação,
que competência técnica e científica, tem uma Câmara Municipal para gerir uma
sociedade anónima? As Câmaras Municipais que se saiba são organismos políticos,
não são gestoras de empresas, sejam elas sociedades anónimas ou não. Sendo
assim, perguntar-se-á: por que motivo o presidente da edilidade aceitou essa
oferta? A resposta não é fácil, e até pode haver mais do que uma resposta.
Quando eu era pequeno dizia-se em Melgaço que quando a esmola é grande o pobre
desconfia. Pelos vistos ninguém desconfiou, e os autarcas aceitaram com agrado
a dita prenda. Em troca, pois de uma permuta se trata, e agradecidos,
atribuíram à Praça José Cândido Gomes de Abreu o nome do senhor Amadeu Abílio
Lopes, além da medalha de ouro do município. Tudo bem. José Cândido morrera em
1908, já estava esquecido. Quem se lembra que foi graças à sua iniciativa que
se criou o hospital? No entanto, vão ficando no esquecimento, espécie de limbo,
alguns melgacenses que contribuíram imenso para o prestígio do nosso concelho;
mas não doaram ações de empresas, mesmo que as mesmas não valham fortunas. //
Nada me move contra o senhor Amadeu Abílio Lopes, não o conheci pessoalmente,
na velhice quis ser útil ao seu concelho, interveio no seu desenvolvimento, mas
daí a subir ao pódio… E se a moda pega? Isto é, se no fim da sua vida qualquer
empresário doa ao município a sua empresa? Talvez eu esteja a dar relevo a coisas
que em si não têm grande importância, mas de facto gostaria que aqueles que
foram eleitos tivessem mais em conta a opinião do povo quando se atribui o nome
de uma praça, avenida, rua, a figuras mais ou menos conhecidas. // Na citada
notícia de A Voz de Melgaço fala-se de Rosa, casada com Maximino Reinales: «Amadeu Abílio Lopes não tinha filhos. Criou,
como se fosse sua filha, Rosa Esteves…» Fiquei admirado, pois o senhor
Amadeu e esposa residiam no Brasil e a esposa do meu amigo Maximino morava e
mora em Melgaço. É provável que a tenha apoiado financeiramente, que a
estimasse, a tenha convidado para ir passar uns tempos com ele e esposa ao Brasil,
mas criá-la, no verdadeiro sentido da palavra, julgo que não. No entanto, se
alguém souber mais do que eu sobre este assunto faça favor de me
esclarecer.
Gostaria de mencionar outros conterrâneos
que faleceram recentemente: uma senhora de Castro Laboreiro, que já tinha 104 ou 105 anos de idade, uma bonita
idade; Manuel José da Silva, da Vila de Melgaço, cuja morte e de sua filha,
Maria de Fátima, ocorrida em França, nos comoveu a todos; de Leonardo Carvalho,
mas não posso roubar mais espaço ao jornal, pelo que falarei deles em outra
oportunidade.
Desejo a todos os melgacenses um bom natal
de 2013 e que 2014 nos traga mais justiça e, já agora, mais algum dinheiro. // continua...
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