quarta-feira, 18 de julho de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS
(Tentativa de continuação de Os Lusíadas, de Camões)

                                                                                Por Joaquim A. Rocha






39

 Fenícios, hábeis comerciantes,

Vendiam louça de vidro, tecidos…


Tinham fama de ótimos navegantes,

Usavam cor púrpura nos vestidos…

Dos deuses e deusas eram amantes,

Nas conversas eram mui divertidos.

Melcarte era seu deus de eleição,

Protegia a cidade a navegação…

 
40

 

Os vândalos, suevos e alanos,

Vindos da Ásia e Europa do norte,

Fizeram muita guerra aos romanos,

Eram cruéis, não temiam a morte. 

Estiveram na península anos,

Mas terminou o seu tempo de sorte.  

Seguidamente vêm os visigodos,

Comandados por chefe de bons modos.

 

41

 

Os godos eram da seita ariana,

Mas converteram-se ao catolicismo;

Lutaram contra a tropa romana,

Contra Roma do imperialismo…

Foram vencidos pela mourama,

Sujeitos a severo despotismo.

Resistiram nos montes das Astúrias 

Apesar das doenças e penúrias.

42

 

No século oitavo desta era

Vieram os muçulmanos ou mouros;

Treparam no terreno como a hera,

Levaram tudo à frente como touros…

Comportaram-se como loba-fera,

Roubaram as quintas e mil tesouros.

O seu chefe, indomável Tarique,

Esvaziou silo e alambique.

 

43

 

Na nossa terra estiveram anos,

Sempre em luta contra os cristãos;

Eram os puros, crentes, muçulmanos,

Defendiam, com a vida, o islão…

Matavam os outros seres humanos

Se não respeitassem o Alcorão.

Não foi tudo mau da sua parte,

Pois deixaram-nos ciência e arte.




 

domingo, 15 de julho de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO
 
CHAVIÃES
 
Por Joaquim A. Rocha


Nota: a 1.ª parte deste texto é repetida.


PEREIRA, Petronila (*). Filha de Maria Rita Pereira (ver na vila de Melgaço), solteira, natural e paroquiana da Vila, SMP, mas moradora no lugar do Escuredo, Chaviães. Neta materna de Maria Bernarda Pereira (ver em Chaviães), a morar no dito lugar. Nasceu em Chaviães a 27/6/1860 e foi batizada pelo padre JLBC a 2 de Julho desse ano. Padrinhos: António Joaquim Rodrigues, solteiro, lavrador, residente no lugar da Igreja, e Maria Caetana da Cunha, solteira, moradora no lugar do Outeiro, ambos da freguesia de Chaviães. // Quando o militar do exército José Domingues Peres, nascido no Porto, chegou a Melgaço, na década de oitenta do século XIX, comandando uns quantos soldados, a fim de apaziguar os ânimos do povo de algumas freguesias melgacenses, que não deixavam enterrar os mortos fora das igrejas, por acharem que a alma dos defuntos só dentro da igreja, no lugar sagrado, se purificavam, engraçou com a Petronila e levou-a com ele. Moraram em Aveiro e no Porto. Geraram alguns filhos, entre eles o tenente Peres (ver, na vila de Melgaço, Manuel José Peres), nascido no Porto, mas o qual casou em segundas núpcias com a melgacense Esmália de Nazaré dos Santos Lima. // O seu marido foi mobilizado em 1917 para combater em França, aquando da I Grande Guerra. Devia ter uma patente elevada, talvez capitão, pois quando se reformou já era general. // Ela faleceu em Junho de 1929. // Nota: também foi mãe de Georgina Cândida Peres, casada com António Ernesto de Almeida, tenente de infantaria 24, e avó de Maria José de Lima Peres de Almeida (nascida a 9/10/1914). /// (*) No assento de óbito de seu filho, Manuel José Peres, e noutros documentos, diz-se que o seu nome era Petronila Cândida de Lima! Teria sido perfilhada?!   


AS MARIAS DA FONTE DE CHAVIÃES

      António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), marquês de Tomar, foi nomeado ministro do reino pela rainha D. Maria II. Empolgado com tal nomeação, quis mostrar obra. Então, faz publicar o novo código administrativo (1842), reorganiza a guarda nacional, e leva a cabo a reforma das Câmaras Municipais (1842-1843). Embora o automóvel ainda não existisse, tenta rasgar novas estradas, pois aquelas que havia, poucas, eram quase todas do tempo dos romanos! O parlamento, também ele entusiasmado, aprova três leis que Costa Cabral tenta pôr em prática: a lei da saúde (proibia os enterramentos dentro das igrejas); a lei da contribuição de repartição (obrigava à declaração dos haveres e dos rendimentos de cada pessoa); e a lei das estradas (impunha aos homens válidos quatro dias de trabalho anuais gratuitos). Os adversários de Costa Cabral, sobretudo os adeptos de D. Miguel, exilado desde 1834, entre os quais muitos clérigos, que entretanto tinham perdido grande parte do poder, que usaram despoticamente, aproveitaram estas três leis, impopulares, para derrubarem o chefe do governo. Em Março de 1846, na freguesia de Monte Arcada, Póvoa de Lanhoso, um cadáver ia ser enterrado fora da igreja. Contudo, as mulheres, jovens e mais velhas, após centenas de homilias, anos a fio a ouvirem dizer que o demo reencarnara no liberal, não permitiram que o corpo da defunta fosse sepultado no adro. Deu-se então início à revolução chamada «Maria da Fonte», que só terminaria em Junho de 1847, pela Convenção de Gramido. Os anos foram passando, o marquês deixou o governo, veio a regeneração, e com ela o fontismo. O país progrediu, parece que estávamos no bom caminho. Porém… // A introdução tem a ver com aquilo que eu vou escrever a seguir: Chaviães, junto ao rio Minho, é uma das freguesias mais antigas de Melgaço. Com uma população média de seiscentos a setecentos habitantes no século XIX, vivendo do seu trabalho agrícola e da pesca no rio, além da pirotecnia, não dava azo a grandes notícias. No entanto, aquela lei da saúde não agradou àquela gente humilde. Comentavam: «Que raio, depois de mortos sermos enterrados fora da igreja, do local sagrado, é demais! Nós não somos cães, nem gatos, temos alma.» Os padres estavam receosos: por um lado queriam cumprir a lei, mas por outro lado bem gostariam de contrariar aquela “gentalha” do liberalismo que tanto mal lhes causara. E o povo era maleável, era preciso lançar a semente da revolta; eles sabiam que os cadáveres sepultados na igreja poderiam provocar graves doenças, mas não desejavam colaborar com os políticos saídos da revolução de 1820 – isso nunca! Os anos foram passando, o conflito entre o governo de Lisboa e o poder local, sobretudo com alguns concelhos conservadores do norte do país, estava latente, mas a distância e a dificuldade nos transportes e comunicações da altura iam adiando a execução das leis nacionais. O cura de Chaviães, Bernardo António Rodrigues Passos, irmão do médico Passos, ia gerindo as suas contradições conforme podia. No dia 31/1/1885 convenceu a família de Maria Caetana a enterrá-la no adro da igreja. A população não gostou, mas as coisas ficaram por ali. Em Março do mesmo ano Ludovina Rosa também foi sepultada no adro. O povo bufava! No dia 1/5/1885 também foi sepultado no adro Vitorino José Esteves. Foi a gota de água que fez transbordar o copo. No dia 16 desse mês e ano ia a enterrar António Jacinto Gonçalves; porém, as mulheres, munidas de enxadas, forquilhas, ferros, ancinhos, e outras alfaias agrícolas, invadiram o templo sagrado, abriram uma cova no chão da igreja e ali enterraram o cadáver. O padre Bernardo limitou-se a ser um mero espectador. No assento de óbito escreveu: «… dando eu disto parte à autoridade administrativa em meu ofício de 19 do mesmo mês de Maio.» A revolta das chavianenses surpreendeu algumas pessoas, mas não todas. Sabia-se que essa lei nunca fora bem aceite na província. Enterrar os mortos fora da igreja, em espaços livres, onde os cães e porcos, e galinhas, e outros animais, andavam à vontade, passeando-se por cima das campas, levantava sérios problemas de consciência. A religião era assunto sério. A autoridade administrativa, ciente do seu dever, interveio duramente: as revoltosas teriam de se resignar; a saúde das populações, num tempo em que a higiene pessoal e coletiva deixavam muito a desejar, estava acima das crenças. Os próximos três enterramentos foram de facto feitos no adro da igreja – 14 de Junho, 23 de Agosto e 13 de Setembro de 1885; mas no dia 21 de Outubro faleceu Maria das Dores Simões, com apenas 35 anos de idade, esposa de Luís António Alves e mãe de uma menina. As “amazonas” de Chaviães, e provavelmente de outras freguesias vizinhas, armadas com tudo aquilo que apanharam a jeito, acompanharam o funeral e obrigaram o pároco a enterrar o corpo na igreja! Escreveu ele: «e foi sepultada dentro da igreja de Chaviães por causa do mulherio revoltado que obstou ao enterramento fora dela.» Nos próximos enterramentos o vigário escreveria: «… e foi sepultada dentro da igreja desta freguesia por causa retro mencionada»; «e foi sepultada dentro da igreja (…) pelo motivo retro indicado»; «… e foi sepultada dentro da igreja por causa do obstáculo já indicado»; «… por força maior obstar a ser fora.» Cansado de repetir a mesma lengalenga o abade escreveu, depois de 25/10/1886: «e foi sepultada na igreja na falta de cemitério público.» Era uma desculpa. Naquele tempo os cemitérios ficavam baratíssimos: a mão-de-obra era abundante e mal paga, os terrenos praticamente oferecidos, e as campas eram rasas; o coveiro exercia simultaneamente outra profissão. O problema residia na fé: os cristãos estavam convencidos de que a alma do defunto ficaria desprotegida, não iria para o purgatório ou para o céu caso o corpo não fosse sepultado na igreja! Com o tempo, e o avanço da ciência, as coisas alteraram-se, para melhor, os cemitérios foram murados, e no seu interior erigida uma capela, mas - apesar de tudo - o obscurantismo, a superstição, ainda andam por aí!   (Artigo publicado no jornal “Fronteira Notícias”, n.º 10, de 8/4/2005.)
 
 
 




 








 













quinta-feira, 12 de julho de 2018

LINA, FILHA DE PÃ
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
6.º Capítulo

      Lina estava agora quase com trinta anos de idade. A filha já era uma rapariguinha, mas ela poucas vezes a via. Estava com a avó e os tios, no meio rural. À medida que crescia, o seu corpo ficava mais bonito, via-se que era uma menina fina, descendente de gente afidalgada. Os seus cabelos aloirados davam ao rosto uma luminosidade fantástica, e aqueles olhos azuis, de um azul brilhante, tornavam-na quase divina, uma deusa do Olimpo. Um poeta da região, que publicava os seus poemas num dos jornais locais, chamava-lhe «a ninfa do rio Minho!» Para o vate, ela era idêntica às ninfas do Tejo, cantadas um dia pelo inesquecível Camões e outros poetas maiores.  

     Lina sentia orgulho em ser mãe daquela jovem, mas a sua liberdade, ou melhor, libertinagem, estava acima de qualquer sentimentalismo. Tornara-se fria, calculista. Tudo que fazia, obedecia a um plano gizado com paciência e rigor. Agora – 1949 –, estava em Castro da Serra, como criada de servir na casa de um solteirão, comerciante, com fama de rico. Soubera que ele precisava de uma empregada, pois a sua mãe, com quem vivera, tinha morrido havia pouco tempo. Um dia, sabendo que ele estava na Vila, por ter ido à feira semanal, foi ter com ele:
 
- Senhor Manuel: soube que anda à procura de uma mulher que trate da sua casa; se me quiser, eu não me importo de ir trabalhar para si. Levo-lhe o mesmo que levava na última patroa: 350$00.           

- Tu não tens lá grande fama, criatura, mas eu preciso mesmo de alguém que me trate do comer e da roupa. Se quiseres já podes ir comigo hoje; vou ver ainda de uns assuntos e por volta das cinco vamos lá para riba.

- Combinado, vou buscar as minhas coisas.
 
     A freguesia de Castro da Serra ficava na montanha, a uns vinte e cinco quilómetros da Vila de Melcarte, e tinha de altitude cerca de mil metros, pouco mais ou menos. Era tudo a subir, mas recentemente fora inaugurada uma estrada para lá, prometida há mais de cinquenta anos, e havia camionetas de carga que também transportavam pessoas, juntamente com porcos e galinhas, cujo convívio era pacífico. À hora marcada, lá estavam os dois.
 
- Ainda pensei que desistisses, olha que não é fácil viver na serra.

- Os lobos também lá vivem e não se queixam!

- Tens sentido de humor, mulher; espero que não te arrependas. Viveste sempre na Ribeira, onde as temperaturas no inverno são mais altas e agradáveis. Em Castro as coisas são muito diferentes: no verão, o calor arrasa; no inverno, quase que não se pode sair à rua. A neve atinge por vezes dois metros de altura, bloqueia-nos as portas, ficamos presos, como se estivéramos numa prisão!

- Hei-de adaptar-me. A vida não é fácil para ninguém.
 
     Ele estava a pô-la à prova, mas não sabia ainda com quem se metera. Lina refinara nos últimos anos; tornara-se uma profissional na arte de enganar os outros. O ludíbrio tornara-se para si uma obsessão. Quando davam por ela, já um lar estava destruído, uma família destroçada.  

     A camioneta chegou ao Terreiro, ou Praça da República, onde recolhia os clientes. Todos queriam entrar primeiro a fim de escolherem os melhores lugares. Gerava-se uma confusão tremenda. O dono da carripana recomendava prudência, não tivessem pressa, o que era necessário é que todos coubessem. Ao fim de vinte minutos estava tudo pronto para seguirem viagem, mais ou menos uma hora de caminho. A viatura ia a abarrotar. Os bacorinhos grunhiam, as aves agitavam-se, os patos e os perus mostravam a sua cabeça fora das cestas, nervosos. As pessoas iam sentadas e de pé, encostadas umas às outras, dando azo a certas brincadeiras.
 


 

- Ó tio Bernardino, veja lá se não se encosta de mais, não se aproveite, olhe que o meu namorado não vai gostar! – dizia, a rir, uma das passageiras.

- Que queres, cachopa? Não há espaço, temos que nos sujeitar a estas reles condições. A viagem também não é muito longa. Por outro lado, o teu prometido está na França, não vai saber. Esta vida tem dois dias: temos que saber gozá-los. 
 
     Os outros passageiros riam-se, tornando a viagem menos cansativa e monótona. Muitos deles nunca antes tinham andado numa viatura motorizada, apenas em burros e cavalos.
 
     Eram quase dezanove horas quando chegaram ao centro de Castro da Serra. Muitas daquelas pessoas ainda teriam que andar a pé alguns quilómetros para chegarem aos seus lares, sitos em lugares distantes da sede da freguesia. Ainda teriam, pelo menos, duas horas de luz solar, o que lhes permitia ir com alguma segurança e tranquilidade.


     O senhor Manuel pegou na tralha e dirigiu-se a sua casa, ali perto do local onde ficava a camioneta. Apesar de tudo, era um privilégio residir ali, perto da igreja, do padre, das lojas de comércio, uma das quais era dele. Vendia um pouco de tudo: mercearia, tamancos, roupa, bugigangas, o que calhava. A maior parte das coisas que tinha à venda eram compradas na Galiza, mas também comprava na Vila, embora mais caro, mas tinham outra qualidade, outro requinte. Os galegos pouca coisa tinham de interesse: apenas o pão, uma ou outra conserva, o chocolate, uns rebuçados, um ou outro licor, e pouco mais! O calçado galego não prestava, só alpercatas, fabricadas às sete pancadas, e o mesmo se podia dizer da roupa: apenas as calças de pana se aproveitavam. As bebidas nada valiam, salvo raras excepções, mas os castrejos também não eram muito exigentes, não foram criados em grandes luxos, por isso uma qualidade média baixa para eles era o suficiente.
 
um cravo a sair da concha
 

- Estamos no meu mundo, mulher. Finalmente a casa! Vais acender o lume e fazer qualquer coisa para comermos. Estou cheio de fome: não lhe rilhei quase nada durante o dia.  




- O que é que temos para a ceia?

- Temos ovos, presunto, batatas… está tudo no arcaz; e agora trago isto de Melcarte, abre e vê o que te serve, o que te dá jeito. Trata de tudo, que eu vou buscar mais um escano para depois tu te sentares. E pega este mandil, põe-no, para não te sujares.

    

        Lina dirigiu-se para a cozinha e ia vomitando – tanta porcaria! Como se podia viver assim? Nem os suínos suportariam aquele cheiro a fumo e a esterco. Aquela habitação nunca fora limpa!

 

- Ó senhor Manuel, tem sabão e vassoura?

- Tenho mulher, tenho; eu vou ali à loja buscar.

 

     A mercearia e tasca ficavam no rés-do-chão da casa. Estava tudo misturado: nada obedecia a critérios de arrumação – carvão perto do bacalhau, as vassouras perto do arroz e massa, tudo num turbilhão babélico! As moscas, e outros insectos, entravam e saíam em total liberdade, como em terreno conquistado.  

 

- Aqui tens: se precisares de mais alguma coisa pede.

 

     Ela agarrou-se ao trabalho com determinação e denodo. Pôs água ao lume, depois lavou a louça, arrumou a cozinha e fez a ceia. Desceu à loja, já era quase noite, e chamou o patrão:

 

- Senhor Manuel: a ceia está pronta; venha para a mesa.

- Já vou; deixa-me só acabar aqui umas coisas.

 

     Pegou numa garrafa de vinho e subiu. Comeu regaladamente e no final da refeição diz:

 

- Estava excelente; cozinhas muito bem. És uma cozinheira de se lhe tirar o chapéu.

 

   A Lina ficou radiante. Todo aquele esforço havia de ser compensado. Ela não fazia nada sem ser por interesse. Aquele homem solteiro, mais velho do que ela uns vinte anos, cheio de dinheiro, segundo constava, havia de repartir com ela tudo aquilo que tinha, espremê-lo-ia até ao tutano.

     O que mais estranhou em Castro da Serra foi a vestimenta dos seus habitantes, sobretudo as mulheres, vestidas de saias e saiotes de burel, e a sua maneira de falar. Acerca disso até se contava uma história engraçada, uma espécie de anedota: um homem da Ribeira, chamado João – serralheiro, ou funileiro – fora um dia ali levar uns objectos da sua oficina, que tinham ido lá parar a fim de serem consertados. A senhora da casa convidou-o a comer umas batatas, um naco de presunto, e sopa. Dirigiu-se então a uma rapariga, sua criada, que estava sentada, e disse-lhe: «Ó Rôsa! – Eu bou-me ao barbeito. O senhor Juôn se quer mais caldo que o peida. E tu, Rôsa, lebanta o cu e dá-lho    

     Estranhava também a falta de luz eléctrica e água canalizada. Aquela era substituída por candeeiros a petróleo e candeias; esta ia-se buscar ao fontanário, que não ficava longe, mas acarretar água não estava nos seus horizontes; teria de convencer o seu patrão a arranjar um rapaz possante que o fizesse.      

     A habitação possuía quatro quartos, embora pequenos, todos com camas de madeira, pequenas e mal construídas. Ao meio via-se uma sala, não muito grande, com uma mesa tosca e algumas cadeiras, já a pedirem reforma. Casas de banho não havia! Tudo cheirava a fumo, por ali. Tinha imenso trabalho pela frente até que chegasse o dia em que pudesse dizer: «está tudo ao teu gosto, Lina

 

    Em Castro da Serra, naquele tempo, não havia vida nocturna. As pessoas deitavam-se depois do jantar (ceia) e levantavam-se de manhã cedo, mal o sol rompesse. O senhor Manuel, depois de comer, foi até à sala, accionou o candeeiro, e folheou o semanário que trouxera da sede do concelho. Tratava-se do «Notícias de Melcarte», jornal que já se publicava há muitos anos.

 

- Não traz nada de jeito – resmunga.

 

     Lina ouviu aquele som estranho e foi ter com o patrão.

 

- Passa-se alguma coisa, senhor Manuel? Precisa de algo?

- Estava aqui a remoer por causa do jornaleco: não traz notícias de jeito.

- Que é que o senhor quer, não têm nada para lhe porem lá dentro. A mim não me afecta, não sei ler!

- Olha que ler faz falta, criatura. A mim tem-me ajudado muito, sobretudo nas contas. Se fosse analfabeto todos me enganavam.

- Pois à Lina ninguém engana: só quando eu quero.

- Tens pinta de esperta, isso tens, mas ler e escrever ajudava-te um pouco. Mas num ponto dou-te razão: as mulheres não precisam de grande instrução literária; têm de saber cozinhar, tratar da roupa do homem e parirem os filhos, para isso é que elas nasceram. Para as coisas maiores, de grande responsabilidade, existe o homem, o macho, a natureza dotou-o com outros saberes e habilidades.

 

   Passado um pouco virou-se para ela e diz-lhe:

 

- Eu durmo no quarto maior, vai ver se a cama está feita; às vezes vem aqui a casa a Angélica, a minha vizinha, dar uma demão nisto.

- Eu vou verificar.

 

     Dirigiu-se ao quarto. A cama estava de facto feita, mas pessimamente. Só tinha o lençol de baixo, muito sujo, e aquela roupa a cheirar a mofo.

 

- Ó patrão: não há lençóis lavados? O que lá tem precisa de uma barrela.

- Vê naquele arcaz, mulher. Tenho lá muita roupa.

 

     Ela abriu um gavetão e retirou de dentro dois lençóis de linho e uma coberta. Dirigiu-se ao quarto, retirou a roupa da cama e fez tudo de novo com a roupa que levara.

 

- Senhor Manuel, já se pode deitar.

 

     Ele entrou, olhou para a cama, e diz:

 

- Hoje não é dia de festa, mulher! Que luxo!

- O senhor merece dormir todas as noites numa cama limpa. Não se incomode que eu trato de tudo.

- Vou dormir toda a noite como um anjinho.

   

     Ela saiu pé ante pé, fingindo que ele já estava a dormir, e o castrejo gostou daquele gesto da matreira. Que sorte tivera! Por trezentos e cinquenta escudos por mês tinha arranjado uma criada exemplar: asseada, trabalhadora, e agradável como mulher; uma boa perna, uns seios bonitos, e bem mais nova do que ele… Quem sabe se não a meteria na cama uma dessas noites?

     Lina entrou num dos quartos, retirou toda a roupa da cama, foi buscar roupa lavada, e depois deitou-se. Estava extenuada: a viagem, a ceia, a limpeza, tinham-na arrasado. Quando tudo estivesse em ordem, o trabalho já seria menor.

     Adormeceu profundamente e sonhou com o seu magistrado: estavam na cama, abraçados um ao outro, beijavam-se freneticamente, viajando, inebriantes, rumo ao Éden. Chegados lá, deram de caras com Adão e Eva; ele dormia regaladamente, todo nu, apenas uma simples parra lhe cobria as partes pudendas; ela tinha na mão uma maçã vermelha, muito vermelha, que trincava com prazer e malícia. Ela olhou para os recém-chegados e, sorrindo, diz-lhes: «sejam bem-vindos ao paraíso

     Rompia a manhã quando ouviu cantar os galos. Logo a seguir o patrão levantou-se. Ela esquecera-se de um pormenor: não lhe pusera no quarto cuecas nem a camisola interior; o homem não ia vestir a mesma roupa da véspera, estava demasiado suja. Levantou-se apressadamente e foi ter com ele:

              

- Senhor Manuel: espere um bocadinho que eu vou buscar-lhe umas cuecas e uma camisola interior.

- Ó mulher, esta roupa ainda me dá para uma semana.

- Não precisa de andar com roupa suja. Espere um pouco.

 

    Tinha dado uma vista de olhos por toda a casa e já descobrira a roupa dele. Levou-lha. Ele estava deitado, à espera dela.

 

- Queres pôr-me bem cheiroso, depois as raparigas atiram-se a mim!

- Olhe que o senhor ainda rompe bem meias solas! Quem dera a muitas raparigas tê-lo no leito.

- Vou-te confessar uma coisa: já não vejo fêmea há muito tempo. Ando metido nos negócios e nem tempo me sobra para me dedicar a elas! E das rameiras fujo, por causa da sífilis.

- Pois olhe que tem perdido bastante. Os homens nasceram para dormirem com as mulheres, para terem prazer e filhos.

- Isso é verdade, Lina. Eu andei pelo estrangeiro, sempre a trabalhar, a juntar uns cobres, depois meti-me nos negócios, e esqueci-me dessas coisas.

    

     Ela aproximou-se dele, sorrindo com imensa meiguice, com aquele ar só seu, de velhaca matreira, e meteu a mão direita por entre os lençóis, à procura de qualquer coisa, talvez das cuecas sujas. Ele compreendeu o fito, entusiasmou-se, mandou às urtigas as precauções, pegou-lhe na mão e levou-a directamente ao falo. Não tardou nada que os dois corpos estivessem unidos, amalgamados, num arfar ruidoso, iniciando uma viagem semi-narcótica através do vácuo.

terça-feira, 10 de julho de 2018

GENTES DO CONCELHO DE MELGAÇO

                                               CHAVIÃES                                                                   
 
 
                   Por Joaquim A. Rocha





PEREIRA, Petronila (*). Filha de Maria Rita Pereira (ver na vila de Melgaço), solteira, natural e paroquiana da Vila, SMP, mas moradora no lugar do Escuredo, Chaviães. Neta materna de Maria Bernarda Pereira (ver em Chaviães), a morar no dito lugar. Nasceu em Chaviães a 27/6/1860 e foi batizada pelo padre JLBC a 2 de Julho desse ano. Padrinhos: António Joaquim Rodrigues, solteiro, lavrador, residente no lugar da Igreja, e Maria Caetana da Cunha, solteira, moradora no lugar do Outeiro, ambos da freguesia de Chaviães. // Quando o militar do exército José Domingues Peres, nascido no Porto, chegou a Melgaço, na década de oitenta do século XIX, comandando uns quantos soldados, a fim de apaziguar os ânimos do povo de algumas freguesias melgacenses, que não deixavam enterrar os mortos fora das igrejas, por acharem que a alma dos defuntos só dentro da igreja, no lugar sagrado, se purificavam, engraçou com a Petronila e levou-a com ele. Moraram em Aveiro e no Porto. Geraram alguns filhos, entre eles o tenente Peres (ver, na vila de Melgaço, Manuel José Peres), nascido no Porto, mas o qual casou em segundas núpcias com a melgacense Esmália de Nazaré dos Santos Lima. // O seu marido foi mobilizado em 1917 para combater em França, aquando da I Grande Guerra. Devia ter uma patente elevada, talvez capitão, pois quando se reformou já era general. // Ela faleceu em Junho de 1929. /// (*) No assento de óbito de seu filho, Manuel José Peres, diz-se que o seu nome era Petronila Cândida de Lima!    

estátua viva

AS MARIAS DA FONTE DE CHAVIÃES
 
     António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), marquês de Tomar, foi nomeado ministro do reino pela rainha D. Maria II. Empolgado com tal nomeação, quis mostrar obra. Então, faz publicar o novo código administrativo (1842), reorganiza a guarda nacional, e leva a cabo a reforma das Câmaras Municipais (1842-1843). Embora o automóvel ainda não existisse, tenta rasgar novas estradas, pois aquelas que havia, poucas, eram quase todas do tempo dos romanos! O parlamento, também ele entusiasmado, aprova três leis que Costa Cabral tenta pôr em prática: a lei da saúde (proibia os enterramentos dentro das igrejas); a lei da contribuição de repartição (obrigava à declaração dos haveres e dos rendimentos de cada pessoa); e a lei das estradas (impunha aos homens válidos quatro dias de trabalho anuais gratuitos). Os adversários de Costa Cabral, sobretudo os adeptos de D. Miguel, exilado desde 1834, entre os quais muitos clérigos, que entretanto tinham perdido grande parte do poder, que usaram despoticamente, aproveitaram estas três leis, impopulares, para derrubarem o chefe do governo. Em Março de 1846, na freguesia de Monte Arcada, Póvoa de Lanhoso, um cadáver ia ser enterrado fora da igreja. Contudo, as mulheres, jovens e mais velhas, após centenas de homilias, anos a fio a ouvirem dizer que o demo reencarnara no liberal, não permitiram que o corpo da defunta fosse sepultado no adro. Deu-se então início à revolução chamada «Maria da Fonte», que só terminaria em Junho de 1847, pela Convenção de Gramido. Os anos foram passando, o marquês deixou o governo, veio a regeneração, e com ela o fontismo. O país progrediu, parece que estávamos no bom caminho. Porém…     


     A introdução tem a ver com aquilo que eu vou escrever a seguir: Chaviães, junto ao rio Minho, é uma das freguesias mais antigas de Melgaço. Com uma população média de seiscentos a setecentos habitantes no século XIX, vivendo do seu trabalho agrícola e da pesca no rio, além da pirotecnia, não dava azo a grandes notícias. No entanto, aquela lei da saúde não agradou àquela gente humilde. Comentavam: «Que raio, depois de mortos sermos enterrados fora da igreja, do local sagrado, é demais! Nós não somos cães, nem gatos, temos alma.» Os padres estavam receosos: por um lado queriam cumprir a lei, mas por outro lado bem gostariam de contrariar aquela “gentalha” do liberalismo que tanto mal lhes causara. E o povo era maleável, era preciso lançar a semente da revolta; eles sabiam que os cadáveres sepultados na igreja poderiam provocar graves doenças, mas não desejavam colaborar com os políticos saídos da revolução de 1820 – isso nunca! Os anos foram passando, o conflito entre o governo de Lisboa e o poder local, sobretudo com alguns concelhos conservadores do norte do país, estava latente, mas a distância e a dificuldade nos transportes e comunicações da altura iam adiando a execução das leis nacionais. O cura de Chaviães, Bernardo António Rodrigues Passos, irmão do médico Passos, ia gerindo as suas contradições conforme podia. No dia 31/1/1885 convenceu a família de Maria Caetana a enterrá-la no adro da igreja. A população não gostou, mas as coisas ficaram por ali. Em Março do mesmo ano Ludovina Rosa também foi sepultada no adro. O povo bufava! No dia 1/5/1885 também foi sepultado no adro Vitorino José Esteves. Foi a gota de água que fez transbordar o copo. No dia 16 desse mês e ano ia a enterrar António Jacinto Gonçalves; porém, as mulheres, munidas de enxadas, forquilhas, ferros, ancinhos, e outras alfaias agrícolas, invadiram o templo sagrado, abriram uma cova no chão da igreja e ali enterraram o cadáver. O padre Bernardo limitou-se a ser um mero espectador. No assento de óbito escreveu: «… dando eu disto parte à autoridade administrativa em meu ofício de 19 do mesmo mês de Maio.» A revolta das chavianenses surpreendeu algumas pessoas, mas não todas. Sabia-se que essa lei nunca fora bem aceite na província. Enterrar os mortos fora da igreja, em espaços livres, onde os cães e porcos, e galinhas, e outros animais, andavam à vontade, passeando-se por cima das campas, levantava sérios problemas de consciência. A religião era assunto sério. A autoridade administrativa, ciente do seu dever, interveio duramente: as revoltosas teriam de se resignar; a saúde das populações, num tempo em que a higiene pessoal e coletiva deixavam muito a desejar, estava acima das crenças. Os próximos três enterramentos foram de facto feitos no adro da igreja – 14 de Junho, 23 de Agosto e 13 de Setembro de 1985; mas no dia 21 de Outubro faleceu Maria das Dores Simões, com apenas 35 anos de idade, esposa de Luís António Alves e mãe de uma menina. As “amazonas” de Chaviães, e provavelmente de outras freguesias vizinhas, armadas com tudo aquilo que apanharam a jeito, acompanharam o funeral e obrigaram o pároco a enterrar o corpo na igreja! Escreveu ele: «e foi sepultada dentro da igreja de Chaviães por causa do mulherio revoltado que obstou ao enterramento fora dela.» Nos próximos enterramentos o vigário escreveria: «… e foi sepultada dentro da igreja desta freguesia por causa retro mencionada»; «e foi sepultada dentro da igreja (…) pelo motivo retro indicado»; «… e foi sepultada dentro da igreja por causa do obstáculo já indicado»; «… por força maior obstar a ser fora.» Cansado de repetir a mesma lengalenga o abade escreveu, depois de 25/10/1886: «e foi sepultada na igreja na falta de cemitério público.» Era uma desculpa. Naquele tempo os cemitérios ficavam baratíssimos: a mão-de-obra era abundante e mal paga, os terrenos praticamente oferecidos, e as campas eram rasas; o coveiro exercia simultaneamente outra profissão. O problema residia na fé: os cristãos estavam convencidos de que a alma do defunto ficaria desprotegida, não iria para o purgatório ou para o céu caso o corpo não fosse sepultado na igreja! Com o tempo, e o avanço da ciência, as coisas alteraram-se, para melhor, os cemitérios foram murados, e no seu interior erigida uma capela, mas - apesar de tudo - o obscurantismo, a superstição, ainda andam por aí!      
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VENDO
          

  
Preço: 10 euros + despesas de envio.
 

 

sábado, 7 de julho de 2018

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha



volfrâmio


CASA DE MELGAÇO

 

     Fundada em Braga por melgacenses a 10/4/1984. Não tinha fins lucrativos. Desempenhou durante algum tempo um papel importante na divulgação da cultura e produtos da terra, além de promover o convívio entre os naturais residentes na cidade dos arcebispos e apoiar estudantes do concelho, etc. A partir duma certa altura, por manifesto desinteresse dos membros da direção, e pequenas questiúnculas entretanto surgidas, deixou de existir na prática. O argumento é este: «Melgaço está muito próximo, e toda a gente tem carro; em menos de uma hora está-se lá.» // Em 1993 convidavam-se todos os melgacenses para um jantar de reis num restaurante de Braga (VM 998, de 15/12/1993). / No mesmo número do jornal informava-se que a 21 de Janeiro, na Casa-Museu Nogueira da Silva, ia haver um encontro, a fim de se eleger uma Direção «que possa tentar melhorar o funcionamento da Casa de Melgaço em Braga.» Como se podia melhorar se nem sequer havia uma sala própria para os membros da direção se reunirem?! / O padre Carlos Nuno escreveu: «O jovem António José Lourenço (…) vai tentar arranjar uma lista que possa encabeçar em devida forma a revitalização de uma série de iniciativas em favor da Casa de Melgaço em Braga.» E mais abaixo: «Na reunião deste ano, notou-se um pouco a falta dos melgacenses originários de Castro e que constituem um núcleo importante e com certo poder económico» (VM 999, de 1 e 15/1/1994).
 
  Poder-se-ia perguntar: para que era necessário possuir grande poder financeiro se com quaisquer cem euros por ano (ou até menos, se houvesse muita gente inscrita) dava para sustentar a Casa de Melgaço em Braga? Quanto a mim o problema nunca foi de dinheiro, mas sim de falta de energia, de tempo, e até um resquício de rivalidades entre freguesias do concelho. / A 1/2/1994, na Casa da Cultura da Câmara Municipal de Braga, elegeram-se os órgãos sociais: Alexandre Amoedo da Cruz Lourenço, presidente da direção; cónego e professor Dr. José Marques, presidente da assembleia geral; Dr. José Domingues, presidente do conselho fiscal. A duração do mandato seria de três anos. Um dos objetivos dos eleitos era angariar fundos para uma sede, mas isso nunca conseguiram, apesar da Câmara de Braga ter cedido o terreno (ver A Voz de Melgaço n.º 1002, de 1/3/1994). / Em 1995, a fim de celebrar o seu 11.º aniversário, levou a cabo dois eventos: o 1.º, um rico jantar: nas entradas, presunto de Fiães com melão, e enchidos, também de Fiães, e a seguir arroz de lampreia, tudo regado com os bons vinhos do concelho; o 2.º, de 21 a 25 de Abril, teve a ver com a sua participação na Agro/95, no Parque de Exposições de Braga, com pavilhão próprio, onde foram expostos produtos melgacenses (presunto, broa de milho e de centeio, lampreia seca, águas do Peso, etc.) e peças de artesanato (rendas, linhos, etc.), além dos livros “Na Terra de Inês Negra” e “VI Centenário da Tomada do Castelo de Melgaço”, e jornais. Foi um sucesso, por isso prometeu-se repetir (VM 1028, de 1/5/1995). Teve um grande elogio de Luís de Castro (VM 1029, de 15/5/1995). // Contudo, por inércia, tudo esmoreceu. / Em 1996 as coisas não corriam bem: adiou-se para 9 de Fevereiro «o tradicional jantar de natal» e iam substituir-se alguns elementos da Direção. O local da Assembleia Geral é que ainda não se sabia! (VM 1043, de 1 e 15/1/1996). / Num artigo, assinado por C.N., lê-se: «Em 9 de Fevereiro, sexta, à noite, em instalações da Universidade do Minho, no Campus de Gualtar, teve lugar o jantar de convívio entre melgacenses residentes em Braga e que já há doze anos vêm tentando fazer com que a Casa de Melgaço em Braga seja, realmente, o grande foco aglutinador dos melgacenses residentes na cidade dos arcebispos.» E mais à frente: «Apesar de haver uma sede provisória em instalações da Junta de Freguesia da Cividade, à Rua de São Geraldo, 42-1.º, são muito poucos os que, à noite, frequentam a sede e convivem, trocando ideias, dando sugestões» (VM 1045, de 15/2/1996). A direção tentava fazer alguma coisa além dos comes-e-bebes, como, por exemplo, criar uma biblioteca com livros e documentos de Melgaço, mas o individualismo reinante não permitiu isso. Uma lampreiada, acompanhada de bom vinho, tudo bem; agora ajudar o concelho, divulgar as suas potencialidades, pagar uma quota mensal, isso não.
 
 
    A Casa de Melgaço participou na Agro/96. No dia 30 de Abril os sócios foram comer um arroz de lampreia à Casa do Rio, em Palmeira, propriedade do professor Peixoto, presidente da Junta de Freguesia da Cividade. Houve discursos interessantes, boa disposição, ótimo convívio. Pela noite fora ouviram-se fados e guitarradas (VM 1050, de 1/5/1996). / Nova presença na Agro/97. A seguir teria lugar o «tradicional jantar de lampreia», outra vez na Casa do Rio, Palmeira, Braga (VM 1071, de 1/5/1997). / Em Novembro de 1998, numa assembleia geral, foram alterados os estatutos a fim da Casa de Melgaço ser equiparada a Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), beneficiando desse modo de ajudas do Estado. A Câmara Municipal de Braga colocou à disposição da Direção um terreno com 3200 m2, a fim de se construir a sede (VM 1110, de 15/2/1999). / A presidência da Câmara Municipal de Melgaço «manifestou apoio total às pretensões dos representantes da Casa de Melgaço em Braga, de construir uma sede social, centro de dia e outras valências na freguesia de Nogueira.» Para esse fim disponibilizou o arquiteto da Câmara (Melgaço Hoje n.º 36, de Março/1999). / A 15/5/1999 houve mais uma reunião de associados. Primeiro estiveram na igreja de Nossa Senhora-a-Branca, Braga, onde o cónego Dr. José Marques celebrou a Eucaristia, solenizada com cânticos, acompanhados com música de órgão executada pelo padre Júlio Vaz (sobrinho). Depois das fotografias dirigiram-se para a Casa do Rio, em Palmeira, viram o esboço da futura obra, «atacando depois a ementa…»: arroz de lampreia ou prato de carne. «Os vinhos eram da nossa terra, desde o São Rosendo tinto até várias marcas de alvarinho local» (VM 1117, de 1/6/1999). / Óscar Marinho, solicitador, afirma: «Sou um dos fundadores da Casa de Melgaço em Braga que, nos anos iniciais, manteve alguma actividade, mas que hoje, por factores vários, a que não é alheio o político, caiu em letargia» (VM 1171, de 15/11/2001). / Em A Voz de Melgaço n.º 1182, de 15/5/2002, convidavam-se os melgacenses residentes na capital do Minho para irem a Alvaredo comer um arroz de lampreia, no restaurante «Pomba», a 19 desse mês. Correu tudo bem. / A 28/3/2003 houve mais um jantar de lampreia: outra vez na Casa do Rio, em Palmeira (VM 1202, de 15/4/2003). / A partir daí não se conseguiu levar a cabo mais nenhum convívio produtivo, apesar de algumas tentativas, sobretudo junto do vice-presidente da Câmara Municipal de Braga, senhor Vítor de Sousa, nascido em Angola, salvo erro, mas descendente de melgacenses, que prometeu muito mas nada fez pelo concelho de seus pais. Entretanto, o presidente da direção, engenheiro Alexandre Lourenço casou, e a nova vida de casado e pai não lhe permite nenhuma disponibilidade. // Raul Francisco Cerdeira, bancário, descendente de um senhor melgacense, grande amigo de Melgaço, dinâmico como poucos, residente na cidade de Braga, morreu no dia 6/2/2013. Os outros melgacenses a residir na capital do Minho foram envelhecendo e desinteressaram-se da Casa de Melgaço. A Câmara Municipal de Melgaço também esqueceu esse projeto. Pudera! Com tantos problemas internos por resolver. Esqueceu os soldados que lutaram na 1.ª Grande Guerra, na Guerra Colonial, a reedição das obras completas do Dr. Augusto César Esteves, a edição das peças de teatro de Vasco Almeida, a aquisição de uma cópia do filme Serra Brava, etc., mas lembrou-se dos contrabandistas, que deram uma péssima imagem do concelho, dedicando-lhe um museu! A juventude já não quer saber de tal assunto. Melgaço está a cem quilómetros de Braga, as estradas não são más, de automóvel a gente põe-se lá em uma hora. // (ver também artigo publicado na VM 1182, de 15/5/2002, página 8).