sexta-feira, 17 de maio de 2019

OS NOVOS LUSÍADAS




26

 Escorbuto, malária, mil doenças,

Atingem nossos nautas ferozmente…


Rezam-se missas, reforçam-se crenças,

Mas cada dia falece mais gente...

Os que restam já sonham gordas tenças.

O rei, no seu trono, está contente... 

E antes que a parca a todos mate

Tocam os grandes sinos a rebate.

27

 

Perderam-se cem naus, muitas caravelas,

Os marinheiros que as pilotavam;

Por sua alma queimam-se tantas velas!

Choram-se as pessoas que se amavam...

Crentes oram nas igrejas… capelas,

Viúvas de dor e raiva gritavam.

O astro-luz do ar desaparece…

O povo lança-se ao chão numa prece.

 

28

 

E assim o bei ganhou eterna fama

À custa dessas vidas por cumprir;

Morreram no alto mar, longe da cama,

Em sofrimento atroz… a bramir.

E quantos tombaram na suja lama,

Para o anjo da morte bem nutrir.

Os deuses assistiram à matança,

Mas ficaram em paz, em segurança.

 

29

 

Gaspar Real topou a Terra Nova,

 João da Nova, Ascensão e Helena.

Aqui e ali levavam dura sova,

A tripulação ficava mais pequena.

O mar profundo era a sua cova,

Todos choram aquela triste cena.

Só resta àquela gente a ilusão,

Forte ânimo, o braço do capitão.

30

 

Pra provar a redondeza da Terra

Magalhães fez uma longa viagem.

Não quis saber de lutas ou de guerra,

Ocupou-se mais do tempo, da aragem.

Mas destino, que tudo em si encerra,

Despojou-lhe a vida, pô-lo à margem!

Pereceu cangado pelo sucesso,

Não permitindo assim o seu regresso.


// continua…





rosa natural
 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



desenho de Rui Nunes



                                                        AFOGAMENTOS


     // FERNANDES, Erminda da Glória. // A 27/8/1901, às sete horas da manhã, apareceu afogada. Tinha apenas treze anos de idade. // Não se sabe o local onde se afogou e as razões da morte. Suicídio? Descuido? Crime?

     // CASTRO, António José. Filho de Maria Cristina, do lugar de Estelha, freguesia de São Lourenço da Pena, bispado de Ourense. Nasceu na Galiza por volta de 1845 ou 1849. // Lavrador. // Morava na Assadura, Melgaço, tinha 25 anos de idade, era solteiro, quando casou na igreja de SMP a 7/9/1874 com Maria Alexandrina Marinho, de 23 anos de idade, solteira, filha de José Marinho e de Brandina Marinho, caseiros na Quinta do Louridal. Testemunhas: Carlos José Ribeiro e mulher, Ludovina Correia dos Santos Lima, proprietários, moradores no Campo da Feira, SMP. (Padre José Joaquim Pires). // Faleceu nos limites da freguesia de SMP, no estado de casado, a 16/3/1902, às seis horas da tarde, com 57 anos de idade (!), por afogamento no rio Minho, na pesqueira chamada a Sardinheira, junto das Galgas, devido a ter caído ao rio, e foi sepultado no cemitério municipal. // Com geração.   
 




     // LOBATO, José. Filho de António Joaquim de Sousa Lobato e de Maria Joaquina Alves, moradores no lugar de Covelo. Neto paterno de Jerónimo José de Sousa Lobato e de Florinda Rodrigues, do Pinheiro; neto materno de António Francisco Alves e de Clara Rosa Carvalho, de Covelo, todos lavradores. Nasceu em Paderne a 27/1/1883 e foi batizado a 29 desse mês e ano. Padrinhos: Manuel Joaquim Alves e sua irmã, Rosa Alves, solteiros, tios maternos do batizando. // Rural. // Morreu por afogamento; apareceu na margem do rio Minho a 24/6/1902, e foi sepultado no adro da igreja paroquial 



     // GONÇALVES, Firmino. Filho de João José Gonçalves e de Pulquéria Sousa Castro, lavradores, residentes no lugar dos Esteves. Neto paterno de Manuel Gonçalves e de Rosa Maria Alves; neto materno de João Manuel Sousa Castro e de Teresa Mendes Lobato. Nasceu em Alvaredo a 31/5/1886 e foi batizado na igreja a 3 de Junho desse mesmo ano. Padrinhos: António Gonçalves e Carolina Ledo, solteiros. // Lavrador. // Morreu afogado no rio Minho a 8/9/1903; o seu corpo apareceu nos limites da freguesia de Alvaredo e foi sepultado no cemitério local às cinco horas da tarde desse mesmo dia. 

domingo, 12 de maio de 2019

MELGAÇO: PADRES, MONGES E FRADES
 
Por Joaquim A. Rocha


desenho de Luís Filipe G. Pinto Rodrigues


(continuação)…

ABREU, Francisco Gomes (Padre). Filho de Manuel Esteves da Costa e de Isabel Gomes de Abreu (confirmar). // A 10/11/1759, na igreja de SMP, foi padrinho de Maria Josefa, nascida quatro dias antes, filha de José Caetano Teixeira Marinho e de Guiomar Abendanho Lira Sotomaior, moradores nos arrabaldes da vila de Melgaço; a madrinha, Sabina Josefa Gomes de Abreu, era irmã do padrinho. // Irmão do padre Constantino.  

 

ABREU, João Gomes (Padre?!) Manuel Gomes de Abreu e de Jerónima de Castro, moradores na freguesia de Boivão, termo do Couto São Fins (futuramente concelho de Valença). // Em Outubro de 1718 era clérigo in minoribus e residia em Prado de Melgaço, no lugar de Ferreiros. Apesar de tudo estar no bom caminho para ser sacerdote da igreja católica, apaixonou-se por Mariana de Figueiroa, com quem casou por volta de 1720. Escreveu o Dr. Augusto César Esteves: «Mais um hábito às ortigas» (ver “Obras Completas”, volume I, tomo I, página 70).

 

ABREU, João António Gomes (Frei João da Senhora da Conceição). Filho de Manuel Gomes de Abreu e de Ana Maria da Ribeira. Neto paterno do padre (?!) João Gomes de Abreu e de Isabel Alves; neto materno de Filipe da Ribeira e de Angélica Lourenço. Nasceu em Prado no século XVIII. // (Ver “Obras Completas” de Augusto César Esteves, volume I, tomo I, página 70).

 

ABREU, José Joaquim (Padre). Filho de José Joaquim de Abreu (Lima e Castro Abendanho), lavrador, natural da freguesia de Alvaredo, e de Francisca Rosa Gomes, lavradeira, natural da freguesia de Paços, moradores no lugar de São Gregório. Neto paterno de Francisco José de Abreu (Lima e Castro) e de Maria Engrácia de Araújo Lira de Abendanho, de Alvaredo; neto materno de Manuel José Gomes e de Ana Rosa Esteves, de Paços. Nasceu em São Gregório, Cristóval, a 1/6/1837, e foi batizado a 4 desse mês e ano. Padrinhos: os seus avós maternos. // Estudou em Braga. // A 26/1/1870, na igreja de Cristóval, serviu de testemunha no casamento de Romão Benito Fernandes com Rosa Gonçalves. // Em 1879 era encomendado em SMP. // Morreu em São Gregório, freguesia de Cristóval, a 21/8/1909, com todos os sacramentos, com testamento, sem filhos, e foi sepultado na capela do cemitério de Cristóval. // Era tio do Dr. José Joaquim de Abreu (1880-1938), que foi o 1.º Conservador do Registo Civil de Melgaço. 

 

ABREU, Luís António (Padre). // Era vigário de Paços em 1813.

 

AFONSO, António José (Padre). Filho de Manuel Afonso e de Isabel Luísa Alves, lavradores. Nasceu no lugar de Pousafoles, Fiães, a 5/8/1809, e foi batizado na igreja do mosteiro por frei António de Melo, dom abade e prelado ordinário do couto de Fiães. Padrinhos: Manuel Domingues (Gandarim) e sua esposa, Maria Rosa Domingues, do lugar de Pousafoles. // Foi ele o fundador da capela da Senhora do Alívio, sita no dito lugar. // Morreu no lugar onde nascera a 26/12/1903, com noventa e quatro anos de idade, com todos os sacramentos, com testamento, e foi sepultado no cemitério local. // Irmão de Ana Joaquina, de Manuel, de Maria Luísa, e de Rosa. // (ver A Voz de Melgaço n.º 1347, de 1/8/2012, página 26). // Nota: era conhecido por padre Gandarinha; no livro «Padre Júlio Vaz Apresenta Mário», página 244, diz-se que ele morreu com 107 anos de idade! 

 

AFONSO, Domingos (Padre). // No século XVII residia na vila de Melgaço. Não tinha cura de almas (ver “Obras Completas” de Augusto César Esteves, volume I, tomo I, página 309). 

 

AFONSO, João Avelino Rodrigues (Missionário). // Nasceu em Fiães, ou Rouças, por volta de 1918. // Lê-se em “Na Terra de Inês Negra”, do padre Júlio Vaz, página 39: «Foi no mês de Maio de 1930, quando eu andava na 4.ª classe em Adedela, de Fiães, Melgaço. O professor, padre João Nepomuceno Vaz, leu, no Diário do Minho, um apelo a todos os meninos de Portugal para, desejando serem missionários, irem para o Seminário das Missões de Tomar. O Joãozinho levantou o braço. Em Outubro estava em Tomar.» // Sem mais notícias.

 

AFONSO, José de Sousa (Padre). Filho de António Joaquim de Sousa e de Isabel Afonso, rurais. Nasceu em Mazedo, Monção. // Foi encomendado de Alvaredo a partir de 1834, substituindo o padre Jerónimo José Pereira Monteiro; depois foi cura e reitor desta dita freguesia. Morava no lugar da Sobreira, onde residia também o seu irmão, Manuel de Sousa, casado com Maria Joana Domingues Caldas Araújo. // A 12/5/1846, na igreja de Alvaredo, foi padrinho de Joana, nascida em Alvaredo no dia anterior, filha de Manuel de Sousa e de Maria Joana Domingues Caldas de Araújo, moradores no lugar da Sobreira. // Em 1874 pertencia ao grupo dos quarenta maiores contribuintes do concelho (OJM, de ACE, página 157 - confirmar). // Morreu a 2/5/1882 na casa de sua morada, com setenta e sete anos de idade. // Fizera testamento.      

 

AFONSO, José António (Padre). // No ano de 1874 era cura em Castro Laboreiro (o reitor era o padre Manuel António Gonçalves). // Em 1912 ainda disse missa em honra de Santa Bárbara na capela de São Bento. 

 

AFONSO, Justino (Padre). Filho de Justino Afonso e de Rosa Domingues. Neto paterno de Manuel Afonso e de Maria Afonso; neto materno de Manuel José Domingues e de Luísa Afonso. // (Sobrinho e afilhado do padre Justino Domingues, pároco que foi da Vila de Melgaço e arcipreste do concelho). Nasceu em Parada do Monte a 11/7/1938. Depois da 4.ª classe foi para o Seminário. Recebeu a ordem (menor?) a 15/8/1959. Subdiácono a 17/12/1960. Diácono a 18/3/1961. Presbítero a 9/7/1961. Missa Nova, na igreja da Vila de Melgaço, a 16/7/1961. Foi nomeado pároco de Prado a 23/8/1961 e tomou posse a 10/9/1961. // Foi também pároco de Penso e de Remoães. // A 18/2/1968, na igreja de Prado, casou António Luís de Sousa com Maria Augusta Gonçalves. // Lecionou, na Escola Secundária de Melgaço, a disciplina de Religião e Moral. // Morreu a 28/6/2000, após doença prolongada. // Como padre, de corpo franzino e - segundo consta - medianamente dotado em termos intelectuais, deu azo a que dele se contassem algumas anedotas, mais ou menos picantes. Uma delas tem a ver com uma peça de roupa íntima da irmã, que com ele residia. A dita mana pôs a roupa a secar em uns arames, estendal improvisado, perto de casa, e quando à tardinha foi recolhê-la faltavam-lhe umas cuecas. Zangada, foi barafustar com o irmão, que permitia que na sua paróquia houvesse ladrões. Aquilo, disse ela, era coisa de raparigas, que não tendo dinheiro para as comprar as roubavam, para depois deslumbrarem os namorados. O padre Justino ficou a meditar no caso e no próximo domingo, à hora da missa, aproveitando a homilia, desabafa: «vejam lá a pouca vergonha, ao que isto chegou: agora até as cuequinhas das senhoras roubam! E logo as da minha irmã, que as comprara há pouco tempo. E não eram nenhuma porcaria – custaram-lhe os olhos da cara! Mas eu, aqui do púlpito, aviso: se as vir vestidas eu reconheço-as!» Claro que aquele discurso inflamado provocou mil gargalhadas. Viram malícia onde ela não existia. // Outra historieta (também a ele atribuída) tem a ver com tomates. Os padres das freguesias e vilas rurais tinham quase sempre uma hortazinha, onde cultivavam aqueles produtos do dia-a-dia: couves, pimentos, alface, tomate, cebola, cenouras, etc. Água em Prado não faltava, por isso havia sempre fartura destas coisas em casa. Porém, num verão muito seco, os vizinhos que moravam da parte de cima tiveram de lhe cortar a água, pois nem para eles chegava! «O sacerdote tinha dinheiro e eles não», pensavam. O padre Justino Afonso, vendo tudo a secar, ficou irritadíssimo e, aproveitando de novo a sua tribuna de pregador, insurge-se contra todos aqueles que o prejudicaram. Começou por afirmar: «Deus manda a chuva, o sol, a tempestade, a neve. Põe-nos à prova, para depois escolher os melhores. Contudo, aqui em Prado, parece que há gente que não receia os poderes divinos! Vejam lá: cortaram a água e secaram-me os tomates! E por este andar secam-me tudo!» De novo mil gargalhadas. A notícia espalhou-se rapidamente pela freguesia. Aquelas palavras, ditas assim, faziam rir um morto, comentava-se. // Escreveu o padre Carlos Nuno Vaz:



     Existem outras anedotas do género, mas essas são atribuídas ao padre Firmino Augusto Gonçalves Meleiro, mais conhecido por padre “Queixadas” (1884-1957), natural da freguesia de Rouças, que ele fora substituir. Duas delas ficaram famosas: a da “Grila” (que mandou cortar) e a das «calças para baixo e saias para cima». O anedotário melgacense ficou enriquecido sobremaneira, e graças à imaginação do povo estes ditos perduram através do tempo. // A 26/6/2011 a junta e paróquia de Remoães prestaram-lhe uma homenagem, pelos seus 39 anos de pároco dessa freguesia, erguendo-lhe um pequeno monumento. Estiveram presentes a sua irmã, Maria do Carmo Afonso, o presidente da Junta de Freguesia, José Rui Carvalho, o pároco atual, padre-arcipreste João Paulo Torres Vieira, e o presidente da Câmara Municipal, Rui Solheiro, que discursou perante o povo. // O principal argumento para lhe prestarem esta homenagem tem a ver com a sua bondade – «era um homem bom» - e «a especial relação de carinho que mantinha com as crianças e jovens, para quem foi uma âncora de valores e um companheiro e amigo de sempre.» (A Voz de Melgaço n.º 1334, de 1/7/2011). // Nota: era conhecido por “Justininho”. 
 

AFONSO, Manuel (Padre). // Em 1805, e ainda em 1817, era encomendado na freguesia de Remoães, morava no lugar de Cima de Vila. // A 28/6/1805, na igreja de Remoães, batizou Maria Luísa, nascida a 20 desse mês e ano, filha de Francisco Luís Gonçalves e de Rosa Novais, moradores no dito lugar de Cima de Vila, Remoães. // A 19 de Agosto de 1824, na igreja de Remoães, foi padrinho de Manuel Luís, nascido no dia anterior, filho de João António Monteiro e de Luísa Maria Rodrigues, residentes no lugar da Costa, Remoães. A madrinha era Teresa Monteiro, do lugar da Folia.

 

AFONSO, Manuel José (Padre). Filho de ----- Afonso e de ------------ Rodrigues. Nasceu em Fiães a 13/7/1916. // Depois da 4.ª classe ingressou no Seminário; foi ordenado sacerdote em 1940. A seguir foi nomeado pároco da Gavieira e capelão do Santuário da Peneda, onde viveu cinquenta e cinco anos. // Tinha um irmão, o padre João, professor do ensino primário, que deu aulas na escola oficial da A-de-Dela, Fiães. // Ficou conhecido por “Padre Zé da Peneda”. // (Ver A Voz de Melgaço n.º 1031, de 15/6/1995).   

 

AFONSO, Sebastião (Padre). Nasceu na Vila de Melgaço em finais do século XVI. // Em 1618 e 1619 foi escrivão da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço. Em 1634 foi provedor. Nesse ano de 1634 instituiu o vínculo da Pigarra, encabeçado na capela da Senhora do Amparo da Matriz, que fundou pela mesma altura. // Deve ter falecido em finais de 1635. // Nota: apesar de ser eclesiástico deixou um filho, António Alves, o qual casou com Maria Gomes.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha


esta árvore já tem mais de 600 anos


                                                                    MACRÓBIOS


CASTRO, Emídio José. Filho de Adélia da Pureza de Castro. Neto materno de Maria da Glória de Castro. Nasceu em Prado a 21/6/1924 e foi batizado na igreja paroquial a 29 de Dezembro desse mesmo ano. // Em 1937 fez exame do segundo grau na escola do ensino primário de Remoães, ficando distinto (NM 364). // Penso que exerceu a profissão de sapateiro. // Casou a 20/10/1949 com Maria Beatriz Ribeiro, do lugar da Corredoura, Prado, filha de Teresa de Jesus Ribeiro, casada com José Rodrigues de Lima Teixeira, sapateiro em Prado. Padrinhos da boda: Maria Júlia Dantas e José Teixeira Junior. // A 21/10/1999 festejaram as bodas de ouro matrimoniais (VM 1127). // A sua esposa faleceu em Dezembro de 2016. // Ele morreu em Prado, em Janeiro de 2017, com 92 anos de idade. // Com geração.

 

CASTRO, Maria da Glória. Filha de Frutuoso Joaquim de Castro e de Joaquina Rosa Marques, moradores no lugar da Corredoura, Prado. Neta paterna de Frutuoso José de Castro e de Maria Caetana Alves Salgado, do lugar da Igreja, Rouças; neta materna de António José Marques e de Clara Rosa Fernandes, do lugar da Corredoura, Prado, todos lavradores. Nasceu em Prado a 12/10/1865 e foi batizada na igreja paroquial a 15 desse mês e ano. Padrinhos: Lourenço José Fernandes Torres, solteiro, rural, do lugar do Rego, e Maria José Alves Salgado, casada, lavradeira, do lugar da Corredoura. // Faleceu em Prado a 30/5/1964, com 98 anos de idade. // Com geração.

 

DANTAS, Leonilda Ortelinda. Filha de José António Dantas, natural de Galvão de Baixo, SMP, e de Angelina da Luz Alves, natural de Prado, onde moravam. Neta paterna de Luís Manuel Dantas e de Josefa Maria Soares, do lugar de Galvão, Vila; neta materna de António José Alves e de Carlota Rosa Gomes, de Prado, todos lavradores. Nasceu no lugar do Cerdedo a 25/8/1884 e foi batizada a 29 desse mês e ano. Padrinhos: Vitorino José da Cunha, casado, rural, do lugar do Souto, Prado, e «avô afim da batizanda», e Maria Benedita da Cunha, solteira, do mesmo lugar, tia da criança. // Em 1933 estava solteira (NM 216, de 17/12/1933). // Faleceu em Prado a 19/2/1975, com 90 anos de idade.  

 

DANTAS, Zulmira Augusta. Filha de Artur Augusto Dantas e de Rosa Margarida de Castro. Nasceu na freguesia de Prado a 10/1/1916 e foi batizada na igreja a 1 de Março desse ano. // Casou na CRCM a 23/1/1936 com Abílio, carpinteiro, filho de Paulo António Domingues e de Rosa Maria Alves. // Foram emigrantes em França. // O seu marido morreu em Prado a 4/9/1986. // Ela faleceu também em Prado, a 8/1/2016, e foi sepultada a 10/1/2016, no dia em que fazia cem anos de idade. // Com geração.   


quarta-feira, 8 de maio de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha








CRIMES




(1916) - GONÇALVES, Manuel António (Tojeira). Filho de António José Gonçalves, carpinteiro, natural de Paderne, e de Mariana Joaquina Baleixo, costureira, natural de Remoães, moradores no lugar da Granja. Neto paterno de Francisco José Gonçalves e de Maria Ludovina de Araújo; neto materno de Ana Joaquina Baleixo, solteira, da Vila. Nasceu a 6/2/1879 e foi batizado na igreja de Paderne no dia seguinte. Padrinhos: Manuel António Esteves e Maria de Sousa, solteiros, lavradores. //. Lavrador-proprietário. // Casou na igreja de Alvaredo a 21/1/1911 com Maria Rosa, de 39 anos de idade, natural de Tangil, Monção, moradora desde a idade de um ano no lugar do Coto, Alvaredo, Melgaço, filha de José Bento Domingues e de Maria Antónia Gonçalves (ou Rodrigues). Testemunhas: Maximiano Pires, casado, lavrador, e António Fernandes Costa, solteiro, lavrador, ambos do lugar do Pinheiro, Alvaredo. // Foi assassinado à paulada na freguesia de Paderne a 11/3/1916, sábado, por António José Vidal, natural de Paderne, e Francisco José Rodrigues, natural do Barral, São Paio, os quais foram presos na cadeia da Vila. Foi abatido à traição; segundo o correspondente em Paderne do Correio de Melgaço a vítima tinha dado umas bofetadas no Francisco Rodrigues (Talha Fraldas) por este lhe haver destruído uma cancela e parte de uma latada que tinha na sua propriedade “Cruz de Aldeia”; depois das bofetadas aparece António Vidal (Sainhas), companheiro do Francisco, e ambos resolvem fazer a espera ao Manuel António; logo que este surge, dão-lhe umas pauladas na cabeça, ficando sem fala, e pouco depois da meia-noite morre em sua casa, sita no lugar de Moinhos, para onde se arrastara; os assassinos eram ainda jovens – um tinha 16 a 17 anos de idade, e o outro 18 a 19; a arma do crime foi um pau de uma latada; depois de espancarem o “Tojeira” ambos se dirigiram para um baile que se realizou em Prado nessa noite; o crime fora cometido às vinte horas; ambos confessaram o acontecido na administração do concelho, logo que ali deram entrada, embora o Vidal de início o tenha negado. // «Mal de quem morre»; no dia seguinte, doze, domingo, houve baile em uma casa de Crastos! (ver Correio de Melgaço n.º 191, de 19/3/1916, e Correio de Melgaço n.º 192, de 26/3/1916). // Os réus iriam ser julgados em tribunal a 28/7/1916. // Nota: noutra parte diz-se que ele casou em 1913 com Mariana Rosalina Esteves, sua conterrânea (confirmar).
 

 

(1916) - No lugar de Eiriz, freguesia da Gave, concelho de Melgaço, apareceu morto, a 24/12/1916, Justino Fernandes, natural do lugar de Lijó, freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção. Desconhecia-se o nome, ou nomes, do ou dos assassinos e o móbil do crime (*). A 11/1/1917, quinta-feira, o Dr. Vitoriano de Castro, natural de Paderne, a residir em Alvaredo, Melgaço, e o Dr. Figueiredo, de Monção, foram à Gave fazer a autópsia ao corpo. Fora assassinado a 23/12/1916. Tinha o crânio destruído, fratura de um braço, e várias contusões pelo corpo, tudo produzido por fortes pancadas (ver Correio de Melgaço n.º 231, de 7/1/1917, e Correio de Melgaço n.º 232, de 14/1/1917). Mais tarde, e após muita investigação, descobriram-se os assassinos. Ei-los:   

 

     Bernardino Dias. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural da freguesia de Riba de Mouro, residentes no lugar de Eiriz, Gave. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, gaviense; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, do lugar de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 16/4/1877 e foi batizado na igreja católica local nesse mesmo dia, mês e ano. Padrinhos: Bernardino Esteves Moreira e sua mulher, Maria Claudina Alves, ambos do lugar de Lijó, Riba de Mouro. // Casou na igreja da sua freguesia natal a 19/9/1910 com a sua conterrânea Carolina Ramos, de 24 anos de idade, filha de José Serafim Ramos e de Rosa Joaquina de Castro. // Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1169, de 4 de Agosto de 1917: «Terminou ontem o julgamento, em audiência geral, que se vinha prolongando desde segunda-feira, de Bernardino Dias, João Dias e Jeremias Dias, todos da freguesia da Gave, indigitados autores do crime de assassinato praticado em 23 de Dezembro do ano findo na pessoa de Justino Fernandes, da freguesia de Riba de Mouro, do concelho de Monção, no sítio de Barroca de Eiriz, da dita freguesia da Gave. A acusação particular era representada pelo Dr. António Francisco de Sousa Araújo e a defesa estava a cargo do Dr. António Augusto Durães, dois novos cheios de talento para quem, sem dúvida, está reservado um futuro brilhante na advocacia. O júri deu o crime como provado, considerando os réus Bernardino e João Dias como autores, e o réu Jeremias Dias como cúmplice, sendo em harmonia com este «veredictum» proferida sentença condenatória pelo meritíssimo juiz desta comarca. Tanto o digno agente do Ministério Público como o douto advogado dos réus apelaram para a Relação do Distrito da sentença proferida.» // Foram depois levados pela Guarda Republicana para a cadeia da Relação do Porto. Lê-se no Jornal de Melgaço n.º 1171, de 18/8/1917: «Condenados da Gave – Porque rebentou há dias uma greve em Viana do Castelo, não pôde desta cidade sair a força da Guarda Republicana que a esta vila devia chegar na segunda-feira para acompanhar às cadeias da Relação do Porto os três indivíduos que ultimamente, no tribunal desta comarca, foram condenados como autores e cúmplices dum crime de homicídio, cometido na freguesia da Gave. // No Jornal de Melgaço n.º 1199, de 16/3/1918 lemos esta interessante prosa: «O crime da Gave. Propositadamente não nos temos referido ao célebre crime da Gave porque sendo o redator deste jornal advogado de acusação por forma alguma queríamos e queremos contribuir com os nossos escritos na formação e orientação da opinião pública sobre o caso. Julgamos assim ter praticado um acto em que todos devem ver a honestidade dos processos que temos por norma usar. Ultimamente, porém, com grande espanto e não sabendo por que artes, vimos que a imprensa – O Primeiro de Janeiro – na correspondência de Viana, se ocupou do caso, pretendendo apresentar os assassinos como inocentes condenados pelos depoimentos de testemunhas falsas e, avançando mais, ser autor do crime uma mulher, por nome Aurora Domingues. Certamente o correspondente de Viana, para o Janeiro, que nos informam ser um cavalheiro, digno da maior respeitabilidade e de uma honestidade a toda a prova, foi ludibriado. A mulher que se apresentou a reclamar a autoria do crime é amante dum dos assassinos, apesar de casada, com o marido ausente no Brasil, mulher sem pejo nem vergonha, que está a desempenhar um papel que lhe foi distribuído nesta ignóbil fita. Bastará apontar o facto de quando aqueles assassinos se achavam presos nas cadeias desta vila, ter-lhes oferecido um carneiro que com eles comeu nas grades destas. Pena foi que o hábil polícia não averiguasse este facto do domínio público. Mas há mais: remetida para juízo foi mandada em paz, ao fim de oito dias, não sendo pronunciada. Quanto às testemunhas, que de falsas se alcunham, são pessoas da maior consideração, com fortuna, que não se acham foragidas, como se diz, mas tranquilas em suas casas. Eis o que, bem contra nossa vontade, nos forçou a dizer o muito digno correspondente do Janeiro, a quem, de sua boa-fé, abusaram.» // No Jornal de Melgaço n.º 1200, de 23/3/1918, lê-se: «Na administração do concelho de Monção apareceu no dia 20 do corrente Aurora Domingues, a célebre mulher que se inculcou autora do crime de homicídio na pessoa de Justino Fernandes. Aí, na presença do administrador e na de mais de vinte pessoas, declarou que não fora ela quem cometera o crime, mas sim os indivíduos condenados, com um dos quais mantinha íntimas relações, e que se fizera na administração de Melgaço a declaração de que fora ela, foi isso devido às irmãs dos assassinos que a tal a induziram, prometendo-lhe 600$00. Mais declarou ter comido um cabrito com os criminosos quando se achavam presos nas cadeias desta Vila…» // E no Jornal de Melgaço n.º 1203, de 20/4/1918, pode-se ler: «O célebre crime da Gave. No Supremo Tribunal de Justiça acaba de ser negada revista no processo-crime de querela movido contra João, Jeremias e Bernardino Dias, os autores do assassinato na pessoa do infeliz Justino Domingues (ou Fernandes). Mais uma vez este Alto Tribunal fez justiça, não se deixando mover por tones grosseiros e miseráveis.» // O Jornal de Melgaço n.º 1204, de 27/4/1918, informa os seus leitores: «Diz-se que motivada por um comunicado inserto há dias no “Primeiro de Janeiro”, e que se referia ao célebre crime da Gave, foi suspenso o chefe da polícia de Viana, senhor Santos.» // Bernardino Dias morreu na sua terra natal a 17/4/1956. // Com geração.      

 

     João Dias. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural de Riba de Mouro, moradores na primeira, no lugar de Eiriz. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, de Eiriz, Gave; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 9/7/1873 e no dia seguinte foi batizado na igreja católica local pelo padre Manuel Joaquim Domingues Machado. Padrinhos: João Francisco Esteves, solteiro, do lugar de Eiriz, e Joaquina Rodrigues, solteira, criada de servir, do dito lugar de Lijó, todos rurais. // A 23/12/1916 cometeu um crime de morte, juntamente com os seus irmãos Bernardino Dias e Jeremias Dias, na pessoa de Justino Fernandes, natural de Riba de Mouro, pelo qual foram condenados.    

 

     Jeremias de Jesus Dias. Filho de Luís Manuel Dias, natural da Gave, e de Germana Maria Esteves, natural de Riba de Mouro, lavradores, residentes no lugar de Eiriz, Gave. Neto paterno de Maria José Dias, solteira, de Eiriz; neto materno de João Manuel Esteves e de Florinda Rosa Alves, de Lijó, Riba de Mouro. Nasceu na Gave a 4/2/1890 e foi batizado na igreja católica local nesse mesmo dia, mês e ano. Madrinha: a sua irmã Claudina, solteira, camponesa, residente no lugar de Eiriz. // A 23/12/1916, juntamente com seus irmãos João e Bernardino, cometeu um crime de morte na pessoa de Justino Fernandes, natural de Riba de Mouro. O tribunal considerou-o apenas cúmplice dos irmãos, pelo que cumpriu pena menor. // Casou a 20/2/1930, no Posto do Registo Civil da Gavieira, Arcos de Valdevez, com Maria Domingues Celeiro. // Faleceu na sua freguesia de nascimento a 31/1/1969 (confirmar).      

 

               As irmãs dos criminosos: Claudina. Nasceu na Gave a 8/2/1875 e no dia seguinte foi batizada na igreja católica local pelo presbítero Manuel Joaquim Domingues Machado. Padrinhos: Bernardino Esteves Moreira e Joaquina Rosa Rodrigues, ambos solteiros, residentes no lugar de Lijó, Riba de Mouro. Casou a 15/7/1915, na CRCM, com Serafim Esteves. Faleceu na sua terra natal a 20/7/1922. - Adelaide. Nasceu na Gave a 21/8/1879. - Maria de Jesus. Nasceu na Gave a 21/12/1882. // (*) Desconheço o móbil do crime, mas deduzo que teria sido por causa de partilhas; não esquecer que a mãe dos autores do crime era da mesma freguesia da vítima e provavelmente teria herdado alguns bens por morte dos progenitores.   


 

domingo, 5 de maio de 2019

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha


Na parte alta vê-se a capela da Orada


UMA PEDRA FORA DO LUGAR

 

     Para meu espanto, quando em tempos estive em Melgaço, deparei com uma pedra tumular no sítio das Carvalhiças, da parte exterior do convento, pedra essa que, segundo me informaram, foi retirada da igreja da Misericórdia aquando das obras nela, igreja, efetuadas. Augusto César Esteves em «O Meu Livro das Gerações Melgacenses» diz, referindo-se à pessoa, cujo corpo esta lápide cobria: «… o seu cadáver pertence ao número dos primeiros inumados no cemitério municipal». Dos primeiros sim, mas antes dele foi lá enterrado o meu bisavô João António Alves, serralheiro, ao qual o Mário de Prado atribui a autoria dos portões do cemitério, pois morreu no dia 14/12/1877. José Augusto Vieira, na sua obra «Minho Pitoresco», editada em 1886/1887, informa-nos de que o cemitério da vila de Melgaço tinha sido recentemente inaugurado. Temos, evidentemente, de ter em conta o tempo decorrido entre o escrito e a publicação. Desconheço a razão por que deslocaram a dita pedra para tão longe, mas o mais certo foi dela se terem esquecido, pois é nossa tradição respeitar escrupulosamente os túmulos dos nossos avoengos. Claro que dentro de algum tempo, estando como está exposta à chuva e ao sol, sumir-se-ão os dizeres que a identificam: «AQUI JAZ O Rdº João Evangelista de Sá Sotto Mayor Abbade que foi desta villa – Faleceu em 20 de 11 de 1878».

     O padre João Evangelista nascera em 1793 e era filho natural de D. Caetana Luísa Soares de Meneses Sotomaior, ou Pereira de Castro. Sua tia, D. Francisca de Quevedo, ajudou-o financeiramente, custeando todas as despesas com os seus estudos. Em 1843, por decreto de 15 de Abril, é despachado abade para a freguesia de Santa Maria da Porta, vila de Melgaço, onde permanecerá até à sua morte. Nesse longínquo ano de 1843 era presidente da Câmara Municipal Manuel Inácio Gomes Pinheiro. Consta que o padre Evangelista teve a auréola de santo, talvez pelas suas obras caridosas e pela sua bondade para com os pobres; não possuímos no entanto dados, nem quaisquer milagres, reais ou inventados, que o possam confirmar.

     Aquando das três invasões francesas (1807, 1809 e 1810) era ele ainda um jovenzinho e delas apenas ouviria falar, tal como outros rapazes da sua idade. Os franceses nunca puseram as suas botas em terras melgacenses, porque o nosso concelho não tinha para eles qualquer valor estratégico, nem era rico ou farto para alimentar os seus famintos soldados e oficiais. A fuga precipitada da família real e de toda a corte para o Brasil não o deve ter afetado minimamente. Mas quando se deu a revolução liberal de 1820, preparada e dirigida por Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, e José da Silva Carvalho, entre outros, já ele tinha 27 anos de idade, e nessa altura sim, deve ter reagido a favor ou contra. Viveu todas as lutas liberais, a guerra civil, as mudanças constantes de governo, as vigências da Constituição de 1822 e da Carta Constitucional dada ao país pelo rei Pedro IV em 1826; assistiu, com bonomia, ou talvez não, à extinção das ordens religiosas, e ao encerramento do poderoso convento de Fiães. Deve ter conhecido perfeitamente o facinoroso Tomás das Quingostas, e talvez tenha respirado de alívio quando o informaram da sua morte em 1839.

     Nunca chegou a viajar pela estrada real número 23, depois estrada nacional número 202, e desde este ano de 1996 estrada camarária, mas assistiu com alegria à inauguração da linha telegráfica em 1874. Não teve o privilégio de beber as famosas águas do Peso, achadas somente nos anos oitenta, mas viu chegar o comboio ao Minho.

     O padre João Evangelista está ligado de certo modo à minha família, pois no dia 2/5/1861, na igreja paroquial da vila, casou Francisco Maria Gonçalves (que ficou a partir desse dia a ser padrasto da minha bisavó Albina, a quem o mesmo sacerdote batizara em 1852) com Teresa Joaquina Alves, minha trisavó. Esse Francisco Maria passou mais tarde a assinar Francisco Maria de Melo, talvez por ser filho de um homem com esse apelido, e foi o pai dos Melos «cucos» de Melgaço; Zé cuco, 1859-1920 = José Joaquim Alves de Melo (pai do Mâncio, Roberto, Vítor…); Ilídio cuco, 1866-1952 = Ilídio Cândido Alves de Melo (tem ainda alguns filhos vivos em Melgaço – Maria Julieta de Melo, nascida em 1909); Júlia cuca, 1868-1910 = Júlia da Glória Alves de Melo (mãe do António, do Gaspar “Pala” e do José “Truta”, todos falecidos); Cacilda cuca, 1875-1956 = Cacilda da Glória Alves de Melo (mãe da Aurora e do Umberto, este sogro do nosso amigo Manuel Igrejas, e esposa de José António Penha, mais conhecido por Zé Tringuelheta, célebre contador de histórias.)

     O referido pároco, a 9/4/1869, batizou também na igreja matriz a minha avó materna, cujo padrinho era o governador da praça, Luís de Sousa Gama, um liberal dos quatro costados, com sangue na guelra, o qual lutou de armas na mão contra o tirano D. Miguel, rei pela força e pela traição, verdadeira marioneta da mãe, Carlota Joaquina (1775-1830), mulher cruel, sem coração, “irmã” tardia da «megera e aleivosa» Leonor Teles, que incitando o filho à revolta e à infidelidade deu origem a uma guerra civil sangrenta que só terminou com a Convenção de Évora-Monte, na qual se exigia a expulsão do usurpador. Estávamos então em Maio de 1834. Para cúmulo da nossa vergonha, e revelando bem a hipocrisia da alta nobreza, Miguel iria receber, enquanto permanecesse no estrangeiro, a pensão anual de sessenta contos de réis, verdadeira fortuna para a época. Esta nunca lhe foi paga porque ele, uma vez lá fora, conspirou contra o governo legítimo e contra sua sobrinha D. Maria II. Em nossos dias ainda há quem queira ressuscitar a monarquia, na pessoa de um descendente do degredado. Que os ricos e poderosos o desejem, não me admiro; mas os pobres e humildes, potenciais lacaios e vítimas desse regime de elites, custa a crer! Leiam a História de Portugal desses seis anos em que reinou Miguel I e verão o quanto sofreu o povo português. Leiam também essa obra admirável de A. Silva Gaio (1830-1870), o romance histórico «Mário», onde se descrevem algumas cenas pungentes da guerra civil que opôs partidários do filho segundo de João VI à gente de Pedro IV, o rei liberal, e depois digam-me se querem de novo a monarquia, sobretudo a absolutista.

     O major Sousa Gama exerceu o cargo de governador militar de Melgaço entre 1839 e 1870, precisamente até à sua morte, ocorrida a 31/12/1870.

     Em minha posse estão fotocópias de vários documentos com a assinatura do presbítero João Sotomaior e podem crer que a letra é bonita e perfeita. Devia ser certamente um homem lido e culto.

     Depois deste arrazoado todo, faço um apelo, embora não saiba a quem: voltem a colocar a pedra tumular no respetivo jazigo – os mortos têm direito ao eterno descanso.

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1062, de 1/12/1996.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha



peleja entre Inês Negra e a Arrenegada


FESTA DO ALVARINHO
 

Há tanta gente a gostar
Da festa do alvarinho,
Presunto pra degustar,
Chouriçada, muito vinho.

 

Todos de copo ao peito,

Fazem fila pra beber;

Tudo com muito respeito,

Até motor aquecer.

 

À mesa queijos de cabra,

Curados e meia cura;

Com sabor a serra brava,

E canto de partitura.

 

Rija luta a boca trava

Pra comer salpicão cru;

É dente que já só crava

Bolinhos de jerimu.

 

Pataniscas de lampreia

- Meu petisco preferido -

Lembra-me a última ceia,

A partida do ungido.

 

Quem me dera ter lá estado,

Beber dois copos bem cheios;

Esquecer o meu costado,

Perder todos os receios.

 

Com música aligeirada,

As bailarinas gordinhas,

Cantigas à desgarrada,

Um palco todo gracinhas.

 

Não há padres nesta festa,

Já o beberam na missa;

Não há fisga, não há besta (bésta),

Só há fumeiro na liça.

 

O alvarinho escorre

Pelas gargantas abaixo…

É vinho que nunca morre

Nos tubos dum contrabaixo.

 

Que festança meus senhores,

A melhor da nossa aldeia…

Bebam, bebam, bebedores,

Ouvindo a terna sereia.

 

As senhoras também ajudam

A esvaziar uma pipa…

Como os tempos tanto mudam:

Já o dizia a velha Agripa!

 

Vem gente de todo o lado:

De Roma e de Paris…

Da batalha do Salado,

Da corte de Dom Diniz.

 

Vem malta de todo o mundo,

Cheia de fome e cansaço…

Com cara de rato Edmundo,

Matar a sede em Melgaço.

 

Vêm da pequena Suíça,

Da França e Luxemburgo;

Em busca da tal linguiça,

Da melhor que há no burgo.

 

Consomem-se dez mil litros,

Há quem diga, muito mais;

Desprezam-se pirolitos,

E as águas minerais.

 

Come-se, bebe-se à rica,

Baila-se, canta-se, enfim…

  Por divertir ninguém fica:

Marta, Carlos, Serafim…

 

Eu a beber litros d’água!

Mas que injustiça, Carmelo…

Nada apaga esta mágoa,

Esta sede de camelo.

 

Vou a Castro num instante,

Comprar um presunto belo;

Pão de centeio, espumante,

As mourinhas do castelo.

 

Vou contar-lhes a estória,

Estória d’encantar;

Que me restou na memória

Depois do sonho findar.

 

A lenda da negra Inês,

Portuguesa de nação;

Pastora de muita rês,

Mulher de bom coração.

 

Dom João veio a Melgaço

Pra reaver o castelo,

Mas o castelhano, d’aço,

Mostrou-lhe longo cutelo.

 

A luta foi longa e dura,

Parecia nunca ter fim;

Já pesava a armadura,

O futuro era ruim.

 

Inês, jovem e mui bela,

Filha amada do deus Marte,

Disse: «pra vencer Castela

É preciso manha e arte

 

Propôs ao rei uma luta,

Entre Inês e a de dentro;

S’ela perdesse a disputa

Partiriam com o vento.

 

Entre murros, pontapés,

Os cabelos arrancados,

Altos e baixos, marés,

Tecidos todos rasgados.

 

Quase por puro milagre,

Inês levanta o seu braço,

E numa voz de vinagre,

Grita: Melgaço, Melgaço!

 

E assim termina a lenda,

Daquela que vence o mal.

Dom João levanta a tenda…

                 Aqui nasce Portugal.