terça-feira, 11 de outubro de 2016

OS NOVOS LUSÍADAS
(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)  

Por Joaquim A. Rocha





45

 

Gaspar Real topou a Terra Nova,

 João da Nova, Ascensão e Helena.

Aqui e ali levavam dura sova,

A tripulação ficava mais pequena.

O mar profundo era a sua cova,

Todos choram aquela triste cena.

Só resta àquela gente a ilusão,

Forte ânimo, o braço do capitão.

 

46

 

Pra provar a redondeza da Terra

Magalhães fez uma longa viagem.

Não quis saber de lutas ou de guerra,

Ocupou-se mais do tempo, da aragem.

Mas destino, que tudo em si encerra,

Despojou-lhe a vida, pô-lo à margem!

Pereceu cangado pelo sucesso,

Não permitindo assim o seu regresso.

 

47

  

Ficou vaidoso, o rei espanhol,

Apesar de voltar só uma nau.

Julgou-se um deus, o próprio sol...

Os mortos nem valiam a cruz tau.

Untou-se com óleo de girassol,

Deixou crescer a barba, o pirilau;

E para esconjurar todo o mal

Fez erguer uma bela catedral.

domingo, 9 de outubro de 2016

LINA - Filha de Pã
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha

 
 
verdadeira camuflagem
 
 
 
6.º Capítulo

 

     Lina estava agora quase com trinta anos de idade. A filha já era uma rapariguinha, mas ela poucas vezes a via. Estava com a avó e os tios, no meio rural. À medida que crescia, o seu corpo ficava mais bonito, via-se que era uma menina fina, descendente de gente afidalgada. Os seus cabelos aloirados davam ao rosto uma luminosidade fantástica, e aqueles olhos azuis, de um azul brilhante, tornavam-na quase divina, uma deusa do Olimpo. Um poeta da região, que publicava os seus poemas num dos jornais locais, chamava-lhe «a ninfa do rio Minho!» Para o vate, ela era idêntica às ninfas do Tejo, cantadas um dia pelo inesquecível Camões e outros poetas maiores.  

     Lina sentia orgulho em ser mãe daquela jovem, mas a sua liberdade, ou melhor, libertinagem, estava acima de qualquer sentimentalismo. Tornara-se fria, calculista. Tudo que fazia obedecia a um plano gizado com paciência e rigor. Agora – 1949 –, estava em Castro da Serra, como criada de servir na casa de um solteirão, comerciante, com fama de rico. Soubera que ele precisava de uma empregada, pois a sua mãe, com quem vivera, tinha morrido havia pouco tempo. Um dia, sabendo que ele estava na Vila, por ter ido à feira semanal, foi ter com ele:


- Senhor Manuel: soube que anda à procura de uma mulher que trate da sua casa; se me quiser, eu não me importo de ir trabalhar para si. Levo-lhe o mesmo que levava na última patroa: 350$00.           

- Tu não tens lá grande fama, criatura, mas eu preciso mesmo de alguém que me trate do comer e da roupa. Se quiseres já podes ir comigo hoje; vou ver ainda de uns assuntos e por volta das cinco vamos lá para riba.

- Combinado, vou buscar as minhas coisas.


     A freguesia de Castro da Serra ficava na montanha, a uns vinte e cinco quilómetros da Vila de Melcarte, e tinha de altitude cerca de mil metros, pouco mais ou menos. Era tudo a subir, mas recentemente fora inaugurada uma estrada para lá, prometida há mais de cinquenta anos, e havia camionetas de carga que também transportavam pessoas, juntamente com porcos e galinhas, cujo convívio era pacífico. À hora marcada, lá estavam os dois.

 
- Ainda pensei que desistisses, olha que não é fácil viver na serra.

- Os lobos também lá vivem e não se queixam!

- Tens sentido de humor, mulher; espero que não te arrependas. Viveste sempre na Ribeira, onde as temperaturas no inverno são mais altas e agradáveis. Em Castro as coisas são muito diferentes: no verão, o calor arrasa; no inverno, quase que não se pode sair à rua. A neve atinge por vezes dois metros de altura, bloqueia-nos as portas, ficamos presos, como se estivéramos numa prisão!

- Hei-de adaptar-me. A vida não é fácil para ninguém.

 
     Ele estava a pô-la à prova, mas não sabia ainda com quem se metera. Lina refinara nos últimos anos; tornara-se uma profissional na arte de enganar os outros. O ludíbrio tornara-se para si uma obsessão. Quando davam por ela, já um lar estava destruído, uma família destroçada.  

     A camioneta chegou ao Terreiro, ou Praça da República, onde recolhia os clientes. Todos queriam entrar primeiro a fim de escolherem os melhores lugares. Gerava-se uma confusão tremenda. O dono da carripana recomendava prudência, não tivessem pressa, o que era necessário é que todos coubessem. Ao fim de vinte minutos estava tudo pronto para seguirem viagem, mais ou menos uma hora de caminho. A viatura ia a abarrotar. Os bacorinhos grunhiam, as aves agitavam-se, os patos e os perus mostravam a sua cabeça fora das cestas, nervosos. As pessoas iam sentadas e de pé, encostadas umas às outras, dando azo a certas brincadeiras.
 

- Ó tio Bernardino, veja lá se não se encosta de mais, não se aproveite, olhe que o meu namorado não vai gostar! – dizia, a rir, uma das passageiras.

- Que queres, cachopa? Não há espaço, temos que nos sujeitar a estas reles condições. A viagem também não é muito longa. Por outro lado, o teu prometido está na França, não vai saber. Esta vida tem dois dias: temos que saber gozá-los. 

 
     Os outros passageiros riam-se, tornando a viagem menos cansativa e monótona. Muitos deles nunca antes tinham andado numa viatura motorizada, apenas em burros e cavalos.

     Eram quase dezanove horas quando chegaram ao centro de Castro da Serra. Muitas daquelas pessoas ainda teriam que andar a pé alguns quilómetros para chegarem aos seus lares, sitos em lugares distantes da sede da freguesia. Ainda teriam, pelo menos, duas horas de luz solar, o que lhes permitia ir com alguma segurança e tranquilidade.

     O senhor Manuel pegou na tralha e dirigiu-se a sua casa, ali perto do local onde ficava a camioneta. Apesar de tudo, era um privilégio residir ali, perto da igreja, do padre, das lojas de comércio, uma das quais era dele. Vendia um pouco de tudo: mercearia, tamancos, roupa, bugigangas, o que calhava. A maior parte das coisas que tinha à venda eram compradas na Galiza, mas também comprava na Vila, embora mais caro, mas tinham outra qualidade, outro requinte. Os galegos pouca coisa tinham de interesse: apenas o pão, uma ou outra conserva, o chocolate, uns rebuçados, um ou outro licor, e pouco mais! O calçado galego não prestava, só alpercatas, fabricadas às sete pancadas, e o mesmo se podia dizer da roupa: apenas as calças de pana se aproveitavam. As bebidas nada valiam, salvo raras excepções, mas os castrejos também não eram muito exigentes, não foram criados em grandes luxos, por isso uma qualidade média baixa para eles era o suficiente. // continua... 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 


cartas de um castrejo
 
20.ª - «Senhor Redactor: inertes como uma pedra, paralisadas como um defunto, assistem as autoridades que superintendem na escola, às nossas justas reclamações. Baseados no princípio incontestável de que pugnamos pelo bem da nossa querida freguesia, firmes no propósito de fazer quanto esteja ao nosso alcance para que a dotação de escolas, neste meio, seja equitativa com a população escolar, não arrepiaremos caminho, ainda que seja preciso mandar vir um dos trons que escaparam em Aljubarrota, para despertar estes sonâmbulos. E, enquanto não nos chega a encomenda – único remédio seguro talvez, vamos tratar de outro assunto que, conquanto de somenos importância, pode ser um factor potente para o começo do nosso progresso, para o nosso engrandecimento. Os nossos ares, embalsamados do aroma salutar das flores da giesta, da urze e do tojo; as nossas águas filtradas através das mais finas rochas – (…) – e superiores às melhores águas, aconselhadas pela medicina, para facilitarem a digestão (…); os nossos montes, aqui plenos e escarpados, além com quedas abruptas e fantásticas, mais além com cristas que assemelham gigantes negros, à espreita do raiar do sol – a nossa Pena da Anamão, um bloco maciço de pedra, de onde dizem se avista Braga e Barcelos; o nosso castelo que (…) daria muito que estudar a doutos arqueólogos; a nossa igreja, que deveu ser um templo magnífico, de que conserva as insígnias; os nossos lugares dispersos; a nossa vila, que já foi sede de concelho; os nossos prados; as nossas searas; os nossos urzais e giestais; os nossos barbeitos de batatais, em flor; as nossas casas colmadas, a destacarem-se nas encostas pelo fumo das lareiras… tudo isto e o tipo natural do homem e da mulher castrejos, estudados no seu trajar e modalidades, e na sua psicologia particularíssima, dariam azo a um estudo demorado e lucrativo. Este misto de poesia e dureza, este feixe de encantos e desilusões, devia ser visitado por inúmeros “alpinistas”, para o admirarem na sua grandeza natural, para o estudarem no mais recôndito dos seus arcanos. Sei que não temos hotéis, nem mesmo as estalagens mais comezinhas para receber os visitantes; mas, se se estabelecesse uma corrente, que merece a pena, Castro Laboreiro tem energias e conseguiria proporcionar-lhes um bem-estar relativo, em harmonia com o meio. Enquanto… uma merenda ao ar livre … é um mimo. E junto dum regato rumorejante? E ao pé duma fonte que murmura? Quando a benemérita Sociedade de Propaganda de Portugal nos conhecer, estamos certos até de que o silvo da locomotiva, como já sonhamos, nos despertará, um dia, do nosso sono criminoso. // Amedrontaram-nos as últimas chuvas, pois nos lançaram por terra as searas prometedoras. O tempo, porém, melhorou e a colheita deve ser óptima. // Lavradores amigos, não se esqueçam de sulfatar os batatais. Um pulverizador pode servir um lugar ou mais. O sulfato está carinho, mas dá resultado no excesso da colheita. Não durmam, pois, se querem que a batata castreja não perca os seus foros de ser a melhor desta região. Castro Laboreiro, 22/6/1916.»           

terça-feira, 4 de outubro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Organizado por Joaquim A. Rocha


antes das obras

durante, ou depois das obras


Casa Fronteira à Misericórdia - vila de Melgaço


   Sita na zona histórica da Vila. // Foi conhecida também pela Casa das Almeidinhas, por aí ter residido uma família com o apelido Almeida. / No século XX morou nela a professora Cristina Barros, por ter casado com Augusto Jaime de Almeida, um dos seus proprietários, nascido nesta casa em 1877, filho de Joaquim José Nunes de Almeida e de Maria Teresa de Ascensão Abreu Mosqueira da Cunha. // Caetano Maria de Abreu Mosqueira, filho de pai português e de mãe galega, avô do dito Augusto Jaime, nascera provavelmente nessa casa no ano de 1805. Os descendentes de Augusto Jaime de Almeida, falecido em 1932 – todos ausentes – venderam a dita Casa fidalga, deixando lá ficar livros, correspondência, retratos, etc. – tudo para o lixo! / Em 2009 estava à venda; foi vendida tempos depois. // Em 2016 tinha (tem) a designação de "Solar do Castelo" e serve para turismo.

domingo, 2 de outubro de 2016

ESCRITOS VÁRIOS
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
A GUERRA
     Muito se tem escrito sobre a guerra: uns contra, outros a favor! Os defensores da guerra são, sobretudo, militares de carreira, políticos loucos, e alguns industriais. Os primeiros ambicionam a glória, as medalhas, as páginas bajuladoras de um qualquer historiador. Não é por acaso que civis vestiram farda: Hitler, Estaline, Kadafi, Hussein, e tantos, tantos outros! Angola e Moçambique, já livres de uma guerra colonial, envolveram-se em guerras civis devido à violação de acordos; a Jugoslávia, país de progresso e bem-estar, mergulha numa guerra fratricida inexplicável; algumas repúblicas da ex-URSS disputam, numa linguagem marcial, parcelas de território e migalhas de efémero poder; a Somália entrega-se a Marte, deus da destruição; na África de Sul fala-se de paz e atira-se a matar! Ninguém, quase ninguém, consegue resolver os seus problemas internos ou externos sem recorrer à violência, à lei do mais forte, do melhor armado. Os governos, quer sejam de países ricos ou de países pobres, gastam quantias astronómicas em armamento. Não lhes interessa se o povo tem ou não o essencial para viver. Gastaram-se fortunas fabulosas com armas que hoje já são obsoletas! Gastaram-se rios de dinheiro com investigação na área da defesa que quase sempre se transforma em ataque. A guerra alimenta uma indústria mafiosa: espionagem, contra espionagem, chantagem, corrupção, etc. Em tempo de guerra, ninguém se sente seguro; a imparcialidade é tida como traição e punida com a morte! O Homem desce, desce, até se aproximar dos animais mais selvagens e sanguinários, esquecendo séculos de civilização e cultura. Homero, o poeta cego, não deveria merecer o nosso respeito porque ousou cantar, nos seus belíssimos poemas, a guerra cruel que opôs gregos a troianos. Os poetas devem compor hinos à paz, ao progresso, ao amor. Napoleão, Alexandre, Júlio César, Gengiscão, grandes guerreiros, deveriam ser para nós apenas exemplos negativos. Deveríamos ensinar às crianças que esses homens nunca estiveram ao serviço da humanidade mas contra ela; estiveram sim ao serviço de interesses mesquinhos.
     A tese de que o progresso nasce das guerras é completamente falsa; só em tempo de paz se pode produzir com regularidade e harmonia. Será progresso produzir armas químicas e atómicas que tudo destroem? Será progresso poluir rios, mares, oceanos, cidades? Será progresso construir aparelhos espiões que tudo observam, não respeitando sequer a privacidade, a intimidade das pessoas? Será progresso a insegurança, o mal-estar, o desemprego, o êxodo de populações inteiras? Será progresso pedir aos camponeses e operários que deixem de trabalhar para não haver excesso de produção quando diariamente morrem centenas e centenas de crianças e adultos em todo o mundo à fome? Que raio de progresso é este que não traz felicidade aos habitantes deste martirizado planeta? Os políticos, aquando das campanhas eleitorais, tudo prometem; já no poder, esquecem-se daquilo que prometeram. É daí que nasce a descrença nessa classe: o desespero, a indiferença, a revolta! A guerra não prejudica somente o ser humano: prejudica igualmente as outras criaturas da Terra, os animais da selva, as aves, os peixes do mar…Tudo, sem exceção, é afetado!
 
 Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 978, de 1/2/1993.



 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha







Macróbios

 

ABELHEIRA, Albertina. Filha de António Abelheira, trabalhador, natural da freguesia de Suajo, concelho dos Arcos de Valdevez, e de Rosa Alves, doméstica, natural de Paderne, Melgaço, onde residiam, no lugar de Pomares. Neta paterna de Domingos Abelheira e de Maria Domingues Nogueiró; neta materna de António Alves e de Ludovina Rosa Afonso. Nasceu em Paderne de Melgaço a 12/5/1906 e foi batizada na igreja do mosteiro a 17 desse mês e ano. Padrinhos: Luís Lourenço, solteiro, lavrador, e Germana Alves, solteira, doméstica, tia materna da neófita. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 25 de Maio de 1932 com Manuel de Carvalho. // Morou no Barral, São Paio de Melgaço. // O seu marido morreu em Parada do Monte, freguesia de Melgaço, a 12/2/1980. // Ela faleceu em Monserrate, Viana do Castelo, a 11/11/2008, no hospital, no estado de viúva, com 102 anos de idade, e foi sepultada no cemitério da sua freguesia de nascimento.  

ALVES, Delfina. Filha de Manuel Joaquim Alves e de Maria Benedita de Abreu, moradores no lugar de Estivadas, freguesia de Paderne de Melgaço. Neta paterna de Custódia Maria Alves, solteira, do dito lugar; neta materna de Custódio José de Abreu e de Maria Angelina de Almeida, do lugar de Queirão, Paderne, todos lavradores. Nasceu em Paderne de Melgaço a 23 de Março de 1885 e foi batizada na igreja católica local a 25 desse mês e ano. Padrinhos: a sua avó materna e seu filho, Luís Manuel de Abreu, solteiro, do lugar de Queirão. // Casou na igreja do mosteiro a 28/11/1910 com José Fernandes, de 25 anos de idade, padernense, filho de Manuel Joaquim Fernandes e de Ana Rosa Flores. // Ambos os cônjuges faleceram na freguesia de Paderne: o seu marido a 15 de Outubro de 1964 e ela a 20 de Janeiro de 1987, com quase cento e dois anos de idade. // Deixou geração.

terça-feira, 27 de setembro de 2016


       ENTRE MORTOS E FERIDOS
          (dois anos de guerra na Guiné-Bissau)


Por Joaquim A. Rocha




13.º Capítulo


 
A CAMINHO DE CUFAR
 
 

     Mais um domingo lisboeta. As lindas ruas da Baixa… sempre a abarrotar de gente! Começava a notar-se turistas estrangeiros e imigrantes africanos por tudo que era sítio. Políticas de imigração não existiam; entrava quem queria neste pequeno e periférico país. Depois da descolonização vieram de África centenas de milhar de pessoas: novas, velhas, saudáveis e doentes; honestas e nem por isso.

     Os dois amigos reencontraram-se, como já era hábito, no Café Suíça; mas agora já era difícil arranjar um lugar, pois as mesas estavam quase sempre ocupadas. Esperaram um pouco e lá conseguiram sentar-se. Henrique perguntou:
 

- Depois de Bolama foram para onde?

- Encaminhamo-nos para Cufar (que numa das línguas locais significa morrer, terra onde se morre).

     Três dias antes de partirmos escrevi a uma cantora do norte, a tal namorada do fadista, na altura já muito em voga, de seu nome Mariana, a pedir-lhe que fosse minha madrinha de guerra. O Luís Augusto, assim ele se chamava, deu-me a morada e eu não hesitei – se ela não respondesse o que perderia eu? O fadista queria era ler as cartas dela, pelos vistos estavam indiferentes.

- E ela respondeu?

- Nem pensar! Silêncio absoluto. Responder a um soldado? Se eu fosse oficial! Escrevi também a duas raparigas do Minho, de origem modesta.

- Essas responderam.

- Sim, essas aceitaram o meu pedido. Queres que te leia as cartas?

- Adoraria.

- Como tive sete madrinhas de guerra, somente te vou ler as cartas de uma delas, apesar de serem todas interessantes.

- Sete?! Nada mal: uma para cada dia da semana! Gostaria que as lesse todas, mas já que não quer…

- Não se trata de querer ou não querer, simplesmente seria enfadonho para ti. E tens sorte eu trazer uma dessas cartas, pois com as mudanças de quarto não sei como ainda as conservo! Eis a primeira:

 
   Senhor

                Recebi o seu aerograma e realmente fiquei surpreendida e para mais sendo de uma pessoa para mim desconhecida. Ainda gostava de saber quem foi esse meu conterrâneo conhecido que lhe deu o meu nome e morada, mas já calculo quem seja e da minha parte diga-lhe que mando os meus parabéns; eu não me importo ser madrinha de guerra do senhor, mas desde já lhe digo que sou ainda muito nova, pois tenho somente dezoito anos. Se isso não lhe causa nenhum impedimento, eu pela minha parte aceito.

     Diz o senhor que é de Melgaço, realmente é uma terra muito linda, já lá fui algumas vezes, mas é pura coincidência, tenho também uma pessoa na família que foi madrinha de um rapaz dos seus sítios, que estava em Moçambique, mas felizmente já voltou para cá são e salvo.

     E é tudo, não tenho mais nada para lhe dizer, mas há-de ver que daqui para o futuro as cartas que lhe escrever não vão ser curtas, pois a mim parece-me que se fosse jornalista havia de ter sempre qualquer coisa para pôr nos jornais, quem sabe, ainda pode ser que o venha a ser, ainda sou nova e o mundo dá tantas voltas…

     Receba cumprimentos sinceros da que já pode considerar madrinha de guerra.

                                                                                  Fernanda

 

- Parece-me que teve sorte. Moça brilhante a escrever, nova e culta. Uma minhota inteligente.

- Sim, é verdade. No entanto…

- Aconteceu depois alguma coisa desagradável?!

- Se não te importas, continuo a contar-te a minha modesta odisseia. Mais tarde digo-te o que se passou com esta madrinha. Não levas a mal?

- De modo algum! Preciso controlar a minha mórbida curiosidade. // continua...