quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





MACRÓBIOS




BARROS, Belmira. Filha de António Maria de Barros, soldado da Guarda-Fiscal, natural da freguesia de Oliveira, concelho dos Arcos de Valdevez, e de Aurélia Augusta Gomes, lavradeira, natural de Prado, Melgaço, onde moravam, no lugar de Santo Amaro. Neta paterna de Antónia Josefa de Barros, solteira; neta materna de António Joaquim Gomes e de Manuela Paula Posse. Nasceu na freguesia de Prado a 26/9/1899 e foi batizada na igreja a 3 de Outubro desse dito ano. Padrinhos: José Joaquim Gomes, solteiro, natural de Prado, morador na vila de Melgaço, e Maria Carolina Fernandes, viúva, da vila de Melgaço. // Faleceu em São Paio de Melgaço a 26/12/1994, com 95 anos de idade. 

 

CALHEIROS, Bonança Delfina. Filha de Lourenço José Gomes Calheiros, do lugar de Bouços, e de Carolina Rosa Pinheiro, do lugar de Ferreiros, onde residiam. Neta paterna de José Manuel Gomes Calheiros e de Delfina Fernandes; neta materna de Luís Manuel Pinheiro e de Maria Vitória Marques. Nasceu na freguesia de Prado a 8/4/1897 e foi batizada na igreja a 14 desse mês e ano. Padrinhos: os seus avós paternos. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 9 ou 14 de Dezembro de 1925 com Manuel José Gomes de Sousa, de 23 anos de idade, seu conterrâneo, cabo da Armada Portuguesa, filho de António Augusto Gomes de Sousa e de Maria de Jesus Vaz. // Enviuvou a 4/11/1989. // Ela faleceu na sua freguesia de nascimento a 20 de Junho de 1990, com 93 anos de idade.

 

CALHEIROS, Maria Vitória. Filha de Lourenço José Gomes Calheiros, do lugar de Bouços, e de Carolina Rosa Pinheiro, do lugar de Ferreiros, onde residiam. Neta paterna de José Manuel Calheiros e de Delfina Fernandes; neta materna de Luís Manuel Pinheiro e de Maria Vitória Marques. Nasceu em Prado a 29/1/1900 e foi batizada na igreja a 6 de Março desse mesmo ano. Padrinhos: a sua avó materna e Manuel Joaquim Pinheiro, solteiro, tio materno da neófita. // Casou na CRCM a 8/8/1929 com Manuel José de Caldas, de 24 anos de idade, filho de Abel Maria Caldas e de Rosa Teresa Vaz. // Ficou viúva no dia 13/11/1984. // Faleceu em São Paio de Melgaço a 7/1/1992, com 91 anos de idade.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
antiga Casa das Almeidinhas (vila de Melgaço)
 
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CASA DO POVO
 

(I) – No livro «Padre Júlio Vaz apresenta Mário», página 217, lê-se: «Em 17/12/1905, na Praça da República, então do Comércio, abriu ao público o estabelecimento comercial “A Pérola do Minho”, de Armindo de Lourdes Lourenço, que depois se chamou “Casa do Povo”. Este estabelecimento ficava naquele prédio que hoje pertence a Hilário Alves Gonçalves. Já agora acrescentarei que no século passado esteve ali instalada por muitos anos a “Casa do Rainho”, estabelecimento que aí por 1892 foi trespassado a Feliciano de Azevedo Barroso, proprietário da “Loja Nova do Cantinho”, ao pé da Matriz, ali onde hoje se acha a loja do “Careca”.  


     (II) – Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 335, de 13/12/1936: «As Casas do Povo (…) ocupam um lugar primacial na vida rural, tamanha é a sua esfera de acção e tão longe essas Instituições podem levar aos trabalhadores rurais a influência do seu benefício. Representam elas o primeiro passo para uma assistência material, moral e cultural, às populações rurais, sempre tão esquecidas, embora dignas – como nenhumas outras – de protecção, amparo e infatigável solicitude. / Só quem está em contacto com a gente do campo pode ver e sentir a sua miserável condição social. / Não basta apenas a assistência de momento, que as classes mais abastadas lhes prestam nas horas mais graves e mais agudas da sua miséria, é necessário que através das Casas do Povo se possa tornar efectiva e obrigatória a previdência social, para que ela possa abranger todos os trabalhadores rurais. / O objectivo das Casas do Povo, segundo o decreto-lei de 23/9/1933, tem por fins: - Em matéria de previdência e assistência – obras tendentes a assegurar aos sócios protecção e auxílio nos casos de doença, desemprego, inabilidade e velhice. – Em matéria de instrução – ensino aos adultos, às crianças, desportos, diversões e cinema educativo. / Sobre progressos locais – cooperação nas obras de utilidade comum, comunicações, águas, higiene pública. / Não podem tratar de actividade política e social contrária aos interesses da nação, mas podem promover a organização de sociedades cooperativas de produção e consumo… / Os fins de previdência podem ser realizados pela criação de mutualidades, para fins de assistência. / Entram na esfera de acção das Casas do Povo os dispensários, lactários-creche, e asilos para velhos e crianças. / Quanto a fins de instrução, temos a criação de pequenas bibliotecas, escolas ou postos de ensino, tendo em vista o aperfeiçoamento profissional e uma educação que permita a obtenção dum nível social mais elevado. / Para se obter os benefícios que as Casas do Povo podem oferecer aos trabalhadores rurais basta apenas que os mesmos se inscrevam e paguem a módica quantia de 1$00. / Os proprietários rurais são sócios protectores natos, com a quota mínima de 5$00. O próprio Estado, desde que as mesmas preencham certas condições, pode dotá-las com 5.000$00… (Do jornal “A Terra”).» // Em 1938 surge no Notícias de Melgaço um artigo do capitão Luís de Carvalho a debruçar-se sobre o assunto, dizendo que era muito importante a existência de uma Casa do Povo no concelho (ver NM 406, de 24/7/1938). // Em Melgaço nunca existiu, que eu saiba, antes de 25/4/1974. // Em 1963 devia estar prometida uma aos castrejos, pois Manuel Domingues, no Notícias de Melgaço n.º 1470, de 8/5/1963, pergunta: «senhores responsáveis, onde está a nossa Casa do Povo?» // O terreno para a construção desta obra (cerca de 3.000 m2), na sede do concelho, foi adquirido em 1988. O projeto previa «salas de aula para o ensino primário, secretaria para funcionamento da Casa do Povo e Centro Regional de Segurança Social, sala de convívio, bar, biblioteca e sala de reuniões.» Os responsáveis por estas Casas são os C.R.S.S. // Num anúncio, surgido em A Voz de Melgaço n.º 1006, de 1/5/1994, do Laboratório Dentário de Melgaço, diz-se que este laboratório está instalado «Na antiga Casa do Povo – Loja Nova.» // A Casa do Povo mudara para os lados do Centro de Saúde. Os vereadores do PSD perguntavam em 2000: «Saberá a população… que existe um edifício com este nome? É um imóvel novo, onde foram gastos alguns milhares de contos… Que serviço presta à população do concelho? Por quem será gerida?..» (VM 1144, de 1/9/2000). // Em 2006 tinha um núcleo de andebol: «... vem desenvolvendo uma actividade continuada de grande mérito, competindo em diversos escalões e (…) dando oportunidade a cerca de 50 jovens de praticarem a modalidade de que gostam» (Melgaço Hoje n.º 22, II série, de Setembro de 2006). 

 

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CASA RAIO DE SOL

 

     É tutelada pelo Centro Paroquial e Social de Chaviães, com o apoio da Segurança Social. Funciona na antiga Casa dos Magistrados, sita na vila. Tem capacidade para onze crianças/jovens do distrito. Em 2008 acolheu os primeiros utentes (Revista Municipal n.º 46, de Dez./2008). 

 

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CASA DO REGO

 

    Sita na freguesia de Alvaredo. No século XIX pertencia a António José de Sousa Lobato e a sua esposa, Ana Joaquina da Rocha. Foram pais de Aires João de Sousa Lobato, casado com Florinda Gonçalves (ver, em Penso, a sua descendência).

 

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CASA DO REGUENGO

 

Sita na freguesia de Paderne. // No século XVI a Quinta pertencia a Fernando de Castro, alcaide-mor de Melgaço, casado com Ana Meneses, que a vendeu – através de um seu representante em Lisboa – a 24/3/1606, por um milhão e cinquenta mil réis, a Inácio Velho de Araújo, mercador, com fortuna angariada em negócios vários, sobretudo na Índia. Este Inácio veio viver para esta Quinta, chegando a ter algum prestígio, graças ao seu dinheiro, pois foi provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço. Como não tinha herdeiros, deixou esses bens à dita Santa Casa. // Não tardou a ser vendida de novo: o capitão Agostinho Soares de Castro Vasconcelos, detentor do hábito de Cristo, provedor da SCMM em 1673 e 1685, filho do capitão Miguel Castro Soares e de Madalena Felgueiras, e neto paterno do abade Tristão de Castro, comprou-a, a 29/9/1675, à Misericórdia de Melgaço, por 520 mil réis e um foro de oito lampreias, e depois mandou construir ali o seu belo solar, que ainda hoje nos encanta. // Em 1759 residia ali Agostinho Soares de Castro e esposa, Benta Antónia da Silva Sotomaior. // Também pertenceu a José de Sá Sotomaior, antigo presidente da Câmara Municipal, o qual, a 14/2/1868, no estado de solteiro, foi padrinho de Guilhermina Martins, nascida em Paderne dois dias antes. // Nessa Quinta produz-se alvarinho de qualidade. // O Solar nos últimos anos tem servido de Hotel (quatro estrelas).     


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CASA DOS RETALHOS

      Abriu ao público na Rua Direita, Vila de Melgaço, em 1968, frente ao Solar do Alvarinho. Era sua proprietária Maria de Lurdes Ferreira Cardoso, casada com António Domingues (Batista). Negociava em retalhos de tecido (vendidos a peso) bem como louças e plásticos, tudo a preços baixos.



sábado, 16 de fevereiro de 2019

MELGAÇO: Padres, Monges e Frades
 
Por Joaquim A. Rocha




     Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 859, de 30/5/1948, página 2, escrito por A. Freixinho: «Os Beneditinos no Alto Minho. Vinte e um anos antes do concílio de Lugo, 569, havia nascido em Núrsia, ducado de Espoleto, Itália, um homem digno da gratidão dos séculos… homem que salvou os monumentos do génio e conservou perfeito o precioso clarão da ciência antiga. A Europa, já material, já intelectualmente falando, pode dizer-se filha dos beneditinos. A Inglaterra, a Frísia, e a própria Alemanha, devem a luz da sua fé à Ordem Beneditina. À Península Hispânica aportou uma caravana destes obreiros da vinha do Senhor, procurando o ermo solitário; e - depois de percorrerem várias terras pela Galiza -, chegaram a uma planície na encosta da serra de Pernidelo na antiga Melgaçus dos romanos. O próprio cronista da Ordem Beneditina não se atreve, apesar de todas as suas curiosas investigações, a dizer-nos o ano em que o monge beneditino sulcou a terra inculta da serra de Fiães pela primeira vez.

     Estes anacoretas do deserto traziam como vestuário um hábito branco de lã com um escapulário preto. A sua mobília consistia, além do hábito, em um lenço, uma agulha, uma faca, e um ponteiro com uma tábua para escrever. A sua cama constava de um enxergão com um lençol de lã, uma manta, e uma travesseira, onde dormiam vestidos para estarem mais lestos para o ofício. Levantavam-se às duas horas da manhã para o ofício, empregando o tempo de matinas e meditação, para trabalharem seguidamente das seis até às dez horas do dia. Enquanto trabalhavam, vestiam o escapulário por cima da túnica; acabado o trabalho, despiam o escapulário e vestiam o cucolo, ou capuz, com que cobriam a cabeça.

     Estes agricultores, uma vez chegados ao deserto de Fiães, coberto de espesso mato, e arvoredo silvestre, qual outro Monte Cassino, tomaram, juntamente com a prece e a cruz, o machado, a picareta, a pá e o camartelo; arroteando a terra virgem, onde edificavam a sua primeira capela, da invocação de São Cristóvão, conseguindo adorar pela primeira vez a Jesus-Hóstia no centro daquela selva, onde outrora os povos pré-históricos haviam sacrificado as suas vítimas a Endovélico, sua divindade predileta. O beneditino, agricultor e colonizador, transformou esta vasta selva em um verdadeiro Monte Cassino, onde o aroma fétido da giesta foi substituído pelo perfume do incenso, e aos pios sinistros das aves agoureiras, sucederam o som plangente do órgão e o canto melodioso do ofício de matinas, tornando este recanto solitário em refúgio predileto daqueles que no mundo sofriam atribulações. Ali iam (atraídos pela fama das virtudes destes seres que aspiravam à perfeição; se a tradição nos não engana os primeiros cristãos destas terras com muitas léguas de distância) assistir aos actos de culto católico, exercícios de piedade e instrução religiosa. É a eles que se deve a colonização de algumas freguesias que compunham o antigo concelho de Melgaço (*). Pode dizer-se que é ao monge beneditino que o nosso Alto Minho deve a luz da sua fé.

     O mar da vida nem sempre foi bonançoso e sorridente para este mosteiro. Sofreu as invasões dos povos bárbaros vindos lá do centro da Europa, da Escandinávia e da Germânia; sofreu as invasões dos sectários do Alcorão, comandados pelo califa de Córdova, que no ano 815 o arrasaram completamente; sofreu ainda a devastação de incêndio, onde os arquivos e documentos de tantos séculos se extinguiram na ação devastadora das cinzas. E, por último, veio o século XIX com as suas luzes de petróleo descarregar o último golpe sobre o vetusto mosteiro, levado a efeito pelos enciclopedistas liberais, que o puseram em hasta pública. Foi então que o mosteiro de Fiães, depois de ter resistido à ação corrosiva do tempo, ao inimigo estrangeiro sanguinário e implacável, sucumbiu placidamente aos golpes do indiferentismo e da descrença liberal, que o reduziram a uma simples matriz de freguesia, terminando assim este farol de luz, que durante tantos séculos havia iluminado os povos destas terras e saciado a fome a tantos famintos que de todas as partes afluíam a este mosteiro                

 

 
      /// (*) Acerca do antigo concelho de Melgaço, é necessário esclarecer o seguinte: quando o primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, deu foral a esta terra, em 1183, ou logo depois, o termo era apenas composto por oito freguesias: Chaviães, Cristóval, Paços, Prado, Remoães, Rouças, São Paio e Vila (SMP). // Fiães e Paderne eram coutos e pertenciam ao concelho de Valadares; Castro Laboreiro era concelho… Somente no século XIX, com os liberais no poder, é que - através de uma reforma administrativa profunda - o termo, ou concelho, de Melgaço, passou a ter mais dez freguesias: Alvaredo, Castro Laboreiro, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Paderne, Parada do Monte, e Penso.   
     Por vezes, os colaboradores dos jornais da terra esqueciam-se deste importante pormenor, escrevendo coisas horríveis. Ainda em nossos dias, alguns castrejos não aceitam a despromoção de Castro Laboreiro e a sua integração no concelho de Melgaço. Um deles disse: «nós não somos melgacenses, somos castrejos, embora Castro Laboreiro pertença desde há mais de cem anos ao concelho de Melgaço.»       
 

    
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





ZARAGATAS

 
 

     Ao longo dos séculos sempre foram surgindo zaragatas, zangas seguidas de porrada, ocasionadas algumas por razões de lana-caprina. As autoridades tentavam intervir, acalmar os ânimos, mas quantas vezes já era tarde, pois já havia uma cabeça rachada, uma perna partida, um osso do corpo fora do sítio. A violência em Portugal começou logo no século XII: o partido de Afonso Henriques luta contra o partido de sua mãe, D. Teresa. Quando Afonso se torna rei guerreia contra cristãos e mouros. Enfim, a história do nosso país é feita também de batalhas, de guerras civis, de revoluções. Todos os problemas se tentavam resolver através de uma simples disputa ou de uma guerra prolongada. Até parece que o diálogo, a compreensão, o civismo não fazem parte do nosso dia-a-dia. Os tribunais estão sempre cheios de processos cuja causa é a violência: seja doméstica ou de outra qualquer espécie. Eu devo ser dos poucos portugueses que até agora nunca entrou num tribunal ou em uma cadeia. No entanto, tive de participar, embora contrariado, na chamada guerra colonial. O governo de Salazar não quis negociar com os africanos que desejavam a autonomia, ou independência, das ex-colónias, e o resultado foi aquele que se viu: treze anos de guerra, morrendo, e ficando feridos milhares e milhares de jovens. Estes conflitos que seguem, comparados com as guerras, são de pequena monta, quase insignificantes, mas o meu objetivo é demonstrar que os portugueses em geral não são, ao contrário do que se afirma, cem por cento pacíficos. As rixas surgem aqui e ali, por dá cá aquela palha. O ser humano, quando é contrariado, enerva-se; a seguir vem a discussão, depois a briga. Devíamos tomar, por precaução, uns calmantes, a fim de se evitarem as questiúnculas, pelo menos as desnecessárias.     
 


 

    (1907) - Nos dias 24 e 25 de Agosto de 1907, e a fim de manter a ordem, esteve em Penso, na festa de São Bartolomeu, uma força de quinze praças, comandadas pelo alferes Machado, requisitada pela autoridade administrativa de Melgaço.

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(1912) - MONTEIRO, Dinis. Filho de -------- Monteiro e de -----------------------. Nasceu a --/--/18--. // A 12/8/1912 foi condenado em processo de polícia correcional, por ofensas corporais, a vinte dias de prisão e cinco dias de multa a 200 por dia (Correio de Melgaço n.º 11).


 

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(1912) - DOMINGUES, Casimiro. Filho de José Joaquim Domingues, lavrador, natural de Paderne, e de Maria Joana Fernandes, lavradeira, natural de Penso, moradores em Barreiros. Neto paterno de Manuel José Domingues e de Marcelina Fernandes; neto materno de António José Fernandes e de Maria Joaquina Gonçalves. Nasceu em Penso a 28/9/1885 e foi batizado nesse dia. Padrinhos: Francisco Luís Domingues e esposa, Maria Rosa Fernandes, rurais, de Felgueiras. // A 9/10/1912 agrediu com um varapau, na feira do gado, Eduardo de Barros, casado, natural de Paços, causando-lhe um ferimento na cabeça, tendo de ser tratado pelo médico Dr. Vitoriano de Castro; constava que Eduardo lhe vendera um touro e agora reclamava o seu pagamento; porém, o Casimiro recusava dar-lhe o dinheiro, dizendo que o touro escornava, por isso que o fosse buscar à sua corte, em Penso, o que o vendedor achava injusto pois tinha-lho vendido na feira. O agressor, para não ser preso, fugiu (ver Correio de Melgaço n.º 19, de 13/10/1912). // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 13/11/1916 com Constança Rodrigues Torres, de vinte e seis anos de idade, sua conterrânea, filha de Anastácio Rodrigues de Lima e de Maria José da Rocha. // Morreu na freguesia de Penso a 2/3/1948. // A sua viúva finou-se a 29/10/1965. // Pai de Alexandrina e de Maria, gémeas. 
 

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(1913) - RODRIGUES, Romão. // Era conhecido por “Cândido Rodrigues”, e morava no lugar da Nogueira, freguesia de Paderne. // Juntamente com José Fernandes, morador no lugar do Convento, na noite de uma terça-feira, bem avinhados, dirigiram-se a casa de Pedro da Nogueira à procura de um seu neto, com quem Romão tivera dias antes uma altercação; como não estivesse em casa, esperaram-no; quando chega, desatam à bordoada nele, tendo de gritar por socorro. Acodem os velhotes, que já estavam na cama, os quais também foram agredidos (Correio de Melgaço n.º 34, de 26/1/1913).    

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

ANEDOTAS
 
Por Joaquim A. Rocha




Um certo político, cujo nome é muito difícil de pronunciar, presidente de um país das Américas, na noite anterior à do lançamento dos mísseis, estendido na sua longa cama, com os olhos semicerrados, diz à jovem esposa:

 - Sabes, amanhã, pela madrugada, vou mandar uns quantos mísseis à Síria.

     Ela, amuada, diz-lhe:

- Pois é: às outras mandas prendas; a mim não me ofereces nada!

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Num hospital público:

– Senhor Doutor, estou com imensas dores.

- Senhor Aníbal, o senhor esquece-se que já tem 93 anos de idade; já ultrapassou a média de vida. Os medicamentos já pouco efeito fazem no seu débil organismo. O melhor talvez seja recorrer à eutanásia; as dores desaparecem para sempre, e o céu está à sua espera.

- Ai, senhor doutor; mesmo com dores ainda gostava de viver mais algum tempo.

- Segundo a minha longa experiência, e com base nas análises, o senhor Aníbal está de malas aviadas. Quer que chame a Eutanásia?

- Convenceu-me, senhor doutor; mas ao menos que seja nova e bonita!

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       Na igreja matriz da vila de Melgaço, nos anos cinquenta do século XX, o padre Justino falava assim aos presentes:

      - Caríssimos irmãos em Cristo: jamais podemos esquecer que Maria é a mãe do Salvador…  

     Um dos ouvintes, que era meio aparvalhado, levanta a sua voz de trovão, e grita: «Sr. Padre Justino, desculpe, a mãe do Salvador é a Rosa Moucha, ainda antes de entrar na igreja ela chamava por ele: Salvador, anda cá, meu filho


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

LINA - FILHA DE PÃ
(romance)
 
Por Joaquim A. Rocha






                                                            8.º capítulo (páginas 141 a 146)


Passados uns dias, à mesa, quando comiam, diz ao patrão:  
- Senhor Acúrsio: amanhã vou sair e só venho à tardinha, por volta das sete. O jantar já ficará confeccionado; a ceia fica adiantada – às oito já estamos a comer.


- Se não é indiscrição: posso saber aonde vais?

- Vou tratar de uns assuntos meus, que não lhe dizem respeito; não se preocupe comigo.    
 

     Saiu às onze horas em ponto da Vila de Monção, junto à estação do caminho-de-ferro, e chegou à Vila de Melcarte, ao Largo da Calçada, pouco passava das doze horas. Pelo caminho a camioneta da carreira foi parando várias vezes: para saírem e entrarem passageiros, e também para o motorista e cobrador irem beber um caneco do verdinho à tasca do Orlando, que ficava junto à estrada.

     Muitas pessoas interrogavam-se: «por que será que o legionário vai fardado? Podia ir à civil e depois vestiria a farda, caso houvesse instrução ou alguma cerimónia – ele lá sabia a razão!» E pensavam em outra coisa mais comezinha.   

     O plano estava bem imaginado: primeiro ia dar uma vista de olhos pela casa da prima do ex-amante; depois ia à tasca comer qualquer coisa. Levava algum dinheiro, mas o mais certo era não lhe cobrarem nada. A farda impunha temor. Voltava à casa da futura vítima, verificava que não andava por ali ninguém, chamava-a à porta, empurrava-a para dentro, e aí cascava-lhe à vontade. Fechava a porta apenas com o trinco, a chave ficava por dentro, e esperava pacientemente que a camioneta arrancasse para Monção. Se bem o pensou, melhor o fez. Tudo correu como o previsto:
 

- Quem é que me chama?

- Sou eu, senhora Pulquéria. Venho trazer-lhe uma carta.


     A senhora pensou que era o carteiro e abriu-lhe a porta de par em par. Qual não foi o seu espanto ao dar de caras com aquela figura ridícula, grotesca. Balbuciou:


- Um legionário?! Que quer de mim?! Eu… nada sei de política!
 

     Não teve tempo de dizer mais nada. O falso milícia empurrou-a com violência e fechou a porta. Lá dentro malhou nela à vontade, com uma fúria demoníaca. «Roubaste-me o homem, agora sou eu que te roubo a vida» - gritava.

    A mulher acabou por desmaiar – estava quase às portas da morte! A malvada saiu, não antes de dar um jeito à roupa, olhou em redor, e retirou. Ninguém se apercebera daquele horrível crime, praticamente perfeito. Quem iria suspeitar dum legionário? Na tasca ninguém a reconhecera. Fumara uns cigarros a fim de alterar a voz, agora mais roufenha, e falara o menos que lhe fora possível. O seu cabelo rapado e o bigode tinham transformado o seu rosto – parecia outra pessoa bem diferente da indomável Lina.

      Estava a ficar uma profissional do crime. O seu cérebro só pensava no mal: não se comovia, não tinha compaixão por quem quer que fosse. Agora notava que se tivesse mais estudos podia ir longe; mas analfabeta, conhecedora apenas do serviço doméstico, não podia sonhar com grandes voos. Tinha de sair da casa do Acúrsio, senão até adoecia com aquela santidade toda. Fazer mal ao velhustro estava fora de questão, por duas razões fundamentais: não possuía nada que se visse e também não queria levantar problemas com aquela gente de Monção, e até com a igreja católica. Persegui-la-iam por todo o lado, caso fizesse algum mal ao “santinho”.  



 

     Os três meses que faltavam para ela poder voltar a circular livremente em Melcarte decorreram com alguma morosidade para a Lina. Entregara a farda e o seu corpo ao legionário monçanense. Afinal ela veio a saber que ele era casado e tinha filhos. Questiona-o:
 

- E não me dizias nada?! Se a tua mulher sabe, mete-se comigo, ameaça-me de morte, e eu não sou daquelas que me fico.

- Eu deixei de gostar dela, mas como casamos pela igreja católica tenho de a aguentar, pois o divórcio não me é consentido. Apaixonei-me por ti e não quero perder-te. Por favor, sê compreensiva para comigo, nunca me deixes.

- Bonito! Quando a tua mulher souber, provoca um escândalo do tamanho de um outeiro. Tenho de encontrar uma solução para este caso. Não desejo abandonar-te, pelo menos por enquanto, mas também não estou interessada em uma guerra de ciúmes. Por outro lado, não gosto de partilhar os meus amantes com outras mulheres.  
 

     Pensou no assunto durante dias. Gostava dele, era um homem na verdadeira acepção da palavra. Ainda não tinha quarenta anos de idade, alto, forte, musculoso, com uma cara bonita para o sexo masculino. Só tinha um senão: era casado e sem fortuna. O seu ofício de alfaiate mal dava para a côdea. A sua oficina, minúscula, pouco mais de vinte metros quadrados, não permitiria desenvolver o negócio – estagnara! Ela não se importaria de ser sua amásia, mesmo sendo ele casado, mas que receberia em troca? Apenas afectos, prazer, gozo, mas tudo às escondidas, em locais pouco apropriados. Não! Assim não interessava. Iria deixá-lo, que fornicasse com a esposa. Um dia, encontrando-se em uma mata ali próximo da bonita Vila de Deu-la-Deu, diz-lhe, desassombradamente:
 

- Já decidi: hoje é a última vez que nos encontramos. Penso que te paguei bem o favor que me fizeste.

- Não me faças isso: eu preciso do teu corpo, dos teus beijos, do teu amor…    

- Arranja-te com a tua mulher. Faz-lhe mais uma dúzia de fedelhos. Eu tenho mais vida para além desta.

- Se me deixas… eu atiro-me ao rio, mato-me!

- A vida é tua, faz dela o que quiseres. Adeus.

 
     E foi-se embora, abruptamente, fria como o próprio gelo. Chegara o momento crucial de mudar de rumo, de estratégia, de ambiente, de zona.
 

 

 

 


 
 
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

OS NOVOS LUSÍADAS
 



 

 16

O tabaco passou a dar dinheiro,

Luís Goes trouxe até nós a planta;

Foi ele aqui de facto o primeiro,

Mas em Espanha já ninguém se espanta.

Espalhou-se pelo mundo inteiro,

A todos agrada, muitos encanta.

Em Lisboa, a Farmácia Real,

Cultivava-o pra nosso bem e mal.

 

17

 

Tornou-se numa coisa milagrosa,

Curava tudo, até enxaquecas;

Não se dava conta quão perigosa

Era a planta dos maias e astecas…

O cheiro, o fumo, pose vistosa,

Criaram templos, crentes, novas mecas.

Desenvolveu-se a praga, o vício,

Atingindo o próprio deus Lício.

18

 

Fuma pobre, rico, remediado,

O dono das terras e seu caseiro;

Fuma patrão, esposa, e criado,

O alfaiate e o sapateiro…

Na tasca, loja, em todo o lado,

Sorvo fumo como tripa em fumeiro.

Cachimbo, rapé, ou o vil cigarro,

Provocam o aflitivo catarro.

 

19

 

Pelo sertão entraram garimpeiros,

Famintos de vis metais preciosos;

Malta sem trabalho, aventureiros,

Todos eles rudes, gananciosos.

Vendiam a alma por trinta dinheiros,

Terríveis mentes, olhos capciosos.

Ai que corja aquela, tão matreira,

Mais feroz do que a fera verdadeira!

 

20

 

E para que serviu tanto metal,

Tanto ódio, tanta vil matança?

Riqueza sem controlo é letal,

Rói em todos nós a doce esperança.

O bem sucumbe perante o mal,

A justiça falece na balança.

E não há céu que tal obra suporte,

Por isso, por sentença dá a morte.