quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha



Cartas de um castrejo

14.ª - «Senhor Redactor: cá do meu pobre tugúrio só posso vislumbrar, e através de lentes foscas, os revérberos da civilização; como o meio em que vivo carece, especialmente, do principal factor, do primordial veículo conducente a Ela, como sou daqueles que antes quebrar que torcer, e queria que a minha freguesia comparticipasse das regalias que há muitos anos fruem as demais do concelho (*), não calarei, perante a nossa Câmara [Municipal], paróquia e demais entidades que superintendem na instrução, as justas reclamações por mais que uma vez aqui feitas, com relação à deficiência do ensino. Repetindo: temos uma só escola para o ensino masculino e instalada nas piores condições higiénicas e pedagógicas, e sem o material indispensável a uma boa organização educativa; e, isto, para o mínimo de 300 crianças em idade escolar! Este facto que, à primeira vista parece normal, é um atentado grave à nossa dignidade, ao nosso progresso e aos nossos interesses materiais e morais; porque o progredir de um povo está indubitavelmente no seu grau de ilustração, e nós nem a temos nem no-la dão, conquanto a reclamemos de há muito e sejamos até capazes de maiores sacrifícios para obtê-la. Um meio, pois, para sairmos deste marasmo que, se não nos aniquila, nos não deixa progredir. Faça, a junta de paróquia, uma representação à Câmara Municipal de Melgaço, acompanhada dos respectivos recenseamentos escolares, e pedindo uma escola para cada grupo de 40 alunos de ambos os sexos. Esta colectividade decerto ouvirá o justo apelo; mas quando não, que a faça, ao menos, por intermédio da inspecção de círculo, chegar ao Ministro da Instrução. Se não der certo, pela primeira vez, sucedam-se as tentativas, que… tanto dá a água na pedra que a faz amolecer. Valeu? Castro Laboreiro, 5/5/1916.»


/// (*) Trata-se, obviamente, de um exagero, pois as outras freguesias do concelho também não tinham quaisquer regalias, ou se as possuíam eram pouco significativas. Lá diz o ditado: «onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.» É certo que a primeira república tentou melhorar o ensino em Portugal, mas a maldita guerra 1914-1918 veio estragar todos os planos dos governos para o desenvolvimento; o dinheiro destinado ao ensino foi gasto com armas, com equipamento militar, etc. // Não esquecer, também, que para Castro Laboreiro não havia estrada; as freguesias ditas da montanha apenas tinham caminhos, que no inverno se tornavam quase intransitáveis.    

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