sábado, 3 de novembro de 2018

POEMAS DO VENTO
 
Por Joaquim A. Rocha




Thanatos



Quem se quiser tanatar

Em Braga há Tanatório;

Cadeiras com espaldar,

Uma salinha, oratório.

 

Os clientes são os mortos,

Acabados de morrer;

Seus olhos estão absortos,

Mas não sentem o sofrer.

 

Os corpos vão ser cremados

Em fornos especiais;

Os ventos estão calados,

Ali não se ouvem ais!

 


 
Tudo se transforma em cinzas,

Nada do ser sobrevive;

Até os homens ranzinzas

Se calam na hora tibe.

 

Numa urninha pequena

Cabe toda uma vida;

Seja agitada, serena,

Seja curta ou comprida.  

 


 
Esquecem-se os pergaminhos,

Os doutores e engenheiros,

Os beijos, os mil carinhos,

Os casados e solteiros.

 

Na morte somos iguais,

Não há pobres, não há ricos;

Partimos do mesmo cais,

Nos cornos dos mafarricos.

 
 

O deus Hades e Thanatos

Aguardam-nos no inferno;

Descalços ou com sapatos,

No verão ou no inverno.

 

Para o céu só vão os santos,

E os pequenos anjinhos;

Cobertos com lindos mantos,

Asseados, vestidinhos.

 

Nós somos os pecadores,

Vigaristas e ladrões;

Atrevidos, caçadores,

Da arca das ilusões.


Não temos rumo nem norte,

Sempre à deriva, sem tento;

Confundimos azar e sorte,

Temos cabeça de vento.

 

Quando morrer, ó rabichos,

Não me quero tanatar;

Quero dar odor aos bichos,

Quero de novo reinar.

 

Quero estar no Purgatório,

Até ao Juízo Final;

Jogar cartas com Gregório,

Com Abel e Juvenal.



 

 

 

 

Cedo o meu lugar na barca

Que leva a alma ao céu;

Casei-me com uma parca,

Agora ela… sou eu.

2 comentários:

  1. Gostei muito destas inspiradas quadras cheias de boa disposicao. Mas, tem cuidado Rocha!... Dizem que a maquina do tempo nao pode funcionar para o passado; porem as ideias podem regredir, ate centenas de anos, como a Historia comprova. Cuidado com os teus "sacrilegios" porque, se uma qualquer moderna versao do Tribunal do Santo Oficio cai em moda outra vez, nao te quero ver tanatado, em corpo ou efigie, na pira dos teis blasfemios escritos a arder no Largo de S. Domingos! Pois, se nem as cinzas dos cristaos-novos condenados por pequenas heresias podiam ser recuperadas e metidas numa urninha, as tuas seriam requeimadas varias vezes ate restar apenas o ultimo miligrama que seria, de certeza, atirado as profundezas do inferno!...Eu sei que sabes que eu estou a brincar tambem. Um abraco de admirador.

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