domingo, 5 de fevereiro de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



Dr. António Augusto Durães



Cartas de um castrejo

23.ª - «Senhor Redactor: não aspiramos a galardão maior e nunca supusemos que as nossas humildes cartas para o Correio de Melgaço – sempre recebidas e publicadas com gentileza por nós imerecida, produzissem um interesse pela nossa querida terra que, se não é, para já, um facto concreto, mesmo no campo das abstracções, é uma esperança para o nosso progresso e engrandecimento almejados. // - Inundou-nos a alma de satisfação incontida a promessa feita pelo “bloco democrático de Melgaço” aos castrejos, e não duvidamos, nem por um momento, de que a promessa será a realidade, no mais curto prazo. O Dr. António Augusto Durães, herdeiro de um nome que ainda pranteamos, pelas gratas recordações que nos desperta, descendente de um dos mais lídimos caracteres que Melgaço nos deu, filho querido desse modelo de pais – que foi um ensinamento, o secundador sem dúvida do espelho de virtudes morais e cívicas do seu progenitor – primeiro luminar daquele “bloco”, a alma do partido regional, não consentiria que o “Correio” fizesse afirmações cuja realidade fosse vã, nem o “Correio” as faria sem pleno assentimento de S. Ex.ª. Hoje rejubilamos, e não nos pouparemos ao grato dever de lhe lembrar: 1.º - a criação de escolas para os dois sexos (e tantas quantas exige a população escolar). É este o nosso alvo primacial, porque temos a certeza absoluta de que é a pedra basilar do nosso alevantamento material e moral. Depois chamamos a atenção de S. Ex.ª para os desacatos contínuos dos soldados da Guarda-Fiscal e, até, dos seus superiores, se têm responsabilidades nos casos que passo a expor: - foi deslocado para Alcobaça o posto de despacho desta freguesia, que tem foros de fidalgo e de cidadão republicano, o que prejudica altamente os nossos interesses. // O dia 11 festejou-se, em Várzea Travessa, o advogado dos aleijões. Ao evangelho, subiu à tribuna o novel orador (…) rev.º João Evangelista Rodrigues. Quando o povo começava a dispersar houve uma leve altercação entre dois festeiros e alguns soldados da Guarda-Fiscal que, ali, indubitavelmente aguardaram as mercadorias espanholas para apreenderem. Puxaram dos sabres, os supraditos; mas não nos consta (…) que matassem ninguém. Dizem-nos, também, pertencerem aos postos de Ameijoeira, vila e Alcobaça… Vamos à Espanha comprar géneros passáveis, por compreendidos na tabela de importação mais novinha, e a Guarda-Fiscal apreende-os, ou exige… uma conferência! – Que raio será isto de conferência? (…) Os mesmos soldados apreendem-nos o gado, na volta dos pastos, sob o pretexto de que não vem acompanhado de guia de trânsito, e sem aviso prévio para nos munirmos dela. Temos exemplos, claro, de multas deste jaez, e por transgressões deste quilate. Isto e muito mais que calamos por agora, parece-nos um atentado contra as nossas pessoas e bens e um cerceamento de regalias (…) Eis um campo vasto para S. Ex.ª nos demonstrar o seu amor e dedicação: escolas (pois a falta delas é a razão das nossas misérias), o posto fiscal no seu lugar, avisos prévios quando uma lei nova, ou velha – mas que desconhecemos – seja posta em prática, e, então, a trangressão deve ser punida; e, com tudo isto, repetidas visitas venatórias para, até, nos livrar da praga de javalis que impiedosamente destroem os batatais. É ser muito exigente, mas Dr. «di-lo a boca, paga-o a bolsa», segundo diz o meu velho e bom vizinho a … um castrejo. // Castro Laboreiro, 13/7/1916           

 

     Nota: «Fomos informados de que no dia 16 do corrente se deu um conflito na vila de Castro Laboreiro entre as praças da Guarda-Fiscal e o povo daquela freguesia. Contam-nos que originou tal conflito o facto de pretender a Guarda-Fiscal que a música, que era a de São Gregório, fosse tocar à porta do quartel, com o que povo não concordou. Por este motivo, o reitor, um pobre velho, não consentiu que a banda tocasse à porta do quartel o que, segundo nos informam, lhe deu em resultado receber do guarda Sousa, numa loja e em público, duas bofetadas. Dizem-nos também que nessa loja se encontrava o cabo Félix, comandante do posto, e outras praças, contra as quais o povo, vendo o seu reitor desfeiteado, se revoltou, havendo uma refrega entre ele e a Guarda-Fiscal, tendo dela saído ferido o guarda Puga, que também nos dizem encontrar-se em tratamento no hospital militar de Valença. Foi apresentada queixa em juízo contra o reitor e o padre João Evangelista Rodrigues, como promotores da desordem, constando-nos também que participação idêntica vai ser apresentada no mesmo juízo contra os guardas Sousa e todos os guardas presentes. Além da queixa que nos dizem será mandada para juízo, outra seguirá por intermédio das autoridades competentes até ao Ministro das Finanças» (Correio de Melgaço n.º 208, de 23/7/1916).



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