terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

LINA - FILHA DE PÃ
romance
 
Por Joaquim A. Rocha




desenho de Manuel Igrejas

7.º capítulo (continuação)



         Na Vila tudo se resolveu bem e depressa. O dinheiro abria todas as portas. O senhor Manuel comprou uma boa moradia, com eletricidade, água canalizada, uma casa de banho jeitosa, com uma boa loja, mesmo no centro da Vila, perto dos Paços do Concelho. Já sonhava com o primeiro filho. Seria um rapaz: alto, forte, bem-parecido. Dar-lhe-ia estudos. Depois da escola primária iria para uma cidade estudar, depois para Coimbra, tirar o Curso de Direito. «Senhor Doutor, como está?» Até ele, seu pai, lhe chamaria Doutor! Seria um grande advogado, quiçá um juiz, um homem muito importante na sociedade. Que bom fora ter encontrado a Lina. O destino fora-lhe favorável. Depois de tanta miséria que passara na meninice e juventude, depois de tantos trabalhos e canseiras por esse mundo de belzebu, agora sentia-se feliz. Tinha alguma fortuna e os negócios corriam-lhe de feição. A ideia de virem para a sede do concelho fora excelente. A Guarda-Fiscal estava sob controlo, não incomodava muito, tinham direito a uma parte do bolo, tudo bem, dava para tudo e para todos, já estava a pensar comprar automóvel. A Lina já lhe tinha pedido:

- Ó Manuel, por que não compras um carro? Dizem que em Valença há uma escola de condução e carros à venda. Vais ter as lições e pronto.

- Não é má ideia. Até para os negócios era bom. Podia ir ao Porto buscar mercadoria, escusava de estar a pagar a intermediários. Vou tratar disso.     

**

     A Lina tinha praticamente na mão o castrejo, mas ali perto, a caminho de Carvalheiros, morava uma prima dele, mulher vivaça, muito intrometida. Fugira das outras castrejas, mas agora estava esta ali, ainda por cima meio arraçada, pois a sua mãe nascera numa das freguesias ribeirinhas. Frequentava a casa, mas a ela pouca confiança dava. Para essa prima do Manuel ela, Lina, não passava de uma criada! «Filha da mãe! Hei-de provar-lhe quem sou! Comigo não se brinca!» - monologava ela.

     Não sei se já contei aos leitores o seguinte: a Lina, depois de ter abortado de uma segunda gravidez indesejada, quando estava em São Cristóvão, perdeu a possibilidade de ter mais filhos. O seu útero ficara seriamente afetado. Logo, ela não estava grávida, porque não podia estar. Dissera isso ao patrão/amante para o agarrar mais a ela. Tinha que lhe apanhar os bens, mas para isso já traçara um plano diabólico. Começou a dizer a todas as vizinhas que estava prenha, o patrão já estava a tratar dos papéis para o casório, andava feliz por ir ser mãe pela segunda vez.    

     A barriguinha ia crescendo. Como conseguia esse fenómeno? Pura e simplesmente com almofadas! Primeiro, pequenas; depois, com tamanho maior. Convenceu toda a gente, até a prima do amante! Pelo parentesco, essa prima seria a herdeira dele, caso morresse primeiro. Por isso, não gostou de ver a barriga da Lina aumentar. «A sacana já me tramou; a fortuna do primo Manuel não é desprezível, mas por este andar vou perdê-la

     Lina via o tempo passar, os meses decorriam com celeridade; depois de ter dado a boa nova ao seu Manuel já tinham passado oito meses. Mais um mês e teria que parir. E a criança? Já contactara com mais de uma dúzia de grávidas, mas aquela que mais lhe interessava residia em Cartagães. Chamava-se Umbelina, era dos Arcos, fora viver para essa freguesia, com o marido e um rancho de filhos, como caseira de uma pequena quinta. A vida não estava fácil para essa família e a malvada logo se apercebeu do facto. Começou a sondá-la:

- Ó Umbelina, como vai a tua gravidez?

- Parece que vou ter gémeos. Pela experiência, pois já vou no décimo pimpolho, digo que são gémeos. Já não temos comida para estes que cá estão e agora mais dois!

- Eu posso ajudar-te, mulher. O meu patrão é rico, vai casar comigo, e depois vou precisar de alguém que me apoie na lide da casa. A tua filha mais velha parece ser atilada, por isso posso metê-la portas adentro.

- Deus a ouça, senhora Lina; era uma grande ajuda.       

- Roupinha para as crianças não vos há-de faltar. E mais: se forem gémeos, como estás a prever, eu fico-te com uma das crianças. Estás de acordo?

- Estou; mas tenho que falar com o Alberto, o meu homem. Eu, sozinha não posso decidir. 

- Até fazemos uma coisa: a partir de agora não dizes a ninguém que vais ter gémeos e quando nascerem só vais registar uma das crianças; a outra fico eu com ela e registo-a juntamente com a minha. Ninguém precisa de saber: nem o meu patrão. Percebeste? Deixa tudo comigo. Eu vou dar-te trezentos escudos, é uma boa ajuda. E caladinha! Nada de andar por aí a espalhar a notícia.

- Prometo calar-me. A senhora é uma santa. Temos passado tão mal, a senhora Lina nem imagina!

- Ó Umbelina: esqueces-te que eu também já passei alguma miséria, mas agora estou bem e posso ajudar os outros, têm é que colaborar comigo. Se me fores fiel, se não deres com a língua nos dentes, nunca te arrependerás. Ah! Outra coisa: leva-me, ou manda a rapariga levar, lá a casa, duas galinhas gordinhas, para fazer umas canjas depois do parto.  

- Vou escolher as melhores, senhora Lina, esteja descansada. // continua...

 

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